O sonho burguês

O sonho burguês nos trai. Descobrimos que o nosso trabalho mal nos sustenta, quanto mais salvar o mundo. Que o nosso talento não é tão grande assim, pelo menos não o suficiente para nos tirar da multidão de anônimos que sai de casa e volta para casa justo no horário de maior movimento. O amor eterno não dura e vira lembranças negativas, traumas, cinismo na hora de começar novas relações. Ou, durante a relação, descobrimos que chulé quebra qualquer clima, junto com as toalhas molhadas, o som do secador de um enquanto o outro tenta dormir mais um pouco, ter que aguentar parente chato que nem é consanguíneo nosso. O sonho burguês nos leva a nos conformar em não ser realmente bonito, contanto que se possa pagar por coisas bonitas, quem sabe comprar alguém realmente novo e bonito para nos fazer o favor da sua companhia. Mas, se não passarmos pelo sonho burguês, como saber. Pior do que ser iludido pelo sonho burguês é nunca chegar até ele, e sonhar com emprego, o príncipe, a casa, os filhos, o amor eterno para sempre. Todos temos o direito a viver um pouco do sonho burguês.

suelo

As multidões de meia dúzia

antes e depois do role

Eu achava que era uma tímida muito bem resolvida, mas eis que depois de velha descobri um outro grau. Existem alguns grupos de amigos famosos, como por exemplo os da escritora Virginia Woolf, que se chamava Bloomsbury Group. Só gente interessante, bacana, influente em diversas áreas. Aí você lê sobre eles e imagina que conversas divertidas, que nível, e que sem dúvida a presença de um engrandeceu a obra do outro. Existem correlatos em todas as áreas, os nossos baianos e tropicalistas, os nossos escritores e poetas. Eu olhava para essas histórias e invejava, pensava que era uma pessoa que nasceu na época errada, ou pelo menos na rua errada. Quem sabe se pudesse pelo menos encontrar a turma do Milton, lá em Porto Alegre.

Hoje sei que não falta um grupo para chamar de meu e sim uma capacidade de me sentir parte de um. Não é culpa dos outros e sim minha. Mais de meia dúzia é sempre multidão pra mim, mesmo que eu conheça cada um deles. Achei muito exata uma pesquisa que li que dizia que o extrovertido, numa festa, experimenta quantidades crescentes de adrenalina, enquanto a do tímido despenca em poucas horas. É exatamente assim que eu me sinto, é físico: as pessoas ficam cada vez mais animadas e eu me sinto alheia. Se tento me misturar a sensação piora, fico alegre por fora e indiferente por dentro, uma expansividade fingida, uma parte de mim me observa no canto e faz sinais negativos com a cabeça. Enquanto tímida muito bem resolvida eu ficava em casa, enquanto tímida que tentava corresponder aos apelos do grupo, eu me sentia cada vez pior com a minha incapacidade de sentir como eles sentem.

Curtas sem black-friday

Não sei se as compras online me estragaram, ou se faz parte de ter vivido muitas coleções primavera-verão, mas o fato é que não gosto mais de araras cheias de roupas. Tudo me parece igual, me dá preguiça de explorar, as sutilezas entre as diversas opções me parecem mais do mesmo. Me pego tendo que ir na loja virtual da loja física pra encontrar lá e, quem sabe, conferir no shopping…

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Decidi revolucionar e dizer Não para todas as confraternizações de fim de ano. Ainda faltam algumas, mas o saldo é positivo. Quando as pessoas percebem que não estou indo para nenhuma, decidem que sou uma pessoa dura de dinheiro e antissocial (verdade e verdade) e não que eu não gosto daquele grupo em particular. Ou seja, muito mais impessoal, ninguém fica ofendido.

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Meu prazer de pequeníssima autoridade tem sido verificar o perfil de gente que pede para entrar em alguns grupos de Facebook que eu herdei. Votou verde e amarelo misógino? Não entra. Eu não recuso, apenas não aprovo, que é pra pessoa não ter certeza de ter sido barrada e ficar alimentando esperança.

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Como disse um amigo meu, passei incólume durante décadas a todos os modismos de brinquedos, aos super heróis, às febres das marcas que exploram a nostalgia dessa nova geração adultecente. Passei, não passarei mais. Estou completamente apaixonada pelo bebê Yoda. Gastar dinheiros em Yodinha eu vou.

