Conhecimento prático

Não gosto de tomar remédio. Sou daquelas que usa spray de própolis quando a garganta dói. Não sei se é porque fui criada com homeopatia, mas os remédios mais comuns me dão péssimas reações adversas. Uma vez tomei um antibiótico – desses que todo mundo tem na gaveta – e tive a pior enxaqueca da minha vida. Ao mesmo tempo, não tenho o conhecimento das nossas mães e avós a respeito de chás, ervas, alimentos, coisas naturais. Não tenho chá em casa, só o Matte Leão. Não tenho nenhuma planta útil, nem de tempero. Nunca sei o que tem que tomar, aplicar, jejuar. Fui querer comer uma coisinha leve e comi atum em lata, na água, mas pelo jeito meu fígado não concordou comigo. Falando nele, foi só dizer que estava passando mal e minha sogra – aquela de quem não canso de reclamar – me mandou tomar um chá boldo ou de erva-doce. Melhorei um pouco, não sabia o que comer, e com medo de passar outra noite com dor, liguei pra minha mãe pra ela me dizer o que posso comer e durante quanto tempo. Seguirei com o rigor dos que temem o inferno. Quando a geração delas se for, o que faremos nos momentos de crise?
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Exílio em Paris

Nunca vi alguém no Brasil achar o exílio uma coisa boa, ou dizer que Caetano se divertiu e aproveitou tanto que fez até música. Parece que no Chile é diferente, que a turma favorável a Pinochet diz que o exílio não foi tão ruim. Uma chilena uma vez me disse: “Pra eles foi bom, voltou todo mundo doutor nas melhores universidades da Europa”. Por acaso conheci um que realmente voltou doutor da Sorbonne, em sociologia. Ele me contou que tinha pouco mais de vinte anos quando foi obrigado a sair do Chile. Ele era um típico aluno de classe média, mal saído da adolescência, um porra-louca qualquer. Lia Marx, queria combater as injustiças e mudar o mundo; ele não fazia a menor idéia de onde estava se metendo. No espaço de poucos dias ele deixou de ser o filho da dona Fulana, que levava uma vida pacata, tinha seu quarto, amigos e violão, e se viu exilado em Paris. A cidade lhe pareceu totalmente hostil. Ele não sabia falar francês, não tinha contatos e nenhum lugar pra ir. Do nada, teve que aprender a se virar: falar, ler e escrever em francês, arranjar sub-empregos, um lugar para morar, roupas para vestir, comida para comer. Foram quatro anos pra ele começar a não se sentir tão mal, pra vida finalmente entrar nos eixos. Foi o tempo para começar fazer amigos, ter um pouco de controle sobre a sua vida e voltar a fazer planos. Em Paris ele casou, teve uma filha, descasou, fez o doutorado, voltou para o Chile. Se pudesse escolher, não teria feito as coisas dessa maneira. Daquela época ficou para sempre a dificuldade de chorar e um certo desencanto com a vida.

Quando pessoas falam de Paris, ou Nova York, ou qualquer cidade como o paraíso na terra, quando acham que vale qualquer coisa para morar nelas, que só de estar Lá já é um glamour… só consigo achar burrice. Como a das reportagens sobre Krajcberg que vêem no fato dele preferir morar no interior da Bahia do que na Europa sinal de loucura. Não importa o CEP, ou que lindos cartões postais se faz da nossa cidade; o entorno que nos faz felizes é pequeno: um lar, um emprego que nos dê conforto, as não mais que cinquenta pessoas com que convivemos todos os dias.

Segredos

Eu fujo de segredos e eles me perseguem. As pessoas se impressionam com a minha falta de curiosidade e eu digo que não é nada disso, é que já sei demais. Não preciso e não quero perguntar mais nada. Na verdade, estou fazendo errado, porque quem não se interessa é sempre o candidato ideal para ouvir. O que está sempre querendo que lhe contem, passa a idéia de que fará alguma coisa com essas informações. Aquele que age como se ouvir ou não ouvir não lhe faz a menor diferença, parecerá o depositário ideal das maiores confidências. Eles – os segredos – me aparecem sem aviso. Como farejo uma confidência de longe e nunca faço a pergunta que puxaria todo o fio de histórias – as pessoas desembestam a falar sozinhas, sem maiores introduções. Pode ser quando estou comendo um sanduíche, ou dou uma passadinha no computador pra verificar meu e-mail e lá está: o segredo, a bomba, a confidência. Quando a pessoa quer contar, ela conta, mesmo que ninguém lhe pergunte.

