Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

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Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

Velhos, feios e amados

cachorro velho

Eu nunca tinha acompanhado o envelhecimento de um cachorro como agora. Nós tivemos o Flock, que morava com meu pai, e ele havia se acostumado a passar mais tempo fora do que dentro de casa. Eu lembro quando meu irmão me disse, por telefone, que o Flock havia morrido. Lembro de ter sentido muito, mas pra mim foram umas férias que ele estava lá e outra que ele nunca mais esteve. Sempre me deu um certo calafrio as fotos dos cachorros com os olhos azulados. Os donos falando no diminutivo e com carinho de cachorros já tão feios, acabados. Agora que tenho uma velhinha em casa, não sei dizer se ela já chegou no estágio de alguém olhar uma foto e se sentir mal, acho que ainda não. As fotos são porque nós, donos de cachorros, só vemos ali o nosso filho peludo muito amado. Quando um cachorro deixa de ser louco, se divertir com tudo o que aparece pela frente e disparar frente a qualquer provocação, passamos a amá-lo ainda mais do que antes, porque tomamos consciência de que cada dia a mais com ele um presente. Vemos ali uma história.

Eu me pergunto que hiato tão grande de amor é esse que nos faz amar cada vez mais um cachorro velhinho e fugir de pessoas velhas. De fotografar a decadência do cão com a maior naturalidade e lutar contras as marcas do envelhecimento humano com todas as forças. De trocar quem tem uma longa história por um “modelo” mais novo, que não terá nem tempo de formar tanta história com você. Enfim, como o coração pode ser tão enorme para com uma espécie diferente e cheio de barreiras, até mesmo de ódio, com aquele que nos é igual.

Eficiente, adulta e guilhotina

nurse ratched

Já aceitei que talvez seja inevitável que a Dúnia precise usar o cone da vergonha uma vez por ano, no verão. Mesmo com o anti-pulgas, talvez por ela viver fora de casa, algum bicho a morde e ela não deixa a ferida cicatrizar. Eu me sentia tão mal em colocar o cone que a mimava mais, e ela em pouco tempo percebia e começava a ficar manhosa, me deixava totalmente sem autoridade. Como não se derreter com um cachorro que fica o tempo todo acertando sua perna com um plástico duro porque sempre tenta chegar perto, roça o cone na parede e no chão quando se movimenta, precisa ficar com a casinha sem teto senão não dá pra entrar. Eu também acabava tirando o cone antes do tempo, quando não estava totalmente cicatrizado, o que fazia com que ela voltasse a abrir a ferida, e eu tinha que colocar o cone de novo. Uma vez de tanto colocar e tirar acabei estendendo a situação por um mês, ela ia passear e andava ondulando, estava até com a percepção espacial alterada. Agora não: enfio a mão nos pelos da ferida, mesmo ela se esquivando. Cortei a parte dura, onde está o sangue coagulado e casquinha, verifiquei que ainda tem mais o que cicatrizar. Tudo com precisão, apesar dos protestos dela, apesar de ser chato, apesar de morrer de dó. Estou como uma enfermeira ultra-experiente que não se comove mais. Sempre achei tão bonito e procurei ser uma pessoa em contato com seus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que amadurecer é ficar implacável, ser capaz de ignorar o primeiro impulso e se preciso infligir dor, a si mesmo e/ou no outro, em nome do correto. Como se a gente fosse bisturi. Ou como quando você fica sabendo que a guilhotina foi considerada extremamente humanizadora na sua época, porque matava de maneira rápida e eficiente. Ou como quando você percebe que é mais fácil nem começar a chorar. Como endurecer por fora e continuar suave por dentro, como adultecer apenas o suficiente para não se partir em mil pedaços em contato com o mundo?

