Algumas crenças sobre a humanidade

Eu acredito em inconsciente. Acredito naquela metáfora que mostra um iceberg e o nosso consciente é apenas aquela pontinha que fica para fora da água, enquanto por debaixo existe uma montanha. O consciente fala uma coisa, acredita, se programa, jura, mas ele é muito pouco. Muitas coisas que achamos que são completamente racionais surgiram lá debaixo e são meras desculpas pro que o inconsciente quer; noutras vezes, a cabeça tem a melhor das intenções e o inconsciente se recusa.

Eu acredito que somos seres sociais. A teoria dos contratualistas, como de Hobbes, Locke e Rousseau, fala de um dia que as pessoas se reuniram e decidiram formar um governo, dar a ele mais ou menos poder, usar suas habilidades em conjunto; na realidade, nunca houve esse dia – linguagem, cultura, relações, habilidades, tudo surge junto na espécie humana. Atualmente, somos muito apegados a noção de gênios, de ser diferente, de fazer suas próprias regras, mas até esse desejo é algo social. Na verdade somos sempre muito parecidos com as nossas famílias, o meio em que vivemos, nosso país, nossa época histórica. Mesmo aqueles que se destacam em alguma coisa, quando estudados de perto, receberam condições favoráveis do seu meio.

Por sermos seres sociais, eu acredito que o poder corrompe. Que quando um ex-líder estudantil se torna político e, anos depois, está tão corrupto quanto os outros, não devemos nos sentir vingados – “olhaí, mau caráter também”. Não são todos lobos disfarçados que se revelaram. Há algo no poder que confunde, perverte, altera, que força a uma adaptação. Por isso eu não acredito que a solução seja votar no mais puro, no mais radical, no que vai quebrar tudo. Não é uma questão de pessoas e sim um sistema.

Eu acredito que temos obrigações para com todos os outros seres humanos (também animais e com o nosso planeta). Nossa incapacidade de se pensar como grupo que nos levou à situação absurda que temos hoje, onde de um lado poucas pessoas ganham em minutos mais do que são capazes de gastar, enquanto milhões mal têm para a subsistência. Que por mais que eu pessoalmente não tenha escravizado ninguém ou não tenha feito nada que prejudicou a família do marginal, como espécie, como humanidade, temos que lidar com isso. E quando digo lidar com isso, é querer que a ele o mesmo que quero para mim: comida, abrigo e felicidade.

Eu acredito que a vida é muito complicada. Que apontar os erros é muito mais fácil do que corrigir, mas ainda assim é necessário. Quando enxergamos a sujeira dá desespero, não sabemos por onde começar, dá vontade de dar as costas e ir embora. Ou de encontrar uma solução radical. Sabe aquela história de catarse, gritar, jogar pro alto, quebrar tudo? Sempre existe o dia seguinte, e depois de um surto dá mais trabalho arrumar. Assim como a vida é complicada, as soluções que valem a pena também são. Nunca será rápido e ninguém pode nos salvar.

 

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Curtas sobre c e r t a s p e s s o a s

suave na nave

Meio o de sempre: feliz, fotos sorrindo. Terminou com o namorado: indiretas motivacionais. “Dê a volta por cima”, “não fica do meu lado quem não me merece”, “eu sou como a ventania que não pode ser contida”, etc. Até que eu entendi que é uma tentativa de convencer a si mesma. Força aí.

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Eu adoro vídeos de cachorros e a progressão geométrica das redes sociais faz com que eles apareçam no meu facebook, no meu whatsapp, que eu seja marcada por amigos. Mas tem uma pessoa que me manda vídeos de cachorro que não apenas me desagradam como me irritam. Num deles, um cachorro pedalava uma mini-bicicleta. Tentei avisar que amo cachorros sendo cachorros e detesto quando os obrigam a comportamento de circo. A pessoa não entendeu, atribuiu minha queixa a um dia de mau humor e continuou a me mandar.