Não é tão divertido quanto parece. É meio como ser o narrador onisciente; posso até ter uma visão ampla dos fatos, mas isso não me faz ter poder sobre eles. Ouvir segredos nos torna parte do problema; o confidente pode ser colocado diante de questões éticas muito difíceis – é diferente ser o que faz ou ser aquele que sabe que o outro fez. Lembro da história de um casal, amigo de outro casal, com filhos em idade em comum. Numa época, a amiga passou a deixar os filhos a tarde inteira com eles, o que era ótimo porque as crianças se adoravam. Até que eles descobriram que o compromisso que a fazia deixar os filhos lá era um amante. Até então, eles a estavam ajudando sem saber – mas o que fazer agora que sabiam? Depois de passarem uma noite inteira em claro, vendo os prós e contras da situação, decidiram não ficar mais com os filhos, mas também não revelar o segredo ao marido traído. No fim, o casal acabou se separando e acho que a mulher foi viver com o amante. Difícil foi quando o ex-marido soube que eles sabiam. Ele se sentiu mais traído com isso do que com a própria traição da esposa.

Deveria existir um código de ética para confidentes informais.

Líder

Já comentei aqui que sei que pra ser líder do cachorro nós nunca devemos ficar atrás dele no passeio. E que, apesar disso, deixo a Dúnia ficar longe de mim, na frente. Em outros momento atuo como lider, nesse momento não. Talvez por isso ela seja rebelde e arranje uma maneira de subverter as minhas ordens que chega a ser engraçada: mando ela ir pra casinha e ela vai. E sai logo em seguida. E mando de novo. Às vezes ela até fica, mas se demoro pra chamar, ela vem até mim verificar se é aquilo mesmo, se não esqueci dela. Aí eu mando de novo e assim sucessivamente. Até que ela mesma se cansa disso e vai pra casinha e fica – não sem antes uivar em protesto.

Como já estabelecido que no passeio é ela quem manda, adotei um procedimento diferente nos dias que estou com pressa. Antigamente eu ficava puxando cada vez que ela parava, era uma luta. Hoje eu acelero o meu passo de modo a ficar lado a lado com ela. Como a Dúnia tem que ser a líder, ela acelera mais ainda, e volta a ficar na minha frente. Se quero ir mais rápido, eu aperto o passo e fico do lado dela de novo. E ela acelera ainda mais. A coisa vai de um jeito que já corremos as duas no maior pique pela rua, sempre com ela na minha frente.

Quem é a verdadeira líder? Isso me lembra demais relações entre pessoas.

Bagunça

Viviane havia saído da casa da mãe há pouco tempo e estava morando sozinha num apartamento. A terapeuta quis saber como ela estava na casa nova:
– Está tudo ótimo. Meu apartamento é um brinco, só o quarto que é uma bagunça, mal dá pra entrar.

– Será que você não está morando só no seu quarto, ainda?

Ela ficou cismada. Ao abrir a porta e se deparar com aquele ambiente organizado, olhou para ele com uma certa desconfiança. Colocou por querer a bolsa bem no meio da mesa de jantar. Deixou os sapatos num canto. Quando voltou para a terapia na semana seguinte, Viviane contou como estava na casa nova:
– Está tudo ótimo! Agora eu tomei conta do apartamento inteiro, ele está uma zona!

Café universitário

Quando a Luciana esteve aqui, tomamos um café num café que fica perto de dois mundos bem diferentes que eu frequentei: o mundo acadêmico e a dança. Disse a Lu que evitava ir pra lá porque não queria encontrar pessoas da faculdade, e dei a entender que era porque eles não gostavam de mim. Ela aceitou minha explicação e na hora senti que aquela não era a verdade.

Eu mesma demorei pra entender qual seria a explicação que eu não soube dar para a Luciana. Quem já viveu vai sabe: é duro encontrar com alguém que não dá o menor valor ao que você está fazendo. Quando você revela que não está trabalhando na área, não está numa carreira promissora e não está ganhando bem, no geral dirão apenas um “ah” bem murcho – que não consegue ocultar a surpresa e o desprezo pelo que você está fazendo. Pior ainda quando o interlocutor se preocupa com você: ele se sentirá na obrigação (ou se dará ao direito) de te aconselhar. Uma amiga, uma vez, espantada em saber que eu estava dançando e não dando ou fazendo aula, ligou na hora para um professor amigo dela, no meio do almoço. Por infelicidade, o sujeito atendeu, e depois de uma curta conversa (“estou aqui com uma amiga muito competente e sem emprego), ela me fez falar com ele pelo celular. Ficamos os dois muito sem graça. A situação de estar num limbo, em si, já é toda difícil, toda constrangedora. Mas eu acho que isso não seria nada se eu conseguisse colocar convicção na minha voz, e batesse no peito dizendo que tudo é temporário, que estou nos primeiros passos de uma grande jornada. Só que eu não consigo. Eu não sei se um dia o caminho que eu escolhi me dará o status e dinheiro que se espera de mim.