Inimigos ocultos

inimigo oculto

Sempre achei meio paranoico existir um pedaço do mapa astral (eu sei que vocês odeiam quando eu falo de astrologia, calma que já acabou) que trata dos inimigos ocultos. Nem todos têm inimigos, muito menos ocultos, porque nem todo mundo tem uma vida pra isso, eu pensava. Se você ocupa um cargo importante, disputa comissões e etc, tudo bem, mas se você é uma velhinha que frequenta apenas a igreja perto de casa? Pois bem. Um dia encontrei na rua uma senhora cuja história eu já havia contado aqui, ela e seu cachorrinho. Eu passei por eles, ela ofereceu o cachorro pra eu fazer carinho e ele se esquivou. Ela ficou sem graça. Eu também sou dona de cachorro e sei bem como é. “Ele não era assim, ele se dava bem com todo mundo!”. Eu lhe disse que era assim mesmo, que no começo eles eram todos chegados e depois iam escolhendo seus humanos preferidos e que um dia ele iria gostar apenas dela. Os olhos dela brilharam quando eu disse isso. Aí ela me contou toda a rotina dos dois, que se mistura desde o despertar e vai até à noite. Eu passo na frente da casa dela e a vejo falando, brigando, o cachorro late de volta, aquele grude. Eu tive que dar a ela a dica de que é possível sim pegar táxi com o cachorro, que basta ligar pro número do táxi e especificar que vai com um. Que eu precisei fazer isso com a minha. Isso porque ela havia acabado de me fazer descobrir que é possível sim ter inimigos ocultos sendo uma velhinha que só vai pra igreja: uma vez ela encontrou o cachorro comendo alguma coisa estranha que achou no quintal. Ela desconfiou e quis tirar dele. Minutos depois o cachorro estava morrendo, havia sido envenenado. Ela não tinha como levar o cachorro por ser sozinha (por isso a dica) e a veterinária lhe deu todas as indicações por telefone.

Naquele dia ela estava justamente saindo da missa, roupas muito simples e um terço enfeitando o pescoço. É uma paróquia relativamente grande e me parece que sou uma das poucas pessoas da região que não vai. Outras pessoas saiam da igreja, conversavam, a cumprimentavam de longe. Nós nos despedimos e eu não conseguia pensar que alguém ali era o inimigo oculto de uma velhinha que tem num cachorro a sua única fonte de afeto.

Pessoas, cachorros e indiferentes

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Eu entrei há poucos dias num aplicativo que é tipo um karaokê. Tem opção paga e você canta o que quiser. Na gratuita, que é a que eu uso, só se pode entrar pra cantar na música dos outros. Mal estou lá e já me apeguei às pessoas. Tem um que fala “éramos todos jovens” antes de cada música, na sua maioria da Jovem Guarda. Tem o japonês louco e deixa tudo com ritmo de rock e a gente se esgoela. Tem o rapaz sexy. Tem o de inglês péssimo que escolhe músicas dificílimas, que eu nunca me proporia sozinha, e a falta de pudores dele me estimula. Assim como tem gente tentando cantar bossa nova e é interessante perceber quais as partes difíceis para outras línguas.

Tem os cobradores do tubo que se revezam. Tem os vendedores Manassés. Nunca mais encontrei a médica que vai conversando até o hospital, sempre reclamando. Tem a mulher que sempre puxa papo com a mais madame que encontra no ônibus. Os papos dos universitários. O pessoal que desce na favela. As pessoas que têm problemas de locomoção e atravancam toda saída. As mulheres que riem alto no ônibus de manhã cedo. Adolescentes barulhentos. Riquinhos de GPS. O cobrador politizado que vai conversando com o motorista até o terminal. A maluca com problema nos olhos.

Humanidade se acha grandes coisas, mas somos igualzinho cachorro: basta fazer algo juntos que cria laço.

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Quando vejo notícias de pessoas sem médico ou queimadas pelo preço alto do gás, sempre me esforço pra pensar no pessoal do ônibus. Tenho visto tanta indiferença e tenho medo de ficar assim, de perder a minha humanidade. Vejo e penso que se não faria pessoalmente a nenhum deles, então não posso deixar fazer a outra pessoa apenas porque não está sob meus olhos. Nenhum sofrimento humano deve ser pouco, ninguém pode ser reduzido a uma estatística.

 

