Independência

O que eu gosto em pegar ônibus é que me dá sensação de independência. Quem só anda de carro começa a achar tudo longe, quer sempre parar na porta. Esse pessoal não sabe onde ficam os pontos de ônibus, pra onde eles vão, qual o preço da passagem. Sem dizer que ficam medrosos, acham que o primeiro fedorento, bêbado, mal vestido e com cara de tarado que entra vai te atacar. Quem pega ônibus sempre acaba se acostumando com os tipos estranhos, somos camaleões no meio da multidão. Gosto de pensar que podem me deixar em qualquer lugar de Curitiba que eu consigo voltar pra casa. Demoraria, mas acabaria chegando.

Agora, e só agora, me tornei uma pessoa mais independente ainda. Aprendi a fazer sopa. Não a de pacote; estou fazendo daquelas caseiras e gostosas. Três, pra ser mais específica. Várias coisas cruas se juntam na água e se tornam comida, é mágico. Não preciso mais me enganar com barras de cereal, sanduíches, latinhas de atum, iogurte. E nem suplicar pra que o Luiz – ele sim um excelente cozinheiro – fazer algo pra mim. Não que eu não soubesse cozinhar; o problema é que minha comida é horrível. Daquelas que a gente prefere ficar com fome. Já estraguei receitas infalíveis e temperos milagrosos, quem provou sabe. Minha recém-adquirida capacidade de fazer uma comida de verdade e cosmestível (ou tomável) me encanta.

Mais independente do que isso, só se eu soubesse dirigir.

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Professoras de dança

Posso dizer sem exagero que tive aulas de ballet com as melhores professoras de Curitiba. Cheguei na primeira justamente por isso, porque no meio o trabalho da Cíntia é conhecido e respeitado por todos. Ela já foi primeira bailarina e hoje tem sua própria escola e grupo de contemporâneo. A família toda cuida da escola, e são todos fofos. A escola tem o diferencial de não dar aulas para crianças. Passei por outros professores dentro da mesma escola antes. Quando finalmente virei aluna da Cíntia, só sabia o básico. Fiquei intimidada e fascinada por aquela turma com bailarinos de diversos níveis e objetivos, porque até para os avançados era uma aula aproveitável. Tinha gente que dançou a vida inteira e parou, bailarinos na ativa, professores de ballet, loucos de pedra que simplesmente amavam o ballet como eu. Ela era capaz de explicar infinitas vezes o mesmo movimento, como se fosse a primeira vez. Dizia que levou anos pra adquirir a “generosidade necessária” pra dar aula para o básico. Sabe o que é admirar tanto uma pessoa a ponto de não saber o que falar quando ela está perto de você? Era assim que eu me sentia com a Cíntia.

Não gostei quando ela deixou de dar aula no meu horário e colocou a Nina no seu lugar, por mais que todos garantissem que era outra excelente professora. E era mesmo. Era uma bailarina carioca capaz de ficar no equilíbrio a qualquer momento, partindo de qualquer ponto. Ela fazia as transições mais difíceis com toda naturalidade. E como dançava! Vi o Quebra Nozes no balcão, não distinguia ninguém, mas quando a Nina entrou eu sabia que era ela, o palco ficou tomado. Não é à toa que esse foi o último grande espetáculo que ela dançou antes de ir pra Alemanha. Ela era ousada e nos cobrava ousadia o tempo todo – “Esse negócio de pé esticado vem com o tempo. O importante é aqui em cima, o que você consegue passar pro público”. Lembro de uma aula especialmente complicada, exaustiva, saímos pingando. Ela pediu uns saltos e umas sequencias que eu fiz do jeito que deu, ou seja, igual a uma galinha fugitiva. Na saída ela me falou – “Caminhantezinha (ela sempre me tratou no diminutivo, apesar de ser mais nova que eu), desculpe a aula puxada. É que só estavam vocês, que são roquenrou, e eu me entusiasmei”. Guardei esse elogio pra vida inteira.