Alguns encontros me fazem pensar no Enéias, com apenas quinze segundos pra resumir toda uma vida. Nem eu consigo entender direito o que estou fazendo, quanto mais resumir e passar certeza. Para esse tipo de contato, há de se ter uma armadura brilhante à disposição. Eu tenho preferido evitar certas regiões da cidade.

Ajuda

– O que eu gostaria é que alguém me falasse – você tem dificuldade em tal coisa e precisa melhorar tal coisa. Aí nós trabalharíamos em cima do que eu preciso.

Quando ele me falou isso, fiquei sem resposta, porque as duas coisas que eu pensei em dizer – “quem dera!” e “ninguém vai fazer isso por você” – dariam a impressão de que eu estava falando mal da escola, e não é nada disso. A questão é muito mais profunda. Estávamos falando de flamenco, mas poderíamos estar falando de quase tudo na vida. Ninguém nunca fará de nós um projeto; não há quem possa dizer qual a direção segura a seguir, qual o próximo passo a dar. Os que acreditam que alguém tem esse poder sempre se arrependem. Cada um se vira com o que tem e melhora como pode. É por isso que é tão difícil, é por isso que tem tanto valor.

Artístico

O período que passei como artista me deu uma certa prepotência para julgar arte, admito. Não é qualquer crítica positiva ou unanimidade que me convence que algo é bom. Perdi a mística de quem está de fora, de quem acha que na arte tudo é feito em nome da arte. Sei dos bastidores, das escolhas que são feitas por ignorância ou comodidade, das disputas de ego, das limitações orçamentárias. Às vezes a única diferença entre a pessoa comum e o artista é a cara de pau do segundo, que não tem o menor pudor de apresentar algo ruim. Não sou tão convencida a ponto de achar que sei de tudo, que entendo tudo. Também não alimento a ilusão de que arte é sinônimo de belo e que o público precisa entender o que aconteceu. O que eu sei – e nesse ponto ninguém me engana – é que o trabalho bem feito prende, surpreende e encanta, mesmo que a gente não saiba explicar o porquê.

Amargos

Você sabe como são esses velhos amargos. Eles nem precisam ser propriamente velhos, às vezes são apenas mais velhos. Olhando com hostilidade o novo que entra, apenas por ser mais novo, apenas por ter acabado de entrar. Quando mais entusiasmado o jovem, pior a reação. O velho discursará – em palavras ou só com o olhar – sobre já ter vivido e feito tudo aquilo. Ele já foi jovem, já foi bonito, já foi talentoso; ele já foi muito mais jovem, bonito e talentoso e olha só do que é que deu: em na-da. Hoje ele estava lá, um amargurado que nada denuncia sobre o seu passado brilhante. Esse velho torcerá para que o jovem naufrague em todos os seus esforços, porque é apenas isso que o mundo tem a oferecer aos que se esforçam. Talento? Ele já viu maiores. Ao invés de ser a luz que guia os mais jovens, ele será o primeiro a soltar um “eu já sabia”. Se o reconhecimento – esse milagre – acontecer, isso o deixará mais amargurado ainda, porque com ele não aconteceu e isso não é justo.

Eu fui olhada com esse amargor várias vezes quando era um jovem talento. Não tive apoio quando era “uma promessa”, o contato que poderia ter mudado minha vida nunca aconteceu. Via os que poderiam ter sido mestres para mim e me perguntava porque eles não me estendiam a mão, como podia alguém de tão alto se sentir ameaçado por alguém que estava apenas começando. Era como se eles não tivessem noção do que eram e onde estavam. Até o que o mundo me deu voltas e fios brancos. Na posição de mais velha e mais sábia, diante de alguns jovens talentos, desejei do fundo do meu coração que eles se ferrassem. Porque a segurança dos que nunca foram magoados me irrita; a certeza de que serão reconhecidos me dá vontade de frustrá-los. Percebi que estou ficando igual os velhos do meu passado, que ser generoso quando nos foram mesquinhos é muito difícil. Não escapei de crescer criando sombras e pontos obscuros. Preciso muito de algumas mudanças, para que a esperança que me resta não se transforme de todo em amargura.

