O circo

Uma amiga minha não suporta a cunhada, que trabalha numa joalheria e se comporta como se dona fosse. Quando o Cirque du Soleil veio para Curitiba, essa minha amiga foi uma das que comprou um lugares excelentes, de quatrocentos reais cada. Diz ela que todas as suas alunas peruas iam, e que alguém com o perfil dela – forte ligação com a dança, profissional qualificada – não pode se furtar a certos eventos. Chegou na reunião de família confiante.

(cunhada para casal) Vocês vão na apresentação do Circo de Soleil?
(amiga) Claro, já compramos os ingressos. Sentaremos no meio, bem colados no palco.
(cunhada) Eu também sentarei no meio. Mas eu vou na estréia.

Minha amiga ficou morrendo de ódio, sem resposta. A minha teria sido algo como:

É mesmo? E quantas horas você ficou na fila pra isso?

Mas ela não podia responder isso porque também ficou horas na fila. Porque também acha assistir a estréia mais mais do que assistir depois. Porque também acha que quando o Circo de Soleil vem pro Brasil…

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Viver ou calar

Existem certas experiências que quem não passou por elas pode ter apenas uma vaga idéia de como é. E essa idéia é tão vaga que geralmente ela se apoia no senso comum, em coisas ditas pela família e é muito fácil de estarem erradas. Tem coisas que a gente vive e não tem, no momento, dimensão do quanto aquilo mudará nossa percepção das coisas. Outras coisas nos impactam e sabemos que nada mais será como antes. Dessas experiências iniciáticas posso citar aqui sexo, morte, o primeiro emprego, sair da casa dos pais, casamento, separação, ter filhos, viver em outro país, etc.

Um dia uma amiga casada estava se queixando do marido, e outra se meteu na conversa com um monte de frases do senso comum, coisas como: “se você não sente aquela paixão ao lado dele, o melhor é separar e buscar seu verdadeiro amor”. A resposta da outra veio rápida:

-Você é casada, já foi casada?
– (sem graça) Não.
– Então você não sabe como é. Não sabe o que é viver anos ao lado de uma pessoa. Acordar ao lado dela, ver de cara amassada, ver a pessoa fazer xixi, cocô, peidar, de mau humor, de bom humor, em todas as situações que você imaginar. Não tem como manter magia de casamento o dia inteiro ao lado de uma pessoa, ninguém é principe encantado depois disso tudo. (e por aí foi)

Eu acho importante reconhecer que certas experiências são definitivas, porque diante delas devemos ter respeito. Não tenho filhos e nem vontade de tê-los; algumas vezes, crianças são irritantes e mal criadas. Mas nunca, jamais, me sinto no direito de dizer a pais e dizer como eles deveriam criar os filhos deles. Porque eu não sei como é. Não sei como é educar, como fazer para dar atenção na medida certa, como é difícil colocar limites. Não sei se eu seria capaz de colocar limites. Então, não me sinto apta a dar palpite nesse assunto. Se alguma criança me incomoda, só posso tentar sair dali; se algum pai está com problemas, só posso ouvir e oferecer minha empatia.

Acho que pra grandes experiências desconhecidas, o melhor é calar. Nada mais antipático (e insensível) do que quem acha que tem resposta pra tudo. Ainda mais quando a pessoa saiu ontem da adolescência. Vejo que existe hoje um desrespeito generalizado; comentei num blog esses tempos (não lembro qual) em que o blogueiro dizia que ninguém merece respeito só por ser mais velho. Eu disse que discordava, que os mais velhos merecem respeito sim. Sempre parto do pressuposto de que o mais velho sabe mais do que eu. Não adianta ler muito ou ser inteligente; existe um tipo de sabedoria que só chega com os anos.