Aí eu fui parar na escola da minha última professora de ballet, também dona de escola, conceituada e etc. Eu a conhecia desde a época da Cíntia, fizemos algumas aulas juntas e ela me deu algumas aulas. A escola da Professorona tinha uma estrutura profissional, com aulas diárias, ensaios, exercícios de solo, pilates, alongamento – tudo voltado para o ballet. Tinha outras duas alunas adultas, mas eu era a única que me dispunha a fazer tudo isso, que vivia no grupo. O clima era diferente – no lugar das aulas dançadas, correção dos movimentos; ao invés de conselhos, disciplina; a expressividade ficava jogada no canto, porque o importante era arrumar tudo antes. Ela gritava com aquelas crianças de um jeito que eu, com trinta anos na cara, teria voltado pra casa chorando. Minha técnica melhorou muito e rapidamente. Eu tentava ver na Professorona a pessoa legal que alguns diziam, mas comigo ela foi apenas correta. Levei as aulas dela e da Nina juntas o quanto pude, porque a primeira era obrigação e a segunda prazer. Era uma escola que visava formar bailarinos para o futuro, então tudo era muito sério, muito duro. Por necessidade, por contingência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora eu sou aluna da Cris. Não é mais ballet, mas ela também é dona da escola e dá aula para todas as idades. Ela formou praticamente sozinha sua companhia, que é conhecida e respeitada. Pra conseguir isso, ela nunca elevou a voz, é adorada pelas crianças, faz com que todos se sintam em casa. A Cris é uma das pessoas mais generosas que eu conheço. O que a Professorona consegue com terrorismo, a Cris consegue com amizade e afeto. É nas pequenas coisas que a gente mostra quem é; não era a necessidade que tornava a Professorona uma pessoa dura.

Pêlos na cara e autores no coração

Tenho dó quando vejo uma mulher com buço na rua. Tem várias coisas que as pessoas acham defeito e não acho que seja – acho o conceito de estar bem vestido relativo; assim como acho que estar acima do “peso ideal” pode significar apenas que a pessoa acha que uma vida de restrições alimentares não paga o preço. Mas quando vejo uma mulher de buço não consigo acreditar em nenhum ideologia, nenhuma escolha consciente por detrás. Ou será que existe um movimento feminista contra a depilação do rosto e eu não estou sabendo? Acho que elas só não tiram porque dói, porque tem que fazer sempre ou porque não conhecem um método bom. Uma coisa tão simples. Aí é aquele estrago: a gente reparando nas ruas, os homens olhando com mais nojo do que fígado mal passado.

***

O Charlles colocou um trecho do Said no blog dele e Said me faz lembrar de uma amiga minha, uma moçambicana. Ela era fã do Said, tinha todos os livros dele e ainda por cima o achava um tesão. É uma maldade que publiquem livros que não deixam a gente ver a cara dos autores. Quando eles nos agradam, queremos ver a cara e saber da vida deles, queremos saber como reagiriamos num hipotético encontro – se tomariamos chá ou vinho; se dariamos um abraço ou tudo o que eles pedissem. Quem não ficou apaixonadinha pelo fumante Camus, sussurrando crises existenciais em francês no nosso ouvido? Ou quem não se perguntou se sussurros em francês seriam o suficiente para tornar Sartre pegável? Só aceitei Bourdieu como pessoa-humana quando conheci a trajetória dele. Tanta genialidade numa pessoa só me incomodava. Com Elias nunca foi assim, foi uma simpatia imediata e protetora. Nunca me canso de ler o que ele escreve, de saber dele, de torcer por ele mesmo já morto. Quase chorei junto quando ele falou do último encontro com os pais, que se recusaram a fugir da Alemanha e morreram nos campos de concentração. Me identifico com os anos de trabalho sem reconhecimento e desejo intimamente uma velhice como a dele. E fico irritada quando o comparam (pra pior) com Bourdieu.

Quando comecei a me encantar com Foucault, me senti meio culpada. Gostei do lado soltinho dele nas entrevistas. Mas depois de tantos anos de amor e fidelidade ao Elias, será que… Aí lembrei que Foucault não é chegado e relaxei.

