Melhor Carnaval do País

{Já escrevi tanto isso em scraps e por msn que dá uma certa preguiça, mas vá lá!}

Eu adoro Curitiba no carnaval. Nesta época, faço questão de não viajar. Curitiba deve a única capital que declarar em público que você odeia carnaval não soa estranho – muito pelo contrário, a maioria das pessoas com quem eu converso também odeiam carnaval.

O desfile de rua aqui é uma coisa pavorosa, um programa de índio que às vezes as pessoas vão pra dar risada. Temos 3 escolas de samba e elas são constantemente punidas (pelo que vejo no jornal) por não apresentarem o número mínimo de passistas – uns 100, imagino.

De resto, nada indica que estamos no carnaval. Os poucos que gostam de festa, vão para o litoral. Cidade silenciosa, limpa, sem trânsito, quase tudo funcionando normalmente – restaurantes, locadoras, shoppings, supermercados e todos os outros locais de primeira necessidade. Ainda tem a vantagem de que os filmes da Fundação Cultural custam 1 real até quarta.

Não sei se vou assistir um filme no cinema, um DVD, passear num parque… Ah, são tantas opções! Morram de inveja os que estão atormentados pela Banda Calipso!

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Blergh!

Hoje uma colega de academia estava falando sobre um curso ou algo parecido, com diversas técnicas como reike, cristais, esse tipo de coisa. Ela estava falando, mas não pra mim. Peguei o papo pelo meio e ela me lançou um olhar de “nem perco meu tempo com que não alcança meu nível de conversa”. UFA! Se isso é ser profundo, sou rasa como piscina de criança, baby!

ODEIO mensagens bonitinhas, estimulantes, coisas que falam do quanto é preciso amar-aar as pessoas como se não houvesse amanhã… (Sim, odeio Renato Russo também!) Essas coisas todas que ensinam o engradecimento e o auto-conhecimento. Pior ainda as histórias edificantes, como do cara que jogou a vaca pelo precipício e corrente do bem. Quando unido ao discurso empresarial, de como ser motivado, ter sucesso e que Quem Mexeu no Meu Queijo serve para qualquer situação na vida, tudo se torna o mais BLERGH possível!

Nem precisa me conhecer muito pra saber que não é comigo. Quando posso, até beijo no rosto eu evito. O que dirá então da mania que essas pessoas mais místicas tem de dar longos abraços energéticos? Tudo isso é uma grande bobagem, uma hipocrisia. As pessoas mais maravilhosas que eu conheci na vida tem em comum serem todas despreocupadas – boas quando tem que ser boas, más quando o outro merece a maldade. Já cultivei muita melancolia; hoje quero mais é dar risada.

Eu acredito em tentar ser feliz com o que se é. E isso já é trabalho pra vida inteira.

O óbvio e o não óbvio

Há algo que todos sabem, menos eu. Esse algo é o que busco quando leio horóscopos, eneagramas, grafologia, quiromancia e todas as formas de descrição de personalidade que há. Às vezes essas coisas me satisfazem, mas quando mergulho muito fundo, fico frustrada em imaginar que, no fim das contas, não me encaixo em nenhum 8 ou 12 tipos que existam. Ou que me encaixo parcialmente, com algumas diferenças. E que esses livros nunca me dirão que sutis diferenças são essas.

Quais são as sutis diferenças? Olho para a minha casa, as minhas roupas, os livros que leio, as músicas que ouço. Às vezes a resposta parece estar lá, mas isso também é insuficiente. Porque tudo o que visto, leio e ouço também pode ser enquadrado num tipo. Então, procuro vestir algo que inventei, ler um livro que não existe e transformar em música um som que somente eu goste. Mas, quando consigo algo assim tão único, tão único quanto eu, novamente me perco. Porque não consigo diferenciar essa coisa de mim.

O que as pessoas vêem quando olham para mim? Se não sei o que elas vêem, e todas elas vêem algo parecido, há um segredo a meu respeito que só eu desconheço. Assim como as minhas costas, carrego comigo uma imagem muito clara, que não controlo. Todos interagem com ela e eu a manuseio como um fantoche descontrolado. Nunca sei como meus gestos são interpretados, o quanto algo é sutil, o quanto algo é exagerado. Quando gostam de mim, não sei exatamente do que gostam. Então pergunto o quê, como, na vã esperança de descobrir. Mas as pessoas nunca falam. Porque para elas, é óbvio.

