Sim ou não

carmen miranda

Na imperdível biografia da Carmen Miranda, Ruy Castro conta que quando ela era bem novinha, trabalhou como vendedora numa loja de chapéus. Carmen era uma excelente vendedora; quando uma cliente estava na dúvida, bastava ela colocar o chapéu em si mesma. Se ver refletida no rosto encantador da Carmen convencia qualquer uma a gastar. O dono da loja – que era cara e tradicional – ficou muito apaixonado por ela, queria compromisso, tentou de todo jeito. Ela namorava um bonitão da alta sociedade e, como única retaliação possível, o patrão a fazia atrasar na loja para não conseguir encontrar com o namorado.

Eu fiquei me perguntando o que teria acontecido se a Carmen tivesse dado bola pro cara da loja de chapéu. Hoje, olhando em retrospecto, é absurda a ideia de Carmen Miranda, talvez a brasileira mais próxima do conceito de celebridade internacional que já tivemos, reduzida à esposa de um chapeleiro. Era uma loja tradicional, ele tinha dinheiro, ela não, ele queria casar, bom partido e etc. mas ela era Carmen Miranda, poxa! Quer dizer, ainda não era A Carmen Miranda, apenas o potencial dela. Eu imagino a Carmen – e aí está a visão que tenho de todas as escolhas que fazemos na vida, todas – naquela cabine com fones de ouvido, nos antigos programas que quando vê a luz o candidato deve responder sim ou não sem fazer ideia do que estão lhe propondo: você aceita trocar ser uma cantora mundialmente conhecida por um casamento por conveniência?

Anúncios

Mais um post com Günter Grass

guntergrass0000214600_005

Eu estava andando até o supermercado, pelo caminho único e de sempre e pensava, fascinada, no Linguado. Eu já tenho uma antiga teoria que ser judeu ou alemão ou, mais ainda, judeu alemão, já é meio caminho andado pra genialidade, e Günter Grass estava fazendo por merecer sua nacionalidade. Eu me perguntava que biografia gerava aquele tipo de bagagem cheia de mitologia, comida e história – sem dúvida uma vida com algo que a minha não tinha. Um carro passou na direção contrária, um vizinho andou pelo quintal e me senti a mais prosaica das pessoas e com o mais prosaico presente e passado. Eu ainda não sabia quase nada sobre Grass, não sabia do colega do colégio nazista que encarnava nas tarefas e no físico o ideal germânico, mas que não se cansava de decepcionar a todos porque deixa as armas caírem e dizia “nós não fazemos uma coisa dessas”. Ele foi o único, naquele gesto, a resistir e ser crítico em relação ao que estava acontecendo. Não sabia do cara que ficou com vontade de ir ao banheiro e, para que ninguém comesse a porção dele, tirou o olho de vidro e pôs em cima da comida. Jamais poderia imaginar que grande parte da paixão culinária vinha de aulas teóricas de um cozinheiro de campo de presos, porque as pessoas começaram a se organizar e dar e receber aulas para matarem o tédio. O chef dispunha apenas de giz e quadro negro, então os pratos eram feitos e a fome saciada apenas na imaginação. Não sabia que Grass tinha passado fome, se mijado de medo e dos muitos fatos biográficos que ele sem dúvida trocaria com gosto por uns mais prosaicos. Lembro de estava passando na frente do terreno da igreja, olhado para dentro e reparado na árvore cheia de folhas quando me dei conta que essa questão – da biografia insuficientemente interessante – era tão tola que não merecia ser colocada. Cada biografia é o que é, nada podemos fazer. Quanto mais recuada no tempo, ainda mais determinada por circunstâncias que fogem ao nosso controle. O que podemos fazer, o único que podemos fazer, escritores ou não, era exatamente o que eu estava fazendo naquele dia a caminho do supermercado: passar por ela todo dia, sempre, olhar, e de novo, ter certeza que conhecemos, relaxar nela, descobrirmos como floresce diferente no outono, amar e odiar, mas passando sempre, para sempre.

