Etiqueta de divórcio

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Apareceu nas sugestões de amizade do meu FB uma carinha conhecida. Cliquei e ops, era o marido de uma amiga exibindo o status de “divorciado”. Ela, mais discreta, apenas ocultou o estado civil e umas fotos mais recentes de ambos sumiram. Eu seria hipócrita se dissesse que não sabia, apenas não sabia oficialmente. Talvez outras pessoas discordem de mim, mas acho até necessário que a notícia da separação percorra os amigos; eu fiquei bastante grata quando percebi que as pessoas sabiam e me cuidavam sem tocar no assunto. Os amigos saberem evita a tristeza de ter que verbalizar algo que ainda dói muito. Também deve ser muito chato ter que ouvir perguntas sobre o outro – que muitas vezes são feitas apenas por educação – e ter o dilema de responder como se ainda estivesse com ele ou ter que explicar. Algo que me surpreendeu foi não ter precisado me explicar. Talvez, novamente, devo agradecer aos amigos ótimos eu tenho. Se eu quisesse falar, eles me ouviriam, mas ninguém precisava ouvir os detalhes ou que eu os convencesse de que foi o certo. A verdade verdadeira é que separações são uma tragédia para quem vive e banais para os outros.

Pela parede

ouvir parede
Eu sei que faz um ano porque foi na véspera do natal, mas parece realmente que foi ontem. Eu estava me enrolando para dormir, sentada no sofá, quando os vizinhos do lado começar a brigar. O quebra-pau foi tão grande e durou tantas horas, que o pessoal que mora no lado oposto deve ter ouvido também. Basicamente, a mãe havia fuxicado o celular da filha e descobriu que a adolescente e o namorado tinham conversas picantes. Ela gritava, dizia que tinha vontade de quebrar a cara da menina, que ela tinha de lhe dizer tudo o que fez com o namorado. Eu morri de pena. Minha vontade foi gritar aqui da parede: “olha, já que estou ouvindo tudo, quero dar minha opinião também”. A mãe levou como uma ofensa pessoal a filha estar numa idade cheia de hormônios e sentindo desejo pelo namorado. Conversei com várias pessoas – fiquei muito tensa – e elas foram unanimes em dizer que é pior negar e proibir.

Aí, na véspera do réveillon, teve outro quebra pau. Este não foi tão claro, era um griteiro que incluía, pai, mãe e filho. Parece que a mulher mexeu nas coisas do filho, que já é um homem e ajudava nas contas. Olha, a mulher não é fácil, já falei dela mais de uma vez aqui. Eu sei que pouco tempo depois pai e filho foram embora. Não sei como ela está, eu sei que do meu ponto de vista de vizinha ficou melhor. Se ela fica em casa chorando, é baixinho.

Esta mesma vizinha me lançou o olhar mais maldoso de todos os tempos quando eu me separei. Vocês não fazem ideia, o ar de vitória com que ela me olhou. Entre uma coisa e outra deve ter o quê, quatro anos? Agora que ela se separou, de um casamento que sempre foi péssimo, sempre teve brigas; o meu era silencioso e terminou antes, pacificamente. Não sei se ela se lembra do dia que me encontrou logo depois e estava claro que eu estava sozinha. Claro que lembra, o olhar deve ter sido apenas a ponta de uma iceberg de opiniões e comentários.

Por isso que às vezes eu penso no futuro, me preocupo, depois paro e abandono. Você vai estar isso, você vai estar aquilo, vai ganhar tanto, vai trabalhar não sei quantas horas – são apenas rótulos. Ela se sentia vitoriosa pelo quê, por ter um marido? Hoje ela deve achar que perdeu tempo, que eu que sabia o que estava fazendo e estou quatro anos livre na frente. Não importa a situação e sim você, seu sentimento, dentro dela.

