Invencível

Heavy rain in Spain

Vocês já andaram num dia chuvoso de galochas, capa de chuva e guarda-chuva? A sensação é ótima, estamos invencíveis. Enquanto os incautos correm para as marquises e molham os pés nas poças, caminhamos com independência, no ritmo que queremos, podemos erguer os olhos do chão na maior tranquilidade. Demorei pra descobrir o quanto a caado influencia no humor relativo ao clima. Quem me conhece pessoalmente sabe o quanto que fiquei contando vantagem, igual criança, quando comprei a minha bota de pelinhos. O frio se aproxima e já olhei para ela, feliz. É uma bota que vende nessas lojas de alpinistas, caras pra caramba, mas por acaso a esposa do fabricante me ofereceu a preço de custo. Com o preço de custo, ela já era o máximo que eu gastaria num calçado, pra vocês terem ideia. Mas, enfim, comprei. A bicha dá um calor que é como se eu colocasse os pés numa bolsa de água quente, vem subindo aquele bem estar. Não é bonita, mas quem enfrentou inverno de verdade sabe que vaidade não importa, quando o frio aperta a vontade é dar uma de Di Caprio e entrar nas vísceras de um urso morto. Pode vir chuva, pode vir inverno, estarei nas ruas, preparada para vocês.

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O frio está chegando

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“Já está frio?”. Eram cinco da manhã e me pareceu que não. Dormi mais, o alarme tocou e ainda não parecia frio. O termômetro do despertador marcava 15ºC, o que no meu quarto nem é frio. Tirei as cobertas e não estava frio enquanto me arrastei até o banheiro. Peguei o celular e lá marcava 12ºC, fiz outras coisas, vi de novo para ver como ele se atualizava. Teve dias que eu confiei na primeira olhada e ele atualizou para uns 5ºC a menos, mas hoje não. Fui para os fundos da casa, coloquei o braço para fora da janela – não estava frio. Dava para usar minha blusa nova, com mangas bufantes estilo medieval que não permite que eu use um casaco grande por cima. Para prevenir, uma blusa de algodão de manga comprida e uma camiseta por baixo. Que bom que não era clima de roupão, eu esperava, senão meu profe de natação me repreenderia, de novo, por ir para a beira da piscina apenas de sunquíni. É que eu plano era andar a manhã inteira e com roupão na bolsa fica muito pesado. Depois da aula, no banheiro com a única colega que veio, comentamos sobre o frio prometido. Abri meu whatsapp e já tinha três fotos – que não consegui carregar – de neve no Chile, dizendo ameaçadoramente que era a frente fria que vinha pra cá. “Por isso que eu fiz questão de vir hoje, pra garantir, porque se estiver mesmo zero grau na quarta eu não venho. Você vem, né?” Concordei com a cabeça, envergonhada porque na verdade não apenas iria quarta como já tinha combinado de ir também terça. Todo mundo sabe que eu nunca falto. Saí da aula com o já cabelo seco, com o sol na cara e dizendo para mim mesma que eu não poderia me queixar, aquele era o último dia. Na padaria, tirei a camiseta que estava por cima da manga comprida e embaixo da medieval. A moça avisou que o café com leite não estava muito quente e pedi pra deixar como estava, porque estava faminta, e não foi uma boa decisão. Passei na sapataria, comprei aplique de roupa e fita de cetim, depois bati perna com a sensação de que deveria comprar mais alguma coisa. Quase comprei várias coisas e só quando a Dúnia sentou em frente à porta eu me toquei: ossinhos. Coloquei todas as roupas para lavar e lavei toda louça, com o pensamento de que em breve qualquer contato com a água pode se tornar intolerável. Passeei com a Dúnia como se fosse o último sol, antes que ela precise ficar vestida quase o tempo todo, cheirando mal e o pelo cheio de caspa. Choveu. Jantei. Tirei o esmalte velho e coloquei novas cores, porque ainda dá pra esperar tudo secar sem meias. Me depilei, antes que doa mais e fique difícil expor a pele. Tomei banho também como se fosse o último, o último sem ter que ligar aquecedor, sem me colocar debaixo de uma água fervendo, ruim para entrar e mais ainda para sair. Ao pendurar a toalha no varal, verifiquei o grau de umidade das roupas. Estavam geladas. Mas ele ainda não chegou.