Como fazer alguém gostar de mim, se nem sei quem é esse mim? Eu quero saber, procuro ardentemente saber, mas não consigo. Preciso de alguém que me conte tudo a meu respeito. Que todos falem para mim o que falam de mim quando não estou olhando. Ou, melhor, que falem para mim o que nunca ninguém fala, porque é desnecessário. Como é o meu cabelo, que aspecto eu tenho, como é a minha voz, por que você fala comigo? Quem é essa pessoa que todos conhecem, menos eu?

Amigos

Do que é feita a amizade? Eu não sei. Já tive grandes amizades que jurei que durariam a vida inteira, amigas a quem chamava de irmãs. Hoje, nem histórias interessantes sobre elas eu tenho. Outro amigo, foi meu colega no 2º grau, e estavamos sempre discutindo. Nos afastamos, nos reencontramos… é uma amizade de semelhanças que só nós entendemos. Hoje, parece que tenho laços muito mais profundos e mais amigos do que em qualquer outra fase; como se de repente tivesse conhecido um monte de gente que levarei na minha lista de telefones durante muitos anos. Será que eu é que sou mais amiga agora?

Um ser especial

{Reproduzo aqui o texto fofinho que o Alessandro colocou no scrap dele. Essa é a foto do avatar. Entrem logo porque ele muda mais que eu!}

Das criaturas, entre o céu e a terra, foi dado a uma tornar-se especial. É o vira-lata.

Vira-lata é o nome científico dessa raça de cães que vive entre os homens com a liberdade que os bípedes almejam tanto e não têm, embora possuam um par de membros desocupados para fazer o que quiserem.

É o rei dos bichos de nome composto, com seu verbo, seu hífen e seu substantivo.

Um vira-lata sempre parece saber para onde vai, com seu passo decidido. E, se parado, aparenta a placidez de quem está no devido lugar, na hora certa. Os humanos, por mais que saibam para onde ir, sempre têm esse ar um tanto patético dos perdidos no mundo. Parados, mal sabem onde pôr as mãos. Por isso, os bolsos.

E eles, junto com os bolsos, inventaram uma designação meio estúpida para o vira-lata: srd ou sem-raça-definida. Os homens precisam definir tudo. Porque os cães de raça, cada homem escolhe de acordo com o apartamento ou casa – que tem – ou personalidade – que acha que tem.

E, assim, os cães de raça, com suas designações pomposas e pedigris, podem ser escolhidos por seus donos, criteriosamente. O vira-lata, por sua vez, prefere e sabe fazer escolhas ele mesmo. Sem árvore genealógica, atravessa a rua sozinho e consegue comida com sua humilde auto-suficiência.

Há, sem dúvida, mais nobreza em um vira-lata que em um galgo de corrida. As agruras da sarna, dos atropelamentos e das pedradas dão fibra à sua alma.

Repare naqueles que nunca tiveram um vira-lata. Parece que lhes falta algo. O sorriso, talvez, tenha menos de rabo abanando em seus componentes e mais de tédio e fleuma, ou coisa assim. O vira-lata ensina a ser feliz com pouco. Mesmo quem não tem nada pode ter um cão, desde que ele deixe. O bêbado e o louco conversam com um vira-lata de igual para igual. Ao menos esses conseguem se alçar à altura do cão. E este lhes lambe as mãos.

Veja a procissão de cães atrás de uma única cadela. Dinastias inteiras de vira-latas foram fecundadas e fundadas em madrugadas quando até o amor, esse item em extinção, era dividido.

Vira-latas há aos montes por aí. E não tem um que seja igual ao outro. Parecidos, às vezes. Em sua miscelânea genética, ele é antes de tudo um forte. Nunca precisou de vacina pra sobreviver.

Quando perguntam por aí: se você fosse um bicho qual seria?, todos respondem coisas como águia, leão ou tigre. Eu demorei pra descobrir, mas hoje eu respondo de boca-cheia.

Se eu fosse um bicho, eu seria um vira-lata. Desses amarelos.

{Por falar em Alessandro, não deixem de visitar o Cracatoa}

Dúnia

Pra não deixar a história sem final, aqui vai o que aconteceu com a Dúnia:

Eu e o Luiz, revoltados e inconformados, começamos a entrar em contato com alguns locais para dar a Dúnia para adoção. Nem pensamos em procurar abrigos de animais – tenho uma amiga que trabalha em ONGs de cachorros (ela que me arranjou a Dúnia) que me contou que os cachorros abandonados, por mais bem tratados que sejam, morrem em 1 mês, de depressão. Ligamos para o hotel onde a deixamos quando fomos para São Paulo. O dono nos perguntou – tem certeza? Ele e a esposa gostaram muito da Dúnia, e tiraram uma das poucas fotos já adulta que ela tem. Um colega de trabalho do Luiz indicou outra pet shop.

