As dificuldades

dificuldades

A vida na internet me colocou em contato com muita gente que escreve bem. Nós não sabíamos, mas estávamos todos naquela idade das possibilidades. Ou talvez um deles soubesse, quando me dizia: “você sabe que o que eu invejo não é o que você escreve, e sim você continuar escrevendo”. Porque ele, na verdade, foi um dos que eu conheci pós-escrita. Ele foi dono de um site delicioso, que teve muitos fãs e lhe permitiu “comer muita gente” (palavras dele). Eu acreditei piamente que um dia todos nós estaríamos num cocktail, comentando nossas críticas, dizendo por debaixo dos panos que Fulano ou Beltrano nem é tudo isso, que a literatura brasileira anda mesmo bastante decadente. Eu pensava, como na tirinha do Liniers, que a gente lutava contra os nossos fantasmas, contra o fato do que o que pareceu lindo na imaginação, praticamente um livro inteiro, se transformar em poucas linhas medíocres quando finalmente sentamos para escrever. Mas estes entraves – sei agora – são o de menos. O problema são os vazamentos do Intercept. Eu fico doida, não consigo pensar em mais nada. Clico em cada paródia, tenho que dividir todos os memes. Fui atrás do filme do Snowden (Netflix), ainda não tinha visto. Vi o David Miranda dançando e agora quero formar um trisal com Glenn e David (mas me conformo com um jantar). Quando o que me invejava-porque-ainda-escrevo me falou isso, eu lhe respondi que ainda escrevia porque não conseguia parar. Na expressão dele vi que isso soou muito invejável, mas talvez isso seja apenas um atestado da minha falta de saúde psíquica. Eu poderia ter lhe dito que ele se diverte em comer gente, em se envolver com as questões dos filhos, em frequentar bons restaurantes e eu não tenho nada disso. Até já tive, mas hoje estou sem restaurante, sem dinheiro, sem companhia, sem nada. Passo dias sem interagir com nenhum outro ser humano que não seja atendente da padaria. Uma pessoa mais normal se angustiaria; já eu acostumei e gosto. Até minha mãe se angustia pela minha recusa em conhecer gente. Meu mundo praticamente se resume a escrever e, sob este ponto de vista, eu sou extremamente incompetente. De todos os amigos escritores que eu imaginava um dia discutir, um deles ganhador do Nobel, o outro autor de crônicas, eu aparecendo disfarçada de personagem no livro de alguém, aquele que realmente conseguiu escrever foi um que não fazia alarde. Mais inteligente, ele não se propôs a nenhuma revolução, ouviu muitos conselhos e surpreendeu a todos com livro bacana, editado, recomendável; comparado com a nossa empáfia e publicidade, ele foi um verdadeiro um azarão. Conseguiu porque é professor, vida estável e disciplinado. A nossa culpa, dos que não escrevemos os famosos livros, é do Intercept, do divórcio, dos vídeos de gatinhos, dos app, dos astros. Pelo menos uns dez anos se passaram e estamos numa idade “ih, daí não sai mais nada”. Ou será que ainda sai?

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Surya, Saturno e como mesmo o triunfo não é como e quando gostaríamos

(Se você gosta quando eu falo de astrologia, dá pra entender isto como astrologia. Se não, é possível ler como “a vida é assim mesmo, dura”)

Eu peguei o costume de ficar vendo mapa astral de famosos. Leio qualquer coisa, tipo “Michael Jackson era muito ligado à mãe”, e procuro o mapa astral do vivente no google. Aí dou uma olhadinha rápida, só pra ver se acho um padrão. (No caso de ser muito ligado à mãe, procuro a Lua). Numa dessas muitas olhadas, vi o mapa da patinadora Surya Bonaly, que aparece na série Losers (da Netflix, já recomendada aqui). Ela tem Saturno bem junto ao meio do céu. Planeta junto do meio do céu costuma ser uma excelente indicação para a carreira. Ao mesmo tempo que é um aspecto fortíssimo de longevidade, ambição e ser o melhor na sua carreira (outra que descobri com este mesmo saturno é a Rainha Elizabeth), Saturno é sempre Saturno, o planeta das provações e dos atrasos. Aquele que sempre promete o que cumpre, mas que cobra muito antes de entregar.