Pedras arredondadas

pedra rio

Durante muito tempo, eu considerei a minha ex-sogra como uma vilã do meu casamento. Com os anos as coisas foram anuviando, igual uma metáfora que eu vi que as pessoas que convivem são como pedrinhas numa garrafa, que de tanto se machucarem acabam ficando redondas. No final do processo de separação, eu lembro que olhei pra ela – deve ter sido no dia da assinatura do divórcio, ela estava de testemunha – e senti pena do nosso caminho juntas ter terminado. O mesmo sentimento de quando eu saí de casa para casar e sabia que dali por diante nunca mais moraria com meu irmão e minha mãe de novo. Eu mesma fiquei surpresa com o sentimento, porque nunca tive por ela o afeto de uma filha. Fiquei triste pelo ciclo que se encerrava. Fomos pedrinhas que se machucaram muito, detestaram ser encerradas na mesma garrafa, e no final se entendiam mais. Quando deixamos de conviver, eu vi que havia um tempo que faríamos parte da vida uma da outra, que teríamos algo a acrescentar à vida uma da outra, e que ele se encerrava ali para nunca mais – e eu sabia que passamos tempo demais nos detestando. Tenho certeza que com a nova nora dela, ela pegou muito mais leve e demorou bem menos para mostrar seu lado agradável; da minha parte, se um dia que voltar a ter uma sogra, cederei muito mais do que cedi com ela. Quem sabe o legado que tínhamos para deixar fosse esse. O que me tocou muito foi ver que, tivéssemos cumprido ou não o que tínhamos que cumprir, o nosso tempo havia acabado. Agimos como se as coisas fossem durar para sempre e na verdade o mais comum é que durem pouco – cinco anos, uma década, muito raramente duas décadas. Cada um segue a sua vida, esse evento único e complicado; algumas pessoas andam alguns metros do nosso lado e depois se vão. O ideal é que seja caloroso, o ideal é que sejam boas lembranças. Nós não temos obrigação de ficar, os outros têm o direito de partir.

Uma coisica

vendo tv

Sabe aquelas lembranças que chegam sem motivo e te bate uma luz? Mais: sob esse luz nova você percebe algo que te passou batido na época. Adoro uma tirinha do Macanudo (procurei aqui e não tenho) que ele, andando de bicicleta, se dá conta que a menina que dançou com ele no primário queria um beijo.

A lembrança que tenho para contar não é fofa, mas é o que tem para esta noite de pouca inspiração. Poucos meses depois de ter me separado, ouvi que “quando a pessoa está deprimida ela fica na frente da TV se enchendo de salgadinho”. Eu não percebi que a que me disse isso estava vendo nas minhas roupas caindo – porque eu fiquei esquelética – um sinal de que eu estava ótima, não estava sentindo nada.

 

Um Eu melhor

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Eu acho que os textos estão melhores e sem dúvida hoje eu sou muito mais independente. E intransigente. Aprendi a não precisar dos outros para minha estabilidade emocional. Antes eu tinha uns descontroles, as coisas perdiam a perspectiva e eu ficava agitada e pessimista, sem saber direito como sair daquele estado. Minhas opções eram uma conversa racional que só uma ou duas pessoas no mundo eram capaz de ter comigo, ou passar dias em loucura, até cansar. Achava normal e hoje acho um saaaaaco quem age assim, quem procura em mim esse esteio. Sou a minha própria estapeadora que grita pra me acalmar, sou o cachorro da foto com a própria guia da boca se levando pra passear.

Descobri que há quem me considere melhor hoje do que quando eu era casada. Eu não consigo pensar nesses termos. O meu ponto de vista é a realidade ter se tornado mais dura e reajo a ela. Antes eu era um molusco pelado e agora sou um molusco de carapaça.

Os finais felizes das outras

lo que es para ti

Eu tinha um crush. Quando eu comecei a stalkear, ele estava sozinho. Aí ele jantou romanticamente com uma mulher. Quando a vi, quis morrer, ela era linda. O problema é que não era uma linda por ter nascido apenas com traços bonitos, era linda no sentido de investir muito na sua aparência e personificar tudo o que se espera de uma mulher, do cabelo às unhas, dos gestos ao modo de se vestir. Vi ali que não tinha a menor chance, o tipo dele era boneca. Fui investigar e descobri que era um namoro de anos, desses que balança e nunca termina. As fotos de cervejada com os amigos foram substituídas por vida noturna, roupas da moda, outros casais e muita família. Ela era a candidata da sogra, aposto que frequentam os mesmos salões e lojas. Ele perto dela é um bebezão. Ela sem ele trabalha e sai com as amigas; ele sem ela surta e não sabe o que fazer do seu tempo livre. Quando me dei conta, estava torcendo por eles, ou melhor, por ela. Parecia que desta vez ia, pra todo mundo. Mas aí ele resolveu sumir numa longa viagem, foi solteiro, aproveitou muito, e nos últimos dias começou a “snif, snif, eu a amo!”. Fiquei torcendo pra ela não cair na conversinha mole dele. Caiu, eu vi a foto. Mas romperam de novo. Ele está caçando. E ela postou, há pouco, uma foto num paraíso tropical, radiante ao lado de um homem mais maduro. You go, girl!

