Um sonho muito simples

una vida chiquitita y normal

Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

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Arrelia (também serve Tiririca)

Um autor, claro. Daquele que com a sua aldeia consegue descrever o mundo, um retrato da sua época e atemporal ao mesmo tempo. Se não pudesse ser um grande autor, pelo menos alguém que passa a sua vida cercado de muitos deles, pelo que produziram. Um professor universitário. Um pesquisador. Ou quem sabe um advogado, profissão que também se cerca de livros, linguagem, códigos. Se for para dar as costas para tudo isso, em viagens por lugares exóticos, com línguas que jamais soariam familiares, ser transportado num olhar a outra realidade. Projetar realidades, construções, arquiteturas, influenciar a pessoa sem que ela sinta, com a mágica da combinação de cores e móveis. Desenhar o trivial e transformar em algo novo e surpreendente, um novo jeito de se sentar ou de se vestir. Salvar vidas, o que pode ser tanto num sentido biológico como simbólico, salvar a alma da ignorância ou dos seus próprios medos. Sendo nos sonhos as profissões tão grandes e tão nobres, eu não entendia quando via a entrevistas de palhaços – Arrelia quando eu era criança e o Tiririca quando eu já era maior – que diziam que escolheram ser palhaços porque não conseguiam imaginar algo mais bacana do que viver de fazer as pessoas rirem.

cidades

Sobre a tirinha: Macanudo é uma expressão argentina antiga, algo como “supimpa”. O autor, Liniers, batizou com esse nome apenas para colocar Supimpa no meio do jornal.

Consulta

dias-tristes

Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

Não colabora

cuando-la-imaginacion-no-colabora

O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Eu matei barata

Eu matei barata. Não apenas matei, como depois recolhi. Assim como também recolhi vários passarinhos que a Dúnia matou. Tive que contratar pedreiro, paguei, fiquei meses no vermelho. Lidei com problema de vazamento na privada, duas vezes, três vezes, quase tive o banheiro inundado numa –  na outra tive o sangue frio de esperar o fim de semana passar antes de dar um jeito. Percorro a cidade inteira de ônibus, em qualquer horário. Já despistei tarado no terminal. Caí da escada, caí de bike, fiquei encolhida de dor no sofá; passei eu mesma remédio nos roxos, preparei meu chá, esquentei a água da bolsa de água quente. Nas noites desse prolongado inverno, me esquentei apenas com cobertor; já nas noites frescas, dispensei carona e andei por ruas desertas observando o céu apinhado de estrelas. Eu não entendia qual era a relação de ser independente e mais seletivo na hora de querer companhia. Agora eu sei.

una vida chiquitita y normal

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

otro dia más

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Um lugar dentro de si

livros

Há de se amar a cultura, o conhecimento; geralmente identificamos isso como amar os livros. É que os livros nos permitem tanta coisa, são tão ricos, mas vamos fazer justiça: existem documentários, revistas, teatro, música, HQs, etc. O importante é amar a cultura, a informação, o estudo. Somos todos muito incultos. Somos sim, nós brasileiros, um país que investe tão pouco em educação e tem currículos tão defasados. Nós que temos atrás de nós gerações de incultura, nós que não lemos nem dois livros por ano, nós que não tivemos sociologia e filosofia nas escolas. E recentemente, nós que não precisamos decorar mais nada porque existe o Google. Não vou discutir o quanto saímos perdendo enquanto país porque isso é amplo demais pra este bloguinho. Quero falar da perda pessoal. Eu vejo que quem lê, quem tem amor ao conhecimento tem aonde ir quando tudo lhe falta. Essa pessoa pode estar sem dinheiro, sem amor, sem amigos, sem possibilidades, tudo dentro de si pode parecer escuro e sem perspectiva – mas ela tem interesses e esses interesses podem preenchê-la. Falo de cadeira. Ela pegará um livro do seu autor ou assunto preferido e isso lhe bastará por dias, horas, o tempo que ela quiser. Enquanto isso, o coração descansa e o tempo cura o que precisa ser curado. Ao contrário de tarja preta, não tem contra indicações e torna a pessoa melhor no final do processo. Seu universo se tornará cada vez maior. É uma espécie de poder, é como ter um refúgio dentro de si. Dá uma independência danada. Um bom livro, um lugar confortável, luz e está feito. Para mim, a falta desse lugar é a maior perda de quem não ama o conhecimento.

Eu era a confidente e consolo para as amigas com seus empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Eu estava sempre bem e elas não; elas ainda estavam em busca e eu casada, estabelecida, vida ganha.
Aí me separei. Eu não estava separada nem há um mês quando reencontrei uma amiga. Ela tinha levado o fora do noivo, um cara que morava em outra cidade e eles se viam a cada quinze dias. “Estamos passando pela mesma coisa, estou sofrendo igualzinho você.”
Agora estou separada e sem namorado, e minhas amigas me fazem de confidente e consolo de seus problemas com empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Afinal, estou sozinha e estável, já elas têm que ficar administrando relacionamentos.