A história dela é muito impressionante. Todo o esporte que Surya praticava, rapidamente se tornava a melhor. Era claramente um gênio. Começou a patinação artística e logo se tornou a melhor da Europa. Mas, em Olimpíadas e Olimpíadas de Inverno, Surya esbarrava no preconceito. O eufemismo usado era que ela era boa, porém muito exótica. Na prática, mostrava que os juízes não conseguiam aceitar uma rainha do gelo fora do padrão Disney: loira, branca, delicada. Surya era uma negra poderosa, que fazia coisas que nem os melhores patinadores masculinos eram capazes. 

Imagine que duro deve ser ter certeza e todas as provas de ser o melhor da sua área e, ao mesmo tempo, não receber o que lhe é devido. E me parece que com Saturno é assim, a sensação de bater numa parede, dar o seu melhor e mesmo assim as suas forças se provarem insuficientes. Diz que o objetivo é fazer com que a pessoa trabalhe ainda mais duro. A cena dela tirando do pescoço a medalha de prata, que os puristas acusaram de falta de espírito olímpico, dá para entender perfeitamente dentro do contexto. Uma menina, que trabalhava muito, era a melhor, e faziam questão de não recompensar. Tudo o que eu leio sob o governo de Saturno diz: “xiiii, antes dos 30 nem adianta”. “Antes dos 34 não adianta”. “Se tiver outros aspectos envolvidos, dá pra ir acrescentando cada vez mais anos”. Mas chega, garantem. Saturno não dá o que você quer na hora que você quer, mas às vezes pode entregar mais do que você imagina.

No caso de Surya, o que se entregou foi muito maior. Se ela tivesse ganhado aquelas medalhas olímpicas, seria apenas mais uma patinadora. A injustiça que Bonaly sofreu tornou o seu caso emblemático. Ninguém sabe o nome das patinadoras que ganharam dela; alias, eu nem sei o nome de outras patinadoras no mundo. E dizem que o que vem de Saturno nunca mais se perde. O Losers me deixou feliz em saber que ela está feliz, na vida pessoal e com sua história.

Uma última curiosidade: os pais de Surya viajaram muito para a Índia antes de adotá-la. Em hindi, Surya significa Sol. Surya e Shani (Saturno) são grandes inimigos nas histórias e, por consequência, na astrologia védica.

Feliz aniversário pra mim

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Hoje é meu aniversário, faço 42.

Alguns conceitos só começam a fazer sentido com a passagem dos anos. Porque, a curto prazo, são apenas uma porcaria: tentar a todo custo ser coerente com o que você diz, colocar a correção acima de vantagens pessoais, preferir o papel de vítima ao de algoz, suportar as injustiças, ser o mais verdadeiro possível. Todas essas ideias são um convite a não usufruir o que se apresenta no presente; elas fazem com que você se sinta um motorista que no meio de um racha resolve frear para pedestres ou dar seta antes de fazer as curvas. Só mais tarde entendemos que viver é construir uma biografia, um tiro único. A história construída com os anos será sempre carregada com você, te definirá aos olhos do mundo e não aceitará nenhuma desculpa. Ter tornado o mundo um lugar pior por medo, falta de visão ou porque precisava de dinheiro, dá tudo na mesma. O contrário também – até nossos sorrisos falsos, no final das contas, foram sorridos. O que foi feito é o que é.

Se tudo der certo, estou agora no meio do caminho, talvez um pouco mais pro lado onde a régua está menor. Se eu gosto do que vejo? Na média, sim.

Curtido

roça

-Você é professora?

-Não.

-Você tem cara de professora.

-É a idade. Estou velha. Vê se alguém com dezesseis anos vai ter cara de professor. Todos nós ficamos com cara de professor com o tempo.

-Professora jovem. Eu que tenho cara de acabado. É que quando eu tinha meus quinze anos, quinze até os dezenove, eu cantava nos bailes. Na fase de desenvolvimento, como se diz, eu dormia mal, bebia. Fiquei assim.

-Mas aí valeu a pena, aproveitou.

-Eram outros tempos. Naquela época não se considerava que eu era assim tão novo…

-Verdade, outra educação. Hoje é diferente, pra melhor e pra pior.

-Eu acho que é pra pior. Hoje protegem muito. Eu fui colocado pra trabalhar na roça com meus seis anos. A gente aprende a dar mais valor.

