Feriado

São anos de convívio e em todos os feriados ela me pergunta:
– E aí, vai viajar no feriado?

E em todos os feriados eu tenho respondido:
– Não. Nem vou ver feriado. O Luiz trabalha, eu tenho aula/ensaio…

Ela mal consegue esconder a expressão de desprezo. Porque durante todos esses anos ela já foi à praias paradisíacas e outros países. Enquanto eu fico sempre por aqui. Claro que eu preferia ir pra algum lugar; mas se não dá, não dá e pronto. Não vejo porquê ficar em casa seja motivo de vergonha, seja no sábado à noite ou em feriados.

– Luiz, hoje ela me perguntou de novo se eu ia viajar no feriado. E se um dia eu disser que sim, que viajarei, o que acontece?

– Isso vai abrir um novo leque de perguntas. Aí ela perguntará pra onde, quanto tempo vai ficar, quanto custou a viagem, falará de viagens que ela mesma fez…

– É? Que bom então que a gente nunca viaja.
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Biblioteca Pote de Mel

Pode reparar: quando alguma coisa nos incomoda pessoalmente, temos um pensamento praguento – achando que é algo sensato e realista. Foi assim que eu reagi quando soube que o Alessandro ia fazer um biblioteca numa padaria, livre para quem quisesse ler:

– O Alessandro está louco. Num instante vão roubar todos os livros dele.

Eu já tinha visto reportagens sobre iniciativas semelhantes. Lembro de uma biblioteca fundada por um catador de papel, que se alfabetizou sozinho e achava um desperdício ver os livros que ele encontrava no lixo apenas como pilhas de papel. Mas aí – veja como o preconceito é um bicho tinhoso e resistente – “é coisa de gente ignorante para gente ignorante. O Alessandro vai doar os livros que eram do pai dele”. Achei que um dia o Alessandro daria alguma queixa, alguma amostra de que foi precipitado. Pelo site, acompanhei nascimento da idéia, as fotos, as doações de um e outro. Um dia ele fez um apanhado geral e concluiu que o número de doações ultrapassava o número de sumiços. Só então me convenci de que a biblipote tinha dado certo.

Mesmo de longe, foi uma experiência marcante pra mim. Daqueles fatos aparentemente banais que te fazem rever certos conceitos, que mudam alguma coisa dentro da gente. O Alessandro deu a cara a tapa e me mostrou que é possível oferecer algo a estranhos sem ser roubado ou explorado. Ou seja, as pessoas, na sua maioria, não estão aí para prejudicar os outros; que é mais provável que o estranho do seu lado se comporte com ética e não com a Lei de Gerson. Ou será que isso é impressionante só pra mim?

História, fama e internet

Algum louco já falou desse livro pra mim como se fosse algo muito legal; na minha opinião, é a pior coisa que poderiam ter inventado. Não sei o nome, é alguma coisa como Em que idade. Você folheia o troço e ele diz o que já fizeram de importante em cada idade. Descobri que enquanto eu perdia tempo brincando com os ursinhos carinhosos, outras crianças já pensavam em sinfonias ou sonetos. Pra não me deprimir por não ter nascido prodígio, decidi procurar idades em que eu já era lúcida. Fica pior: enquanto eu perdia tempo querendo saber se os meninos me achavam bonita, outros já escreviam sobre as grandes questões da humanidade. Em que momento eu deveria ter feito alguma coisa e ninguém me avisou? Nem adianta querer começar agora, porque aos trinta os que não morreram já eram gênios. Ou seja, o bonde de entrar pra história eu já perdi. E se eu procurar apenas a fama, quais minhas possibilidades?

