É passado, mas…

Se é ex é porque teve algum motivo, não adianta. Isso vale tanto para namoros como para amigos. Houve um problema, algo imperdoável para o que vivíamos juntos e foi necessário cortar. Depois de cortados os laços, depois de algum tempo, mesmo o maior dos amores deixa de ter uma liga. Não ligo para ex porque me valho da máxima de não repetir meus erros e sim cometer erros novos. Voltar a falar com ex, achando que vai ter de volta o que perdeu, é um erro.

 

Mas, mesmo assim, ao mesmo tempo… Há detalhes, situações muito específicas que dá vontade de sair pra tomar um cafezinho. Para contar algo rapidinho e obter do ex um olhar de compreensão que mais ninguém daria. Porque só aquela pessoa entenderia uma ironia específica que a vida nos fez, só ela saberia o quão difícil foi tomar determinada atitude, ela mais do que ninguém apreciaria aquele texto louco. Só ela.
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Não façam o que eu fiz

Um amigo meu me pediu para ajudá-lo numa reportagem que ele estava escrevendo para a faculdade de jornalismo. Ele me pediu para falar sobre o período que fui escultora. Fiquei meio assim, falar sobre o que não foi direito. Nunca será um assunto totalmente tranquilo pra mim. No fim, como geralmente são essas reportagens, ele me disse para completar com algum conselho, uma lição para os jovens. Conselho, justo eu? Lembrei dessa história e pensei em em escrever algo chamado “Conselhos para os jovens”. Não diria a eles o que fazer e sim o que não fazer. Seria algo sincero, seria uma autoajuda do avesso. “Faça o que quiser para alcançar o sucesso, menos o que eu fiz”. Não sei como é estar lá em cima, mas sei direitinho como é estragar tudo. Quanto mais capazes e arrogantes o jovem se sentir – ou seja, quanto mais típico – maiores as chances dele em repetir meu erro. Porque um dos meus problemas quando fui escultora foi ter sido alçada rápido demais à condição de talentosa, grande futuro, etc. Comecei de salto alto, como se diria no futebol.

 

Outra maneira de dizer a mesma coisa: tem uma citação deliciosa, que adotei pra vida faz tempo e não sei de quem é, que diz que o tímido, o introvertido, é um extrovertido do avesso. O extrovertido está sempre procurando os holofotes, sempre em busca de atenção; o introvertido já tem um holofote natural, e está sempre tão ciente das atenções que elas o sufocam e ele foge. Me ocorre agora que é como se o extrovertido fosse uma subcelebridade, correndo atrás dos paparazzi e das notinhas; o introvertido é a celebridade de verdade, aquela que esconde o rosto e tenta manter uma vida privada. Eu fiz, com a escultura e com meus outros talentos, as mesmas coisas que um introvertido. Eu acreditei que os holofotes já estavam lá, eu pensei que o mundo me buscaria. Sou uma trabalhadora e concentrei meus esforços no meu trabalho. Sempre fiz tudo bem feito, com qualidade, com carinho e esforço. E acreditava que o reconhecimento era uma consequência natural. Sem que eu precisasse falar nada, os que estavam perto de mim veriam como o que faço é bom e a boa nova se espalharia. Eu acreditava no poder da qualidade, da minha qualidade.

 

Não é assim, tanto que eu fracassei. Descobri que são dois trabalhos, totalmente diferentes: o fazer é uma etapa, o divulgar é outra. Uma é introvertida, outra é extrovertida. Cansei de ver excelentes blefadores se darem muito melhor do que eu, porque ao invés de esperarem pelo mundo eles foram lá e se venderam. Antes eu tinha raiva disso, hoje entendo que é assim mesmo. É um outro tipo de trabalho, outro tipo de talento e inteligência. Pena e problema meu que a minha “modéstia” tenha me impedido de fazer o mesmo. Sou um doce de pessoa e levo dez anos com fama de antipática – está pra nascer alguém que seja tão ruim em marketing pessoal quanto eu. Quem não se divulga não é visto, os outros não têm a obrigação de baterem na nossa porta. Achar que o mundo nos descobrirá é um certo salto alto. Ser um gênio talentoso dentro de casa ou só entre os seus, acaba sendo o mesmo que nada. Jovens, não façam o que eu fiz. Corram atrás, vendam baratinho e sorriam. É assim que se começa.