 

Fronteira

O pessimismo desenfreado, de achar que se nada vejo na minha frente é porque não há nada, me parece sem sentido. Basta olhar em volta, ou olhar para o próprio passado. A nossa visão é limitada até para a nossa própria vida, planos e dimensões do Eu; que dirá sobre o que vem a seguir, das mudanças dos outros, das conjunturas mundiais e acidentes de percurso. O impensável e louco de um dia pode ser o totalmente natural e viável de amanhã. Crer que sabemos e controlamos todas as variáveis é de um sentimento de onipotência muito burro. Se nada sabemos do que vem à seguir, por que não acreditar que vem algo bom e que nos fará felizes? Dizem que pensamentos positivos atraem coisas boas.

 

Acho que o termo que melhor explica esse otimismo é . A fé é um apegar-se ao invisível e acreditar que seu fim nos será favorável, certo? Essa crença pode nos fazer rejeitar o mais ou menos por acreditar que o que vem pela frente é muito melhor. Com fé podemos olhar para o nosso presente medíocre e não nos deixar afetar por ele, porque andamos olhando o horizonte. A fé pode ser a única coisa que temos, quando o mundo inteiro desacredita de quem somos e do que ainda podemos. Mas – não pergunto retoricamente e sim na minha própria vida – até que ponto levar a fé, qual a fronteira entre o otimismo legítimo e a simples loucura? Eu não sei.

Inverno interno

Hoje eu quero cabaninha de coberta. Daquelas que a gente deita de lado, com as pernas encolhidas e enfia todas as pontinhas debaixo do corpo. Gosto de cobrir a cabeça e deixar só os olhos e o nariz descobertos. Por dentro dela, estarei abraçada com o meu cachorro de pelúcia e vestirei meu pijama de flanela mais quentinho. Meus olhos podem estar abertos, mas posarão imóveis sobre qualquer coisa como se fechados estivessem. Essa noite eu não quero ter razão, não posso e nem quero adivinhar o sentido oculto das palavras. Quero a imobilidade dos móveis e suas sombras. Lá fora, o vento uiva frio e mau e desse mundo não quero nada. Hoje conto com o meu próprio colo e meu próprio abraço, porque deles eu não duvido. Que nessa noite eu possa apenas ficar quieta e ser deixada em paz.

Uma versão muito pessoal

Eu deveria aprender, a todo custo, a gostar da solteirice. E não me descia. Me adaptei porque a gente se adapta a tudo nessa vida, porque não havia como negar que eu passava o tempo todo só. Mas daí preferir… Não me descia a pressão de entrar no Tinder, de arranjar alguém, de frequentar baladas (a mim e à minha conta bancária). Não me ia ser, nessa altura do campeonato, algo que nem ao menos admirava. O prazer de ser só era sempre procurar companhia? Mas deveria haver algum prazer nisso, nessa solidão cantada em verso e prosa. Tenho até amigos que são – que amam tanto seu estar só que diante da proposta de um relacionamento ou compartilhamento hesitam como quem recebe uma proposta de emprego em outra cidade.

 

Até que eu encontrei. Estava voltando pra casa depois de um dos meus muitos programas culturais. Pensei, por automatismo, como seria bom se tivesse alguém para dormir ao meu lado naquela noite gelada. Mas… ele estaria voltando comigo do balé, sendo que homens odeiam balé, do cinema alternativo, sendo que esses filmes loucos levam mais de duas horas e são pouco digeríveis, do concerto, sendo que quase ninguém que eu conheço realmente gosta de música clássica, do flamenco, sendo que até pra mim às vezes é meio demais? Aí percebi que tenho lotado minha agenda de grandes momentos meus, que decido de última hora, que vou e ninguém fica sabendo, que não é preciso avisar, agradar o outro ou me preocupar com o que vão pensar. Misturar vidas dá trabalho e requer dedicação. Naquele instante, seria realmente bom ter alguém esquentando meus pés, mas na manhã seguinte talvez eu precisasse dizer para ele ir embora, porque tenho mais o que fazer. Nem que esse ter o que fazer seja apenas me esparramar no sofá com um livro. Meu sofá, meu livro.