 

Nulas. Porque a possibilidade de ser famoso decresce à medida em que os anos passam. Veja:

  • Infância: Participar de comerciais. Ser criança-pastora. Brilhar em programa de talentos. Ter seu próprio programa infantil. Papel de criança-chata-que-fala-como-adulto em novela da Globo. Escala de fama: 9 a 10.
  • Adolescência: Conseguir uma bolsa internacional de estudos em qualquer área artística. Ser atriz de Malhação. Virar modelo. Fazer parte de bandas teen. Ser lolita que aparece no ranking da VIP. Escala de fama: 8,5 a 9.
  • Vinte e poucos anos: Participar de reality show. Rebolar com pouca roupa diante das câmeras. Dar pra algum famoso. Escala de fama: 7, que despenca pra 3.
  • Trinta e poucos anos: especialista em mídias sociais. Escala de fama: 1, mas só entre twitteiros.
  • Acima dos trinta e poucos anos: –x–

 

Eu fico meio meio assim quando vejo que os pioneiros da net brasileira têm a minha idade. Porque eu também vi a net nascer e nem por isso sou chamada de especialista. Quando todo mundo ia socializar na cantina, eu andava até o outro prédio para ver e-mail – isso quando ter e-mail era meio inútil, algo como ter número de telefone na época de Graham Bell. Eu era a única pessoa da faculdade que tinha amigos virtuais, o que depunha fortemente contra a minha pessoa. Minha mãe ficava em pânico quando eu ia conhecer alguém de net, achava que eu seria esquartejada. Dizia que isso não era natural “como conhecer alguém num barzinho”. Será que o fato de só ter acesso à internet no laboratório de informática da universidade foi o que condenou meu futuro? Quem sabe eu tivesse feito um blog, quem sabe conhecesse esse povo todo no ICQ e seria convidada pra escrever num dos dois ou três sites importantes da época. Tem aqui uma ultimate-geek-power que a vida não aproveitou.

 

Mentira, eu não seria nada disso. Enquanto esse pessoal pioneirava na internet, eu perdia tempo procurando emprego.

Ortodontista

Três anos, às vezes indo toda semana, não é pouca coisa. Meu ortodontista e a secretária dele, a Lu, me viram com todos os humores e roupas possíveis. Ele era uma das poucas pessoas que ia mesmo quando eu falava que estava fazendo uma exposição. Como eu obedecia rigorosamente tudo o que ele me recomendava, nenhum de nós achou que eu seria aquele tipo de cliente que some durante o período de manutenção, ou seja, quando a gente coloca aparelho móvel e deve aparecer uma ou duas vezes por ano. E, de fato, já se passaram mais de cinco anos e eu continuo dormindo de aparelho.

Mas eu sumi. E a razão é simples e aparentemente boba. É que pouco tempo depois de tirar o aparelho eu saí da vida acadêmica, e fiquei um ano desempregada. Não apenas desempregada: eu fiquei deprimida, sem perspectiva, sem rumo. Foi muito duro. E eu sabia que eles perguntariam como eu estava, nem que fosse apenas por educação. Eu não podia dizer que estava bem. Eu estava longe de estar bem. MUITO longe. Eu sei que poderia simplesmente mentir; mas a idéia de ter que mentir pro meu ortodontista também era deprimente. Outubro chegou e eu fingi que esqueci, só pra não ter que ouvir a pergunta. E assim o tempo foi passando…

Cada vez mais pessoal

Blogs lucrativos são os especializados e não os pessoais. Ok. Mas não são eles que mais me fazem falta, não é com eles que aprendi a gostar de pessoas que nem conheço e que mudaram minha maneira de ver a vida. Coisas até difíceis de explicar pra quem não frequenta o meio virtual. “Mas você vai falar disso na internet, pra todo mundo ler?” Aí eu tento dizer que nada do que eu disse aqui chega a ser tão íntimo quando o que tantos outros já disseram. Eu me sinto e me sentirei eternamente em dívida com a Patrícia ou a Subversiva (pra citar gente que nem me frequenta) pelo que revelaram e me fizeram sentir. Blogs pessoais me ensinaram que:

Nada é irrelevante, tudo é irrelevante.

