A Vibrante Rotina dos Escritores

Cenas fortes.

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Siddhis

Na minha infância/adolescência, quando comecei a ler sobre yoga, soube que existiam siddhis. Siddhis são o que poderíamos traduzir por poderes. Com o desenvolvimento promovido pela prática espiritual, o yogui despertaria as capacidades latentes de seu corpo. Seria o despertar daquele pedação de cérebro inútil que todos nós temos. Então coisas como telepatia, conhecimento do universo, força descomunal e outras coisas “mágicas” seriam possíveis. Eu me perguntava, se pudesse escolher, que siddhi eu gostaria? Há controvérsias sobre esse assunto – para alguns os siddhis viriam de práticas específicas, para outros seriam o resultado do karma; os siddhis poderiam vir de acordo com nosso temperamento, sozinhos, ou como um trabalho para desenvolver aquele tipo de poder. De qualquer forma, pensar nisso é meio como pensar que X-Men a gente gostaria de ser. Sobre o meu siddhi preferido, a resposta veio cristalina: o que eu gostaria era que os bichos se aproximassem de mim sem medo, tal como São Francisco de Assis. Eu sempre achei fascinante pensar que os bichos se aproximavam dele sem que ele precisasse chamar ou domesticar, especialmente os passarinhos. Seria fabuloso se um passarinho, ao invés de sair voando quando me vê me aproximar a metros de distância, resolvesse se aproximar e pousar no meu ombro. Depois soube que isso não pode ser considerado um siddhi, isso não é um poder. É um sinal de iluminação, de que a alma se tornou tão pura, tão não-agressiva, que os animais sentem paz perto de tal pessoa e sabem que podem se aproximar.
Continua sendo a coisa mais bonita para se desejar ser.

Alguém

A Dúnia foi adotada de uma ninhada abandonada em frente a uma pet shop. Eu nem pude pegá-la direito no nosso primeiro contato – lembro das pulgas pulando enquanto eu a segurava afastada, na minha mão direita.Todos me dizem – os cachorros de rua são os mais fiéis. Fiel ela é, claro, e posso contar meia dúzias de causos lindos sobre o amor que ela tem à minha pessoa. Só que ela só tinha um mês de vida (não se sabe ao certo, claro, foram cálculos da veterinária), sempre tive minhas dúvidas do quanto ela reteve daquele período. Não sei se a grande ansiedade que ela tinha com o pote de comida vazio tem a ver com uma provável fome que ela tenha passado. Com ela nunca deu certo colocar comida apenas num horário, ela precisa estar com o pote sempre cheio, nem que seja para não tocar na comida. Dá pra ver que ela tende a economizar, a só terminar o que tem lá se tiver alguém em casa para reabastecer.
Uma coisa estranha que a Dúnia faz com relação à comida é de começar a comer quando tem companhia. Antes parecia coincidência, que íamos limpar o quintal ou catar folhas bem na hora do cachorro comer. Depois vimos que não é assim, que ela vê que vai ter gente por perto e começa a comer. Aí ela mesma fica dividida entre a comida e a necessidade de receber atenção. Basta ficar mais tempo na parte dela que a Dúnia come. É como se ela se sentisse segura. Como se agora que tem gente por perto ela finalmente pudesse fazer o que já queria antes, sem medo.
Às vezes me parece que essa história de arranjar namorado, marido e afins, é a mesma coisa. A gente quer uma presença.

O cara da armação inadequada

Eu e ele nos cruzamos quando eu não saio de bicicleta. Onde eu o encontro – mais próximo ou mais distante do semáforo – me diz o quanto estou no horário ou não. Na última vez o vi já dobrando a padaria, então apertei o passo porque já estava bem atrasada. O normal é que eu o veja bem na faixa de pedestres. Ele é daqueles tipos magros de ombros finos e rosto magro e fino cuja idade não sabemos determinar. Quando jovens, parecem velhos, e quando velhos parecem não ter chegado lá. Diria que tem mais de trinta e menos de cinquenta. Ele tem aquele tom de pele que aqui faz as pessoas se sentirem muito negras, muito pardas, mas que em Salvador seria considerado “você tá horrível, desbotado, precisa ir na praia pegar um cô(r)”. O cabelo baixinho e as sobrancelhas bem pretas. As roupas, sempre folgadas, tendem ao marrom. Não sei para onde ele vai, que tipo de serviço faz, eu adivinharia que tende a ser algo braçal sem ser pesado. 