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Foi dos momentos de crueldade involuntária que vai me doer o resto da vida. Uma vez uma parenta me contou, rindo, que quando contou pro seu irmão dos chifres do namorado, ele lhe disse para abrir uma fabrica de botões, e fez um gesto de cortar chifres imaginários. Então, quando minha amiga que o recém ex-marido lhe colocou chifres demais ao longo dos anos, fiz aquele comentário. Eu sei, como eu sou idiota. Era um casamento com idas e vindas, e na verdade me parece que ela não ligava muito pros chifres. Mas aí o marido, no dia dos namorados, comunicou que ele e uma fulana, também casada, que fazia parte do mesmo grupo de amigos, decidiram ficar juntos. E deixou para trás mais de dez anos de casamento. Quando ela me mostrou a foto da tal fulaninha traidora, eu fiquei sem fala: uma moça linda, com seus vinte anos. Não entendi pra quê largar tudo pra ficar com aquele cinquentão feio, pobre e grosso. Minha amiga se mudou, ficou sem cachorro, arranjou novos amigos – os antigos não cansavam de encher a tl dela com fotos do novo casal – e passou a ser figura fácil na noite curitibana. Adora samba e negão. Dois anos depois, a fulaninha foi embora e ele está devastado porque a mãe está doente. Pra quem ele liga? Ela atende, porque gostava da sogra, mas só se não está ocupada.

Desencontro

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Eu passei todo funeral do meu ex-sogro normal. Algumas vezes eu sentia que as lágrimas vinham e voltavam para dentro dos olhos e deixei. Mas naquela manhã muito chuvosa no cemitério, com o gramado encharcado, olhei para os filhos e a viúva molhados, acompanhando sozinhos o caixão descia, e chorei muito, incontrolavelmente. Por eles, pelo significado tão difícil daquela cena. Eu não sei se foi isto ou se foi no momento que cheguei ao lado da minha sogra, poucas horas antes, sem dizer nada, e lhe abracei, que ela passou a gostar de mim. Ela passou grande parte do casamento me achando uma péssima escolha. Os parentes do interior, que nunca tinham me visto na vida, não cansaram de me dizer “você é uma pessoa tão legal, nós tínhamos uma impressão totalmente oposta de você!”. Depois minha sogra continuou fazendo tudo o que ela fazia antes – me receber, preparar almoços, fazer sala -, só que com um carinho palpável. Eu achava uma pena e não tinha como dizer, não ainda; mais de dez anos haviam se passado e ela nunca se deixava convencer, nunca tinha realmente me olhado. Quando percebeu, o período que tínhamos juntas estava chegando ao fim.

Curtas de amar é voltar

amar é voltar

Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?

Fantasia

elefante voador - Natu Bieby

Acho que ele percebeu quando eu voltei a sorrir e a contar piadas que estava melhor da separação. Nos conhecíamos a algum tempo e até então ele jamais havia tentado nada. Os nossos horários subitamente começaram a coincidir e ele se sentava ao meu lado e perguntava, de forma nada sutil, sobre o meu fim de semana. Se eu havia ido a algum barzinho. Se havia bebido. Se havia voltado tarde. Se estava saindo com alguém. Eram tantas perguntas e tão longe da minha realidade – passar cal no muro, atravessar a cidade de ônibus ou colocar as leituras em dia – que comecei a brincar dizendo que ele é que deveria me dizer como foi meu fim de semana, que eu gostava muito mais da versão dele do que da minha.

Dividi isso com pouquíssimas pessoas porque tinha certeza que me chamariam de trouxa. Ainda mais se eu mostrasse uma foto dele. Idade regulava (um pouco mais velho do que eu), aparência regulava (bonitão), temperamento regulava (meio reservado, meio brincalhão); a única coisa que não regulava era o meu papel nessa história: casado, muito bem casado, obrigada. Não havia nem papinho de mulher doente, o que ele queria mesmo era cama, no máximo uma amante, quem sabe até remunerada. Pois é, além das qualidades que eu já mencionei, é rico. Nunca rolou uma baita afinidade, mas eu o acho simpático. Quem sabe eu pudesse dizer que se as circunstâncias fossem outras, etc. Mas, sinceramente falando, se as circunstâncias fossem outras, eu não acredito que ele estaria preocupado comigo e sim atrás de uma gatinha com menos de trinta e frequentadora do Clube Curitibano.

