Curtas saturninos

lord saturn

Eu me perguntava porque as pessoas eram assim, não acessavam suas dores, deixavam que se transformassem em pedras, cânceres, rugas ou sei lá o quê. Que se soltassem, chorrassem e gritassem, enfrentassem sem medos. Hoje eu sei que, nossa, funciona pra caramba você ver a tristeza subindo a ladeira e mudar de rua. Muito mais fácil do que levantar é nem ao menos cair.

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Eu cheguei cedo e minha cabeleireira terminou o corte anterior cedo, por isso fui atendida quinze minutos mais cedo. O que era pra ser uma vantagem acabou sendo pior, porque a moça da sobrancelha atrasou meia hora. Ela estava saindo de casa e esqueceu suas coisas e teve que voltar. Que bom que o salão tem wi-fi. Esse pessoal do “converse entre si” não faz ideia do quanto o wi-fi gratuito melhoria o clima deles, com clientes calminhos.

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Voltando ao atraso. Estava com os olhos no celular e pensando no que fazer. Normalmente, falta de profissionalismo é uma das coisas que me deixa virada no jiraia. Me disseram que levaria quinze minutos e eu normalmente me levantaria e iria embora no dezesseis. Aí pensei na quantidade de vezes que me atrasei, a ansiedade dos minutos escorrerem e você sem ter como acelerar o mundo. Decidi esperar, ser compreensiva, tratá-la bem. Decidi não tratá-la com a crueldade que pratico comigo mesma.

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Descobri de onde minha dificuldade com pedintes em geral: eu olho nos olhos deles.

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Tripé

tripé

Sabe quais são as notas musicais? Dórémifásollásidó, você disse aí do outro lado, do jeito que eu escrevi. É quase como se fosse uma musiquinha. A não ser que você seja músico, você só sabe o que vem antes do Si se recitar a musiquinha toda. Hoje eu falei, depois de muitos anos MarxWebereDurkheim. A ordem correta, se for pensar em termos cronológicos é: Durkheim, Weber e Marx. Mas a minha musiquinha é invertida, não sei o motivo. MarxWebereDurkheim são os três autores fundamentais da sociologia, são o tripé, os três porquinhos, os três pilares fundamentais- defina como quiser desde dê a eles o mesmo status. Você terá que saber o nome deles se alguma vez na vida se meter com sociologia, nem que seja de raspão. Se um dia alguém tiver que falar de sociologia e se dispor a ter apenas uma aula na vida, nesta uma aula tem que ter MarxWebereDurkheim.

Talvez a luz vermelha já tenha acendido do outro lado da tela, e o leitor horrorizado pensou: “mas quando você diz Marx, você quer dizer… Marx, aquele Marx?” Sim. Ele não é importante apenas na política ou apenas na economia, e estou falando “apenas” de forma irônica. Quer goste ou não do que ele disse, o mundo não foi mais o mesmo depois que ele escreveu. Ninguém entendia direito de onde vinha o lucro antes dele, achavam que era só das máquinas. Funcionários revoltosos quebravam as máquinas, achavam que estava ali o problema. Revoluções foram feitas em torno das ideias de Marx. Teorias contra, teorias à favor, sistemas de governo, perseguições. É usado como xingamento, como elogio, inspira discussões até hoje. Querer ser puro de Marx é como achar que passar álcool nas mãos te deixa sem bactérias, sendo que elas estão em toda parte e a vida nem seria possível sem elas. Ideologia, lucro, exploração, mercadoria, fetiche, concentração de riqueza – as pessoas usam conceitos marxistas o tempo todo sem saber. Influenciar a história da humanidade é um privilégio para poucos, e Marx faz parte desse seleto grupo.

Uma amiga minha, professora de Sociologia, vai ter que se explicar no colégio onde dá aula de sociologia o porque de ter Marx na ementa da disciplina. No aguardo do dia que vão decidir que as crianças devem aprender apenas a somar, diminuir e multiplicar, sem dividir. Dividir é muito subversivo.

