Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.
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Quedê meu ócio criativo?

Você, leitor regular do Caminhante Diurno, se prepare – este blog está com os meses contados. Descobri que não tem condições essa história de passar o dia todo fora e escrever. A auto escola está acabando comigo. Tenho que bater ponto colocando o dedo lá, passo horas debaixo do ar condicionado e mudando de posição naquela cadeira desconfortável, almoço com pressa, ando comendo até aula de flamenco, ou seja, estou experimentando alguns dias de rotina normal, rotina de trabalhador. Continuo feliz, bem humorada, não morri, mas… ler e postar está difícil. Inspiração, o que é isso? Descobri que inspiração realmente precisa de ócio, de longos momentos dedicados a coisas que permitem a mente ficar buscando ao fundo. Quando chego em casa eu quero é sofá e novela. ´ces sabem que mandei uns currículos. Ou seja, ano que vem, se tudo der certo, viro uma pessoa responsável e que contribui para a arrecadação de impostos desses país. Mais dinheiro, menos tempo. Vai ser difícil continuar escrevendo dia sim dia não.  Nem cápsula de café resolve.
Quem manda não ter um blog pop ou diploma de jornalista.

Avis rara

Hoje peguei ônibus e foi totalmente inédito que, no meu ponto, subiu um rapaz com seus vinte e poucos. Bonito, de bermuda. Ou seja, não era pedreiro e nem empregada. A região onde eu moro é cheia de prédios de alto padrão e quem visse a frequencia nos ônibus acreditaria que aqui não tem um adolescente, uma criança. É que aqui o pessoal é rico demais, eles não pegam ônibus. O meu professor da auto escola diz que é contra o metrô de Curitiba por causa disso, porque esse pessoal não vai pegar metrô, o lance deles é carro. O rapaz de bermuda hoje sem dúvida tem twitter, facebook, deve ver as discussões sobre o trânsito, sobre meios alternativos como a bicicleta. Vai ver ele acha que está esperando a ciclovia ou o metrô. Enquanto essas coisas de primeiro mundo não chegam, ele vai de carro mesmo.
Lembrei do meu irmão mais velho, que desde que me entendo por gente diz que vai pros Estados Unidos. Vagabundo profissional no Brasil, ele queria ir lá pra ter subemprego, trabalhar duro, economizar e voltar rico. Meu pai, nas respostas ótimas que só ele, dizia:
– Por que você não aproveita e entrega pizza por aqui mesmo? Pelo menos você já conhece o nome das ruas.

Armário

E eu que pensava que nunca teria que sair do armário, porque eu não sou gay. Nada contra, só não sou. Sair do armário – sem nunca ter chegado perto de ter que assumir uma sexualidade diferente, eu acho que tenho na minha bagagem o suficiente pra ter ideia de como é. Em maior ou em menor grau, estamos sempre cheios de armários para sair. Basta começar a ficar um pouco contra o meio que um armário invisível já se forma. Já conheci pessoas tão plantas, tão ajustadas, tão iguais aos seus pais, aos membros de sua família, aos seus colegas de trabalho e aos seus vizinhos que dá até aflição. Porque é impossível a pessoa ser o sujeito estatístico perfeito sem sufocar alguma coisa. Ser perfeitamente ajustado dá um stress danado, porque é preciso consultar a multidão com o olhar o tempo todo. Ao mesmo tempo, multidões assustam, então… Sair do armário pode ser admitir que gosta de Paulo Coelho e que acredita em astrologia. Ou que prefere uma vidinha pacata em Curitiba a lavar pratos em Paris. Sair do armário também pode ser admitir para si mesmo – pode ser que o mundo já tenha percebido e você lá, se achando um puta ator – o que você quer. Admitir que aquele homem ou aquela mulher não é apenas mais um homem ou uma mulher. Admitir que aquele hobby é o que você quer da sua vida. Enquanto a gente é em segredo, tudo pode ser, eu só estava passando na frente enquanto a empregada assistia a novela. Alguma coisa acontece quando os desejos encontram a luz do dia e respiram ar puro. Nada permanecerá igual, em alguma direção a coisa muda. Mas só saindo do armário pra saber.