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Sem dúvida, não é uma pessoa egoísta. É até uma pessoa do bem. Mas eu me perguntava o que havia de errado, havia algo de irritante. Seria a riqueza, seria achar que sua família é melhor do que as outras? Não era explicação o suficiente. Até que, na roda, uma comentou que havia feito vários exames, porque vinha sentindo dores. Aí a pessoa emendou: “eu fiz todos os exames recentemente, fiz ressonância, fiz contagem de células, eu estou ótima, super saudável!”. Ou seja, é a versão contrária da pessoa que compete em desgraça.

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Eu não consigo ver encontro com pessoas do passado, tipo reunião da turma de 1900, que a gente não vê há anos, como desprovida de competição. Não consigo, lamento. Se fossem pessoas afins, o contato não teria se desfeito. Tive uma prova dessa teoria quando estava me preparando para cumprir a obrigação de falar com uma pessoa que eu sei que não está bem. Quando chegou o momento, recebi uma mensagem curta e política, um “obrigado, beijos”. Não adianta, a pior coisa do mundo é responder “e aí, como estão as coisas” quando algumas delas simplesmente não têm solução.

O temível ciclo de Saturno

precipicio

Não se preocupe que não é um post de astrologia. Apenas para contextualizar o assunto: eu vi uma historinha em um vídeo de astrologia que falava do temível ciclo de Saturno. Quando Saturno, no céu, passa por cima de algum lugar do mapa astral pessoal da pessoa, poderiam acontecer coisas ruins, por isso ciclo de Saturno e por isso associar com algo ruim. Mas o que este e outros astrólogos experientes dizem é que o planeta no céu não impõem nada, e as coisas ruins que aconteceriam nos ciclos de Saturno seriam apenas a consequência de algo ruim que foi plantado pela própria pessoa. Isso que eu adoro na astrologia, muito mais do que acreditar ou não que o céu tenha a ver com a nossa vida: as metáforas, as lições subjacentes, as ligações com o inconsciente coletivo. O astrólogo dizia assim: imagine uma pessoa bem distraída, com fones de ouvido, indo alegremente em direção a um penhasco. Por mais que se tente alertar, gritar ou apontar, ela não dá ouvidos, porque está no caminho dela muito convicta. Saturno é uma pessoa que chegar correndo e, pouco antes da distraída cair, Saturno dá um empurrão pro lado e joga a pessoa no chão. Como ela não sabe que ia cair no penhasco, fica reclamando: me empurrou, que grosso, caí no chão, machuquei meu braço, buá. E pensando na vida, nas pessoas distraídas com penhascos e aqueles que assumem a responsabilidade para evitar o pior, os que se comprometem, os mensageiros, etc… não é bem assim?

Duas histórias sobre sexto sentido

vagão metrô

Uma é minha e outra é de uma amiga:

Eu conversava muito com uma mulher na academia, fazíamos a mesma aula. Ela morava ali perto, sozinha, filho já casado. Um dia ela sumiu, não soube o que aconteceu. Reapareceu meses depois, sem nenhuma mudança visível na aparência. Mas, quando eu a via andando pela academia, não sentia vontade de falar com ela. Era inexplicável, levando em conta que eu gostava muito dela. Pensava em falar e vinha um sentimento de rejeição de novo. Ela tampouco me procurou. Um dia finalmente coincidiu que sentarmos juntas, esperando a aula. Naquele tempo que ficou sumida, não sei o motivo, ela entrou numa religião bem fundamentalista, que classificava o mundo como puros e impuros de acordo com um tal ritual que a igreja dela fazia. Eu, consequentemente, não era da turma dos puros.

Minha amiga fazia pós-graduação em Barcelona e pegava metrô com frequência. A lembrança surgiu porque conversávamos sobre como andar em transporte público é uma baita vivência sobre tolerância, que nem sempre alguém que nos choca é necessariamente agressivo ou vai nos fazer mal – ele está ali porque quer chegar em outro ponto da cidade, como qualquer um. Minha amiga um dia estava sentada em um vagão vazio e um homem veio e sentou do seu lado. Ela se sentiu muito mal perto dele, um sentimento de urgência, uma vontade de ir correndo pra outro vagão; só que o outro lado dela condenou isso, a atitude discriminatória com alguém que não lhe fez nada. Ela ficou sentada. Pouco tempo depois ele desceu, e antes de sair colou um adesivo acima da porta do metrô. Era um adesivo neonazista que pregava o ódio a imigrantes.