Alto lá, lagartixa!

filtro de barro

Quem é que não gosta de lagartixa, não é mesmo? Curitiba tem um problema sério com aranhas marrons e todo mundo compartilha um aviso que não se deve matar lagartixas porque são predadoras naturais. Enquanto em Salvador há os calangos enormes muros, que as crianças aprendem logo a querer fazer a experiência sobre a regeneração fabulosa da causa deles, aqui é raro encontrar lagartixa e elas não devem chegar a 10 centímetros. Então eu já havia visto uma na parede da cozinha e lhe disse que ela era muito bem vinda, que não precisava se esconder de mim. Uma noite qualquer, vi que havia um volume esquisito na tampa de um dos vidrinhos de tempero e, quando me aproximei, ela saiu de lá. Ela estava enrolada na tampa e saiu correndo. De um lado foi fofinho mas de outro, sei lá, ver que ela não se limita à parede quebrou algo dentro de mim. Eu vivo falando pra lagartixa que ela é bem vinda porque essa corridinha que ela dá me assusta, acho que é barata. “Já disse que você é bem vinda aqui, pare de correr como se fosse uma barata, elas é que não são”.

Pois. Tenho filtro de barro e troco a vela a cada seis meses, como manda o fabricante. Tenho a vaga impressão que antigamente a tampa também era de porcelana; quando comprei o meu e vi a tampa levinha de plástico, achei que economizaram. Eu sou do tipo de pessoa que tem certa preguiça com tampas em geral, especialmente se tem que rosquear muito; já perdi um monte de coisas por isso, de sabão em pó à café. Algumas vezes já encontrei a tampa do filtro meio mal encaixada, e na noite que fui trocar a vela ela estava assim. “Tenho que parar com essa mania de tampar mal, o quanto que já caiu no chão e perdi, etc”. Limpei o filtro, troquei a vela e tal. Outra coisa: tem que dispensar os primeiros doze litros de água, o que corresponde a encher o meu filtro duas vezes. No dia seguinte, fui lá trocar a água e adivinhe: a tampa estava mal encaixada de novo. Não foi a primeira vez da minha vida, mas foi a primeira que eu conscientemente me programei pra não deixar daquele jeito.

Resultado: na minha cabeça, a lagartixa levanta aquela tampa à noite. A lagartixa bebe a água que desce pelo filtro. A lagartixa anda no copo que deixo na frente do filtro. A lagartixa anda em cima da louça que deixo à noite. Estou contaminada de lagartixa há meses. Coloquei um prato fundo tampando o filtro. Nunca na minha vida tenho tido tanta disciplina em não deixar nada na pia antes de dormir, nem que isso implique em lavar e guardar toda louça quase às 2h da madrugada. Se você acha lagartixa fofinha, pense se é a ponto de dividir água com ela.

Frank Sinatra e o vôlei da net

Já que é feriado, recomendo um seriado Netflix sobre o Fran Sinatra, procura lá pelo nome dele. Não vi porque sou fã não, vi porque tinha uma vaga ideia de que era alguém que eu não gostava muito, que tinha gravado Girl from Ipanema e que o cantor que pede ajuda da máfia no filme O Poderoso Chefão seria ele. É interessante porque ele teve uma carreira e uma vida longa, daquelas que pegam os acontecimentos importantes da sua época. Mas o que eu mais gostei foi de não ter conseguido me decidir gostar dele ou não. Algumas atitudes canalhas*, incoerentes, autoritárias, sedentas por poder que ele tem me fariam jogar no lixo das pessoas detestáveis com a maior naturalidade. Mas ele também tem grandes gestos de generosidade, empatia com migrantes e negros quando ninguém tocava no assunto, baixos muito humanos e capacidade de se reerguer, amor aos filhos, caridade, amizade. Quando eu estava a ponto de bater o martelo pra um lado, o documentário mostrava outra face e eu não podia mais. Terminei completamente sem saber se gosto ou não, só sei que era realmente um talento enorme.