Da diferença entre se virar na cozinha e levar jeito pra coisa

Eu sei fazer o básico na cozinha, mas não tenho aquela inteligência de cozinheiro. Não sei como e dizer o que está faltando na comida, só sei se ela é boa ou ruim. Eu preciso ter os ingredientes e que me digam o que fazer, porque se for contar com a minha criatividade não vai dar certo. Uma vez quis inventar de colocar um temperinho à mais no molho sugo que estava fazendo e coloquei alecrim. Aviso: alecrim e molho sugo não combinam, eu testei. Ficou intragável. Não é à toa que já passei muitos almoços à base de pipoca de microondas. Pro dia a dia, seria totalmente à favor de tomar umas pílulas no almoço e pronto.
Mas como sou uma pessoa com alguma preocupação com a saúde, passei a comprar aqueles pacotes de legumes de yakisoba sem fazer yakisoba. Compro um pacote pequeno, que dá exatamente pra mim. Já vem tudo cortado e lavado, e só cozinhar. E eu os cozinhava da única maneira que me ocorre ao pensar em cozinhar legumes: colocava junto com cebola e alho refogados. Pra fazer mais volume, colocava cubos de queijo e, quando tem, cogumelos. Não ficava um espetáculo, mas pelo menos eu fazia alguma coisa com eles.
Uma vez, não sei porque, pedi pro Luiz preparar os legumes pra mim. Ele sim, uma pessoa de inteligência comidística. Ele me perguntou o que eu fazia e eu expliquei. Quando ele me serviu os legumes, minutos depois, que delícia. Eram outros legumes. Sem seguir nada do que eu disse, ele colocou os legumes para cozinhar à vapor, na cuscuzeira que nós temos. Depois, refogou-os na manteiga com cominho. Pode tentar em casa que é de lamber os beiços.

Sete anos

Se não me falham as contas, neste mês de julho eu completei sete anos de dança. Pra quem dança isso não é nada, sou um bebê. Conto como início a primeira aula de balé que procurei. No início daquele ano, vi num cartaz vagas para um curso de dança moderna, e lá dizia que a idade limite máxima era vinte e cinco anos. Cheguei na minha aula de pilates e comentei isso com a minha professora, dizendo que o cartaz havia me chamado de velha. Eu estava com vinte e nove, não sabia que não poderia dançar mais. Ela, formada pela escola de balé do Guaíra e que vinha lapidando meu movimento há anos, disse – “Se você quiser dançar, é só falar comigo que encontro uma boa escola de balé pra você. Não a mais cara ou a mais conceituada; posso entrar em contato com as pessoas da área e descobrir onde a melhor formação está”.
Até então eu não havia explicitado pra mim esse desejo de dançar. Eu me via, há algum tempo, com inveja dos bailarinos, da forma como eles chegavam nas aulas da academia e matavam a pau em tudo o que faziam, da maneira como essa mesma professora os reconhecia de longe, nos menores detalhes. Levei meses mastigando o que ela me disse e esperei pacientemente. Estava escrevendo uma dissertação e não tinha tempo para nada. Quando terminei a dissertação, cinco meses depois, voltei: “Lembra do que você me prometeu, sobre encontrar a melhor escola para mim? Agora eu quero que você cumpra a promessa”. E foi assim que fui parar no balé.
Comecei achando que ia largar, tanto que só comprei sapatilha e collant vagabundo. Era para desmentir que o balé fosse tudo isso. Mas era, era tudo e muito mais. O balé me deu um prazer, um desafio e uma realização que eu nunca havia imaginado pra mim. Aquilo foi ficando muito importante, foi se tornado tudo. Tive que escolher entre dançar ou continuar o curso de francês, que era para poder fazer a segunda língua na prova do doutorado. Foi-se o francês. Quando minha correria acadêmica terminou e durante um ano procurei emprego na área sem conseguir, era apenas a aula de balé que me fazia levantar da cama. Depois do balé fiz outras coisas, fiz mais balé, experimentei um pouco de tudo. Eu amava o balé mas não era correspondida. Tive que procurar uma dança que eu amasse mas que também me amasse, aceitasse meu corpo e o que ele era capaz de expressar. Fui parar no flamenco. Aí o desafio seguinte foi encontrar um local onde eu pudesse crescer. Encontrei a escola onde estou hoje.
Fui profundamente criada para ser intelectual e quando comecei a dançar, descobri um mundo novo. Na dança os valores são outros, a forma de se colocar é outra, as exigências são outras. Nos ensaios, nas aulas de chão, nas coxias, volta e meia olhava tudo fascinada, meio intrusa e meio privilegiada por estar presenciando aquilo. O corpo da dança é outro corpo; não é o corpo parado e saco de batatas do intelectual, é um corpo que expressa e é alma. Eu não nasci dentro da dança e tenho, desajeitadamente, descoberto, amado, experimentado essa realidade. Já faz sete anos que faço isso. Até hoje me pergunto, quando estou perto de um bailarino, o que ele vê quando me olha – uma intelectual? Um ser indefinido? Ou será que tanto amor conseguiu me tornar um deles?