Cola

cola

Era uma das matérias mais difíceis da faculdade. Ela não tinha o hábito de colar, mas decidiu que daquela vez não tinha jeito. O sujeito mais inteligente do curso tirou 4 e ela tirou 8. Olhando para trás, hoje ela acha que o professor percebeu e deixou. A partir daquela prova, para tudo o que o professor falava na sala, se dirigia a ela. Toda aula, como se fosse uma espécie de monitora, ele perguntava o que ela achava. Ela, a melhor aluna, quem sabe a única em anos a tirar uma nota tão alta. Então, para fazer jus a fama e se antecipar ao professor, ela se via obrigada a se matar de estudar. Ela não passou vergonha, manteve o papel até o fim, mas que ela pagou caro por ter colado, isso pagou.

Curtas de difícil entendimento

pensar fora da caixa

Eu estava na faculdade e o professor decidiu nos passar um documentário na aula. Só que ele disse que era um documentário em inglês e sem legenda, ele havia trazido direto do país. Ele perguntou se tinha algum problema, se todo mundo lá entendia inglês e eu fui a única pessoa da sala que disse que não conseguia e saiu. Nunca soube qual o percentual de não falantes em inglês da sala, mas duvido que fosse a única. Eu os imagino os outros sentados na cadeira durante mais de uma hora e acenando com a cabeça.

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Um homem uma vez me disse que, às vezes, por estar com muita vontade de ir pra cama com uma mulher, muito a fim, muito apaixonado, acontece dele falhar. E que essa brochada na primeira vez poderia ser tão constrangedora que ele nunca mais a procuraria. Eu disse que isso era horrível, que brochar não era nada, que ela ia ficar sem entender. Ele disse que, por eu ser mulher, eu não entendia o impacto psicológico da brochada. Já faz algumas décadas que eu ouvi e continua não fazendo sentido.

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As redes sociais têm sido agitadas de escândalos nos últimos meses – até aí, tudo normal – de pessoas famosas cheias de fãs cuja existência eu ignorava até o escândalo. Incautos caíam na lábia porque, até determinado momento, estavam se sentindo meio honrados com a atenção, meu ídolo, etc. Aí vou ver o que a pessoa produzia, e desde mil novecentos o conteúdo era péssimo, escorregava nas causas que se tem lutado tanto por aí, e no dito escândalo a pessoa agiu de acordo com o que sempre foi – mas aparentemente ninguém reclamou antes. Eu definitivamente perdi o contato com a juventude, não sei identificar o que lhes toca. Se fizerem um teste Buzzfeed: “celebridade de internet ou completo idiota?”, eu erro tudo.

Quero recomendar fortemente

… dois documentários históricos ótimos que descobri por acaso na Netflix. Aparece lá como tendo 1 temporada, mas é um documentário longo dividido em várias partes.

Prohibition: Até nós, a lei seca chegou apenas como uma piada, uma medida incompreensível para proibir o comércio de bebida alcoólica que ninguém seguia. O documentário mostra o significado que a lei tinha nos muitos anos de luta para que se transformasse em lei. Parecia muito lógico que se as famílias sofriam com a ausência dos homens que estavam bebendo, a solução era tornar o mal indisponível. Gostei especialmente da louca que entrava nos bares e quebrava eles inteirinhos. Chega a ser comovente o significado da proibição, a mobilização das mulheres; nos faz pensar o quanto certas ideias parecem tão certas e lógicas em determinadas épocas. Quando a lei é promulgada e fracassa, é outra luta para tirar da constituição. Ótimo para ver os jogos de força entre política, sociedade e cultura.

