Aquela mesma

Conversa de vestiário, eu não estava envolvida. Uma mulher contava para a outra da relação que a filha tinha com o namorado. Uma relação séria e possessiva. Ela tentava aconselhar a filha a não levar tão à sério, não nessa idade. Porque ela foi assim, passou pela faculdade praticamente sem aprontar, cheia de nóias com o corpo, desperdiçou várias chances. Deveria ter dado, distribuído. Nessa parte da conversa eu estava no reservado, no trono, e quase gritei de lá:

– Eu dizia a mesma coisa. Que desperdicei oportunidades, que tinha nóias imensas com meu corpo e nem sei de onde eu tirei. Que se tivesse a segurança de uma adulta, faria diferente. E quando me vi adulta e sozinha, agora, não faço nada diferente. Estou apenas mais velha, mas ainda sou aquela mesma que detesta balada, que não percebe interesse dos outros, que precisa de envolvimento emocional.

Aí pensei que talvez eu seja a única. Sou a única que faz o que eu faço, ou melhor, o que eu não faço. Que as mulheres na minha idade descobrem o quanto isso de idade é importante para eles, que insistem em achar que beleza é só o viço dos vinte. Elas lutam, que vão para balada, que colocam silicone, que se adaptam e aprendem a não quererem mais namoro. Que eu nem ao menos pinto o cabelo. De tanto fazer o que me é cômodo, me descobri a pessoa menos adaptável que eu conheço. Há uns dez anos um astrólogo me disse que eu tinha complexo de Peter Pan e na hora não fez sentido, assim como na hora nem eu mesma ler um mapa astral faria sentido. Quem sabe eu ainda me comporte como me comportava na juventude não porque continuamos sendo sempre o que éramos e sim eu, EU. Teimosa, Peter Pan.

Saí do reservado e fui direto pra minha aula.

macanudo de bike

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Dos simbolismos interessantes

homem ideal

que eu falei outro dia. Tem a casa 7, no mapa astral, que é o indicativo do cônjuge. Na modesta amostra me mapas que eu tenho, a pessoa ter várias planetas lá não faz com que ela case cedo ou case se relacione bastante, como seria minha primeira impressão. O planeta que está lá pode revelar o perfil de quem ela busca, então pense na confusão que é quando a pessoa tem vários perfis num lugar só. A pessoa tem lá Saturno em conjunção com Júpiter e uma pitada de Marte: ela quer um homem maduro, sério, mas que também seja idealista, otimista, quem sabe um professor, e ao mesmo tempo também jovem, cheio de energia e sexual. Quando um é jovem, não a completa porque falta maturidade; quando é mais velho, nem olha, mas quem sabe devesse porque ele preenche parte do que ela busca, e por aí vai.

Se você olhar bem, as pessoas que têm muitos relacionamentos são também aquelas mais flexíveis. Pode ser que sejam assim por serem pouco exigentes ou porque gostam da humanidade em geral. Às vezes tem aquelas parcerias estranhas, que quando o par vai embora, ela cochicha no seu ouvido: “meio besta, coitado. Só aguento porque…”

Megera

evil queen

Infelizmente, eu ouço os meus vizinhos mais do que gostaria. O vizinho dos fundos, então, sempre fala muito alto. Eu acabo ouvindo alguns diálogos. Não sei dizer se ele e a mulher estão se separando ou estão tentando não se separar, mas ela dá patada atrás de patada no que ele diz. Às vezes ele nem disse nada demais, mas dá pra perceber que tudo a tira do sério. Não julgo, de verdade.

Um casamento acaba por muitos motivos e é claro que o meu teve muitos motivos. Ouvindo os dois lá atrás, eu percebo que uma das coisas que me dói sobre o meu casamento era a pessoa que eu era. Não vou saber dizer se eu era assim desde o começo, se foi como a relação se desenvolveu, se tinha jeito, só sei dizer que eu era e não gostaria de ser de novo. Minhas impaciências, minhas injustiças, minhas ingratidões. Será que eu sou uma megera estava uma megera? Algumas coisas nossas só encontram a luz do dia na intimidade extrema – e nem sempre é bonito de ver.