Saber dos outros é interessante. Quando conheci o blog da Tina, ela estava falando da reforma da casa. Nem sabia quem era, não imaginava que um dia iria ver tudo pessoalmente, mas não é que eu fiquei interessada e virei leitora assídua? E eu, que nem cozinho, e gosto das descobertas na cozinha da Quéroul (prêmio melhor nome de blog)? A Anne trata temas difíceis com leveza e a Fal já me fez chorar copiosamente (the music while, the music lasts) em frente ao micro. Ninguém precisa estar pronto, estar num excelente dia, revelar uma verdade universal, pegar todos na balada, nem o contrário, para ser interessante. Basta sentir, basta trazer para perto e contar. Porque se dividido com sinceridade, fica do tamanho certo pra alguém.

Quanto mais pessoal, mais universal.

Já li vários blogs com conselhos muito sensatos, com citações, com reflexões acabadas. E ler aquilo sempre me deu a impressão de estar lendo um livro de auto-ajuda, sempre me soa vazio. Não é o tipo de blog que dá vontade de voltar. Mesmo que pra quem escreveu aquela tenha sido uma aprendizagem genuína, pra mim não passou nada. É tão sem graça como ler apenas o fim de um livro; é o desenrolar dos acontecimentos que dá significado à conclusão. Se não estou envolvida, pouco me importa se foram felizes ou se morreram todos. Totalmente o contrário disso são os posts de S. Ela se propõe, escorrega, volta e é justamente por isso que cada palavra se torna importante. Porque dizer o que deve ser feito ou como o mundo deveria ser é sempre fácil, né? Pena que eu não dê essa autoridade a ninguém.

Minha biografia não é tão importante.

Com relação a acontecimentos tristes, eu vejo que existem duas reações comuns: exibi-los, como troféus ou para obter compaixão; escondê-los, para não ter a sua trajetória confundida com aquilo. Eu sempre simpatizei mais com a segunda atitude. Aí um dia a gente abre um blog e se depara com uma amiga que talvez não tenha se suicidado por causa do gato ou com uma história de sequestro relâmpago. E eu aqui, achando muito dramático não gostar da minha familia. Tentar explicar alguém como se fosse A + B revela a pequenez do outro, não a sua. Saber os momentos ruins dessas pessoas maravilhosas me deu um nó na garganta, mas não as diminuiu diante dos meus olhos – muito pelo contrário. É uma terceira atitude, que eu não conhecia: ver tudo como uma boa história pra contar. Chegar a esse ponto é só para quem não se leva tão à sério.

 

Nada do que eu passo/passei é inédito.

Em teoria a gente sabe que o mundo não é um lugar perfeito e que as pessoas sofrem nos seus casamentos, suas famílias, suas intimidades. Mesmo assim a gente acredita que ninguém entenderia certas ambiguidades, muito íntimas, como o Chicuta que amou e maltratou a mesma mulher. Embora eu não tenha dito, me identifiquei muito com o comentário que o Charlles fez sobre a mãe dele, num post do Milton. E também, numa empatia muito profunda, quando o Alessandro falou do pai dele como se fosse o Maradona. Esses e outros exemplos me mostraram que temos que ser generosos pra receber generosamente. Mesmo com receio, abri várias vezes meu coração por aqui. E sempre, sempre teve alguém que me disse que entendia e tinha vivido algo semelhante. Nem que seja somente por ter se sentido assim. Isso me fez muito bem.