Cachorros e crianças

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Eu tenho duas amigas que tiveram uma fobia por cachorros que agora está se transformando gradualmente numa tolerância. Elas sofrem muito. A minha vizinhança tem pelo menos três cachorros de rua e alguns que são criados meio soltos – hábito que me deixa com medo quando passeio com a Dúnia, mas sou obrigada a compreender porque meu cachorro durante a infância, o Flock, também era desses. Mas o que eu acho mais chato por elas é a pecha de pessoa cruel que quem não gosta de cachorros pode ter. Eu não as julgo dessa maneira porque tenho o mesmo problema por não ser fã de crianças. Acabo desenvolvendo um carinho muito grande pelos filhos dos meus amigos; quando imagino se um dia uma criança possa ser uma versão de um dos meus irmãos, já amo só de pensar. Mas meu amor por criança é assim, condicional. Sento o mais longe que posso perto delas em lugar público, julgo severamente os pais que levam crianças pequenas para espetáculo e não se retiram quando elas estão chorando. Eu só entendi o amor imediato que algumas pessoas sentem por criança com o amor por cachorros que a Dúnia abriu no meu coração. Estávamos passeando e o vizinho estava com um cachorro de seis meses, do tamanho da Dúnia, e fiquei doida com a cara de bebezão que ele tinha. Já fui de gostar de cachorro pequeno, os que lembram pelúcias, hoje adoro cachorro com cara de cachorro mesmo. Assim como os doidos por criança, quanto mais eles são eles mesmos, mais legal eu acho. Me mostra vídeo de cachorro uivando, batendo as patinhas no chão de ansiedade, apoiando-se nas patas da frente com a bunda empinada para trás, pegando a bolinha, enfim, qualquer gesto bem normal de cachorro, e eu vejo tudo e me derreto. Cachorro pintado de rosa, andando em triciclo ou imitando um humano ao andar de pé sobre as patas traseiras – detesto. Essas coisas podem fazer mal a eles e bonito é cachorro sendo ele mesmo. Hoje eu sei entender a profunda sabedoria que tem na umbanda ter uma linha de crianças, e que ela é a mais poderosa para limpar ambientes: coloca uma criança (ou um cachorro) num lugar e veja ele ficar automaticamente mais leve.

O ciclista, o dono e a florzinha

flor cabelo

O ciclista pelado: É através do ciclista pelado que eu sei se estou atrasada ou não. No horário ideal, ele está passando na frente da minha casa quando estou saindo. Algumas dessas vezes, eu também estou ciclista. Claro que ele não anda literalmente pelado, não é o Oil Man – pra quem não é daqui, informo que o Oil Man circula pelo centro. O ciclista pelado é um rapaz comum, de barba, na faixa dos seus vinte anos que passa por aqui todos os dias, acredito que a caminho do trabalho. Eu me refiro a ele como pelado porque muitas vezes a temperatura está abaixo dos dez graus, eu mesma pedalando com duas calças, casacos, corta-vento e balaclava, e o sujeito está de bermuda. Pelado.

O dono de pet que odeia falar de cachorro: Antes eu comprava ossinhos pra Dúnia numa loja no centro, mais barata, mas como não passo por ali com frequencia suficiente, tive que me contentar com uma pet um pouco mais cara aqui da região. Circulando por ali, ficam sempre três lindos pastores alemães entediados. Outra coisa muito característica é que sempre tem um problema na conexão, no computador ou sei lá o que, então ele precisa anotar meu cpf na mão. Talvez seja pelo fato de ouvir as mesmas coisas o dia inteiro, mas sempre tentei falar qualquer coisa sobre cachorro -nada sério, papo de balcão- , o cara não apenas me ignorou com só faltou fazer cara de tédio.

A senhora sorridente que gostava de acessórios no meu cabelo: Essa me fez perceber o quanto somos influenciáveis pelos elogios. É a loja onde gosto de comprar a granel. Tinha duas funcionárias, e a mais velha era uma senhora simpática que ficava muito feliz em me ver. Conversávamos sempre. Um dia fui com uma fivela de uma florzinha branca no cabelo e ela ficou encantada, me achou linda. Outro dia também, com uma flor vermelha; na terceira vez não estava usando nada, ela não me elogiou. Quando me dei conta, eu me programava pra sempre colocar um acessório no cabelo quando passava na loja. Um dia fui lá, de flor no cabelo, estava a outra funcionária e duas adolescentes em treinamento. A senhora sorridente se aposentou. Nunca mais passei lá de florzinha.

Curtas sobre c e r t a s p e s s o a s

suave na nave

Meio o de sempre: feliz, fotos sorrindo. Terminou com o namorado: indiretas motivacionais. “Dê a volta por cima”, “não fica do meu lado quem não me merece”, “eu sou como a ventania que não pode ser contida”, etc. Até que eu entendi que é uma tentativa de convencer a si mesma. Força aí.