As questões divertidas dos simulados do DETRAN

Eu digo que o cara que formula essas questões se diverte e as pessoas não me levam à sério. Todo simulado tem questões que me fazem rir. Olha só:

O que caracteriza uma pessoa equilibrada emocionalmente?
a) Ter respostas emocionais adequadas a cada situação.
b) Não chorar nunca.
c) Ter mais de 40 anos e experiência de vida.
d) Ser simpático e nunca dizer não às pessoas.
e) Todas as alternativas estão corretas.

Um pedestre que atravessar uma rodovia e existe uma passarela nas proximidades. O correto é:

a) Juntar um grupo de pessoas e atravessar em nível.
b) Caminhar até a passarela e efetuar a travessia com segurança.
c) Atravessar a via correndo, em nível.
d) Atravessar a via em nível, mas com todo cuidado.
e) Atravessar em nível, agitando um pano.

À noite, um veículo vem em sentido contrário com os faróis altos, provocando ofuscamento. Você:

a) Desvia o olhar para a direita e se orienta pelas faixas do solo.
b) Fecha os olhos.
c) Para no acostamento até o outro veículo passar.
d) Desvia para a esquerda e se orienta pelas faixas do solo.
e) Olha para o outro veículo e também liga o farol alto.

Ao encontrar pedestres caminhando por uma via que não tem calçada nem acostamento, você:

a) Buzina para o pedestres saírem da via.
b) Chama o guarda, pois eles não podem caminhar pela pista.
c) Oferece carona aos pedestres para tirá-los do perigo.
d) Diminui a velocidade e tenta passar afastado dos pedestres.
e) Continua normalmente, pois os pedestres estão errados.

Ao tomar um medicamento que produz um efeito de sonolência, você deve:
a) Tomar outro medicamento que seja estimulante.
b) Deixar de dirigir nessa condição.
c) Compensar o efeito, tomando chá ou café.
d) Transitar por vias de menor movimento.
e) Parar a cada dez minutos para descansar.

Ao transportar uma vítima com fraturas expostas, deve-se, em primeiro lugar:

a) Prevenir a vítima de que ela sentirá dor e em seguida puxar o membro machucado, colocando-o no lugar.

b) Enfaixar toda a região machucada para evitar contaminação.

c) Procurar algo rígido, enfaixando-o junto com o membro machucado, para imobilizá-lo.

d) Segurar o membro quebrado enquanto os outros levantam a vítima.
e) Não mexer na fratura.

Em primeiro lugar, deve-se verificar na vítima:
a) Se há muito sangramento.
b) Se há muitas fraturas.
c) Se a dor é muito forte.
d) Se há obstrução nas vias aéreas.
e) Se ela consegue ficar de pé e andar sozinha.

Quando o trânsito está congestionado, devemos:
a) Mudar de faixa de rolamento.
b) Manter a calma.
c) Desligar o veículo.
d) Buzinar sem parar.
e) Ler um livro ou um jornal para distrair.

Ao ouvir no rádio que o trajeto rumo ao seu serviço está totalmente congestionado, você:

a) Faz outro trajeto para evitar o congestionamento e tentar chegar no horário.
b) Segue em frente, pois já está acostumado com esse percurso.
c) Fica tranquilo, pois já avisou o chefe que chegará mais tarde.
d) Faz o trajeto habitual desconsiderando as informações.
e) Avisa o chefe que irá faltar.

Ao receber um insulto no trânsito, o condutor deve:
a) Chamar o agente de trânsito, solicitando que multe o agressor.
b) Ligar o rádio bem alto para mostrar que não se importou.
c) Fingir que não ouviu e seguir a viagem tranquilamente.
d) Anotar a placa do veículo para reclamações posteriores.
e) Revidar mostrando sua irritação.