Nesta pet shop, o veterinário, depois de muita conversa, nos convenceu a procurar um adestrador. Esse adestrador foi sargento e adestrava os cães do exército. Como desde o incidente a Dúnia já não dorme dentro de casa, as coisas ficaram mais fáceis. No começo, nem conseguia olhar para ela. Depois, olhando foto, olhando-a de longe, olhando aquele olhar carente que ignorava o motivo da minha falta de carinho, decidimos tentar mais alguma coisa.

A Dúnia sempre foi enlouquecida, hiperativa, com dificuldade de aceitar limites. Dizer não pra ela é a mesma coisa que dizer “quando você não estiver mais a fim, você pára, tá bom?”. Quando castigada, ela se sentia provocada, começava a brincar e fazia de novo. Tentar passear com ela é pedir pra se estressar, de tanto que ela se debate pra colocar o peitoral. Na rua, ela tem medo de tudo, principalmente de cachorros. Ela é um pouco maior que um cocker, mas morre de medo até mesmo de yorkshire.

O adestrador nos contou que até os 60 dias, a mãe é que dá limites à ninhada. Como a Dúnia tinha certa de 30 dias quando foi abandonada, ficou com essa etapa faltando no desenvolvimento neurológico dela. Por isso tantos medos, por isso a dificuldade de ter limites. Ela não sabe viver entre os mesmos da sua espécie por ter ficado sozinha muito cedo, ela não se reconhece como cachorro. Além dela ter sido abandonada, tivemos que passar muito tempo com ela trancada em casa, por causa das vazias, e por ela ser muito f’rágil no começo (bem no começo!!!!)

Ele disse que pode ensiná-la a ter limites e diminuir bastante esses traumas. Que ela tem como pontos positivos ser claramente uma mistura de pastor alemão, muito inteligente e afetuosa (o pessoal da pet shop a adora). Caso não consiga adestrá-la, ele se comprometeu a arranjar outro lar para ela. O que sei é que desde que soube dos problemas da Dúnia, morro de dó. Chego perto dela e penso – Minha pobre Dudu, é traumatizada!!!! :’o(

Hoje começa o “serviço militar” da Dúnia, que vai durar de 15 a 20 dias. É difícil acreditar que aquela cadela enloquecida vai parar de fazer o que quer que esteja fazendo só de ouvir um não

Receber

Há meses estava devendo receber uma grande amiga com a mãe dela aqui na minha casa. Fomos duas vezes na casa delas, passamos o dia todo, comemos, conversamos, rimos… Até que, na última visita, o Luiz disse com aquela convicção de quem não está falando apenas por educação – “a próxima vez vai ser lá em casa!” Não preciso dizer que tive vontade de matá-lo.

Falar é fácil. Antes, meu principal problema em receber alguém era a king size da Dúnia, que me enchia de vergonha. A mesa de plástico na mesa de jantar é algo que eu já consegui abstrair. Eu resolvi o problema do sofá canino – doando-o. O problema é que este lindo monitor samsung de cristal líquido (que olho neste momento) comeu a verba pro sofá. Acrescido a isso um receio de colocar móveis e eles serem destruídos pelo cachorro, minha sala está a mais oriental das salas – uma mesa de centro, 4 cadeiras, uma mesa de plástico. Só.

Esses são os receios gerais. Os receios específicos em receber tão ilustres amigas era a dúvida sobre o que servir. Elas são as pessoas mais macrobióticas que conheço. Eu apenas ensaio, elas realmente vivem de forma natural. Elas não comem nenhum tipo de carne ou algo que contenha conservantes, transgênicos ou açucares. Chá em saquinho, nem pensar. Da última vez que fui lá, me serviram um delicioso (sim, estava delicioso) suco de bambu balinês com melão.

A casa ainda tem marcas de patas e eu ainda não tenho sofá, mas as convidei. Reuni os meus parcos conhecimentos culináricos macrobióticos e fiz doce de arroz integral sem açucar, geléia de banana sem açucar, chapati (pão indiano na chapa) e suco de abacaxi. Elas adoraram o frescor da casa. Adoraram comer sem medo. Sentamos no chão pra olhar as minhas peças. As cadeiras da sala, felizmente, são italianas, exclusivas, modernosas e muito confortáveis. Foi ótimo.