Meio história, meio pitaco

luzes balada

Eu estava fazendo faculdade e fazia estágio numa clínica psiquiátrica. Fazia plantão no sábado de manhã. Tinha enfermagem, residente de psiquiatria, funcionários. Eu gostava de fazer esse horário porque era o mais calmo: não tinha mais nenhum estagiário e os pacientes passavam quase o meu plantão inteiro dormindo. O problema era, basicamente, acordar cedo num sábado. Eu saía antes do almoço. Fazia faculdade, não tinha grana e nem tempo pra nada, sempre fui calma e de poucos amigos. Meus fins de semana eram basicamente para adiantar os trabalhos, ver TV e dormir um pouco. Aí lembro do final de um plantão, que tinha um médico novo e gatinho, e eu me despedi dizendo algo como: “agora vou sair e aproveitar muuuuito meu fim de semana”. Aproveitar muito era dormir. Mas eu percebi que ele meio que se encolheu, ficou inseguro. Como se eu vivesse intensamente, uma vida de sexo e festas que ele não tinha acesso. Devia passar os fins de semana dormindo e vendo TV também.

Lembrei disso quando uma amiga que estava visitando a família no interior postou um history com foto dela numa balada. Era uma foto antiga, mas quem visse ia pensar que ela estava saindo naquela noite. Já cansei de falar aqui que estou muito longe de ser um caso de sucesso em termos de relacionamento, ninguém nem me pergunta nada, acham que só posso já ter me casado por milagre (e eu concordo). Mas se fosse dar um pitaco, eu diria que faz mais falta quem se mostra comum do que jogar uma imagem de sucesso intimidante.

Jantar é um #hojetem

jantar-romântico

Uma etapa muito temida por mim é quando o Fulano – depois das apresentações, da conversa fluente, da discreta pergunta feita pessoalmente ou para amigos a respeito do estado civil, e pequenos testes que medem se o nível de interesse é recíproco – convida para jantar. Faço de tudo para não vivenciar isso, tento resolver a situação num passeio no parque, um café, uma carona, mas nem sempre é possível. O sair para jantar nada mais é do que um #hojetem. Os dois estão interessados, sabem que querem muito mais do que uma amizade ou um amor platônico. A parte dele é arranjar um restaurante que tenha um clima mais romântico. E a minha parte, como convidada? Sem dúvida, estar bonita, e só isso eu já acho uma baita pressão. Pra quem anda sempre esportiva por aí, estar bonita às vezes implica em se colocar numa roupa que faz com que eu não me sinta eu mesma, o que gera o problema do que é estar bonita, para quem é o bonita. A lingerie não vai ser a furada do armário, mas também já acho demais partir de primeira pra calcinha comestível. Sendo a instituição jantar tão ligada ao #hojetem, tem que se fazer de desentendida o jantar inteiro e o divertido está nas insinuações e a possibilidade da recusa, se fazer de surpresa quando a mão dele vai parar na cintura, sendo que eu já pensei nos mínimos detalhes e estou nervosa desde que recebi o convite ou já pode ir beijando quando encontra? Uma amiga minha defendia dar antes do jantar, porque já resolvia tudo e os dois jantavam calminhos e mais famintos – mas também já ouvi muitas histórias que mostram que muitos homens são apegados à etiqueta dos três encontros.