Ao estacionar em local proibido, um agente de trânsito lhe aplica uma multa. Você deve:

a) Retirar seu veículo daquele local, dizendo ao agente que não havia percebido a sua presença.

b) Dizer ao agente que não sabia que era proibido estacionar.
c) Conversar com o agente, tentando livrar-se da multa.
d) Desculpar-se da ação indevida, guardar o recibo da multa e retirar o veículo do local.
e) Perguntar ao agente se ele sabe com quem está falando.

A minha preferida:

Para assumir um comportamento seguro, o condutor deve possuir as seguintes características:
a) Beleza e inteligência.
b) Prudência e habilidade.
c) Alegria e jovialidade.
d) Saúde e beleza.
e) Bom humor e saúde.

Um conselho

Frequentar as aulas teóricas de uma auto escola só tem aumentado em mim os meus pensamentos de repúdio ao carro. Fico sabendo das estatísticas, das dificuldades, da rapidez dos exames, enfim, de tanta imperícia e falta de responsabilidade que regem algo tão importante como o comportamento no trânsito. Estão dando armas para as pessoas sem prepará-las, sem selecioná-las direito e deixando o problema para a ponta, que são pessoas mortas e/ou sequeladas. Vi cenas de acidentes, com pedestres voando, reportagens mostrando pessoas que pararam de viver normalmente por causa da irresponsabilidade dos outros. Tudo isso me remeteu às minhas lembranças dolorosas com relação a esse assunto – o acidente do meu irmão. Lembrei também de um conselho que ouvi na época e me foi útil. Não custa registrar. Espero que ninguém aqui precise colocar em prática o que vou dizer.
Na época da acidente eu frequentava um atelier. Tinha escultor lá, mais ou menos da minha idade, que uma vez comentou que havia sofrido um grave acidente de carro. Quando meu irmão se acidentou, eu fui falar com ele, quis que ele me dissesse alguma coisa que pudesse ajudar meu irmão. Ele respondeu com evasivas, disse que não gostava de tocar nesse assunto, que não queria nem lembrar do que havia passado. Quando eu já estava indo embora, ele disse que, pensando bem, havia sim algo que eu poderia fazer:
– Quando a gente sofre acidente, nem sempre lembra do que aconteceu. Você está seguindo a sua vida normalmente, um carro te bate, ou você sai voando, bate a cabeça… quando você acorda, está cercado de gente desconhecida, sentindo dor, levando injeção e se sente confuso. Eu não sabia o que estava acontecendo, se tinha feito alguma coisa de errado, o que é que eu tinha que fazer. Meu conselho é que você conte pro seu irmão. Mesmo que ele esteja inconsciente e que pareça não ouvir, diga pra ele que ele sofreu um acidente, conte como foi, onde ele está e o que está acontecendo.
Fiz o que ele me disse. Meu irmão passou um mês na UTI e, quando foi pro quarto, passou meses num estado de semi-consciência da qual não sabíamos se ele sairia. Todos os dias eu lhe dizia o que tinha acontecido, onde ele estava e que estávamos lá, cuidando dele. Quando meu irmão voltou à consciência, meses depois, ele não levou nenhum susto. Ele já sabia. Meu irmão não soube me dizer como sabia  e nem quando tinha ouvido. O importante é que funcionou.

