Três lembranças diferentes

parábola

Eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, na parte de internamento breve. Assim como tem gente que uma vez na vida tem um surto e se recupera, tem aqueles que voltam sempre, todos já conhecem. O Fulano era um deles. Já tinha uns sessenta anos e era um sujeito muito chato. Diziam que a família devia mandar pra lá por isso. Tinha alguns CID-10. Lembro dele abordar qualquer um pela manhã e mostrar os comprimidos que tinha: “Olha só, dez comprimidos, só pela manhã. Imagina como deve ser meu estômago”. E reclamava, reclamava, reclamava. Internar uma pessoa é uma nota. De um lado, a família não devia mesmo gostar da companhia dele. Por outro, eles pagavam. Quanta gente por muito menos é abandonada pela família ou trancada num quarto.

Há poucos dias eu fiquei louca da vida de uma pessoa mais jovem, mais endinheirada, mais amada, mais cheia de oportunidades vir choramingar pra mim, de novo. “Mas é que você é tão madura, tão forte, você lida com os seus problemas tão bem que me sinto muito à vontade de achar pouco de ter de sobra o que tem te faltado”.

Os dois casos me lembram uma história budista que ouvi na minha infância, de uma mulher que perdeu alguém na família e foi pedir para Buda trazer a tal pessoa de volta. Ele disse que a mulher lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma família que nunca havia perdido alguém, ele atenderia o pedido. A mulher bateu de porta em porta e cada família tinha uma história de perda pra contar.

Às vezes me parece que egoísmo, maldade e doença são uma coisa só.

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Extremo oposto

amigos mais talentosos

Hoje eu me pergunto se sempre foi tão impossível pra mim ter uma mente matemática ou se me falhou algo a mais, como aulas de robótica – um amigo colocou me contou que o filho lhe pediu pra fazer esta aula e achei incrível que exista. Sempre tive pra mim que matemática era a minha pior matéria mas, quando estudava em colégio particular, ela ser minha pior matéria queria dizer que eu precisava tirar 0,5 ou 1,0 para passar no quarto semestre, porque eu já estava passada em tudo no terceiro. Foi quando mudei para escola pública que degringolou, a física me caiu como impossível logo nas primeiras aulas. Mas, ainda assim, era apaixonada por trigonometria e gostava de voltar pra casa fazendo contas hipotéticas de logaritmo na cabeça.

Outra grande inveja minha é músico. Sempre tive pra mim que não os alcanço, que não ouço o que eles ouvem, que vivo num universo menor. Tenho um bom ouvido, sou afinadinha pra cantar, gosto de música clássica, mas não adianta, ninguém me convence de que eles não têm algo que eu não tenho. Minha impressão foi justificada quando li Alucinações Musicais – um livro incrível, principalmente pra quem for da área – e ele confirmou que o cérebro de quem estuda música desde criança se diferencia muito dos cérebros não-musicais.

Minha ideia pra uma encarnação posterior que realizasse o que não pude nessa é sempre foi que eu gostaria de nascer numa família que me colocasse diante de um instrumento desde cedo. De alguns anos pra cá, enfiei a matemática na fantasia. Ainda mais que música e matemática são bastante aparentadas, eno a fantasia ainda é bastante coerente.

Eu vi uma definição muito bonita sobre o auto-conhecimento; veio de um astrólogo, mas vale para tudo. Você nasce com algo na mão, digamos que um lápis. O que você precisa descobrir é o que fazer com ele. Você pode insistir em querer pintar uma parede ou esculpir uma pedra, mas se você usar o lápis para escrever ou desenhar, você vai muito mais longe na sua vida.

A vida é tão curta, então tem lógica que você descubra o melhor e vá atrás dele. Não me parece que a gente consiga fazer mais do que dois caminhos, quando muito. Mas, para além do que é fácil, existe também uma outra possibilidade: recusar o que lhe foi dado, fazer algo radicalmente distante. Por querer, para pisar em lugares desconhecidos de si mesmo. Até onde alguém que foi programado para A e B consegue se fizer Z?