Cada um recebe como pode. E os amigos fingem que não vêem. ;o)

Artista? UAU!

Os artistas carregam a fama de serem pessoas mais sensíveis e especiais do que as outras. Ouço isso de pessoas que não sabem que sou escultora. Quando sabem, elas me dizem isso com olhares deferentes, com parabenizações, com referências a esse assunto nos momentos mais inesperados. Às vezes ouço uns “você, que é uma artista…” que me dá o aval pra tudo. Certos gestos triviais meus começam a ser explicados por esse fato – só uma artista mesmo pra gostar da cor laranja ou pra gostar de Body Balance (?)…

Os escultores, na Idade Média, eram como pedreiros. Eles estavam lá, na hora em que tudo era construído, pra fazer uma escultura lá no canto, se desse na telha de quem coordenava. Elias, no livro (que eu não li) Mozart: a sociologia de um gênio, mostra que essa coisa de artista ser considerado especial nasceu junto com o ideal romântico. Acho que essa lenda de artista ter um dom divino permanece porque a maioria dos artistas não desmente. Quem não gosta de ser considerado especial?

Nas poucas vezes que tentei desmentir essa de que os artistas são especiais, fiquei com a cara no chão. Claro, só falei com pessoas que gostam muito de mim. É como o dia em que estava atendendo uma moça que achava que todos os universitários eram pessoas legais, bem resolvidas e que liam muito. Tentei desmentir, mas, por coincidência, minha pasta estava com uma pasta no chão – ela era transparente, tinha uns 3 livros da biblioteca pra devolver e um adesivo “I love Barcelona”. Claro que ela não acreditou em mim.

Esse é o tipo de crença que só se mantém quando você não conhece artistas. Dizem que os cantores e os pianistas são os piores, não sei dizer. Cada área advoga pra si o maior veneno entre artistas. Conheci artistas de tudo quanto é tipo: aposentados que procuram ocupação, gente que foi criada pra ser o gênio da família e não sabe fazer outra coisa, pessoas talentosas e esforçadas, pessoas esforçadas e nada talentosas, pessoas vaidosas que gostam mais das vernissages do que o trabalho em si e, principalmente nas artes plásticas, peruas que gostam de serem especiais.

Ou seja, ser artista, é como ser qualquer outra coisa: depende das circunstâncias e das oportunidades. Alguns fazem por amor, outros por vaidade, outros por tédio. Alguns têm mais talento do que outros. Alguns famosos tem talento, muitos talentosos não são famosos. Existe sim, gente especial e sensível; assim como tem gente especial e sensível trabalhando como funcionário público, vendedor, profissional liberal, dentista…

Fracasso

Às vezes a Dúnia está lá fora, pegando sol encostada no muro, e eu fico olhando para ela escondida. Assim como, escondida, quebro o ossinho em vários pedaços e jogo em vários pontos diferentes da grama, pra ela ter que procurar. Esses gestos nada tem a ver com a dona enlouquecida que gritava que a odeia, antes e depois de limpar uma sala tão emporcalhada de estévia que até as narinas ficavam doces. O detalhe é ontem ela tinha feito a mesma coisa, igualzinho, só que com a granola. E anteontem ela quebrou um porta incenso.

Eu desejei imensamente esse cachorro. Mobilizei todos a minha volta. Ignorei conselhos e cachorros de raça. Peguei uma linda cadela que me conquistou com seu olhar carente, naquele corpo pequeno, frágil, sujo, de onde saiu a maior quantidade de vermes que eu já vi. Ela ganhou a minha sala, fez do sofá de 3 lugares sua king size e depois do jardim o seu campo de escavações. Ela ignorou o caro pipi dog que compramos pra ela, e se viciou no bio dog. Tem garrafa, chocalho, Snoopy, bolinhas… sem falar na pá e no ralo. Quem vê tudo isso espalhado por aí tem a impressão de que há uma criança em casa.

Admitir para mim mesma que não suporto mais essa situação e que quero dar a Dúnia está sendo doloroso como um fracasso. Logo eu, que comparava o abandono de um cachorro ao abandono de um adotado. Que adotei a Dúnia por não perdoar minha mãe ter se livrado do Quincas. Que tenho foto e vídeo dela no meu celular. Como as coisas chegaram neste ponto?