-Tem o lado bom e o ruim. De um lado, as crianças recebem tanto amor, tanto carinho, tanto cuidado… Mas por outro lado, quando saem no mundo, é porrada atrás de porrada.

-É mesmo, eles não estão preparados.

-Você que trabalhou desde os seis anos, alguém pode dizer: coitado, que infância dura. Mas por outro lado, quando você ficou adulto, já estava curtido.

“De onde diabos eu fui desenterrar o termo ‘curtido’? Será que ele entendeu que eu o comparei com couro?”

-É bem isso mesmo. Veja, meu pai acordava a gente cedo. Com seis anos eu pegava na enxada. A gente arrancava feijão, assim. Eles diziam que a gente arrancava rápido porque era criança, não tinha dor nas costas. Não tinha? De tarde a gente não conseguia fazer assim (se inclina para trás). Era pequeno e tinha braço pequeno, mão pequena. Produzia menos, mas trabalhava igual. Em dois dias a gente fazia um alqueire. A gente vinha assim, com o adubo, e o adulto passava atrás fechando assim.

Meu ônibus chega. Eu me despeço.

-Eu vou ficar pensando no que você me falou. Eu nunca tinha memorizado assim. É bem como você disse mesmo.

Anti-agito

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Estávamos esperando o ensaio começar. Tem uma coreografia bem simples, mas bem simples mesmo, que todos fazem juntos. Como tem convidadas especiais, e elas têm que ficar na frente, pediram pra dois professores repassarem com elas. Eles repassaram, aí as pessoas estavam por ali perto começaram a repassar junto. De novo, outra vez, agora sem olhar no espelho. O troço foi como uma onda e estava quase todo mundo repetindo aquilo várias vezes, como se fosse aula. Eu os observava à distância, sentada. Olhei para aquela balburdia, eu imóvel, eles se mexendo, e pensei que aquilo era muito eu – a antissocial, a alien, a que não sabe se divertir em festas. Mas olhei de novo e conheço bem algumas pessoas, e sei que elas não estavam preocupadas com aquela coreografia. Comecei a me perguntar quantos ali não estavam apenas não querer ficar estranhos, e por dentro não estavam achando um saco repetir mil vezes algo simples e que bastaria colar na hora. Que poderiam estar se sentindo falsos, dentro e fora ao mesmo tempo. Exatamente como eu me sinto quando tenho que fazer de conta que estou me divertido. Meu problema com festas é principalmente a obrigação de estar sorridente e sempre em movimento, buscar constantemente um holofote imaginário. Pela primeira vez, percebi que justamente a minha recusa em fingir e ser capaz de ficar no meu canto pode ser uma das minhas grandes qualidades.

Nossos corpos

praia anos 80

Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

Ciência comportamental

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Eu lembro bem do primeiro dia que tivemos aula sobre behaviorismo radical. Numa cena de filme fantástico, as carteiras voariam, as pessoas rasgariam as roupas, comeriam os livros. O fato de ter sido ministrada por uma psicanalista, obviamente odiando tudo aquilo, torno ainda mais dramático. Com a teoria freudiana estamos todos mais ou menos acostumados, mesmo sem dominar. Sabe como é: ego, culpa, consciente e inconsciente. Já uma teoria que diz que não devemos buscar explicações nessas “viagens” e sim no comportamento observável… ninguém lá estava preparado. Skinner, o Freud do Behaviorismo, provocava: tudo pode ser explicado pelo comportamento, até mesmo os pensamentos. Tudo, ele tem essa ousadia de dizer que tudo? Não podia ser, que absurdo, reduz a pessoa a um… a apenas… como se! “O pior é que funciona”, dizia a professora num misto de provocação e conformidade. Melhor terapia pra resolver um problema concreto. Você pode tentar tratar uma fobia como o pequeno Hans, o caso clássico do menino com medo de cavalo, que aí entra no tamanho do pênis do cavalo, na fase do desenvolvimento que ele estava, como é o complexo de Édipo masculino… ou você pode identificar a fobia, seus desencadeadores e fazer uma exposição gradual. Pá bum. Nem todos ficaram chocados, alguns acharam que até que fazia sentido, e tão mais prático… Psicanálise e behaviorismo talvez sejam os dois grandes times dentro da psicologia, os opostos mais radicais da régua. 