Nas oropa

Quando eu conheci o Luiz, ele havia viajado à Europa há alguns anos. Ele tinha vontade, estava solteiro e pagou um desses pacotes que a gente conhece 34368 cidades em um mês. Eu sabia de alguns causos: um casal em lua de mel que esqueceu a banheira ligada e inundou o quarto; uma caricatura feia e nada parecida que fizeram dele em Montmartre; da frustração em ter achado as francesas lindas e um francês ter ficado de olho nele no metrô; uns curitibanos que compraram várias barras de toblerone na Suíça, das filas quilometricas e insuportáveis do Vaticano, etc. Dessa viagem restaram lembranças, fotos, um par de luvas e dois belos casacos.

Um dia estavamos andando no Estação, quando um casal o avistou de longe. Depois das efusivas apresentações e cumprimentos, eles perguntaram:

– E então, Luiz, tem ido à Europa?

Ele respondeu que não, que tinha sido só aquela vez. Aí o casal começou a nos dar o relatório de suas últimas viagens, e completou com orgulho que eles estiveram em Paris na mudança do século. Perguntamos educadamente como foi e eles disseram que foi lindo, ótimo, maravilhoso. O problema é que eu sabia de duas pessoas que estiveram lá no reveillon e as elas foram unanimes em dizer que foi sem graça. Que estava todo mundo nas ruas, fizeram a contagem regressiva, quando o ano mudou todo mundo fez EEEE e depois foi pra casa dormir. Sem festa, sem gente interagindo, sem nada. O que me lembra outra história: uma conhecida que morou no interior da França contou que, para não deixar os reveillons passarem em branco, ela e o marido programavam o despertador, acordavam pra se felicitar e voltavam a dormir. Porque não tinha festa nenhuma, ninguém comemorava.

Depois de vazias promessas de “vamos manter contato” e “vamos viajar juntos de novo”, o papo terminou. Quando eles se afastaram, o Luiz quis contextualizar a conversa:

(Luiz) Esses daí são…
(Eu) … o Casal Toblerone.

Nem todo homem se conquista pelo estômago. Sorte minha.

Garota de programa

Elas estão por toda parte; aquelas das esquinas são apenas as mais pobres. Então não é surpresa nenhuma constatar que tem uma que frequenta algumas aulas na academia comigo. Uma garota de programa de nível universitário. Ela tenta disfarçar, mas todo mundo sabe sem precisar dizer. Como sabem nem vem ao caso, ela simplesmente dá pinta. A Garota não é má pessoa, sempre nos tratamos com muita gentileza. Se eu não fosse incapaz de ficar perto de pessoas de voz irritante, quem sabe até tivesse desenvolvido uma simpatia maior. Não sei se aquele tom anasalado de telemarketing foi algo que ela adotou por causa da profissão. O que sei é que todo resto é, claramente, feito para agradar: cabelão liso e preto, seios durinhos, barriga lipoaspirada, bundinha empinada. Toda pequena e cheia de curvas, é a única mulher que eu conheço que consegue usar roupa colada branca sem parecer uma beluga.

Podem me chamar de invejosa, mas ela não é um mulherão. Está tudo tão perfeito e correto que falta sal. Uma mulher que coloca um anúncio pra fazer sexo por dinheiro deve ter tudo no lugar, nada deve sobrar ou faltar. Já disse que ela não é prostituta de esquina. Ela não tem gordura onde a mulher deve ser magra e é redondinha onde deve ser redonda. No seu corpo, ela representa tudo o que a moda diz que devemos ser, tudo o que o homem médio acha bonito. Ser meio nariguda, usar roupas de brechó, adotar um visual dark, pintar o cabelo de laranja, cultivar uma sombrancelha peluda, enfim, ter uma marca pessoal polêmica é um privilégio que ela não pode se dar.

Será que existe prostituta de cabelo curto?

Poderes

O que não falta na minha família é gente que se acha phoda, e quando meu irmão André sofreu acidente começou o festival de contatos. Começaram a importunar todos os amigos, conhecidos ou ex-colegas que eram sobrinhos ou amantes de alguém, que era médico e que podia fazer alguma coisa pelo meu irmão no hospital. Todo mundo muito importante, só na carteirada. Como resultado, na primeira vez que fiquei frente à frente com o médico do André, o cara me deu bronca e me disse que eu poderia levar meu irmão pra outra UTI se quisesse. Depois dessa bronca recebi muitas outras, dele e dos outros médicos; pedi desculpas tantas vezes por coisas que ignorava que eles acabaram percebendo que eu não estava compactuando com aquilo. Os colegas de faculdade do André também tentaram ajudar, falando com uma colega cujo pai trabalhava no mesmo hospital, acho que na pediatria. Como resultado, esse gentil homem veio com outra médica, me trouxe até o corredor e disse num volume muito alto que ele não tinha nada a ver com outros setores e que não interferiria no trabalho dos seus colegas. E eu mais uma vez fui obrigada a pedir desculpas.