 

Hitler´s circle of evil: Já vi muitos documentários sobre a Segunda Guerra, que foi esmiuçada de todas as maneiras possíveis, mas nunca vi um que faça o mesmo recorte deste documentário. Ele pega os nomes mais importantes da história do nazismo – o círculo mais íntimo de Hitler – e traça sua trajetória política. Perdemos aquela imagem do nazismo unificado e vemos a dimensão mais humana, de pessoas com motivações diferentes e que precisam encontrar uma maneira de alcançar seus objetivos. Alguns são realmente apaixonados por Hitler, mas nem mesmo ele teve a sua posição caída do céu. E todos querem o lugar mais alto. Puxa-saquismo, marés que mudam, alianças, espionagem, rivalidades, traições, inveja – o partido nazista era igual qualquer partido, qualquer empresa, qualquer reunião de pessoas.

Torta de café

torta de café

Balas de café? Maravilhosas, de comer uma atrás da outra. Café? Merece todas as declarações de amor que lhe são feitas diariamente. Motivo para levantar da cama em manhãs tristes, estimula também o olfato ao ser um verdadeiro perfume no ambiente, amigo contra a sonolência de depois do almoço ou do estômago vazio no meio da correria, melhor pretexto para socialização. Torta de café? Aí não. Torta de café tem gosto de decepção. Depois de se servir no buffet de saladas, comida de verdade, carnes, você vai até a mesa de sobremesas e vê aquela torta pretinha e pega um pedação. Depois de comer toda comida, a comida de verdade que mantém o corpo saudável, chega o momento da recompensa, a sobremesa, e você coloca aquele pedaço de torta diante de si, faz uma garfada perfeita pegando um pedaço da cobertura, e quando ele entra na boca, descobre que não é chocolate. É café. As papilas que esperavam o doce e recebem amargo se contraem de desgosto. Os mais sinceros até cospem de volta. Os gulosos e mãos de vaca comem tudo, mas só porque está lá, porque estão detestando. Comem mal humorados, olhando feio para os funcionários pra ver se tem alguém rindo da sua cara. Talvez a única alternativa para a torta de café seja espalhar muitos avisos antes, igual o triângulo quando o carro se acidenta na estrada – Atenção, torta de café a 100m! – pra pessoa estar ciente do que está na sua frente quando chegar o momento. Duvido que alguém se serviria.

Música da verdura

velho up

O ônibus da verdura parou em frente a uma casa que está sendo praticamente reconstruída, de tão ambicioso o projeto que dá para adivinhar por quem passa pela rua. Eu já estava na rua esperando ele estacionar. Mal entrei e entrou também um rapaz, que trabalha na casa. O homem da verdura veio repondo mercadoria, conversando comigo e com o rapaz, até que teve uma hora que ele se tocou que ainda não havia desligado a música – Quem é que quer verdura, quem quiser pode falar. Você deu uma risadinha, você quer verdura minha e está sem jeito de pegar.

 

-Vocês me dão licença que eu tenho que desligar correndo a música, não quero ouvir reclamação.

O ônibus vai parando em três ruas diferentes do bairro durante o dia, e justamente naquela tinha um morador que reclamou. “Reclama de um trabalhador! Se fosse maloqueiro com som alto na frente de casa, duvido que reclamava, ficaria com medo”, falou o rapaz. O Verdureiro não queria confusão, porque outras pessoas da vizinhança estavam dispostas a comprar a briga por ele. O homem que reclamou disse que naquele horário a música acordava o netinho dele. Os outros vizinhos contaram que é mentira, que ele não tem netinho nenhum.

-Hahahahahaha, sensacional, o cara inventou um netinho só pra poder reclamar!

A pessoa que deu essa risada fui eu. Só eu. Esse negócio de ficar de ouvido atento à qualquer história interessante deixa a pessoa meio perturbada.

Guerra ao conhecimento

livro fósforo

Eu estava lendo um grupo no facebook onde quase todo mundo tem pouco escolaridade e escreve errado. Para quem recebeu uma boa alfabetização, ler “licoeso” (lhe conheço), “sintrome tital” (síndrome de Down) ou “conselho do telar” (conselho tutelar) é tão surpreendente que nem se quiséssemos poderíamos inventar essas palavras. Uma vez corrigiram quem escrevia assim, e a resposta foi: lá vem humilhar a gente.