(Às vezes lágrimas, amigos)

Eu chego mais tarde, me enrolo, é por querer.

Entro em silêncio onde todos conversam, pego as minhas coisas, evito contato visual, protejo o rosto pela porta do armário aberta. Todos notam minha chegada, mas é raro que tenham tempo de me dizer qualquer coisa, antes de eu mudar de ambiente. Quando estamos a sós, já vi os assuntos mudarem assim que eu chego, numa consideração inesperada; mas se chego cedo demais, e as pessoas conversam livremente, não tenho mais esse privilégio. Eu canto. Canto baixinho, para mim mesma, a música que está na cabeça. Ou mantras. Chegam até mim vozes confusas, capto uma palavra ou outra sem querer. Mas principalmente me chega o tom. Vozes que atingem agudos de indignação, onde são sempre os outros os culpados. Sabem tão pouco e ignoram meu gosto de tal forma que não acreditam quando eu digo que gosto quando o sensor não capta a minha presença e fica tudo escuro. Passam lá e acendem a luz à minha revelia. Deveriam perceber que eu poderia facilmente erguer um braço ou abrir uma porta e nunca o faço. Pelo contrário, eu fecho os olhos para ficar ainda mais escuro e mais íntimo, curto os segundos de privacidade que me restam. Nunca consigo escapar de todo, me esperam. Se contasse que já cheguei a me enrolar durante uma hora inteira e me esperaram. Já estou habituada a me trocar de pé, num cuidado que tive desde o começo por ter notado o quanto os territórios são importantes. As pessoas me têm simpatia. É muito difícil que não me tenham, é minha sina: sou a querida cuja opinião não se leva a sério. Tento me esconder atrás da porta do armário, na proximidade do espelho, em todo meu ritual de me arrumar bem longe, mas nunca me deixam entrar e sair sem falar nada. Alguém se aproxima, me olha nos olhos e me pergunta algo. Me toca, sorri. Pede uma dica, fala de roupa, do tempo. Às vezes é tão sem propósito que fico até sem graça. Fazem isso porque sabem que eu não poderia deixar de ser gentil. Gostam de mim porque sabem que sou gentil. Porque já me flagraram com paciência infinita e carinho por pessoas de quem ninguém gosta muito, sem a menor vantagem e sem saber que me assistiam. Gostam de mim porque sou gentil, porque acho que todos merecem respeito, mas é essa mesma gentileza que nos afasta. Minha gentileza se indigna em pensar em idoso pobre recebendo 400 reais mensais. Minha gentileza não me permite achar tudo bem que gay tenha que andar com cuidado, que negros sejam alvo da polícia. Eu sei como pensam e a maneira como nada do que tem acontecido sequer roça suas peles me choca. A indiferença dos bons, limpos, bem nascidos e de bem me choca. A maneira como as paredes tremiam com o ódio quando falavam que o Lula deveria ser preso e agora tudo está em paz. Gostam de mim e talvez seja bom que gostem, sem dúvida é mais fácil viver assim. É justamente a postura de querer criar mundos puros que nos torna um país tão desigual, então também não me sinto no direito de dizer que não devem. Mas eu me enrolo e me sinto tão longe.