Prioridade prioritária

Na minha turma tem uma criança que é muito boa, um fenômeno. Ela sapateia como ninguém, pega os passos rápidos, tem um grande futuro pela frente. Isso junto com aquela segurança de quem é filha única, de quem sempre foi o centro das atenções. E se tem uma coisa que encanta o público é ver crianças fazendo as mesmas coisas que os adultos. Ela já tem mais coreografia do que os outros e ainda é destaque na minha; aparentemente, só eu fico incomodada. Pra alguém que já ia chamar atenção de qualquer forma, entende? Tenho meus traumas, pelos outros lugares que dancei. Já me aconteceu de ter me empenhado o ano inteiro e ser deixada de lado só porque sou mais velha. Não sou uma cuticuti mas também pego os passos com facilidade, tenho postura e todas as outras consequencias de ter feito ballet. Tenho meus próprios méritos e não quero ser apenas “escada” dos outros. Quando a professora avisou que na aula seguinte os lugares do palco seriam demarcados, já comecei a me torturar antecipadamente com essas questões.

 

Só que quando a aula chegou, minha saúde estava uma merda. Me obriguei a ir porque tinha a prova do figurino. E ali, fazendo coreografia com a cabeça pesada, dor de garganta, moleza no corpo, entendi que nada daquilo é importante. Se eu estiver me sentindo bem no dia da apresentação tá ótimo.

Força maior

O horário de verão começou e eu nem vi. Já acordei com dor de garganta e passei o dia todo tentando me recuperar das maneiras naturais – chá de alho, escalda pés, repouso – sem sucesso. Dois remédios depois e uma péssima noite de sono, fui pro hospital de manhã e estou esperando os antibióticos acabarem com isso de uma vez.

 

Tudo isso pra dizer que não consegui pensar em nada, por isso, nada de post agora.

Irritações

Parece que quando você está irritado e com vontade de matar o mundo, o mundo começa a fazer coisas irritantes pra ser morto. Quinta, eu me sentindo um tigre em jejum por causa da TPM, e aí…

Irritação 1:

A única esteira boa vazia é justamente ao lado da velhinha mais redundante e conversadora da academia. Espero, espero, até que me rendo e vou naquela. Meu problema com essa velhinha é que a encontro toda segunda, quarta e sexta. E toda segunda, quarta e sexta elas me diz as-mes-mas-co-i-sas:

 

– Oi. Você é animada, né? Você vem aqui e corre.

– Você sabe mexer com esses aparelhos, né? Vocês da mocidade sabem ligar. A gente de idade não consegue, é até perigoso…

– Você chega cedo, né? Eu também chego cedo.

– Você faz uns cinco, seis quilometros, né? Hoje eu quero ver se consigo fazer três. A gente tem que ir aumentando. Eu paro quando meu pé começa a formigar.
– Eu olho pra você e me admiro. Eu também já fui assim, atlética, quando mocinha.

Eu juro que eu tento, mas o fato de eu não responder e mal olhar na cara dela não a desestimula.

Irritação 2:
Pessoa cruza a sala e já chega perguntando:

– E aí, a “alimentação natural”, você vai?
– Hein?
– Você vai ou não vai na palestra?
– Que palestra?
– A palestra sobre alimentação natural.
– Que palestra sobre alimentação natural?
– A de sábado.

– Mas que palestra de alimentação natural de sábado é essa? É aqui, onde é, eu nem ouvi falar!

– A palestra do Dr. Mauro.

Semanas antes eu descobri que minha mãe vai ao mesmo médico homeopata dessa senhora. Mas daí eu ficar sabendo que o sujeito vai dar uma palestra sobre alimentação no sábado já é uma certa distância.

Irritação 3:

A filha da mesma mulher anterior. Acho que é de família. Ela virou pra mim do além e disse:

 

– Eu acho que você devia exprimir.
– Exprimir?
– É, como socióloga.
– O que?
– Dizer as coisas que você pensa, deixar sua posição clara.
– Mas do que você está falando?
– Sobre as coisas que você pensa.
– Mas do que?
– Enquanto cientista social.
– Mas dizer como e o que, do que você está falando?
– Do seu blog.
– Mas eu devo dizer o quê no meu blog?
– Sua opinião política.

