Estado

Tem aquela felicidade solitária que é quase uma tristeza, que dói num lugar difícil de definir. É uma experiência de beleza, uma reconexão. Queremos falar, compor uma sinfonia, passar a noite olhando as estrelas, demarcar aquele momento. Que pena que não podemos viver assim, cientes, que tais estados nos fujam. Por fora estamos banais e por dentro um universo brilha. Como uma estrela, a vida da gente fica parecendo uma coisa tão pequena, tão fugaz e por isso mesmo tão bonita. Tudo está bem.
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Resposta

Eu fui ao supermercado quase às 20h no domingo, sem saber que estava quase fechando. Não fui porque era uma compra urgente, fui porque estava insuportável em casa. Eu me debatia com uma questão tão íntima, tão pessoal, que não havia nem como explicar. Poderia definir (beijo, professor Clóvis) como uma questão ética, em que eu tinha pelo menos duas premissas razoáveis e não sabia a qual delas dar prioridade. Depois de tantas mudanças na minha vida, o que manter, o que mandar às favas? O que incluir no pacote do meu novo eu, até onde eu consigo ir? Eram questões dessa natureza. A impossibilidade de me decidir estava me matando. Eu peguei minhas compras e fui para a fila das cestinhas. Só tinha uma pessoa na minha frente, mas os caixas estavam fechando e apenas um estava atendendo. E enquanto eu segurava a minha cestinha, chateada da vida, colocaram uma música no alto-falante do supermercado. Uma música meio antiga, nada a ver com música ambiente e que eu não ouvia há anos. Nossa. Nos primeiros versos a música respondeu de maneira tão perfeita todas as minhas dúvidas que eu comecei a rir. “Essa foi pra mim, Universo, entendi. Muito obrigada!”

You are far

Lembrei esses dias dessa música, que é uma dessas músicas dos anos 80 ainda gostosas de ouvir, mas da qual nunca lembramos. Naquela época, gaydar praticamente não existia, e as pessoas ficaram chocadas do George Michael ter sido encontrado no banheiro com outro homem. Hoje a gente olha pra ele e pros clipes e se pergunta como não estava na cara.
Mas essa música é muito mais do que isso. Meu irmão mais velho tinha um CD duplo do George Michael. Minha prima, Ana, foi passar as férias em Salvador com a gente. Desde criança, quando ela e minha tia iam pra casa do meu pai e ficavam pelo menos um mês. Minha tia, que morava em São Paulo e odiava a cidade com todas as suas forças. Tia Lourdes era assim, tudo nela era com todas as suas forças. Naquela visita a Ana veio sozinha, eu e a Ana não éramos mais crianças. Ela já tinha começado o (segundo) curso de engenharia. Ana se encantou com um dos melhores amigos do meu irmão, o Márcio, e no último dia jantamos com ele no restaurante chinês que tinha quase em frente à praia. Eu quis dar à Ana boas lembranças, e quando fomos ao Pelourinho eu disse pra um desconhecido que nós o havíamos eleito o homem mais bonito do local – ele estava meio puto, e disse que deveríamos dizer isso “pr´aquele cara ali”. Lembro de nós duas saindo indignadas da praia, depois que um senhorizinho com uma longa barba branca nos cantar. A Ana fumava e bebia dry martine, ou seja, compensava duplamente o estilo que eu não tinha. Fomos muito ao shopping, fizemos planos para a próxima Oficina Mix em São Paulo, ela me contou como era a F1 no autódromo. Nós não sabíamos que aquelas seriam nossas últimas férias juntas, a nossa última qualquer coisa juntas. Que pouco depois eu casaria, que ela terminaria o curso de engenharia. Que eu passaria praticamente uma década sem viajar, que um dia tia Lurdes ficaria tão doente e deixaria de ser uma mulher forte pra ficar fraquinha e triste. Que a tia morreria, que eu me separaria e ela… não sei o que será dela agora e me preocupo. Naqueles dias, as horas passavam devagar, quentes e melancólicas. Ana no computador, eu lendo. Os assuntos surgiam, os CDs do George Michael o dia inteiro no repet. Foi tanto repet que meu irmão passou a odiar todas as músicas e se livrou dos CDs. Aquela época está far, so far.