se tiver uma chance

Alguém comenta

codigo de barras

Já me falaram várias vezes, com diversos argumentos e por motivos diferentes, para compartilhar algum conteúdo por vídeo. E eu até tentei, pensava um pouco, e no fim acabava não fazendo. Gosto do anonimato da escrita, me sinto mais protegida. Sempre reconhecia a importância de usar outros veículos, mas fundamentalmente a minha resistência é geracional: sou velha, não sou da geração que gosta que nasceu se registrando por imagem o tempo todo. Aí estávamos numa roda e uma amiga me falou algo que eu já havia compartilhado no meu Facebook: tanta gente postando informações ruins, por ignorância ou interesse, e pessoas que poderiam ter algo a dizer não dizem nada, “precisamos ocupar esse espaço”. Eu compartilhei, achei lindo, e pensei nos muitos amigos professores, pesquisadores, escritores. Não pensei em mim. Lembro ainda que o texto que eu compartilhei dizia: tudo bem que você não tenha uma grande audiência e o seu post/vídeo seja visto pela sua meia dúzia de amigos, já é mais do que se ele estivesse apenas numa revista científica ou numa banca, já é mais do que guardar pra si. Nisso ela me fisgou.

Coloquei um vídeo na página At., Caminhante do Facebook. Não sei se tenho fôlego pra muitos. Não pretendo falar de mim e sim recomendar o que me chamou atenção. Não dá pra colocar vídeo aqui, nem pra dar um gostinho, porque a plataforma não oferece isso para quem não paga pelo domínio. Ou seja, vão ter que passar lá e seguir a página pra ver…

Nascimento especial

indian chart

Já comentei que a astrologia védica não tem essa de dizer que todos os signos são bons, que todas as diferenças são válidas, etc. Eles julgam na cara dura. E fazem afirmações que a astrologia ocidental jamais teria coragem de dizer, tanto boas quanto ruins – que alguém tem tudo para ser famoso ou que jamais vai conseguir se sustentar e vai viver de favor pro resto da vida. Vi num fórum um desesperado porque queria confirmar que seria famoso e os dados dele não indicavam isso nem com boa vontade. A gente lê comparando os indícios como próprio mapa e descobre, como disse um dos astrólogos que eu sigo, que não é grandes coisas. Yogas lindas, grandes sinais de que a pessoa é iluminada ou que vai deixar sua marca no mundo e nenhum conhecido tem. A védica joga na cara que você é medíocre.

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Pra eles o horário exato de nascimento é ainda mais importante, porque eles dividem o mapa astral em vários pedaços e geram outros mapas astrais. Os indianos vêm a hora, minuto e segundos do nascimento, coisa que ninguém aqui tem registrado. Pelo meu horário de nascimento na certidão, eu tenho meu ascendente nos primeiros graus de áries. A união entre os graus finais de peixes e áries (câncer e leão, capricórnio e sagitário) é o que eles chamam de ponto gandanta. É como um buraco, a união nada suave entre um signo de água e de fogo. Enfim, é especial. Aí fui pesquisar meu possível nascimento especial. No google: gandanta born.

A crença é quando a vida se cristaliza em certo ponto, então nós viajamos em direção à manifestação mais elevada da alma e da consciência. Temos que passar por um momento particularmente difícil para preparar nossas mentes para o próximo passo na jornada de nossa alma. Se você nasceu em algum dos gandanta, pode esperar algumas dificuldades espirituais neste nascimento. Uma falta de apoio, uma sensação de transformação.

Um, não tão legal. Outro site:

Nascimento em Gandanta é uma das muitas falhas que podem acontecer no nascimento ou em um evento. Dependendo da natureza dos Gandantas, diferentes Shanti Upayas (Remédios) precisam ser realizados, caso contrário, pode haver perigo para a vida do recém-nascido.

Eita.

Phaladeepika 13.9: Se um parto acontece no extremo de uma Rasi que é ocupada ou aspectada por um planeta maléfico, a criança certamente encontrará sua morte imediatamente. Se o nascimento ocorrer em um Gandanta, o pai, a mãe ou a própria criança morrerão. No entanto, se a criança sobreviver, ele se tornará um rei. Se nascida na junção de qualquer um dos quatro quadrantes, idêntica à conjunção ou aspecto de um maléfico, a morte da criança acontecerá em breve.

Eu tô viva e já na Terra faz tempo, então pra mim foi bom.

Gandanta no nascimento do dia chama-se Pitr gandanta (perigo para o pai), enquanto Gandanta no nascimento noturno é chamado Matr gandanta (perigo para a mãe).