Neve?

A última vez que nevou em Curitiba foi em 1975. Eu ainda não era nascida. Meus pais moravam em Manaus naquela época. No álbum de família há fotos dos meus primos na neve, naquelas floreiras da rua XV. Minha tia enviou e minha mãe ficou com inveja, morrendo de calor aos mais de 30º graus perpétuos. Meus pais se conheceram aqui, a família toda da minha mãe vivia aqui, eles voltariam para cá meses depois, então foi apenas o acaso que fez com que a família estivesse tão longe de um evento tão raro e aguardado. Depois, ameaçou nevar muitas vezes, e eu sempre esperando, sem muita fé. Desta vez estão falando em fenômeno climático raro, frio molhado e muitas coisas que garantem que dessa vez a gente não escapa.
Eu não vi neve, mas o Luiz é mais velho do que eu, praticamente um curitibano e o assunto veio à tona quando estávamos com a minha sogra. A neve curitibana é igual aquelas perguntas sobre o que se estava fazendo quando atacaram as torres gêmeas ou quando o Airton Senna morreu  – todo mundo tem algo pra contar, todo mundo se lembra. Então perguntei a eles onde e como foi a experiência de nevar em Curitiba. Mal formulei a pergunta e os dois responderam ao mesmo tempo:
– Eu não pude ver a neve.
– Eu não deixei ele ver a neve.
Olha o trauma: nevou, meu marido e a irmã com a cara grudada no vidro, vendo tudo branquinho, e minha sogra não deixou os dois saírem de casa. O lado mãe-caipira falou mais alto e ela ficou preocupada porque nunca tinha visto aquilo, vai que ficava todo mundo doente. Ô dó.

Controle mental

Eu meditei durante anos. Existem várias formas de meditar – de olhos fechados ou abertos, concentrando a mente em algo ou tentando deixá-la limpa, cantando e repetindo mantras ou em silêncio. Dizem que é importante ter um horário fixo, para já deixar a mente condicionada a entrar naquele estado sempre no mesmo horário. Como adolescente desocupada que era, conseguia meditar com poucas falhas todo final de tarde. Fiz esquisitices de me trancar na área de serviço porque nesse mesmo horário a faxineira estava no meu quarto e eu não podia deixar de meditar. Algumas vezes achei que estava alcançando resultados, que me concentrei e saí de lá uma pessoa melhor; na maioria, era como se tivesse dormido um sono confuso. A mente é comparada por muitos a um animal furioso, ou como tentar prender o vento. Fiz durante tantos anos e sinto que a minha continua tão furiosa e vaporosa quanto sempre. O que tem feito muito mais pela minha mente é a maturidade.

