Último post do ano

Não sou boa de escrever mensagens de boas festas. Um dos motivos é que o Natal não significa nada para mim. Melhor: significa apenas aquilo que é hoje, uma época de ganhar e dar presentes. Por mim, preferia que a data fosse em agosto, porque é muita comilança pro espaço de uma semana. Já o ano novo não, nele eu acredito e me contagio. Gosto da idéia de transformar o que passou em passado e tentar começar tudo de novo, com esperança. Então não poderia deixar de agradecer àqueles que dão sentido a este blog: meus leitores. Alguns lêem pelo reader, outros passam pelo site assim que o post sai, tem os que esperam acumular pra ler vários posts de uma vez, existem os leitores ocasionais… De qualquer forma, são todos leitores e saber que vocês existem é importante para mim. Conheço alguns, recebo mensagens de outros, mas sei que a maioria é formada por pessoas que nem sei quem são. Nossa relação está neste espaço, nestas linhas. Nos momentos de desânimo – e não foram poucos – foi essa ligação que me manteve de pé e me ajuda a definir quem sou. Obrigada por darem um pouco de seu tempo para o que eu escrevo, obrigada por voltarem. Muito obrigada por tudo e espero encontrá-los no ano que vem.
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2012, o ano do fim do mundo

Dizem os cinéfilos que o que faz um filme é o seu final. É por causa do final que acreditamos que aqueles longos minutos, talvez horas, na frente da tela valeram a pena. É o final que diferencia o filme interessante do inesquecível. Um bom exemplo disso seria o filme O sexto sentido, que se é quase todo ele apenas mais um filme de fantasmas e se torna marcante pelo final. Talvez por isso eu não seja capaz de falar que o ano de 2012 tenha sido ruim pra mim, porque estou feliz agora. Passei por muitas turbulências e me arrisquei em coisas que eu jurava que não faria. Talvez o tom do ano tenha sido o corte: cortei e fui cortada muitas vezes. Algumas situações fui eu que cortei, porque não fazia bem a nenhuma das partes. Noutras, o corte foi nas costas, uma facada. Amigos que eu pensei que levaria pela vida inteira também simplesmente me cortaram, porque para eles nossa amizade era apenas circunstancial. Foi um ano que fez jus à idéia de limpeza e expiação que os místicos lhe atribuiam.
Mas também teve começos. Penso nas violetas, que eu sempre morria de dó quando arrancavam folhas saudáveis para que elas florissem mais. Por ter sido cortada eu fui para outras direções. Estou começando tudo de novo de novo de uma maneira nova, com pessoas novas e perspectivas novas. Coisas que me acompanhavam há anos e faziam parte de mim simplesmente deixarão de ser. Vejam que conjugo o verbo no futuro. Em 2012 acabou e pra acabar é sempre mais rápido. Em 2012, também, surgiu a luzinha que diz que tem coisa lá na frente. Dizem que o melhor da festa é esperar por ela. Mais um motivo para dizer: estou feliz. 2012 foi um ano bom pra mim.

We are the world

O ano era 1985 e Michael Jackson teve a iniciativa (inspirada na Band Aid de 1984) de juntar os maiores nomes da música para ajudar a acabar com a fome na África. Eram tempos heróicos aqueles, uma época que algumas TVs eram preto e branco, quase todo mundo era magro e as pessoas se comunicavam por cartas escritas à mão. Michael Jackson ainda era cor de chocolate, nem sonhava em construir Neverland e era a maior estrela pop do mundo. Imaginem o impacto. Depois disso surgiram tantas campanhas, combatendo de tudo, de fome a frizz capilar nos dias úmidos, que se pode reunir quem quiser que não se liga mais. Na época não se falava de outra coisa – o clipe aparecia em todos os canais, a música tocava em todas as rádios, todos queriam fazer parte e ajudar os africanos. Até a minha mãe comprou o disco.

Eu tinha oito anos e adorava mexer naquela capa de disco. Gostava dela como objeto, era colorida e abria. Evidentemente eu não conhecia os maiores nomes da música pop norte-americana da época. E meu irmão mais velho, na época com doze anos, também não. Eu peguei a capa e lhe perguntei que artistas eram aqueles. Eu conhecia o Michael Jackson, a Cindy Lauper, a Tina Turner, aquele cantor cego, e só. E tinha um monte de negros desconhecidos na capa. Meu irmão, que além de um grande sacana nunca foi de reconhecer quando está errado ou simplesmente ignora um assunto, me disse:
– Você sabe que foi idéia do Michael Jackson, então ele chamou a família dele. Esse daqui é tio do Michael, Jackson, esse daqui é o irmão do meio, essa daqui é irmã, esse daqui é primo do Michael Jackson, esse é o marido da irmã do Michael Jackson…

Até hoje eu olho a capa do disco e vejo toda família Jackson lá.

