O mar da ignorância

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Não são poucos os que tem desanimado. Do meu ponto de vista, um dos muitos motivos para o encolhimento dos blogs é a falta de diálogo, pra quê ter o trabalho de escrever um texto, se expor e levar pedradas. Porque o problema não é discordarem – uma discordância bem fundamentada é até estimulante, mas hoje o debate anda raso como torcida de reality. Pra não nos sentirmos remando contra um mar de ignorância, cada um tem falado com seu próprio grupo, seus amigos, sua bolha. Mas, ao mesmo tempo, justamente agora é importante falar. Se você se retira, o espaço é preenchido por alguém que pode ter muito menos a dizer. E há algo que eu acho muito importante, quase do mundo ideal: não ser agressivo. Eu sou mulher, e me sinto agredida quando apoiam candidatos que dizem que mulheres deveriam ganhar menos e que consideram o estupro uma forma de mérito. Eu me sinto agredida quando desvalorizam negros, nordestinos, pessoas de baixa escolaridade e/ou baixa renda, homossexuais e minorias em geral, porque também me sinto uma minoria. Mas eu sei que o que o outro lado espera de mim é que eu me descompense. Isso só vai reforçar o que já pensam; minha atitude agressiva seria como um “ela começou”, “são todos assim”. Soa meio como Gandhi, eu sei. É a minha pedrinha em meio ao que estamos vivendo, o que eu consigo fazer para não me omitir e conseguir ser feliz. Por favor, leitor, encontre a sua.

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Umbiguismo

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Uma vez comemorei o primeiro post do ano me propondo a fazer o blog diferente, mais leve, mais como trato com meus amigos. Não apenas não consegui porque foi um ano de porrada na minha vida pessoal, como depois um amigo (?) citou aquele post como prova inconteste do meu umbiguismo. Então me vejo diante da obrigação de escrever o primeiro post do ano sem saber o que dizer. Tal como naquele ano, gostaria de dizer algo diferente. Sempre quero dizer algo diferente. Eu me canso de mim, dos temas que eu falo e dos temas que sou incapaz de falar. Não sei como vocês aguentam tanta história de ônibus. Mas temos sido insistentes: vocês em lerem histórias sobre ônibus, eu em tentar me espremer apesar das minhas limitações. Nós temos nos divertido, não é verdade? Passei da fase de ameaçar não escrever mais e blablablá porque eu sei que preciso. Vamo que vamo, tem gente que gosta de umbigo.

Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

Venha, sol!

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Li em algum lugar, acho que dito por Jung, de uma tribo que acreditava que toda manhã precisava pedir para o sol nascer e assim a vida prosseguir. Que de primeira ele achou idiota, depois achou bonito se colocar num lugar tão atuante com o mundo, uma afirmação diária de que o dia merecia amanhecer. Eu desenvolvi ao longo dos anos uma insônia que não me permite dormir sem ter postado. Criei uma disciplina pra um blog não remunerado e de pouco acesso e escrevo 1h da manhã sem que ninguém mande. Será que um dia um desses que precisa acordar o sol não perdeu o horário e quando viu o sol já estava lá e descobriu que o sol não se importava?

Curtas escritos nas estrelas

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Na busca por novos posts no blog, que quase sempre me atormenta quase à meia noite, hora que gosto de postar, comumente quero procurar outros blogs para ver do que eles estão falando e ver se me inspiro. Ultimamente, como era de se esperar, não há um único. Os que continuam vivos postam uma vez por bimestre, sei lá. Só eu continuo aqui. Insanidade, persistência?

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Sei umas coisas de astrologia e sempre usei para consumo próprio. Recentemente, numa conversa em grupo de whatsapp, me vi analisando três mapas. Assim, na brutalidade, olhava e falava o que me dava na telha. Num deles, necessidade de amigos, de contatos, de amor, de dividir, de… e me conscientizei do quanto o meu mapa é solitário. Tem arte, tem literatura, tem até amor universal, mas eu cá e vocês lá.

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O que me remete a amiga que me manda mensagens falando de amizades verdadeiras, duradouras, imagem de amigas bem velhinhas. Tenho vontade de avisar: você realmente não sabe com quem está lidando.

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A cada dia que passo, me pareço cada vez mais com o Touro Ferdinando. Já fui o Sapo Cantor, hoje sou Touro Ferdinando. Pro bem e pro mal, o tempo faz com que o importante se reduza a duas ou três coisinhas.

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Tive um sonho. Nele um ex-crush (uma história que eu me interessei, me aproximei, me encantei, descobri coisas e terminei tudo sozinha) escreveu (era como se fosse numa folha de almaço) que acompanhava vários blogs, cita uma amiga minha que trabalhava com internet e depois coloca um nome que parece Caminhante Diurno. Olho fixamente, a imagem está borrada, eu me esforço, aquela dificuldade dos sonhos. No fim, é um outro nome. Sinto uma dor profunda no coração: meu blog é desconhecido.

23:30

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É raro que eu escreva de dia, mais raro ainda que seja com antecedência. Não adianta tentar me antecipar; eu passo o dia fazendo as minhas coisas, e por volta das 21:30, independente de como foi o meu dia, me dá um sono mortal. Meu organismo sem dúvida foi feito para dormir esse horário e acordar de madrugada para arar um campo. Superado esse sono mortal, faço as minhas coisas, leio, navego na internet, fico com sono de novo e estou quase indo pra cama e lembro – hoje é dia de post. Solto um gemido de insatisfação, começo a andar pela casa, sento no sofá, espremo cravos na frente do espelho e não paro de repetir para mim mesma: “preciso de um post, preciso de um post, preciso de um post”. Passo em revista vários pensamentos do dia à procura de algo escrevível. Adquiri inclusive o requinte de olhar os últimos textos do blog para tentar não me repetir, em tema ou forma de escrever. O post finalmente vem, nunca antes das 23:30 e me sento para escrever, o que me tira completamente o sono e me leva para a cama depois das 24h, me revirando em pensamentos provavelmente até 1h da madrugada.

