Geografia no cérebro

É muito mais do que um lado racional e um lado artístico. Pra uma ação complexa, como falar ou pensar, o cérebro ativa vários pedaços, como se fossem países diferentes no mundo cérebro. Às vezes também pode mudar de pedaços – não apenas quando tem uma lesão e aquela área fica inútil, mas também quando de alguma forma aquilo muda. A força e a complicação no cérebro humano é justamente esta, do charuto ser ao mesmo tempo só um charuto, mas também pode ser desejo fálico, o jeito de cortar o charuto, o clube do charuto, a diferença do gosto comum e os cubanos, daquele dia fumando charuto e… Por causa dos lugares diferentes no cérebro, as mesma pessoa pode ser um doce, que te fala do poder da oração, como também te dizer que não hesitaria em meter bala num bandido. E pra ela não há contradição nenhuma. O nome é dissociação cognitiva. Não adianta dizer que é característico de ismos ou istas, é próprio de seres humanos.

Às vezes também pode acontecer o contrário: de tanto áreas diferentes serem ativadas, assuntos que a princípio não teriam nenhuma relação, podem se encontrar lá dentro sem querer. O charuto, a arma, a oração, a aula de geografia – eles estão andando, se encontram na mesma rua e conversam. É isso também que faz o cérebro humano ser criativo. É isso que faz, também, com que London, London tenha se tornado uma música importante pra mim, daquelas que doem, apesar de eu nunca ter pisado em Londres e muito menos ter sido exilada. E não é nem a versão do RPM, que é a que me fez ter contato com ela quando era criança, é a London, London do Caetano. Aposto que você também tem dessas associações que só faz sentido nas esquinas do teu cérebro.

 

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Música italiana

Não sei, simplesmente acho que música italiana era moda quando eu era pequena. Cresci, e como acontece com todas as modas, comecei a achar brega. Aí o youtube, que vive me oferecendo coisas, colocou esta quando eu estava com a mão ocupada demais – na verdade, o corpo inteiro ocupado em tomar banho – e não pude fugir. Quando vi, estava cantando “Io che amo, solo teeeeeee!”. Tem o Chico, que é mais ou menos como colocar cobertura de chocolate num doce. Só que quando pude ver o clipe de verdade – saí do banho e pus de novo – vi a moça nessa atitude inspirada e voltei a achar brega. Outra lembrança infantil: as pessoas só cantam música apaixonadas com as pessoas apaixonadas? Por que elas são obrigadas a fingir que está rolando um clima? Perdoo porque é o Chico, e ele falando que ama solo te olhando pra te deve dar uns comichões mesmo.

 

Jeans e oráculos

Eu adoro comprar roupa online, especialmente da China. Antes (dólar baixo) era uma pechincha, saia quatro vezes mais barato do que ir numa loja. Depois de ser tão vantajoso e passei a comprar menos, mas continuei gostando. A ironia é que comprar em site é se basear em medidas e com base na foto tentar adivinhar como você ficaria. Justo eu, que quando preciso comprar um jeans sou capaz de experimentar vinte antes de me decidir por um – ou nenhum. Aí eu me dei conta de que talvez seja justamente por isso, porque no site eu me desobrigo e pessoalmente eu não posso não experimentar. Se eu não experimentar tudo, vou me condenar pelo resto do tempo, imaginando que um jeans muito mais perfeito estava à minha espera.

Bauman fala disso, outros autores falam disso, do quanto o excesso de escolhas acaba se tornando fonte de ansiedade. Aí estava pensando num meio atendimento que acabei fazendo com um amigo. Numa fase da vida dele, ele viajou para o exterior e que poderia ter acontecido algo extraordinário nesta viagem, que a vida dele poderia ter dado uma guinada. Eu fui determinista, disse que pelo mapa dele a viagem deu o que tinha que dar, que aquilo era um começo e não uma guinada. Lembro agora de um outro amigo que via cartas, e ele me disse que nove entre dez pessoas queriam saber de amor, os outros poucos tinham um problema específico de saúde ou queriam um emprego. Eu lhe perguntei se já apareceu gente que não iam arranjar um amor e ele disse que sim, e que falou para elas. Então, concluí que o que as pessoas iam lá ouvir que iam sim arranjar um amor, que apesar das aparências e da ansiedade havia alguém, era apenas uma questão de tempo.