Decoração

Pra decorar uma casa não bastam planejamento e bom gosto, como as revistas de decoração nos fazem crer. Assim que casei, fiz uma assinatura de Casa Claudia e anotava com carinho todas as dicas. Achava que, mês a mês, seria capaz de acrescentar algo à minha casa, e no final de um ano ou dois, ela estaria maravilhosa. Não é, de jeito nenhum, assim que funciona. Primeiro porque aquele ambiente super clean que aparece na revista só funciona com cadeiras exclusivas e importadas que custam quatro mil reais cada, acompanhadas de um papel de parede de trezentos reais por rolo. E não, não fica a mesma coisa com cadeira das Casas Bahia e tinta Suvinil. Depois porque cada mês surge uma coisa, coisas antigas estragam e nos impedem de comprar novas e por aí vai.

Na prática a gente vive quase dez anos num lugar e ele ainda não está completo. Em alguns ambientes, faltam quadros, noutros faltam estantes; em uns faltam apenas sofás, mesa, cadeiras, quadros, lustres, espelho, aparador e mais de dez itens à escolha. Se de um lado dá uma certa inveja de quem pode gastar uma fortuna e já se mudar pra um lugar lindo e decorado, por outro decorar devagar faz com que cada canto da casa tenha uma história: o dia em que pintamos aquela parede, o achado que foi aquela mesinha, a pechincha que foi aquele móvel… Ao longo dos anos, vários projetos foram idealizados e abandonados, porque a vida nos leva a mudar de prioridades – e de casa.

O escritor e a blogueira

Durante uma época, eu assinei os feeds e tinha na minha lista de blogs o blog de um escritor famoso. Era um blog recente e todos os comentários eram moderados pelo próprio. Digamos que a cada três comentários ele acabava respondendo um, nem que fosse pra mandar um abraço. Um dia ele publicou um texto que eu achei lindo de morrer; era um texto que falava de como ele, um homem, cresceu convivendo e admirando as mulheres. O texto vinha acompanhado de fotos de infância e era bastante auto-biográfico. Comentei o texto, elogiei, e pedi modestamente autorização para publicá-lo no meu blog – coisa que nunca faço – com os devidos créditos. Voltei no blog e meu comentário havia sido moderado, mas ele não respondeu uma linha sequer. Comentei a postagem seguinte e completei dizendo que eu era aquela que tinha pedido autorização pra publicar o texto anterior, e que tinha entendido o silêncio dele como um não. Novamente, meu comentário foi moderado e ele não se dignou a me dizer nada… Me aborreci com a atitude, tirei o blog da minha lista e nunca mais apareci por lá.

Conto isso porque percebo que os blogs (e meios virtuais em geral) oferecem uma relação diferente com o leitor. Um escritor tradicional recebe feedback das críticas especializadas, do número de edições, dos comentários de amigos. Pra um leitor se dispor a escrever para o autor, ele precisava estar realmente muito motivado – pro bem ou pro mal. Nesse aspecto, é mais fácil ser escritor do que blogueiro, porque as repercursões de um livro são mais lentas e distantes. Aqui, tudo é tão rápido que às vezes a pessoa que te mandou um comentário nem leu direito o que você escreveu. Assim como a gente, blogueiro, chega a se irritar com algo que na verdade nem era ofensivo, apenas diferente do que esperávamos. Sem falar das pessoas que se aproveitam do anonimato para liberarem seu lado mal educado…

Nessas alturas, o Escritor Famoso já deve ter descoberto que é comum um blogueiro citar o outro; e daí que ele ganhou um prêmio Jabuti e eu estou desempregada? Essas coisas não entram em questão aqui. Deve ter descoberto também que na verdade eu fui muito gentil, porque pedir permissão nem seria necessário; citar alguém é aumentar o prestígio e o número de visitas de um blog. Muita gente que age de má fé e se apropria dos textos sem citar a fonte; o que eu nem poderia fazer, porque era um texto do ponto de vista masculino. Ou seja, espero que ele já tenha aprendido a ser blogueiro, e não apenas um escritor famoso que tem um blog.