Poxa, gente.

Enquanto Chandra é o governador da mente e do corpo (psico-somático), Lagna é o governador da inteligência (Dhi). Assim, enquanto Rasi Gandanta afeta a saúde, longevidade e sustento, Lagna Gandanta resulta na perda de inteligência, desde que o Lagna ou o Lagnesha também sejam afligidos.

Me chamou de burra na cara dura.

Aí, num outro trecho, diz que se a pessoa nasce durante Abhijit Muhurat não é tão ruim assim. Nunca tinha visto o termo e fui pesquisar. Abhijit Muhurat é uma média do horário entre o nascer e o pôr do sol e cai geralmente entre meia noite e uma da manhã. É um horário sagrado. Aí eu pensei: oba, nasci em Abhijit. No google: Abhijit born.

Pai ou mãe tendo alguns problemas após o nascimento da criança, pelo menos, dentro de 3 a 5 anos de nascimento da criança. Como a dívida de negócios, a perda de pais de problemas de saúde da mãe, alguma grande doença encontrada. Tudo depende do horóscopo de três pessoas, precisamos analisar. Mãe pode enfrentar problema de saúde mental ou saúde física, na maioria dos casos eu vejo problema de saúde na mãe. Este não é um problema de saúde geral, é um grande problema ou qualquer doença anterior voltar ou aumentar em doenças anteriores. Caso pai, eu vejo muito provavelmente questões financeiras e relacionadas à carreira. A maioria dos casos no horóscopo Pai e Filho não é compatível entre si, então com um impacto negativo na Carreira [Finanças etc].

Melhor deixar pra lá essa história de gandanta, que tal?

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No whats, com uma amiga também cheia de gandanta no mapa:

Eu: andei pesquisando sobre os gandatas.

         Falam mal à beça da gente.

Ela: [Falam mal à beça da gente] Isso é fato.

Nostradamus para formigas

nostradamus

Pense numa pessoa observando um caminho de formigas. Ela vê um obstáculo alguns centímetros depois das formigas que estão vindo, quem sabe logo depois de uma curva. A pessoa sabe a maneira de proceder das formigas, para que direção elas estão indo, o que tem adiante. Se a pessoa fosse capaz de falar com a formiga, ela lhe diria: daqui há algum tempo, você vai encontrar um obstáculo. Para a formiga, isso pareceria um futuro, mas para a pessoa é como se o fato já estivesse acontecendo, porque tudo é simultâneo na visão dela: formigas, caminho, obstáculo. Por isso que, pelo menos em teoria, prever o futuro me parece possível. Não só pela questão de ver as coisas num ângulo mais amplo, mas também pela previsibilidade humana. Se estou nos chamando de formigas? Estou sim. É raro que alguém cujos antecedentes você conheça bem seja capaz de um ato surpreendente. Mais ainda se pensarmos num surpreendente para melhor – quantas pessoas conseguem agir para além dos seus condicionamentos e agir de forma ousada, apostando em algo que elas não fazem a menor ideia do que vai dar? Gostamos de pensar que somos assim, livres para agir de uma maneira imprevisível a qualquer momento, mas basta pensar numa situação bem concreta com alguém que você conhece e a resposta vem fácil: se Fulano achasse uma carteira na rua, se Beltrana ficasse trancada a sós com seu ídolo, etc. Seria como esperar que a formiga de repente saísse da fila, abandonasse as companheiras, se perdesse espontaneamente; formigas vão para frente ou para trás, elas não saem do caminho (acho que formado por cheiro) por onde sempre andam. Humanos, assim como as formigas, agem dentro de padrões bem limitados. Nas poucas vezes que humanos surpreendem – agora sim serei pessimista -, eles o fazem quase sempre na escolha mais pobre.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Meio história, meio pitaco

