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dias-tristes

Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

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Preta-velha

preta2bvelha

Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

Craca

Eu havia lido uma entrevista que o João Gordo diz que, antes de casar, passava dias sem tomar banho. Estava em casa sozinho mesmo, sem comer ninguém e tals. Lembro de ter achado aquilo um nojo e injustificável. Sem dizer que tomar banho é um prazer, então eu jamais deixaria isso de lado, certo? Errado. Não cheguei ao extremo de ficar dias sem tomar banho, mas…

 

Foi quando eu estava deprimida. Acho sempre estranho dizer “estava deprimida”. Na maior parte das vezes, falo desse passado recente com pessoas que estavam ao meu lado, e elas nem sempre faziam ideia do que estava acontecendo. Sabiam em teoria, mas não sabiam o tamanho do buraco. Como me disse uma amiga: “Olhando assim parece que faz tanto tempo, você parece tão bem! Mas há dores que só o nosso travesseiro conhece”. Outra questão é que o estava parece dar a impressão de que tudo passou. Algo como: fiquei deprimida até dia 10 de janeiro de 2015 às 11h. A depressão, sinto ainda, é como uma porta que agora eu conheço e só fica encostada. Quando acordei e não tive mais a necessidade de saltar da cama pra fugir dos meus pensamentos, ou quando fui capaz de passar uma noite sozinha sem querer morrer, soube que o pior havia passado. É essa fase que chamo de “estava” deprimida, mas nem sei dizer direito o que estou. Quero muito crer que existe um estado mais feliz e equilibrado do que o de hoje. Mas, voltemos ao banho.

 

Eu faço aula do flamenco à noite. Deve ter algum regulamento na Confederação Internacional de Flamenco (brinks, não existe nada parecido) que manda que as salas de aula de flamenco sejam todas quentes. Eu achava a da escola anterior quente, e as da nova escola são apenas um forno sem janelas. Some-se isso ao sapateado. Eu punha a minha roupa suada, pegava ônibus e voltava pra casa. Tarde da noite, eu cansada e faminta. Estar em casa não me causava nenhuma alegria e dormir cedo fazia com que o dia terminasse mais depressa. Verificava as coisas na internet, comia e ia pra cama do jeito que estava. Danese banho, ninguém estava dormindo do meu lado pra sentir. E trocar os lençóis com regularidade pra quê, também? Até economiza. Assim fiquei durante alguns meses. Aí uma certa noite – que não me dei ao trabalho de marcar – eu me deitei e senti um cheiro ruim. Era eu. E os lençóis. E, apesar do que acabei de dizer, eu os havia trocado há pouco tempo. A culpa era minha mesmo, que deitava suja. Já estava tarde e fiquei com preguiça de levantar e refazer a cama, mas deveria ter levantado porque até dormi mal. Foi aí que decidi moralizar o troço e voltar a tomar banho. Mesmo sem ter ninguém do meu lado.

Trem fantasma

Não sei se é coisa minha ficar imaginando metáforas pra vida. Oras ela me parece um sorteio, uma coisa aleatória. Em outros momentos, um videogame. Agora estou com uma dificuldade danada de achar uma imagem o que corresponde ao que eu quero, acho que a mais parecida seria um trem fantasma.

Vamos seguindo o nosso caminho. E aparecem coisas no nosso caminho, do nosso lado. Pessoas, empregos, oportunidades, perigos. Como se fossem monstros que surgem de paredes, ou até mesmo alguém vestindo uma roupa de caveira que sobe no carrinho. Depois passa. Só que essa metáfora é muito ruim, porque no trem fantasma, nunca saímos do nosso vagão. Penso em oportunidades que nos chamam que podemos seguir com elas. Aquilo tudo fica nos acenando, nos assediando, fica muito tempo na nossa vista. Digamos que é o cara vestido de caveira, fazendo de tudo pra nos ver gritar. Se dizemos não àquelas tentações, surgem outras, de outra natureza, diferentes. As oportunidades (ou os perigos) possuem o seu tempo certo.