Isso porque eu um dia comentei que tinha blog, por alto.

Irritação 4:

Eu estava sozinha no banheiro, me maquiando. Chega uma desconhecida e reclama:

 

– Nossa, mas que silêncio aqui!

 

Na certa ela achou que eu estaria fazendo moonwalker. Ou conversando com um amigo imaginário. Ou fazendo moonwalker enquanto converso com um amigo imaginário.

 

Isso tudo sem falar que eu levei uma baita cotovelada na rua, e a mulher não se deu nem ao trabalho de se virar e me pedir desculpas. Antes que eu a puxasse pelo ombro e a estapeasse, corri pra casa e me tranquei até o dia acalmar.

Oswaldo Cruz

– Se você pensa de uma maneira e todo mundo pensa diferente de você, é sinal de que você é quem está errada e deve mudar de idéia.

Foi meu pai quem me disse isso, nem lembro o porquê. Desde muito nova eu já devia me mostrar insubordinada e independente demais. Como não é difícil ser convincente pra uma criança, eu achei que aquilo fazia sentido e contei tudo pra minha mãe assim que as férias acabaram. Coisa que em poucos anos aprendi a não fazer, por causa do que contarei a seguir.

Ao contrário do que recomendam o bom senso e a psicologia, meus pais nunca tiveram pudores em nos envolver com a separação deles. Falavam mal um do outro na nossa cara, nos usavam pra mandar recados, éramos seus intermediarios nas brigas por dinheiro. Principalmente minha mãe, que nem se esforçou pra agir diferente. Imagine, dentro desse contexto, se ela poderia ouvir uma “máxima” daquelas e deixar passar. Pra mostrar que meu pai estava errado e que é possível estar certo apesar de todos, em poucos dias ela apareceu com um livro.

Era um livro que contava a história da Revolta da Vacina, recheado de charges da época. Ela contou que no início século XX o Rio de Janeiro era a capital do Brasil e estava infestado de doenças; dentre elas a peste bubônica, varíola e a febre amarela. As autoridades não sabiam o que fazer, então resolveram chamar um grande especialista na Europa para cuidar do caso. Entraram em contato com Instituto Pasteur, lá em Paris, e receberam como resposta que a pessoa mais indicada para cuidar do caso já estava por aqui. Era um brasileiro, era Oswaldo Cruz.

Oswaldo Cruz era médico, bacteriologista, cientista, epidemologista e sanitarista. Ele sabia que a febre amarela era transmitida por mosquistos, então organizou Brigadas de Mata Mosquitos, que entravam na casa das pessoas pra desinfectar. Por saber que a pulga do rato transmitia peste bubônica, espalhou raticidas e ofereceu dinheiro àqueles que capturassem ratos. A população não achava que os ratos tinham culpa e passaram a criar ratos em casa pra vender pro governo. Para acabar com a varíola, ele criou a Vacina Obrigatória. Como as pessoas não aceitavam e não acreditavam na vacina, a polícia entrava na casa das pessoas e as vacinavam à força. Todas essas medidas tornaram Oswaldo Cruz impopular e fizeram com que a população ficasse revoltada. Fizeram protestos, falavam que a vacina fazia mal pra saúde, até apedrejamento houve. As inúmeras charges da época mostram isso.

Apesar de toda população estar contra ele, ou seja, apesar de ele ter uma opinião e todos dizerem que ela era errada, Oswaldo Cruz persistiu. “Imagine o quanto não deve ter sido difícil pra ele, com tanta gente reclamando, fazendo esses desenhos, falando mal dele”. A prova de que Oswaldo Cruz tinha razão o tempo todo apareceu mais tarde, quando as doenças acabaram. Depois disso as pessoas ficaram agradecidas, ele se tornou famoso no mundo inteiro e fundou um instituto que mais tarde recebeu o nome dele.

Oswaldo Cruz foi meu primeiro herói.