As dores II

Justiça seja feita: é muito mais fácil conviver com quem não assume suas dores do que com quem vive em função delas. Como os traumatizados profissionais. São aquelas pessoas que vivem o(s) trauma(s) de sua vida como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo que o acontecimento seja de 50 anos atrás. Quando um desses, meio à queima roupa, te conta o que lhe aconteceu, você se sente surpreso e até mesmo lisongeado pela confiança. Dá a ele seu tempo, solidariedade e atenção. Fala um pouco de si para mostrar que lições você aprendeu e que podem ser úteis. Quanto mais atenção você der, mais raiva e sensação de ter sido enganado você tem depois. Com o tempo você descobre que aquela dor não é segredo e sim um cartão de visitas. Repetindo sempre a mesma história, as queixas são usadas para justificar qualquer besteira, em qualquer área da vida. O traumatizado profissional não precisa de conselho porque ele nunca quis mudar. Ser traumatizado é seu modo de viver.

O problema para essas pessoas (e alívio para as que as cercam) é que qualquer história – por mais dramática e dolorosa que seja – some de nossas mentes assim que dobramos a esquina. Os problemas alheios têm um poder muito pequeno de mobilização. A vida tem uma característica que é sua benção e maldição: as experiências são incompartilháveis. Ninguém jamais saberá o que vivemos, ninguém sentirá na pele o que nós passamos. Toda descrição será apenas uma idéia aproximada. Não é possível comparar as dores, nem ao menos quando elas são parecidas. Cada um tem sua própria história – única, irrepetível. E quem não consegue fazer da própria vida uma experiência interessante a perde sozinho.

Ainda sobre inverno

Luiz: Sabe aquele lojinha de costura do shopping? Será que eles dariam jeito em blusa de lã?
Eu: Em lã?
Luiz: É, uns blusões de lã que eu tenho.
Eu: Não, lã não tem jeito, não tem como cortar. O que você queria?
Luiz: Eu queria diminuir a manga, porque está comprido, fica sujando…
Eu: Você queria que eles recosturassem a manga? Não dá.
Luiz: Sei lá, de repente eles poderiam dobrar pra dentro e colocar um elástico pra mim.

A gente não quer ser vista como Amélia mas também se ofende com certas coisas.

Escrita cursiva

Será que a escrita cursiva vai morrer? Eu espero que não. Olhe que eu tive muitos problemas com a minha letra.

Primeiro porque sou destra e escrevo igual canhoto, ou seja, com a mão virada para dentro. Meu irmão mais velho é canhoto e acho que aprendi com ele o jeito de segurar a caneta e nunca mais consegui desaprender. Isso me torna incapaz de escrever com canetas tinteiro ou com qualquer caneta com a tinta muito molhada, porque eu borro a folha e a minha mão.

Passei anos fazendo o formato das letras todos errados, como um alfabeto estranho. Eu era a única menina da sexta série com letra feia, e os professores viviam me mandando fazer cadernos de caligrafia. Um dia eu me enfezei e passei a escrever com letra de fôrma. Não apenas não resolveu como as queixas até aumentaram. Hoje releio algumas coisas daquela época e vejo que era mesmo difícil de ler aquelas letras todas em caixa alta.

Aí mudei novamente de letra, para letras de fôrma com maiúsculas e minúsculas, imitando esta letra datilografada que você está lendo agora. Minha letra cursiva original ficava restrita ao meu diário (servia bem ao propósito de mantê-lo secreto) e assinatura, a super de fôrma para partes em destaque do texto e a nova de fôrma para os cadernos. Sim, eu tinha/tenho três letras – ou quatro, se contar a letra que eu uso pra escrever em copos de plástico (!). Com o tempo a nova de fôrma foi ficando cursiva e abandonei as duas outras maneiras de escrever. Mudei a assinatura dos documentos quando casei. A excessão é o meu título de eleitor, que continua com a cursiva (e o sobrenome) original.

Hoje dizem que a minha letra é bonita. Eu ouço e duvido, trauma de tantos anos. Com excessão do Luiz, que a considera meio ilegível porque meu G minúsculo parece minha Ç. Grafólogos se divertem muito com ela, é uma letra diferente. Escrevo à mão sempre, porque é minha maneira de estudar. Ah, e eu ainda tenho diário. Se depender de mim, a letra cursiva não morrerá.