“Não se pode dizer” – algum dos livros de behaviorismo que eu estudei exemplificava – “que a melhor obra de Shakespeare seja a que ele não escreveu”. Eu nem pretendia escrever na época, mas lembro que essa frase doeu. Pense no gênios, nas pessoas que admiramos. Perdoamos e até gostamos de todas as suas esquisitices porque acreditamos que foram elas que os levaram às grandes obras. Tire as grandes obras e o que sobra? Um velho descabelado mostrando a língua, um matemático virgem, um baixinho tão meticuloso que dava pra ajustar o relógio com os horários de saída dele. A grande lição que eu tirei com o behaviorismo talvez seja: faça e, assim, se valide.  

Tem dica?

verduras

Uma das melhores coisas que eu aprendi foi fazer compras no caminhão de verduras. Além de ir muito à favor de um ideal que eu tenho de sempre apoiar os pequenos, estou me tornando mais saudável na minha alimentação. E a assessoria do Ricardo é outro diferencial, ele entende tudo do que vende. Aprendi a perguntar “tem dica?” antes de decidir algumas escolhas e ele me responde, sempre com algum pudor: na verdade, tem sim.

  • Côco verde: melhor os de circunferência mais perfeita, não os muito compridos ou largos. Sentir o peso do côco. Alguns tentam ouvir o som, mas se você ouve a água lá dentro ela já está começando a ser absorvida pela parte comestível.
  • Maracujá: já no maracujá é o contrário, você deve ouvir o barulho das sementes lá dentro. E sentir o peso. Se chacoalha muito, tem pouca semente dentro. Tem que fazer um barulho mais robusto.
  • Mandioca: melhor colhida em mês sem R. O ideal é consumir em poucos dias. Duas maneiras de preservar: descasca e congela, dura indefinidamente. Ou descasca e deixa na água. Aumenta em mais alguns dias, mas a água precisa ser trocada e vai perdendo os nutrientes aos poucos.
  • Mel: o mel realmente puro vai descendo e ficando empedrado com o tempo. Se não acontece isso, é porque está aguado. Pra deixar mole de novo, colocar em banho maria.
  • Brócolis: para preservar, primeiro dá um susto na água quente, logo depois coloca na água fria. A água quente vai pré-cozer de leve e matar os bichinhos. Depois separa as arvorezinhas e guarda na geladeira.

Isso sem falar no olho clínico na hora de me ajudar a comprar o melhor abacaxi ou abacate. E agora também estou comendo a batata Yacon, há tempos eu procurava uma solução natural pra colesterol alto que fosse possível comer sem fazer careta. Em Curitiba tem muitas feiras livres, elas estão em todos os bairros, assim como tem feira de orgânico no Passeio Público de manhã. Eu antes não ia até por não saber fazer nada; aos poucos, o Ricardo tem me ajudado a experimentar novos sabores. É um horti-fruti com guia, recomendo muito a outros incompetentes culinários.

Até o relógio está com vidro embaçado

Quando eu morava em apartamento, a chuva era um barulho lá fora; em casa, a chuva se torna algo muito mais concreto, um problema pra andar na sua própria área de serviço. Não sei dizer quanta porcentagem do meu dia merda era culpa disso, da chuva constante. Ultrapassou o estágio de falta de sol e são todas as toalhas que eu me enxugo molhadas, os panos na cozinha, o varal na sala, a tentativa de secar pendurando em cadeiras, o cachorro praticamente mofado… Aí fui na padaria e a mocinha sempre sorridente está com a cabeça apoiada no ferro do lugar onde passa cartão. Ao invés da conversinha simpática, apenas o básico, da parte dela e da minha. Isso sem falar do que não quero nem choramingar aqui, aquela confirmação de que as pessoas sempre me consideram alguém insignificante demais não apenas para não ter que puxar o saco como também não precisam fazer o básico do básico, nível nem ao menos agradecer presente. Aí final da tarde resolveu chover mais grosso e mesmo assim me arrastei até a manifestação. Muita gente conhecida disse que ia, mas não combinei nada com ninguém e foi sozinha. Acabei encontrando um amigo que não via há anos e marchamos juntos. Fui lá fazer número, ser mais uma pessoa pra ser talvez filmada por um drone e dizerem que fomos muitos a marchar pela educação. Tudo continuamente merdamente úmido e, pra falar a verdade, nem ao menos sei se adianta alguma coisa marchar. Eu vou para me sentir menos só, menos louca, menos “não entendo a indiferença de vocês” (leiam este artigo sobre NECROPOLÍTICA) , menos ET. E sempre dá certo.