 

Não medito há anos, mas busco ainda o controle mental. Não mais aquele de que o misticismo fala, não mais o da mente vazia. Mas tão difícil quanto. Busco o controle de não mais me remoer. Eu tenho um tema, uma preocupação preferida, que suga o meu ser e me torna preocupada quase todos os meus dias. É o primeiro pensamento que surge quando abandono as necessidades básicas e os projetos mais urgentes, é o que ocupa a minha mente quando digo pra mim mesma que agora vou relaxar. Com tanto tempo dedicado a isso, é claro que eu já pensei, repensei, virei do avesso e cheguei, milhares de vezes, à conclusão de que nada posso fazer. Esse é o problema: nada posso fazer. Tenho que deixar rolar. Só o tempo pode decidir ou me ajudar. Continue a nadar. Acho que é isso que dói, é com isso que a mente não se conforma. Por não conseguir ficar parada, a mente começa a andar em círculos. Repeti o raciocínio muitas vezes e em todas concluí a mesma coisa. Talvez seja uma maneira de dizer: eu estou fazendo alguma coisa, eu não estou parada, estou me remoendo.

 

Não quero ficar com a mente vazia, não aquietar a mente. Quero pensar em tudo e qualquer coisa, menos no meu problema preferido. Será que é muito?

Mudar de vida

Sabe quando você realiza aquela limpezona, se purifica do passado, coloca os nomes dos sentimentos ruins em tijolos e joga fora, faz aquelas coisas simbólicas muito fortes e se propõe a, dali por diante, ser e fazer tudo diferente? Estou nessa onda. Vamos mudar, vamos fazer diferente, chega do antigo.
Aí, quando a pessoa pensa em fazer alguma coisa que dê dinheiro, pensa de novo em correr atrás de doutorado. Que merda. Não adianta jogar o antigo fora sem saber o que colocar no lugar.

Três meses

Meu sogro tinha muitos irmãos e era o mais saudável de todos – não estava confuso, não havia bebido a vida inteira ou tirado um pedaço do cérebro, como outros. Não precisava tomar um único remédio, pra pressão, pro colesterol, pra nada. Fazia academia, era ativo, inteligente. Uma das suas irmãs, viúva, tinha colocado-o como dependente num plano funerário há muitos anos. Aí ela sofreu um AVC e levaram dois dias para descobri-la em casa, debaixo da cama. Toda aquela coisa para se recuperar, voltar à ativa, o medo de morar sozinha e ela acabou indo pro interior. Como não estava mais aqui, transferiu o plano funerário para a nova cidade e deixou de ter o meu sogro como dependente. Minha sogra tinha outro plano funerário e não levou nem quinze dias para passar na funerária e colocar o marido como dependente. Lá, foi avisada de que havia uma carência de três meses. Claro que ela nem se abalou – “Imagina, ele não vai morrer em três meses”. Ele morreu quinze dias antes da carência terminar.

 

Essa história foi muito marcante para mim não apenas pela questão da morte. Sim, ela mostra que nós somos frágeis, que a morte não tem hora e nem lugar, que devemos aproveitar o hoje. Mas ela também mostra o nosso desconhecimento sobre as circunstâncias que nos cercam, a inutilidade de tentar controlar a vida. Me parece que tendemos a acreditar que olhamos o nosso futuro como se fosse uma paisagem ao longe, um descampado. Achamos que, com um golpe de vista, sabemos tudo o que nos cerca, tudo o que nos afeta. Temos a ilusão de que somos capazes de prever o que vem, como se fosse um pontinho que surge num cenário distante e cuja velocidade conseguimos antecipar. A vida não é assim. Talvez a metáfora mais precisa, ao invés de uma paisagem, seja crer que vemos através um buraco de fechadura. No máximo, uma fresta. Nossa visão é tão curta, que não somos capazes de prever uma revolução nas nossas vidas (ou o fim dela) nem com três meses de antecedência.

Não fique muito longe

A publicidade já sabe disso faz tempo: quem quer ser importante precisa ser lembrado. Ver o símbolo da Coca-Cola toda hora, em todos os lugares, parece não ser nada, mas em algum lugar do cérebro, teremos sempre em mente que na hora de matar a sede existe Coca-Cola. Por mais que o tempo não cure tudo, não a ponto de fazer com que nunca mais doa, ele apaga um bocado. Apaga mais do que gostaríamos, quando amamos alguém. Some o cheiro, nas lembranças e nos objetos; some o calor do abraço, som da risada, o jeitinho especial de virar os olhos e sorrir. Chega uma hora que precisamos muito de retratos para que o rosto não suma inteiro. Com as coisas ruins, parece que o tempo se arrasta e não se vai nunca, que dez anos às vezes é pouco. É e não é. Mesmo não do tamanho da nossa pressa, as lembranças ruins também vão apagando, apagando, até que elas surgem apenas de vez em quando, repentinas, como uma sombra num beco. E o que é o amor senão um conjunto de sons, cheiros e toques repetidos e bons? Por isso que a distância é inimiga natural dos amantes. O amor é publicidade, é Coca-Cola, é como o cartaz que se repete em todos os lugares. Quem quer ser amado tem que se fazer sempre presente, porque senão um dia se vai. Seja pequeno ou grande, seja amor ou seja ódio. Por isso, não fique muito longe.