Quando somos, nós mulheres, muito jovens, tem uma fase que os pais ficam muito preocupados. Naquela fase é possível casar com qualquer traste, aparecer grávida, largar os estudos, seguir uma seita. Na adolescência tudo pode acontecer; quando passa a adolescência, vários perigos passam com ela. Se a gente não engravida acidentalmente lá, as chances de engravidar acidentalmente depois caem praticamente a zero. Alguns trastes nos acenam insistentemente, de tal forma que parece o destino, que a gente tem que ir. Depois passa. Do mesmo modo, oportunidades de crescer, de viajar, de arranjar um empregão também nos acenam durante um certo período e depois passam. Depois que as coisas passam, sempre vêm outras, mas essas outras nunca são iguais, nunca mais são aquelas. E a gente só sabe que oportunidades novas são essas quando elas chegam. Então, pra surgir algo novo, às vezes basta esperar, não ir no que te acena naquele momento. Outra coisa surgirá, sempre surge. A vida é surpreendente.

.oOo.

Sabe uma coisa que passou pra mim? Sociologia. Tenho aqui um restinho de textos, que guardava por desencargo de consciência. A carreira acadêmica me assediou com força, eu mandei currículo tantas vezes pra ser professora, quanta gente disse que eu tinha tudo pra fazer um doutorado. Passou, não foi. Eu disse tanto não que agora não tem mais, acabou essa fase. Assumir isso de uma vez me deixa mais leve.

Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.

Fase Bob Esponja

Acho que foi depois que eu vi Onde os fracos não têm vez, no cinema, não tenho certeza. A fase Bob Esponja não foi uma decisão consciente, pensada, e sim um desejo. Fui ver Onde os fracos totalmente ignorante sobre o seu tema. Não gosto de spoilers e fujo a todo custo deles. Então sobre esse filme eu só sabia que era bom, que os diretores eram bons e o ator era bom. Cheguei lá e o filme era realmente bom, mas… que paulada. Além da violência do protagonista em si, é um filme que não faz a menor questão de reconfortar quem o assiste. Então eu assisti um filme bom e achei a experiência ruim. Talvez, pro que eu estava vivendo no momento, não era pra ver um filme daqueles. Senti, a partir daí, a necessidade de encaixar o filme bom com o que eu podia ver no momento. O problema é que desde então nunca passou a ser o momento de ver coisas pesadas. O que quer dizer que minha Fase Bob Esponja é também um atestado indiscutível que não sou uma boa assistidora de filmes. É lamentável constatar isso, uma pessoa que foi educada nos melhores filmes franceses e ficava a par de todo circuito de filmes de países sem água potável. Quem ama filmes adora a linguagem do cinema, que ele seja bem feito, que seja bem construído, que fuja do clichê – não que ele se resuma, simplesmente, à obrigação de ter um final feliz. E eu percebi, com Onde os fracos não têm vez, que preciso de finais felizes.
Minha fase Bob Esponja é, nada mais, do que a vontade de ver coisas felizes. Quero me sentir bem depois de um filme, uma série, um programa. Fujo dos me façam triste demais, que me tirem a vontade de viver, que deixem o mundo com um aspecto mais violento. Prefero rir tolamente, do mesmo modo que rio quando vejo Bob Esponja. A vida tem me parecido pesada demais pra pesá-la com a ficção. Não aguento ver pessoas morrendo queimadas no noticiário e depois ver um psicopata queimando uma vítima. Tenho até uma boa justificativa do ponto de vista da psicologia: o nosso inconsciente não sabe o que é verdade e o que é de mentirinha, o que é vida e o que é filme. Pro inconsciente, todos os sofrimentos são iguais, ele sente tudo na pele. Então, me reservo o direito de evitar o sofrimento de mentirinha, já que com o sofrimento da vida real posso muito pouco. Minha fase Bob Esponja tem me deixado tão burra e inculta cinematograficamente que dá até vergonha. Mas não consegui abandoná-la, não consigo mais me obrigar a tensões voluntárias.