luzes balada

Eu estava fazendo faculdade e fazia estágio numa clínica psiquiátrica. Fazia plantão no sábado de manhã. Tinha enfermagem, residente de psiquiatria, funcionários. Eu gostava de fazer esse horário porque era o mais calmo: não tinha mais nenhum estagiário e os pacientes passavam quase o meu plantão inteiro dormindo. O problema era, basicamente, acordar cedo num sábado. Eu saía antes do almoço. Fazia faculdade, não tinha grana e nem tempo pra nada, sempre fui calma e de poucos amigos. Meus fins de semana eram basicamente para adiantar os trabalhos, ver TV e dormir um pouco. Aí lembro do final de um plantão, que tinha um médico novo e gatinho, e eu me despedi dizendo algo como: “agora vou sair e aproveitar muuuuito meu fim de semana”. Aproveitar muito era dormir. Mas eu percebi que ele meio que se encolheu, ficou inseguro. Como se eu vivesse intensamente, uma vida de sexo e festas que ele não tinha acesso. Devia passar os fins de semana dormindo e vendo TV também.

Lembrei disso quando uma amiga que estava visitando a família no interior postou um history com foto dela numa balada. Era uma foto antiga, mas quem visse ia pensar que ela estava saindo naquela noite. Já cansei de falar aqui que estou muito longe de ser um caso de sucesso em termos de relacionamento, ninguém nem me pergunta nada, acham que só posso já ter me casado por milagre (e eu concordo). Mas se fosse dar um pitaco, eu diria que faz mais falta quem se mostra comum do que jogar uma imagem de sucesso intimidante.

Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

Velhos, feios e amados

cachorro velho

Eu nunca tinha acompanhado o envelhecimento de um cachorro como agora. Nós tivemos o Flock, que morava com meu pai, e ele havia se acostumado a passar mais tempo fora do que dentro de casa. Eu lembro quando meu irmão me disse, por telefone, que o Flock havia morrido. Lembro de ter sentido muito, mas pra mim foram umas férias que ele estava lá e outra que ele nunca mais esteve. Sempre me deu um certo calafrio as fotos dos cachorros com os olhos azulados. Os donos falando no diminutivo e com carinho de cachorros já tão feios, acabados. Agora que tenho uma velhinha em casa, não sei dizer se ela já chegou no estágio de alguém olhar uma foto e se sentir mal, acho que ainda não. As fotos são porque nós, donos de cachorros, só vemos ali o nosso filho peludo muito amado. Quando um cachorro deixa de ser louco, se divertir com tudo o que aparece pela frente e disparar frente a qualquer provocação, passamos a amá-lo ainda mais do que antes, porque tomamos consciência de que cada dia a mais com ele um presente. Vemos ali uma história.

Eu me pergunto que hiato tão grande de amor é esse que nos faz amar cada vez mais um cachorro velhinho e fugir de pessoas velhas. De fotografar a decadência do cão com a maior naturalidade e lutar contras as marcas do envelhecimento humano com todas as forças. De trocar quem tem uma longa história por um “modelo” mais novo, que não terá nem tempo de formar tanta história com você. Enfim, como o coração pode ser tão enorme para com uma espécie diferente e cheio de barreiras, até mesmo de ódio, com aquele que nos é igual.

Curtas aventuras no app de karaokê

karaoke

Nem a pau eu conto qual é e qual o meu perfil lá.

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Como eu não fiz plano VIP, não posso começar uma gravação, canto sempre em gravações iniciadas pelos outros. Tem os perfis de burlar o sistema, que a pessoa disponibiliza como se fosse pra cantar em dupla e ela não canta a parte dela. Mas vou te confessar que gosto mais de cantar com os outros. Sei lá, me sinto mais acompanhada.

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Um dia um que elogiava muito minhas gravações, dizia que eu cantava muito bem, que minha voz é maravilhosa, me mandou uma mensagem privada. Eu achando que leria mais elogios e ele falou para eu não levar a mal, mas estava estragando todas as gravações dele porque não sabia ajustar o volume. Depois de me recuperar da ferida narcísica, fiz o que ele me aconselhou e as gravações melhoraram mesmo.