Atrasada

Estou atrasada como o coelho de Alice. Só que estou tão atrasada que precisaria correr para trás. Será que só eu me sinto assim? É como se eu tivesse que ter começado todas as coisas há pelo menos cinco anos, no mínimo. Por mais que eu corra, que me aplique e seja rápida, eu deveria ter mais experiência, mais know-how, estar mais pronta. Me dêem um pouco mais de tempo, eu digo, porque certas coisas precisam de tempo. A gente pode comprar os ingredientes rápido, chegar na cozinha e já adiantar o serviço, bater a receita no liquidificador, mas o tempo no forno não pode ser adiantado. É desse tempo que estou falando, das coisas que não podem ser adiantadas. No que depende de mim, estou fazendo. Mas existe o outro, a maturação, o que só pode ser iniciado depois da etapa anterior ter terminado. Nada posso fazer contra isso e a vida me convida, ou melhor, me diz “vamos, vamos, vamos” acompanhado daquele gesto com a mão de quem apressa, de quem me diz que estou atrasada. Eu corro, e quanto mais corro, mais atrasada eu me sinto. Se pudesse correr para trás, se pudesse fazer retroativamente, eu o faria. Um pouco mais de paciência, por favor, estou correndo o máximo que eu consigo. Será que o tempo mandará cortar a minha cabeça?

Trabalho que aparece pouco

Levamos anos tentando achar um pedreiro que se dispusesse a trocar a nossa porta de frente. Só isso – fechar a parede onde ficava a porta e abrir outra logo ali do lado. Pra incrementar um pouco a reforma, seria bom colocar alguns tijolos de vidro no lugar onde a porta estava. Foram muitas as indicações. Chamamos tanta gente e tão poucos apareceram, e desses ninguém nem mandou orçamento, que parecia que estávamos procurando emprego e não tentando contratar alguém. O problema se resolveu porque fizeram uma reforma numa casa por aqui perto, e fui eu mesma abordar o pedreiro. Foi uma luta convencer o homem. Mostrei a casa pra ele, descrevi o serviço, ele me respondeu que agora não podia, eu disse que assim era até melhor porque a porta demoraria pra chegar, ele não gostou da posição dos tijolos de vidro, eu mudei os tijolos pra facilitar pra ele. Foram dois dias de negociações e muitas dúvidas. Até o último minuto fiquei ansiosa à espera dele, nem acreditava que o sonho da reforma própria finalmente se realizaria.
Quando finalmente o pedreiro veio, o preço foi bom, o serviço bem feito e creio que ficamos todos felizes. A reforma durou um fim de semana de muito trabalho, porta e tijolos de vidro são mesmo complicados. São ajustes, massas que precisam secar, que deformam, só vendo para entender. Muito conversador, ele acabou me falando que existem alguns serviços que eles, pedreiros, não gostam, porque “aparece pouco”. Fazer porta era um deles, assim como consertar azulejos e umas coisas que eu não entendo. Reforma boa é levantar muros, cobrir uma parede, fazer um telhado, construir. Nos serviços que não aparece, o sujeito passa o dia inteiro em cima, tem um trabalhão, e quando o patrão vai lá olhar, não tem dimensão do trabalho que deu. Aí quem não entende tem a impressão de que o serviço não vale nada, que nem é difícil.
Escrever é a mesmíssima coisa.