Três moças III

Foi apenas no segundo grau que F. decidiu ser psicóloga, mas o fez com firmeza. O atrativo da profissão era ajudar famílias e pessoas sem orientação. Ela discursava a carência e a importância da intervenção. Quantas famílias por aí tinham problemas de diálogo, quantos pais separados agiam de forma completamente imatura diante dos filhos, quantos adolescentes eram solitários – ou seja, tudo o que ela conhecia profundamente e sem a menor perspectiva de mudança. Quando entrou no curso, primeiro flanou alegremente sobre todas as teorias, encontrando pontos fortes e falhas práticas ou teóricas em todos. Amou psicanálise e a abandonou por considerar o complexo de Édipo patético; achou que iria para a área corporal, mas achou que lá faltava mente; na teoria tão mental de Jung, sentiu falta de uma prática inovadora, e assim por diante. O curso era como uma feira cheia de barracas onde seus colegas iam se encaixando uma a uma. Todos escolhiam com facilidade, só ela devorava tudo e não se satisfazia. Tudo lhe parecia bom e ruim, nunca o suficiente para ser descartado ou adotado. A única certeza que ela tinha é que queria atuar na área clínica. Educação não a interessava, a empresas tinha horror. Então ela rumou com todas as suas teorias e dúvidas até a última barraca, que era o atendimento face a face. Seu desempenho foi elogiado, seus pacientes tinham insights, as coisas estavam como deveriam ser. O que ninguém sabia era o quanto ela se esgotava a cada atendimento e torcia pros pacientes faltarem. Ela tremia só de ouvir o telefone tocar enquanto esperava solitariamente na sala de estágio. E nunca mais um telefone tocou chamando-a para atender alguém.

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Três moças II

C. não sonhava em ser aeromoça, no sentido de alguém que crescer desejando aquilo. Ela gostava de fazer cursos, de aprender diversas profissões, de entrar um pouco em vários universos. Se aquilo pudesse render no futuro alguma profissão, ainda melhor. Ela já havia sido modelo, tinha noção de árabe e grego, sabia costurar. Além de tudo, ser aeromoça ainda tinha um glamour, eram os tempos das passagens aéreas caras e travesseiros de penas. Ela adorava saltos e desfilava com muita naturalidade de meia calça e terninho. A boas maneiras vinham de casa e saber atender também. O que ela não contava era o curso de sobrevivência, feito em pleno inverno na Serra do Mar. Ela machucou seus braços finos tentando cortar lenha e aquele ombro nunca se recuperou. A água duramente economizada no cantil, foi bebida por uma colega insensível que ainda por cima devolveu o cantil todo babado. À noite pediu, “sem lesbianismo algum”, para abraçar sua colega de barraca, porque estava muito frio. A colega negou. Na manhã seguinte, estavam ela, a colega e todas as outras alunas enroscadas, porque fez temperaturas abaixo de zero aquela noite. Quando chegou em casa num estado lastimável, sua mãe veio recebê-la na porta e não acreditava no que haviam feito à sua bebê. Do portão, C. pediu um salto alto, porque suas panturrilhas não suportavam mais. Ninguém previra que aquela mocinha de olhos tão grandes e pestanas delicadas conseguiria passar por uma prova daquelas, mas ela conseguiu. Aí no último dia de aula, passaram para todas as alunas um video com a história de vários desastres aéreos. Ela ficou em pânico e nunca mais quis subir num avião.

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Três moças I

D. sempre quis ser médica. Na sua infância, ela foi diagnosticada como uma espécie de autista. O contato humano não a interessava, e mesmo com os anos não passou a interessar muito. Era do tipo de criança que tinha curiosidade com ferimentos, que gostava de abrir bichinhos, que não se importava em ver sangue. Filmes de terror, imagens reais de cirurgia, nada disso causava medo, muito pelo contrário. No segundo grau, descobriu uma série de romances médicos, que ela lia pelo prazer de acompanhar uma história e conhecer um pouco da tão desejada profissão. Ela gostava de ler os trechos mais descritivos para os amigos, que sentiam o estômago revirar só de ouvir. Quando terminou o segundo grau não estava preparada, em termos de escore, para entrar numa faculdade de medicina. Para não perder tempo, entrou num curso técnico de enfermagem. No curso, se destacou pela excelente aluna que sempre foi e os anos correram sem maiores problemas. Até que na última prova do último ano, os alunos eram sorteados para vários pontos e deveriam dar injeções uns nos outros. Naquele instante ela se tocou de que aquilo era uma agulha, que havia um corpo, que havia dor, que havia o sangue que mantém as pessoas vivas. Ela começou a sentir um medo que jamais sentiu em toda a sua vida, ela finalmente entendeu a dor da empatia. O sentimento foi tão forte, que D. achou que não conseguiria fazer a prova. Por sorte, o ponto sorteado pra ela foi uma injeção intra-muscular, que por ser dolorida demais tinha que ser dada num boneco. Ela se formou e nunca exerceu a profissão de enfermeira. E nem tentou vestibular pra medicina.