[post deletado]

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Escrevi porque estava me incomodando. Porque acordei pensando, fiquei sensível, me levantei pensando, me doendo e escrevi. Escrevi e depois tirei a parte que usava um termo mais claro. Começava com um exemplo bem racional, colocava uma posição sobre o assunto e em seguida eu dizia que não dava, que por mais que soubesse a posição racional não era assim que estava por aqui dentro. Tinha desabafado. Não iam interpretar errado. Quem sabe nem chegasse lá. Se chegasse, ia ser por uma pessoa que gosta de mim e que não seria maldosa no resumo. E, mesmo se fosse, iriam conferir. Veriam aquele primeiro parágrafo racional, eu apaguei a palavra pesada. Não é uma empresa e um monte de gente maldosa, cobras, é outra relação. Não iam maldar. Ia continuar tudo bem, é o meu espaço. Todo mundo na mesma situação ficaria assim. Eu teria empatia. Depois de um dia inteiro meio doendo e olhar para o vazio, tive que sair, pedindo aos céus forças para fazer uma cara boa e fingir um bom humor que não era o meu no dia inteiro. Horas depois, cruzo a porta de casa, completamente outra. Post deletado. Pra quê. Como o Kibe me aconselhou uma vez e com uma sabedoria incrível: não deixe que percebam que você sentiu o golpe.

Curtas de amar é voltar

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Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?

Não colabora

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O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Curtas do cachorro esnobe

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Já perceberam que os posts profundos são seguidos por posts bestas? Faço por querer, senão vocês não me aguentam e vão embora. Porque euzinha, por mim, ficava falando profundidades o tempo todo (cof, cof, cof).

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Ainda sobre posts: já comentei, acho que no twitter, que se não fosse a pressão da sociedade eu seria tranquilamente o tipo de pessoa que dorme às 21h. Tenho que completar: a sociedade e a procrastinação. Mania de só escrever post perto da meia noite.

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Me deram uma dica tão boa e inesperada que fiquei com vontade de criar um post só pra ela, igual fiz no post Dicas e quebra galhos. Mas vai ser muito difícil juntar essa informação num post, então lá vai: para acabar com o problema de calcanhar rachado, passar Vick Vaporub após o banho, como se fosse hidratante.

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Outra inesperada: Estou aguardando para dançar num jantar, toda montada de flamenca. O chef nos oferece a entrada, um pãozinho com patê de beringela. Recuso: “Não posso, por causa do aparelho. Se eu comer agora, vou ficar com os dentes cheios de comida”. Aí ele me responde: “Vai mesmo. Eu sou ortodontista.”

Curtas sobre Fal e Karnal

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A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

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O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

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O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

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Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

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Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

Uma ponte

A Suzi me enviou o link no final da tarde ou à noite, lembro que não tinha tempo para ver. No dia seguinte, vejo a mesma recomendação no blog do Charlles. “Nossa, deve ser bom mesmo!”. Aí, quando pude, sentei confortavelmente e vi a entrevista inteira do Leandro Karnal. Sobre o conteúdo, deixo vocês se deliciarem sozinhos. Eu já tinha visto o nome dele aqui e lá, e terminei a entrevista fã. Este post quase foi sobre o quanto o documentário sobre a Vivian Meyer e um amigo parisiense desajustado que Paul Auster descreve em O inventor da solidão me tocaram. Eu estava para dizer que, tal como eles, também me sinto presa ao mundo produtivo por uma linha muito tênue. Depois vi uma frase da Kahlo, que ela diz que se sentia uma estranha, e que depois descobriu que outros se sentiam também, então que vissem o trabalho dela e soubessem que não estavam sós. Foi nisso o que a entrevista do Karnal me serviu como bálsamo: eu não estou só. O mundo não é só ódio e histeria. Existe espaço para a inteligência, a cultura e o bom senso.

Pudor

troche

Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Curtas pra reclamar

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Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

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Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

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Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

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Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

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Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Casa nova e Paraísos

Fiz cagada com a mudança de Caminhante Diurno para At., Caminhante. Eu mudei a URL do blog sem saber direito que o Blogger fazia isso, e quando eu vi já não dava para voltar atrás e – o que é pior – um link não dava para ir direito para o outro. Muita gente veio me dizer que o blog saiu dos feeds e não adiantava nada mudar o link, as notificações não chegavam mais. Isso sem dizer nos anos de referências por aí como Caminhante Diurno que eu não tenho como voltar atrás e dizer “ei, sou eu!”. Mas, enfim, acontece, também não era nenhum nome de um milhão de dólares.

Então deixa eu avisar agora, com mais antecedência: em breve, estaremos de casa nova. Estou fazendo um site novo no WordPress. Tá ficando legal. Estou na dúvida sobre comprar domínio e outros detalhes que me fazem não querer colocar o link ainda. Acho que vocês me matam se eu mudar de Blogger pra WordPress e de WordPress pra .com em tão pouco tempo, né? Então, coming soon. Estejam avisados.

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Hoje é aniversário dela, da amada Fal. E hoje vi também este vídeo do projeto novo dela, o Paraísos de Papel. Sei lá, a gente vai envelhecendo e ficando besta. Chorei vendo o vídeo e pensando nas citações que elas não falaram mas que talvez adivinhe, no amor, no diabo, nas horas contínuas de leitura quando adolescente, na solidão acompanhada que é ler… Mas não quero ser repetitiva e nem estragar o vídeo. Clica aí.