UFPR

Geografia no cérebro

É muito mais do que um lado racional e um lado artístico. Pra uma ação complexa, como falar ou pensar, o cérebro ativa vários pedaços, como se fossem países diferentes no mundo cérebro. Às vezes também pode mudar de pedaços – não apenas quando tem uma lesão e aquela área fica inútil, mas também quando de alguma forma aquilo muda. A força e a complicação no cérebro humano é justamente esta, do charuto ser ao mesmo tempo só um charuto, mas também pode ser desejo fálico, o jeito de cortar o charuto, o clube do charuto, a diferença do gosto comum e os cubanos, daquele dia fumando charuto e… Por causa dos lugares diferentes no cérebro, as mesma pessoa pode ser um doce, que te fala do poder da oração, como também te dizer que não hesitaria em meter bala num bandido. E pra ela não há contradição nenhuma. O nome é dissociação cognitiva. Não adianta dizer que é característico de ismos ou istas, é próprio de seres humanos.

Às vezes também pode acontecer o contrário: de tanto áreas diferentes serem ativadas, assuntos que a princípio não teriam nenhuma relação, podem se encontrar lá dentro sem querer. O charuto, a arma, a oração, a aula de geografia – eles estão andando, se encontram na mesma rua e conversam. É isso também que faz o cérebro humano ser criativo. É isso que faz, também, com que London, London tenha se tornado uma música importante pra mim, daquelas que doem, apesar de eu nunca ter pisado em Londres e muito menos ter sido exilada. E não é nem a versão do RPM, que é a que me fez ter contato com ela quando era criança, é a London, London do Caetano. Aposto que você também tem dessas associações que só faz sentido nas esquinas do teu cérebro.

 

Dois pitacos e meio sobre Marguerite

Marguerite, que tem no Netflix, é baseado em fatos reais. É a história de uma aristocrata que canta muito mal, e que não tem a menor noção disso.

1. Tenho pensado bastante o quanto a diferença entre ser alguém e não ser ninguém é toda diferença entre levar porrada ou não da vida. Preto e pobre leva muito, e literalmente. Há poucos dias uma muito rica fez algo completamente sem noção num grupo de pessoas. Se fosse eu a fazer aquilo, a resposta seria imediata – fariam caras, alguém me mandaria parar e me colocariam de volta à minha insignificância em poucos segundos. Como era alguém que um-dia-pode-me-dar-uma-vantagem, não apenas não falaram nada como fingiram que estava o máximo. Igualzinho Margarite. O filme mesmo faz esse contraponto, mostrando a cantora talentosa e pobrinha. Me deu vontade de mandar pra umas Marguerites que eu conheço assistirem, quem sabe se tocassem.

2. Peguei o filme para rir, mas acabei me sentindo #somostodasmarguerite. Gostamos dos grandes talentos, mas a arte se faz principalmente pelos grandes entusiasmados. Pensei em dizer que os medíocres são o adubo da terra que gera os gênios, mas aí fica parecendo que estou dizendo que medíocre é merda… O que quero dizer é que não é possível investir só no gênio; quando vemos classes inteiras de pessoas que nunca se destacarão, ou que estão lá só de passagem, parece que é dinheiro jogado fora. Que se não é pra ser Bolshoi, não vale abrir escola de balé; se não é pra ganhar Nobel, pra quê fazer pesquisa. Não é assim, é preciso criar o ambiente. É preciso uma turma, uma geração, um bando de pessoas, o ruim, o bom e o mais ou menos. As pessoas aprendem vendo umas às outras, incorporando gestos inconscientemente, disputando entre si, criam uma história. Cada apresentação feiosa e erro é importante. É um caminho que se trilha e as pessoas precisam estar juntas. Cada pequeno é um pedaço que forma uma cultura inteira. 

