Curtas andando triste por aí

tomar café

Tomando café com uma amiga. Eu só vou lá com ela, mas ela é cliente. Geralmente, quem está lá é a funcionária, mas pela primeira vez no nosso café lá é o dono. Ele nos deixa uma grande fatia de bolo, com doce de leite em cima. Conversamos na hora de pagar, damos risada. No final, ele nos deseja feliz dia dos pais, caso tenhamos. Eu quase o corrigi – por causa de poucos dias, nenhuma das duas têm.

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Chegando arrasada em casa. Vou no caminhão da verdura e o Verdureiro nos mostra foto da filha, tão comprida quanto ele, e os modelos lindos de babador que ele tem. Horas depois, arrasada, vou até a padaria, e a moça no caixa me atualiza que ela finalmente conseguiu vender o cavalo dela e deu entrada no DPVAT, depois de meses do pai dela ter se acidentado. É o universo tentando me consolar com pequenas fofuras.

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Vou na padaria, está cheio, três funcionários atendendo. Quem chega pra me atender é justamente o rapaz que eu não tenho intimidade, o que está sempre de cara fechada. Peço pão, peço uma rosca. Só a rosca. Ele me pergunta qual delas. Eu fico sem graça e digo que qualquer uma. Ele me fala que vai pegar a maior pra mim e dá um sorrisinho de lado. É o que eu sempre peço, mas pros outros.

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Vem e vai. Em dois dias e horários que por acaso eu estava bem, consolei um amigo que tinha perdido o cachorro. Como mensurar dor, eu também ficaria arrasada com a morte da Dúnia. E a dor da morte do meu pai tem piorado, na realidade na hora não me pareceu que seria tão difícil. Aí num dia de baixa meu, uma semana depois, meu amigo queria tomar um café. Respondi que estava ocupada com pintor, etc., o que era verdade mas também não era. Em alguma ocasião eu precisava ter dito o que eu estou passando, mas sabe aquilo que quanto mais demora pior fica?

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Lembrança datada e com trilha

Eu e os meus irmãos estávamos na casa de alguém, numa festa. Embora, pela proximidade de idade, eu e o meu irmão caçula estivéssemos mais na mesma fase, o meu irmão mais velho e ele se uniam e a guerra entre os sexos era mais forte. Crianças não tinham muito acesso a refrigerante na minha infância; quando bebíamos, geralmente alguém havia aberto uma garrafa de um litro e nos dado um copo. Naquela noite, cada um estava com sua própria coca-cola, na tradicional garrafa de vidro de 250 ml. Eu segurei a minha garrafa com a mão direita, a mão próxima do gargalo, e pus na boca. Era pesada pros meus dez anos. Meu irmão mais velho:

-Olha só, ela está bebendo igual alcoólatra, segurando a garrafa igual a Heleninha. (canta com voz aguda) O meeeeeedo de querer…

A Heleninha era Helena Roitman, de Vale Tudo. E eu jamais teria decorado a trilha sonora das ressacas dela se não fosse esta lembrança.

 

Depois ele me mostrou como segurava a garrafa do jeito “certo”, mais embaixo. Nunca mais helenei.

O luto certo

Eu me lembro de quando uma professora minha do primário, que nos dava aula de história, teve que faltar porque o pai morreu. Ela faltou uma aula, depois na aula seguinte, ao invés de ser tão legal como sempre, ela foi menos legal. Mas eu lembro que fiquei bastante chocada, porque pra mim ela merecia nunca mais aparecer. Merecia ter olheiras profundas e chorar a cada frase. Porque a morte de um dos pais, quando se é criança, soa simplesmente insuportável. Velhos que se conformavam em perder o cônjuge depois de uma vida inteira de companhia também me impressionavam. Numa lembrança bem antiga, lembro de uma vez que comecei a chorar e um adulto perto de mim disse que eu estava chorando mais de susto do que pela dor, que criança era assim. É? Acho que foi a primeira vez que eu me perguntei o que havia me feito chorar e fui descobrindo que o adulto tinha razão.

