Cachorros e crianças

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Eu tenho duas amigas que tiveram uma fobia por cachorros que agora está se transformando gradualmente numa tolerância. Elas sofrem muito. A minha vizinhança tem pelo menos três cachorros de rua e alguns que são criados meio soltos – hábito que me deixa com medo quando passeio com a Dúnia, mas sou obrigada a compreender porque meu cachorro durante a infância, o Flock, também era desses. Mas o que eu acho mais chato por elas é a pecha de pessoa cruel que quem não gosta de cachorros pode ter. Eu não as julgo dessa maneira porque tenho o mesmo problema por não ser fã de crianças. Acabo desenvolvendo um carinho muito grande pelos filhos dos meus amigos; quando imagino se um dia uma criança possa ser uma versão de um dos meus irmãos, já amo só de pensar. Mas meu amor por criança é assim, condicional. Sento o mais longe que posso perto delas em lugar público, julgo severamente os pais que levam crianças pequenas para espetáculo e não se retiram quando elas estão chorando. Eu só entendi o amor imediato que algumas pessoas sentem por criança com o amor por cachorros que a Dúnia abriu no meu coração. Estávamos passeando e o vizinho estava com um cachorro de seis meses, do tamanho da Dúnia, e fiquei doida com a cara de bebezão que ele tinha. Já fui de gostar de cachorro pequeno, os que lembram pelúcias, hoje adoro cachorro com cara de cachorro mesmo. Assim como os doidos por criança, quanto mais eles são eles mesmos, mais legal eu acho. Me mostra vídeo de cachorro uivando, batendo as patinhas no chão de ansiedade, apoiando-se nas patas da frente com a bunda empinada para trás, pegando a bolinha, enfim, qualquer gesto bem normal de cachorro, e eu vejo tudo e me derreto. Cachorro pintado de rosa, andando em triciclo ou imitando um humano ao andar de pé sobre as patas traseiras – detesto. Essas coisas podem fazer mal a eles e bonito é cachorro sendo ele mesmo. Hoje eu sei entender a profunda sabedoria que tem na umbanda ter uma linha de crianças, e que ela é a mais poderosa para limpar ambientes: coloca uma criança (ou um cachorro) num lugar e veja ele ficar automaticamente mais leve.

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Prazo

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Eu não queria ser atendida por ele, mas já que estava lá, tinha que inventar alguma demanda. Ele estava sentado num banco baixo, sem sapato e uma vela acesa enfiada entre os dedos do pé. Me envolveu com a sua capa, disse uma oração e perguntou o que eu queria.

-Eu estou esperando uma resposta. Foi uma carta que mandei no começo do ano.

Falei assim, carta, primeiro que é pra não dar muita pista e depois porque entidades não costumam entender os novos termos. Pois é, a gente duvida de um lado e acredita de outro.

Ele me deu papel e caneta, pediu pra eu escrever o meu nome. Olhou para o papel, soprou nele, passou numa vela, olhou. Tive esperança que ali ele me dissesse algo chocante, uma previsão, um tudo-vai-dar-certo.

-Em sete luas eu…

Fiz um cálculo rápido. Cada fase da lua dura uma semana, então sete luas cairiam em…

-Tudo isso???

Olha, pós-vida de exu também não é fácil.

A Gorda

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Ela odiava a ex do marido, e o sentimento era recíproco. As filhas adolescentes dele haviam ficado com a mãe, morando e do lado dela, e o ódio mútuo era tal que chegou a virar caso de polícia, com direito a B.O. Como ela odiava aquela criatura, a Gorda, como ela chamava. Que morresse, ela com as filhas, senão de colesterol alto, problema de circulação, embolia ou entupida com um chocolate, podia ser mesmo de acidente, câncer ou facada. Odiava a gorda, odiava, noite e dia. Um dia foi numa gira e o Preto Velho advertiu: ela rogava tanta praga na Gorda que uma hora ia pegar. E quem ficaria morando com as filhas dela em casa era ela. A partir de então, incluiu a Gorda nas suas orações.

Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

Um sonho bastante vívido

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Tive esse sonho há dez anos. Sei bem porque na época eu estava fazendo balé e a cena teria acontecido bem na rua da escola. É uma rua perigosa no centro da cidade, com bares e prostitutas. No sonho ela estava vazia, como se o dia estivesse nascendo. Estou perto da escola e na outra ponta da rua, andando em minha direção, vejo um homem de terno branco e chapéu. Ele vem com um passo suave e ele é muito elegante e bonito. Só que quando o olho dentro dos seus olhos negros, o que chama a minha atenção é a tristeza profunda que há dentro deles. Era uma tristeza tão grande que me atravessa e não consigo imaginar em que dor é capaz de machucar tanto. Ele continua andando e, à medida que se aproxima, percebo que sua pele é muito fina, tão fina que na verdade é transparente. Mais de perto, ele é apenas uma esqueleto com o paletó flutuando. Ele vai chegando tão perto de mim que seu rosto cola no meu, e quando vai me atravessar eu sinto uma mão na minha coxa. Era a do meu marido, dormindo ao meu lado, e acordo num susto.

Água

Quando o rapaz veio trocar o gás para mim, e reparou que ele não era trocado há um ano, eu reparei no monte de sujeira, de folhas e restos de embalagens, que tinha logo atrás de botijão. Tive vontade de explicar que aquela área é impossível de manter limpa, por ser aberta, por pegar o lixo que não é lixo que chega com o vento, a terra dos vasos. Hoje estava esfregando com vassoura e água, deixando a área apresentável pro rapaz que veio há semanas e não vem mais. Esfregando daquele jeito, me lembrei do quiosque do condomínio do meu pai, da lavagem que eles faziam todo ano com “água de cheiro”. Fazer lavagens é uma coisa tão baiana e eu demorei para perceber. Assim como demorei pra descobrir que o carnaval é só terça e não um feriado que dura uma semana. Só hoje me dei conta que isso combina com o Feng Shui, que também atribui à água e à limpeza o poder de tirar vibrações negativas, de fazer a vida ficar melhor. Quando eu me pego limpando coisas que eu nunca limpei, porque eram função do Luiz, eu sempre sinto que estou curando a mim mesma. No início eu não via, depois eu via e não era capaz, agora me pego agachada, cato folhas, varro, tiro do lugar, esfrego. Quem diria, a cultura chinesa e a Bahia falando a mesma coisa – limpe que a vida melhora. Lembrei de outra água, de Foz do Iguaçu, um dos lugares mais fantásticos pra se conhecer no mundo. Eu conheço pouco o mundo, conheço apenas mais do que as outras pessoas o meu próprio mundo, mas os que viajaram bastante dizem a mesma coisa, que Foz é um passeio imperdível. No meio daquelas cataratas, que nos dão banho mesmo na passarela, é impossível não se sentir limpo, não se sentir liberto de tudo o que carregávamos antes de chegar lá. Fui para Foz de excursão, perdi tempo gastando e vendo coisas sem o menor interesse, e quando fui Parque Iguaçu pensei na perda de tempo, de que deveria ter passado todos os quatro dias lá. As pessoas deveriam peregrinar para aquelas águas como quem vai a um lugar santo, tanto para pedir quanto para agradecer. Na gira do Pai Maneco, as médiuns moviam os braços com ondulações de quem estava na água, aos pés de pessoas sentadas. Por que limpam só as escadarias do Senhor do Bonfim, perguntei ingenuamente. Porque é só lá que elas podem, o padre fecha as portas. Se pudessem, elas entrariam com balde em tudo, limpariam o altar, debaixo das cadeiras, jogariam água de cheiro pela igreja toda. Desde então sonho com baianas com baldes e água de cheiro, jogando água nas paredes santas, esfregando até empurrar tudo para a luz do dia.