Protesto

frio-golpista

Tem um meme antigo, do tempo que essa palavra nem existia que dizia: Vou xingar muito no twitter. Era inspirado neste vídeo. O meme ri da inutilidade que é ficar reclamando em redes sociais e é justamente essa minha atitude – tenho me queixado muito no twitter contra o frio. Cada dia é uma figura trágica diferente e realmente tem sido difícil segurar o mau humor quando penso em me programar pra vestir camadas de casacos em OUTUBRO. Já lavei e guardei tudo quando deu uma esquentadinha e tenho me recusado a tirar os casacos de lá. Então tenho usado sempre um ou dois, de pura teimosia. Não faz mais que duas semanas, estava tão de saco cheio de minhas calças jeans, que saí de vestido. Vestido com cachecol, casaquinho e meia calça, mas ainda assim vestido. Quando vejo dois adolescentes andando timidamente juntos e ela está lindamente de pernas de fora, sempre penso: “Está na fase da conquista, né? Depois passa…” O cara às vezes até estranha e pergunta se a gente está com frio: “´magina, essa meia calça é super quentinha!”Mentira, meia calça passa vento. Ou seja eu saí agasalhada, mas nem tanto. Estou com saudades de deixar minhas pernas de fora, dos meus vestidos, das minhas saias.

Foi um protesto silencioso. E inútil. E estou pensando em repetir amanhã.

Curtas do urso inconformado

urso inconformado

Mania de marcar pra cortar o cabelo cedo. Não quis acordar tão cedo assim e pra chegar lá às 9h, ou eu tomava café correndo ou deixava pra depois. “Tem padaria boa aqui perto?”. Aí minha cabeleireira falou – “Sobe a Blablablá, cruzando a com Blublublu, sabe? Daí volta meia quadra e tem uma ótima”. Adivinha se não fiquei andando feito uma tonta em ruas aleatórias.

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Aí, na padaria que eu achei. Pedi um café com leite e um pão com queijo. O menino anotou um valor só, seis e pouco. Demoram pra atender, me trazem um pão quente – “Era frio, mas vá lá, me dá esse troço”. Nada do meu leite com café. Quando já comi metade, chamo a atendente, mostro a ficha: “O rapaz marcou isso aqui e só trouxeram o meu pão. E o leite, tá aqui ou não tá?”. “Ah” – ela diz num tom pouco convincente – “ele só marcou o pão. Deixa que eu te trago o leite e faço outra ficha”. Valor da outra ficha – pão quatro reais e pouco, café dois reais e pouco. Olha, até eu que sou lesa em matemática percebi.

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“Que delícia esse bolo!”, eu elogio. “É muito fácil de fazer, você pega…”- à exceção de uma única amiga, que (talvez por ter mais idade) simplesmente não é capaz de acreditar que alguém não saiba se virar na cozinha, eu já interrompo: “Não adianta me dizer como é que se faz que eu não vou lembrar e nem fazer. Se eu quiser comer de novo, vou ter que passar na tua casa e você fazer pra mim”. E não é que tem gente que faz mesmo?

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Fui contar vantagem da minha bota peludinha e deu no que deu, até hoje não veio a dita cuja. Mas como vou comprar quase com 50% de desconto direto do fabricante (uma vez na vida tô me sentindo bem relacionada?) não dá pra reclamar. Me vejo quase torcendo pra voltar a esfriar absurdamente de novo.

Meu pé meu querido pé

Não quero nem saber dos cartazes “Eu já sabia” que vocês vão erguer, pra mim foi uma grande descoberta pessoal reconhecer a importância do pé nas condições climáticas. Chuvas tenebrosas se tornaram quase nada pra mim depois que comprei galochas. Bolsa de água quente no pé em dias frios é tão bom que olha, não encontro nem metáforas para comparar. Agora me aguardem quando eu colocar as minhas mãos, ou melhor, os meus pés na bota peluda que encomendei. Minha vida vai mudar. Serei feliz, andarei pelos campos floridos aos pulos e conhecerei meu príncipe. Quiçá pare de reclamar do frio. Tudo porque meus pés, meus queridos pés, estarão quentes.