Ninguém aqui nasce numa família de nobres ou servos e que lhe diz desde criança que você será nobre ou servo. Por mais que a mobilidade social não seja tão livre quanto se prega, crescemos com uma ideia de é tudo escolha nossa. Tudo o que eu sou e penso é fabricado a cada minuto e em cada gesto. Como se a vida hoje fosse um excesso de opções confuso e sempre escolhemos errado em algum lugar. Sempre, eternamente, nunca enxergamos o suficiente, nunca experimentamos o suficiente, era justamente o último jeans da loja que tinha o melhor caimento e mudaria nossas vidas. Procurar oráculos, mapas astrais, cartas, previsões é, no fundo, uma visão determinista. E o que ela nos diz é: você fez o seu melhor e o que tinha de fazer. Aguarde e confie.

Tenho respaldo da sociologia ao dizer: você não escolhe tanto assim.

Paul diz: Let it be. Confiem nele.

Curtas aventuras no app de karaokê

karaoke

Nem a pau eu conto qual é e qual o meu perfil lá.

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Como eu não fiz plano VIP, não posso começar uma gravação, canto sempre em gravações iniciadas pelos outros. Tem os perfis de burlar o sistema, que a pessoa disponibiliza como se fosse pra cantar em dupla e ela não canta a parte dela. Mas vou te confessar que gosto mais de cantar com os outros. Sei lá, me sinto mais acompanhada.

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Um dia um que elogiava muito minhas gravações, dizia que eu cantava muito bem, que minha voz é maravilhosa, me mandou uma mensagem privada. Eu achando que leria mais elogios e ele falou para eu não levar a mal, mas estava estragando todas as gravações dele porque não sabia ajustar o volume. Depois de me recuperar da ferida narcísica, fiz o que ele me aconselhou e as gravações melhoraram mesmo.

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Voltando ao cara, ele me elogiava. Não me mandava um agradecimento padrão, escrevia meu nome, fazia trocadilho com o que dizia na música, sempre me colocava pra cima. Como o ser humano é besta, eu ficava esperando a reação dele a cada gravação. Aí dei uma stalkeada básica e descobri que ele elogia todas as mulheres que cantam com ele. De vez em quando aparece uma mensagem que ele me mandou e elas colocam emoticon batendo palmas, ou comentam. Bem ciúmes mesmo. Eu só dou risada.

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Tem um português que só curte as gravações, não agradece como de praxe. Primeiro eu achei que ele não ia com a minha cara, percebeu o sotaque brasileiro, agora eles nos odeiam, essas coisas. Ou que era porque eu era uma estragadora de gravações alheias, com volume alto, e ele notaria que eu não estrago mais e passaria a gostar de mim. Depois pensei que era neura minha, que ele não deveria elogiar ninguém. Aí um dia estava vendo as gravações e percebi que ele elogia sim as outras pessoas, as portuguesas, ele só não manda mensagem pra mim. Agora eu o vejo e penso: “Vamu lá cantar com o português que me odeia.”

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Dia desses eu gravei Ovelha Negra com um dos meus preferidos, um cara de meia idade que canta sem medo de errar, qualquer coisa. Ele se soltar e cantar de tudo, mesmo sem ter voz ou errar no inglês me estimula a fazer o mesmo. Comecei a receber tantas notificações de pessoas curtindo a música, mais de trinta, que já estava me sentindo o novo fenômeno do aplicativo e achei que a qualquer momento surgiria o convite de uma gravadora. Que nada, ele é que tem 1655 seguidores. Minha gravação nem era das mais curtidas.

Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

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Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

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Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

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Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

Velho, velho e gift

Fiquei muito emocionada quando vi esta propaganda com o Elton John. Mandei pra amiga cujo filho está aprendendo guitarra, e sei que ela se identifica muito com o final da propaganda. Pra mim a propaganda toca mais de outra forma, legado é um tema importante pra mim. Talvez por sempre ter tido a tendência de fazer amigos mais velhos. Não falo em legado num sentido financeiro, e sim como história construída, o que você pensa da sua própria trajetória quando olha para trás. Aquele sorrisinho do Elton John no final da propaganda diz tudo. Uma das coisas que me fez querer chacoalhar e gritar no ouvido de algumas pessoas neste período recente da nossa história: o que você pensará a respeito das suas escolhas quando olhar para trás?