clica que cresce

Eu não sei brigar

Acho que existem dois sentimentos meio excludentes com relação aos desafetos: rancor e vingança. Tenho notado que quem é vingativo tende a não ser rancoroso e vice-versa (das pessoas que são rancorosas E vingativas quero muita distância). Eu não me vingo e guardo rancor. Todos os meus desafetos acabam descobrindo isso. Não me dou ao trabalho de prejudicar e nem ao menos de sair falando mal – eu apenas me reservo ao direito de ignorar que a pessoa existe. Quando me perguntam, falo o que aconteceu, e se for o caso até ressalto que o outro tem suas qualidades – “veja bem, foi o que aconteceu comigo, mas profissionalmente ele é muito bom”, etc. Só que o que geralmente acontece é quem é amigo de ambos geralmente não quer perguntar. A pessoa vê, estranha, e eu deixo que estranhe. Resultado: tenho acumulado ao longo dos anos a fama de ser uma pessoa de trato muito difícil, que por qualquer bobagem eu corto as pessoas da minha vida.

Tenho descoberto que o que me falta é uma certa propaganda ou, em outras palavras, que eu sou é burra. Enquanto eu acredito que uma briga minha diz respeito apenas ao que aconteceu comigo e com o outro, alguns fazem disso uma publicidade muito boa para si. Elas escondem os seus erros, já se adiantam e criam uma versão dos fatos, fazem com que as pessoas jamais me perguntem algo que elas acham que já sabem o que foi. Eu, num misto de ingenuidade e orgulho, acho que quem me conhece deve ter senso crítico o suficiente pra não me reconhecer em certas atitudes. Sobre o que me fizeram, apenas eu e o outro saberemos; já os meus erros serão espalhados e aumentados ad infinitum. Se eu esperneasse, levasse a público e me vitimizasse, quem sabe fosse diferente. Agora vejo que não importa como e porque acabou, e sim a maneira como a história é contada. Os que agem como eu sempre são os vilões.

O defeito

Não é todo mundo que sabe disso, mas os lados direito e esquerdo do nosso corpo não são completamente simétricos. Nem poderiam ser, se levarmos em conta que fazemos a maioria das coisas com um lado só. Reparando bem, é sempre o mesmo pé que se incomoda com sapato, sempre o mesmo lado do soutien que precisa ter a alça ajustada. Eu sei de longa data que minha panturrilha esquerda é maior do que a direita até mesmo pelo uso – sempre tive mais equilíbrio do lado esquerdo do corpo, enquanto o direito é mais ágil. No ballet, dava para perceber claramente que eu ficava muito mais tempo em equilíbrio em ponta ou meia ponta sobre a perna esquerda do que sobre a direita. E de certa forma, dançar acentuou ainda mais essa diferença.

Foi justamente na época que eu fazia ballet que começou a moda de galochas, ou “rainning boots”. Eu ficava o dia inteiro andando com uma mochila nas costas e quando chovia era um horror. Eu era obrigada a levar umas três meias, porque meus tênis sempre molhavam. Eu não conseguia usar a única bota que tinha no armário, porque ela tinha salto e me cansava muito. Por isso eu tinha tudo para querer uma dessas galochas, que além de tudo eram lindas e coloridas. Mas o meu lado do contra detesta seguir modinhas, e eu resisti tanto que quando resolvi comprar não consegui mais. Primeiro porque meu número tinha acabado, depois porque passou a estação e depois porque passou a moda. Rodei a cidade inteira e não achei. Passei meses olhando tristemente as vitrines à procura de uma galocha perdida.

Até que um dia encontrei. Era uma loja pequena e toda estilosa. Na vitrine, três galochas lindas: uma de quadrinhos, outra de borboletas e não lembro da terceira. Elas estavam caras mas eu já tinha o dinheiro separado, ia pagar à vista e levar. Entrei confiante. A vendedora me ofereceu a do mostruário, um pé direito 36. Não lembro se ficou certinho ou se ficou um pouco folgado, o que sei é que pedi pra ver dos outros dois modelos. Ela me trouxe uma, que ficou boa no pé, mas ficou apertada na panturrilha. Depois aconteceu o mesmo com a outra bota. Pedi uma numeração maior, que ficou enorme em todos os sentidos. Não dava pra entender porque só o primeiro modelo tinha dado certo. Estava quase levando a primeira bota, até que me dei conta de que com aquela eu havia experimentando a perna direita e com as outras a perna esquerda. Quando finalmente experimentei os dois pés, percebi que todas ficavam confortáveis na paturrilha direita e apertadas na panturrilha esquerda. Tudo por causa daquele um ou dois centímetros de diferença entre uma panturrilha e outra. Elas eram lindas, eu tinha dinheiro, tinha o meu número e eu não pude comprar. A vendedora, ciente de que havia trazido várias botas à toa e perdido sua comissão, me falou:
– O ruim é que você nunca vai conseguir comprar uma bota de cano alto por causa desse defeito na perna que você tem.