 YODINHA

Keanu Reeves

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A esperança e o otimismo teimoso tem sido meu alimento. Tento manter uma distância saudável das notícias ruins, mas mesmo que eu não veja as diversas versões dos pais chorando em rede nacional, chega até mim nem que seja pela tristeza dos meus amigos. Tem os desmandos do governo, mas aí a luta dos nossos hermanos me anima, mas ler gente dizendo que manifestantes “alguma coisa fizeram” para merecer levar tiro no olho me joga para baixo de novo. Keanu Reeves. Primeiro ano da minha vida que todos os que eu conheço concordam em dizer que foi ruim, que tomara que venha um novo com outra vibe. Digo que quem terminou esse ano normalzinho, sem nenhum problema grave na vida pessoal, sem nenhuma grande despesa ou doença, já terminou no lucro. Eu tenho me segurado, tenho rido de teimosa, nadado porque continuar é a única alternativa. Eu sempre penso nas bactérias que conseguem ficar aparentemente mortas, às vezes durante anos, porque as condições para a vida são desfavoráveis. Penso a cada noite em dar fim neste blog, porque está extremamente difícil escrever, e acabo continuando justamente porque esta extremamente difícil. Tenho me esforçado noite e dia, tenho cumprido meu dever sem a menor esperança de resultado, sem ver nem sombra de luz.

Mas aí, sem esperar, recebi uma boa notícia. Nem é comigo, mas é como se fosse. Bateu um vento na fresta e renovou um pouco o ar. A vida é possível, a esperança é possível, a mudança existe mesmo que imperceptível. Seguimos.

Koan

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Há um koan – que é uma questão não para ser respondida e sim meditada – que pergunta “se uma árvore que cai numa floresta, e não tem ninguém lá para ouvir, ela realmente faz barulho?”

Ao longo da minha vida, este koan me remeteu a muitas coisas. Eu já tive momentos de sair cedíssimo de casa, resolver mil coisas o dia inteiro, voltar para casa à noite e ainda ter mil outras coisas para fazer, assim como já tive momentos de acordar e olhar para o teto sem saber o que fazer para as horas passarem. Dias de ter apenas os meus fantasmas como companhia, meses dedicada apenas às burocracias da vida adulta, anos escrevendo coisas que nunca virão a público. Eu me pergunto: será que alguma coisa realmente mudou em mim e/ou na minha escrita? Solidão seguida de descobertas, assuntos novos, cadernos cheios de anotações… Se você aprende, vasculha, trabalha e, ao mesmo tempo, não coloca nenhum produto no mundo, a sensação é de apenas se olhar no espelho e se ver mais velha.

Ao lado do brilhante

Tem uma história meio difícil de entender, pelo menos na astrologia védica. O Sol é o sol, nossa essência, mas a védica o considera maléfico porque, dentre outras coisas, ele queima. Então um planeta ao lado do sol é considerado combusto, como se perdesse suas propriedades. A melhor explicação que vi a respeito dessa história de perder atributos é pensar em como é uma pessoa muito brilhante e extrovertida entrar num ambiente que ela domina, e ao lado dela está… eu. Quando a pessoa brilha muito, o quieto praticamente some ao lado dela, tem que fazer força para lembrar que ele também está na sala.

Sempre me perguntei o que eu deveria fazer, se deveria tentar me extroverter e brilhar. É a típica lose x lose situation: se você tenta se forçar e dar uma de extrovertido, sente que está sendo falso e forçando sua natureza; se você se acomoda, se acusa de ser mesmo um inútil, um nada, um bosta. Um dia vi este debate entre o Darcy e o Rubem Alves e me convenci que, embora a situação continue sendo lose x lose, o melhor que um introvertido tem a fazer é se recolher no seu cantinho e deixar o outro brilhar. Tentar competir com o sol só nos diminui pelo contraste.