Um dia eu lhe disse, espontaneamente:

-Eu pensava que quando me separasse eu iria aprontar, fazer tudo o que eu não fiz na adolescência. Que agora, sem as travas e a timidez da época, madura e inteligente, eu faria diferente e poderia aproveitar tudo o que não aproveitei antes. Aí eu me separei e não fiz nada disso: fico tanto em casa, faço minhas coisas, leio meus livros, igualzinho o que eu fazia antes. Eu não tenho vontade de fazer diferente, não tenho vontade de sair e aprontar. A gente é o que é.

Ele me deu uma resposta sensata qualquer, concordando. Depois nossos horários pararam de coincidir e ele parou de perguntar sobre meu fim de semana. Alguma coisa no meu discurso – a sinceridade, a moralidade embutida? – quebrou a fantasia. Continuamos amigos.

A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

Depois

E se, ao invés de pregar a volta imediata por cima, medicada e de bocarra vermelha, se dissesse, nos dissessem, que as coisas ficam diferentes durante muito tempo, anos, que algumas partes ficarão rasgadamente emotivas para sempre? Porque o luto, quando é grande demais, deixa de ser apenas uma espera e se torna o começo de um ser humano novo.

Mortalidade

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Era de noite, eu estava no ônibus e me sentia miserável. É que estar miserável era meu estado normal aqueles dias. Aí meu ônibus parou no sinal na frente de outro, e naquela outro havia adolescentes rindo e uma moça com saia curta e uma meia calça de bolinhas. Por algum motivo eu achei que valia a pena estar ali, vê-los rindo, ver a meia calça de bolinhas.

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Eu me pegava muito pensando Nela. Quando as coisas estavam ruins, quando minha mente me torturava pelo fim, pela minha burrice, pelos meus erros, por tudo. Acho que o masoquismo era demais e chega uma hora que o organismo reage. Ele me dizia: “Ok, você está sofrendo muito por ter se separado. Mas o que seria melhor, ser Ela?” Não, eu tinha que reconhecer que não. Ela, naquele momento, não sofria pelo fim de nada porque jamais começou.

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Na noite anterior eu já sentia sinais. Uma contagem regressiva. Eu jamais havia entendido gente que comemora data de morte e coisas tristes, achei que era apenas desligar. Aí descobri que não é assim. Dormi pensando no assunto e já não acordei bem. Tentei várias coisas e nada me animava, até que antes das 10h eu sentei no sofá disposta a chorar todas as lágrimas, o dia inteiro. Foi naquele exato momento que Ele me convidou para almoçar, e quando soube como eu estava, para passarmos o dia juntos.

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Foi a minha dentista que, sem querer, me mostrou que eu era normal. Fomos da mesma turma de pilates durante alguns anos e eu a conheci pouco antes de se separar. “Nos fins de semana eu ia pra casa do meu ex, pra fazer faxina. Imagina só. É que você ainda está tão ligado que não sabe ficar sem o outro, aquela rotina. Com o tempo foi passando”.

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À caminho de casa eu estava pensando em publicar no meu facebook que o meu aniversário está chegando, pros amigos já ficarem sabendo e se esmerarem nos votos de felicidade e memes. Lembrei do Anderson, dos votos lindos que ele fez naquele aniversário, dizendo que eu era uma luz para os meus amigos. Só de lembrar eu me emociono, foi tão importante naquele momento. Quando eu chego em casa, o mesmo Ânderson publicou uma notícia tão triste, da filha que ele desejou tanto.

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O tempo, esse devorador de coisas.