Nada será como antes

Old and Broken 1970s Television Set

Amiga conheceu um homem no Tinder. Tudo indo melhor do que a média dos outros encontros. Logo de início, ela se definiu como de esquerda e ele falou vagamente que se desentendia com uma ex de esquerda. Quatro meses depois, quando estão realmente ficando firmes, ele revela que é eleitor Daquele. Amiga fica confusa e decepcionada: se ele sabia desde o começo que ela achava aquilo imperdoável, por que escondeu? O que isso revela sobre os valores dele? Outra amiga. Gay e que detesta política. A postura dela até enchia um pouco, “se está bom pra mim, o resto que se dane”. Ela se recusava a levantar qualquer bandeira, até mesmo a gay. Agora descobriu que muita gente que a aceitava, a considerava ótima companhia e profissional, não se incomoda nem um pouco em votar em alguém que já declarou que “as minorias devem se render à vontade da maioria, ou deixar de existir”. Ela agora se pergunta até que ponto a aceitam mesmo, se ela só é útil agora mas, se acontecesse alguma coisa, ninguém se importaria o suficiente. Isso para falar apenas das coisas domésticas – teve página rackeada, jornalista intimidado, organizadora de evento que apanhou, mentiras deslavadas. Quem não tretou com a família e não rompeu amizade de anos por causa de política, discutiu em grupos de whats e pelo Facebook, tentou converter estranhos e alternou momentos de esperança com desespero, não viveu o 2018 no Brasil. Olha o ridículo que é todo mundo, sem precisar combinar, inventar apelidos porque apenas escrever o Nome atrai violência. Assim como tem gente que não vai na manifestação #elenão por medo.

Por méritos quase que exclusivos da própria campanha, a vitória que era dada como certa parece que não vai se concretizar. Mas depois de tudo, a vitória #elenão será uma vitória sobre terra devastada. Ainda não sabemos o que fazer com o que vimos das pessoas que nos cercam.

Pedras arredondadas

pedra rio

Durante muito tempo, eu considerei a minha ex-sogra como uma vilã do meu casamento. Com os anos as coisas foram anuviando, igual uma metáfora que eu vi que as pessoas que convivem são como pedrinhas numa garrafa, que de tanto se machucarem acabam ficando redondas. No final do processo de separação, eu lembro que olhei pra ela – deve ter sido no dia da assinatura do divórcio, ela estava de testemunha – e senti pena do nosso caminho juntas ter terminado. O mesmo sentimento de quando eu saí de casa para casar e sabia que dali por diante nunca mais moraria com meu irmão e minha mãe de novo. Eu mesma fiquei surpresa com o sentimento, porque nunca tive por ela o afeto de uma filha. Fiquei triste pelo ciclo que se encerrava. Fomos pedrinhas que se machucaram muito, detestaram ser encerradas na mesma garrafa, e no final se entendiam mais. Quando deixamos de conviver, eu vi que havia um tempo que faríamos parte da vida uma da outra, que teríamos algo a acrescentar à vida uma da outra, e que ele se encerrava ali para nunca mais – e eu sabia que passamos tempo demais nos detestando. Tenho certeza que com a nova nora dela, ela pegou muito mais leve e demorou bem menos para mostrar seu lado agradável; da minha parte, se um dia que voltar a ter uma sogra, cederei muito mais do que cedi com ela. Quem sabe o legado que tínhamos para deixar fosse esse. O que me tocou muito foi ver que, tivéssemos cumprido ou não o que tínhamos que cumprir, o nosso tempo havia acabado. Agimos como se as coisas fossem durar para sempre e na verdade o mais comum é que durem pouco – cinco anos, uma década, muito raramente duas décadas. Cada um segue a sua vida, esse evento único e complicado; algumas pessoas andam alguns metros do nosso lado e depois se vão. O ideal é que seja caloroso, o ideal é que sejam boas lembranças. Nós não temos obrigação de ficar, os outros têm o direito de partir.

Curtas sobre c e r t a s p e s s o a s

suave na nave

Meio o de sempre: feliz, fotos sorrindo. Terminou com o namorado: indiretas motivacionais. “Dê a volta por cima”, “não fica do meu lado quem não me merece”, “eu sou como a ventania que não pode ser contida”, etc. Até que eu entendi que é uma tentativa de convencer a si mesma. Força aí.