Quando vejo movimentos coletivos, procuro sempre ver quem é a pessoa comum que está recheando as estatísticas. Eu vejo nas pessoas que se sentem humilhadas em terem seu português corrigido aquelas que têm recusado o saber científico, que preferem acreditar nos seus próprios olhos pra dizer coisas como que a terra é plana. Eu penso na pessoa que nunca vai escrever direito porque não teve uma boa escola, e saber se certas palavras são com S ou Z é que muito (apesar da pronúncia) não se escreve “muinto”, é apenas uma questão de ter oportunidade de entrar em contato com a palavra escrita desde cedo, e ela realmente não deveria ser diminuída por isso. Penso nas muitas faxineiras que ouço no ponto de ônibus, espertíssimas, e que são vistas pelos seus patrões como qualquer coisa porque fazem trabalho braçal. Ou nem preciso pensar em exemplos extremos: penso em mim mesma, quando fazia faculdade, e era um nojo na minha pretensão e sapiência. Se eu entrasse em contato com a Eu daquela época, também teria vontade de dar umas bolachadas. Hoje conheço muitos doutores – alguns até com doutorado – e que nem por isso deixam de ser completos idiotas. Alguém tirar de algo externo um motivo pra se achar melhor do que você é muito irritante; não passo isso com relação a escolaridade, passo por ser mulher. Quanto mais fatores que servem de pretexto pros outros te desvalorizarem – escolaridade, sexo, raça, orientação sexual, etc -, pior.

Mas, por mais que eu reconheça que existam motivos pra mágoa, não dá pra apoiar uma cruzada contra escolaridade. Se formos levar essa ideia à sério, se o sujeito aprender as quatro operações e a assinar o nome está tudo bem. Conhecimento de vida e conhecimento escolar não se opõem. Educação e conhecimento – nada disso deveria ser colocado num pedestal. Acho que, na nossa realidade, tudo acaba ficando misturado: elite branca, escolarizada, racismo, pouca mobilidade social, opressão econômica. Aí a mágoa também mistura tudo, e acontece aquela história de jogar o bebê fora com a água do banho. Mas a elite apenas “sequestrou” o conhecimento; em si, o conhecimento é o que temos de mais precioso enquanto humanidade: ele é a capacidade de passar adiante o que aprendemos, mesmo quando não estamos fisicamente presentes. O cara que escreve errado e a faxineira também têm o que dizer, e é justamente a dificuldade de lidar com as normas que os silencia. Conhecimento é instrumental, é poder. Então não, não pode escrever de qualquer jeito e quiser é com S mesmo. Não dá pra ser contra conhecimento, achar que o que eu vejo/sinto vale mais do que o que está nos livros, estudos e satélites; achar que a Bíblia ou qualquer livro sagrado explica o mundo; tirar vaga de universidade e investimento em pesquisa, ignorar os especialistas. Sabe aqueles pais que ganhavam pouco mas faziam questão de colocar os filhos na escola, apesar de todas as dificuldades, pra eles serem alguém na vida? É isso que temos que fazer enquanto país.

