O troco

Eu não sei quem começou com a história, o fato é que aquelas garrafinhas geladas se tornaram uma mania lá na Dança. Elas eram coloridas e dentro tinha um tubinho que devia ser deixado no congelador. Depois, era só encaixar de novo na garrafa e a bebida ficava gelada por horas. Na Track Field era caríssima, mas em alguns lugares ela era apenas cara. Cada dia alguém aparecia com uma cor diferente, mas eu não estava convencida. Até que uma amiga, tão viciada quanto eu, deixava o matte leão congelando a noite inteira e tirava de manhã. À tarde, na hora da aula, o matte estava numa temperatura ótima. Foi o argumento final, eu precisava de uma garrafa daquelas.

Uma das meninas, que estudava na federal, disse que a achou a tal garrafa mais barato, numa lojinha de lingerie. Lá custava quarenta e poucos reais. Encomendei. No dia combinado, ela me trouxe a garrafa, me mostrou a nota fiscal e eu lhe dei uma nota de cinquenta reais. Ela me disse que no dia seguinte traria o troco. Fiquei bem tranquila e no dia seguinte estranhei quando ela apenas me cumprimentou e não veio falar comigo. Achei que ela viria no outro dia e também não veio. E no outro, e no outro, e assim a semana acabou. Segunda-feira e ela continuava a não tocar no assunto. Resolvi relembra-la, discretamente, de que eu ainda não tinha recebido meu troco. Ela falou um “ah, é” tão sem convicção, que vi que ela que não estava nem aí pra isso. Pedi mais duas vezes e um mês inteiro se passou.

Não preciso explicar que o problema não era o dinheiro em si e sim cara de pau da sujeita. Depois de um mês, estava na cara que meu troco virou comissão. Se ela não via nada demais em ficar com o meu dinheiro, certamente também não se importaria se as outras pessoas soubessem disso… Comecei a contar a história da garrafinha nos grupinhos de conversas. O que não era difícil, porque todo mundo vivia elogiando a garrafinha, querendo saber onde eu comprei, quanto custava – “custa quarenta e poucos, mas eu dei uma nota de cinquenta pra Fulana há mais de um mês e ela não me deu o troco”. Contava a história tal como tinha acontecido, sem atribuir nenhum adjetivo ao que ela fez. Eu sabia que as próprias pessoas se encarregariam de classificar essa atitude e fariam com que a má fama chegasse ao ouvido dela.

Poucos dias depois, eu estava me trocando no banheiro, lotado (imagine, um banheiro comum para uma centena da bailarinas). Ela veio teatralmente até mim e falou de maneira alta e clara: “Aqui está o troco da sua garrafinha. Já faz tanto tempo e você deve estar pensando que eu queria ficar com o troco. Mas não é isso – eu sou muito distraída e esqueci. Você deveria ter me cobrado.”

E cobrei.

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A mulher, o ballet e o marido

A velhinha atacou novamente. Ela estava conversando com outra mulher, na faixa dos seus cinquenta anos, enquanto esperava a aula:

Velhinha – Você ainda é uma bailarina, ainda tem corpo de bailarina.
Mulher– Eu fiz ballet durante muitos anos. Tive que parar porque não dá pra ganhar dinheiro com ballet.
Velhinha – Dá sim, ballet é muito bom!
Mulher– (irritada) Onde é que dá que eu não sei?
Velhinha – Ballet é muito bom, dá muito lucro. Você fica com o corpo bonito pro marido.
Mulher– (irritada) Ah, tá. É que não é disso que eu estou falando.
Velhinha – Mas é o que importa. A minha vó sempre dizia, e ela tinha razão: a mulher é o ornamento do homem!
Mulher– (indignada) Eu não penso assim. Minha irmã que diz que a gente tem que é ser um pouco egoísta, pensar primeiro na gente, no que nos faz bem, pra daí…
Velhinha – É isso o que a modernidade diz. Mas está errado. A mulher tem que ser o ornamennnto (as mãos se abrem no ar, formando um círculo) do homem.

Antes da tréplica, elas foram interrompidas e a conversa acabou. Uma pena.