Era pra ser apenas uma das muitas pessoas com quem cruzo por aí, sem nem registrar, mas sempre que olho pra ele aquela armação de óculos me incomoda. Fina pros lados, totalmente inadequada pro rosto. Imaginem, um rosto fino e comprido com uma armação fina e comprida pro lado – fica parecendo uma cruz. Para piorar o conjunto, na parte de cima, como se de plástico, um tom de branco muito forte que lhe dá um tom moderninho brega. Eu passo por ele e tem aquele branco gritando, dizendo que ou aquele óculos não foi escolhido pra ele, ou ele não sabe quem é, que rosto tem, que mensagem passa.

(Eu não deveria dizer isso, pra não estragar o post, mas da última vez que nos vimos eu vi que o óculos não tem partes de plástico. A armação é toda de metal e a parte de cima reflete a luz de maneira estranha. Ou seja, a crítica ainda é válida)

Sabedoria

Quantos de nós não fariam igual Peter Pan, se tivéssemos sabido o que nos aguardava a vida adulta. Crescemos e sentimos o mesmo de sempre: a mesma insegurança, o mesmo não saber para onde ir, a mesma solidão, só que na versão maior e mais séria. As atitudes maduras que vêm com a idade não são nada daquilo que eu esperava. Eu achava que com os anos as coisas parariam de me afetar. Sem me deixar afetar por elas, eu olharia para os meus problemas com calma e isso me levaria a tomar decisões sensatas. Pois bem, as coisas que doíam antes continuam doendo depois, só muda o formato. Não dói mais ser rejeitada pelo coleguinha interessante da 6º B, mas dói descobrir que o homem interessante que me olhava é muito bem casado e com filhos. Está tudo lá, igual ao que sempre foi. Se diante das dificuldades da vida eu não saio correndo aos prantos pros braços da minha mãe, é única e tão somente porque pega mal.
A não ser que a pessoa tenha se tornado um ser iluminado que saiu da roda de Samsara, a parte de olhar para os problemas sem se deixar afetar não existe. O que adquirimos é a experiência de já ter surtado, chorado, jogado as coisas pro alto, ter tirado satisfações, se vingado, sambado na cara e, depois de tudo, voltado a chorar solitariamente no quarto. Por causa disso, decidimos poupar todo trajeto e ficamos quietos no canto. Seguramos a onda, só isso. O que quebra não tem mais conserto, tem só remendo, o que não é o mesmo de nunca ter quebrado. Quanto mais cedo aceitamos – céus, odeio essa palavra, a-ce-i-tar! – melhor. A vida fica lá, impassível, esperando a gente parar de se debater e fazer birra na sessão de brinquedos do shopping. Então, ao invés de telefonar e dizer besteira, abrimos uma caixa de Bis. Pra não ficar remoendo pensamentos tristes, assistimos um filme. E por aí vai. O coração se desespera e acha que tudo está perdido, mas tentamos fazer com que a mente não vá atrás. Dizemos para nós mesmos o mesmo que diríamos a um amigo naquela situação. Tal como aconteceria com o amigo, não adianta muita coisa. Alivia apenas o suficiente para seguirmos adiante.
Aguardo ansiosamente (ops!) o dia que serei realmente sábia, sem dor, como deveria ser.

Algodão

Se me permitem um pequeno momento jabá, vocês não sabem o que perdem por não terem encomendado correndo, até acabar todo estoque, esta almofada de cachorro. Ela é feita com a parte macia do moletom virada pra fora, pra ficar ainda mais gostosa. Tamanho e textura ideal para abraçar na hora de dormir. Um dia me enfezo, mando a Suzi tirar do site e faço uma matilha inteira pra colocar na minha cama.
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Minha mãe sempre dizia: algodão. Copiei uns moldes antigos e lá dizia: algodão. Ginecologistas sempre dizem: algodão. Eu queria ser adulta e mulher casada moderna, e no início só comprava de lycra. Não me fez bem e fui obrigada a me desfazer. Hoje uso algodão com a consciência limpa, nada como não ter que impressionar ninguém. Se bem que no vestiário feminino, com aquele festival de lingeries, sempre me sinto a mais pobrinha. Se bem que a culpa nem é disso.
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Comprei um kit e fiz uma ovelhinha negra pra mim, coisa mais fofa. Ela tem perninhas de canela e é feita com uma lã especial, toda cheia de gominhos, igual de bicho de verdade. Está na cabeceira da minha cama. Patchwork é uma coisa tão linda que dá vontade de ter pela casa inteira, e viver numa grande casa de bonecas.
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Com a cabeça cheia de grampos, uso meu pijaminha confortável, como bolo de caneca e me estendo no sofá diante da TV, que preguiçosamente está quase sempre na Globo, por causa da novela. A bagunça na sala é de costura, a louça na pia é sempre pouquinha. Eu tinha uma festa, eu tinha um outro programa, eu tenho um amigo que já me ofereceu o consolo que eu precisar. Mas estou em casa, sentindo a delícia do cheiro do meu próprio sabonete e a maciez do meu próprio roupão de oncinha.