Minha maneira de lidar com a dor parece ser diferente do que alguns esperam. Talvez eu seja mais silenciosa do que outros. Talvez eu devesse pedir mais abraços, gritar em altos brados, falar e falar. Mas, do meu lado, posso dizer que não entendo. O falar e repetir como foi e como estou, o aceitar constante de condolências, ter que reprisar a dor a cada conhecido não me traz nenhum alívio, pelo contrário. Sabe o momento que realmente me faz falta ter um marido? Não é a famosa carência e sim quando eu tenho um problema. Dificuldades adultas do tipo contas, ameaça injusta de multa por cancelar a TV a cabo, decisões importantes sobre o futuro, lidar com burocracia me dão uma saudade imensa do tempo que alguém fazia por mim ou comigo. Aí sim me dói. Dói porque eu posso no máximo contar com a solidariedade dos amigos, mas no fundo pra eles não faz diferença se eu tive que tirar dinheiro da poupança, se fiquei insone, se me precipitei. As pessoas podem apoiar, aconselhar, abraçar e tudo isso fica na superfície, a palavra final é minha, a dor é minha, a falta é minha, a vida é só minha. O luto também.

um pequeno passo

Os ninhos

ninho de pássaro

Era um horário de pouco movimento. Eu me sentei cheia de sacolas de supermercado num banco duplo preferencial, que ficava em frente à porta. Quando paramos no terminal, a senhora que tinha do meu lado saiu e uma mulher com seus cinquenta se sentou no lugar dela. Percebi que ela começou a mexer no celular e me ajeitei, abracei as sacolas no colo e fiquei olhando pela janela. Depois de algum tempo, senti o braço da mulher bater no meu. Virei instintivamente, mas meu pensamento foi o de que ela devia ter encostado em mim sem querer, tentado rolar uma tela ou tirado o casaco. Não tinha sido por querer, ela realmente havia me cutucado.

Olha isso aqui!

Era uma postagem no Facebook, várias fotos de ninhos.

-Olha que interessante, os passarinhos construíram vários ninhos, um em cima do outro.

-Ah, não é sempre foto do mesmo?

-Não, olha aqui. Esse é um, o outro é do galho de cima e outro galho mais pra cima.

-Um condomínio de ninhos!

-Sim! Eles construíram todos juntinhos, por cima um do outro. Olha só, é um pinheiro.

-Vai ver que são da mesma família.

-Devem ser. Queriam ficar juntos.

-É mais prático. Um pode aparecer no ninho do outro e falar: você tem uma minhoca pra me emprestar?

Eu pedi licença porque já ia descer. De pé, me despedi dela, que olhava para a tela do celular e ria baixinho: “minhoca”.

O pior melhor de todos aspectos para o amor

meninas montam carneiros

Animada com os lindos Lua e Júpiter visíveis no céu, fiz um vídeo curtinho, desses que somem da rede em poucas horas, e um amigo disse que queria ter tido tempo de me fazer falar sobre Vênus em Áries. Fiquei sem graça, ele mesmo falou: “é ruim, né?”. Eu, como todo mundo, também gosto de respostas simples e que, de preferência, essas respostas me digam que tudo será ótimo de agora em diante. Mas agora que eu me vejo no papel de fornecer as respostas, fico com receio desse sim ou não, especialmente do não, porque ele pode levar facilmente a uma vitimização (“eu sabia, culpa de Vênus que estava no lugar errado!”) e a vida (e os astros) não é assim. Eu já vi gente muito melhor do que eu, com mais dinheiro, amor, amigos, apoio, emprego e até mapa astral, e que reclama como se fosse o mais azarado da Terra. Tudo é relativo, de verdade.