Borra que não pode ser extinta

G6un18379470_304

Foi quando escrevi sobre O Tambor que soube que Günter Grass chocou os fãs ao contar que fez parte da juventude hitlerista. Quando li aquilo, não tinha a menor intenção em me aprofundar no assunto; mas, quanto terminei O Linguado, percebi que não estava preparada para abandoná-lo, com a sua imaginação delirante, escatológica e engajada, e me vi pegando mais dois. A autobiografia me prendeu logo nas primeiras páginas. O mea culpa que ele faz é tão profundo, tão sem escusas, que fico surpresa dele ter “apanhado” por isso. A dureza com que Grass olha pro seu passado, ao se acusar de não fazer perguntas, se negando até a alegar que foi seduzido, me lembrou do livro (que inspirou o filme) O Leitor e alguns documentários que vi sobre a maneira como os alemães lidam com seu passado: o horror pela sua participação, a necessidade de olhar e o problema insolúvel da normalidade. Os mesmos avós e tios amorosos dos doces e natais em família participavam de um sistema que matava.

Eu não consigo culpar Grass com tanta dureza porque também me parece que me calo demais. Não tem Hitler, gueto ou câmara de gás, mas olha o que está acontecendo – esse golpe, essa corrupção, esse imenso absurdo de perda de direitos. Também diremos:

Palavras invocam outras palavras. Dívidas materiais e dividas morais, culpa, dívidas e culpa, Schulden e Schuld. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão arraigadas no solo da língua alemã e ainda assim as dívidas – mesmo que seja em parcelas, conforme faziam os clientes de minha mãe que compravam fiado – podem ser amortizadas com tanta facilidade ao passo que a culpa, tanto a culpa demonstrável quanto a oculta, ou mesmo aquela que é apenas presumível, permanece. Ela tiquetaqueia sem parar e mesmo em viagens a nenhures ela já se adianta para ocupar lugar aonde ainda nem chegamos. Ela diz-se ditadinho, não teme repetições de nenhuma ordem, faz-se esquecer, clemente, por algum tempo, e hiberna em sonhos. Permanece na condição de borra, ao fundo da xícara, não pode ser extinta em sua condição de mancha nem lambida até secar sua condição de poça. Ela aprendeu desde cedo a procurar refúgio em uma concha de ouvido quando confessada, a se fingir prescrita ou perdoada há tempo, menor do que pequena, como se fosse um nada, e então volta a se levantar de novo, assim como a cebola diminui, membrana a membrana, inscrita duradouramente nas peles mais jovens: às vezes com letras maiúsculas, outras, na condição de oração subordinada ou de nota de rodapé, de quando em quando perfeitamente legível, em seguida mais uma vez em hieróglifos que, se é que podem ser decifrados, podem sê-lo apenas com muita dificuldade. Para mim vale, legível, a inscrição breve:

Eu me calei.

Günter Grass/ Nas peles da cebola, p.31

Confissões sexuais de Darcy

darcy-ribeiro

Nas entrevistas e documentários já dava para perceber que o Darcy Ribeiro era chegado em sexo, mas eu achei que nas Confissões ele teria pudor em ficar falando as mulheres com quem dormiu. Ingenuidade a minha. Acho que a nossa tendência, hoje, anos dois mil, movimentos feministas e de minorias, é achar ruim. Ele argumentaria dizendo que são confissões, é a vida dele, e sexo faz parte da vida. Não julgo como certo e errado porque me parece uma postura de geração; imagino perfeitamente meu pai falando (e sim, muitas vezes preferiria que ele me poupasse), lembro da autobiografia do Neruda onde ele conta, como se fosse uma coisa muito bacana, de quando estuprou uma nativa (isso mesmo que você leu) que recolhia o lixo dele. Em certos momentos o Darcy citar mulher tem a ver, em outros não, às vezes é pura vantagem e constrange, noutras… cara, teve essa daqui que me fez rir muito. Dica sexual do tio Darcy, anotem:

Vive em Paris uma das mulheres que mais amei. Ela nasceu de uma família francesa na Argélia e nós nos encontramos muitas vezes no México, em outros países e também em Paris. Devo a ela um amor elaboradíssimo, de tradição árabe, de que eu não fazia ideia. Primeiro, a sabedoria com que passávamos de sala em sala de seu apartamento. Cada uma delas com incensos de odores diferentes, maravilhosos. Comendo doces ou tomando licores para nos esquentar. Depois a cama, em que ela era uma das mais prodigiosas mulheres que conheci. O melhor mesmo é que, quando acabávamos de amar, ela saía e voltava logo depois com a toalha embebida em vapor. que punha em cima das minhas partes. Aquilo me descansava e me realentava para novos volteios. Nunca via coisa mais formidável. Aconselho minhas amigas todas a tentar com seus amores esse exercício, que realmente é uma lindeza. (p.218)

Nelson Rodrigues

nelson-rodrigues

Sem dúvida não era fácil ser Nelson Rodrigues. Além de ter tido uma história pessoal difícil, cheia de tragédias familiares, o seu estigma de pervertido é tão forte que recai até sobre quem lê sobre ele. “O que te levou a ler a biografia do Nelson Rodrigues?” – ninguém se interessou em saber o porque de ler a do Jango, Carmen Miranda ou Chatô. E a resposta, antes que vocês maldem: Ruy Castro.

Pois é, virei fã do homem. Olha só como em poucas frases Ruy Castro nos coloca todo contexto e nos faz entender Nelson Rodrigues de forma diferente:

No Rio em que se passam as histórias de “A vida como ela é…” – o dos anos 50, quando elas foram escritas -, não havia motéis, nem pílula e nem a atual liberdade absoluta entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicações com a paradisíaca e permissiva Zona Sul, ainda preservava valores contemporâneos da (gripe) “Espanhola”. As famílias eram rigorosas e, o que é muito pior, muito mais famílias moravam juntas do que hoje. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma faísca inevitável. (p.237)

Se serve de consolo: ele e a família sofreram muito com a história de toda mulher gostar de apanhar. A esposa, com fama de quem apanhava, e os colegas dos filhos perguntavam se a mãe deles já tinha apanhado aquele dia.

Aurora

carmen2624

Vi referência à Aurora Miranda como uma injustiçada, uma cantora muito boa que não tem o reconhecimento que deveria por causa da irmã. Mas quando a gente lê a biografia da Carmen Miranda, não fica com essa sensação ruim. Carmen sonhava em casar e ter filhos. A princípio, ela não conseguiu casar porque namorou homens de uma condição social superior à dela, e como simples cantora não estava à altura. Depois, quando se tornou Carmen Miranda, não conseguia ser levada à sério, era estrela demais. Acabou casando com o único homem que lhe pediu, uma bela porcaria que provavelmente só queria dinheiro. O amor pelas crianças a levava a ser madrinha de todos que podia e adotar de coração os filhos dos amigos e qualquer criança que lhe aparecesse na frente, mas quando finalmente tentou à sério não conseguiu levar a gravidez adiante. Aurora fez menos sucesso que a irmã, mas fez sucesso, pegou carona e aproveitou bastante, com direito a filme do Walt Disney e show nos EUA. Não uma carreira histórica, mas deu pra sentir um belo gostinho – e casar, ter filhos, ser saudável e viver uma vida longa. Sucesso quase nunca é o que dizem.

Carmen

Estou louca pela Carmen Miranda e só não houve uma grande onda de retorno à Carmem porque as pessoas não leem tanto assim. Porque Carmen vista pelo Ruy Castro merece. Ainda vou sentar e escrever direitinho sobre o livro, só falta terminar. Devo ter visto todos os (poucos) clipes dos filmes dela que tem no youtube e este é o que eu mais gosto. Tem o sotaque abrasileirado que a obrigavam a fazer, mas pelo menos não tem aquele modismo horrível de cantar em FF e ela já não precisava se afirmar tanto com a baiana de quilos de bijoux. É uma música bobinha e ela está fofa.

