Vai parecer ser um post político mas não é

Pensei nisso quando li sobre o SNI, Serviço Nacional de Informações. Ele foi criado (ou fortalecido. Estou fazendo o post de memória, porque é apenas uma reflexão apolítica) para combater a ameaça comunista ao recém-criado Regime Militar – que gostava de se intitular Revolução de 64, Contragolpe de 64, justamente porque era centrado na ideia de que o Brasil estava na iminência de se tornar um país comunista. Vejam bem, um órgão nacional, que centralizava informações. Tinha escuta telefônica, funcionários, polícia, fichas com biografias de vários suspeitos, espionagem. O que também quer dizer que tinha sede física, orçamento, funcionários públicos, secretárias, gente pra carimbar, gente pra ir ao banco, o escambau. Isso pra não falar do braço violento disso tudo, com os torturadores. Tudo para combater a ameaça comunista que vinha de jovens, na sua maioria universitários. Mesmo com idealismo, com ajuda soviética e com inteligência, era óbvio que o Estado ia acabar ganhando essa queda de braço. Ganhou. E quando acabaram os jovens comunistas, eles começaram a partir para cima de outras pessoas, mesmo sabendo que elas não estavam travando guerra ideológica nenhuma. Porque, veja bem, o que as pessoas esperavam? Que aquelas pessoas, funcionários, declarassem que o trabalho delas acabou, recolhessem todos os papéis, devolvessem as mesas e os imóveis e pedissem demissão?

Penso que temos diversos SNIs no cérebro. Vi um documentário que compara nossos hábitos a marcas de esqui na neve, que vão se tornando cada vez mais fundos quando alguém passa por cima, até chegar ao ponto de não conseguir se desviar dali. Você tem certeza de que cada dia é uma tristeza igual a outra ou que é realmente necessário e racional sofrer de maneira intestina a cada notícia?

ja posso ir

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Feito à mão

“Fala galera, preciso que vocês encontre o amor da minha vida que a vi ontem por volta das 22:30, subiu em Joana Bezerra e desceu na Estação Tancredo Neves. Me ajudem!” – aí tem a foto de uma moça dentro do ônibus sem olhar para a câmera. É uma postagem do perfil “Te vi no bus PE”, mas tem de outras cidades também. Não tem de Curitiba, deixo aí a sugestão. Achei muito bonitinho, os comentários e as legendas são ótimos! (Viu, pessoas que andam de carro, quantas emoções vocês estão perdendo?)

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Imagine um canal que o sujeito só se filma com um celular de resolução ruim e pouca memória, que o impede de postar mais de 15 minutos de vídeo. Além disso, o celular fica imóvel e ele fica sentado falando. No máximo, coloca umas fotos e uns poucos pedaços de vídeos e mostra capas de discos antigos e livros. E se eu te disser que o canal do cara é massa e ele é super carismático, uma verdadeira enciclopédia sobre os Beatles. Estou totalmente viciada no The Beatles School.

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Eu assisti este vídeo um número vergonhoso de vezes e mandei pra um monte de gente. Carisma e talento são assuntos que me fascinam e, quando encontro um, me delicio e tento entender. A história, o modo de contar, o encadeamento, os gestos, a linguagem… Paulo Vieira é maravilhoso. (a partir de 6:30)

Um conselho quase vegetariano

abobrinha-recheada-com-proteina-de-soja

Para ser bem precisa, eu não sou vegetariana. Eu como carne de peixe, derivados de leite e não consumo muito ovos, mas mais por um problema em preparar ovos do que realmente ter cortado da minha dieta. Quando eu parei de comer carne, há 27 anos (!!!), o gesto não fazia o menor sentido para quase todas as pessoas. Elas me olhavam com uma expressão de “pra quê?”. Então, vocês podem imaginar que os produtos com o objetivo de substituir carne praticamente não existiam, eu tive que largar na marra mesmo. Agora, quando eu digo que não como carne, as pessoas dizem que me invejam e me admiram. Eu parei de comer carne porque lia livros de yoga; hoje o não comer carne está muito mais ligado a um amor aos animais, a não querer que alguém morra para se alimentar.