Pra começar, o bom ou ruim. Vivemos num momento que o outro lado é sempre acusado de ter ideologia, como se existisse um estado puro fora da ideologia e que toda ideologia fosse algo ruim. Ideologia é background e tudo bem background. Até mesmo a sua língua nativa é background. Em algumas línguas existem as palavras bom e ruim, em outras existe bom e não-bom; para alguns idiomas, dependendo do sexo e idade dos falantes, há toda uma hierarquia nos pronomes de tratamento. Essas coisas definem o modo das pessoas pensarem de maneira tão profunda que elas nem percebem. Astrologia também não deixa de ser uma ideologia. Pensando nessa questão de Vênus em Áries ser ruim para o amor, pensei no que era bom para o amor e cheguei em Vênus em Touro e Saturno na casa 7, a do casamento. Há uma visão de amor por detrás disso. Touro é o signo mais lento de todos, assim como Saturno é o planeta mais lento da astrologia tradicional (que desconsidera Urano, Netuno e Plutão). A noção por detrás é clara: amor precisa de tempo. Áries vê, conclui rapidamente, age sem pensar, conquista, enjoa. Com Touro e Saturno, as coisas são mastigadas, elas demoram a serem postas em movimento. Em contraste com o fulgor apaixonado de Áries, são até tediosas, previsíveis. Mas, uma vez que comecem, avançam de maneira inexorável. Dizem que o casamento de Saturno na 7 é aquele que começa praticamente sem paixão e termina com velhinhos fofos de mãos dadas.

Frequentadores de Tinder me garantem que se não rola nada depois do primeiro encontro, nem ao menos um beijo, é provável que a pessoa já tenha te bloqueado no whatsapp antes de você chegar em casa. Bauman chama de relações líquidas, diz que geram insatisfação e são impossíveis de serem preenchidas. Bom ou não, este é o estado atual das coisas, muito mais Vênus em Áries do que em Touro, menos ainda Saturno. Ou seja, o que os astros dizem, o que os outros dizem, o que a sua época diz… no fim, tudo volta para a mesma questão de sempre: o que você é capaz de fazer com o que tem.

O universo dele

Durante todos esses anos eu tive medo de receber a notícia da tua morte e não chorar. Que a nossa distância física, que o convívio esporádico desde a infância e, principalmente, as nossas muitas diferenças me tornassem incapaz de sentir o que talvez exista de mais fundamental nos seres humanos: a força dos laços de sangue, o amor pelos nossos pais. Agora não preciso mais temer minha insensibilidade e a capacidade de ser uma boa filha, porque a notícia da tua morte, embora tenha demorado pra se concretizar pra mim, me atingiu em cheio.

Já você tinha medo de morrer inutilizado. Medo que o seu coração grande demais não lhe permitisse mais o prazer da praia, dos amigos, de comer lambreta, de andar pela casa, pela rua, de andar tantos quilômetros que até mesmo uma grande andarilha como eu ficava cansada. Por mais que fosse uma decisão pensada, me doía a ideia de te imaginar longe da casa que fica perto da praia, onde passei a minha infância. A casa que há anos não sabia o que era ser trancada. Também não o que eu desejava pra você. Fico feliz em pensar que nada disso foi necessário, que você teve o privilégio de morrer suavemente, que praticou seus pequenos prazeres até o fim.

Quando penso em você, a palavra que mais me vem à cabeça é absurdo. Me dói pensar que o universo absurdo que você construiu não existe mais. O acarajé barateza e sem nenhum glamour vendido por um homem na frente de um supermercado. Os carros velhíssimos, com a lataria enferrujada, mas que você sempre gostou de comprar, com segredos pra dirigir, portas que não abriam e que invariavelmente paravam de rodar. Nunca vi alguém com tanto talento pra achar lugares, inventar nomes que remetem a outras coisas e pra formar em torno de si um círculo de amigos tão apaixonados. Quantas pessoas tem mais de dois amigos que viram para a filha e falam: “eu amo muito o seu pai, amo tanto, ele é mais do que um irmão pra mim”.