O vôo

Aquela foi a pior turbulência que eu já passei na vida. Quando falo de turbulência de avião, sei do que estou falando. Passei a infância toda na ponte aérea de Curitiba-Salvador, que naquela época passava por Brasília e levava seis horas de viagem. Então, se digo que aquela turbulência era feia, é porque era feia mesmo. Foram horas com o avião chacoalhando, fazendo a gente pular da cadeira avisos piscando de afivelar os cintos. Enquanto isso, eu dormia tranquilamente. E não dormia tão bem apenas porque tinha aproveitado o meu último dia em Madrid batendo perna o dia inteiro, não apenas porque finalmente estava voltando para casa depois de dois meses e meio fora. Eu dormia bem porque estava plenamente consciente da turbulência, de que estávamos sobrevoando o oceano e se o avião caísse seria no meio do nada e quase sem chance de sobreviventes. A ideia de morrer naquele vôo me deixava muito feliz. Lembro daquele dia e sinto isso até hoje, a minha tranquilidade com a perspectiva da morte, aquela paz. Falando assim parece que eu estava deprimida, mas era justamente o contrário. Eu estava voltando dos melhores dias da minha vida, em que eu tinha vivido coisas que achei insuperáveis: fui para a Europa, fiz muitos amigos, viajei sozinha, amei e fui amada. Diante de mim eu tinha um futuro cheio de possibilidades – possibilidades que eu tinha certeza que de que falharia. Eu estava no fim da faculdade, no fim de uma vida escolar inteira, onde eu me destacava por ser boa aluna; só que no mercado de trabalho as regras são outras e eu não sabia se conseguiria manifestar o mesmo brilhantismo. Provavelmente nem um pouco. Era muito melhor então morrer jovem, como uma promessa irrealizada (as reportagens sobre a minha morte seriam lindas, com fotos, falando da universitária inteligente e cheia de vida) sem ter a chance de colocar os pés em terra firme e constatar que não tinha mais nada de tão bom para fazer.
O avião não caiu, claro. E como eu previra, meus dias e meses seguintes foram muito difíceis. Posso dizer mais: foram anos tão difíceis que carrego alguns daqueles problemas até hoje. Concomitantemente, ao contrário do que eu previra, eu ainda tinha coisas muito emocionantes para viver. Elas estavam longe da minha perspectiva, eu nem ao menos imaginava que um dia as desejaria. A vida é surpreendente – nem sempre pro bem, nem sempre da maneira que queremos, mas ela é sim muito surpreendente. Penso no que senti nesse vôo, penso em tragédias, em situações pessoais e coletivas muito difíceis e me pergunto porque prosseguimos. Porque, apesar do desejo de morrer, da falta de perspectivas e de um presente desesperador, são poucos os que conseguem abrir mão da própria vida. Intuo que esteja no nosso DNA uma curiosidade. Não é otimismo, não é fé, não é desejo de viver. Mesmo quando sabemos que o dia seguinte vai ser ruim, nós queremos estar lá pra ver. É humano não conseguir evitar de ver o seu amanhã.

Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.

Tartaruga na árvore e Werther

Não gosto de ficar de meias palavras, mas lá vai.

Tem um desses ditos que eu adoro, o que fala da tartaruga na árvore. Todo mundo sabe que tartaruga não sobe em árvore, então se ocasionalmente vemos uma numa árvore, já sabemos que foi alguém que colocou lá. Dia desses pensei ter visto uma tartaruga numa árvore. Vi uma idiotice tamanha, que só pude crer que o seu autor é um idiota, que acasos ou QIs, o colocaram numa posição que não merecia. Que idiota o idiota, como pode um idiota ter tanto espaço. Pior: um espaço que eu valorizo, que eu gostaria, que eu considero. Pois então. Fui atrás e descobri, à muito contragosto, que não se trata de uma tartaruga na árvore. Tudo indica que teve mérito. Mérito, capacidade, talento, vocação, tudo o que eu gostaria de acreditar que não teve, para que eu pudesse odiar em paz. Nada mais maravilhosamente odioso do que alguém que não merece estar onde está e faz uma burrada. Pensamos nas injustiças do mundo e nos deliciamos e auto-comiseração. Só que foi apenas uma burrada. Que droga.

 

Aí eu me senti meio Werther. O jovem e deprimido Werther passa o livro inteiro desejando a mulher do próximo, crente que o próximo não merece aquela belezura tanto quanto ele. Até que finalmente ele conhece o rival e o desgraçado era mesmo tudo aquilo. O desgraçado merecia, o desgraçado tinha qualidades e fez por onde. Ao invés de ficar sentindo raiva, ficar torcendo pra que talento não seja talento, eu que tenho que ir lá e fazer. Os idiotas têm essa importante função social: esfregar na nossa cara que se a gente fica fazendo doce e não vai, outro com menos pudores vai conseguir tudo o que sonhávamos. Ou, pensando de outra forma, quando a gente começa a se deparar com essas questões relativas a idiotas, começa a questionar quem é quem.