Carona

Da minha casa até o meu ponto de ônibus dá bem mais do que cinco minutos, andando rápido. Boa parte desse trajeto é de subida e eu passo por quatro construções civis. Mais ou menos nos mesmos horários e dias da semana, eu enfrento heróicamente a subida logo na frente da minha casa, porque não tem outro jeito. Um dia desses, fazia calor e eu estava subindo, de bolsa e segurando os livros da biblioteca. Parou um carro e a motorista me ofereceu carona. Eu aceitei. Enquanto dava a volta por trás do carro e percebia que ele tinha adesivos família – uma casal, dois filhos, um cachorro – não pude deixar de pensar “Eu vou morrer. Meu corpo aparecerá numa vala e ninguém vai ter pistas do assassino”. Não morri e nem ela era má pessoa. Ela mora quase na esquina de casa e diz que me vê passar e ficava com dó de me ver subir naquele sol. Conversamos e ela ficou de me oferecer carona de novo se nossos horários coincidirem.

Estava ensolarado de novo. Passei na frente da casa da vizinha e percebi que o carro dela ainda estava na garagem. Enfrentei bravamente a subida com toda minha atenção voltada a um possível carro passando à direita pra me oferecer carona. Parou um outro carro e lamentei porque era outro modelo, menor. Dentro dele uma senhora me ofereceu carona, desta vez até o ponto de ônibus. Acabou me deixando no terminal. Ela me disse que esses dias ofereceu carona pra uma outra moça, no sol, mas que a moça ficou desconfiada e não aceitou. Eu já despudorei um pouco; acho que toda minha vizinhança me olha com pena enquanto subo.

Se meu corpo aparecer numa vala, vocês já sabem o motivo.

Dinossauros

Eu odeio qualquer coisa que lembre dinossauros. É um ódio que vem da minha infância. Por algum motivo que desconheço, esse é o tema preferido para simbolizar a criança genial, já perceberam? Sempre eles, os dinossauros. Não se dão nem ao trabalho de criar outra modinha infantil, ou pelo menos uma que fale de um bicho que exista. Gostar dos dinossauros é comparável a gostar de orquídeas – puro status. Toda criança metida a gênia tem fixação por dinossauros. Eles se tornam enciclopédias dessa informação inutil que é saber o nome científico e os hábitos alimentares de criaturas que morreram há eras. Os pais, claro, ficam muito orgulhosos e vêem nisso um indício que seu filho será um grande cientista. É uma coisa tão institucionalizada que qualquer pai interessado encontrará facilmente réplicas de dinossauros, livros sobre dinossauros, documentários sobre dinossauros, clubes sobre dinossauros. Um casal amigo do meu pai tinha um filho prepotente e mimado, que ninguém jamais punha limites porque era “superdotado”. Que arrependimento nunca ter dado umas bolachas nele! Eu era pouca coisa mais velha, estava no meu direito por ele ter sapateado no autorama, de birra (achei que a mãe o repreenderia, mas imagina se a tonta fez alguma coisa). Claro que o desgraçadinho gostava de dinossauros. Cada vez que alguém se fascina por uma criança com dinossauros, penso “e vocês caem nessa história de gostar de dinossauros?”

Deixo aqui o meu repúdio a todos que ainda caem nessa história de dinossauros.