Ainda sobre velhice: fui, com amigos, fazer uma apresentação num asilo. Era o mais bonito e bem cuidado e feliz dentro das circunstâncias, mas era um asilo. Um lugar aonde vão pessoas que, na sua maioria, estão impossibilitadas de cuidar de si mesmas. E me vi menos tocada, menos emocionada que os outros. Talvez por já ter acompanhado deterioração física de perto, de saber o quanto o mundo se estreita. Ou, antes disso ainda, eu pesquisei cegos. Uma das minhas entrevistadas, a que tinha a história mais dolorosa, me ensinou que todo mundo tem limitações, a diferença é que a deles está evidente. Acho que para trabalhar com o sofrimento precisa ter uma aceitação muito profunda do que ela me disse.

O último ponto, voltando pra propaganda. Passei a ficar doida por Your Song, como quem ouve pela primeira vez. Meu verso preferido é: My gift is my song/ This one for you. Uma tradução rápida seria: Meu presente é a minha música/ Esta é para você. Mas gift também significa dom. Do mesmo modo, com este blog, me sinto dizendo continuamente: My gift is (to) write/ this one for you.

Agora o jogo virou, pá

Uma vez um português me perguntou até que ponto nós, brasileiros, estudávamos a história de Portugal. Acho que até D. Pedro II voltar, eu respondi. Aí ele pensou um pouco e disse:

-Que bom. Depois é só porcaria.

Bem, esse diálogo faz quase vinte anos e, de lá pra cá, Portugal tem merecido usar o meme “parece que agora o jogo virou, não é mesmo?” com a gente. Ou melhor, conosco.

Quando eu comecei a tentar ler autores sul-americanos foi que eu me toquei do quanto éramos um país orgulhoso que usa a diferença da língua como desculpa para se manter à parte da América Latina. Desculpa sim, porque temos muito mais dificuldade em entender inglês do que espanhol e consumimos muito mais tudo que vem da língua inglesa. De maneira semelhante, foi meu recém adquirido amor pela música portuguesa – sou fã do Miguel Araújo como nunca fui fã de nenhum outro cantor na minha vida – que me fez ver que viramos também demais as costas para os portugueses. Passei a ver entrevistas do Araújo e do Zambujo, vi o Tiago Nacarato cantando no The Voice e outros vídeos dele no youtube, Zambujo concorreu ao Grammy Latino com um álbum com canções de Chico Buarque; todos eles com gravações de músicas nossas e/ou participações de brasileiros, falam dos nossos compositores, têm a música brasileira como uma influência. Eu agora sei estes nomes, mas quantos de nós realmente sabemos alguma coisa sobre os portugueses? Eu mesma não sei, gosto de uns autores e uns músicos. Tenho a impressão de que é muito natural, em Portugal, estar a par do que acontece aqui. Depois de Dom Pedro II voltar, eu só sabia que eles mereceram uma música fofa do Chico: Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é difícil, pá/ Navegar, navegar.

Sim, claro, agora sabemos que eles estão bem. E graças a um governo de esquerda, o que torna um contra-senso brasileiros que foram lá para fugir da Dilma ou eleitor do candidato que promete exilar esquerdistas. Há os que dizem que eles nos devem, porque fomos a colônia mais rica e tal. Mesmo que a dívida exista, porque o laço sempre existirá, ainda assim a migração me soa como parente que sumiu vinte anos e volta porque agora está doente.

Matérias do coração

Enquanto o país se mobilizava com o ataque sofrido por Bolsonaro, eu mal conseguia prestar atenção. O desastre do dia foi a Dúnia não conseguir apoiar a pata no chão. Ela havia passeado normalmente e duas horas depois estava trípede. Já era final da tarde de véspera de feriado e eu teria que esperar até o dia seguinte. Quis entrar em contato com o ex, que ele me acalmasse, instruísse, enfim, que dividisse esse peso comigo. Ele já está casado e eu não gostaria que o meu marido tivesse uma ex que liga em véspera de feriado desesperada com o cachorro. Usei o método de imaginar o que ele faria, a voz da razão que internalizei depois de tantos anos de convívio. Ele não apenas me mandaria dormir, como tomar um bom café da manhã para não passar fome durante ou depois da consulta. No fim deu tudo certo e ganhei mais uma estrelinha de vida adulta. Foi só sair de manhã, entrar em táxi, ver a veterinária e ser cutucada que a Dúnia já estava correndo como um filhote. O diagnóstico foi: frio e velhice. Além do anti-inflamatório, ela vai ter que tomar reposição de cartilagem pro resto da vida; como é meio impossível dar remédio para a Dúnia, isso lhe garantirá um pedacinho de salsicha pro resto da vida também.