Epifania nas Lojas Americanas

Eu estava na fila das Lojas Americanas, comprando chocolate. Passei pelo corredor de guloseimas e não devia ter mais do que cinco pessoas na minha frente. Os caixas rápidos tinham pelo menos quatro caixas. Contando o tempo que eu demorei pra me decidir pelos chocolates e o meu tempo na fila, eu devo ter ouvido umas três músicas. Não faço a menor ideia de que CD era aquele. Sempre estou (acho) mais ou menos a par dos sucessos pop do momento, e aquele não era nenhum deles. Só sei que era pop, dançante e repetitivo. Não pude deixar de comentar com a caixa o quanto aquela música era ruim, e ela riu – não sei se porque também achava ou se é porque convém concordar com clientes mau humorados. Mesmo com pouca gente e caixas andando rápido, minha vontade era jogar aqueles chocolates para cima e fugir gritando. Foi aí que eu descobri: o inferno é um elevador lotado num dia quente, onde estamos longe das paredes e a música ambiente é pop, dançante e repetitiva.

Curtas de amor & sexo

Andei pensando e cheguei à conclusão que o meu (só meu?) problema com amizade colorida é puramente narcisista: não suportaria a ideia de alguém partilhar da minha intimidade e depois sair igual. Tem que ficar loucamente apaixonado, claro.

 

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Assim como dói enorme e absurdamente quando do lado de cá houve um grande amor e do lado de lá apenas mais uma foda. Se do lado de cá houve amor, houve luzes, houve borboletas na barriga, houve felicidade. Podemos dizer que o outro lado saiu perdendo, que o que vale nessa vida é a capacidade de amar e criar boas lembranças. Mas poxa. Dói demais, deve ser a coisa que mais dói no mundo. É daquelas que joga o cabra no chão e pode ser que ele nunca mais levante.

 

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A espera é uma coisa complicada. Esperar até esperamos, mas achamos que isso gera bônus. Como se fosse uma planta, que quanto mais você espera, maior ela fica, ou seja, melhor vai ser o que vem depois. “Tenho esperado muito tempo, então não pode ser esse comunzinho aí, tem que ser espetacular”. Não é assim que funciona. Às vezes não tem planta nenhuma.

 

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Eu me pego – veja porque sei que o ateísmo está além da minha capacidade – querendo chantagear o Destino. “Se até dia tal, não aparecer alguém assim, assim e assim, eu vou fazer isso e aquilo.” Claro que o Destino boceja, a vida segue e não acontece nem uma coisa e nem outra.

Curtas carnavalescas

 

Meu TOC fica aqui apitando quando olho pro blog e a postagem do dia 16 caiu como dia 15 porque o computador cismou errado com o fim do horário de verão.

 

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Verão, creio, que já está morto e enterrado depois de chover ininterruptamente por 4 dias. Sério. Começou sexta no fim da tarde e praticamente não parou. Agora imaginem a situação: sem carnaval, sem ter pra onde ir e sem ter nem sol. Loooooongo feriado.

 

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Hoje fiquei sem internet. A solidão sem internet é solitária num nível que nem me lembrava mais.

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Costura é a melhor coisa do mundo, é uma bênção, é pra toda vida. Não sou e acho que nunca serei uma costureira de mão cheia. Tento um monte de projetos e depois sou obrigada a doar tudo, porque não teria coragem de usar – fica tudo com aquela cara de “fui eu que fiz”. Mas mesmo assim, a costura só me dá alegria. Entretém que é uma beleza e até roupa a gente faz.

 

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Meus manjericões estão com praga. Aparecem uns troços embaixo da folha que parecem uns cocôs e no dia seguinte está tudo comido. Pior que a praga é igual a mim, só gosta de manjericão. Pras salsinhas, aquele tempero horroroso e que quase vira árvore aqui porque eu nunca pego, a praga nem olha. Eu que estava tão acostumada a só comer manjericão fresquinho, recém-colhido…

 

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Outro que fez o meu feriado foi o professor Clóvis. A entrevista dele no Jô é pra dar novo fôlego. Sério, guardem essa indicação como se fosse um remédio. Cliquem num dia depressivo.