Pior que eu estava tão chateada que nem tive forças pra dizer que defeito na perna é a mãe.

Garantias

Na época do acústico do Ira!, vi uma entrevista do Nasi em que ele dizia que antes acreditava no poder do grande hit. No início da carreira, algumas músicas lhe pareciam tão boas que ele jurava que aquela ia estourar, que faria um grande sucesso, que era impossível as pessoas não se apaixonarem. E não acontecia, ou acontecia com outra, ou não acontecia com nenhuma, e que hoje ele não acredita mais nesse poder do grande hit – e completou o raciocínio dizendo que ele era mais feliz na época que acreditava. Eu gostava muito de irritar enxadristas citando uma frase do Millôr, que diz que o xadrez é um jogo que desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Porque quem joga xadrez tem essa vaidade, de que xadrez desenvolve outros tipo de inteligência, como se jogar xadrez garantisse o sucesso em outras áreas, como se o colocasse numa categoria especial de pessoas. Essa crença está tão arraigada nos grandes leitores, que ai de você se disser que ser culto é apenas ter uma grande memória… Acreditar em sobrenomes e famílias tradicionais também é assim, um gesto de fé: a pessoa crê – seja pela genética ou pela educação – que podemos esperar de um indivíduo as coisas desejáveis que atribuímos à família dele só porque ele nasceu nela. Quando não corresponde, a pessoa é uma “ovelha negra”, ou seja, ainda mantemos a crença na família e permitimos que existam exceções. A coisa mais atraente de ter um credo religioso é ilusão de controle sobre a realidade, o conjunto de regras e ações muito claros, que se seguidos prometem manter a pessoa à salvo. Quem não crê é obrigado a avaliar todas as possibilidades, a encarar a situação como um problema único, e carregar para sempre a responsabilidade sobre as consequencias. O apelo às estatísticas, dos torcedores aos médicos, me parece sempre um desejo de garantias; “em cada cinco jogos em casa contra aquele adversário nas finais, em três deles conseguimos ganhar”, “em oitenta por cento dos casos que esse remédio é administrado nessa fase de sintomas com pessoas da sua faixa etária, a cura é completa”. O problema é que cada jogo é um jogo, e mesmo o mais inteligente dos jogos não passa de um jogo; cada pessoa, música ou doença tem a sua própria história. O passado não nos diz nada, o que aconteceu com os outros não nos garante nada.

Duas coisinhas do Facebook

Acabo postando umas coisinhas despretensiosas no Facebook e elas não chegam aqui, porque lá o público é menor e fico menos preocupada com o que direi. Duas delas fizeram muito sucesso nos últimos dias. A primeira é uma tirinha:

(clica em cima pra deixar legível)

A segunda é uma história:

Anos atrás, saímos pra jantar com outros professores colegas de trabalho do Luiz (que naquela época dava aula). Um solteiro e dois casais com filhos. Num determinado momento, esses casais começaram a falar dos alunos deles, que alguns eram difíceis, e que esses alunos difíceis eram assim porque seus pais eram separados. E começaram um discurso preconceituoso sobre essas famílias desestruturadas, marginalidade e perda de valores.

Pois bem. Um desses casais acaba de se separar. B.E.M..F.E.I.T.O. Quero ver se os filhos deles são marginais agora.

Ambiciosos

Vocês certamente desculparão o post preguiçoso e farão vista-grossa ao nome do livro e o tom religioso que cerca esta citação. Independente de tudo isso, ela foi a coisa mais sensata que já li sobre como lidar com quem quer subir a todo custo:

Não será sobrepujando o nosso semelhante que nos elevaremos. Pelo contrário: sempre que alguém muito afoito vem subindo, o melhor a fazer é afastar-se da passagem e deixá-lo seguir seu célebre rumo ao topo tão desejado, pois, se tiver apto a ocupá-lo, se assentará. Mas se este não for o caso, de bem mais alto será a queda do afoito, que demorará mais tempo caindo, e assim terá tempo suficiente para refletir sobre as causas de sua tão longa queda.