IHHHSSS

nariz-fechado

Eu vi que era um rapaz bonito porque ele ergueu o rosto e nossos olhares se cruzaram quando eu entrei no ônibus.  Era jovem, barbudo. Eu me sentei atrás dele, num dos bancos duplos. Ao lado dele estava uma moça, cujo rosto eu só enxergava de lado e a nuca. Era um dos dias de inverno quentes que fez por aqui, tão quente que parecia o último verão que tivemos, que foi meio frio. Ela estava sentada meio de lado, encostada na parede do ônibus e o joelho no banco da frente, para apoiar melhor o celular. Cabelo preso, jovem. Quando é com a gente, não é um elogio convincente, mas eu acho que qualquer pessoa, quando está feliz e à vontade, fica muito bonita. A moça estava se divertindo muito lendo e digitando no whatsapp, sentada numa postura cômoda – bonita. As unhas eram compridas e rosadas, no mesmo tom da blusa que caía em um dos ombros e deixava a mostra o top que ela usava. Ela digitava, ria, lia, escorregava a barra de rolamento com o dedão. Pensei que ela e o rapaz, jovens e bonitos, faziam um belo casal. Só que assim que eu me sentei, vi que ela enfiava a palma da mão direita nas narinas e puxava pra cima com uma inspiração ruidosa, num gesto de quem está tentando segurar o que sai do nariz – IHHHSSS. Não é bonito estar com coriza e ter que se virar, todo mundo já passou por isso. Mas nem ao menos estava frio para culparmos o clima. Não puxe porque não faz bem, tenha sempre um lenço, minha mãe dizia. Ela não tinha. Já vi algumas pessoas enfiarem a mão assim no nariz, e sempre me pareceu meio exagerado, como se aquilo fosse enfiar a coriza de volta para a glândula que a produziu. O problema é que não volta, ela continua querendo sair, e a moça fez de novo. Ela nem se dava conta do que estava fazendo, dava para ver que era um gesto automático que não a atrapalhava em nada. Digitava, ria, de novo. Não dava nem cinco minutos e lá estava ela  puxando o nariz pra cima com a palma da mão, exibindo as narinas. IHHHSSS. Devia ser muita coriza. Ou talvez não fosse, se ela deixasse sair de uma vez parava. Se eu pelo menos tivesse algum lenço ou papel higiênico pra dar pra ela. A conversa no whats estava muito engraçada, devia ser um grupo, mensagens que não paravam de chegar, risadas. De novo. IHHHSSS. De novo. Comecei a me preocupar se eram áreas diferentes da mão, se o celular estava cheio de vírus, se talvez ela não devesse usar as costas da mão ou até mesmo a barra da blusa. Mas que tirasse, que resolvesse. Ombro pra fora, mais quente mas ainda inverno. IHHHSSS. A postura do rapaz, olhando para frente, começou a me parecer pura tensão. Acho que eles jamais seriam um casal. Primeiros encontros que não dão certo por motivos inconfessáveis, imaginei ele contando pros amigos que a moça era bonita mas IHHHSSS IHHHSSS. Minha mãe teria lenço de papel na bolsa para oferecer. Eu também teria, se estivesse resfriada. Se estivesse resfriada, teria saído com lenço na bolsa ao invés de ficar puxando ranho. IHHHSSS. A moça gargalhava, eram muitas mensagens. Eu aguardava a próxima puxada num misto de ansiedade e nojo – ficava aliviada quando ela finalmente fazia, como um profecia que se cumpre, e ao mesmo tempo desejava não ver mais. O ônibus mal virou a Cruz Machado e o rapaz se levantou rapidamente, muitas quadras antes do ponto. Tive a impressão de que foi um gesto de fuga. Eu também, me levantei logo em seguida.

Não veremos

muro pichado

As pessoas me chamam de radical às vezes. Eu nasci em 63, um anos antes do Golpe Militar. E na minha juventude não tinha um muro pichado, não tinha essa bagunça que vemos por aí. Hoje eu tive que arrancar as flores que tinha na frente da minha casa porque estavam escondendo droga dentro delas.

A crise que vem com a idade é complicada. Os que passaram a vida inteira lutando para serem ricos e família margarina, podem se descobrir vazios, que lutaram para comprar anúncios na TV e por opiniões que no fundo não interessam. Quem viveu de puro idealismo vê o mundo tão ruim quanto, ou talvez pior, num quarto e sala com as contas atrasadas. A vida é uma só, nunca temos todas as informações necessárias, partimos das condições que nos foram dadas quando nascemos, não conseguimos prever nem a metade da consequências dos nossos atos. É difícil.

O que eu tive vontade de dizer pra funcionária da padaria que me disse a sentença do primeiro parágrafo, antes do cliente seguinte nos interromper, naquele dia que pudemos conversar um pouco mais porque o Brasil estava perdendo pra Bélgica, é que eu nunca vi essa juventude que ela viveu. E, independente do candidato que se eleja – falávamos de eleições -, continuarei sem ver. Mesmo que vença o mais radical deles (desconfio que é quem ela gostaria), que promete descer bala em todo mundo que sair da linha. No fundo, o discurso radical me parece de um tremendo idealismo, alguém na sua explicação de mundo é sempre mais limpo e justo do que os outros – a polícia vai nos proteger, o exército vai acabar com a roubalheira, pessoas realmente éticas vão nos governar. Do mesmo modo que nós temos escolhas de vida e elas nos determinam, um país também tem. Não existe gesto capaz de corrigir décadas de decisões – décadas quando pensamos em biografias pessoais, séculos quando países. Não existe órgão ou pessoa incorruptível capaz de separar o bom e o ruim para nós. O ideal é que o marginal tivesse tido oportunidades o suficiente para não ir para o crime, mas não podemos voltar no tempo e agora temos que lidar com esse ser humano formado e violento. De certa forma, é possível dizer que não há salvação. Existe o possível, e acredito que nossas décadas de erros passam justamente por esse desejo de milagres.