Sensível

Eu me considero sensível e me emociono até em propagandas. Mas é uma coisa que depende muito da hora, do clima, do que estou vivendo no momento. O que eu não conseguia entender é a sensibilidade à flor da pele que a Janine tem. Poucas pessoas tem a honra de mudar de maneira definitiva o curso das nossas vidas – a Janine é uma dessas na minha. Comecei a fazer aula com ela porque vi uma reportagem falando bem do pilates e a academia que eu entrei (recém-inaugurada) oferecia aula. Eu fui uma das três pessoas que fez a primeira aula, e isso já faz seis anos. Alguns casamentos não duram tanto. Acho que a primeira vez que eu notei o quanto música clássica a emociona foi quando fomos ver o ensaio fechado do José Carreras. Ele cantava baixo, brincava com os músicos, uma coisa bem descontraída. Mas era começar algo clássico que ela chorava. Ela sempre disse que é por causa do ballet, que muitas são músicas que ela já dançou. O fato de ser formada em ballet pelo Guaíra, em fisioterapia, em educação física, em mat pilates, e todas as especializações e reciclagens possíveis fazem dela a melhor professora de Curitiba. Ela é exigente e perfeccionista e eu ávida e perfeccionista – taí porque estamos há tanto tempo juntas. Foi a paixão dela pelo ballet que me levou a fazer, só pra comprovar que nem era tão difícil assim (e é). A dança nos aproximou ainda mais. Outra ocasião que a vi chorar, foi quando um músico da orquestra apareceu do nada depois de uma aula e começou a tocar violino para nós. Logo nos primeiros acordes de The Swan os olhos dela se encheram de lágrimas. Anos atrás a Janine queria voltar a ser mãe, porque o filho dela já é um homem e hoje ela seria capaz de curtir mais uma criança. Mas de lá pra cá ela já quase separou, já perdeu o pai, quase perdeu a mãe, morou uma época com os enteados. Já eu terminei faculdade, o mestrado, me afastei da minha própria família, me aproximei (pero no mucho) da família do Luiz, dancei bastante. Apesar de tudo, não é uma amizade de confidências – ela acredita no karma e eu na ignorância sobre o Bem. Quando larguei o ballet, ela foi a única que não quis saber dos detalhes; em compensação, ficou feliz e me apoia muito quando viu minha paixão pelo flamenco. Até o fim do ano a Janine terá seu estúdio de pilates e esse será o nosso fim. Ela pretende me dar desconto e não pode ouvir falar em não me ter mais como aluna. Mas eu sei que pilates de aparelho é fora da minha realidade.

Há poucos dias ela sonhou que estava de novo com dezesseis anos, grávida. Mais de vinte anos se passaram e chorou como se fosse hoje. Uma solista, cujo palco do Guaíra já foi só dela, uma menina que teve que largar tudo e nunca mais conseguiu voltar a dançar. Só então eu entendi porque a Janine chora com a música.

De que lado

Não sei quanto às outras cidades, mas aqui era bem comum ter uma lavadeira. A nossa era a Dona Amália. Ele pegava nossas roupas no sábado de manhã e devolvia no sábado seguinte. Como foram anos de convívio, ela sempre contava pra minha mãe um pouco da vida dela. Pelo que me lembro (e entendia, porque era muito criança na época), a Dona Amália vivia num grande terreno, todo habitado por parentes. Eles viviam brigando e Dona Amália defendia sua família de todos os agregados malvados. Às vezes, dava pra ver nitidamente que a família dela não estava com a razão. Mas ela os defendia do mesmo jeito, como se tivesse. Porque eram parentes dela, oras.

Eu invejo os parentes da Dona Amália. Porque na minha família ninguém nunca foi por mim. Eu tinha que provar com argumentos, testemunhas, fatos e o desenrolar dos acontecimentos que estava com a razão e mesmo assim… não sei, hein, será que você não omitiu alguma coisa? Como se bastasse a coisa ser feita por mim para estar errada. Eu não vejo isso apenas na minha família – ter cojones é raro hoje em dia. Não que as pessoas não acreditem em você; é que todo mundo é muito equilibrado, não quer se indispor, não quer ficar feio. Um amigo que se posiciona vale por dúzias daqueles que declaram amor.

Mesquinharia virus

Sabe aquelas coisas que você duvida que tenha no youtube e digita só pra ver no que é que dá? Procurei por TV Pirata + Mesquinharia e lá estava.

Esse é daqueles videos que a gente vive falando e quem não viu tem a impressão de que você é louco. Ele não formou meu caráter, como One Frog Evening ou o Touro Ferdinando, mas eu e o Luiz falamos nele o tempo inteiro. Porque a gente está, há bastante tempo , numa mão fechada imensa. Algumas pessoas se apertam pra casar; nossa vontade era grande demais e optamos por um casamento apertado. O problema de ficar assim durante tanto tempo é que a gente começa a acostumar. Acha que se é possível comprar um guarda-chuva razoável por dez reais, deveria ser capaz de comprar um relógio também. Começa a querer que todos os produtos e serviços sejam em sete-vezes-sem-juros-no-cartão-C&A. E a bricolagem, o famoso “faça você mesmo”? Começou com os presentes de natal e hoje em dia até meu próprio perfume eu faço – tenho o 212 de Caminhante Herrera e já tem um Kminhante Flower em fase de conclusão. Mais um pouco e chegamos no estágio de comprar papel higiênco folha tripla pra ele render três vezes mais.