Os dez livros

Eu cheguei atrasada e encontrei a sala agitada, numa mistura de desalento e desespero. Era o primeiro dia de uma dessas matérias obrigatórias da pedagogia – a partir do terceiro ano, uma a cada semestre, para adquirir a licenciatura. Além de ser uma obrigação que cumpriamos de má vontade, me obrigava a jantar no R.U. duas vezes por semana. Provavelmente foi por isso que eu me atrasei. A professora me passou uma folha e soube que aquele agito todo era porque ela queria traçar um perfil da turma. Não lembro sobre o que eram as outras perguntas, apenas que uma delas era pra listarmos os dez últimos livros que havíamos lido.

Era por isso que a sala estava daquele jeito. As pessoas se consultavam, arrancavam os cabelos, puxavam coisas pela memória, não sabiam de onde tirariam aquela informação. Isso sem falar nas constantes perguntas – Não pode ser resumo ou comentarista? Não podem ser apenas capítulos? Não podem ser livros que a gente lembra, sem necessariamente serem os dez últimos? Eu não estava entendendo o problema, até um aluno gritar uma solução, exultante, para que todos pudessem se beneficiar:

– NÓS PODEMOS COLOCAR OS LIVROS DO VESTIBULAR!

Olha que naquela época nem se acessava a internet.

Samsara

Eu fui criada dentro de espiritismo; por isso, o conheço tanto quanto detesto. Foi da yoga que os espíritas pegaram o conceito de karma, também chamado de lei da causa e efeito: você faz algo e recebe de volta. Ao longo de muitas vidas, laços bom e ruins são criados, causando efeitos de acordo com o que fizemos. Por isso, quando um espírita encontra um inimigo, um mau caráter que o prejudica ou simplesmente alguém cujo santo não bate, conclui que ele é um desafeto da vida passada. E, como karma negativo, sua missão na vida é se entender com a pessoa, desfazer os mal entendidos e esgotar – quem sabe transmutar – esse rastro. Por causa dessa linha de raciocínio, kardecistas concordam com os católicos na sua visão sobre o casamento. Para as duas religiões, casar mal é um resgate doloroso que só pode ser desfeito com a morte. Idem a todos os outros que são problemas na sua vida. Me parece uma visão ao pé da letra e bizarra da pseudo-fofa frase de Saint-Exupéry.

No quesito crenças, eu prefiro o conceito de Samsara do budismo. Relações boas e ruins, dívidas e benefícios, num movimento perpétuo como de uma roda, têm a mesma importância: nenhuma. É como levar à sério jogos de crianças. Então, ao invés de tentar pagar karma e suportar heroicamente uma situação, um conselho budista seria: abandone a Roda de Samsara.

Fotos

Minhas fotos no Rio mostram que o Luiz tinha razão de se queixar de que eu estava magra demais (eu me sentia ótima). Talvez elas tinham imortalizado o único período em que não tive uma barriguinha, o que de certa forma me tranquiliza. Através delas comprovo o efeito sanfona que tenho passado nos últimos anos, e que – ao contrário do esperado – geralmente emagreço no inverno e engordo no verão. Os ombros que não estão mais caídos mostram que minha postura melhorou com o ballet. E meu casaquinho cinza? Pelas fotos dá pra comprovar que ele tem pelo menos quatro anos; e que o usei intensamente, da meia estação ao inverno. Nem preciso comentar o fato de ter muitas fotos em livrarias e parques e nenhuma (embora eu tenha ido em alguns) em casamentos. Em todas as fotos tenho marca de catapora na testa; meu rosto afinou consideravelmente depois que tirei aparelho e estou cada vez menos bochechuda… O mais interessante de tudo é perceber que, desde sempre, eu e a câmera apenas nos toleramos.