 

Porque nem sempre o artista sabe como nos atinge

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25/03/2016 – 17:02

Olá, Alessandra! Faz muito tempo que me enrolo pra mandar esta mensagem. Às vezes acho que vai ser bobinha, e noutras penso que ficaria muito feliz se recebesse algo do tipo. Então lá vai:

No próximo mês de junho, precisamente dia 10, eu completarei 2 anos de divórcio. Faz muito tempo e foi ontem. No período de merda total, me recomendaram ouvir música e cantarolar. Só que quando fui ouvir as minhas e quase todas as outras músicas do universo, percebi que elas falavam de amor, no sentido de paixão. Aquilo doída demais em mim. Eu não consegui ouvir sobre amor desfeito, amor que dura, esperança de amor, nada. Ao invés de ajudarem, as músicas me relembravam o que eu estava passando.

Na mesma época me apresentaram o CD Folia de Santo, e me apaixonei instantaneamente por ele. Gosto daquela religiosidade tão original, um tema que normalmente não me seduz. Por onde vou e para qualquer pessoa que apresente aquelas músicas, é sempre uma bela surpresa.

Vim aqui agradecer ao teu trabalho e de todos os que estiveram envolvidos no projeto. Além do valor das músicas em si, quero te dizer que em um lugar do Brasil havia uma pessoa muito triste e que tinha nele seu único consolo. Mesmo hoje o Folia tem um lugar especial no meu coração.

Um abraço e boa páscoa!

25/03/2016 – 18:29

Mensagem linda, flor. Feliz em recebê-la e ainda mais hoje, nesse dia tão cheio de símbolos e significados, e num momento pessoal intenso e por vezes tão cheio de dúvidas. Sua mensagem me renova a fé no que faço por aqui. Muito obrigada mesmo. Sigamos. Beijo e feliz páscoa.

 

Aparelho, crush e solidão

te creo

Logo depois de colocar o aparelho, olhei meu reflexo e disse que estava horrorosa. Meu ortodontista defendeu seu trabalho e disse “ah, não fala assim!”. Talvez, de tanto colocar aparelho, ele consiga ver beleza em dentes metálicos. Já eu sentia minha boca enorme, obstáculos, coisas em lugares que até meia hora e dez anos atrás estavam lisas. Eu ainda era aquela, lisa. Coloquei massinha pra dormir, xinguei muito no twitter, economizei sorrisos. E por força, há tantos dias sem nunca ter trégua na sensação, sem poder tirar e nem me recusar a continuar, tenho deixado pouco a pouco de ser quem eu era. Durante quanto tempo a gente consegue resistir e guardar algo que não está mais lá? Falo mais do que um sorriso branquinho – falo do calor, dos assuntos, dos objetos, das expressões nos olhares novos e antigos. Estou falando da vida que muda de forma contínua e em todos os detalhes. Quando estamos infelizes queremos correr, correr, correr. Corri, consegui, agora estou em outro lugar. Nem melhor e nem pior, outro. Aí me pego segurando as lembranças como quem atravessa uma piscina com um papel na mão. Eu não sei mais o que é estar acompanhada. Eu desligo o alarme de manhã, eu apago as luzes da casa à noite. Imito os uivos da Dúnia quando vou encher o pote de água, como diante do computador, verifico os risquinhos na bateria do celular, carrego quilos na mochila em viagens de ônibus pela cidade inteira, em qualquer horário. Um dia não foi assim, eu me lembro; quando eu tinha outro nome essa casa tinha mais gente, eu não conseguia dormir sozinha e comentava em voz alta qualquer coisa interessante que via na internet. Um dia meus pés foram bonitos, meus cabelos enroscavam e a minha pele era macia. Hoje não sei. Olho para essas lembranças e… vai ver que são apenas implantes de memórias, igual dos replicantes. Eu me pergunto qual o ponto de querer um homem. Fora o hábito da carência e da programação feminina, fora o sexo, qual o ponto? Fui acusada de não querer realmente nada com ninguém, senão teria tentado me aproximar do crush. Um crush que nunca esteve longe, em nenhum sentido. Não nego. Agora ele está com namorada e “Olha a prova de que eu não tinha chance, quem gosta de uma perua dessas jamais gostaria de mim!” – digo com a certeza de quem se vê no lado oposto às peruas. Mas qual lado é esse, o que um homem buscaria em mim? Nunca soube direito, nunca fui boa nisso. Eu era recém-formada e morava com a minha mãe a última vez que essa questão se apresentava. E achei, quando me casei, que essa questão estaria resolvida para sempre. Eu me desacostumei em ter quem se importe com os meus horários, me veja nos fins de semana e se apresente como algo meu. Eu estou tão só – às vezes isso é flutuar, às vezes é não existir. A vida tem trocado todas as células e os objetos de quem eu fui, nos mínimos detalhes, até nos que ainda amo. Minha solidão é dor e é incômodo, mas também é meu berço, meu alimento, meu cobertor. Carrego comigo galáxias, desenho em nuvens, choro e sorrio pro vento, à espera de saber o que fazer com tudo isso.