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Voltando ao cara, ele me elogiava. Não me mandava um agradecimento padrão, escrevia meu nome, fazia trocadilho com o que dizia na música, sempre me colocava pra cima. Como o ser humano é besta, eu ficava esperando a reação dele a cada gravação. Aí dei uma stalkeada básica e descobri que ele elogia todas as mulheres que cantam com ele. De vez em quando aparece uma mensagem que ele me mandou e elas colocam emoticon batendo palmas, ou comentam. Bem ciúmes mesmo. Eu só dou risada.

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Tem um português que só curte as gravações, não agradece como de praxe. Primeiro eu achei que ele não ia com a minha cara, percebeu o sotaque brasileiro, agora eles nos odeiam, essas coisas. Ou que era porque eu era uma estragadora de gravações alheias, com volume alto, e ele notaria que eu não estrago mais e passaria a gostar de mim. Depois pensei que era neura minha, que ele não deveria elogiar ninguém. Aí um dia estava vendo as gravações e percebi que ele elogia sim as outras pessoas, as portuguesas, ele só não manda mensagem pra mim. Agora eu o vejo e penso: “Vamu lá cantar com o português que me odeia.”

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Dia desses eu gravei Ovelha Negra com um dos meus preferidos, um cara de meia idade que canta sem medo de errar, qualquer coisa. Ele se soltar e cantar de tudo, mesmo sem ter voz ou errar no inglês me estimula a fazer o mesmo. Comecei a receber tantas notificações de pessoas curtindo a música, mais de trinta, que já estava me sentindo o novo fenômeno do aplicativo e achei que a qualquer momento surgiria o convite de uma gravadora. Que nada, ele é que tem 1655 seguidores. Minha gravação nem era das mais curtidas.

Dashas e vida de borboleta

zodiac copy

Se pegar um mapa normal de astrologia, normal digo ocidental, eu sei dizer mais ou menos quais são os trânsitos que estão acontecendo. Já a astrologia védica tem um cálculo tão diferente, que por mais que eu olhe, ainda não consegui entender a lógica. Fui em sites e procurei os tais dos dashas, e cada dasha tem os subdashas, digamos assim, que são as subdivisões dos períodos. Alguns duram anos, e começam no meu aniversário, outros duram meses outros sei lá daonde. Não foi nada bom saber que estou em Rahu-Saturno e as referências dizerem que une o mais temido com o pior. Preveem que eu procurarei um astrólogo, o que entendi que era outra forma de dizer: você vai ficar bem desesperada e vai pagar alguém pra te dizer o que está acontecendo. E, de fato, tentei procurar um astrólogo védico. Meu dasha temido e pior começou em 2017 e vai até 2020. Pensem na minha alegria ao ler isto.

Aí, CDF do jeito que eu sou, copiei tudo no word e transformei numa tabela. Período, quando começou, quando terminou e um espaço em branco do lado. Coloquei no espaço os fatos relevantes da minha vida, pra ver se entendo a lógica da relação entre os fatos e os períodos. Que.ex.pe.ri.ên.cia. A vida me bater na cara e me dizer que não sou importante já tem sido tão frequente que já chego protegendo o rosto, mas desta vez foi diferente. Eu me senti uma borboleta – nunca minha vida me pareceu tão curta e irrelevante. Anos e anos de espaços em branco, nada de realmente significativo pra registrar.

Nasci.

Mudança pra Curitiba.

Mudança pra escola pública.

Entrei na faculdade.

Terminei faculdade.

Atelier.

Casei.

Outra faculdade.

Flamenco.

Separei.

 

Omiti uma ou duas coisinhas muito íntimas, mas basicamente é isto. E se for pensar no que eu realmente decidi, no que manifesta meu livre arbítrio e decisões enquanto pessoa, são ainda menos itens. A gente toma uma ou duas decisões na vida, o resto é tempo perdido no trânsito.