Deixo aqui algo que escrevi há poucos dias, para matar a curiosidade de vocês (e fazer uma certa propaganda do que estou lendo):

(Seria legal se outros blogueiros colocassem suas letras também, como num meme. Eu tenho curiosidade em conhecer a letra de vocês…)

As dores

Eu fico assustada com pessoas que acabaram de passar por um momento muito difícil – separação, morte, destruição dos sonhos – e estão por aí, badalando. Depois a pessoa te conta, reservadamente, que está tomando anti-depressivos e que ficar em casa é uma tortura. A fuga se dá pela felicidade constante, pela necessidade de estar acompanhada e tomar remédios de tarja preta. Com o tempo, a pessoa vai tirando a medicação (ou não…). O objetivo é olhar para trás e não ter tido um único prejuízo na época difícil – ele deve ser tão alegre e produtivo quanto qualquer outro. O mercado de trabalho, de amigos e de namoros não perdoa quem fica mais de uma semana triste; é preciso rejuvenescer, socializar, levantar.

Penso nas gerações anteriores, nas Anas Terra da minha família e na dos outros. Pessoas que tiveram perdas muito grandes e nunca apelaram para remédios, que nem existiam antes. Elas nunca chegaram perto de se matar; nunca receberam o dignóstico de depressão – o que não quer dizer que elas nunca tenham ficado tristes. Os lutos eram simbolizados por suas roupas pretas e duravam anos. Era até feio freqüentar eventos sociais nos primeiros meses. Assim como um bom bordado, nenhuma dor era encerrada em poucos dias. Tenho certeza que a fibra das nossas mães e avós tem a ver com tempo e com aceitação do sofrimento.

Torcedores e fãs

Sou incapaz de torcer. Já tentei sinceramente torcer pra times de futebol e não consigo. Dá muito trabalho. Como se não bastasse acompanhar o time da gente, tem que torcer contra o adversário clássico, acompanhar todo campeonato pra saber a colocação dos outros e torcer contra todos os que estão na frente. Horas e horas na frente da TV pra ver os jogos e programas esportivos; discussões estressantes sobre o desempenho de jogadores, esquemas táticos, arbitragem. Não tenho empenho pra tudo isso. Violência contra torcidas rivais é de uma irracionalidade sem tamanho: são todos times, quer que nenhum outro time exista?Na Copa, já tentei torcer para o Brasil (e contra o Brasil). Hoje, torço pra ele ir bem longe porque gosto do clima festivo da cidade. Mas quando perdemos, meu humor não se altera em nada.

Na mesma linha, sou incapaz de ser fã. O mais próximo que cheguei disso foi com o New Kids on the Block – eu comprei um disco, tinha um album e consumia o que meu curto dinheirinho me permitia sobre eles. Quando o John e os outros saíram da mídia, os esqueci. Mesmo naquela época, não seria capaz de dormir na frente de hotel ou não querer lavar o braço por causa de autógrafo. Tatuagem, nem pensar! Admiro algumas pessoas por coisas bem feitas nas suas profissões, mas nunca a ponto de a considerar diferente de mim ou de qualquer outro ser humano. Na época do show da Madonna, quis matar quase todos os meus amigos, que agiam como se uma deusa estivesse vindo pra cá. De maneira semelhante, não conseguiria achar bom que alguém fosse meu fã. Não consigo levar à sério, acho que ninguém deve ser idealizado dessa maneira. Considero fã a exarcebação daquela frase (da qual eu discordo) sobre responsabilidade e cativação, do Saint-Exupéry.

Coração de pedra, vocês diriam. Unido ao fato de que gosto de música erudita, poderia ser vilã de filme B. O problema é que também não me dou ao trabalho de odiar alguém…

Di grátis

Uma única vez eu comprei café solúvel, pra uma receita. Acabei não fazendo e o café estragou no armário, fechado. Não temos filtro nem nada, porque não temos o hábito de tomar café. Minha cafeína vem toda do matte leão. Por isso, vocês imaginam o desgosto do Luiz quando eu me aproximo das demonstradoras da Dolce Gusto fingindo que nunca vi na vida e quero provar um cafezinho. Perdi as contas de quantas vezes fiz isso. Provei também da concorrente, a Nespresso. Enquanto da Dolce Gusto sempre deram o mesmo café forte, no da Nespresso eu escolhi o com toque floral e gostei mais. O chato é que tive ficar um tempão lá até a moça me oferecer o café. Eu estava de macacão e tênis e ela quase irredutível.