De todas as influências, a única coisa que realmente ajudou foi o apelo que minha mãe fez à moça que cuidava dos internamentos. Pelo nosso plano de saúde, meu irmão tinha direito a um quarto na enfermaria. Nas enfermarias, havia apenas uma poltrona para o acompanhante se sentar. Meu irmão não tinha consciência, não dormia, se debatia e precisava ser contido o tempo todo. Essa mulher ficou sensibilizada e nos colocou num quarto que constava como enfermaria no sistema, mas que na prática tinha apenas um leito e um sofá de três lugares bem confortável.

Sinceridade combo

Como quem anuncia uma grande vantagem, há pessoas que se vangloriam de serem sinceras ao extremo. Do tipo que quando se aborrece com alguma coisa fala mesmo, na cara. E depois a amizade volta a ser a mesma de sempre, porque as coisas ficaram claras. Isso é anunciado como clareza e transparência, o melhor amigo que se pode ter. Minha vasta experiência no assunto me diz o seguinte: pessoas assim são grossas e infantis. O resto é desculpa.

É muito cômodo adotar um discurso de sinceridade absoluta pra se dar ao direito de dizer o que quiser e como quiser. Existem muitas maneiras de deixar as coisas claras, de mostrar que alguma atitude incomodou – nenhuma delas envolve revelar segredos, desqualificar preferências, expor a pessoa em público ou simplesmente ofender. Quando há necessidade de “dizer umas verdades”, é sinal de que a amizade já não é mais a mesma. Porque quando estamos bem, não temos vontade de dizer verdade alguma; damos um toque, esclarecemos, conversamos. Nada além do assunto em questão, sem a menor necessidade de “jogar na cara” o que nem nos diz respeito. E, dependendo do problema, sempre existe sempre a possibilidade de não tocar no assunto. Nossos amigos são diferentes de nós, não agem o tempo todo como gostaríamos. Pessoas são assim, algumas valem o preço.

Claro que depois de falar tudo a pessoa quer ser amiginha de novo. Ela já colocou todo seu lixo pra fora, está aliviada. O problema de lidar com todas aquelas besteiras e agressão gratuita já não é mais dela…

Caminhante Diurno, o livro

Muitos (dois) leitores têm me pedido pra eu publicar o Caminhante em forma de livro. Um dia resolvi sentar no computador e fiz uma seleção de textos, e quando cheguei no texto Na rua, decidi que já tinha um bom material. Minha intenção era a seguinte: colocar o livro à disposição de quem quisesse comprar. Ou seja, não estava disposta a investir numa edição porque sei que não há demanda. Comecei então a pesquisar sites que se propõem a publicar dessa maneira.

O primeiro site que eu pesquisei foi o Bookess, que inclusive é seguidor deste blog. Até para ter idéia de quando cobraria pelo meu livro, dei uma boa navegada pelo site. Percebi que o forte deles é a publicação virtual. As pessoas estão sempre de olho nas novidades, comentam e estimulam os autores que gostam, funcionam mesmo como uma grande comunidade. Talvez justamente por não terem a pretensão de imprimir, achei muitos autores pouco cuidadosos com o que publicam. Livros que ainda existem apenas na intenção, erros de português, falta de cuidado com a formatação e coisas afins. Já o perfil das pessoas do Clube dos Autores é mais caprichoso, porque há uma preocupação com o livro impresso. Li uma crítica na net falando mal da impressão; já o Alessandro me garantiu que gostou muito do livro que ele fez para a namorada. Por isso, optei pelo Clube dos Autores. Uma vez escolhido o site, o problema se torna o livro em si.