Três curtas, três problemas

metamorfose

Eu sempre achei exagerado quando as pessoas se queixavam dos pés gelados que nada resolve. Nos dias muito frios as minhas duas meias também ficavam meio inúteis, mas e daí? Não sei se é o frio recorde, a idade ou o quê, mas eu viciei em colocar bolsa de água quente nos pés. Meu receio é nunca mais voltar a ser uma pessoa normal.

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Outra: aqueles filmes que tem escritores, e eles se isolam dizendo que vão escrever, e não escrevem, a editora manda cartinha, eles inventam uma desculpa, mandam mais, mandam gente e o cara nada. “Nossa, que exagerado”. Então.

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Privadas com caixa acoplada são ecologicamente mais corretas, mas tenho vontade de jogar as minhas pela janela. A mais recente questão – se for contar tudo o que já passei dava um livro, etc. – é que uma delas precisa que eu dê uma leve ajeitada na tampa para não ficar vazando água por dentro. Mas não vaza sempre e nem é imediatamente. Então me pego como marido traído, abrindo a porta do banheiro de repente pra ver se flagro algum barulho.

Curtas de tá frio pá caraleo

galinhas vestidas

O melhor argumento de todos contra o frio e que eu sempre repito: a gente não consegue uma textura decente pra passar manteiga. (Chicuta)

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Um dia você quase tem uma insolação porque vai num casamento onde a noiva deixa os convidados em cadeiras de plástico no meio do nada sob o sol de 30 graus das 13h, e no outro a orelha perde a sensibilidade com o vento gelado.

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O frio que eu gosto é o anterior, aquele que a gente olha pros nossos vários casacos e decide a melhor maneira de sair quentinho e alegre, ou elegante, ou seja lá como você se sente naquele dia. E não essa busca desesperada por calor.

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Tanto que quem mora no sul tem toda uma ciência na hora de se vestir: tem o frio do vento gelado, o que esquenta no meio do dia, o úmido (pior de todos), com solzinho…

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Quem diz que no frio ficamos elegantes, além de gostar muito de preto, pensa num retrato, uma coisa estática. Porque se for encontrar com as pessoas todo dia, você vai perceber que elas estão sempre com o mesmo casaco, ano após ano. Casacão custa caro, sabia?

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Todo mundo fica encantado quando digo que a Dúnia adora roupa. Ela tem dormido com duas. O problema é que quando ela começa a usar roupinha não quer mais tirar. A estação muda, o sol à pino lá fora, e o cachorro querendo pijama. Isso porque ela já é quase um casaco de peles.

It’s been a long, cold, lonely winter

Existe um tipo de solidão que é incompartilhável. E eu a tenho aceitado. Antes eu precisava de gente, qualquer gente, conversa, qualquer conversa, barulho, qualquer barulho. Agora, se colocar um qualquer na minha vida, ele só vai provocar um contraste desagradável entre o que eu preciso e o que é. Então me mantenho só, ouço minhas músicas, olho pela janela e espero esse longo, frio e solitário inverno acabar.

Julho chegou e com ele…

… o frio. A conta de luz. A fatura de um cartão de crédito que eu já cancelei. A necessidade de ligar pra Net e cancelar a HBO.

 

* Eu vi e vivi tantas coisas nessa última viagem que precisarei de alguns anos pra digerir tudo.

 

* Sou do tipo que chega de viagem e desfaz a mala imediatamente. E, ainda assim, estou há dias tentando colocar as coisas no lugar. De onde surgiu tanto papel a ser anotado e arquivado, tanta roupa pra lavar, tanto objeto sem lugares definidos e tanta decisão pra se tomar?

* Sobre o Fulano: não sei.

* Tenho amiga que já trocou muitas vezes de atividade, e depois se culpa por ter trocado. Ela diz que admira minha persistência com o flamenco. Aí eu digo pra ela: é que tem períodos de mais e menos entusiasmo. Períodos que, de certa forma, eu larguei internamente mas continuo indo. Agora, por exemplo.

 

* Escrever é estar sempre em atraso. Eu falando sobre como era engatinhar e a vida no terceiro emprego. A escrita infantil, edípica, fálica e na vida tudo já foi sublimado faz tempo.

 

* Cada vez mais eu me convenço que a gente muda muito pouco, se é que muda. O que a gente aprende é a se administrar.