O vínculo absurdo e exasperante com Salvador acaba de morrer pra mim. As bermudas floridas, os sorvetes gigantescos de uma bola, as caminhadas pela Cidade Baixa e sabe lá Deus aonde, as grandes histórias de grandes frases e blefes e pessoas variadas como a flora amazônica – mas com uma queda indisfarçável pelos mais humildes. A minha prosa não era nada perto do seu carisma, histórias muito melhores que você conhecia por ter uma capacidade muito maior do que a minha de se interessar e entreter qualquer um (“se eu tivesse metade do seu talento pra escrever…”).  Nunca mais vou entrar em bares feios, nunca mais um homem barbado e com netos virá me falar do grande amor por você. Nunca mais as festas, nem que fosse o prazer de assar uma carne pra si mesmo. Agora me restam as linhas retas curitibanas, a vida tão ordeira que eu criei pra mim.

Te amo, pai. Obrigada por tudo.

bonecos em bonfim

O sorriso da jararaca

sorriso-ibralc

Tinha a Jararaca do ambiente de trabalho, daquelas tão boas em criar situações para subir que, até as pessoas perceberem, ela já estava em outro cargo, mais alto. E tinha também o estagiário. Todos o chamavam pelo seu nome no diminutivo, porque ele reunia muitas características e o faziam inho: baixo, novo, e uma maneira meio ingênua de ser. Como estagiário, ele não estava muito por dentro das fofocas e nem era afetado pelas puxadas de tapete.

Um dia o Fulaninho surpreendeu ao dizer que não gostava da Jararaca, achava uma pessoa falsa. Aí a colega de trabalho de ambos, a terceira pessoa oculta desta história, perguntou:

-Como é que você sabe disso?

-Porque eu percebi que ela é toda sorridente quando fala com as pessoas e fica imediatamente séria assim que a pessoa dá as costas.

O ponto de “já sou tão bom que não ligo”

Um dos orgulhos que levarei comigo para o túmulo é o fato de agora conseguir fazer uma saída decente quando nado. Já falei disso aqui. Deve fazer uns cinco anos que treino a bichinha. Morro de orgulho porque parti do zero, de precisar que o professor segurasse a minha mão pra eu ficar de pé em cima do bloco e descer, tamanho o medo que eu sentia da altura daquilo. Pra quem faz desde criança, fazer esse salto não é nada. Aí pensei no que representa o Nodo Sul num mapa astral.

Se você fizer um mapa em qualquer site ocidental, ele vai mostrar onde mostra o Nodo Norte e não vai mostrar o Nodo Sul. O argumento é que não é importante colocar, o Nodo Sul está sempre oposto e pronto. Mas se não está lá, atrapalha na hora de ler. E isso mostra o quanto os Nodos, tanto um quanto o outro, não importam muito para a astrologia ocidental. Para a védica, eles são Rahu e Ketu, que eu descrevi aqui.

mapa zuc

Ketu ou Nodo Sul, fala do que sabemos demais. Você pode acreditar que sabemos demais por encarnações anteriores ou apenas que sabemos demais porque aprendemos com nossos pais e nossas primeiras experiências. Quando sabemos muito uma coisa, ela é um assunto dominado, que não precisa voltar mais, rola um desprezinho. Nos damos ao luxo de sermos totalmente exigentes, porque temos um modelo de perfeição na cabeça. É como aquele aluno CDF que fica de bico porque tirou 9,8. Quem aprendeu a fazer saída desde criança o faz com perfeição sem precisar pensar. O desejo fica sempre no oposto, no que não dominamos e gostaríamos muito de saber fazer. O tanto que assisti vídeos de saída, os olhares que eu jurava sentir cada vez que me aproximava da borda da piscina, a sensação de que era constantemente avaliada. Quando queremos muito, damos importância. Mas meu sentimento de humilhação também era tão grande que eu não conseguia ficar nesse estado durante muito tempo, eu tinha que compensar com outra coisa. Lembrar que eu nadava bem, lembrar que sou boa em outras coisas na vida. Por isso que dizemos que o eixo Nodo Norte e Nodo Sul é uma dança, a pessoa alterna um estado e outro. Não ligamos, partimos pro desejo, não conseguimos lidar muito tempo com a falta e voltamos ao sabido, porque é mais quentinho.