O julgamento das pessoas na net me lembra uma prova de vôlei que fiz uma vez no segundo grau, olha que didática incrível: duas equipes jogando, todos os jogadores começavam com nota dez. Cada vez que a bola caía no chão, uma pessoa – ou mais, às vezes até três, dependendo de como foi a jogada – gritava o seu número de chamada para a professora, que tirava um ponto da sua nota. Ou seja, se a bola caiu perto de você seis vezes, você gritava seu nome seis vezes e no fim da aula sabia que tinha tirado quatro. Só que na net, às vezes todos os pontos são retirados apenas com um movimento errado. Ama-se e odeia-se intensamente, a pessoa é anjo ou demônio, verdadeira ou mentirosa, perfeita ou um monstro hipócrita. E os atributos são apenas retirados, muito difícil que se acredite no lado bom das pessoas. Não é assim Sinatra, não deveria ser assim com ninguém.

*quero deixar registrado meu sincero BEM FEITO com o fim da história dele com Ava Gardner.

 

 

Vida paralela

galos do futebol

Um dos bons conselhos que recebi em relação a escrita foi ler sobre os processos dos escritores. Existem aqueles que são tomados por um furor, se trancam por quinze dias, período em que mal comem e dormem, e saem dali com um livro. Se não me engano, Cortázar era um deles. E com a advertência de que o processo não poderia ser interrompido com o risco de colocar tudo a perder. Descobri que são poucos os que funcionam assim – e eu os invejava. Se produzo dois parágrafos bons num dia já escrevi bastante, e tenho que escrever sempre. Hoje, penso que não sei o que seria de mim se fosse desses escritores que ficam possuídos. Não sei como faria para viver no longo intervalo entre um livro e outro. Depois de tantos anos, a vida comum se tornou insuficiente pra mim, eu preciso de pelo menos mais uma. Catar respostas, imaginar gestos de pessoas que não existem, fazer da linguagem um jogo de xadrez, me debater durante dias atrás de um desenlace interessante, ouvir um diálogo na rua e saber imediatamente que ele renderia um bom parágrafo… Se alguém se diz capaz de parar, seja lá pelo quê, não deve ter sido realmente mordido.

Como um homem falaria

cafe da tarde

Estava em todos os lugares, e daquela vez a moça foi parar num programa que passa de manhã, na Globo, não lembro. Era uma música que falava sobre sexo oral. Era uma música bem explícita e, quando ia aos programas, a cantora dava dicas do que o parceiro(a) deve fazer para agradar a mulher.

-Você viu aquilo? Achei demais, uma mulher falar daquela maneira.

-Ah, mas o que alegam é que os homens de nós desde sempre, usam os termos mais chulos. Ela só está falando da forma como um homem falaria

-Mas é diferente. Numa mulher fica feio.

-Eu acho que você está só sendo antiga. Eu também não falo assim. Não é pra mim que ela canta aquela música. Não é para nós, é a nova geração.

Nunca soube se ela se calou porque eu não concordei, ou se também percebeu a distância de décadas que tínhamos da cantora – pelos menos umas duas décadas minha, umas sete décadas dela. E continuamos nosso café da tarde.

Vida e obra de Brandon Walsh

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A minha série da adolescência era a Barrados no Baile, que contava os dramas de jovens que já tinham a parte econômica muito bem resolvida porque eram de Beverly Hills. A série começou com os gêmeos Brandon e Brenda, que se mudaram para lá e tiveram que fazer novos amigos. Em breve, a Brenda saiu, porque a atriz teve problemas com o elenco. Ninguém se importou muito. Isso também foi meio inédito na série: nós sabermos das fofocas. Outra fofoca outra que Brandon estava insatisfeito com o papel e pediu pelamordedeus para os produtores fazerem o seu personagem aprontar alguma coisa. Ele era o Sr. Sensato. A coisa mais próxima de maldade que ele fez foi não cortar de vez a paixão que sua colega de jornalzinho de escola Andre Zuckerman sentia por ele. O Brandon foi simplesmente bom filho, bom aluno, ético, sensato, correto, verdadeiro, etc, a série inteira. Ele foi o único que nunca usou drogas, não brigou com os pais, não traiu e foi traído, não colou nas provas, não bateu o carro. Basicamente, ele era o cara legal que podia ouvir e oferecer uma palavra sábia. Adivinhem se alguém sentiria falta de ele sumisse também.