Vida cagada

O que eu guardei da época que estudei Feng Shui, muito mais do que saber onde colocar um espelho ou uma cama, foi a noção de que a vida tem ciclos, altos e baixos. A questão é saber onde estamos e como agir. Se você está num ciclo de expansão, expanda. Crie, aumente, invista, cresça, usufrua. Se você está num ciclo de retração, o melhor é ficar encapsulado, como as bactérias – elas são capazes de se manter inativas durante séculos, até o meio se tornar favorável de novo. Parece óbvio mas não é. Já dei muito murro em ponta de faca, por ansiedade, por achar que as coisas tinham que ser do meu jeito e quando eu queria. Nadei muito contra a maré e sei que cansa. Às vezes, quando a sorte muda, podemos já ter gastado toda energia no período errado, o que é uma dupla cagada.
Mas são ciclos, né? Tem nego que nasce em berço de ouro em castelo europeu, enquanto outros tiveram a vida construída em cima de cemitério indígena. Mas mesmo assim, mesmo assim, tem a questão de como se administra a sorte que tem. Não me venha com discurso de coitadinho. Mesmo quando tudo está contra, sempre existe uma escolha menos desvantajosa. Conheci algumas pessoas com a vida muito cagada, que tinham problema com os pais, gravidez com sexo casual, obesidade e demissão, tudo ao mesmo tempo. Aí você conhece a pessoa, conversa com a pessoa, olha para a vida da pessoa com uma lente bem poderosa e conclui: fez por onde. Ninguém tem ciclo ruim a vida inteira em todos os setores, pode arranjar outra desculpa. A vida cagada, toda cagada, é sempre culpa do dono.

Lua minguante

Uma das coisas mais esquisitas que eu ouvi a meu respeito é que eu sou lua minguante. É menos misterioso do que parece – eu nasci num dia de lua minguante, então teria características de lua minguante. É um pressuposto duvidosíssimo, eu sei, me atribuir características só porque a lua estaria de um jeito quando eu nasci. Mas aí ele me disse: “Você não é daquelas pessoas de lua cheia que chega num lugar e chama atenção, que faz amizades, que tem naturalmente toda sorte voltada para si”. E, poxa, não sou mesmo. Não sou uma pessoa de grande popularidade e brilho pessoal; eu já sabia que não era um sol, agora descobri que nem uma lua cheia eu sou. Tentei dar uma pesquisada sobre o assunto, o que eu sei das fases da lua é o que todo mundo sabe. Não achei nada das pessoas serem como luas. O que posso concluir, pelos cortes de cabelo e pela lua no céu, que ser lua minguante é ser introvertido e nada luminoso. Poxa, acho que sou mesmo.
A gente ouve um monte de coisas durante a vida, boas e ruins, e ignora tantas. Aí ouve que é lua minguante e se identifica, se dói. Eu sou tímida, canso de dizer que sou tímida, e tento achar que é tão século passado confundir timidez com arrogância. Mas parece que não é. Veja o que eu descobri: apenas agora, dez (!!!)  anos depois, a família do Luiz descobriu que eu sou uma pessoa legal, que tenho bom coração. Eles vieram me falar: “a gente tinha uma ideia tão diferente de você, totalmente o contrário do que você é”. Se eles me achavam o contrário de uma pessoa legal de coração bom, conclui-se que pensavam as piores coisas ao meu respeito. E as pessoas que disseram isso nunca haviam me dirigido a palavra. Nunca falaram comigo e me julgavam da pior forma. Tem aí, claro, o dedo de parentes de Curitiba falando mal de mim. Por mais que eles tenham falado, a fama pegou. A mesma fama que eu tinha, quem sabe, faculdade. Quase todo mundo da minha sala me detestava, nenhuma delas tinha ao menos se dado ao trabalho de falar comigo. Anos depois, uma ou outra me deram uma chance, ou porque fui simpática no corredor, ou porque caiu no meu blog sem querer. Aí descobrem, muito tempo e quilômetros percorridos, que eu sou uma pessoa legal, que não sou nada daqu… Que porcaria de imagem é essa que as pessoas tem de mim!?
De onde eu concluo que sou péssima de primeiras impressões. Falta de brilho é pouco, devo ser um buraco negro. Veja bem – as pessoas levam anos pra gostar de mim e eu não cultivo amigos de infância. Ou seja, estou ferrada, ainda por cima dou tiro no pé. Agora não sei se deveria procurar mais as pessoas ou se minha presença só piora as coisas. Aposto que vocês só gostam de mim porque entraram primeiro em contato com o que eu escrevo e não com quem eu sou. Isso se gostarem. Com licença que eu vou ali me matar e já volto.