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Eu adoro vídeos de cachorros e a progressão geométrica das redes sociais faz com que eles apareçam no meu facebook, no meu whatsapp, que eu seja marcada por amigos. Mas tem uma pessoa que me manda vídeos de cachorro que não apenas me desagradam como me irritam. Num deles, um cachorro pedalava uma mini-bicicleta. Tentei avisar que amo cachorros sendo cachorros e detesto quando os obrigam a comportamento de circo. A pessoa não entendeu, atribuiu minha queixa a um dia de mau humor e continuou a me mandar.

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Sem dúvida, não é uma pessoa egoísta. É até uma pessoa do bem. Mas eu me perguntava o que havia de errado, havia algo de irritante. Seria a riqueza, seria achar que sua família é melhor do que as outras? Não era explicação o suficiente. Até que, na roda, uma comentou que havia feito vários exames, porque vinha sentindo dores. Aí a pessoa emendou: “eu fiz todos os exames recentemente, fiz ressonância, fiz contagem de células, eu estou ótima, super saudável!”. Ou seja, é a versão contrária da pessoa que compete em desgraça.

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Eu não consigo ver encontro com pessoas do passado, tipo reunião da turma de 1900, que a gente não vê há anos, como desprovida de competição. Não consigo, lamento. Se fossem pessoas afins, o contato não teria se desfeito. Tive uma prova dessa teoria quando estava me preparando para cumprir a obrigação de falar com uma pessoa que eu sei que não está bem. Quando chegou o momento, recebi uma mensagem curta e política, um “obrigado, beijos”. Não adianta, a pior coisa do mundo é responder “e aí, como estão as coisas” quando algumas delas simplesmente não têm solução.

Aquilo

relacionamento abusivo

Teve uma onda muito rápida, nas redes sociais, de haver se tornado aquilo que mais detestava. As pessoas se detestaram por se perceber aquele que procura lugar pra sentar na balada, ler embalagens de alimentos, comprar produtos de limpeza, etc. Eu me perguntei o que eu me tornei e detesto. Sobre ser chata e não gostar de balada, sempre fui. O que eu me tornei e realmente me choca, é quando digo: veja bem, é um bom marido. Trabalhador, honesto, trata ela bem… Um lado meu sente vergonha e, ao mesmo tempo, digo com convicção. Quem sabe em mais dez anos eu diga que tudo bem o homem ter suas aventuras e que o importante é ser a oficial. Que horror. Em minha defesa: tenho visto absurdos demais. Relacionamentos abusivos, se for pra resumir num termo só. Um dos mais absurdos que ouvi na minha vida, poucos meses depois se transformou em convite de casamento e hoje rende lindas fotos no Instagram. Meu casamento, que era bacaninha, acabou antes. Pior que eu não acredito que aquela relação tenha melhorado, porque o que eu ouvi já era grave demais, e sim que eles vivem de aparência mesmo. Hoje eu sei que estar ao lado de alguém que te trate com carinho e respeito não é o básico de todo casamento. Ou que nem todo mundo consegue suportar o risco do espaço vazio, então aceita um qualquercoisa. Perto de um abusador, se ele é trabalhador, honesto e trata bem, tá bom.

Santa desculpa, Batman!

criminalidade

O Batman tem aquela paixão pela moça, se não me engano ela é filha do comissário Gordon. Na verdade, não o Batman e sim o milionário. Todo filme de Batman que se preze tem que mostrar isso, e fica aquela complicação porque ninguém pode saber que o Batman é o Batman, e qualquer um que pensasse um pouco ia concluir que ser Batman é caro, então o sujeito é milionário, jovem… No primeiro filme da franquia Batman, tenho quase certeza – já perdi as contas de quantos foram – ela sabe que o Batman é Batman, quase morre, ele quase é descoberto, então ele termina tudo, apesar de querer muito, para a própria segurança dela.