Aí os insights disso num mapa são geniais. Às vezes o nojinho já completamente dominado é se relacionar com os outros, às vezes é a sua relação com dinheiro, às vezes é a família. O que é dominar cada uma dessas coisas, como isso altera nossa relação com o mundo, o quanto isso explica as escolhas na vida?

O bem e o mal

Tudo bem Bolsonaro prestar homenagem àquele que torturou a Dilma, porque ela era do PT, o partido mais corrupto do mundo. Tudo bem falar na morte do pai do presidente da OAB porque era um “comunista” na época da Ditadura, que só matou quem merecia. Tudo bem entrar nas redes sociais da mãe de Glenn Greenwald, que está com câncer, para tripudiar, porque a série de reportagens dele ataca o super Moro, herói da Lava Jato. Eles são Mal e vocês são o Bem, né?

o bem e o mal

Bicicleta, tem certeza?

bicicleta

Nunca na minha vida consegui ser a pessoa que acorda antes do alarme. E quase sempre acordo pensando que tem algum engano, que eu não deveria ter ligado o alarme, que é sábado, sei lá. Quando finalmente aceito que tenho que sair da cama, tem outra batalha duríssima: meu corpo quer a todo custo me convencer de que não dá, não vou aguentar sair de bicicleta. Tem uma nuvem ínfima e branquinha no céu azul – não dá, vai chover. Tem minha lombar que dói, tem o pé que incha, tem o nervo asiático. A recusa continua enquanto me arrasto pro banheiro, quando pego o celular e confiro a temperatura, quando pego a roupa de bicicleta previamente separada na manhã anterior. Vocês que moram no calor e nos invejam pelo frio esquecem o frio da roupa quente mas fria porque estava fora do corpo. Como é ruim estar cheia de roupa e com frio dentro dela. Eu como uma banana e aproveito para jogar a casca no lixo do lado de fora, respiro, olho para o céu. Não, eu não tenho que passar no banco, ou fazer compras, ou morreria congelada, hoje é bicicleta mesmo.

Minutos depois viro a primeira esquina, pedalando, de capacete, bolsa com estampa de pequenas bicicletas aquecendo as costas e me sinto tão feliz, tão heróica.

Aquela mesma

Conversa de vestiário, eu não estava envolvida. Uma mulher contava para a outra da relação que a filha tinha com o namorado. Uma relação séria e possessiva. Ela tentava aconselhar a filha a não levar tão à sério, não nessa idade. Porque ela foi assim, passou pela faculdade praticamente sem aprontar, cheia de nóias com o corpo, desperdiçou várias chances. Deveria ter dado, distribuído. Nessa parte da conversa eu estava no reservado, no trono, e quase gritei de lá:

– Eu dizia a mesma coisa. Que desperdicei oportunidades, que tinha nóias imensas com meu corpo e nem sei de onde eu tirei. Que se tivesse a segurança de uma adulta, faria diferente. E quando me vi adulta e sozinha, agora, não faço nada diferente. Estou apenas mais velha, mas ainda sou aquela mesma que detesta balada, que não percebe interesse dos outros, que precisa de envolvimento emocional.

Aí pensei que talvez eu seja a única. Sou a única que faz o que eu faço, ou melhor, o que eu não faço. Que as mulheres na minha idade descobrem o quanto isso de idade é importante para eles, que insistem em achar que beleza é só o viço dos vinte. Elas lutam, que vão para balada, que colocam silicone, que se adaptam e aprendem a não quererem mais namoro. Que eu nem ao menos pinto o cabelo. De tanto fazer o que me é cômodo, me descobri a pessoa menos adaptável que eu conheço. Há uns dez anos um astrólogo me disse que eu tinha complexo de Peter Pan e na hora não fez sentido, assim como na hora nem eu mesma ler um mapa astral faria sentido. Quem sabe eu ainda me comporte como me comportava na juventude não porque continuamos sendo sempre o que éramos e sim eu, EU. Teimosa, Peter Pan.