2,5. Levei muito tempo querendo ser a parte do gênio e não a parte do adubo – e quem não quer? Se eu fosse o gênio, tudo seria contaminado pela crença de que sou especial. Comecei a dançar tarde, persisti sem ter jeito igual a Margarite, vejo pessoas ultrapassarem rapidamente o que eu conquistei a duras penas. Mas posso dizer com sinceridade: sou do meio artístico, sou uma pessoa que convive com artistas. Uns na frente do palco, outros no fundo, todos nós no teatro. Eu não seria quem sou se eu não tivesse entrado nesse caminho. Marguerite tem razão: sonhar é muito melhor do que o conformismo.

Curtas literários

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Game of Thrones acabou. Das maiores decepções que tenho ouvido foram os que torciam por ela, por ele, e os que queriam uma morte muito sanguinolenta pra uma mulher importante (vejam que estou tentando não dar spoiler). Eu descobri que não me frustrei porque não torcia por ninguém, e sim pela história. Torcia para ser surpreendida mas que, ao mesmo tempo, o autor tivesse tudo sobre controle.

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É muito legal descobrir o universo de um autor. No primeiro livro, você pensa: que fantástico, que imaginação sem limites. Não são sem limites, e ver os limites deles também é bacana. Amei o Problema dos Três Corpos de Cixin Liu e não consegui amar o filme (Terra à deriva) do conto dele, mas amei descobrir que uma das soluções típicas dele é viver dentro da Terra. Voltei a ler Dick e lá estão de novo os pre-cogs. É como ficar íntimo de alguém.

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A estatística no Kindle engana. Estava bem feliz lendo Harari, faltando uma boa porcentagem para chegar no fim do livro. Aí ele conta que medida duas horas por dia e o livro acaba. O resto são notas e referências. Fiquei tão chateada de ter lido o último Harari. Teria economizado se soubesse que estava no fim.

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Uma vez li algo sobre instrução espiritual, dizendo que a pessoa recebe uma e não têm prazo pra cumprir, nenhum erro ou punição, apenas não recebe a segunda enquanto não cumprir a primeira. Aí eu penso nos livros maravilhosos que indiquei e nunca foram tocados, e que eu mesma não perco nada com isso porque já li, e penso que faz todo sentido. Mas penso também, vingativamente, da pessoa lendo no leito de morte e pensando: se eu tivesse lido quando ela me sugeriu, teria feito TUDO diferente. (nunca acontecerá)

Salsicha

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Não me odeiem pelo que eu vou escrever sobre salsicha. Que te sirva de alerta: nunca economize na compra de salsichas.

A Dúnia está velha e passou a tomar repositor de cartilagem. Como ela tem que tomar todo dia, eu não ia brigar com ela todos os dias, então adotei de imediato o remédio na salsicha. O remédio é grande, então são duas metades por dia. Sabe como é, salsicha para cachorro, comprava a mais barata porque ela não se importa mesmo. E eu não como, não como salsicha porque não como carne. Sabe aquele cheiro que a gente identifica como cheiro de salsicha? Mesmo eu, que depois de anos sem comer carne nem salivo mais com cheiro de churrasco, acho o cheiro de salsicha bom. MAS eu descobri que esse cheiro é artificial. Só salsicha cara cheira salsicha. A salsicha barata tem cheiro de TRIPAS. Só de ter que mexer nelas todos os dias pra dar pra Dúnia, com aquele cheiro, foi me dando um nojo tão grande que eu agora sou obrigada a comprar salsichas caras pra ela.

A gente sabe que embutidos em geral não são coisas bonitas, mas não pensei que. Salsichas caras, lembrem-se disso.

Tamagotchi

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Eu já era adulta na época que lançaram o Tamagotchi e, embora alguns adultos não estivessem nem aí pro fato de ser um brinquedo, eu não tive um apesar de ter vontade. Um dia foi passar o dia na casa de uma colega de faculdade que tinha irmãos pequenos e um deles tinha um Tamagotchi. “Caiu no chão, ele está com defeito”. A minha vontade de brincar de Tamagotchi era demais e não liguei. Eu lembro que tinha até gente que ganhava dinheiro cuidando de Tamagotchi. Ele tinha necessidade, hora de comer e de brincar, e se você o ignorasse durante muito tempo, ele morria. Só que eu, naquele dia, fiquei com ele na mão o dia inteiro, o que o Tamagotchi pedia era atendido imediatamente, e mesmo assim ele morreu várias vezes. VÁRIAS. Fazer de tudo e não conseguir impedir aquela morte, mesmo eu sabendo antecipadamente que o Tamagotchi estava com defeito, me fez pegar horror ao brinquedo.