Fases

Por mais que a gente queira ser racional e achar que as coisas acontecem porque acontecem, às vezes tudo acontece junto. Tem fases que são como panos pretos, e por mais que a gente se debata e faça o melhor, aquilo simplesmente não é visto. Ou até é visto, mas tudo fica pra daqui há pouco. Como o Luiz que passou anos trabalhando numa grande empresa, dessas que quando as pessoas ouvem o nome morrem de inveja e acham que é um empregão. O salário dele estava absurdamente defasado, ele ganhava como recém-formado. A situação dele era tão ruim que o próprio chefe pedia desculpas e dizia que o caso dele precisava ser revisto. Ele garantia que a aumento viria, vinha, estava vindo, mais um pouquinho de paciência. Esse vinha demorou tanto que ele mudou de emprego antes. Aí a empresa passou meses sem conseguir um substituto porque ninguém aceitava aquela merreca. Acabaram aumentando o salário e contratando dois, ou seja…

Mas tem fases também que são o contrário, parece que tudo se resolve, tudo desemperra. É como estar em mar aberto e de repente surge a praia, tão pertinho que nem parece de verdade. Coisas que você já estava acostumado, que já eram assim mesmo e deixam de ser. Eu sinto que estou vivendo algo assim, em coisas de diversos tamanhos, mas todas se resolvendo numa direção favorável. De cuidar dos meus dentes a perder peso, de visibilidade pros blogs a estar com uma professora de flamenco maravilhosa e que gosta de mim. Tenho passado esses anos como eu posso – deixando alguns problemas de lado, fingindo que não vejo outros, me conformando com várias coisas. Temperei muitos sapos e comi dizendo pra mim mesma que não tinha nada demais porque era proteína. Não é sempre que a gente olha para frente e tem uma perspectiva boa para os meses seguintes. Estava conversando com minha terapeuta, dizendo que tenho até medo de acreditar – vai dá tudo errado, de novo? Ela me disse: “Não pense assim. Agradeça e siga em frente”.

Por cima e por baixo

Quando a gente vê muito programa americano acaba descobrindo diferenças culturais sem querer. Na série Smash, o namorado da protagonista perde um cargo importante e leva muito tempo pra contar pra ela; na verdade, ela que acaba descobrindo sem querer. No Homem Aranha 3, a ruivinha namorada do homem aranha perde o papel de destaque numa peça e também demora pra contar pra ele. Aqui seria o contrário, a primeira coisa que se faz é ligar correndo pro(a) namorado(a) pra choramingar. Minha hipótese é que os americanos são tão preocupados com a idéia de loser, que a primeira preocupação seja não parecer um perdedor diante do outro, muito mais do que ser consolado. Já nós somos chegamos mesmo em coitadinhos, então não tem problema. Basta ver como gostamos de premiar quem choraminga em realitys show.

Todos esse anos de casada me mostraram que em algumas fases é inevitável que o outro estar melhor do que você. Ou pior. Por causa do trabalho, o outro é obrigado a viajar muito. Um fica sozinho em casa, comendo pão com ovo, e o outro está num hotel com piscina e sai com o pessoal. Ou um está com um grupo de amigos unido, que adora festas, cheio de assuntos, e o outro não tem ninguém pra quem ligar. São fases. Basta uma pequena mudança – de casa, emprego, faculdade, família – pra que uma pessoa se veja temporariamente expatriada, sem amigos ou coisas importantes a fazer. Isso sem falar de coisas mais graves, como um problema de saúde que pode afetar um parente que é só seu – por mais que o outro se envolva, isso não o afeta diretamente. Ser o que assiste o outro brilhando não é tão fácil de segurar. Às vezes dá vontade de fazer exigências, ter crises de ciúmes e que o outro fique em casa vendo novela também. São horas que é preciso respirar fundo e tirar maturidade de algum lugar.