Pequeneza

Eu e meus vizinhos nos mudamos quase ao mesmo tempo. Eles, um casal com um casal de filhos; nós, um casal sem filhos. Desde sempre eles brigavam muito. As paredes finas entre as duas casas praticamente nos permitiam ouvir as brigas como se fossem um programa de rádio. Perdi as contas de quantas vezes o cara saiu de casa. E mesmo quando não estão brigando, o casal nunca pareceu se dar bem. O cara passa horas lavando o carro e tem sempre uma expressão cansada. A mulher é uma grossa que chegou ao cúmulo de um dia destratar o filho do jardineiro porque ele quis fazer carinho no cachorro dela, pelo portão.

 

Aí eu me separei. Apesar de ter rolado climas horríveis, não foi por causa de nenhuma briga catastrófica, menos ainda quando estava tudo decidido. O Luiz foi saindo de casa aos poucos e acho que a vizinhança passou muito tempo na dúvida. Um dia, quando já fazia tempinho que eu estava sozinha e já não tinha como ter dúvidas, encontrei a vizinha pela primeira vez. Eu estava recebendo o cara que veio trocar minha cafeteira. Esta mulher parou e me olhou com uma expressão tão tão tão triunfante que vocês não fazem ideia. Ela “ganhou”, continuava casada e eu não.

Passava das vinte e duas horas

… e a moça sentada ao meu lado, ao lado da janela, dormia. E a moça sentada na frente dela também. Eu estava com fome demais pra isso e me perguntava se conseguiria chegar em casa e preparar um macarrão. Não, decidi comer legumes pela quarta refeição seguida. Uma tostadinha e um pouco de queijo ralado em cima, hum, água na boca. A temperatura, só para variar, caiu mais de dez graus de um dia para o outro. Eu já havia passado frio de manhã, estava preparada. Todos encasacados dentro do ônibus e, com isso, mais figurinos pretos. Parece que todo mundo pensa a mesma coisa na hora de comprar casaco: vou comprar um preto, combina com tudo. Aí parece que vão todos pro mesmo funeral. O ônibus pára numa estação perto do terminal, e pela janela enxergo o Farmacêutico. Nunca nem pensei em dar um apelido pra ele, não faço ideia de como se chama. Ele é careca e sem barba, óculos de armação invisível, o que dá uma sensação de limpeza. Calculo que tenha uns cinquenta anos. Um pouco mais alto do que eu, aquele tipo físico que mesmo magro é sólido. E tem minha simpatia perpétua. Vou sempre na mesma farmácia, a que ele trabalha, e um dia ele estava no caixa dei meu CPF por causa do cartão fidelidade. Aí ele recitou meu nome da casada, e eu disse – não mais, esse era meu nome quando eu era casada. Ele então me disse umas três frases de apoio, cujo conteúdo eu esqueci totalmente. Eu não me incomodo mais com isso, já tinha passado da fase do apoio, mas ele falou comigo com tanto carinho, com uma preocupação tão genuína, que eu fiquei tocada. Um homem bom. Assim como eu lembro dele, eu sei que ele se lembra de mim, nós nos cumprimentamos. Além da farmácia, nos vemos às vezes na rua, perto da padaria. Desceu do ônibus uma mulher e ela foi para junto dele, trocaram palavras e seguiram. O cabelo dela era liso, dividido no meio, e do ângulo que eu estava não permitia ver o rosto. Depois de poucos passos e ele pegou a bolsa que estava nos ombros dela, com uma naturalidade que denunciava intimidade. Me perguntei se era a filha dele.  Que coisa bonita, ele esperando ao lado do ponto de ônibus a filha chegar da faculdade. Aí ela ergueu um pouco o rosto e pude ver que era uma mulher mais velha, também com mais de quarenta, provavelmente a mulher dele. Mais bonito ainda. O ônibus partiu, voltei pra casa, comi meus legumes e vim digitar isso.

Eu sei que as coisas estão feias. Mas elas também estão bonitas.