Minha intenção era ganhar um valor simbólico pelos direitos autorais. Gostaria muito que meus leitores pagassem 10 reais pelo livro. É claro que era uma coisa ideal e sem noção. Quando comecei as etapas, o número de páginas que eu pretendia publicar gerou um valor de custo de quase 40 reais. Eram 96 textos. Comecei a limar o arquivo loucamente, sempre tentando baratear: diminuí fonte, alterei margem, coloquei espaços reduzidos. E comecei a cortar: textos de temas repetidos, histórias apenas engraçadinhas, coisas muito auto-biográficas, coisas que geraram polêmicas, assuntos que não domino… O livro mudou de tom, tirei textos à exaustão, coisas boas ficaram de lado e sobraram 40 e poucas histórias. Menos do que isso, nem valeria a pena publicar.

Sobre o preço: consegui, com 46 páginas um preço de custo de 20 reais. Juro que eu queria colocar 0,50 de lucro. Mais aí tem outro problema: o site paga os autores a cada 100 reais. Ou seja, eu precisaria vender 200 livros pra receber alguma coisa. Teria que vender mais livros como Caminhante do que a minha dissertação, que virou um livro lindão pela editora da UFPR. Entendo que é a forma do site lucrar, mas a idéia de fazer tanta caridade não me agradava. Pra não ficar tão caro e ter alguma esperança, lucrarei 5 reais. Mesmo assim, estou certa de que não verei a cor desse dinheiro. É a vida. Valeu pela experiência e pode ser que alguém compre.

Bem, aí está o link do livro do blog: Prazo Expirado. Tem link permanente na sessão Quem?

Porque hoje é sábado

Pra quem não conhece, Porque Hoje é Sábado é a sessão das muié pelada (como eu carinhosamente chamo) lá no blog do Milton. Ele escolhe uma ou várias beldades e, alternando texto e imagem, explica a seus leitores o porquê da sua admiração. Por isso, quando ele me convidou para escrever um Porque Hoje é Sábado estranhei (“não, Milton, obrigada, não quero aparecer no teu site com pouca roupa”), porque como mulher não me sinto à vontade para escolher fotos sensuais e exaltar a beleza de outra. Pedi ajuda, pedi pra que ele me indicasse uma gostosa, que me oferecesse alguma luz. Ele não me deu nenhuma, disse que queria justamente um ponto de vista feminino. Deu no que deu: um texto que fala sobre os meus próprios sentimentos com relação ao Porque Hoje é Sábado, à beleza das celebridades e o que afinal é belo e desejável. Acho que os leitores habituais sentirão falta de alguns mamilos. Passem lá e #vejão.

Ibéria, de Carlos Saura

Não faz sentido, mas eu adoro dançar e não gosto de filmes de dança. O problema é que geralmente eles são romanticos e não gosto de filmes água-com-açúcar. Talvez justamente por isso eu tenha gostando tanto de Ibéria (veja o trailer, fantástico), porque ele não tem história e nem pretende ter. É como assistir os bastidores de uma grande apresentação. Os figurinos, as coreografias, as músicas e tudo mais que você imaginar são lindos. Cada coreografia representa uma região e uma tradição diferente. Tem de tudo um pouco: influência moura (“Córdoba”), ballet, dança de salão, dança contemporânea (“El Abaícin”, um solo com plástico), dança de rua. Em algumas, o flamenco nem é reconhecível.

Uma das minhas coreografias favoritas foi Asturias, tem de tudo um pouco: solos, braços, sapateados, palmas, coreografia vibrante e variada.

Eu gostei dos videos mais claramente flamencos. Se você gosta dos sapateados, eu recomendo assistir o solo El Albaícin (tem o mesmo nome do contemporâneo) da mesma bailaora destaque do Astúrias, a Sara Baras. Aragón tem solo masculino, castanhola transparente e uma mulher com um rosto que, nossa! A última coreografia, Sevilla, me levou às lágrimas por trazer tanta alegria e tradição, colocando o flamenco como símbolo de algo maior, que une as pessoas.