Band-aid

bandaid

Ela estava numa onda de mau humor que não tinha nem mais o que dizer. Um dia, havíamos comentado sobre uma série na Netflix – ela estava meio chocada com o final e eu disse que então não veria agora, porque não estava podendo. Aí, na compra seguinte, eu comentei de série e ela me disse que estava sem Netflix porque estava sem internet. Aí numa outra conversa isso veio à tona de novo – de estar sem Netflix por estar sem internet em casa. Pouco depois começou o mau humor, e pensei em coisas graves que acontecem na vida e que nos fazem atrasar as contas. No primeiro dia brinquei, e ela me deu um sorriso forçado ostensivo e me senti a cliente chata que quer se fazer de íntima. Nas vezes seguintes, dei a simpatia mínima, sem puxar assunto, pra ela não se sentir forçada a nada. Foram semanas, e quando se é cliente habitual semanas significam muitas interações. Comecei a temer por ela, porque ficar sempre de cara fechada se torna um hábito difícil de combater.

Um dia, sem aviso, ela me atendeu de excelente humor e olheiras. Disse que estava morrendo de sono. Na vez seguinte, a metros do balcão, eu vi olheiras muito pretas, que ela nunca tinha tido. Não pude deixar de falar que estavam enormes, que ela havia se tornado praticamente olheiras pretas enormes. Ela riu. Eu disse que era cara de quem havia dormido duas horas. “Você quer dizer que eu dormi duas horas da manhã ou que dormi duas horas antes de vir?”. Bom, dava pra entender.

No outro dia, já com cores mais bonitas no rosto, eu lhe perguntei se ela havia finalmente dormido. Sim, um pouco mais, mas não tudo, etc. No meio da conversa animada, vi que havia um band-aid no pescoço dela. E esse pescoço aí? Ela colocou a mão, puxou a gola pra cima e deu um sorrisinho maroto. Eu sorri também e disse que não falo nada.  Saudades de perder noites de sono por motivos felizes…

As pessoas-ilhas

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Quando eu vejo ruínas de antigas civilizações, tento imaginar como era pro cidadão que vivia lá. O egípcio ou o romano que saía de manhã cedinho e passava pelos portões de pedra, que olhava para areia em todo lugar ou aquedutos, e olhava para o mundo à sua volta e imaginava que seria sempre daquele jeito. Porque vemos as ruínas e pensamos no final, em quando estava se desfazendo e esquecemos que muitas vidas passaram por ali e viveram um período totalmente estável. Até a revolução francesa, que nos parece que foi um banho irrestrito de sangue, poupou alguns nobres, até mesmo nobres franceses. Eu fiz um passeio por uma cidade aqui perto – se lembrasse, diria qual foi – e visitei uma Casa Grande que pertenceu a uma ordem religiosa. Ainda havia restos das paredes aonde os escravos viveram e a casa em si tinha paredes inteiras decoradas. O interessante é que a ordem saiu de lá e durante quase um século a casa fosse gerida pelos seus próprios escravos. Ou seja, durante muitos anos, que sabe a vida inteira de alguém, viveram negros que não eram escravos na época que todos os negros eram escravos. Negros que puderam sonhar, fazer as suas coisas e quem sabe nunca tenham vivido a decepção da casa ser vendida e se tornarem escravos comum. Um negro que acordava cedo e passava por aquele gramado com a mesma confiança do egípcio e do romano. São vidas que são como ilhas, diferentes do que acontece à sua volta, isoladas. Fico curiosa sobre elas. A gente grita tanto por aí que a realidade é a maioridade estatística, que a realidade é tragédias, cidades poluídas e frias, boletos, lutar contra tudo e todos; quando encontramos alguém que não vive assim, que mesmo adulto é alegre e saltitante, dizemos que uma hora ou outra a realidade vai arrancá-lo da sua alienação –  porque a vida tem dessa crueldade, de perscrutar cada cantinho. Mas não, alguns realmente conseguem escapar e viver uma vidinha perfeita. Sorte deles.

A lavanderia

Você já tentou, sozinho, gerar lucro? Eu já. Ao invés de ir de táxi e incluir nos custos, eu fazia tudo de ônibus. Quase duas horas só de ida. No começo eu sentia sede e comprava alguma coisa, depois passei a levar garrafa d´água. Eu percebi que fazia péssimas escolhas com fome e pressa de voltar pra casa, então comecei a comer e me programar pra ficar mais tempo fora – mas sempre o lanche na lanchonete baratinha. Ia na loja de tecido mais barata e comprava os retalhos. E, claro, para economizar viagem, comprava estoque para meses e levava tudo na mão, em sacolas pesadíssimas. Vendia para conhecidos, levava na mochila. Administrava eu mesma a página, os moldes, a máquina de costura. Não obedecia horários, ignorava fins de semana. Enfim, tudo o que eu pude fazer para cortar custos eu fiz, e logo percebi que o que eu podia era muito pouco. O lucro que uma pessoa consegue gerar individualmente é um nada.