Esses dias falávamos de alguém, e alguém veio me dizer que esse alguém está sendo enganado, vai sofrer, é tudo mentira, etc. Eu não desacredito, existem realmente indícios. Mas eu já aprendi que ninguém quer passar a vida como Brandon Walsh, nem as mais maduras. Acho que todo mundo já conheceu alguém que, depois de uma vida de boas escolhas, surpreende a todos com uma decisão fora da casinha. Deixem-nas. As pessoas não querem ser alertadas e voltar para suas vidas lisas. Em algum lugar dentro delas, elas querem mesmo bater com a cara no muro. Viver também é isso.

Capital simbólico jovem

revolução tec

Falar em “capital”, todo mundo entende: dinheiro, o que tem valor, o que define se somos ricos ou pobres, o que nos faz ser considerados vitoriosos diante do mundo e nos permite consumir. Bourdieu tem um termo que é o capital simbólico, que é um dinheiro próprio de cada grupo, um dinheiro mais abstrato. Todos concordamos que o dinheiro é dinheiro, mas pra você ser uma pessoa respeitada no meio acadêmico, o “dinheiro” são os títulos. E quando você sai da academia e entra numa aula de dança, ninguém está nem aí se você é doutor com artigo publicado em revista internacional, o julgamento ali é feito em termos de musicalidade e expressão corporal, e por aí vai. Cada área tem o seu “dinheiro”, mesmo que nem sempre seja evidente. Eu fiquei surpresa quando fiz balé em descobrir o quanto formato de pé era importante.

Um dia apareceu na minha TL um amigo compartilhando a sério uma brincadeira que pedia para compartilhar aquela publicação para ajudar um homem com câncer. O homem era Walter White, e só quem tem intimidade com o mundo das séries entendeu a piada. Redes sociais tem o seu capital simbólico, feito por memes, expressões da moda, o conhecimento de códigos e saber a hora certa de usar. Existe a má formação que faz com que alguém escreva errado e não saiba pontuar, assim como existe a piada de escrever errado e sem pontuação. Para os envolvidos é tão claro que, por mais que nos dois casos a norma culta não esteja sendo seguida, o primeiro é humilhado e o segundo é engraçado. Existe até o período certo de uma piada, que cada vez dura menos dias.

Eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução tecnológica. Eu digito com os dez dedos porque aprendi com métodos de máquina de escrever, o mindinho doía a beça pra digitar o A. Embora hoje estejamos todos usando computador e whatsapp, existe um capital simbólico que não é tão democrático quanto parece. Meu palpite é que a (r)evolução tecnológica que aconteceu nas últimas décadas foi como um abismo que brotou no meio das gerações. Às gerações mais velhas sempre coube um papel de detenção de saber e educação dos mais jovens, mas eles não conseguiram se adaptar à tecnologia. Ser conectado se tornou um capital simbólico básico, como uma alfabetização, para a geração que nasceu sob ela. Eles olham para os mais velhos e só vêem ali pessoas ignorantes e inábeis. Como alguém que não sabe nem anexar uma foto vai ter algo a me ensinar? Teria sim, e muito, mas não me parece que seja mais possível convencê-los disso.

Sem troco para vinte reais

troco

Eu havia visto a discussão de manhã e passei muito tempo pensando nela. Depois voltei de ônibus e parei no tubo da frente e ainda eram as mesmas cobradoras. Quando eu já estava na rua, elas me pediram pra voltar. Eu achei que iam me pedir pra ser testemunha. A história do antes: uma moça tentou passar com uma nota de vinte reais de manhã cedo e a cobradora disse que não tinha troco. Quando eu fui pegar ônibus, vi uma moça fora do tubo mexendo no celular e paguei minha passagem. Entraram mais dois ou três. A cobradora disse para a moça que agora ela poderia passar, porque tinha troco. Dali a pouco chegou a mãe. A moça histérica, dizendo que “agora ela disse que pode”. A mãe mais grossa ainda, falando que pagava quatrocentos reais pra sei lá onde a moça ia e tinha que chegar 7:30h. Que faria a cobradora pagar. Que era a obrigação dela ter troco. Que a filha traria vinte reais todo dia naquele mesmo horário e ai dela se não tivesse troco. Um dos moços do tubo até gravou a briga e disse que postaria no FB. Quando o ônibus chegou, ouvi a mãe dizer: “eu nem ia falar nada, mas o meu marido é policial”. Ainda foi com um “nem ia falar nada” quando eu saí, mas depois soube que ela completou: “sabe como policial é louco, uma hora você pode levar um tiro na cara”.