Hoje é mais fácil do que era antes, há apoio e há comidas para substituir. Mas, mesmo assim, é difícil. Lembro que levei ainda alguns anos salivando com o cheiro de carne. E comida não é apenas uma relação com o próprio alimento, ela é interação social. Parar de comer carne afeta a ida ao churras, o almoço de família, aquela vez que você está na rua resolvendo problemas e precisa comer alguma coisa. Implica em ter apenas uma opção no cardápio, a pagar mais caro que os amigos e ainda sentir fome, porque a carne sacia mais. Parar de comer carne nos torna os “chatos” que precisam de um prato separado. Não quero dizer o que as pessoas devem ou não fazer, eu mesma nunca levantei a bandeira de parar de comer carne. Se mudou a minha vida? Olha, quando a gente faz algo há tanto tempo, nem consegue medir, não comer carne se mistura com a minha vida. O que eu quero fazer aqui é dar um conselho sensato, baseado na quantidade de histórias de pessoas que vem me falar que tentam parar de comer carne e não conseguem. Minha sugestão:

Se você tenta parar de comer carne e não consegue, que tal criar o dia da carne? Uma vez por mês, que seja, você se permite, vai no costelão, come o teu bife preferido. Assim, quando bater a ansiedade, vai conseguir se segurar porque não é pra sempre. E nem vai achar que colocou tudo a perder – e, por consequência, abandonar o projeto – porque comeu um bifinho.

Céline

te devolvo o texto com pequenas correções

Parei de mostrar o que eu escrevo para amigos que também escrevem me cobrirem de porrada. Eu sou tão amiga de ser realista comigo mesma que não dava as coisas que eu escrevo para os que elogiavam e sim para os que me maltratavam. Minha primeira reação era ir chorar no travesseiro, jurar que nunca mais tentava e, depois de me acalmar, voltar furiosamente ao texto. Mas parei. Assim como parei há muito tempo, tanto que vocês nem devem lembrar, de reclamar não ser lida e não ser publicada, ameaçar parar de escrever. Eu sei que não vai acontecer. Escrevo se tiver um, escrevo se não tiver nenhum. Não é algo que venha de fora.

Eu não pretendia tocar no assunto porque quem sabe vocês nunca leiam, nunca saibam direito como e porquê, mas o escrever se tornou uma vida paralela tão importante pra mim, que nem sei o que farei sem a Céline. Acho que estou há oito meses com ela. Ela não tem medo. O mundo caindo em volta e ela não se identifica, não se preocupa com o futuro, nada pode afetá-la. Gosto de fingir pra mim mesma que consigo ser como ela, que ela foi inspirada em mim – quem me dera! As coisas me acontecem e me pergunto como ela encararia, e me sinto melhor. Não quero terminar, não sei o que será de mim quando terminar.

Nada e nada

Clica em Instagram e puxa uma conversa com alguém por historys. Dá uma olhada no grupo mais falante de Whats. O outro resolveu começar uma conversa boa também, dou corda. Vou de novo no Facebook, de novo no Instagram. Percebo que ainda não terminei de ver o vídeo de astrologia. Largo no meio, começo a ver o canal sobre Beatles que meu irmão me mostrou, engato umas três histórias, tudo fora de ordem. Volto pro grupo. Volto pro Instagram. Combino um café, quase comento no outro grupo, mas pra quê, a relação é mínima. Volto pro computador, stalkeio os de sempre, os só em caso de extrema necessidade, os blogs abandonados. Vejo se tem comentário novo no post-terapia do Milton sobre conselhos para ex-separados. Tento começar um documentário novo na Netflix, não gostei, outro também não gostei, tem fase que não sei se nada presta ou se sou eu. Sem history novo no Instagram. Tampouco eu tenho fotos pra postar. Nunca sei o que colocar nos historys, tão bacanas dos outros. Os grupos de whats silenciaram. Já vi o último do Maurício Ricardo, não dô conta de ver os de política antes de dormir. Estou perdida demais nas discussões do twitter, deixa pra lá. Nada de novo nos blogs, nada de novo no Instagram. Já falei da Dúnia, nem se quisesse conseguiria recomendar alguma coisa porque não consegui engatar em nada. Justo quando preciso acordar de madrugada no dia seguinte. E se eu falasse da… não, não pode falar do que não concretizou. Nada no Instagram, nada no Facebook.

cuando la imaginacion no colabora

Quando conheci a Rutinha

overthinker

Numa manhã sonolenta, encontrei um carocinho perto da virilha. Não sei dizer há quanto tempo estava ali, não é um lugar que se costume tocar. Eu havia sentido um incômodo no final da menstruação, como se algo tivesse se estressado, por dentro, com a presença do copinho. Também lembro de ter sentido o desconforto antes, ou seja, pode ser que o carocinho estivesse lá faz tempo. Marquei com uma médica generalista pra dali a dois dias.