Lembrei desta música do Miguel Araújo. Na introdução a ela no DVD do Cinco Dias e Meio, ele diz: “Se há um grande desastre, uma terremoto ou um maremoto na China, morrem milhares de pessoas e a pessoa fica um pouco incomodada; se há uma epidemia, uma doença qualquer na Espanha, e morrem dez, já é um pouco mais; e se morre um vizinho do lado, aí sim o acontecimento fica trágico”.

 

 

Um fado

Vamos mudar um pouco o clima desse blog. Eu vejo o vídeo e me imagino passando mal de rir, porque tentaria não rir para não desrespeitar os anfitriões e só pioraria as coisas. Obrigada pela pérola, Antônio!

 

Música da verdura

velho up

O ônibus da verdura parou em frente a uma casa que está sendo praticamente reconstruída, de tão ambicioso o projeto que dá para adivinhar por quem passa pela rua. Eu já estava na rua esperando ele estacionar. Mal entrei e entrou também um rapaz, que trabalha na casa. O homem da verdura veio repondo mercadoria, conversando comigo e com o rapaz, até que teve uma hora que ele se tocou que ainda não havia desligado a música – Quem é que quer verdura, quem quiser pode falar. Você deu uma risadinha, você quer verdura minha e está sem jeito de pegar.

 

-Vocês me dão licença que eu tenho que desligar correndo a música, não quero ouvir reclamação.

O ônibus vai parando em três ruas diferentes do bairro durante o dia, e justamente naquela tinha um morador que reclamou. “Reclama de um trabalhador! Se fosse maloqueiro com som alto na frente de casa, duvido que reclamava, ficaria com medo”, falou o rapaz. O Verdureiro não queria confusão, porque outras pessoas da vizinhança estavam dispostas a comprar a briga por ele. O homem que reclamou disse que naquele horário a música acordava o netinho dele. Os outros vizinhos contaram que é mentira, que ele não tem netinho nenhum.

-Hahahahahaha, sensacional, o cara inventou um netinho só pra poder reclamar!

A pessoa que deu essa risada fui eu. Só eu. Esse negócio de ficar de ouvido atento à qualquer história interessante deixa a pessoa meio perturbada.

Curtas de pequenas grandes descobertas

Eu descobri que uma excelente maneira da gente achar que faz um bom trabalho é acompanhar, de longe, quem faz pior do que o seu. “Olha lá, que ridículo, era melhor nem fazer, kkkkk”. Descobri também que nos torna pessoas piores e não leva a lugar nenhum.

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Primeiro a gente passa o fio dental, que não tira apenas os restos de comida como também as bactérias que estão na gengiva. Só depois escovamos os dentes.

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Eu acompanho páginas científicas e páginas de astrologia, e é claro que a primeira gosta de falar mal de quem lê a segunda. Dou risada. Você pode se recusar a toda religiosidade sim, não acreditar em nenhum consolo, não ceder às superstições, enfrentar o mundo visível apenas com o que já foi publicado na revista Nature. Assim como pode acreditar que tudo tem o motivo, os deuses te ouvem e no fim acabará bem. É com você. Aviso que nenhum dos grupos ganha medalha.