Pode ser que seja má-educação, que não soubemos adestrá-la. Pode ser que ela tenha má indole. Ou que seja criança demais. Tudo pode ser. Quem sabe tudo tenha sido um erro, desde o princípio. O Luiz trabalha e dá aulas, e eu faço 2 cursos superiores e academia. Talvez, nesse ritmo, fosse mesmo impossível dar pra um cachorro toda atenção que ele merece. Eu tentei, apanhei como mulher de malandro. Agora vamos buscar um lar melhor pra ela. E voltar a habitar a parte debaixo da casa.

Dói.

Ah, exposição!

Expor o trabalho é tudo para o artista; conta pontos no currículo, atrai possíveis compradores, dá visibilidade. Para mim, a grande vantagem está em atingir o público. E não estou falando de público em sentido abstrato – o meu público, as pessoas que eu conheço. Uma exposição é a oportunidade de fazer com que as pessoas saibam que eu sou escultora. Afinal, meu marketing pessoal sempre foi uma bosta.

A primeira reação quando digo que sou artista plástica é Oh!. Acho que por detrás deste Oh há muito de não saber o que dizer mesmo. Porque pouco tempo depois do Oh descubro que ninguém sabe ao certo o que eu faço. Para me agradar e mostrar que me valorizam como artista, as pessoas fazem coisas como apontar de mim um São Francisco feito de palha (como seu eu tivesse algo haver com esse tipo de trabalho) ou me perguntarem quanto custa uma fonte. Convidá-las para ver uma exposição é tentar me poupar desse tipo de coisa.

De cada exposição que faço, devo conseguir que meia dúzia realmente veja. Tenho 2 que realmente vão, e um deles é o meu ortodontista. As outras pessoas se dizem emocionadas, juram que vão e depois de tudo terminado se desculpam, dizem que perderam o prazo. Também tem aqueles improváveis, que você convida por tabela e esquece. Um dia ele passa ao lado ou é uma pessoa adora ver exposições e eu nem sabia. Quando reencontro, ele realmente foi. É uma surpresa, nunca dá pra adivinhar quem vai.

Calor, calor…

Acho que a única cidade que faz um calor comparável ao de Curitiba é São Paulo. A diferença é que não temos nuvem de poluição – nosso abafamento é (creio) uma condição natural, por estarmos localizados num planalto abaixo de outro planalto. O céu continua cinza como sempre, e as noites não têm estrelas como sempre. Cá embaixo, ficamos suados logo depois de tomar banho, porque não há vento de jeito nenhum.

Mas sabe qual o pior de tudo, pior mesmo? São os hábitos, que morrem devagar. Qualquer mulher de outra cidade que vem morar aqui nota que nesta cidade não é possível andar de saia mais que um palmo acima do joelho. Quer dizer, possível é. O problema é a quantidade de olhares tarados, constantes e ininterruptos, como se você fosse uma mulher que largou a burca. São tantos e de tal maneira, que é difícil se animar a sair com as pernas de fora. Eu, por exemplo, enfrentaria 2 bares, uma construção de um prédio e 2 cobradores até entrar no ônibus. Contando mais homens no ônibus, no terminal, no outro ônibus… Fazer esse cálculo resto da vida e todos os dias, influenciaria os hábitos das mais encaloradas das mulheres… (eu, provavelmente)

Aqui, pode estar insuportável, mas você nunca encontra uma mulher andando de short na rua. Curitiba é a capital das bermudas abaixo dos joelhos, das saias compridas e das calças jeans – mesmo com sensação térmica de 40 graus.

Kamikase

Na primeira vez que fui ao Parque de Águas Claras, há mais de 5 anos, foi com os meus tios. Eles nos buscaram cedo, pra chegar cedo e pegar o melhor lugar para pescar. Fomos diretos para o lago e lá passamos horas emocionantes, naquela observação contínua de um cenário parado com águas turvas. Depois disso, passamos pelo clube e me senti enganada – pô, estava ao lado do paraíso na terra e eu olhando a água? Piscinas com correnteza, piscinas de crianças, piscinas de adultos, toboáguas. Fiquei disputando com as crianças os lugares na fila para os toboáguas de 8 metros. Naquela época, estavam terminando de construir os toboáguas de 15 metros – Free Fall, com alguns segundos de queda vertical, e o Kamikase, cheio de curvas.