Água

Quando o rapaz veio trocar o gás para mim, e reparou que ele não era trocado há um ano, eu reparei no monte de sujeira, de folhas e restos de embalagens, que tinha logo atrás de botijão. Tive vontade de explicar que aquela área é impossível de manter limpa, por ser aberta, por pegar o lixo que não é lixo que chega com o vento, a terra dos vasos. Hoje estava esfregando com vassoura e água, deixando a área apresentável pro rapaz que veio há semanas e não vem mais. Esfregando daquele jeito, me lembrei do quiosque do condomínio do meu pai, da lavagem que eles faziam todo ano com “água de cheiro”. Fazer lavagens é uma coisa tão baiana e eu demorei para perceber. Assim como demorei pra descobrir que o carnaval é só terça e não um feriado que dura uma semana. Só hoje me dei conta que isso combina com o Feng Shui, que também atribui à água e à limpeza o poder de tirar vibrações negativas, de fazer a vida ficar melhor. Quando eu me pego limpando coisas que eu nunca limpei, porque eram função do Luiz, eu sempre sinto que estou curando a mim mesma. No início eu não via, depois eu via e não era capaz, agora me pego agachada, cato folhas, varro, tiro do lugar, esfrego. Quem diria, a cultura chinesa e a Bahia falando a mesma coisa – limpe que a vida melhora. Lembrei de outra água, de Foz do Iguaçu, um dos lugares mais fantásticos pra se conhecer no mundo. Eu conheço pouco o mundo, conheço apenas mais do que as outras pessoas o meu próprio mundo, mas os que viajaram bastante dizem a mesma coisa, que Foz é um passeio imperdível. No meio daquelas cataratas, que nos dão banho mesmo na passarela, é impossível não se sentir limpo, não se sentir liberto de tudo o que carregávamos antes de chegar lá. Fui para Foz de excursão, perdi tempo gastando e vendo coisas sem o menor interesse, e quando fui Parque Iguaçu pensei na perda de tempo, de que deveria ter passado todos os quatro dias lá. As pessoas deveriam peregrinar para aquelas águas como quem vai a um lugar santo, tanto para pedir quanto para agradecer. Na gira do Pai Maneco, as médiuns moviam os braços com ondulações de quem estava na água, aos pés de pessoas sentadas. Por que limpam só as escadarias do Senhor do Bonfim, perguntei ingenuamente. Porque é só lá que elas podem, o padre fecha as portas. Se pudessem, elas entrariam com balde em tudo, limpariam o altar, debaixo das cadeiras, jogariam água de cheiro pela igreja toda. Desde então sonho com baianas com baldes e água de cheiro, jogando água nas paredes santas, esfregando até empurrar tudo para a luz do dia.

Gordas

Quando eu comentei com o meu pai que as curitibanas usavam maiô até na praia, ele riu e disse “que ridículo”. Basta ir pra uma praia em Salvador pra entender o porquê do comentário: lá é o contrário, ninguém usa maiô. Da menina novinha com tudo no lugar, à avó de peito caído e cheia de estrias, todas usam biquíni. Aqui, entende-se que mostrar é um privilégio de “quem pode”, ou seja, que tem um corpo de revista. Quase todas as minhas amigas estão lutando contra o peso, e não colocariam um biquíni porque o corpo delas está quilos e mais quilos do que elas consideram mostrável. Das poucas que não estão acima do peso, muito pelo contrário, estão até muito abaixo do peso, acha que a coisa é muito diferente? Não, elas enxergam gorduras invisíveis e necessidade de esconder dobras que “insistem em ficar por mais que emagreçam”. O universal aqui é usar preto, como se a vida fosse um grande funeral. Vontade de mandar essa mulherada toda pro nordeste, pra elas descobrirem que corpo é corpo. E amando o que temos é muito melhor.