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Eu adoro vídeos de cachorros e a progressão geométrica das redes sociais faz com que eles apareçam no meu facebook, no meu whatsapp, que eu seja marcada por amigos. Mas tem uma pessoa que me manda vídeos de cachorro que não apenas me desagradam como me irritam. Num deles, um cachorro pedalava uma mini-bicicleta. Tentei avisar que amo cachorros sendo cachorros e detesto quando os obrigam a comportamento de circo. A pessoa não entendeu, atribuiu minha queixa a um dia de mau humor e continuou a me mandar.

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Sem dúvida, não é uma pessoa egoísta. É até uma pessoa do bem. Mas eu me perguntava o que havia de errado, havia algo de irritante. Seria a riqueza, seria achar que sua família é melhor do que as outras? Não era explicação o suficiente. Até que, na roda, uma comentou que havia feito vários exames, porque vinha sentindo dores. Aí a pessoa emendou: “eu fiz todos os exames recentemente, fiz ressonância, fiz contagem de células, eu estou ótima, super saudável!”. Ou seja, é a versão contrária da pessoa que compete em desgraça.

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Eu não consigo ver encontro com pessoas do passado, tipo reunião da turma de 1900, que a gente não vê há anos, como desprovida de competição. Não consigo, lamento. Se fossem pessoas afins, o contato não teria se desfeito. Tive uma prova dessa teoria quando estava me preparando para cumprir a obrigação de falar com uma pessoa que eu sei que não está bem. Quando chegou o momento, recebi uma mensagem curta e política, um “obrigado, beijos”. Não adianta, a pior coisa do mundo é responder “e aí, como estão as coisas” quando algumas delas simplesmente não têm solução.

Um dia sem cachorro

banho e tosa

Em si, o banho da Dúnia já leva umas duas horas. Ela tem pêlo grosso, daqueles que fica difícil encontrar a raiz. Mas eu tenho um acordo com a pet, que a busca cedo e a deixa em casa na última entrega do dia, para que eu tenha um dia inteiro sem ela. É o dia da grande limpeza. Foi a solução que eu encontrei para não ter que deixar a Dúnia presa na corrente durante horas, pra depois acabar pisando numa pocinha mínima de água e deixar tudo com marca de patas. Atualmente ela possui quatro folhas de tapetinho de yoga e três enormes travesseiros com fronhas pretas dentro da casinha. Tudo vai pro sol, tiro os pêlos, lavo a casinha, as tigelas, as manchas no azulejo, esfrego o chão, tudo o que se possa imaginar. Só quando ela está fora, eu percebo o quanto a minha rotina leva a Dúnia em conta – de olhar sempre para fora para ver o que ela está fazendo, de colocar uma música quando trabalho na sala para que ela não pense que vamos sair, ter que fazer correndo outra coisa quando percebo que dei um alarme falso que vamos sair, estar sempre consultando o relógio para não perder o horário dela. Eu me sinto como aqueles pais com folga dos filhos. É dia de deixar a porta da sala aberta, não me interromper pra sair, fazer tudo em silêncio e na hora que eu quero. Mas, tal como os pais com folga dos filhos, só tem graça porque é rapidinho. No final do dia ela chega perfumada e cansada, e eu me derreto porque ela está de lacinho.

O novo

dicas-para-seu-cachorro-ser-mais-saudavel

Se hoje não tem quase nada perto de onde eu moro, quando eu me mudei tinha menos ainda. Havia dois pequenos comércios aqui perto e já fecharam: um mercadinho (onde eu comprava ovo) e uma sorveteria. Eu passei duas vezes na sorveteria. Era uma casa simples, com um pequeno balcão na garagem. A gente passava pelo jardim e era atendido por uma senhora. O preço era bom, mas o sorvete é de uma marca bastante popular aqui e muito dura, e acho ele tão ruim que prefiro não tomar sorvete a ter que pedi-lo. Quando um dia passei na frente e não tinha mais placa de sorvete, não liguei.