Subconsciente, esse deus

 

Eu estava conversando com a Tânia e… Adendo: gosto tanto de pegar carona com a Tânia que ela nem imagina. Sabe o que é se animar pra ir pra um compromisso só porque depois vai ter aquela carona? Mais: ela vive se perdendo no caminho e eu adoro, quanto mais ela se perde melhor. Porque as nossas conversas são sempre tão boas pra mim, sempre tão proveitosas, nunca saio delas sem algo novo pra pensar. Nessa última carona, o assunto caiu no subconsciente. Tão poderoso, tão determinante nas nossas ações, o que sabemos a nosso respeito é tão pequeno. Ainda estava (estou) completamente contaminada pelo exemplo que oprof. Clóvis deu, do consciente ser apenas o facho de luz que sai do farol. Aí ela me disse que o subconsciente é tão poderoso que ele não apenas fala através dos nossos gestos, nossos tons de voz, nossas expressões, que às vezes ele aparece no que nos acontece, em outras pessoas nos dizendo e nos fazendo aquilo que nos pertence. Lembrei na hora do quanto eu fiquei afetada ao não me ver nas fotos do espetáculo do ano passado. Não saiu uma única foto individual minha no palco, e fiquei muito abalada. Minhas amigas viram nisso apenas uma vaidade, mas é que eu li naquela ausência tantas outras coisas. Eu li naquilo meus padrões, minha dificuldade em me fazer marcante, o espaço que cedo pros outros e me faz falta, enfim, eu vi de tudo ali. O fotógrafo não ter me mirado foi totalmente eu, foi o meu movimento. E o subconsciente– ela continuou – é tão grande e poderoso na nossa vida, nas nossas escolhas e ações, que quem sabe a gente lide apenas com ele o tempo todo, que até isso a que chamamos Deus seja no fundo apenas esse grande e desconhecido subconsciente. Pra mim também faz tanto sentido. Eu rezo, eu falo com Deus, eu agradeço, e essa relação tem se estreitado cada vez mais. Só que ao mesmo tempo eu não sou propriamente deísta. Eu faço o que funciona comigo, porque já aprendi que é mais fácil abraçar os símbolos do que tentar, com meu ego fraquinho, influenciar minhas decisões. Acho que quem se nega e tenta ser sempre racional está simplesmente se negando a utilizar o que a humanidade já construiu e funciona tão bem. Oração, astrologia, velas, imagens, tudo já está carregado de sentido e nos influencia de uma maneira maior do que podemos controlar. Ao mesmo tempo, não acredito numa resposta definitiva à questão da existência divina. E caso fosse possível responder com certeza de que Sim, esse Sim significa tão pouco. Ele por si só não explica nada. Sim não quer dizer que Ele tenha livro, filho e detesta cu, ou seja, que a nossa conduta signifique qualquer coisa. Não sabemos se é uma relação de criação, de interdependência, de determinação, não sabemos de nada. E mesmo se pudéssemos ter um manual, de que adianta saber mentalmente sem realmente entender. Se não entendo essa coisa tão pequena, tão limitada e com poucas variáveis que sou eu mesma. E na nossa miudeza, não conseguimos atingir mais do que nós mesmos.

Essa geração sempre online mimimi

Quando eu fui visitar o Milton, deixei uma excelente impressão no sobrinho dele, que disse que nunca tinha conhecido “uma adulta que sabe quem é Felipe Neto e PC Siqueira”. Dá pra dizer que eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução da internet. Sabe aquelas piadas sobre Graham Bell ter inventado o telefone e não ter para quem ligar? Era mais ou menos assim quando a gente fazia e-mail. Eu conheço muita gente da minha idade que trabalha com internet ou que passa muito tempo online, mas isso é apenas porque eu tenho esse perfil. A grande maioria só usa e-mail e tem conta no facebook “pra achar uns amigos de infância”. Então eu ouço, à sério, as pessoas reclamarem do quanto esses xóvens ficam muito tempo na internet, cada um com seus telefones, sem conversar, sem olhar para os lados, onde é que esse mundo vai parar.