Uma das muitas curiosidades contadas no livro: o Brasil Pandeiro foi oferecido a Carmen na primeira vez que voltou para o Brasil depois da temporada nos EUA. Mas ela não quis gravar porque o samba exaltava demais a sua pessoa e era cheio de referências a ela, e Carmen jamais ficaria se gabando numa música. Olha como os versos mudam depois dessa informação:

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

Está dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará

Na casa branca já lançou a batucada de ioiô e iaiá

PS: Eu já vi tanto esse clipe que fico reparando nas pessoas do fundo. Elas estão genuinamente maravilhadas. Não é todo dia (onde mesmo está essa citação?) que surge uma mulher que consiga ser ao mesmo tempo linda, engraçada e querida.

Pudor

troche

Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Curtas do bode lendo

bode lendo

A atual temporada (6º) de Game of Thrones ultrapassou os livros e estou achando ótimo. Eu comecei vendo a série, corri e li tudo, e a partir daí foi aquele inferno: no livro não é assim, não é esse personagem que faz isso, cadê tal cena?

.oOo.

Não vou soltar spoiler, mas A Morte dessa temporada mostra o quanto vamos nos dessensibilizando. Eu já estava numa atitude de: pode dar bebê pra cachorro, cortar cabeças, esfolar, nada mais me choca. Mano, eu estava errada.

.oOo.

A biografia do João Goulart escrita por Jorge Ferreira é uma das mais deliciosas que li nos últimos tempos.

.oOo.

Acho que tudo começou com Chatô. Ele me levou a Samuel Wainer, que me levou à mulher dele, Danuza Leão. Todos os caminhos levavam a Getúlio, mas a escrita de Lira Neto não me envolveu. Suzi fez com que eu também me apaixonasse por Darcy Ribeiro, que fala muito do Jango. Estão na lista: Carlos Lacerda (será possível gostar desse homem?), Leonel Brizola e JK. Em comum: todos se conheceram, influenciaram-se mutuamente e ao Brasil. Estou apaixonada pela geração inteira.

.oOo.

Todas as minhas leituras agora são prejudicadas pela necessidade de ir no Google Imagens digitar os nomes das pessoas pra ver a cara delas. Quero ver a Neuza, irmã preferida do Jango e que mais tarde se tornou a Sra. Brizola; quero ver a cara de Hugo de Farias, que ameaçou deixar o cargo quando Jango assumiu o Ministério do Trabalho e se tornaria seu braço direito. Ou como é a bunda do gado Jersey, citada por Almeida Reis.

.oOo.

E você acha que quando é romance as coisas melhoram? Fico querendo quero ver que caras colocaram nas adaptações para o cinema. Numa dessas buscas descobri a loirinha bonitinha do Downton Abbey como Princesa Maria Bolkonskaya, de Guerra e Paz. Fiquei indignada, nada a ver.

Newton interno

shy batman

Que introvertido não leria isso sem se identificar com Newton?

Collins divulgou alguns trabalhos de Newton para diversos matemáticos, na Escócia, na França, na Itália. Enviou livros a Newton e apresentou-lhe questões: por exemplo, como calcular a taxa de juros de uma anuidade. Newton enviou-lhe uma fórmula para isso, mas insistiu para que o próprio nome não aparecesse caso ela fosse publicada: “Pois não vejo o que possa haver de desejável na estima pública, caso eu a conquiste e mantenha. Talvez isso viesse a aumentar meu número de conhecidos, algo que me empenho em declinar.”

James Gleick/ Isaac Newton: uma biografia, p.80

Acho que o problema é que todos nós que amamos a solidão gostaríamos de ser Newton. Que nossa recusa em aumentar o número de conhecidos, que a vontade de passar mais tempo trancado em si do que no mundo fosse a gestação de algo grandioso. Eu leio sobre o isolamento de Newton e penso que não poderia ser diferente, que a introversão e a genialidade eram uma coisa só. Pena que a relação entre as duas coisas não pode ser invertida… Eu não produzi nada, então as pessoas se veem no direito de me mandar sair da casca. E como posso justificar para elas – e para mim mesma – que não?