Mas não pensem que sou do tipo que fila qualquer amostra grátis, porque eu tenho minha dignidade. Nunca enfrento filas. Sempre finjo que estou passando por ali por acaso – nem que pra isso eu tenha que dar uma volta enorme por detrás da demostradora. Por isso nunca comi pipoca na Leroy Merlin, onde as pessoas esperam a pipoca ainda estourando na panela; prefiro sempre a pipoca do Balarotti, distribuida tão generosamente que a gente pega na entrada e na saída. Tem até pacote individual com salzinho.

O Luiz não pode se dizer surpreendido. Quando começamos a namorar, levei-o nos hare-krishna pra comer comida indiana de graça comigo. Foi um hábito que adquiri na faculdade, no tempo em que nem havia restaurante de comida indiana em Curitiba (e nem faria diferença, naquela época de vacas famintas). Sempre tive simpatia pelos hare-krishna e sempre me sentia bem nos rituais. Mas a prasada*, hum! Foi a única comida que me fez despertar com desejo de madrugada, como quem acorda ardente depois de um sonho erótico. Só não batia ponto lá porque não queria ser convertida. Conhecia as pessoas de vista, vi diferentes rituais, fui atrás deles nas várias mudanças de endereço. Aí veio o casamento e o Luiz preferiu trocar comida por dinheiro e não por ritual. Não sei se é o lance espiritual ou o quê – o fato é que nunca senti pela comida dos restaurantes a mesma emoção que sentia ao comer uma prasada…

Sabiam que o quiosque de Pretzels do Shopping Barigüi fechou? Uma perda irreparável para os gourmets de amostras…


* prasada: alimento oferecido de forma ritualística a Krishna. Mais informações aqui e aqui.

Tigre amigo

Uma vez vi uma reportagem no Globo Reporter de um cara que tinha um tigre de estimação. Mostrava ele brincando com o tigre – sempre com uma vareta pontuda na mão, pra mostrar quem é que mandava se fosse preciso. O sujeito contou pra reportagem que precisava bater ponto: independente do estado de ânimo dele, era preciso brincar com o tigre todos os dias, pelo menos duas horas por dia. Porque sendo um animal selvagem, se ele falhasse um único dia, era possível que o tigre não o reconhecesse mais e o atacasse.
Tem muita gente com amigo tigre por aí e nem tá sabendo.
(isso sem falar que os tigres são muito vingativos)

Anti-social

Fui assistir o espetáculo da Talegona sozinha. O Luiz não é fã de espetáculos de dança e eu não tento mais fazê-lo gostar. Ele só vai quando eu estou no palco; nos outros, prefere ficar em casa. Não me dei ao trabalho de procurar companhia, não anunciei que ia. Apenas comprei o ingresso e fui. Era no Guairinha e não tinha cadeira marcada. Eles nos deixaram quase até a hora do espetáculo esperando na frente da porta. Eu fui ao banheiro e quando desci as escadas, o pessoal da escola onde faço flamenco acenou para mim. Eles foram juntos, provalmente sairiam juntos. Meus professores e provavelmente alunos. Pessoas que um dia eu criarei uma afinidade, saberei os nomes, conhecerei os temperamentos. Por hora, são apenas rostos vagamente familiares. Por isso eu acenei de volta, e me mantive no meu lugar, no lado oposto ao deles. As pessoas se acotovelavam e eu acabei ficando perto da porta.

Quando as portas se abriram, foi como um estouro de boiada. Mulheres descendo pelo corredor central o mais rápido que seus saltos permitiam. Eu fui à direita, passei pelo estreito corredor deixado pela mesa de som e fui uma das primeiras a chegar. Podia sentar onde quisesse. O pessoal da escola sentou na segunda e terceira fileira da esquerda, e eu, na terceira da direita. Acenei novamente. O espetáculo atrasou e eu fiquei no meu lugar, vendo o stress que rolava em volta de mim por causa de gente que guardava lugar, o burburinho do teatro enchendo, as pessoas à minha volta conversando. Nada de ter que fingir uma afinidade inexistente, de criar um assunto. Fiquei na minha, pensando na vida.