Mantra

Em cada época da vida tem uma frase que a gente acredita ou fala muito, pra si ou pros outros. Muitas vezes mais pra si do que pros outros, com um significado profundo que pode não ser entendido por mais ninguém. É como um mantra pessoal. O do meu irmão é “quer fazer? Então vai fundo“. À primeira vista parece apenas é uma permissão para os outros fazerem o que querem. É mais do que isso: meu irmão não acredita muito em sublimação. Quem não vai atrás dos seus desejos acaba se tornando amargo e tenta boicotar os que não agem como ele. Melhor do que reprimir é conferir. Se tem vontade faça, vá fundo. O ir fundo implica em assumir o que se quer, abraçar vantagens e desvantagens, olhar suas questões de frente.

Durante a adolescência eu dizia muito “agora foi“. Lembro que meu namorado da época ficava enfurecido, dizia que era o cúmulo do fatalismo quando eu dizia isso. Pra mim, era uma maneira de me acalmar. Eu estava sempre preocupada em fazer a coisa certa, em não magoar ninguém, a tomar a melhor atitude diante das circunstâncias. Ser assim é viver culpado, é se torturar por variáveis que ninguém controla. Então quando eu dizia que já foi, estava dizendo pra mim que o controle das consequencias já não estava comigo. Eu tinha feito a minha parte, da maneira mais escrupulosa o possível. Dali em diante, as coisas se encaminhariam por si só e eu não deveria mais pensar no assunto.

Hoje me vejo repetindo “a vida é mais do que isso“, pra me lembrar da essência das coisas. Alguns problemas do dia a dia se tornam grandes demais, fazem perder o sono e na verdade não são tudo isso. Ou às vezes é necessário tomar uma posição, e algumas vantagens não são tão vantajosas assim quando pensadas em termos de vida – é esse tipo de pessoa que eu quero ser, é isso que eu quero pra minha vida? Então digo pra mim que a vida é mais, que tem tanta coisa lá na frente. Se esse mantra me faz recuar em algumas decisões, existe um quase oposto, que me obriga me manter depois que já dei o primeiro passo: se não aguenta, por que veio? Essa expressão é o nome de um blog, que me soou bem a primeira vez que li. Às vezes eu me meto a fazer umas coisas, e quando chego lá acho que não dou conta. Eu fico ansiosa facilmente e perco a perspectiva, o que antes me parecia claro deixa de ser. Quando calma, tenho vontade sair de fininho, mas o meu normal é querer sair gritando com os braços pra cima. Nessas horas eu me obrigo a ficar, porque eu já me comprometi. Entendo que fugir é pior do que ficar e fazer o possível, mesmo que ruim. É um mantra difícil por ser um mantra bem adulto.

Sem tribo

Costumo brincar dizendo que os amigos do Luiz são da TFP. Isso porque eles seguem o perfil básico da classe média curitibana, a qual eu pertenço apenas em teoria. Uma vez fomos encontrar dois colegas de trabalho do Luiz, que vieram com suas respectivas esposas. Era um jantar um buffet de pizza e batata suiça, então fui da maneira que me pareceu apropriada: camiseta branca, jeans, suspensórios e chuteiras. Chegando lá, as esposas – das mesma idade que eu – estavam no estilo tipicamente curitibano: cores sóbrias, terninho, lenço de seda, acessórios dourados. A diferença ia além do vestuário – esses casais achavam que filhos de pais separados se tornam alunos desajustados e futuros marginais. É ou não é uma opinião TFP?

Eu não falo sobre filhos, sobre mensalidades, sobre rotina de empresa e não mais sobre pós-graduação. O que não faz diferença no meu dia a dia, porque convivo apenas com filhas. No ballet, há poucas semanas que as meninas descobriram que não tenho 25, porque pra elas uma pessoa velha é aquela que “já passou dos seus 30”. Elas sabem que eu não leio Crepúsculo, que não farei vestibular para Dança e que sou casada. Nem o Fabuloso Destino de Amélie Poulin elas conhecem. Nós brincamos juntas, dividimos lanches, falamos da coreografia. Quando elas começam conversas de meninas, nos afastamos naturalmente. Jamais adotei uma postura de mais velha e experiente, porque não me sinto assim.