Mas nada disso me preocupa. Quando o dinheiro entrar, sei que me readaptarei com facilidade.

@claraaverbuck e a intolerância

Eu não queria falar sobre isso, porque foi desses eventos que balançam o twitter durante dias e ninguém de fora fica sabendo. A Clara Averbuck, escritora que eu passei a conhecer por causa do Tricô dos Bróders, contou a todos que participou do Troca de Família no ano passado e que o marido dela na época a traiu com a mulher que passou uma semana na casa, trocada com ela. Fomos assistir o programa (bateu recorde de audiência) ansiosos pra ver isso e a única coisa que mostraram foram algumas declarações suspeitas. Nenhum beijo, nenhum gemido. O que o programa destacou bastante foi a bagunça da casa da Clara, a Clara cantando deitada no chão e o público odiando, as queixas do marido que a recebeu, enfim, ela ficou mal na edição. Ao invés de reagir à traição, muitas pessoas no twitter xingaram a Clara e acharam a traição merecida – porque o fogão estava sujo e mostrava que ela era uma péssima dona de casa; porque a filha fazia birra e isso provava que ela era uma péssima mãe; porque o marido era bonito e ela era mais velha e nariguda, etc.

Não vou discutir o teor desses absurdos. A impressão que eu tenho é a seguinte: as pessoas, pelo programa e por uma impressão prévia, acharam a Clara uma chata. Arrogante, fresca, antipática, folgada, alguém cujo estilo de vida eles condenam e detestariam ter que conviver. E por causa disso não sentiram nem um pouco que ela foi traída, sentiram o famoso “bem feito”. A partir daí confundiram tudo, como se o que elas sentissem pela Clara dissesse alguma coisa sobre o seu casamento, sobre sua relação com o marido, sobre o que aconteceu no programa. Como se as pessoas fossem vilãs ou mocinhas. Se eu não gosto, logo é vilã, logo tudo o que acontece de ruim com ela é merecido. Pouco importa se isso vai contra princípios muito mais importantes como compromisso, respeito, fidelidade e igualdade. Essas pessoas não analisam a situação em si, elas se deixam levar pela sua própria hostilidade.

Tudo isso foi só pra dizer que tenho andado assustada com as pessoas. Me assusta essa certeza de ser dono da verdade, de saber quem e porquê deve sofrer, de se achar o próprio agente da justiça divina. Acham que não é nada demais enviar uma mensagem pessoal pra alguém xingando, fazendo pouco caso do que ela viveu. Que está tudo bem estragar um pouco o dia de alguém que você nem conhece. Como blogueira, tenho medo do meu próprio público. Vai que um dia este blog passa a ser realmente importante; aí as pessoas podem achar que não tem nada demais me ofender de graça, porque quem se expõe merece ouvir qualquer coisa. Já aconteceu em pequena escala e é claro que não foi bom. O que esperar de quem já é intolerante no seu dia a dia, que se dá ao direito de agredir uma mulher traída só porque não vai com a cara dela? Parece que a humanidade não aprendeu nada com a violência religiosa e racial de outras épocas ou lugares. A internet a cada dia me mostra que é preciso muito pouco para as pessoas revelarem o que têm de pior.

Derretida

Quando as luzes do cinema acenderam, eu ainda estava chorando. Esperei o tempo que pude, mas quando saí ainda estava claro que eu tinha chorado muito. Minha impressão era de que todos me olhavam, se perguntavam quem era a louca, porque ninguém estava tão desabado quanto eu. Há meses as pessoas me recomendam ver Cisne Negro. Diziam que lembravam de mim, que lembravam das coisas sobre ballet que eu escrevi aqui. E o que tenho a dizer é que fico lisonjeada de terem me associado a um filme desses. Nunca cheguei perto de ser uma solista, mas me identifiquei muito com a Nina. A diferença é que minha catarse foi justamente ter escolhido dançar.