Saí do reservado e fui direto pra minha aula.

macanudo de bike

Olhos confiantes

Eu fui aconselhada a falar que sou formada em psicologia quando me propuser a atender as pessoas, coisa que nunca faço porque nunca atuei na área, nunca tirei registro. O argumento foi que eu uso princípios de psicologia, que isso faz parte de mim. Pois é, tenho que reconhecer que, apesar de ter passado uma vida inteira rejeitando minha primeira faculdade, eu aplico sim. Me toquei disso numa conversa simples. Uma amiga teve ficou muito tempo mantendo moradia em Curitiba e numa cidade próxima, depois de algum tempo achou que o arranjo estava caro e comprometendo a clientela e deixou de morar aqui. Aí o assunto surgiu numa outra conversa, tempos depois, algo: “a Fulana ainda mora aqui?” e aí contaram que “parece que não deu certo aqui, ela não conseguiu me manter e foi embora”. Eu desmenti, disse exatamente o que escrevi em cima. Aí a pessoa me olhou com uma expressão que dizia: “tolinha, essa é a versão oficial, eu sou uma pessoa que vê além das aparências”. E, pensando bem, ela é daquele tipo que duvida de mulher que diz que foi violentada, etc.

No curso de psicologia, a gente aprende que a aceitação é fundamental. Esta aceitação leva a uma crença no que o outro te diz. É o contrário da atitude do esperto, aquele que não quer ser nunca passado para trás, o que quer ler nas entrelinhas. Eu aprendi a acreditar, e a sinceridade com que acredito nas pessoas já as levaram a me contar cada intimidade… E mesmo quando não é bem daquele jeito, como diria o esperto, ainda assim é verdade, num sentido muito mais fundamental – é verdade sentimentalmente, é verdade da maneira como pode ser dito. Por incrível que pareça, Osho estava certo quando dizia “se seus olhos são confiantes, ninguém pode enganá-lo”.

a lo mejor

(Sim, eu vi Wild Wild Country. Mas se você também não é de jogar tudo fora e quiser procurar a citação, está em “Palavras de Fogo”, p.128)

Esperando o Cristo

budista e niilista

Sem querer ser desrespeitosa, mas não consigo pensar numa comparação melhor. Esperar por Cristo é acreditar numa promessa vaga de uma volta que juram que pode ser a qualquer momento, amanhã mesmo, e de amanhã em amanhã já se passaram mais de dois mil anos. Mas, depois de tanto tempo, quem disse que não pode ser amanhã o amanhã de verdade? Então é preciso estar preparado, com a casa de ordem e boas ações no currículo.

Tá difícil. Tem época que dá pra largar mão de tudo: horário para acordar ou dormir, alimentação saudável, higiene, falar com pessoas, acompanhar as notícias. Dá pra abandonar pouco a pouco qualquer contato com o exterior e ficar preso apenas na auto-comiseração. Porque é difícil responder “tudo bem” quando nada está bem. E quando há um desespero coletivo, você nem ao menos consegue alguém que te dê uma mentira positiva porque ninguém está vendo saída em lugar nenhum. Mas é preciso levantar cedo, mesmo sem ter um compromisso depois; manter as unhas e os cabelos aparados, mesmo sem ter ninguém que nos olhe; comer a comida saudável e fazer exercício, mesmo sem ter quem se importe ou quem peça. É preciso fazer como aqueles que esperam Cristo, que se mantém ativos mesmo sabendo que o tal amanhã é uma conversa de mais de dois mil anos. É preciso encontrar forças mesmo na mais vaga das promessas, se preocupar com o que não está visível no horizonte. Não temos certeza da melhora, mas dá pra ter certeza da entropia natural das coisas, da desordem, da dispersão, da crueldade do tempo sobre os corpos, da maneira como o mundo parece cada vez mais assustador quanto mais nos afastamos dele. Se por um lado o esperar Cristo pode parecer uma prontidão vazia, sem ela nos tornamos totalmente inúteis – aí pouco importa em que dia estamos.