Newton pega ninguém

godfreykneller-isaacnewton-1689

Um trecho do wikipedia:

Newton, em seus últimos dias, passou por diversos problemas renais que culminaram com sua morte. No lado mais pessoal, existem biógrafos que afirmam que ele teria morrido virgem.

Falando assim até parece Newton chorava escondido de madrugada porque se sentia muito sozinho. Newton encalhado, frustrado, BV (boca virgem). Ah, parem. Assim somos nós, eu e você – quem manda a gente pensar em sexo, por isso que não descobrimos lei nenhuma. Pra mim é claramente incompatível, por pura falta de tempo e energia, que Newton tivesse as mesmas preocupações e frustrações que o homem comum. Sabiam que ele furou o próprio olho num experimento cientifico? Ele queria entender, queria saber se funcionava como uma lente. Claro que ele perdeu a visão daquele olho. Agora me diz se uma pessoa que tão ansiosa pelo funcionamento do olho é capaz de furar o seu próprio é normal, mediana.

Ele era humano, então não me arrisco a crer que ele fosse totalmente indiferente. Mas pense comigo, ou como ele: Newton obteve reconhecimento ainda em vida. Tinha prestígio, dinheiro, até que era bonitão, ou seja, devia ser bom partido. Não devia ser lá muito sedutor e bom de papo, mas naquela época isso não era pré-requisito. Claro que arranjaria facilmente uma esposa, bastava se propor. Acho que o problema se apresentou para ele da seguinte forma: se eu arranjar uma mulher, ela vai precisar de atenção. Ao invés de passar doze horas por dia fazendo minhas coisas, terei que dispensar algumas com ela. Terei que jantar na mesa. Terei que reparar no vestido, falar coisas bonitas e  – horror dos horrores – ter vida social. O pobre Newton aflito para calcular a mecânica celeste enquanto segura um canapé e ouve o sogro falar sobre galgos. Eu, que não penso nada importante, fico angustiada só de imaginar. Aí Newton decidiu que não era viável e afastou o pensamento, pronto.

 

Biografias

Jung foi o primeiro que me fez ver o contraste entre as biografias autorizadas das não-autorizadas. Na autobiografia dele, Jung diz que não tem o direito de expor certas pessoas e certos fatos e tal, e lá pelas tantas cita uma paciente que foi muito importante para ele, um braço direito. Depois, numa biografia, li que essa paciente viveu na casa dele com a esposa, como se fosse um casamento de três, e que evidentemente a Sra. Jung não gostava da moça. Pô, Jung, que hipocrisia, porque não contou que viveu com ela? Tem bem resolvido no processo de individuação, porque não falar claramente se na hora de fazer você não viu problema nenhum?

 

Agora sei como é. É um dos muitos sintomas de velhice, ao lado de ter empatia com pessoas idosas. Outro sintoma: quando conversei como meu irmão sobre a possibilidade de ir pro Recôncavo, e ele claramente torceu para eu ir, e me falou da aventura de morar sozinho, se arriscar, de ir para outra cidade. Coisa que ele mesmo faz, muito. Como explicar que o sentimento de aventura passa, como explicar o sofrimento e solidão totalmente novas de uma separação recente? Não tem como explicar, eu mesma não entenderia antes. Então não expliquei.

 

Tenho me sentido muito sensível à questão do amor. O amor antigo que nunca nos abandona, o amor que permanece apesar dos laços rompidos, amores inventados, a incapacidade de amar. Tenho acompanhado tantas histórias, tantos caminhos diferentes, justamente porque não existe uma solução. Sento na frente do computador e fico com vontade de dividir o quanto tenho aprendido nos últimos meses. Como detesto o tom de ajuda ou autoajuda, tenho me omitido. Porque não conseguiria falar sobre essas coisas sem citar histórias que não teria o direito de citar. Chega de magoar as pessoas com posts. Como Jung, me vejo no direito de falar de apenas mim, não dos outros. O que me faz pensar – lá vem uma frase de efeito – que a única maneira que eu teria de escrever certas verdades seria apelar para ficção.