De manhã cedinho, por causa de uma adolescente mimada, a cobradora do tubo foi ameaçada de morte.

Espalhando ideias subversivas

carros coloridos

Uma das cobradoras que encontro bastante coloca o celular na tomada e assiste TV. Ela gosta daqueles programas tipo Datena e eu nunca estou atualizada sobre o que ela está assistindo – tiro em igreja, tentativa de atentado em colégio. Na última vez, a notícia era sobre uma moça que havia acabado de se formar e foi atingida na calçada por um carro. O motorista extremamente bêbado.

“Um absurdo”, “um absurdo”, concordamos. Ela me conta os detalhes de idade, entrevista com os pais, etc. Lembramos do caso super famoso aqui envolvendo um político a quase duzentos por hora, também bêbado. Esse tipo de coisa. Estamos indignadas. É um dos assuntos que me tocam por ter vivido na pele, quase perdi meu irmão num acidente de carro. Desde aquela época passei a ser meio “contra” carro, tive até que me conter quando fui tirar minha habilitação (que só uso como documento), porque quase comecei a pregar contra carro e recuei a tempo da psi não me achar (totalmente) doida. Mas a ocasião permitia e soltei minha teoria:

-Eu tenho uma teoria. Se fosse eu que mandasse no mundo, ao invés de mudar a legislação, eu mudaria os carros. Nenhum carro mais poderia correr muito. Todo carro chegaria no máximo a 80 km por hora. Pra que fazem carro rápido, que chega a duzentos por hora, se nem pode dirigir nessa velocidade? Só serve pra vaidade. Se a pessoa bate o carro, não tem como salvar. Não tinha e pronto. Porque aí a gente não precisa contar com a responsabilidade dos outros.

Vi que ela concordou meio espantada. O ônibus despontou lá longe. Seu olhar se perdeu durante alguns segundos e depois voltou, decidido:

-Sabe que você tem razão? Eu saio com meu filho, na BR, e ele chega a 80 km e eu já mando ele diminuir, é rápido demais. Aí digo que é pra ir pela rua mesmo, que ele me respeite. Não devia poder correr mais do que isso.

Ônibus encostando. Nós duas:

-Com baixa velocidade tem menos acidente. Se tem um acidente com baixa velocidade, nem machuca tanto, só um braço ou uma perna quebrada. E por não ter acidente, o trânsito não fica parado.

Quando entrei no ônibus, vi pelo olhar dela que havia plantado a subversão contra carros em mais uma mente.

O vampiro pianista

vampiro no piano

Já tentei me dedicar a diversas modalidades artísticas, chegando a ser mediana ou boazinha em algumas. De tudo o que eu fiz, acho que a que eu consegui alcançar um nível melhor é a escrita. E a escrita comprova a impressão cada vez mais forte que eu tenho de que a arte é muito uma questão de tempo. Hoje consigo nos meus escritos uma fluidez e um humor que não conseguia antes, mas, pensem bem, o antes tem quase quatorze anos! Talento existe, e como existe – você vê a pessoa muito talentosa começar a fazer aula quando você é veterano, no ano seguinte vira seu colega de classe e depois segue adiante. Mas se você é formiguinha, insistente, TOC e/ou sem noção o suficiente para insistir apesar de aprender muito lentamente e ter dificuldade de expressar, acaba conseguindo alguma coisa. Esta sou eu, e minha alcunha exasperante de “esforçada”, porque esforço talvez seja o que me resta. Por isso que eu me pergunto se uma pessoa que não tivesse o problema do tempo, como um vampiro, e insistisse o suficiente para enfrentar as todas as barreiras, se ela pessoa poderia chegar à excelência artística. Uns vampiros poderiam demorar “apenas” cem anos e outros quatrocentos, mas eu acho que a resposta é um sonoro SIM.