Domésticas

“No meu dia a dia eu uso tênis, mas pra acontecimento eu gosto mesmo é de sandália”. Esse filme é tão genial que não dá a impressão de ter sido escrito, e sim brotado. Primeiro devem ter surgido as domésticas, os depoimentos, o trabalho foi apenas o de costurar depois. A maneira de pensar, de falar, o desenrolar das histórias é tão característicos que é impossível não reconhecer ali domésticas de verdade. É de ver e rever pra decorar as falas.

Grande recomendação da Suzi.

Olhares

Quando eu era criança, dizia que não iria casar e nem ter filhos. Mantive a segunda promessa. Por não desejar casar, nunca fiz planos de vestido de noiva e festas, nunca achei que a pessoa casada fosse diferente da solteira. Então quando passei a usar aliança, estranhei a maneira como isso mexia com as outras mulheres. Elas não precisavam saber mais nada a meu respeito, como era e se eu me dava bem com meu marido – eu tinha marido, já era uma pessoa muito invejável. Mesmo que fosse um traste, pensar que eu havia conhecido um homem que me escolheu, que decidiu oficial e legalmente que eu para ele valia mais do que qualquer outra mulher no mundo, era motivo suficiente para me detestar.

 

Ok. Aí eu me separei, fiquei sozinha, deprimida, sem eira nem beira, tendo que começar do zero. Não tenho mais aliança, estou só. Não sou mais a escolhida de ninguém, e sim alguém que foi e não é mais. Sou o resultado de algo que acabou, o fracasso de um projeto de vida. Minha rotina mudou, passei a ter que andar mais de ônibus, me preocupar com dinheiro e um monte de outras preocupações práticas. Acabou a inveja, pensei. Como invejar a minha correria, a minha carga extra, o futuro tão incerto. Agora sou alguém de quem se tem, no máximo, pena.

 

Que ilusão. Agora eu sou invejável porque tantas querem se separar e não têm essa coragem. Porque estou começando de novo, porque estou em movimento. E para as casamenteiras eu não sou uma solteira, sou uma separada, o que tem muito mais valor. Os homens não vão me achar uma encalhada qualquer, e sim que um dia na vida um homem me escolheu, decidiu oficial e legalmente…

Olha, tá fueda.

Platônico, viu!?

Eu me refiro a ele como “minha paixão platônica” porque realmente não sei o nome do Fulano. E chamar de paixão é claro que é um exagero. Eu acho ele bonito, e tem alguma coisa no olhar dele que me faz ter vontade de conhecê-lo. A vida fica mais divertida quando criamos novelinhas, quando um lugar não é apenas um lugar que vamos por obrigação, e sim onde acontece alguma coisa. Ele é isso, minha novelinha. Penso se vou vê-lo, reparo onde ele está, o que está fazendo. Eu me pergunto, através dos poucos ou quase nada de dados que tenho, se ele gosta de rock, de carros, se trabalha na área médica.
Eis que fiz essa brincadeirinha de sempre, de buscá-lo com o olhar quando cheguei e tal. Estou conversando com uma amiga, e nos poucos segundos que nossas existências se cruzam ele fez algo que nem entendi direito, porque vi de rabo de olho. Ele veio na minha direção mais do que o necessário, digamos assim. Eu gelei. Acho que movi as engrenagens e essa não era minha intenção.
Não quero conhecer minha paixão platônica. Não quero descobrir que ele joga a culpa de tudo no PT, é torcedor fanático ou que tem filhos. Ô Fulano, ponha-se no seu lugar!

Rosas no ônibus

Tinha uma moça com um moletom de capuz, numa combinação de azul e rosa que me chamaram atenção. Aquele tom de azul com aquele tom de rosa me lembravam de algo específico e tinha dificuldade de saber exatamente de onde era. Até que me dei conta:

 

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Era tarde da noite. Pego ônibus sempre mais ou menos no mesmo horário, à noite. Posso dizer que conheço muita gente de vista. Uma vez entrou no ônibus um senhor que chamou minha atenção. Cinquenta pra sessenta anos. Rosto enrugado, um quê de nordestino, magro e emperdigado. Uma certa nobreza no porte. A expressão de tão séria era meio dura. Sapato e calça social meio gastas, pela gola se adivinhava que estava de camisa. E por cima de todo esse conjunto uma jaqueta cor de rosa clara, acinturada e muito chamativa. A estampa era geométrica. Pra completar, a roupa tinha um capuz, e esse capuz tinha pelinhos e era de um quadriculado cinza também feminino. Não entendi como um homem daqueles poderia usar uma jaqueta rosa que nem eu. Comecei a pensar que estava muito frio, ele sem casaco, e foi obrigado a usar a jaqueta de uma sobrinha. Um assalto, uma aposta, não sei. A expressão séria meio dura estava lá para provar. O homem sem dúvida estava morrendo de vergonha.