– Mas, Bátima, quando poderemos ficar juntos de novo?

– Enquanto houver criminalidade em Gothan…

OU SEJA.

Sofrer por amor é uma merda, e quando a gente está envolvida na história, tudo parece inédito e misterioso. Como o cara que usa desculpa Batman pra terminar. Aí a moça fica louca para saber a verdade, o que está acontecendo, qual a história secreta por detrás. Para quem está de fora, é claríssimo: pouco importa se ele é o Batman ou se caiu do berço quando era criança e bateu a cabeça no chão. Se ele não está disponível, o melhor é partir para outra.

Simples assim

chess queen

George Clooney contando pro Letterman (O próximo convidado, Netflix) como conheceu a esposa dele, Amal: Eu estava em casa e um amigo me ligou dizendo que traria uma amiga. Eu disse que tudo bem. Nós conversamos a noite inteira, trocamos e-mail, começamos a nos corresponder. Eu não sabia se ela queria algo além de uma amizade. Eu tinha uma gravação em X e chamei ela pra me encontrar mais tarde.

Por favor, não venham desmentir, dizer que do lado dela houve uma tremenda premeditação, que nada é como parece, que tem a grana, que tem o homem mais sexy e galinha do mundo. Vamos ficar com essa versão, que tal? Que as coisas possam surgir de uma simpatia espontânea. Que não seja necessário levantar a ficha e cercar tudo em volta antes do encontro propriamente dito. Ou estar no melhor visual ou melhor macumba. E aquelas regras sobre fazer e não fazer. Chega de tanto jogo de xadrez.

Os finais felizes das outras

lo que es para ti

Eu tinha um crush. Quando eu comecei a stalkear, ele estava sozinho. Aí ele jantou romanticamente com uma mulher. Quando a vi, quis morrer, ela era linda. O problema é que não era uma linda por ter nascido apenas com traços bonitos, era linda no sentido de investir muito na sua aparência e personificar tudo o que se espera de uma mulher, do cabelo às unhas, dos gestos ao modo de se vestir. Vi ali que não tinha a menor chance, o tipo dele era boneca. Fui investigar e descobri que era um namoro de anos, desses que balança e nunca termina. As fotos de cervejada com os amigos foram substituídas por vida noturna, roupas da moda, outros casais e muita família. Ela era a candidata da sogra, aposto que frequentam os mesmos salões e lojas. Ele perto dela é um bebezão. Ela sem ele trabalha e sai com as amigas; ele sem ela surta e não sabe o que fazer do seu tempo livre. Quando me dei conta, estava torcendo por eles, ou melhor, por ela. Parecia que desta vez ia, pra todo mundo. Mas aí ele resolveu sumir numa longa viagem, foi solteiro, aproveitou muito, e nos últimos dias começou a “snif, snif, eu a amo!”. Fiquei torcendo pra ela não cair na conversinha mole dele. Caiu, eu vi a foto. Mas romperam de novo. Ele está caçando. E ela postou, há pouco, uma foto num paraíso tropical, radiante ao lado de um homem mais maduro. You go, girl!

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Foi dos momentos de crueldade involuntária que vai me doer o resto da vida. Uma vez uma parenta me contou, rindo, que quando contou pro seu irmão dos chifres do namorado, ele lhe disse para abrir uma fabrica de botões, e fez um gesto de cortar chifres imaginários. Então, quando minha amiga que o recém ex-marido lhe colocou chifres demais ao longo dos anos, fiz aquele comentário. Eu sei, como eu sou idiota. Era um casamento com idas e vindas, e na verdade me parece que ela não ligava muito pros chifres. Mas aí o marido, no dia dos namorados, comunicou que ele e uma fulana, também casada, que fazia parte do mesmo grupo de amigos, decidiram ficar juntos. E deixou para trás mais de dez anos de casamento. Quando ela me mostrou a foto da tal fulaninha traidora, eu fiquei sem fala: uma moça linda, com seus vinte anos. Não entendi pra quê largar tudo pra ficar com aquele cinquentão feio, pobre e grosso. Minha amiga se mudou, ficou sem cachorro, arranjou novos amigos – os antigos não cansavam de encher a tl dela com fotos do novo casal – e passou a ser figura fácil na noite curitibana. Adora samba e negão. Dois anos depois, a fulaninha foi embora e ele está devastado porque a mãe está doente. Pra quem ele liga? Ela atende, porque gostava da sogra, mas só se não está ocupada.

Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

Um moreno

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Era uma festa de ciganos e, como um espécie de presente, nosso anfitrião disse que quem quisesse poderia fazer uma rápida consulta com as ciganas. Claro que eu aproveitei. Não quis falar nada pra ela, queria ver aonde ia chegar. A cigana me conhecia apenas de vista e assim que olhou a minha mão disse que eu já tinha sido casada. Até aí, informação fácil. Depois disse uma ou duas coisinhas a respeito do meu casamento que eu juro que nenhum dos presentes tinha como saber, fiquei impressionada. Eu disse que falavam pra mim de um moreno que ia aparecer, mas que moreno demorado. Não lembro que termo que usei ao invés de aparecer, sei que ela me corrigiu dizendo que ele já me conhecia de alguma forma, apenas não via razão para se aproximar. No começo eu pensei: “Poxa, comassim moreno, me conhece e não me dá bola?” Depois eu gostei. Só por que me viu ou me leu por aí era pra mover céus e terras, ficar apaixonado à distância, me stalkear, ficar cheio de ilusões? Isso é coisa de gente louca ou carente, quem está bem segue seu caminho. Um dia, conversando comigo, aí sim poderíamos ver se rolava uma afinidade e faria sentido ele se aproximar de mim.

Foi então que eu descobri o quanto a minha visão sobre o amor mudou.

Do meio pro fim

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Harari cita umas experiências que indicam que o nosso cérebro não consegue avaliar uma experiência na sua totalidade. O que ele faz, na verdade, é dar pouco peso ao começo e fazer uma média do meio pro final. Segundo ele, esta tendência explicaria porque, apesar de reconhecer que a dor do parto é uma das piores que tem, as mulheres continuam parindo; elas dão pouca importância à dor e se fixam na que é a emoção de segurar seu bebê, etc. Isto também mostra que a gente reclama e acha eleitoreiro, mas os políticos que decidem trabalhar em véspera de eleição sabem mesmo o que fazem. Quantos filmes que pareciam bons enquanto assistíamos foram arruinados pelo final, ou vice-versa? As pessoas se casam, tem filhos, constroem uma vida juntas e, quando termina, o outro vira um monstro que só lhe fez mal. A média final de um casamento, com o terrível processo de divórcio, é o oposto da contabilidade que uma mulher faz quando pari… Caso você tente dizer que “um dia deve ter sido bom, senão vocês não teriam ficado tanto tempo juntos”, a pessoa vai bater no peito e dizer: É sim, foi péssimo, desde sempre, eu sofri muito!

Ok, é a tendência natural do cérebro, entendi. Mas existe um caminho menos imediato, de não sujar a história toda por causa do final. Conheci uma moça dançando, antes dela entrar na faculdade. Era daquelas adolescentes que passavam o tempo todo se queixando que era encalhada e feia. Passou num curso disputado, conheceu um veterano, namoraram quase até se formarem. Acompanhei de Facebook: fotos sorridentes em passeios, com os amigos, com a família, tinha até charge dela vestida de noiva. Quando a reencontrei: “Nossa, você não sabe o que eu passei, me livrei, aquilo foi um atraso na minha vida, um castigo!”. Eu me pergunto do que ela se queixaria caso tivesse ficado completamente sozinha durante esse período… Vejo que quem não joga sobre a sua história toda mágoa do meio-final se sente mais feliz. O que seria isso, uma reprogramação cerebral?

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…