Fiquei surpresa dela ter dado ouvidos à minha teoria de que aquilo poderia ter a ver com o inchaço que tive durante anos naquela região. Na época que fiz balé intensamente, eu fazia uns alongamentos insanos (com o resto da turma) e teve uma época que inchou e não tinha o que fazer. Não doía nem nada. Interpretei como se fosse um elástico que estiquei demais e voltou frouxo. Depois larguei o balé e o inchaço passou lentamente ao longo dos anos. A médica quis saber se eu tinha percebido alteração no tamanho, se tinha histórico de câncer na família, se tomava medicação, etc. Não, tudo normal, só um carocinho duro, imóvel e, fora aquele lance no final da menstruação, nem doía. Eu disse que nem fui ver na internet pra não ficar assustada e ela disse que era bom mesmo. Ela me examinou, não achou nada demais, me mandou fazer ultrassom e aproveitei pra pedir os exames de sangue de sempre. Ela me pediu para acompanhar minha pressão porque durante a consulta estava meio alta.

Me saí bem tirando a pressão durante a semana, fiz os exames de sangue e todos os resultados estavam melhores do que fiz há dez meses, uma maravilha. Até que, na noite anterior ao ultrassom, resolvi dar uma olhadinha na internet. Pra caroço na virilha fui mandada para “íngua” e de “íngua na virilha” eu descobri que a íngua faz parte do sistema linfático, combate infecção, e se a pessoa sente a íngua inchada e dolorida é bom, sinal de que o corpo está combatendo uma infecção. Perigoso mesmo é quando a pessoa sente um carocinho duro, que não se mexe e não dói nada… Ou seja, o meu caso. Vi programa do Bem Estar, li artigo do Dr. Drauzio, o câncer do Gianecchini, apalpei todas as minhas dobras, pesquisei sobre quimio, planejei chamar alguém pra passear com a Dúnia durante o meu pós-operatório… De nada adiantou que os exames de sangue saíram normais – li que nem todos os tipos de câncer aparecem em exames de sangue. Eu podia estar com um daqueles que não aparece. Ou lúpus.

Como vocês podem imaginar, quando cheguei no ultrassom e o médico me perguntou onde era, eu já soltei: “achei um carocinho perto da virilha. Pelo que eu pesquisei, pode ser câncer”. O médico era bonito e me chamava de querida, o que me levou a concluir que podia ser gay e me senti totalmente à vontade dele me apalpar perto da virilha. Olhou na máquina, achou o caroço super pequeno e falou pra eu parar com essa história de câncer. Diagnóstico: cisto sebáceo. Não chega nem a meio centímetro. E agora, ao contrário do que era quando o descobri, dói a beça, de tanto que o futuquei.

Na reconsulta, finalmente, a médica achou tudo engraçado e disse que nem ao menos era uma hérnia (“hum, então além de íngua existe hérnia”) para me mandar ter cuidado com esforço. Ganhei parabéns pela pressão, observação sobre alimentação e Rutinha, a pelotinha, fica onde está porque não faz mal a ninguém.

Quando vi um androceu amigo

androceu

(Antes, um aviso: vou encher isso aqui de eufemismos porque já tive post censurado por busca de palavras. Coloquei que o blog é pra todas as idades e consideram isso uma violação da classificação do blog.)