Resposta

Eu fui ao supermercado quase às 20h no domingo, sem saber que estava quase fechando. Não fui porque era uma compra urgente, fui porque estava insuportável em casa. Eu me debatia com uma questão tão íntima, tão pessoal, que não havia nem como explicar. Poderia definir (beijo, professor Clóvis) como uma questão ética, em que eu tinha pelo menos duas premissas razoáveis e não sabia a qual delas dar prioridade. Depois de tantas mudanças na minha vida, o que manter, o que mandar às favas? O que incluir no pacote do meu novo eu, até onde eu consigo ir? Eram questões dessa natureza. A impossibilidade de me decidir estava me matando. Eu peguei minhas compras e fui para a fila das cestinhas. Só tinha uma pessoa na minha frente, mas os caixas estavam fechando e apenas um estava atendendo. E enquanto eu segurava a minha cestinha, chateada da vida, colocaram uma música no alto-falante do supermercado. Uma música meio antiga, nada a ver com música ambiente e que eu não ouvia há anos. Nossa. Nos primeiros versos a música respondeu de maneira tão perfeita todas as minhas dúvidas que eu comecei a rir. “Essa foi pra mim, Universo, entendi. Muito obrigada!”

O passar dos dias

Houve uma época que eu era tão ocupada que doía. Passava o dia inteiro fora, correndo de um lado para o outro, pegando muitos ônibus, lanchando, almoçando fora, comprando livros, investimento atrás de investimento. No fim, nada disso me deu retorno financeiro, apenas o conhecimento de que eu sou outra coisa. E embora naquela época eu fosse caríssima, eu me sentia segura. Somos tão treinados a achar que o movimento, qualquer que seja ele, nos leva a algum lugar. Pensamos que se nos debatemos bastante, invariavelmente sairá algo útil dali. Como uma metáfora que ouvi uma vez do ratinho foi jogado no leite e se debateu a noite inteira, até que no dia seguinte ele havia transformado o leite em manteiga e assim conseguiu se safar. Por outro lado, com o raciocínio contrário, achamos que esperar, que dar um tempo, é sinal de fracasso e desistência.

Muito mais realista do que acreditar num possível ratinho, eu penso naquelas pessoas que são jogadas na água, perdidas em alto mar. Quem não sabe nadar se debate, engole água, afunda. Quem tem intimidade com a água sabe se manter imóvel e flutuar. Esperar é assim, ter o conhecimento e o auto-controle necessários para não se debater à toa e aplicar a energia da maneira e na hora certas. Meu maior desafio ao longo dos anos tem sido esse, o de aprender a esperar. Esperar eu até esperava, mas sempre como está esperando o sinal para a largada. “Será que” “E se” “Mas”. Esperava porque estava exausta, esperava porque simplesmente nem saberia para onde ir se resolvesse me mexer. Mas – va bene! – esperava, o que já é algum progresso.

Um dia você acorda e aqueles problemas insolúveis foram resolvidos aos poucos, um a um, apenas pelo passar dos dias.

Não mate o mensageiro

 

A gente sabe que as mudanças são necessárias, que elas causam bagunça mas que ela é necessária, que ficamos um tempo sem rumo e que isso é necessário. Mas nada disso faz com que seja um momento ótimo, daqueles que a gente quer evocar quando fecha os olhos. Não posso me queixar do meu 2014 por isso, porque foi um ano necessário. O ano mais difícil da minha vida, o ano que vivi dores que eu desconhecia, eu que achava que já estava bem conhecedora do assunto. Minha vida virou de pernas pro ar e não sobrou quase nada do que eu achava que era essencial pra mim. Mas foi tudo necessário. Me tornei mais humana, passei a ter clareza do que realmente importa, me aproximei de quem merecia e deixei pra lá o que não merece espaço. Foi difícil mas cá estou, viva, e não apenas no sentido biológico. A vantagem de ter ido tão pra baixo, é que 2015 não tem como não ser melhor. Que venha!

Amor, estranho amor

Conversávamos sobre dança. Não apenas pelas nossas paixões serem próximas – dela dança cigana, minha flamenco – mas também por coisas que vemos no meio da dança – as disputas, o ciúmes, o esconder conhecimento, que caminham lado a lado com a delícia, o autoconhecimento e o brilho. À medida que o assunto avançava, eu me via falando que sou uma aluna muito dedicada, que minha professora brinca que é mais fácil ela faltar aula do que eu, que pego as coreografias rápido e tenho boa memória. Só que tive também a necessidade de dizer que isso não quer dizer que eu sou boa. Eu disse que tudo o que exigia dedicação e estar em aula era comigo, mas que isso não quer dizer que eu dance bem, muito menos que eu seja expressiva, e inclusive meu sapateado é péssimo.

 

Depois eu me dei conta do que fiz. E me dei conta de que se fosse falar de qualquer uma das coisas de que gosto de fazer – dançar, nadar, escrever, até mesmo costurar – eu diria o mesmo que disse a ela, que eu me dedico mas que não sou boa. Então eu percebi que o meu amor pelas atividades sempre vem assim, cercado de imensas inseguranças. Que minha autocrítica gigantesca nunca me permite dizer – eu amo, me dedico, e como resultado eu sou muito boa no que faço.

Como diria o Charlie Brown: que puxa.