Li muita bobagem sobre esse filme, interpretações muito pobres. Daí concluo que tudo o que eu senti se deve a tanta coisa que eu vivi. Da minha relação com a minha mãe, da adolescente controlada que eu fui, da dor e do crescimento de ver minhas expectativas frustradas tantas vezes. Lembro do quanto ficava irritada com essa história de “eu gostaria de ter a sua idade. Mas com a cabeça que tenho hoje”. Porque várias pessoas poderiam merecer ouvir isso, mas não eu. Eu já me achava madura, já me achava completa. Ainda bem que não estava. Os anos podem se transformar em envelhecimento ou em vivência – aquela que nos torna sensíveis, próximos aos outros. Acumulamos mais e mais elementos para interpretar. Quando mais background a gente tem, mais profundamente é capaz de entender e se emocionar com a arte. Temos mais o que dizer, temos mais o que sentir.
Em poucos dias sai minha crítica do Cisne Negro lá no Caminhando por fora.

A dura vida dos modelistas

Sempre que estou sem inspiração, o Luiz me sugere escrever um post sobre a dura vida dos modelistas. “Que mané dura vida dos modelistas, dura é a vida de mulher de modelista!”. Assim que nos conhecemos, por e-mail, ele me disse que montava réplicas em escala de militaria da Segunda Guerra Mundial. Quando li pela primeira vez a palavra Plastimodelista, não imaginava que isso se tornaria parte importante da minha vida – e da minha casa. Assim como o universo, o modelismo é um hobby em constante expansão; tenho que pedir licença antes de sentar no sofá, porque o Luiz se cerca de árvores, peças minúsculas e instruções cada vez que se senta; no corredor, mostruários com tanques prontos, porque os helicópteros e aviões ocupam muito espaço e estão em caixas; debaixo da pia do banheiro, produtos de limpeza dividem espaço com alcool isopropílico, fluído de freio e outros materiais; em cima da pia, o sabonete divide espaço com tintas, modelos, um torno que um dia foi meu e um inalador que faz as vezes de compressor. Isso sem falar nas sucatas que estão perto da caixa d´água, do móvel inteiro para guardar modelos que aguardam anos para serem olhados, e o material de referência . É impossível ignorar, ao se visitar a minha casa, que aqui mora um modelista.
Este é um KV-122. A lagarta (essa parte que roda embaixo) tem 9 cm.
Quase tudo o que o Luiz monta é na escala de 1:72. Digo que ele tem mão de pinça.
Mas não é apenas a parte física. É o preciosismo que divide os excelentes modelistas dos reles montadores de kits. Nada é aleatório. Pra tudo eles buscam inúmeras referências históricas. Não é à toa que o Luiz, ao lado de outros modelistas, entende de Segunda Guerra como poucos. Ele conhece a história de cada modelo, porque foi construído daquela maneira, quando e por quem foi usado. Cada vez que vejo algum tanque ou avião, num filme ou na rua, eu o faço contar a história toda pra mim. Demoramos horas pra ver A Queda, porque paramos em diversos pontos e ele me contava todo o contexto, tudo o que estava subentendido. Eu o presenteei com tantos filmes e livros sobre a guerra que ele nem quer mais. Às vezes o Luiz pára de montar algum avião porque não tem certeza do tom certo de algum detalhe ínfimo, como a parte interna do trem de pouso (ou seja, aquela parte de dentro de onde sai a roda do avião). Não adianta dizer que ninguém vai ver, que qualquer cor serve, porque “os deuses estão vendo”. Outro grande problema é achar referencias discrepantes, cada fonte citar uma cor diferente. Digo que isso mostra que dá pra fazer de dois jeitos, que basta escolher um e dizer que viu em tal lugar. Mas eles não aceitam. É dura a cabeça dos modelistas.
KV-2. Tem 4,5 cm de altura. Acho a cabeça horrorosa, digo que encaixaram a cabeça de outro numa base desproporcional. Mas ele tem predileção por modelos esquisitos.
O hobby nos uniu já na época de namoro. O Luiz em pouco tempo passou a fazer o acabamento de todas as minhas peças. Eu, como todos os escultores do atelier onde eu trabalhava, só conhecia lixa e spray; ele me mostrou um outro mundo de materiais, de espátulas, de máscaras e pinturas. Talvez por não serem tão ciumentos, por divulgarem em sites as coisas que fazem, os modelistas conseguem efeitos inacreditaveis. As técnicas deles são avançadíssimas. Recomendo a todos um dia visitarem uma exposição de plastimodelismo. É interessante até pra quem não se interessa pelo assunto. O dioramas – que podem mostrar cenas históricas até uma simples barraca de feira – são imperdíveis. A única coisa que os separa de artistas é a necessidade de serem fiéis à história. A busca pelo realismo em peças de escala torna-se um desafio, então eles estão procurando materiais inéditos. Eu parei de me surpreender quando o Luiz pede pra ir pra uma loja de montagem de bijoux, ou de materiais de dentistas, ou de embalagens. Quando ele pára diante de algo totalmente estranho, já sei que é para o modelismo. Pode ser folha de orégano, pode ser um alicate. A última grande aquisição dele foi um kit elétrico para pedicure.
Jagdphanter. Contando desde a ponta do canhão dá quase 12 cm de largura. É um tanque de cabeça grudada. Aquela cruz indica que é alemão. A camuflagem é um dos pontos fortes do Luiz.
Eu gosto muito dos amigos plastimodelistas do Luiz, mas nunca vou nas reuniões gastro-modelísticas (sempre na mesma bat-pizzaria). São pessoas ótimas, mas quando se juntam, só falam em modelês. É um tal FKRS na versão 8, pintado com a cor 83 ao invés de 97. Não dá pra entender lhufas. O que eu já percebi é que quanto mais uma coisa é complicada, mais eles reclamam e gostam. Às vezes eles descobrem que um kit tem erros milimétricos de proporção e, ao invés de pararem de montar e exigir seu dinheiro de volta, serram ele todinho pra consertar. Isso sem falar que esse modelismo é uma máfia, os kits sempre têm bancos feios, ou lagartas grudadas e eles são obrigados a comprar acessórios. Tem uns kits tão ruins que mais parecem forminhas de chocolate sem chocolate, os vac-form. O Luiz comprou todo feliz porque ninguém tem, mas ninguém me tira da cabeça que ele foi enganado… Quando prontos, eu voto nos modelos mais bonitos e faço previsões sobre quais ganharão medalhas. O que não é difícil, porque o Luiz sempre volta com medalhas. Ele é tão bom modelista quanto marido: inteligente, detalhista, dedicado, culto, paciente, caprichoso, criativo.
Um SdKfz. Não é à toa que eu não entendo nada do que eles falam. Tem rodinhas, então não deve ser um tanque de verdade. É alemão também. Tem menos de 10 cm, no total.