Na rua

É difícil explicar como chegamos a isso. Eu sempre gostei de exercícios, mas tudo in door: na academia, com música ambiente, TV à cabo, professor estimulando. Tudo muito organizado, ambiente regulável e hora marcada. Ele, sedentário convicto. Magro de ruim na adolescência, com o tempo engordou e ficou normal. Do tipo que quando tem vontade de se exercitar deita e espera passar. Ao longo dos anos, eu descobri que sinto falta da serotonina se fico parada todos os dias de um feriado; ele se envolveu numa defesa pessoal e precisa da corrida pra mudar de faixa. E assim o que nos parecia loucura virou uma opção: correr na rua exclusiva do ônibus, em pleno feriadão.

Nós saímos à pé de casa. As ruas vazias, o céu rosado. Um vento gelado agitou as árvores e eu senti frio. Caminhavamos em silêncio, de mãos dadas. Alisei de leve os dedos dele e meu coração se encheu de paz. É difícil explicar como chegamos, mas eu fico feliz que tenhamos chegado juntos.

Pedreiro-estrela

Pedreiro é igual psicólogo: ou ninguém quer porque não confia, ou é tão bom que não tem espaço na agenda. Porque poucos tem coragem de fazer como um amigo meu, que quando precisava de alguém perguntava pro mestre de obras da construção mais perto. Eles entram nas nossas casas, fazem parte (e atrapalham) nossas rotinas, não dá pra confiar em qualquer um. Isso sem falar que um serviço mal feito custa o dobro. Todos esses fatores fazem com que a gente se submeta a pedreiros que são verdadeiras estrelas pop: aparecem quando querem, pegam o serviço que estão a fim, dão os canos, somem e mesmo assim fazemos todas as suas vontades para não perdê-los.

Pra quem precisa de uma reforma pequena como é o meu caso, fica ainda pior. Porque eles não gostam de pegar serviços assim, baratinhos e de um dia ou dois. Os que olharam o que a gente quer foram unanimes em dizer que é coisa simples; e foram unanimes em desaparecer depois. Até propus uma outra quebradeira, no banheiro, pra ver se ficamos mais interessantes. O último que veio aqui em casa – com a mulher, de chapéu de vaqueiro e F1000 cabine dupla – ficou de nos mandar o orçamento por e-mail, coisa chique. Isso já faz mais de duas semanas, apesar dos nossos lembretes. É que ele está ocupado demais com outro serviço, esse sim grande e complexo. Agora nos resta esperar outro, igualmente estrela, arranjar espaço na agenda para nos dar o prazer de sua visita.

Explicações

Mulher é craque nisso: quer relatórios, quer saber de tudo, não admite nenhum silêncio. Quando se encontra com alguma omissão, não deixa pedra sobre pedra até ter tudo esclarecido. Algumas vezes por insegurança, mas na maioria das vezes é pura vaidade. Como se ignorar algum assunto fosse sinal de que ela não é a mais importante, a mais íntima, a mais amada. Porque ela considera seu direito saber tudo o que se passa – como chefe, como amiga, como mãe, como namorada, como ser humano.

Forçar uma confissão às vezes é tirar à força uma informação que chegaria de qualquer forma. Pessoas têm fraquezas, limitações, precisam de um tempo. Omitir algumas coisas pode ser apenas uma maneira de se preservar, manter um pouco de dignidade. Pode não ser traição, desamor, esquecimento, indiferença, desrespeito…. Nada tão digno e emocional – pode ser pura falta de dinheiro.

O baile

Eu já conhecia o pessoal da dança de salão muito antes de começar a fazer aulas. Eu era a amiga inseparável de uma professora da dança, então fazia vezes de auxiliar, assistia aulas grátis, dançava com todo mundo. Gostava de olhar as pessoas dançarem, me divertia dançando. Eu era uma “dama leve”; quando alguém muito bom me tirava pra dançar, voavamos pela pista. Aprendi milhares de vezes os mesmos passos, dos simples aos avançados, porque aprendia rápido e desaprendia tudo no baile seguinte. O fato de não ter partner fazia toda diferença.

Na dança de salão, ao contrário do ballet e outras danças, os pares fixos costumam dormir juntos ou um dia dormirão juntos. Por causa disso eu nunca dançava muito tempo com alguém. Comentei esse fato com um colega de flamenco que dança tango e ele me respondeu “Claro, você quer o quê? Se eu dançar com você uma vez ou outra vá lá; mas se a gente dançar sempre juntos vai começar a pintar um clima e eu vou querer algo mais”. Os dançarinos que eu conheci nunca me despertavam interesse. Eu tinha a impressão (me desculpem os da dança de salão aqui, mas é a vivência que eu tive) que os homens só se propunham a fazer dança de salão como o último recurso: estavam dançando porque não conseguiam pegar alguém pela aparência, pelo dinheiro e nem pelo papo.