O gramado

grama-esmeralda

Nunca mais olhei grama da mesma forma depois que Harari – posso quase jurar que foi no Homo Deus – contou brevemente a história dela. Grama é um símbolo de status. Lembre-se que antigamente quase a única profissão possível era trabalhar com a terra e a maior riqueza era ter terra. Imagine que alguém era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de ter um monte de terra inútil. Terra coberta de um verde que não serve pra nada. E que pra ficar bonito precisa de manutenção constante. E manutenção de gramado não é só cortar, precisa ver o mato. Antes de mudar pra casa, eu achava um crime que as pessoas tampassem a parte com terra, achava que se fosse eu, manteria tudo o que pudesse com grama e plantas. Aí você coloca a grama e com o tempo, por mais que você cuide, o mato se prolifera de um jeito que a grama original já não existe mais, você precisa arrancar tudo e trocar por uma grama virgem. Lembrei disso porque choveu e corri pra arrancar os matos que crescem na minha calçada. Mandei cimentar pra não ter trabalho e praticamente nasce uma forragem nova de mato todo mês. Corri porque finalmente choveu bem é quase impossível arrancar mato quando a terra está seca, de modo que esperei, vingativa e rancorosa, enquanto o sol castigava e eles se fortaleciam. E lá, acocorada e estragando minha coluna, me dei conta de que quem inventou a grama não arrancava mato.

Homem-Pisa e Quíron

quiron

Numa das muitas histórias dos pacientes descritas nos livros do Oliver Sacks – não sei dizer em qual – tem um homem que estava com um problema no centro de equilíbrio. Ele andava inclinado pro lado, as pessoas diziam que ele parecia uma Torre de Pisa. Mas pra ele, ele estava certo. Era mais do que um problema de equilíbrio, era um problema de propriocepção, porque o corpo sentia que estava certo um equilíbrio que estava errado. Então ele inventou uma barra em cima do óculos, um prumo minúsculo, que ele consultava discretamente quando olhava pra cima e se corrigia. Ele sabia que não podia confiar no que sentia e encontrava uma regulagem exterior. Talvez de tanto submeter o cérebro à medida exterior, quem sabe ele tenha se corrigido.

Antes eu achava que ser sábio, maduro ou terapeutizado era muito a mágica das palavras, como se ao ser exposto à luz, o que há de mal resolvido se alterasse, tipo uma reação química. Para algumas coisas, até reconheço que seja. Mas tem uns traumas que você conhece de cor, toma café com ele todas as manhãs e tá, e daí. Existe na astrologia contemporânea aspectos formados pelo asteroide Quíron. A história de Quíron, um centauro que é filho de Cronos e não sabe, divino demais para um centauro e ainda assim animal, ferido por uma flecha e incapaz de se curar ou morrer da ferida, é uma das lendas mais tocantes que eu já li. LEIAM AQUI. Quíron é chamado de “o curador ferido”. Quíron diz assim: você foi ferido e nada mais muda o que aconteceu, mas esta dor te torna apto a ajudar os que passam pelo mesmo. Já vi astrólogo dizendo que Quíron é o Quasimodo do zodíaco. Eu concordo.

Não some quando toma ar não. Quasimodo nunca ficou bonito e na história original nem ao menos fica com a mulher amada. Uma vez um amigo que ia fazer terapia disse que eu estava estragando o processo antes mesmo de começar, porque eu lhe disse que terapia não nos muda. Psicanalistas concordarão comigo. O que se aprende é saber o que está lá, que existe um pedaço torto e ele nunca será normal e é preciso seguir em frente e ser feliz assim mesmo. Que temos uma lente viciada e mesmo com toda nossa alma, lógica e razão gritar que estamos certos, pode ser que na realidade estejamos ridiculamente inclinados.