Mas se você pensou que a saída é ter uma confecção inteira, com dezenas de funcionários, máquinas de costura e rolos de tecido direto do fabricante, também está sendo ingênuo. O lucro que se gera por trabalho ainda assim não é o lucro dos bilhões. Porque a exploração do trabalho e o corte de custos tem um limite. O capitalismo entrou num grau de desenvolvimento e descolamento do trabalho tão grande que não é mais o trabalho que gera dinheiro, pelo menos não nas grandes quantias. Não, os 4% de pessoas que são mais ricas do que os 96% no mundo não estão lá porque trabalham bastante ou são geniais e criaram produtos que todos consomem.

O filme A Lavanderia, da Netflix, fala um pouco sobre o mundo do dinheiro que gera dinheiro.

 

Uma pequena ajuda

Alguém tem alguma editora que aceite avaliar originais para me indicar? Veja bem, não estou dizendo que ela DEVE me editar, apenas que me deixe mostrar. Porque nem todas estão abertas a isso agora (ou sempre). São uns contos de realismo fantástico, um material inédito que só eu e Deus lemos.

e-mail: caminhantediurno@yahoo.com

revisão

Meu histórico com editoras é o seguinte: puxei pela memória e há séculos falaram comigo no twitter. Mas quando isso aconteceu, eu não pensava em escrever nada. Fiz umas tentativas e recebi Sim apenas no esquema de co-edição, e não entrei. Primeiro, porque eu não tinha o dinheiro que me pediram, o que tornou a decisão bem fácil. Segundo, porque me conheço e sei quão péssima vendedora de mim mesma eu sou. Precisaria ficar insistindo, publicando, falando que o livro é o máximo e não faria nada disso. Entre ser minimamente a autora que fica enchendo o saco dos amigos e ficar com tudo encalhado aqui em casa, certeza que faria a segunda alternativa. Vocês leem o blog, me conhecem: pra qualquer coisa que eu faço, sou o exemplo da confiança? Estou sempre me achando pouco e que o que faço é uma porcaria. Minha auto-crítica é gigantesca. Ela me faz trabalhar exaustivamente atrás da perfeição, ela me faz péssima vendedora. Mesmo raciocínio pra ideia de fazer publicação virtual; na prática, seria igualzinho deixar aqui no blog – ou seja, de graça e sem um pingo de perspectiva. Alguma luz?

Errando bem

calvin fazendo lição

Eu era uma boa aluna de matemática e foi como se tivesse sido jogada num poço quando a física entrou na minha vida. Sempre fui boa aluna e antes disso não conhecia o sentimento de não conseguir entender nada. Era demais, num nível que eu nem ao menos conseguia disfarçar. As fórmulas não faziam o menor sentido pra mim, eu não conseguia transformar as histórias dos enunciados nos números. Pro carro que ia de Curitiba a São Paulo a não sei quantos quilômetros, eu sabia somar tudo e dividir, apenas. Eu adoro estudar, adoro assuntos novos, mas minha maneira de aprender sempre foi a de tentar entender o todo e com a física talvez eu não tenha inteligência pra tanto. Enfim. Foram tantos anos de tentar reconstruir, não entender e fazer errado, que chegou no vestibular e eu não sabia fazer uma única conta. O que eu fiz foi repetir todas as minhas contas erradas e, com elas, ter certeza do que eu deveria eliminar. O que sobrava possivelmente estava certo. Pra época, foi o suficiente.

Curtas de boi preto conhece boi preto

boi preto

A expressão que está no título me fascinou desde a primeira e única vez que a ouvi, não sei se é uma expressão comum. E, no contexto em que foi dita, também não sei se é verdade. Não sei se vocês lembram, mas tinha uma época que a Giseli Bündchen namorava o DiCaprio. E o Clodovil disse num programa que era um namoro de fachada, que o DiCaprio era gay. De onde ele tirou aquilo? Boi preto.

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Boi preto que conhece boi preto. Li o mapa astral de uma amiga que tem um Saturno muito forte. Contei pra ela todos aqueles atributos: velho, sério, lento, rigoroso, espartano e também confiável, compromissado, capaz de grandes feitos. Diagnostiquei que ela foi uma criança séria, que se dava bem com gente mais velha porque sempre se sentiu velha. Quase sem sentir, ela falou: “você também tem um Saturno forte no teu mapa, né?”. Ou seja, entendeu a beça do próprio mapa e de mim.