Finalmente comecei a fazer aula e lá conheci um rapaz razoável. Morava longe e estava terminando a faculdade, mas era o único dançarino que sabia falar algo além de “e os namorados como vão?” (eu respondia com doçura “estão todos bem, com saúde” e eles não sabiam como reagir) Esse negócio de “escolher” se interessar por alguém nunca dá certo, não adianta. M. era mais novo do que eu e tinha cabelo encaracolado preso num rabo de cavalo que não ornava; das outras característas eu gostava: pouca coisa mais alto do que eu, magrinho e tímido. Eu decidi que valia a pena e comecei a dar em cima dele, que correspondeu. Na turma começou o clima de “a Caminhante e o M. vão acabar namorando”. A professora convidou a turma pra um baile e aquela seria a nossa oportunidade.

Bailes de dança de salão não são como baladas, noturnas e alcóolicas. O pessoal bebe pra matar a sede, porque o negócio é dançar. Geralmente os bailes começam cedo, lá pelas 20h; já fui num que começava às 16h. Toca uma música, toca duas, o par mais corajoso inaugura a pista. Pouco tempo depois já está todo mundo dançando. Eu sabia como funcionava e cheguei cedo. Ele também. Sentei na mesma mesa que M., deixei minha bolsa, ele estendeu a mão e me tirou pra dançar.

Estava tudo nos conformes: nós dois arrumados e conversando trivialidades. Ele puxava minha cintura um pouco mais do que o necessário e conversava comigo aproximando o rosto mais do que o normal. Eu deixava, cumprindo bem o meu papel de gazela a ser abatida. A pista começou a encher. Rostos conhecidos começaram a surgir. Pessoas de todas as idades, damas e cavalheiros de turmas mais adiantadas, grandes dançarinos, professores. Até meu par preferido estava lá, um que não era bem visto por fazer coisas malucas e misturar estilos. As pessoas começaram a fazer passos mais complexos, e eu voltei a me lembrar deles. Só então me dei conta de que M. era uma pessoa muito legal, mas um dançarino medíocre. Era daquelas pessoas que aprendem depois de muita persistência e não tem gingado natural. Além do mais, ele não arriscava nenhum passo diferente. Comecei a me aborrecer.

Na segunda música o aborrecimento virou desespero. As pessoas rodopiavam pela pista enquanto meu parceiro ficava apenas no dois-dois. Era como se eu estivesse olhando o baile através de um vidro. A vida acontecendo lá fora enquanto eu tinha esperar as lentas aproximações de M. Me tornei uma gazela entediada. Aquela mãozinha na minha cintura não sabia se ia ou se ficava. Estava farta de emitir tantos sinais, estava farta daquela inexperiência. “Por isso que eu sempre gostei de homens mais velhos, eles resolvem essas coisas de uma vez!”. Percebi que ele levaria a noite toda pra arriscar um beijo. Um beijo que provavelmente nem seria bom. Eu já nem sabia porque tinha decidido namorar com ele, alguém com um rabo de cavalo tão feio. Pensei no futuro, num futuro bem próximo: se eu ficasse com ele, naquela noite, não dançaria com mais ninguém. Estaria condenada a ficar só no passo básico.

Quando a terceira música começou, eu pedi para ir ao banheiro. Quando saí do banheiro, fui direto pedir pro dançarino maluco dançar comigo. Depois que ele parou de dançar comigo, eu dancei com outro. E com outro, com outro, com outro, de novo com o maluco e com outro… Dancei a noite inteira, com todo mundo. Parei de dançar apenas às 3h da manhã, quando mal suportava ficar de pé. Só neste momento eu voltei a encontrar M., que estava na mesa com outras pessoas. Ele estava puto.

(Dica do @the_windblow)

A ironia disso tudo é que poucas semanas depois eu conheci o Luiz, que dança tão mal quanto.