Curtas e amargas

Autores que impressionam seus leitores, por ser mostrarem pessoas humildes e gentis, na sua noite de autógrafos. Mestres com instituições que tem o seu próprio nome, em palestra feita para seus alunos, e que os impressionam por sua humildade e gentileza. Atores, famosos e celebridades em geral, conquistam a todos ao se mostrarem tão gentis e humildes. Ora, ora, só eu leio isso e acho muito natural? Do lado de alguém que sabe minha biografia, consome o que eu faço e já me ama antes de ver, eu também seria um poço de humildade e gentileza. Difícil é ser assim ao ser barrado pelo segurança numa agência da Caixa Econômica.

 

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Ah, eles estão indignados! Não consigo levar muito à sério quem está sempre indignado. Com o Brasil, com o governo, com a falta de respeito dos jovens, com o efeito estufa. Uma causa ou substitui outra ou a sobrepõe, o que eles não podem e ficar sem ter do que reclamar. Eu sempre lembro da minha tia-avó que não perdia um capítulo do Hilda Furacão, só pra ver até onde a Globo tinha coragem de ir com aquela indecência toda. Não são as coisas que causam indignação a essas pessoas – elas têm dentro de si uma insatisfação, uma amargura, um sei lá o quê de muito ruim e que precisa de uma vazão. Na verdade, “esse bando de canalhas” está é lhe fazendo um favor por existir.
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Na gênese da coisa, as instituições de ensino e seus diplomas tinham o objetivo de garantir uma certa qualidade. Vamos ensinar o básico, o corpo comum que cada profissão deve ter. Vamos criar a coisa de tal forma que mesmo o maior dos idiotas saia daqui sabendo o mínimo. Quem já esteve lá dentro, numa universidade, sabe que entre os formados existem os brilhantes e os empurradores com a barriga, aqueles que passaram raspando. Deles, a gente tem dúvida se uma faculdade é realmente capaz de informar o básico necessário e essencial. Mas enfim.

 

Aí quando vejo alguém falar de diploma como se resolvesse todas as questões do universo, como se substituísse anos de experiência e de vivência, como se fosse mais do que uma vida inteira dedicada a um assunto, dá vontade de bater de leve com o cotovelo e dar uma piscada marota. É brincadeirinha, né?

 

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Pessoas que estacionam em vagas para deficientes. Algumas usam a desculpa da pressa, outros que existem vagas demais. Tem também os que se assumem – eles têm mais direito a qualquer vaga vazia do que qualquer outra pessoa. Digo mais: eles têm direito a tudo o que desejam e na hora que desejam. Na verdade, todas essas pessoas usam a vaga de deficientes com muita propriedade: eles são deficientes morais.

De mal

Eu não acho que fui injusta com ela. Ao contrário, me vejo com uma injustiçada. Nós nos encontramos por acaso, num teatro minúsculo, pra ver uma peça que tinha como tema justamente a paixão que nos anima, a dança. Já havíamos nos visto ao longo desses meses, e posso dizer que quando estávamos só nós duas, optamos por fingir que não nos vimos; com outras pessoas, nos cumprimentamos cordialmente. Então, passado um ano e tudo muito assentado e resolvido para mim, fiquei na dúvida de como seria. Por mim, estava pronta para assumir uma atitude cordial de ex-aluna. Só que ela fingiu que não me viu. Então eu também não a vi.

 

Esse um ano depois me fez tão, tão bem, que eu não poderia estar magoada. Acho que a maneira como uma história se desenrola influencia totalmente nosso modo de olhar os rompimentos. Se rompemos e aquilo nos joga na lama, nos enche de cicatrizes, fica tudo ruim, o outro vira o monstro que acabou com a nossa vida. Se, ao contrário, aquele fim permitiu novas buscas e levou a coisas ainda melhores, sentimos um agradecimento. Um agradecimento ao destino, à situação, ao modo com que a nossa sorte mudou. Mas aquele que um dia nos deu a facada nas costas, o chute na bunda ou o empurrão porta afora continua sendo o filho da puta. Ficamos de mal.