No inverno, tenho que fazer toda uma manobra com a Dúnia. Ela se tornou friorenta com os anos e por causa dos pelos não se pode deixar cachorro com roupinha o tempo todo. Imagine como isso é complicado quando a temperatura está perto de zero graus há dias. Eu acostumei a Dúnia a me deixar tirar a roupa dela pelo menos pra passear e mudo o trajeto para passarmos no sol e ela se expor um pouco ao cálcio. Num desses passeios, encontrei numa esquina a senhora que vendia sorvetes. Ela não lembrava de mim. Ela me contou que fazia um bom dinheiro vendendo sorvete em casa, que tinha um cliente que vinha de carro todo final de semana comprar pelo menos uns dois potes. Um dia ela atendeu dois adolescentes e no dia seguinte eles vieram para assaltá-la. Estavam marmados. Levaram o pouco dinheiro que ela tinha, potes de sorvete e por pura maldade atiraram no vira-latas dela, que era calminho e estava no seu canto. A parte do cachorro foi que realmente acabou com ela. Depois ela até tentou vender sorvete com o portão fechado, mas aí a clientela ficava com vergonha de bater, e ela mesma já tinha perdido toda alegria. Ela caiu em depressão com a morte do cachorro. De vez em quando, pra não ficar doente, ela se obrigava a andar na rua e pegar sol, exatamente como estava fazendo naquele momento.

Carnaval 2018. Depois de uma segunda chuvosa, terça eu consigo levar a Dúnia para passear. Normalmente passamos ao lado de um grande muro, para não atiçar os cachorros do outro lado da rua. Mas, mesmo assim, eles estão latindo muito. Olho na direção deles e eles estão latindo para alguém passando perto deles. A pessoa vai se aproximando e vejo que está com um cachorro. Se aproxima mais e vejo: um filhote lindo de morrer, branquinho de pelo curto e uma mancha marrom num dos olhos. Ele é agitado e feliz como apenas os filhotes de cachorro podem ser. E quem o leva é a senhora do sorvete, feliz da vida. Ela acena pra mim e diz: “Temos que levar nossos bebês pra passear, né?” Não consigo dizer de outra maneira: Deus abençoe que deu aquele lindo filhote a ela. É a vida que renasce.

Livro natural

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Depois que chove e finalmente consigo tirar a Dúnia de casa, já sei que me espera um passeio mais demorado do que o habitual. Parece que a chuva abre possibilidades novas e ela se atira sobre os matinhos e cantos com mais entusiasmo, como se ali estivessem informações novas e deliciosas. Talvez a Dúnia já esteja bem ceguinha e eu nem sei, porque ela sempre foi um cachorro olfativo. Trajetos longos nada significavam pra ela se não fosse possível parar a todo instante para cheirar. Antes essas paradas me deixavam impaciente depois comecei a pensar que, visto de fora, também não tem o menor sentido que eu coloque diante do meu rosto uma tela branca cheia de fileiras pretas e fique parada. Ficar deitada na casinha e latir para quem passa é apenas a parte visível do universo da Dúnia, a parte que tenho acesso. Também tenho visto os chefs, e qualquer matinho eles já colocam na boca, provam as coisas cruas, pegam o camarão que foi pescado na hora, arrancam a cabeça, descascam e comem aquela carne transparente. Eu só consigo pensar numa água saindo da torneira, meia hora de molho com um pouco de água sanitária, quem sabe uma panela cheia de óleo quente. Claro que é nisso que eu penso, eu já coloquei alecrim em molho sugo e só soube que fica ruim porque comi. O dom que eu tenho é o de vir aqui e contar essas coisas, e contar tantas coisas, pequenas e fugidias, que vocês se iludem de que elas são mais importantes do que as de outros. Assim como o que sabe matemática vira o sabichão no colégio, o domínio da linguagem escrita dá a poderosa sensação de inteligência. Eu adoraria poder penetrar na magia do cheiro dos matinhos molhados.

Durona

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Eu não sei que horas a Dúnia dorme, ela está sempre acordada quando eu vou dormir, por mais tarde que eu vá pra cama. Agora, mais velhinha, o horário dela de acordar é pra lá do meio dia. Quando saio de bicicleta, às 7h, está bem mais cedo do que o horário dela. Eu acordo, vou até a cozinha pra um café rápido, volto pra terminar de me arrumar e saio. Principalmente no inverno, quando eu abro a porta, a Dúnia me olha com cara de sono dentro da casinha, aproveito pra fazer o carinho que ela normalmente não deixa e lhe dou um ossinho. O que ela não sabe é que, às vezes, enquanto estou tomando meu café, eu a vejo da janela da cozinha, sentada com o ouvido colado à porta da frente. Em algum momento, entre o café e terminar de me arrumar, ela volta pra cama e fecha os olhos pra me convencer que esteve lá todo o tempo.

Minha Dudu

minha dudu

Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Curtas de amar é voltar

amar é voltar

Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.