Como me sinto? Eu me sinto a própria Benjamin Button – jovem e velha, caminhando na direção contrária, vivendo coisas numa época diferente dos demais.

Amigos de orkut

1º fase: O início

Numa comunidade qualquer sobre um tema qualquer, algumas pessoas começam a chamar atenção de outras. Pela opinião, pela cultura, pelo humor, pela forma como escrevem. Essas pessoas começam a visitar os perfis umas das outras, se adicionam, trocam os primeiros scraps.

2º fase: A panela
A comunidade agora é tratada carinhosamente por uma sigla. As pessoas se conhecem pelos nomes, pelos avatares, trocam scraps intensamente e lembram do que as outras escreveram. A atividade no msn é intensa, às vezes em chat, às vezes a sós. Elas postam nos posts umas das outras, fazem referências a assuntos passados, respondem umas às outras, têm piadas internas. Outros membros da comunidade se sentem por fora e enciumados. Dizem que se formou uma panela, que eles se favorecem, que excluem os outros. Panela? Não, somos apenas pessoas com afinidades!

3º fase: O auge
Com tanta afinidade assim, as pessoas começam a planejar um orkontro. Alguém que tem um parente, que viaje a trabalho, que possa dividir um hotel. As pessoas da cidade prometem receber, facilitar, caprichar na recepção. Abrem-se tópicos sobre o assunto, quem pode, como pode, quando. Muitos porquinhos são arrebentados e depois de muitas combinações, chegamos ao auge do auge:

O primeiro orkontro
Não falte ao primeiro orkontro. Ele é lindo. As pessoas estão ansiosas e bem dispostas pra conhecer aqueles com quem conversam todo dia. Scrap, post, msn, webcam, mensagens privadas… nada mais é suficiente. Algumas pessoas já estão perdida e virtualmente apaixonadas. A expectativa paira no ar. Será fulana bonita como nas fotos? Quase nunca é – pessoalmente as pessoas costumam ter mais espinhas e quilos. Mas nada disso é suficiente pra abalar o primeiro orkontro. Nada abala o primeiro orkontro.

O primeiro orkontro vai durar muitas horas e ninguém vai lembrar de comer. São muitas histórias pra contar, pra relembrar, pra esclarecer. Aquelas coisas que você ria sozinho na frente do computador finalmente podem ser compartilhadas com quem sabe o que aquilo significou. Os casais finalmente ficam juntos. Pessoas que eram apenas fotos tornam-se reais. Os que moram na mesma cidade tornam-se amigos. Todo mundo sai torto de tanto rir. E ao voltar para o orkut, tudo se torna muito mais interessante.

4º fase: A decadência
É difícil dizer quando isso começa. Às vezes começa nos próprios planos para o orkontro, que deixam alguns de fora. Outras vezes magia se quebra depois de ver a pessoa por detrás do perfil. O fato é que as pessoas ficam menos tolerantes. A distância e o amor à distância começa a desgastar os casais. A panela se divide em panelas e as pessoas que moram na mesma cidade têm vantagens sobre os que moram longe. Segredos vêem à tona. Brigas. Ninguém quer que a magia acabe, todo mundo luta pra manter o grupo unido. Mas o fato é que num segundo orkontro as coisas não são tão legais.

5º fase: O fim
Os casais se separam e as pessoas tomam partido. Os posts já não são os mesmos; as pessoas se conhecem tanto que uma frase mal colocada pode soar como uma indireta. Com o esfriamento da comunidade, os assuntos em comum diminuem. Não há renovação e a chance de formar uma nova panela são mínimas. O passar do tempo mostra o lado B das pessoas e amizades se rompem. Daquele grande grupo de amigos, sobram alguns com quem realmente se conversa e uma grande quantidade de passado na friendlist.