Tentei de todas as formas puxar o nome do blog da memória e não consegui. O cara escrevia muito bem, tinha uns contos picantes. É raro alguém que escreva bem contos picantes, talvez quem seja bom na vida real prefira fazer. O blog tinha centenas de comentários. As pessoas lá ficaram amigas, tinha um chat próprio, comentavam nos comentários dos outros, era a época áurea dos blogs. Eu nunca comentei nada. O entusiasmo com o blog do sujeito foi tanto, que vários leitores começaram a enviar fotos íntimas. Ele começou a publicar, virou uma sessão dos leitores. A tendência natural dos blogs (à exceção deste, porque eu sou louca) é os textos ficarem cada vez menos frequentes, e o cara começou a preencher o vazio com as fotos dos leitores. Chegou um ponto que o blog ficou quase só de fotos – aí eu perdi o interesse e passei a visitar cada vez menos, até esquecer do blog para sempre, inclusive do nome.

Depois de muito tempo, na que foi a minha última visita, fui lá dar uma olhada pra ver se tinha algo de bom. Foto, foto, foto, foto, fui passando direto. Até que uma me chamou atenção. Não é possível, eu pensei. Não sou nenhuma expert no assunto, mas achei o leitor corajoso. Talvez porque iriam se expor, as pessoas colocavam umas fotos bem rotundas, avantajadas, fornidas. E aquele órgão era, até onde eu conheço, pequeno. Como as pessoas sempre faziam comentários tarados, fiquei curiosa pra ver se teria alguma coisa para aquele. Olha, até tinha, elogiavam a ponta, diziam que fariam isso e aquilo com um daqueles. Na verdade, aquele post tinha menos comentários do que os outros, é que o autor da foto respondia os comentários um a um. Depois de um certo ponto, os comentários dele apareceram em azul, ou seja, num link. Aí eu cliquei e era um portfolio que eu havia visto há poucos dias, de uma pessoa do mundo dos blogs. Morro e não conto quem foi, claro.

Curtas de um ano ou nem sei

O facebook me lembrou que há um ano eu estava na passeata #elenão. Vizinhos, pessoas do ponto de ônibus, nas conversas, homens paqueráveis, ninguém parecia compartilhar do meu voto. Eu lembro de ter pensado que eu estaria sozinha na rua XV. Iria porque a vontade de dizer não era grande demais, eu que nunca havia ido pra protesto nenhum. Aí, no ônibus, haviam umas adolescentes que pareciam ir, assim como haviam uns rapazes que olhavam para elas de uma maneira que dava medo. Aí encontrei as amigas, fomos pra lá, e como tinha gente. Eu me senti tão feliz, tive esperança. Não impedimos a besteira, mas foi um momento importante pra história do país e que orgulho de ter feito parte.

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Minha ex-sogra esperava o filho (meu ex) se afastar pra me dizer umas coisas de cortar o coração. Nunca entendi porque ela me tornou sua confidente naquele momento. Ela se casou com meu ex-sogro na adolescência, foi daqueles casamentos exemplares, os dois se davam muito bem. Fazia alguns meses que ele havia morrido. Ela me disse: “faz tão pouco tempo que ele morreu e parece que está tão longe, como se fizesse anos. É assustador”.

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Sobre a pergunta de como eu gostaria que fosse o fim do mundo (tô falando do programa do Porchat), eu só consigo pensar que eu acho que já foi. Acho que acabou em 2012 e estamos presos na nossa mente. Devemos ser uma recriação holográfica de ETs que querem entender o que havia aqui antes da chegada deles, milhões de anos depois da destruição da chegada do meteoro. Acho que li Philip K. Dick em demasia.

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Então, tem as moças da padaria. Uma delas estava com uma cara péssima um dia. Mas no dia seguinte, voltava a ser feliz. Aí ficou com uma cara péssima, e no dia seguinte também, e também, de maneira que agora eu olho pra ela e digo o básico. Tudo porque um dia quis brincar quando ela não estava bem e senti que fui invasiva, além de não estar bem ela tinha que rir de piada de cliente que quer ser íntima. Enfim. Tem outra também, sempre muito séria. Ela teve um ano péssimo, o pai morreu em acidente, está tendo problemas pra vender seu cavalo. Eu chego lá e tem as duas moças, sérias. Me pego com vontade de falar algo que o meu pai me dizia nessa fase da vida, e eu detestava tanto: sorria, não vale a pena ficar assim. A vida é curta.

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Miguel Araújo diria: Dança até ser dia/ que a vida são dois dias.