Após o espetáculo, fui cumprimentar meus professores. Um dos alunos, um sujeito que faz aula de pilates comigo de vez em quando, repreendeu minha distância com uma indireta: “Oi, você tá viva ainda?”- o que foi até bom, porque a partir desse dia parei de sentir culpa por considerá-lo um mala. Ainda me dei ao trabalho de subir com eles pra cumprimentar La Talegona. Nas fotos que não apareci e nas conversas que não surgiram, comprovei o que eu já sabia: aquela turma futuramente pode ser minha, mas não o é ainda. Quem sabe um dia.

Uma das coisas mais irritantes do mundo

… é quem acha que sabe mais de nós do que nós mesmos. Com base em um único encontro, em um detalhe de roupa, em uma informação, acham que já sabem tudo a respeito de nossos complexos mais profundos. Como se não bastasse tanta arrogância, ainda cometem a deselegância de falar isso publicamente. É aquela coisa, igual discutir Complexo de Édipo com psicanalistas: se você, mulher, diz que não concorda com a inveja do pênis, é porque não assume a sua. Simples assim. Quando alguém faz essas análises de botequim, te chama de mal resolvida, negar soa como confirmação. Quer dizer que você não tem consciência de seus próprios complexos. A pessoa que faz esse tipo de análise nunca cogita quem pode estar errada é ela.

Dá vontade de dar na cara. Por incrivel que pareça, esse post tem a ver com a minha tentativa de ser cupido.

Bad Romance

Olha, eu nem gostava dessa música. Mas é que essa versão está tão legal… e homem cantando e dançando é tudo. Quer dizer, homem dançando já é tudo, mas quase não há registros de homens interessantes que dancem (suspiro).

É inacreditável, mas foi uma dica do Chicuta.

Chatroulette

Foi a mesmíssima emoção da primeira vez que eu entrei numa sala de bate-papo. Lembro perfeitamente desse dia: eu estava na casa dos meus tios, que foram um dos primeiros a terem internet porque a filha deles mora no Canadá. Entrei numa sala do UOL e fiquei horas. Não consegui engatar uma única conversa, mas aquilo tudo era tão mágico, pessoas do Brasil inteiro brincando comigo. Minha prima tentou contato e eu fingi que não vi. Minha tia ficou puta, derrubava a ligação, dava indiretas pra minha mãe, meu tio ia lá e digitava a senha da conexão de novo e eu fingindo que não percebia nada. Porque aquilo estava bom demais, e assim passei a tarde inteira.

Não vou ficar explicando como o Chatroulette funciona porque todo mundo já sabe. Se ainda não, basta entrar, é muito simples. Lá eu vi algo que eu só tinha lido e aposto que a maioria de vocês também nunca viu: um homem fazendo sexo oral nele mesmo. Pior que ele era bonitinho. Fiquei horrorizada e instintivamente passei pra outro e logo depois me arrependi. Deveria ter dado print screen e mandado pro Crítico de Pinto (dica totalmente hilária da Tina Lopes). Vi também uma infinidade de mãos nas cuecas, de calções estufados, de movimentações. Esse exibicionismo em webcam para desconhecidos é algo que eu não alcanço; minha auto-estima nunca se recuperaria se as pessoas ficassem dando Next enquanto eu exibo meus peitos.

Se você não tem fobia a pica, recomendo fortemente. Pra finalmente usar a webcam direto e sempre encontrar alguém do outro lado, treinar o inglês, ver caras estranhas e coisas estranhas de todos os países, receber cantadas toscas e até mesmo pra conversar. Mas tome cuidado: se a conversa ficar boa, por favor, vá logo pedindo e-mail e msn. A Tina me contou de um caso de uma amiga que conheceu o amor da vida dela no Chatroulette. Francês, bonito, simpático, várias coisas em comum. Meia hora se passou, voando. Quando ela pensou em pedir o e-mail, o Chatroulette caiu. Ela está procurando por ele até hoje