Nessa longa 1 semana de espera até voltar ao Parque de Águas Claras, já tinha decido ir num desses toboáguas gigantescos. O Luiz disse que iria também – afinal, o que são 15 metros para quem já saltou de 1500 de paraquedas? Mesmo assim ele não foi. Eu já sabia que o Luiz não sabe nadar. Afinal, graças à (porcaria) infância superprotegida, ele também não sabe andar de bicicleta e tem os pés fofinhos*. Só hoje descobri que é mais do que não saber nadar: o Luiz é meio fóbico com água. Por isso ele não foi – diz ele. Da minha parte, aprendi a nadar com menos de 5 anos, pegava onda na adolescência e era o orgulho do papai** por nadar com um peixinho. Acho até que, se meus pais não tivessem se separado quando eu era tão nova, hoje eu teria algumas medalhas no armário e os ombros bem largos… mas isso não vem ao caso.

Mal cheguei no Parque e já subi as escadas para os toboáguas gigantescos. Aquele monte de lances de escada vazada e o clube cada vez menor fizeram com que eu recuasse. No meio do caminho, um pirralho ainda me disse – não desiste não, vem cá, é legal! Mas eu não voltei. Fui para a piscina e o Luiz compreendeu o meu gesto. Fiquei olhando os outros, os corajosos. Pensei, pensei… Falei para o Luiz – eu vou tentar de novo. Juntei a coragem e fui. Afinal, enquanto fêmea eu sou muito macho.

Tem que ter culhões mesmo. De cada 15 que saltam, só 1 é mulher. Subi com um monte de homens – eles vão em bandos, pra poderem acusar os que recuam de serem viados. Quando cheguei lá em cima, a coragem falhou de novo. Vi a Free Fall e decidi que naquilo não ia dar. Deixei passarem na minha frente. Um cara lá em cima me disse que eu tinha que fechar os olhos e ir; o cara que cuidava me disse “se pensar muito você não vai”. Sentei no Kamikase e fui!

Como é? É mais longo do que para quem está olhando. A posição que você adota lá em cima é a que você fica, porque quando começa não dá pra controlar mais nada. Eu fechei os olhos e só sentia minha respiração presa, meu corpo voando, a água por debaixo. Não tem como controlar ou segurar, então você fica tenso como se se segurasse em si mesmo. E na hora você pensa que, apesar de todos os outros saltos e todos os cálculos, o troço vai arrebentar com você lá em cima e você vai despencar piso abaixo, e nas manchetes no jornal… bem, até pensar nas manchetes o salto acabou. Tremendo como vara verde, com água no nariz e o biquini todo enfiado na bunda, eu sobrevivi. Cá estou.

Se tivesse uma camiseta “eu fui no Kamikase”, eu compraria.

* ter pés fofinhos de neném é um privilégio de pessoas que só andavam calçadas quando crianças.
** meu pai tem vários orgulhos, e todos eles meio esquisitos.

Síndrome Bellotti

Não entrarei em detalhes sobre o inspirador do nome, porque eu o conheço mais de fama. A Síndrome Bellotti é muito simples de ser compreendida e, de certa forma, muito comum.

Ela acontece principalmente em novos grupos. Todos desconhecidos, tímidos, sem saber direito como agir uns com os outros. Então, surge um sujeito que se destaca por sua extroversão. Espontâneo, falador, alegre, piadista, ele conquista a todos pela sua liderança natural. Enquanto todos estão retraídos, ele é aquele que fala o que precisa ser dito e representa seus amigos. Em pouco tempo, é o mais querido da turma.

O tempo passa. O convívio faz com que as pessoas se conheçam melhor, formem em pequenos grupos, descubram afinidades. Elas passam a gostar de uns do que outros. No entanto, todas têm uma coisa em comum: detestar aquele aquele sujeitinho, o portador da Síndrome Bellotti. Não que ele tenha mudado de atitude; aliás, esse é o problema da criatura. Todas aquelas atitudes que antes uniam as pessoas e mostravam uma liderança natural, agora mostram que, na realidade, ele é uma pessoa inconveniente, que não sabe a hora de ficar quieto, que quer atenção a todo custo, se acha melhor do que os outros… em resumo, é um mala sem alça.

Quando a coisa está num estágio avançado, as pessoas não o suportam mais. Mudam seus trajetos pra não terem que conversar com ele. Inventam desculpas. A voz, o jeito, as piadas… tudo que o sujeitinho faz passa a ser terrivelmente irritante. Daí para as pessoas combinarem seus compromissos em segredo pra não ter que convidá-lo é um pulo. Outra estratégia interessante é arranjar um motivo pra briga – então, cada um finge que está magoado/raivoso/aborrecido por causa disso e se livra desse aborrecimento.

{Estou numa situação assim. Será que se eu comprar um produto Natura e der o calote, a fulana pára de falar comigo???}