Comfort food

pãozinho

Eu mesma só fui conhecer o termo há poucos anos, nem sei se ele existia antes. Foi uma blogueira que se viu tendo que comprar um Quick bem caro em outro país, porque para  a filha era importante naquele momento. Depois de semanas de telefonemas, ameaças e ajustes com operadoras de internet, parece que finalmente resolvi os últimos detalhes, e me vi comendo a mesma pizza que como desde criança. É uma pizza tão poderosa que serve de comfort food pra toda família. Minha mãe a comia quando era criança, meu irmão mais velho passa lá quase todos os dias quando vem pra Curitiba e considera aquela a melhor pizza do mundo. Eu ia resolver outros problemas e quando me vi estava lá, apertadinha na cadeira alta. Foi meu presente.

Saiu a nova temporada de Queer Eye e termino os programas com lágrimas no olhos e me sentindo confortada. Acho lindas as pessoas que eles selecionam e lindo o carinho deles. Também ouvi de uma tentativa fracassada de terapia, e me pareceu que faltou bastante aceitação por parte da terapeuta. Eles, os 5 fabulosos, realmente me convencem nas suas conversas terapêuticas, em poucas frases eles são de uma sensibilidade incrível. Eu acho que o falar a coisa certa passa muito por uma aceitação profunda do outro, pela experiência de vida, uma capacidade de amar.

Quando uma pessoa se vê muito sozinha, como eu me vi, ela se obriga a encontrar comfort em vários lugares. Descobri comfort em aplicativo de karaokê. Descobri comfort em música no chuveiro. Descobri comfort em vídeo de astrologia enquanto preparo café da manhã. Não quero sugerir comfort pra ninguém, o que eu quero dizer é que comfort não é só genético, não precisa vir da infância e do que nos aconteceu. Dá pra criar comfort. Procure comfort, seja comfort.

Um problema dos gentis

anti-quisto

1. A vida me coloca numa interação curta com a Pessoa 1. Nesta interação, ela não me trata bem. Apesar disso, eu continuo sendo gentil com ela.

Os motivos de eu ser gentil numa interação desagradável são inúmeros. Já citei em vários lugares uma frase do Hamlet que resume a minha ética sobre o assunto: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Ou seja: eu parto do princípio que todos devem ser tratados com o maior respeito e consideração, independente de quem elas são. Pra eu tratar diferente, ela tem que ter saído da regra. E sou meio síndrome das escadas também, não sou do tipo que dispara uma resposta rápida automática quando me agridem (o engraçado é que com brincadeiras eu sou bem rápida). Na dúvida se a pessoa esta num dia ruim, ou eu estou num dia ruim e meio paranoica, diferença cultural, dor no ciático… ou se a pessoa realmente me odeia e decidiu fazer a parte dela pra estragar o meu dia, eu tendo a continuar educada. A possibilidade de arranjar briga quando você trata as pessoas com gentileza é mínima. (#DICA)

MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE EU NÃO NOTEI.

2. Eu e a Pessoa 1 temos algum Conhecido em Comum. Ele decide nos reunir. A Pessoa 1 fica sabendo que há possibilidade de se encontrar comigo e diz: “Claro, gente finíssima, pode marcar!”  Quando chega até mim a possibilidade de reencontrar a Pessoa 1, eu digo Não. Aí o Conhecido em Comum, que não conhece o contexto, me acha uma pessoa dificílima – como pode a Pessoa 1 ter de mim uma impressão tão boa e eu me recuso a encontrá-la? Eu, no lugar dela, também teria.