Pequena sabedoria de vida

Uma das sabedorias de vida que adquiri foi a questão dos horários de exames de sangue. Fui fazer meus exames de rotina e tinha de sangue, logo, eu tinha que ficar em jejum. Antes, pra pegar o laboratório vazio, eu ia bem cedo, beeeem cedo, antes das oito da manhã. Resultado: tinha que me contentar com o café solúvel e bolacha seca que oferecem no laboratório, só pra gente não desmaiar na escada. Agora vou pouco antes das nove, pra sair e encontrar tudo abrindo e tomo um café da manhã gostoso em alguma lanchonete. Foi o que fiz. Estava tomando meu café gostoso num quiosque da rua XV. Estava frio, o sol começando a despontar, então peguei meu café e me sentei no sol. Ali, descobri que talvez deva acrescentar mais uma sabedoria de vida, agora referente a comer no centro: mesinha na rua não dá.

A moça surgiu contra o sol e me deu bom dia. Eu respondi, ela disse como era bom ouvir alguém dar bom dia em Curitiba. Depois mudou de lado e ela que ficou contra o sol. Era uma moça jovem, que falava muito bem, cabelos bem do jeito que eu acho bonito, encaracolados meio soltos. Ela tinha uma carinha de anjo e belíssimos olhos azuis, bem abertos. Ela se acocorou ao meu lado e perguntou de onde eu era, me disse que era curitibana mas que viajava há tanto tempo que nem se considerava mais de lugar nenhum. Ela e o namorado estavam vindo de São Paulo, eram mochileiros e daqui iriam para o Uruguai. Para conseguir dinheiro, ela mostrava a arte dela, que eu não me sentisse obrigada a pagar nada, ela só queria me mostrar.

Por um milésimo de segundo, eu pensei/desejei que a arte dela fosse alguma performance, que ela declamasse ou dançasse na minha frente. Ao invés disso ela abriu o que parecia ser uma lata, com a tampa toda preta por dentro. Contrariando a beleza do resto, as unhas dela estavam todas pretas e suas roupas não cheiravam amaciante. Uma família amou muito essa menina, eu pensei, e se entristeceria com aquelas mãos. Ela me perguntou se eu preferia água doce ou salgada para relaxar, eu respondi que salgada, então ela começou a falar sem parar enquanto enfiava a unha na tampa preta. Era uma tinta. Ela desenhou rapidamente com os dedos um sol, céu, ondas, areia, uma palmeira numa lasca de azulejo. Com o cachecol tirou a tinta das bordas, fazendo uma moldura. Eu olhava para aquele azulejo quebrado, o coitado do cachecol, a tinta preta, me perguntava quantos anos ela tinha, que tal namorado era aquele que havia ensinado a “arte”. Ela me deu o azulejo pintado, eu disse que estava bonito, ela acrescentou que eu poderia contribuir com o que eu quisesse pelo presente. Por que, por que aquela moça estava andando na XV de unhas sujas pra abordar estranhos com tinta numa lata. Uma moça que veio de algum lugar distante da rua. Quem sabe a família odiasse o namorado, jogava a culpa nele. Um lado meu duvidou se seria possível retomar meu café da manhã depois que ela fosse embora (foi). Um lado meu quis que ela fosse pra uma casa, pusesse as roupas na máquina, esfregasse uma escovinha nas unhas, jogasse aquela lata fora.

Mostrei a ela a carteira quase vazia e lhe dei cinco reais. Eu morro de medo de me tornar uma pessoa amarga que condena o que não faria. Morro de medo porque vejo isso todo dia. Ela e seu cachorro (“não sou eu que o tenho, ele que me tem”) foram embora. Não tinha nem como levar o azulejo molhado pra casa e torci pra que ela não voltasse lá pra descobrir o presente no mesmo lugar que ela deixou. Morro de medo porque sei que sou candidata: é fácil ser feliz e aberto quando você é jovem e parece que vai conseguir tudo o que quer; eu faço parte da quase totalidade da população que envelheceu e descobriu que não era grande, que não era a exceção, e que as alegrias que me restam são aquelas que se compram com cartão de crédito. Eu dei dinheiro para apoiá-la, quero apoiar o novo, quero apoiar a Greta. Eu sou a burguesa tomando café, é o que eu posso fazer.