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Na minha família havia uma forma bem particular de fazer críticas. Digamos assim, eu estou usando um tênis feio com um vestido. Entende-se que não adianta falar que o tênis é feio, quem disse que eu tenho outro. A providência era me dar outro tênis, para que eu pudesse me livrar daquele e usar um certo. Então você recebia certos presentes e entendia o recado. Era bom e ruim ao mesmo tempo.

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Eu me toquei há pouco tempo que vááááárias vezes falei que me surpreendi em ver o quanto o pessoal da dança é convencional. Penso muito em referências de teatro. Ator entrega o corpo de uma maneira muito mais radical. Perto de um ator, ainda acho o bailarino muito vaidoso, muito com medo do ridículo. Mas, enfim, estou sendo uma chata porque só sei dizer que é pouco, eu nem ao menos saberia explicar o caminho.

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Ouvi a pergunta extremamente pertinente do porquê fazer um mapa astral. Pra auto-conhecimento. Eu, por exemplo, só tive real dimensão do quanto sou difícil com meu mapa.

Maracujás

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O meu muro dos fundos dá pra lateral do muro do meu vizinho. O pé de maracujá – não sei nem se é assim que se diz – dele escala o meu muro. Eu só sei como é porque está aqui: ele sobe no muro, vai se agarrando como trepadeira. A folhagem invade o meu terreno. As flores são grandes, com uns fios avermelhados. São muitas e caem muitas. Todo dia preciso catar flores no chão. Elas atraem uns bichos pretos, daqueles que zumbem de maneira assustadora e me disseram que a picada dói muito. Depois vem o maracujá propriamente dito, uma fruta verde que vai se pendurando por dentro da flor e vem surgindo como uma lâmpada verde e lisinha. Atrai bicho pra caramba também, o que também faz com que vá caindo. Cato flor, cato maracujá verde. Aí, quando eles estão grandes e começam a amarelar, eu acordo numa manhã e meu vizinho puxou todas as folhas, flores e maracujás de volta. Encontro meu muro pelado e o resto de alguma folhagem que caiu no chão.

Talvez você tenha ficado indignado com meu relato, o grau de egoísmo do meu vizinho. Sim, eu já pensei em falar alguma coisa. Se eu cato tanta coisa, ele cata ainda mais e sabe que isso acontece. Não custava nada, pelo menos, deixar que os maracujás que surgem do meu lado do muro ficassem comigo. Mas, olha, certeza que o que ele faria seria podar tudo pra não deixar uma folhinha entrar. Tem gente que prefere se prejudicar a dividir. Eu gosto das folhas por cima do meu muro, então deixo quieto.

Aquele 1%

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Eu topei fazer um bico que parecia muito simples e rápido, e quando percebi tomou minha semana. Teoricamente, eram apenas duas horas e meia. Mas todos os lugares eram longe e geralmente eu levava uma hora dentro dos ônibus. Coloque aí a cada dia era um lugar novo e dava trabalho descobrir como chegar, que eu tinha que acordar cedo e tomar banhão. Uma vez lá, eu precisava conversar antes, conversar depois, passar num segundo endereço carregando quilos de papel… Resultado: deixei quase tudo da minha vida pessoal de lado, chegava em casa esgotada e passei a semana inteira comendo mal, porque estava cansada demais pra cozinhar e sem tempo de fazer supermercado. O bico envolvia entrar em sala de aula e lidar com adolescentes, algo que basicamente não fazia desde que eu mesma era uma adolescente em sala de aula.

Este post é uma forma de auto-crítica. O primeiro dia não foi muito legal, cheguei em casa bastante cansada e meio arrependida de ter topado. Os alunos conversaram quase o tempo todo, com direito a duas adolescentes que olhavam pra mim e riam. Não era apenas o meu primeiro dia e sim de tudo; eu e os outros estávamos ansiosos com a quantidade de procedimentos. Só que o segundo dia foi excelente, o terceiro dia também, no quarto dia eu praticamente me apaixonei. Já estava me sentindo A Grande Educadora, uma pessoa que entra numa sala de aula na maior, que sabe lidar com adolescentes, que se eu desse aula seria daquelas professoras super legais que todos gostam. Meu jeitão calmo e paciente transparecia e me bastava. Bastava amor e olhar os adolescentes nos olhos. Maravilha. Aí cheguei naquela que seria minha sétima turma.