 

Estava vendo as fotos de amigos recém-separados e fiquei feliz em ver que ambos estão muito bem. São duas pessoas ótimas que se separaram e não tiveram dificuldade de se apaixonarem e encontrarem outras pessoas ótimas. Pensei neles e nos meus dolorosos rompimentos. Quando pacíficos, casamentos costumam terminar com dor; os outros viram guerras. Quando troquei de “danças” também saí pra nunca mais voltar. Acho que a explicação está no investimento, na intensidade dos laços. Nos lugares onde dancei, fui sempre a louca que nunca falta, a que estuda em casa, a que quer fazer tudo. E, claro, exigia da outra parte proporcionalmente. Nenhum casal se separa pelas picuinhas, por mais dolorosas que elas sejam. Quando o investimento é grande demais, a própria inércia o mantém. Para interromper o processo e permitir o novo, só grandes “injustiças”.

Auto escola

Resolvi aprender a dirigir. Quis aprender assim que tinha idade pra tirar carteira, mas não tinha dinheiro. Depois casei e passei a ter dinheiro e não ter tempo. Passei muito tempo alternando falta de dinheiro e de tempo, até que quando os dois puderam andar juntos, eu já não queria mais. Eu comparo essa vontade de aprender a dirigir à mesma vontade louca de entrar em balada e filmes para maiores de dezoito quando não temos dezoito: passamos anos aguardando aquele momento, invejando que pode, fazendo planos… e quando finalmente chega, não é nada demais. Pra mim, dirigir não é nada demais. Fui criada pegando ônibus, andando, aproveitando carona. Sempre vi o carro como uma exceção e não como um direito. Depois que meu irmão sofreu acidente de carro, passei a ter antipatia. Não consigo achar normal tantos carros, cada dia maiores, transportando um (1) fulano dentro, enquanto o trânsito fica cada vez mais caótico e perigoso. Se pra essa questão do carro o coletivo e o bom senso fossem minimamente levados em conta… enfim, deixa pra lá.

 

Mas, como as pessoas sempre ressaltaram, é bom que eu saiba dirigir. É isso que eu pretendo, saber. Às vezes não saber dirigir nos leva a arranjos burros aqui em casa. A região onde eu moro é insegura de noite e fico igual um bebê que precisa ser transportado. Muitas mulheres me disseram que passaram a dirigir só por causa dos filhos. Não sabemos o dia de amanhã e sempre tem a possibilidade de uma emergência. Foi esse tipo de raciocínio que me levou à auto escola. Uma decisão consciente e de bom senso. Porque ter desejo de dirigir eu não tenho.

 

Iniciei o “processo” há semanas. É realmente um processo. Liguei pra uma auto escola, que disse tão resumidamente o que eu tinha que fazer, que fui lá muito alegre e feliz sem ter o suficiente pra matrícula. Porque só então soube que primeiro tem que entrar com a papelada, pagar escola, marcar foto, pagar DETRAN, falar com a escola, marcar exames… Imagino como deve ser aflitivo pra quem sonha em dirigir. Pra mim, só tem dado tempo de observar ainda mais o trânsito, agora com olhos de – “esses motoristas serão os meus colegas”. Olha, que terror.

 

Não duvido nada de eu chegar, quando chegar, nas aulas práticas, eu seja daquelas com pânico. Antes, pensar em gente que senta pra dirigir e se sente impossibilitada me parecia totalmente fora da realidade. Aposto que chegaria no DETRAN cheia de gás e de coragem, se tivesse feito isso aos dezoito. Eu não teria medo, simplesmente porque me parecia estúpido ter medo. Isso me leva a outras reflexões – de perceber que o tempo passou, de que não sou mais aquela. Será que essa é uma regra inevitável, de sempre ficar cada vez mais medroso com o tempo? Será que a partir de agora, sempre que eu me arriscar, terei que fazer passando por cima das minhas inseguranças?