(Acho que os diretores de filmes estão do meu lado. Fui procurar foto pra colocar no post e me parece que todo vampiro famoso toca piano)

Curtas de obviedades (ou não)

overthinker

Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

Etiqueta de divórcio

divórcio

Apareceu nas sugestões de amizade do meu FB uma carinha conhecida. Cliquei e ops, era o marido de uma amiga exibindo o status de “divorciado”. Ela, mais discreta, apenas ocultou o estado civil e umas fotos mais recentes de ambos sumiram. Eu seria hipócrita se dissesse que não sabia, apenas não sabia oficialmente. Talvez outras pessoas discordem de mim, mas acho até necessário que a notícia da separação percorra os amigos; eu fiquei bastante grata quando percebi que as pessoas sabiam e me cuidavam sem tocar no assunto. Os amigos saberem evita a tristeza de ter que verbalizar algo que ainda dói muito. Também deve ser muito chato ter que ouvir perguntas sobre o outro – que muitas vezes são feitas apenas por educação – e ter o dilema de responder como se ainda estivesse com ele ou ter que explicar. Algo que me surpreendeu foi não ter precisado me explicar. Talvez, novamente, devo agradecer aos amigos ótimos eu tenho. Se eu quisesse falar, eles me ouviriam, mas ninguém precisava ouvir os detalhes ou que eu os convencesse de que foi o certo. A verdade verdadeira é que separações são uma tragédia para quem vive e banais para os outros.

As ilusões armadas

elio gaspari

Eu nunca fui do time que achou que não existiu ditadura, eu fui criada numa casa onde se ouvia Chico Buarque e se explicava que eram músicas de uma época que não se podia falar abertamente, que notícias eram substituídas por receitas de bolo, que pessoas sumiam e reapareciam “suicidadas”. Por isso, nunca senti necessidade de ler sobre a ditadura. Mas estou sempre lendo alguma coisa, e passo por períodos maníacos que leio, vejo e pesquiso tudo possível sobre o mesmo assunto. Meus interesses me levaram sem querer à década de 50, e me vi fã de toda aquela época. O Brasil bombava como destino turístico chique, bombava com bossa nova, mandava Carmen Miranda pra fora, descobria o samba da melhor qualidade dentro, construía Brasília, recebia grandes pesquisadores. Era tudo tão legal que eu quis saber porquê deixou de ser tão legal, o contraste entre aquele Brasil de 50 e o Brasil que eu nasci que sempre se odiou era muito grande. Fui pela lógica: se era assim em 50, a resposta está em 60. Foi aí que eu caí no período militar. Escrevi no FB: amigos, o que devo ler para entender o golpe de 64? Foi assim que cheguei ao As Ilusões Armadas, a série de 5 livros de Élio Gáspari. Achei os 4 primeiros na Biblioteca e o último volume teve que esperar pela compra do Kindle.

Os livros são interessantes, bem escritos, consistentes; a série é um clássico, basta ver as críticas. Durante a leitura me aconteceu algo que jamais havia me acontecido na vida: eu passei a ter pesadelos, como se eu visitasse os locais. Lembro do pior deles, logo depois de ter lido sobre o Araguaia. Havia uma pessoa que iam matar, mas saiu uma ordem que cancelava. Acho que ele era enfermeiro. Lembrem-se que na época não existia celular, se a pessoa não estava do lado de um telefone, não tinha como avisar. Era uma questão de tempo – haviam saído atrás dele, outro saiu para tentar avisar que não era mais pra matar. Nos pesadelos, eu sempre chegava no local e não havia ninguém lá, a violência já havia acontecido e as pessoas foram embora. Mas o chão estava cheio de sangue. Poça no lugar onde a pessoa morreu, marcas do corpo que foi arrastado. A dor, os gritos, a violência. As paredes se lembravam e eu sentia tudo mesmo sem ver.

Nunca quis ser “especialista” em ditadura, li o livro pra mim, gosto da dura verdade. Existem muitos motivos que levam as pessoas a negar que tenha havido ditadura, ou que foi um preço necessário, ou que não foi tão violenta assim, ou que só foi violenta com uns poucos ou que mereciam. Acho que o que há de pior ao estudar este período é olhar o mal tal como ele é – o mal não precisa de Diabo, ele é humano e pode foi institucionalizado com cartilhas, especialistas e contracheques.