Curtas de pequenas grandes descobertas

Eu descobri que uma excelente maneira da gente achar que faz um bom trabalho é acompanhar, de longe, quem faz pior do que o seu. “Olha lá, que ridículo, era melhor nem fazer, kkkkk”. Descobri também que nos torna pessoas piores e não leva a lugar nenhum.

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Primeiro a gente passa o fio dental, que não tira apenas os restos de comida como também as bactérias que estão na gengiva. Só depois escovamos os dentes.

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Eu acompanho páginas científicas e páginas de astrologia, e é claro que a primeira gosta de falar mal de quem lê a segunda. Dou risada. Você pode se recusar a toda religiosidade sim, não acreditar em nenhum consolo, não ceder às superstições, enfrentar o mundo visível apenas com o que já foi publicado na revista Nature. Assim como pode acreditar que tudo tem o motivo, os deuses te ouvem e no fim acabará bem. É com você. Aviso que nenhum dos grupos ganha medalha.

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Estava vendo o lindíssimo vídeo que viralizou, com o Paul McCartney. Por todos que o cercavam, declarações escancaradas de admiração e afeto. O próprio programa se encarregava disso, impossível não cantar junto. Tirando a polpa da vida desse homem, o que vai ficar em meio à biografia, é a pessoa que nos deu Let It Be, Hey Jude, dentre outras. Como imaginar um mundo sem essas canções e o que elas fizeram nas nossas vidas? Aí lembrei no nosso Paul, o Chico Buarque. Não torçam o nariz, não é preciso forçar a barra pra dizer que o Chico tem coisas tão universais quanto. Donde eu concluo: tem que amar o Chico, afagar, curtir, homenagear, aproveitar o máximo. Chega de ser ingrato e pequeno, de fazer pouco caso e só descobrir o valor quando a pessoa morre e passa retrospectiva no final do Jornal Nacional. Mesmo pra quem discorda das opiniões políticas dele, tem que amar o Chico, o Chico é nosso.

 

Demonstração

capinha de celular

Entrei no ônibus um pouco mais tarde do meu horário, por isso não me espantei quando entrou um cara diferente do que tem o fone de ouvido. O do fone de ouvido é um grande profissional, só de ser uma pessoa diferente, já achei que ele estava em desvantagem. O sujeito distribuiu os kits e disse o nome de outra instituição, que não era a Manásses – não sei o porquê, mas quando é da Manassés sempre me passa mais credibilidade. Ele disse que “a medicina e a ciência não conseguiram encontrar a cura do vício das drogas porque é de origem espiritual”, e começou a recitar um monte de versículos. Não sei se foi a velocidade com que ele recitou ou meu desinteresse, mas não entendi uma palavra, só ouvi um monte de números. No kit, apenas o folheto e uma capa anti-impacto para celular. Eu já havia visto antes, é uma borracha retangular feia com bolinhas nos cantos. Ainda por cima era mais caro do que a médias dos kits, 4 reais. Não dá. Até que ele tira o próprio celular do bolso, revestido com uma capinha daquela, e diz que vai fazer uma demonstração. Eu e os outros passageiros paramos de fingir que não estamos olhando pra ele e observamos enquanto o rapaz recua até a parte sanfonada do ônibus e atira aquele celular pra frente sem dó, como quem joga pedrinha no lago. Atônitos, acompanhamos o voo do celular, que não sofre um arranhão. Para os que estavam mais para o fundo, ele vai até lá e atira o celular à distância de novo. Incrível, a capinha é boa mesmo. Dois compraram na hora.

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.