O Tamagotchi pra mim virou um símbolo de coisas que deram errado comigo, talvez só comigo, e me traumatizaram. Quando eu estava casada, acho que tivemos uns quatro carros, e dois deles deram muito problema. Quando digo muito, é muito. Eu lembro que cheguei em casa tantas vezes de carona na boleia do guincho que já estava me sentindo meio Musa dos Caminhoneiros. Carro morreu na subida perto de casa, carro morreu dez horas da noite em rua escura, carro voltou à 40 por hora do litoral soltando fumaça preta por todo caminho. Só que na época eu tinha ao meu lado um marido que por acaso era uma pessoa tranquilíssima. Pergunta se eu tenho coragem de ter um carro sozinha – TENHO HORROR. Acho que se me acontecessem aquelas coisas comigo dirigindo, apenas eu, o mais provável seria que eu paralizasse e começasse a chorar no meio da rua.

E eu sei que tenho outros Tamagotchis. Numa briga que foi muito marcante na época, um amigo me jogou na cara que eu falava tanto em dificuldades de relacionamento no blog que só podia ser uma pessoa muito difícil. Nunca mais me queixei de amizades aqui, mas as pessoas têm tanto prazer na companhia uns dos outros e eu na solidão, que quem sabe seja um efeito Tamagotchi…

Simplificação

simplificar

Eu mandei minha dissertação pra editora da UFPR assim que apresentei. Foi sugestão da banca, eu tirei 10 e escreveram “a banca recomenda fortemente a publicação”. Mandei, esqueci o assunto e depois de quase um ano me chamaram. Não sabiam direito o que fazer, eu tinha que dar uma olhada numa coisa. Eles mandaram a dissertação para três avaliadores. Dois deles escreveram avaliações positivas e a terceira tinha várias páginas e deve ser de alguém que me odeia muito. Ela implicava com coisas incríveis, me acusou por exemplo de usar demais a expressão “esta dissertação”. Realizei uma busca no word e tinha três ocorrências. Daria vários posts o que estava escrito lá e tive que apelar para o meu próprio departamento, porque algumas coisas eram tão injustas que atingia mais do que a mim. Uma das críticas também dizia mais ou menos assim: ela explica conceitos complexos com simplicidade, logo se vê que não domina o assunto.

E não é que nisso a pessoa acertou? Acho que uma das minhas características é transformar ideias complexas em conceitos mais acessíveis.

Como você é meu leitor, deve ter ficado com raiva da pessoa e tal. Posso dizer também que já li que uma das maneiras de testar domínio do assunto é pedir para explicar em poucas palavras. Mas, ao mesmo, quem sabe, pensando bem, eu tenho carregado a fama de burrinha-porque-simples e nem tinha me dado conta.

Dos simbolismos interessantes

homem ideal

que eu falei outro dia. Tem a casa 7, no mapa astral, que é o indicativo do cônjuge. Na modesta amostra me mapas que eu tenho, a pessoa ter várias planetas lá não faz com que ela case cedo ou case se relacione bastante, como seria minha primeira impressão. O planeta que está lá pode revelar o perfil de quem ela busca, então pense na confusão que é quando a pessoa tem vários perfis num lugar só. A pessoa tem lá Saturno em conjunção com Júpiter e uma pitada de Marte: ela quer um homem maduro, sério, mas que também seja idealista, otimista, quem sabe um professor, e ao mesmo tempo também jovem, cheio de energia e sexual. Quando um é jovem, não a completa porque falta maturidade; quando é mais velho, nem olha, mas quem sabe devesse porque ele preenche parte do que ela busca, e por aí vai.

Se você olhar bem, as pessoas que têm muitos relacionamentos são também aquelas mais flexíveis. Pode ser que sejam assim por serem pouco exigentes ou porque gostam da humanidade em geral. Às vezes tem aquelas parcerias estranhas, que quando o par vai embora, ela cochicha no seu ouvido: “meio besta, coitado. Só aguento porque…”