 

O marido envergonhado

vergonha

Não sei se golpe é a melhor palavra para definir quando alguém conta uma história triste e falsa para fazer com que um desconhecido se disponha a lhe dar um pouco de dinheiro. Uma vez uma mulher me veio com uma história dessas, de uma passagem de ônibus, e me apontou para o marido e o filho envergonhados dela ter que pedir. Não dei dinheiro apenas porque não tinha nada, de verdade, estava perto de casa, mas minha reação foi bem diferente quando ela me abordou poucos dias depois. Talvez ela não fosse profissional o suficiente, porque deveria ter me reconhecido ou mudado de bairro. Mas, talvez ela fosse muito mais esperta do que eu ao perceber que o que dava veracidade à história não era nada do que ela dizia, e sim o marido. Lembro que ele desviou o olhar quando ela apontou pra ele, e me pareceu que ele estava realmente envergonhado de ter que deixar a esposa pedir dinheiro na rua. Foi ele quem me sensibilizou.

os que acreditam no cinismo e na maldade de todos os que não são “de bem”, mas eu acredito que ele podia estar sinceramente envergonhado, mesmo dando um golpe. Acredito na contradição humana. Acredito na ocasião que medimos entre o ruim e o pior, e mesmo a escolha pelo ruim sendo racionalmente justificável, não nos sentimos bem. Ouvi um motorista de ônibus reclamar de um sujeito que estava pedindo dinheiro; ele disse que quando a pessoa começava nessa vida, nunca mais arranjava um trabalho de verdade. As opções parecem ser: trabalho duro e honrado que paga pouco ou mendicância que exige menos e que paga mais. Mas há a humilhação, a vergonha. As caras viradas, as pessoas que fecham o vidro do carro, a sucessão de nãos. Os que dão com tanto nojo que deve dar vontade de enfiar a moeda na fuça. Eu nunca pedi esmola e já sei de tudo isso. Eu me pergunto o que a pessoa diz sobre sua profissão no primeiro encontro, como se defende do cunhado mala no churras da família. Ninguém escolhe entre salário de médico e esmola, assim como ninguém leva vida de classe média com esmola. Na minha opinião, o salário do duro e honrado anda baixo demais pra tanta cobrança ética.

Eu acredito no marido envergonhado. Não precisa aplicar golpes em estranhos pra ser marido envergonhado. Às vezes fazemos escolhas que são apostas no futuro. Às vezes ainda não chegou ou não estamos preparados pra dizer. Fora o pessoal do “cada enxadada uma minhoca”, quem nunca? O marido envergonhado me faz pensar naquelas definições de felicidade, das que se tornam cada vez mais impossíveis à medida que se vive: não ter vergonha de nada do que você é ou faz.

Curtas muito adultos

muito adulto

Não ir ao médico é muito adulto. Quando eu ainda estava na curva ascendente da vida, achava um absurdo a pessoa perceber que tem algo errado com o seu corpo e não correr pro médico. Depois, alguma coisa passa a estar sempre errada com o nosso corpo. E sabemos que o médico nunca nos dirá nada agradável.  Eu e minha lombar, por exemplo, ele não vai me dizer que ela dói porque está bem encaixada e eu faço tudo certo.

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Eu saí do armário com essa história de fazer vídeo e tenho visto outras pessoas saindo também. Pessoas que tem algo a dizer sobre seus livros, sua carreira acadêmica, o que estuda. Que não sabem mexer direito em câmera, têm cacoetes estranhos, rugas, erram palavras. Que tem consciência de que daria pra fazer uma lista imensa de pessoas mais habilitadas do que elas pra falar do assunto em questão. Mas é o que tem, somos o que tem.

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Numa das primeiras vezes que eu dancei em tablado, foi justamente com a minha ex-professora. Fiquei surtada durante uma semana inteira. Minha fantasia era que, se um dia ela voltasse a me ver, eu estaria super poderosa, com todas as falhas técnicas que ela via na época que me conhecia sanadas, enfim, queria provar que ela estava cem por cento errada em não me achar um fenômeno.

Lembrei dessa história porque tive algumas idas e vindas na minha vida e em nenhuma foi como eu fantasiei. Não sei se é porque não alcancei nenhuma das minhas metas ou se é porque somos pra sempre aquela mesma pessoa meio desajeitada de sempre e o tempo só nos acrescenta quilos.