Te amo, meu modelista.

Tímidos

Eu acho a timidez fofa. Ela é tão combatida porque hoje querer ir devagar pra qualquer coisa é pedir demais. Se você não parte logo pros finalmentes, está fazendo doce. Gosto do tempo que a timidez impõe – tempo para se sentir gradualmente à vontade, pra conseguir se soltar diante de alguém, pra deixar escapar de maneiras mais sutis os próprios sentimentos. Sentir receio, pela consciência aguda de estar perto do diferente. Há um espaço grande entre uma intimidade e outra, e percorrê-lo sempre requer autorização. E etapas, muitas etapas.

Só entende que “o melhor da festa é esperar por ela” quem já esperou. E quem é tímido sempre espera.

Pé na Jaca Life Style

Devo ser bastante tolerante, porque as pessoas me fazem confidências sem que eu procure por isso. E me contam experiências que eu nunca estive perto de fazer. Já disse que se um dia fosse fazer uma tatuagem, um ponto de interrogação me definiria bem. Não ouso considerar quase nada certo ou errado por si só. Mas de todas as experiências que eu sou capaz de ouvir e entender, uma delas não é cultivar o Pé na Jaca Life Style: chafurdar e achar o máximo, fazer continuamente coisas prejudiciais e ainda se achar muito arrojado por isso. Eu não vejo quebrar a cara espontaneamente como sinônimo de liberdade ou de aproveitar a vida ao máximo. Na adolescência essas coisas podem se confundir, mas mesmo assim… Não tem nada de interessante passar a maior parte do tempo louco, ou se recuperando das loucuras – seja fisicamente, financeiramente, emocionalmente. Fazer coisas que claramente só ficam boas quando contadas, como se a pessoa vivesse em função de criar histórias para entreter os outros. Ressacas não são divertidas, perder o emprego não é divertido, acordar ao lado de um estranho e ficar na dúvida se usou camisinha não é divertido. Como se não bastasse tudo isso, quando tais coisas são feitas por mulheres, fica parecendo uma bandeira – se você não bate palmas é porque é machista. Em minha defesa: considero dormir com qualquer coisa sem o menor critério, só porque tem pica ou buraco, deplorável em ambos os sexos. Não gosto de dar ouvidos a essas coisas porque me chateio. Fico preocupada e com raiva de quem faz. Ouvir é meio se tornar cúmplice e não gosto da idéia de assinar embaixo de um Pé na Jaca Life Style.