 

Eu acho sim que há um exagero e é preciso estar mais no mundo, mas também não me sinto confortável em condenar ninguém. Se eu já ficava na internet na época que gastava pulso telefônico, imagina no mundo de hoje. Lembro claramente de um sentimento que me perseguiu durante boa parte da minha vida: inadequação. Eu queria estar num outro lugar, num outro mundo, que eu não sabia como era, só sabia que não era o que eu tinha acesso. Eu não queria estar no meio das pessoas que estava. Quando digo isso, não estou apenas falando de família, falo também das pessoas do prédio, da escola, os que tinham a minha idade. Todos me pareciam um bando de idiotas, não dava pra ter uma conversa que prestasse. Depois a gente cresce e coloca essas coisas em perspectiva, mas estou falando aqui de como eu sentia. Então, eu tenho certeza de que ficaria muito feliz em conhecer pessoas de outros lugares, com os mesmos gostos que eu, e me sentiria mais à vontade com elas do que com aquele povo que vive lá em casa. O que me estava acessível era ler, andar no parque, me trancar no quarto, e fiz todas essas coisas intensamente. Podemos dizer que saí ganhando, que os livros que eu li hoje fazem parte da minha cultura e trocar mensagens com meus amigos não me levaria a nada. Mas isso é atribuir um cálculo de futuro que eu não tinha. Eu teria preferido o whatsapp mesmo.

Lá atrás

 

Em nenhum momento ela usou a palavra amor ou mágoa. Ela se limitou a descrever a situação: como o conheceu, o que viveram juntos, as declarações de amor, as promessas, a ruptura sem explicações. Mas as duas palavras estavam lá, no seu tom de voz, no seu sofrimento. E sua amiga, tão mais experiente em anos e relacionamentos, apenas disse:

– Eu fico até sem graça, sem saber o que dizer. Há muito tempo eu não sei o que é gostar de alguém desse jeito.

À medida que me afasto da adolescência, eu olho para trás – e vejo todos olhando para trás também. Há algo lá que não somos mais e que gostaríamos de ser. Adivinhamos que tem a ver com a juventude, e tentamos nos fazer mais jovens fisicamente. Ou buscamos essa juventude através de terceiros, sejam eles filhos ou parceiros mais jovens. Me pergunto até se esse nojo e violência que é a pedofilia também não tenha raiz nessa busca. Alguns identificam que a grande questão é o risco. Um adulto é capaz de se antecipar muito mais, e isso tira o risco e com a falta do risco perdemos a adrenalina. Uma maneira é apelar para esportes radicais. Ou radicalizar na vida, mergulhando de cabeça em algo que nem nos cabe mais, numa atitude bastante auto-destrutiva. Quem sabe o grande prazer que sentíamos nas festas de faculdade e namoros na praia fosse a descoberta do sexo. Nesse caso, sem as nóias e proibições da adolescência, um adulto pode fazer sexo com muito mais liberdade. Pode repetir e repetir, cada vez mais, com pessoas ainda mais belas, mais jovens, com mais pessoas, com fantasias cada vez mais sofisticadas. Há várias formas de ver, há várias formas de buscar. Existem até os que não fazem nada, por acreditarem ser inútil. O fato é que há algo lá atrás que se perde com o tempo. Um adulto rejuvenescido e descolado não passa de uma farsa que não engana ninguém. Envelhecemos e ganhamos estabilidade, previsão, experiência, dinheiro, auto-conhecimento, força, estratégias, influência e o diabo a quatro. Ganhamos tanto e perdemos a cor, a capacidade de tornar a vida interessante. Perdemos a intensidade.

Crentes

Ainda não achei a igreja evangélica que tem por aqui, mas eu sei que ela existe. Acho que eles estão lá, guardando o sábado, e alguém fala: “Vamos dar um rolê pela região e salvar umas almas?” e quando olho pela minha janela – agachada, na esperança de que não me vejam – a rua está cheia deles, em duplas, em trios, traçando planos de ação na esquina e batendo de porta em porta. Já ouvi das mais variadas estratégias para não ser incomodado: um vai até o portão completamente nu, outro se diz satanista, a quem simplesmente os mande à merda. Eu tento não estar em casa, ou fingir que não estou, ou não passar diante da janela, mas mesmo assim ainda sou pega. Se podem deixar um folheto na minha caixa? Pode. Se posso passar no portão e dar uma palavrinha com eles? Não pode.

 

O problema é que apesar dos pesares, eu simpatizo com essas pessoas. Simpatizo com sua boa intenção. Eles acreditam terem encontrado o segredo de todo bem e que estão levando isso para os outros. São uns pentelhos, têm uma visão limitada das coisas, dogmáticos, aquilo tudo. Mas eles acreditam, uai. Se propõem a andar por aí, serem ignorados ou maltratados, ao invés de ficarem confortáveis em qualquer outro lugar. Tanta gente por aí que se puder te passa uma rasteira, cospe, pisa em cima e depois ainda posta no youtube. Se deixar, esse mesmo crente te sacanearia. Mas naquele momento, naquela hora, ele quer te fazer um bem. Acho bonito.