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Estava vendo o lindíssimo vídeo que viralizou, com o Paul McCartney. Por todos que o cercavam, declarações escancaradas de admiração e afeto. O próprio programa se encarregava disso, impossível não cantar junto. Tirando a polpa da vida desse homem, o que vai ficar em meio à biografia, é a pessoa que nos deu Let It Be, Hey Jude, dentre outras. Como imaginar um mundo sem essas canções e o que elas fizeram nas nossas vidas? Aí lembrei no nosso Paul, o Chico Buarque. Não torçam o nariz, não é preciso forçar a barra pra dizer que o Chico tem coisas tão universais quanto. Donde eu concluo: tem que amar o Chico, afagar, curtir, homenagear, aproveitar o máximo. Chega de ser ingrato e pequeno, de fazer pouco caso e só descobrir o valor quando a pessoa morre e passa retrospectiva no final do Jornal Nacional. Mesmo pra quem discorda das opiniões políticas dele, tem que amar o Chico, o Chico é nosso.

 

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Mas se a ciência provar o contrário

Eu já estive dos dois lados do conselhos e já vi de tudo. Pessoalmente, não gosto e muito raramente peço; tem os que são o contrário, que montam verdadeiras comissões, abrem a discussão com os colegas de trabalho, as amigas, o porteiro do prédio, quem quer que ouça. Mas se do meu lado, fico com fama de pessoa teimosa que não confia em ninguém por não pedir conselhos, eu notei que mesmo as pessoas que consultam todo mundo não são tão abertas assim. Tinha uma que tinha problemas recorrentes com o namorado sempre estranho, sempre com histórias que podiam ser tanto mal contadas como diferenças culturais, até que um dia ela veio me falar de versículos que abriu por acaso na Bíblia depois de perguntar a Deus. Os verculos apontariam para uma direção clara, que não era a que me parecia que os fatos apontavam, o que me colocou numa posição “oposta” a Deus. Da minha parte, não vejo diferença entre fazer isso com a Bíblia ou com outro livro qualquer, nem com querer consultar a tabela de planetas retrógrados, o que me pediram recentemente. A pessoa, que entende de astrologia por posts do Facebook, queria a ajuda dessa informação para saber se deveria dizer SIM a alguém que retornou à sua vida, numa lógica que nem eu entendi direito. Tanto a moça da Bíblia quanto a dos planetas retrógrados já sabiam o que queriam ouvir – a única coisa que aceitavam ouvir, na verdade.

Fã clube

Minha amiga Bárbara é fã do Chico Buarque. Eu também adoro Chico Buarque, mas ela é fã, é diferente. Já tivemos várias conversas sobre as músicas dele, ela sempre preferindo-a qualquer um dos seus interpretes. Quando alguém diz (eu fiz muitas vezes) que ele é um excelente compositor e não cantor, ela se irrita. Não adianta argumentar questões técnicas como alcance de voz e etc, para ela o Chico é o melhor cantor das músicas do Chico e pronto.

Passei a vida inteira imune ao gene de ser fã e agora, bem… Uma amiga definiu assim: claro que ela tinha que ser fã de um português que ninguém conhece. Fiquei sem graça, porque fica parecendo que escolho minhas músicas em função de não ter ninguém do meu lado que goste, e não é assim (pelo menos com músicas). Ser fã nem ao menos é escolha. Agora, só agora entendo a Bárbara. O melhor interprete pro meu amado Miguel Araújo é o Miguel Araújo.

O pulso

Eu li em algum lugar, alguma vez, falando obviamente de astrologia, que Saturno era o planeta essencial para um bom músico. Saturno, também conhecido como O Grande Maléfico. O planeta da tristeza, dos atrasos, da rigidez, da seriedade. Quando a gente vai na raiz do que é a música, faz todo sentido. Para quem não é músico, há de se pensar em tudo reduzido, apagar os floreios, a voz e os instrumentos, e pensar no pulso. Já os músicos sabem que toda variedade é aparente, que o que possibilita que todos estejam em harmonia é a obediência a um princípio fundamental, que segue invariável e matemático. Na biografia do Bob Dylan fala dele comentar sobre um dos seus bateristas não ser exato o suficiente, aí o biografo nos lembra: não é qualquer coisa tocar gaita, violão e cantar músicas de dez minutos e se manter no tempo. Um guitarrista de flamenco me disse que o Paco de Lucía era tão exato que ele chegou a colocar um metrônomo ouvindo uma das apresentações dele e Paco se manteve exato o tempo todo.

Pra este post ficar um tiquinho carnavalesco (é que o meu carnaval é assim mesmo, saturnino), coloco um vídeo que faz sucesso pelo Facebook: Paco de Lucía interpreta Tico Tico no Fubá.