pra onde

Três de tecnologia

Estou por aí igual uma pregadora recomendando a pequena série de três documentários Netflix sobre o Bill Gates. Uma das diferenças culturais que noto entre nós e os norte-americanos é que nós brasileiros temos uma antipatia – inveja ou esquerdismo? – à figura de empresários bem sucedidos. Então, nada mais natural que eles façam um documentário, assim como nada mais natural que ninguém queira seguir a minha recomendação. Eu mesma não teria clicado se não tivesse visto a entrevista que a mulher do Bill Gates, Melinda Gates, deu ao Letterman no Meu Próximo Convidado (também Netflix). Vi e pensei – que mulher! Terminei bem fã dele. Não é só que eles doam dinheiro para a caridade, é um colocar seus recursos, acesso e inteligência para tentar ajudar o mundo. A gente não apenas fica fã do casal como sai até convencido de que energia nuclear é possível.

As outras duas recomendações são meio juntas. No 21 Lições para o século XXI, Harari faz algumas “previsões” baseadas no que há de mais atual em pesquisas. Lá ele fala de fim de profissões, não apenas aquelas que já estamos acostumados a pensar porque são repetitivas, mas também algumas que consideramos nobres, como médicos e advogados. Também saí falando do livro do Harari, mas sem a menor credibilidade pra falar de fim de advogados por aí, sabe como é a repetição da repetição. Neste vídeo o Maurício Ricardo me ajuda, ele fala da mesma sensação quando tenta alertas as pessoas e lê um texto sobre alguém velha guarda descobrindo o futuro que se desenha. Eu reconheci muito umas pessoas que eu conheço naquele texto. Acho que você também vai reconhecer (ou se reconhecer). Se gostar do vídeo, aproveita e engata também no Bill Gates e quem sabe até o Harari?

 

Simprona

Eu esqueço que as pessoas me acham pobre. Claro, não estou dizendo pobre de verdade, pobre base da piramide. Porque se me vissem assim, seria como se o meu CO2 contaminasse o ar, como se o meu toque sujasse e minha voz fosse insuportável, de modo que eu seria uma presença tão destacada e perniciosa no ambiente que as pessoas começariam a se queixar. Quando eu digo pobre, quero dizer sem importância, uma pessoa cujo saco não precisa ser puxado, alguém de quem nunca se vai precisar de qualquer favor. Ninguém se importa em me agradar e falar mal de mim pelas costas, podem se mostrar como são na minha cara mesmo. Só quem é visto como pobre sabe como poucos resistem ao apelo do dinheiro e mudam de atitude diante de quem o tem, às vezes quase sem sentir. É uma posição que arrebentaria o coração dos que sempre foram ricos e – por isso – populares. Eu acho um privilégio ter uma visão mais realista das pessoas. E um privilégio ainda maior saber que os que estão ao meu lado o fazem realmente pela minha companhia.

Existe a teoria que quem diz que gosta de pegar ônibus, feijão com arroz e pobrices em geral, o faz porque sabe que não tem perspectiva de um dia ser rico, então entra num estado de negação. Eu não sei, se for um mecanismo psicológico o meu está bem implantado. Eu não me sinto pobre. Bourdieu me abriu os olhos quando disse que não existe A Elite e sim elites. A elite intelectual e a elite financeira nem sempre coincide. A elite financeira acha que arrasa pagando ingresso caro pra ver peça de ator global no Guaíra, com as suas peles cheias de naftalina; a elite intelectual conhece o círculo artístico, os atores talentosos e as peças adorada pelos que realmente entendem de teatro. A elite financeira não me faz inveja, eu não quero ser um deles.