Bem. Até onde eu me lembre, nos colégios que eu estudei, eles jogavam todos os repetentes e alunos difíceis nas últimas turmas. Essa que eu fui era E. Depois encontrei com professores e eles confirmaram a minha impressão. Foi um inferno. Foi tudo aquilo que se fala de adolescentes. Foi tudo aquilo que se fala de repetentes. Foi tudo aquilo de ser esmagado como profissional, chegar para fazer um trabalho e não conseguir realizar direito. Foi tudo aquilo de ser esmagado como pessoa, de sair bem de casa e se ver obrigado a exibir seu lado ruim, perder a calma e ficar com o humor estragado durante dias. Foi desejar poder ser um militar dentro da escola pra poder dar uma ordem ou até mesmo descer o sarrafo. Foi desejar mentalmente que alguém que eu nunca via antes na vida se ferre e tenha uma vida miserável.

Só que, pensando bem, não foi uma turma. Um bom número deles, quem sabe quase a metade, fez bonitinho o que foi pedido e não deram um piu. Sentados perto de mim, alguns conversaram, riam, mas pouco. Aquele sentado no meio da sala, que discutiu todos os procedimentos comigo e disse que faria o que lhe desse na telha, fez o que se propôs e ficou quieto no canto dele. Havia uma turma de meninos sentados atrás dele. Também pareciam mais velhos, alguns eram grandes, e eles ficaram conversando. Uma conversa que incomodava, voltava e voltava por mais que eu chamasse atenção, mas também nada contra mim. Quem realmente me deu problema foi um sentado num canto. Ele era enorme, claramente mais velho e implicou com tudo. Discutiu, questionou, alegou problema de saúde, ironizou, liderou os que sentavam perto dele, jurou que iria sair da sala quando lhe desse na telha. Era aquele tipo de pessoa que se sente crescer em conflitos.

Lidei com uma centena de pessoas durante a semana, e na hora de comentar sobre o assunto com os amigos, tenho praticamente só falado da última turma. Última turma que é basicamente uma versão contaminada do que um adolescente difícil fez. O que é a mente humana, essa tendência a se fixar no ruim, a dar palco justamente ao que queremos longe.

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Curtas levinhos

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Vi um vestido num site e gostei. Adorei o modelo, a cor, as bolinhas, a descrição do tamanho era perfeita, os detalhes, as opções de cores. Fui olhar a avaliação dos clientes e tinha inúmeros depoimentos, com fotos, todas garantiam que o vestido é bonito mesmo e cai bem. Mas um dos elogios me fez tirar o botão do comprar e olha, quase não comprei mesmo: “Lindo vestido, perfeito para ir a igreja”. Pô.

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Eu peguei um ônibus pra uma região que nunca fui antes, na Cidade Industrial. Mais de meia hora no ônibus, no meio do nada, horário apertado, tudo merda. A cobradora mentiu descaradamente quando disse que não sabia me dizer onde eu deveria descer porque havia um muro enorme pintado com o nome do local. Mas, no final, quando estava para descer, fiquei esperando bem para olhar pra cara dela e ia agradecer. E era capaz de sair sincero. Por que? Mesmo sentimento do dia que olhei pelo portão e a Dúnia tinha fugido. Ela estava na frente de casa, cheirando a grama, sem nem ter o que fazer com a tal liberdade. Não tinha forças para brigar, o alívio por ter dado certo suplanta tudo.

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Eu acho que sofro bullying dos lixeiros. Tive que colocar dois lixos dia desses, porque comprei dois côcos muito grandes e eles não cabiam no mesmo saco. Só recolheram um. Por outro lado, quando me separei e colocava sacos ridicularmente pequenos, eles também não recolhiam. Teve uma semana que eu voltava pra casa e tinha um rastro de lixo na frente de casa. Mas aí depois descobri o valor de investir em sacos de boa qualidade, o saco de lixo lixo arrebentou assim que tentei levar de volta pra dentro.

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[…] Já estava começando a reclamar de novo e parei. Tô muito cansada. Como é difícil ser leve com falta de sono.