O bronze

Eu gosto de ficar branquinha o ano inteiro. E, morando em Curitiba, não tenho tanto trabalho assim para isso. Eu sei que sou a minoria – as pessoas acham bonita a pele bronzeada, aquele “ar saudável”. E, seguindo aquele mesmo raciocínio de emagrecer antes de entrar numa academia, as pessoas gostam de se bronzear antes de ir pra uma praia. Isso me parecia apenas uma bobagem antes de ouvir essa história que eu vou contar. Agora posso dizer: vocês que gostam de bronzeado são completamente loucos.

Minhas amigas loiras Rita e Juliana são loiras mesmo, e se recusam a chegar na praia brancas como a pele delas naturalmente é. Outra amiga loira ofereceu para elas um bronzeamento em spray e elas acharam ótimo. Na verdade não é um spray, e sim um aerógrafo. A mulher fica o mais nua possível e recebe uma nuvem colorida, que pousa delicadamente sobre a pele e seca. O ideal seria que a mulher passasse as doze horas (eu disse doze horas) seguintes de pé e pelada, porque o organismo leva algum tempo para absorver a tinta. Então, qualquer coisa que ela vestir nas próximas horas pode marcar a tinta. Isso sem falar que ela pode manchar tudo em que ela encostar – sofás, cadeiras, lençóis. Se molhar é expressamente proibido, seja suor ou poça d´água, porque a tinta escorre. Imagine o pânico de quem faz essa aplicação e encontra uma chuva no caminho.

Por causa de tantas exigências, elas aplicaram o bronze pela manhã. Estava quente e as duas sairam bronzeadas, sem tocar em nada, com roupinhas leves e fluidas. Sem poder colocar um óculos de sol ou dar uma coçadinha. Resolveram dar uma volta na C&A pra distrair um pouco e ficar num ambiente com ar condicionado. No meio desse passeio, a Juliana ficou apertada e avisou a Rita que iria ao banheiro. Não sei qual o problema da C&A, se é alguma exigência da franquia ou uma estranha estratégia de marketing: todos os banheiros de C&A são horríveis. São feios, nojentos, apertados, enfim, totalmente desestimulantes. O da C&A da rua XV (a loja onde estavam) é um corredor mal iluminado e fedido; pra sair do reservado a gente tem que andar de lado, encostando a barriga na pia. Como são apenas três privadas, ele sempre tem fila.

Como era uma emergência, a Juliana não se intimidou e fez o que toda mulher faz diante de uma situação dessas: colocou a alça na bolsa no ombro direito e apertou a bolsa com o antebraço. Abaixou as calças, e com a mão esquerda segurou a calcinha, para evitar que ela tocasse no vaso. Ela dobrou os joelhos e inclinou o corpo para frente, de maneira a não sentar no vaso. Quando estava nessa posição, toda preparada e tensa, o xixi não saiu – aula de pilates dá nisso, o perínio fica um espetáculo de tão forte. Ela esperou. Aí a alça da bolsa escapou do ombro, e quando ela se inclinou para pegar de volta, a musculatura soltou e o xixi escorreu pela perna. Quem estava esperando do lado de fora só a ouviu gritar:

-MEU BROOONZEEEEEEEEE!

Resultado: ela ficou com uma faixa branca desde a coxa até embaixo. E só pode limpar direito o xixi à noite.

Em baixa

É difícil ficar em baixa. Depois daquela amizade intensa e conversas sem fim, perceber que a pessoa começou a fazer outros amigos. Passada aquela fase de declarações de amor e sexo ardente, sentar ao lado do outro sem ter nada o que dizer. Receber um prêmio, ser elogiado, ter o mundo inteiro em suas mãos e depois voltar para a rotina. Precisar de um conselho pra tomar uma decisão importante e justamente a pessoa cuja opinião importa não se mostrar muito interessada. O pior é que às vezes a gente está tão em baixa que o mundo inteiro parece murchar com a nossa presença – os amigos estão ocupados com outros amigos, ninguém do lado pra te dar colo ou dizer que te ama, não receber um agrado. É duro.