Com mais dinheiro, eu me imagino fazendo as mesmas coisas, mas de maneira mais relaxada. Carregar compras no muque é um saco, mas fazer longos trajetos a pé é vida. Andar de tênis é uma necessidade, tenha ele amortecimento ou não. Eu poderia me apaixonar por uma roupa e comprar na hora ao invés de esperar mudar o mês – mas, pra ser sincera, nem me acontece porque não ligo muito para roupas. Eu não gostaria de me vestir de uma maneira tão ostensiva que as pessoas comuns deixassem de falar comigo de igual pra igual. Sim, pra continuar amiga das atendentes da padaria, da minha e de futuras padarias, eu não me imagino jamais vestida de modo perua. O único carro que eu acho bacana é o Smart, mas aí me explicaram que ele custa caro. Eu jurava que ele ele custava o mesmo preço de um carro popular, por ser pequeno. Nem sei dizer quanto custa um carro, seja ele popular ou não, Mas, ok, muito rica quem sabe eu tentasse dirigir um Smart. Se eu fosse capaz de dirigir, nunca mais peguei num carro depois de passar no teste, uso a CNH temporária há anos e só como documento. Andar de ônibus cheio é um saco, voltar para casa de ônibus à noite pode ser perigoso, mas eu considero andar de ônibus (e transportes coletivos em geral) algo tão importante para o caráter que duvido que deixaria de andar mesmo se virasse estrela de Hollywood. Taí Keanu Reeves para provar que existe a possibilidade de ser assim. 

Quando eu descrevi esta tirinha pra uma amiga e disse que era eu, ela me olhou com pena. Não sei se vocês vão ficar com pena também, mas a próxima tirinha sou eu.

poor

Bebedouro

copo d´água

A Dúnia percebeu antes de mim – ou melhor, se ela não tivesse percebido eu não me daria conta – que eu bebo um copo d ´água antes de sair. É como fazer o último xixi, pra evitar de sentir vontade quando estiver na rua. E como uma das vezes que eu bebia água coincidia com o nosso passeio, ela associou o barulho da água a sair de casa. O barulho da água caindo no copo imediatamente ativa um rabo balançando, que vejo pela janela. Tentei estabelecer uma nova regra, de beber água e começar a falar com ela, tudo para não dar alarme falso. Não adiantou muito; eu bebo água e ela fica de orelha em pé, olhando na minha direção, à espera do segundo ato. Passei a desenvolver várias estratégias pra tomar água sem criar expectativas: coloco água no copo e saio, encho o copo enquanto estou lavando louça, encho o copo agachada para que ela não me veja. E, claro, penso duas vezes antes de beber água.

Donos de bicho vão ficando todos meio loucos.

Ramayana

Foi quando eu tentei ver o filme do Mahabharata, numa madrugada qualquer na tevê aberta, que eu descobri o porque de nunca ter virado a noite estudando. O filme começou pouco depois da meia noite e foi até às três da manhã – provavelmente cheio de cortes, porque é longuíssimo. Eu dormia durante os intervalos e me forçava a acordar quando voltava, porque a vontade de conhecer a história era muita. Na manhã seguinte, a única – ÚNICA – lembrança que eu tinha do filme eram as duas famílias diante de um tabuleiro.

Até hoje não consegui ver o filme, então vou recomendar outro. O Ramayana não é tão importante quanto o Mahabharata, mas também está cheio de histórias deliciosas que só a mitologia hindu tem – deuses que crescem de tamanho, promessas que têm que ser cumpridas à risca, noções de fidelidade extremadas, rituais como forma de tecnologia, etc. Eu li o livro na adolescência e um monte de detalhes haviam me escapado. Finalmente entendi porque Hanuman é representado segurando uma montanha. De outras coisas eu lembrava bem como, por exemplo, que o fim não é exatamente o mesmo do desenho. Sabe o Senhor dos Anéis que tem o tal do Expurgo do Condado mas o filme termina antes? Por aí.

É desenho, vai! Eu me emociono, sei lá. Acho tão rico.