 

Uma semana depois o encontrei de novo no mesmo ônibus, e o sujeito estava com a mesma expressão dura e jaqueta rosa. Não entendo mais nada.

A voz

Eu tinha uma piada interna com algumas pessoas, tirada do filme Tiros na Broadway, que era dar aquele conselho maravilhoso nos momentos de dificuldade: faça o que tem que ser feito. Se a pessoa, burramente, tentar insistir – “Mas como assim, eu não sei o que tem que ser feito!” você repete, como quem fala diretamente ao seu eu profundo: faça o que tem que ser feito. Não falha nunca – como sacanagem, claro, não como conselho.
Igual ouvir a voz do coração, do eu superior, fazer a vontade divina, a parte de nós que seria mais sábia, que sabe o caminho para a felicidade. Falando assim é fácil, fazer o que nos faria mais feliz. Mas vai saber, no meio de muitas nuances e informações limitadas, o que nos faria mais felizes. Ou menos infelizes. Eu tento, eu juro que tento. Quando surge a situação concreta, é muito confuso: aquele meu esquecimento foi mesmo um esquecimento ou foi um sinal? Será que eu não consegui fazer porque não era pra ser mesmo ou foi uma forma de boicote? A dificuldade mostra que devo abandonar esse caminho ou estou apenas inventando um pretexto para desistir? E por aí vai. A linha direta com o coração parece mais um telefonema pra celular.

Gratidão

Assim como o perdão, eu sempre tinha entendido essa história de gratidão numa perspectiva religiosa. Devemos agradecer a Deus. Agradecer pelo pão, pela saúde, pela vida. Esses agradecimentos sempre me soaram muito Poliana. Hoje está fora de moda essa história de Poliana, que na minha época era uma expressão que queria dizer otimismo. Pois eu li o livro e tem uma passagem que é assim: ela vive numa família muito simples, e recebe presentes de um Fulano que passa de vez em quando lá onde ela mora. Aí o pai faz uma encomenda de natal, acho que uma boneca, e a Poliana espera ansiosamente por isso. Quando o sujeito finalmente chega, ele lhe trouxe um par de muletas. Aí o pai da Poliana lhe ensina o Jogo do Contente: ela deveria ficar feliz por não precisar usar muletas. Esses agradecimentos pelo que já temos sempre me pareceram uma versão sem graça do já sem graça Jogo do Contente.
Isso sem falar na possível punição. Uma coisa do tipo: agradeça a Deus o pouco que você tem, porque se você for ingrato ele pode te tirar até isso.
Minha vida mudou tanto que nem sei ao certo que exemplo citar. Uma amiga que sempre morou sozinha e ama morar sozinha, agora vai morar com a irmã e a sobrinha, e isso a tem deixado ansiosa. Já eu amava morar junto e agora estou só. “Morar sozinho é tão bom, acostuma tão rápido. Você lava a louça se quiser, se não quiser deixa lá. Fica quieto o quanto quer, se quiser falar com alguém é só telefonar”. Já eu diria que morar junto é tão bom, compartilhar é tão bom. Quando a gente mora sozinho, é sempre a nossa vez de lavar a louça… Eu prefiro apenas ter que falar quando penso em algo. Detesto telefonar, detesto num grau quase fóbico. Na prática, se eu me sentir sozinha com vontade de falar com alguém, ficarei só na vontade mesmo. Ou escreverei.
Poderia falar aqui do quanto tenho atravessado essa cidade a pé. Às vezes, como hoje, debaixo de chuva e com frio, por voltar tarde e o tempo curitibano ser louco. Tem também os dias que carrego o mundo nas costas – sapatos, necessaire, escova de dentes, livro, tecidos, tesouras, casaco, lanchinho. Poderia citar os meus almoços solitários, de sempre ter cozinhado mal e pouco, e agora me ver obrigada a enfrentar esse problema. Poderia citar um ou dois casos de términos de relacionamento que nem de longe chegaram à longevidade de um casamento de uma década, mas que as pessoas tem sofrido tanto que eu perto delas pareço estar de férias. Dá vontade de falar – “ah, menos! O teu caso nem se compara com o meu”, mas o que fazer se as pessoas estão sofrendo mesmo, muito, intensamente? Falar que elas não deveriam não faria diferença.
Minha amiga vai ter que descobrir as alegrias de compartilhar, assim como tenho descoberto os prazeres do egoísmo. Quem nunca casou tende a idealizar as coisas. Posso falar de cadeira: estar junto é bom, estar casado é bom, mas também é um empenho. Misturar a sua vida com a do outro sempre traz outros humores, famílias e preocupações. Ser só é mais fácil. Da minha atual rotina, sei que passar o dia andando às vezes é ótimo, outras vezes é menos ótimo. Contar calorias é algo que eu não tenho precisado, impossível engordar com tanto exercício. Na mesma situação que eu, certeza que teria gente choramingando por ser pobre e não ter carro. Na verdade, na minha situação, nego passaria o dia inteiro choramingando, por tudo. Choramingo é hábito, é vício, é postura de vida.
Não reclamo porque tenho me sentido feliz. Tem os dias difíceis, mas também tenho encontrado muita beleza, muitos mimos da vida. Depois do inferno daquelas primeiras semanas, ser capaz de me sentir bem dentro da minha pele já é motivo para agradecer. O que eu descobri é que estar grato nos torna mais felizes, e que nem é preciso colocar o divino na jogada. O grande lance da gratidão é o estar presente. É não olhar para sua vida pensando no que ela deveria ser – no que tínhamos e perdemos, ou no que gostaríamos de ter, ou no que achamos que merecemos ter – e sim no que é. E o que ela é hoje sempre tem um lado bom, basta procurar.