A morte

A morte não senta. A gente descobre isso lendo Contos de morte morrida do meu amigo Ernani Ssó. O livro é uma graça, com pessoas que fazem acordos, ficam amigas da morte, roubam sua gadalha. Fui no velório do meu sogro e a procurei pelos cantos, de pé. Mas, claro, procurei tarde demais. Ela já o havia visitado há horas, em casa. O que tinha ali era apenas o corpo.
Eu gostava muito do meu sogro, mas seria um exagero dizer que éramos como pai e filha. Alias, essa foi uma das reflexões tristes – pra que servem os funerais, senão para reflexões – que tive lá: serei uma estranha no funeral dos meus próprios pais, principalmente do meu pai. Sempre vivemos separados e no dia que ele morrer pegarei um vôo até Salvador, onde os presentes terão de ser avisados que eu sou a filha do morto, aquela que mora em Curitiba…
Eu chorei quando tive a notícia do meu sogro, chorei antes de sair de casa, mas chegando lá meus olhos ficaram secos. Vou dizer: é constrangedor ficar de olhos secos quando pessoas menos próximas que você estão chorando. Eu, que sou tão emotiva. Mas aí seguimos em cortejo, fomos ao cemitério e encontramos a cova. Os homens carregaram o caixão, que desceu em meio à chuva fina e um frio de lascar. Quando começaram a cimentar, toda aquela cena me pareceu insuportável. Quis fugir, quis vomitar aquele momento. Olhei para os lados à procura da morte, aquela que nunca senta, para xingá-la e dizer que a odeio, que não a aceito. No horizonte, nem sinal dela, apenas do que ela fez – centenas de túmulos, centenas de madeiras e lajes, mais pessoas do que se pode contar. Aí eu chorei – pelo Luiz, pela família dele, por todas as famílias, por mim.

A salvação

Ando revisitando o passado, meu e de outras pessoas próximas, e percebi uma tendência a esperar pela salvação. Nas mulheres, ela geralmente se reveste da figura de um Príncipe Encantado. Mas dizer isso, Príncipe Encantado, dá a impressão de que estou discutindo o romantismo, os contos de fada, papéis tradicionais e fica parecendo que essa é uma doença feminina. Talvez seja, mas não me parece que seja tão simples. Acho que todos nós gostamos da ideia de sermos salvos. Quem escolheria passar por um caminho de pedras ao invés de subir na garupa de quem nos acena com simpatia?

 

Quando eu tinha quinze anos, comecei a namorar um homem muito mais velho do que eu. Ele morava longe, não era tão bonito, me sufocava com seu ciúme. Só que ele dizia me amar e se propôs a trabalhar duro pra arranjar um lar, casar comigo e me levar embora. E como eu queria ir embora! A minha vida estava um inferno e eu sentia que nada me faria falta se eu dissesse adeus. Outra cidade, outra vida, outro lar, outra situação – ser outra pessoa, enfim, era tudo o que eu queria. Eu esperei por esse homem, esperei quase quatro anos. Provavelmente teria esperado mais. Hoje, posso dizer: ainda bem que não deu certo, como eu teria sido infeliz se ele tivesse conseguido. Mas na época foi importante – ele foi a esperança onde não havia nenhuma, pois só o tempo podia me ajudar. Apesar de toda loucura daquele homem e tudo que ele me submeteu, não consigo deixar de pensar nele sem gratidão.

 

Por causa dessa e de outras experiências, sempre que me falam “espera aí quietinha, vou acabar com seus problemas e já volto”, tenho certeza de que não vai dar certo. Podem chamar de pessimismo. Ou a pessoa vai ser trucidada pelos zumbis ou vai dar no pé e nunca mais voltar. Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Poucos anos são uma eternidade para esperar, para tentar arrumar uma casa para alguém. O momento é hoje, se não for hoje não é mais. Cada um precisa estar acordado, preparado para correr, com as malas prontas. Não existem atalhos, não existem caronas, não existem príncipes.