Acabarão as fitinhas

senhor-do-bonfim

Eu faço controle de contas, tenho caderno de citações, cadernos de anotações diversas. E todos eles são marcados com uma fitinha do Senhor do Bonfim. Um dos cadernos acabou, e fui com urgência na livraria comprar outro bem bonito, porque seria mais um dos que vai me acompanhar durante anos, passeando entre os cômodos, recebendo anotações no sofá. Escolhi com todo carinho e quando cheguei em casa e fui correndo colocar a fitinha. Aí me deu aquele agridoce: eu tenho vários pacotinhos de fitinhas porque meu pai me enviou. Um dia – não sei nem dizer há quantos anos – eu mandei uma mensagem pro meu pai dizendo que estava sem fitinhas e se ele poderia me mandar algumas. Pouco tempo depois chegou uma caixa de correio com uma quantidade tão exagerada de pacotes, cada um deles com umas dez de cores diferentes. Tenho usado há anos sem me preocupar em contar, sabe quando você tem tanto de alguma coisa que é como se nunca fosse faltar? Foi um gesto de carinho de quem estava longe, de quem gostaria de oferecer muito mais e já não tinha como. “Acabaram as fitinhas”, eu pensei, como se já fosse passado. Não acabaram fisicamente, mas acabou. Já disse, assim que ele morreu, acabou Salvador, acabou tudo. Não que eu não tenha como comprar, não que eu não tenha quem me envie, mas acabou. Quem já se despediu de uma fase da vida sabe como é ver, pouco a pouco, as coisas se renovarem – peças de roupa que perdem cheiros, eletrodomésticos que ficam superados, lugares e hábitos totalmente inéditos. A cada mudança, vai embora uma testemunha da nossa história que nunca mais voltar.

Lembrar e projetar

memória e imaginação

Se a pessoa tem removida ou prejudicada a parte do cérebro relativa à produção de memórias recentes, ela também está condenada a não conseguir fazer planos para o futuro. Não apenas porque os planos são a projeção de memórias, mas também porque as nossas memórias são plásticas. Pesquisaram memórias de várias pessoas relativas ao que elas estavam fazendo no 11 de setembro e, à medida que o tempo passa, as memórias não apenas perdem detalhes como podem até se confundir com outros dados, relatos de outras pessoas, memórias do que aconteceu na época. As partes do cérebro ativadas com lembrar e imaginar o futuro são praticamente as mesmas, como mostra o print aí em cima.

De multiversos ao fato de na astrologia védica ler mapa do ponto de vista da Lua (que representa a mente), tudo me parece apontar pra necessidade de fazer as pazes com o passado. Terapia, meditação, florais, ho’oponopono, perdão – no fim desses estudos científicos sempre descobrimos que não é coincidência que esses sistemas antigos nos deixam tão mais felizes. Ocidentais e pretensamente científicos que somos, tendemos a achar que os fatos são os fatos, regidos por leis da física, cuja flecha do tempo vai apenas numa direção. Mas nós não somos rochas, somos mentes, somos versões de fatos mediados pela linguagem, e dentro de nós passado, presente e futuro são uma coisa só. Se você cada vez que você reconta a lembrança ela fica diferente, no fim ela pode ficar totalmente irreconhecível. Sem dúvida existem limites, mas a possibilidade de recontar também é a possibilidade de tornar nosso passado um lugar melhor. Lembranças diferentes também mudam as peças que usamos para projetar o futuro. Curar o hoje muda passado e futuro ao mesmo tempo.

Pam bam bam bambam

Era uma parte coberta que ficava nos fundos de uma casa, grudada no muro lateral. Em frente a ela, um pequeno jardim, com um banco. Já havíamos comido todos os doces e salgados trazidos pelas meninas e bebido os refrigerantes trazidos pelos meninos. Começamos a parte de dançar. Foi minha primeira festa de dançar. Não tínhamos muitas opções de discos e só queríamos músicas lentas. Por ser a primeira ou a última faixa de um disco de coletânea de sucessos internacionais, colocamos Take My Breath Away. Cada vez que a música terminava, iam lá – acho que apenas o dono da casa, mexer em vitrola era uma operação sensível – e colocavam a música de novo. Na pista sem qualquer luz especial, meus colegas de sala se transformaram em pares. As bonitas. As legais. A gordinha engraçada. Numa distância que me parecia de quilômetros, meninos do lado oposto, no banco do jardim descoberto. Eles se olhavam, cochichavam, até tomar coragem e convidar alguém. A que estava de pé, a da esquerda, a da direita. Até que a música continuava e o banco deles estava vazio. Eu olhei para o lado e havia uma menina da minha idade, com a mesma expressão que a minha. Ela foi embora logo em seguida. Sorte dela – eu passei o resto da noite (que deve ter durado, no máximo, até meia noite) ouvindo Take My Breath Away, enquanto o sofá crescia cada vez mais.