Mas sabe o que é mais duro? É não pode ficar cansado ou quieto em paz. Estar numa fase mais calada e o amigo descompensar, que só porque não recebeu toda atenção que gostaria cria uma DR ou se vinga de você (!?). Querer ficar no sofazão vendo TV sem pensar em nada – porque a semana foi dura – e o outro começar a reclamar que você está frio e que não o ama mais. Ter que aguentar gente magra dizendo que é gorda, ou linda dizendo que é feia, ou rica dizendo que é pobre só porque quer ouvir elogios. Ser solicitado pra resolver o problema dos outros quando mal consegue dar conta dos seus. Na hora de dizer que ninguém é feliz e animado todos os dias do ano, todo mundo concorda. Mas poucos conseguem encarar período de baixa com equilíbrio.

Lindas

Se eu fosse homem ou lésbica, teria clara atração por musicistas bailarinas. Porque as mulheres mais lindas que eu encontrei na minha vida, naquele sentido muito particular de ser alguém que mexe com você, o eram. No primeiro caso, da Adriana, era bastante previsível. Ela não era como nós, mocinhas mal saídas da infância que subitamente subiram de status ao entrar na faculdade. Ela já era casada, já tinha morado em Paris, já tinha feito ballet, já tinha tocado violino. Como se não bastasse, era uma excelente aluna e a cara da Isabella Rosselini. Comentei com meu namorado na época a admiração que sentia por ela, e ele me disse “você fala isso de um jeito que parece que está revelando um segredo”. E era. Ela discreta, segura e tranquila de uma maneira que eu desconfiava que jamais seria. Apesar de eu me sentir desconfortável perto dela, acabamos nos aproximando no fim da faculdade, por seguirmos a mesma linha de psicologia clínica. Acho que ela me considerava engraçada. Fiquei muito feliz quando vi no album de formatura dela uma foto de nós duas, em close, no karaokê da (única) festa da turma que eu fui.

Achar a Adriana linda era uma regra, mas minha segunda escolhida talvez exercesse esse fascínio apenas em mim. Ela vivia mudando de cabelo, que a cada dia ficava mais curto e colorido. Acho que a Colorida era originalmente loira; era longilínea, muito clara, olhos verdes e uma expressão que não sei definir, acho que meio louca. Fazíamos ballet juntas, o que aumentava o meu desconforto porque eu era iniciante. Sei que ela fazia faculdade de música, mas não faço a menor idéia de qual. E contra todos os meus preconceitos esse respeito, a Colorida era do movimento carismático. Quando alguém dizia que estava passando por alguma dificuldade, ela dizia que incluir a pessoa nas suas orações. Na primeira vez que ouvi, achei que fosse brincadeira. Porque ela não tinha nada de crente, nada de dogmática. Ela era sorridente e totalmente fora do comum – no que dizia, na maneira como se vestia, nos gestos. Assim como no caso da Adriana, eu a considerava tão linda que não conseguia me sentir à vontade – acho que ficava subitamente consciente das minhas limitações. Tinha medo de olhar demais pra ela e de ser mal interpretada;

Eu era uma aluna constante de ballet, talvez a única da turma. A Colorida vivia sumindo, por períodos de dias ou meses. Um dia ela voltou e eu tinha mudado o corte de cabelo. Estavamos em barras opostas, e ela atravessou a sala pra falar comigo. Sorridente como sempre, disse que eu tinha ficado ótima com meu corte novo, que o anterior já era bonito e que agora eu estava melhor ainda, que mantivesse sempre mais ou menos nesse estilo. Aí ia começar elogiar o cabelo dela, que no dia estava azul. Ela me interrompeu:

Eu – apenas – agradeci. E guardei pra próxima aula finalmente dizer que eu a achava linda, que a admirava, que nunca vi alguém ficar tão bem de cabelo azul. Porque ela era fascinante e talvez nem soubesse. É tão difícil elogiar; pessoas como ela só devem receber a parte ruim da beleza – as agressões gratuitas, as sabotagens, a antipatia injustificada. Decidi parar de admirar de longe e deixar para trás essa tendência de transformar as coisas em segredo. Mas depois daquela aula ela nunca mais apareceu.