Andanças

Escolhi o nome deste blog com tanta simplicidade e acertei tão bem. Muita gente acaba pensando que eu me chamo Camila ou algum nome que começa com Ca. O Caminhante está aí porque eu gosto de caminhar mesmo. Até eu me surpreendo da minha relação com o andar. Andei muito o ano passado pra sobreviver, porque não suportava estar em casa e os meus pensamentos. Agora que estou bem, ando porque estou bem. Ando porque os dias têm sido lindos e seria um desperdício ficar em casa. Eu ando quando preciso de inspiração e ando quando preciso espairecer. Entre pegar ônibus e andar, sempre preferi andar, mesmo quando isso dava mais trabalho ou levava mais tempo. Enfim, eu ando ando ando.

 

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Quem é de Curitiba sabe que a linha Interbairros ou Inter (ligeirinho) tem os trajetos mais longos da cidade. Ouvi um motorista do Ligerinho Inter II dizer ele cada dia de trabalho corresponde a duas voltas completas. Tenho intimidade com os Inter II, eles dão conta de todos os lugares que eu frequento. De vez em quando vejo um Inter I ou Inter IV e me pergunto quem são essas pessoas, para onde vão e onde vivem. É uma realidade paralela. Tenho um projeto que acabei nunca colocando em prática, que é o de sentar num desses Inter e dar a volta na cidade com ele.

 

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Tem um mercado gourmet perto de casa. Várias pessoas já tinham me falado dele e eu nunca tinha entrado no dito cujo, até que um dia me programei e fui. Tudo bem que era no meio da tarde num dia de semana, mas olha… Quando vejo uns lugares assim tão lindos que surgem no meio do nada, sempre penso naquelas pessoas que têm uma grana de herança ou marido pra investir e inventam de colocar tudo do melhor antes de testar se tem demanda. O lugar é incrível. As cebolas lindamente acondicionadas em cestinhas. Panelas caríssimas, aventais, enlatados franceses. Assim que entrei, fui recebida pelo frescor do ar condicionado e a gerente. Estavam a gerente, a caixa e eu. Morri de sem graça, minha cara de quem compra produtos gourmet. Nunca mais pretendo voltar lá. Lugares assim deveriam pagar uns figurantes, só pra não deixar as pessoas desconfortáveis.

O passar dos dias

Houve uma época que eu era tão ocupada que doía. Passava o dia inteiro fora, correndo de um lado para o outro, pegando muitos ônibus, lanchando, almoçando fora, comprando livros, investimento atrás de investimento. No fim, nada disso me deu retorno financeiro, apenas o conhecimento de que eu sou outra coisa. E embora naquela época eu fosse caríssima, eu me sentia segura. Somos tão treinados a achar que o movimento, qualquer que seja ele, nos leva a algum lugar. Pensamos que se nos debatemos bastante, invariavelmente sairá algo útil dali. Como uma metáfora que ouvi uma vez do ratinho foi jogado no leite e se debateu a noite inteira, até que no dia seguinte ele havia transformado o leite em manteiga e assim conseguiu se safar. Por outro lado, com o raciocínio contrário, achamos que esperar, que dar um tempo, é sinal de fracasso e desistência.

Muito mais realista do que acreditar num possível ratinho, eu penso naquelas pessoas que são jogadas na água, perdidas em alto mar. Quem não sabe nadar se debate, engole água, afunda. Quem tem intimidade com a água sabe se manter imóvel e flutuar. Esperar é assim, ter o conhecimento e o auto-controle necessários para não se debater à toa e aplicar a energia da maneira e na hora certas. Meu maior desafio ao longo dos anos tem sido esse, o de aprender a esperar. Esperar eu até esperava, mas sempre como está esperando o sinal para a largada. “Será que” “E se” “Mas”. Esperava porque estava exausta, esperava porque simplesmente nem saberia para onde ir se resolvesse me mexer. Mas – va bene! – esperava, o que já é algum progresso.

Um dia você acorda e aqueles problemas insolúveis foram resolvidos aos poucos, um a um, apenas pelo passar dos dias.