Feminismo

A não ser que você tenha sido criada para ser sempre uma boneca ou uma gostosa, não tem como não ser um pouco feminista. Dá pra perceber nos risinhos, frases incompletas, olhares condescendentes e clubes do bolinha que opinião feminina não vale nada pra alguns. Isso sem falar nas que afundam a causa ao acharem uma honra serem mulheres frutas ou Hooters. Existe tanta coisa boa na literatura feminista, tantas problematizações, tanta desnaturalização, um mundo inteiro de simbolismo a ser desfeito. É difícil ser mulher e não se envolver com tudo isso, não enxergar opressão em cada gesto e querer fazer a diferença. Algo grande demais pra nossas vidas ordinárias.

Tive uma amiga que estudou metade do curso de Ciências Sociais aqui e depois pediu transferência pra Santa Catarina. As duas universidades oferecem uma leitura bem abrangente sobre o feminismo, têm núcleos de pesquisa, tradição no assunto. Anos depois dessa transferência, passei uns dias na casa dela, justamente para ir a um congresso feminista. Um dia ela se abriu comigo, porque eu sou mais experiente e aquela coisa toda. Ela estava em crise. Longe da pudica Curitiba, ela fez amigos que saem, dançam, seduzem. Ela começou a se arrumar, a usar salto e seduzir. Um lado dela ficava feliz com os olhares; o outro se sentia traindo tudo o que lemos na faculdade, todo o feminismo. Seria correto ela se colocar assim, como mulher objeto? Eu disse que era uma bobagem, que era pra ela viver e se arrumar, que ser olhada e desejada é louco de bom mesmo. Ela ficou aliviada e disse que eu não sabia o peso que havia tirado das costas dela.

Vocês podem ter achado isso meio sem sentido, mas eu sabia exatamente o que ela estava passando.

Baú da leitura

Eu morro de inveja, de verdade, quando vejo as sessões de livros para crianças nas livrarias. Com sofás, bonecos, videos, cores, prateleiras recheadas de livros, e todas na altura delas. Na minha época, mal e mal tinha livro infantil. Criança ainda não era mercado consumidor. E ainda assim, aqui estou eu, escrevendo bem e amante dos livros. Porque de verdade mesmo, nada daquilo é necessário. Basta um livro interessante, um pouco de atenção e já está feito – os livros conquistaram mais um adepto. Por isso que o que eu realmente achei legal no Baú da Leitura foram os 100 livros que serão doados. Tem também mais material, oficinas e etc. Pra isso eu recomendo que você entre no post do Alessandro e veja como participar.

Estranhos

Não faz muitos dias. Eram umas 20h e ele estava andando perto da Reitoria, na direção oposta à própria casa. Não sei onde ele estava indo, se pra um dos cursos ou pra visitar o Alessandro. Porque eu sei onde ele mora, sei de algumas coisas que ele faz e só. Coisas distantes, quase como um rumor. Nem parece que ali houve um grande amor, a pessoa que me foi mais cara durante quase toda a minha vida. Nunca pensei que seríamos desses que se tornam adultos com um vago passado em comum, dois estranhos. Eu – só pra variar – sempre estive disposta a usar de todos os meios pra evitar a distância. Já ele nunca tomou a iniciativa de me ligar ou me mandar notícias. Antes eu não ligava, ou não percebia; hoje me pergunto se fui realmente amada. Um dia, há alguns anos, fiz algo que não o agradou. Algo que nem o envolvia. Ingenuamente, achei que ele ia querer me ouvir, conhecer o meu lado da história. Porque se um dia me dissessem “teu irmão matou alguém com requintes de crueldade”, eu diria “esperem, vamos ouvir o lado dele, tenho certeza de que existe uma explicação”. Não faria isso apenas por amor – eu depositava nele uma confiança infinita. Mas só eu depositava.

O sinal abriu e o Luiz disse brincando – “ponha a cabeça pra fora da janela e grite “André!”. Mas eu não o fiz, porque não tenho nada para dizer a ele. Nem seu nome.