Oito garrafas e cinco pares de sapato

Imagem de Arthur Rackham (Undine)
Tínhamos um livro com contos de fadas tradicionais, histórias escritas há séculos. Nelas, a violência, a mágica e a moralidade são muito diferentes das histórias de hoje. Hoje o politicamente incorreto tenta encobrir instintos da qual se falava claramente antes. Lembro do quanto vibrávamos com o fim da história da Moura Torta, que teve como castigo ser queimada numa panela de óleo quente. Nesses contos, é muito comum o ou a protagonista ser duramente castigado por um pequeno erro, quase sempre motivado pela ingenuidade. Algumas vezes, não há mais o que fazer. Noutras, há a possibilidade de um exílio, de ser privado de tudo num período longo mas que finalmente chega ao fim. Só então chega o final feliz.

 

Não lembro da história, mas lembro até hoje da figura que acompanhava. A moça carregava uma madeira equilibrada nos ombros, e lá estavam as garrafas de vidro e os sapatos. Era alguma princesa que tinha feito algo de errado, e perdeu a riqueza e o príncipe. Como penitência, vagou sozinha pela floresta. A fada previu: enquanto não chorasse o suficiente para encher oito garrafas com suas lágrimas e enquanto não gastasse cinco pares de sapato de tanto vagar por aí, ela não seria libertada de suas penas. Eu ficava imaginado a princesa pegando a garrafa e colocando embaixo dos olhos cada vez que chorava. Quando chorou as oito garrafas e gastou os cinco sapatos, as coisas se desenrolaram sozinhas: o príncipe a encontrou, o feitiço acabou, ela foi recolocada no seu lugar.

 

O processo de luto me parece como isso, de chorar as garrafas e gastar os sapatos. Existe um tempo, o caminho a ser percorrido. Queremos tudo rápido, ainda mais no que diz respeito ao sofrimento. Queremos chorar um dia, dois, tá bom, três semanas, e já estarmos aptos pra tudo. Eu lembro que seis meses depois da morte da Maria Rita, o Roberto Carlos dedicou uma música a ela no show, e ouvi muitos comentários impacientes – “Ele está nessa ainda? Nossa, que coisa mais doente, já tinha que ter superado”. Tudo porque dedicou uma música! Imagine se tivesse chorado.

 

Eu tenho lutado não apenas para me recuperar, mas tenho lutado também com a minha impaciência. Com a minha vontade de estar nova de novo. Com a cobrança que faço por ter vontade de ficar quieta no meu canto, enquanto parece que todo mundo na minha situação estaria na balada, beijando muito. Tenho repetido pra mim mesma que recuar dois passos depois de ter avançado uns cinco está ótimo, porque ainda estou avançando. Há dias que estou ótima, produtiva, feliz, enquanto em outros eu lamento a vida ser tão longa e que não me faria a menor falta morrer agora. Há horas que simplesmente não sei o que fazer comigo. Talvez nada possa ser feito enquanto eu não encher aquelas garrafas e gastar aqueles sapatos.