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Pelados

Uma vez eu disse que era muito velha pra ter pudor de tirar a roupa. Sim, tem essa conotação sexual, mas também tem todos os vestiários que eu frequentei, todos meus exames ginecológicos, todas as provas de roupas em costureiras, todos os camarins e mudanças de roupas que na falta de lugares mais adequados tiveram que ser por ali mesmo. Se o homem que estiver perto de mim for gay, mesmo que dentro do armário, também não me constranjo. O que me constrange na verdade é o constrangimento dos outros. É muito chato a situação exigir e a pessoa quase tapar os olhos com as mãos quando te vê tirar a blusa. Não tenho nada de muito diferente do que você já viu, eu garanto.

Mas – que fique claro – não ter problema em tirar a roupa não é o mesmo que andar peladona por aí. Quando mudei pra minha casa, adorava ficar o mais pelada possível. Aí era um deusnosacuda cada vez que vinha um carteiro ou alguém aparecia na porta, até que eu cansei e acho mais prático ficar vestida. Vestiários de academia são lugares delicados nessas sutilezas de boas maneiras. Tem mulheres que colocam a toalha na cabeça e saem nuas, como se estivessem na sua própria casa. Ou que fazem tranquilamente todo o seu ritual de hidrantes e óleos pelo corpo. Já vi tanta peladona no banheiro que até aprendi a distinguir quem fez lipo ou não, mesmo que seja há muito anos – tem o formato, os furinhos… E mais: já vi tanto silicone que me sinto até o Dr. Rey: acho tudo igual, enjoei, o natural é sempre melhor. Silicone é sempre aquela bolota inchada e dura, posso dizer que perdi o tesão na coisa. Usar o secador vestindo apenas lingerie eu entendo mas também não acho legal. Só que nada do que eu falei se compara ao que me disseram que acontece no vestiário masculino da academia que eu frequento: tem um fulano que senta pelado na pia, ergue a perna e passa o secador no saco. Visão do inferno.

Fases

Por mais que a gente queira ser racional e achar que as coisas acontecem porque acontecem, às vezes tudo acontece junto. Tem fases que são como panos pretos, e por mais que a gente se debata e faça o melhor, aquilo simplesmente não é visto. Ou até é visto, mas tudo fica pra daqui há pouco. Como o Luiz que passou anos trabalhando numa grande empresa, dessas que quando as pessoas ouvem o nome morrem de inveja e acham que é um empregão. O salário dele estava absurdamente defasado, ele ganhava como recém-formado. A situação dele era tão ruim que o próprio chefe pedia desculpas e dizia que o caso dele precisava ser revisto. Ele garantia que a aumento viria, vinha, estava vindo, mais um pouquinho de paciência. Esse vinha demorou tanto que ele mudou de emprego antes. Aí a empresa passou meses sem conseguir um substituto porque ninguém aceitava aquela merreca. Acabaram aumentando o salário e contratando dois, ou seja…

Mas tem fases também que são o contrário, parece que tudo se resolve, tudo desemperra. É como estar em mar aberto e de repente surge a praia, tão pertinho que nem parece de verdade. Coisas que você já estava acostumado, que já eram assim mesmo e deixam de ser. Eu sinto que estou vivendo algo assim, em coisas de diversos tamanhos, mas todas se resolvendo numa direção favorável. De cuidar dos meus dentes a perder peso, de visibilidade pros blogs a estar com uma professora de flamenco maravilhosa e que gosta de mim. Tenho passado esses anos como eu posso – deixando alguns problemas de lado, fingindo que não vejo outros, me conformando com várias coisas. Temperei muitos sapos e comi dizendo pra mim mesma que não tinha nada demais porque era proteína. Não é sempre que a gente olha para frente e tem uma perspectiva boa para os meses seguintes. Estava conversando com minha terapeuta, dizendo que tenho até medo de acreditar – vai dá tudo errado, de novo? Ela me disse: “Não pense assim. Agradeça e siga em frente”.

Um acidente

Eu estava a pé, numa via rápida perto de casa. De longe vi duas mulheres, uma por volta de seus quarenta anos e a outra bem jovem, bonita e com um jeito todo de perua. No início pensei que eram mãe e filha. Só depois vi os dois carros parados, um deles com a lateral toda amassada e os eixos das duas rodas tortos, aquele tipo de coisa que dá perda total no carro. Quando passei por entre as duas, pude ouvir a peruinha falando:
– Na minha concepção, a culpa não foi de ninguém, mas se você quiser eu assumo.
Eu teria matado.

Um amor de família

A minha casa ideal teria um grande terreno em volta e estaria cercada de vizinhos com terrenos igualmente grandes. A nossa distância seria tal que eu poderia morrer e encontrarem a minha múmia trinta anos depois, porque nem o meu mau cheiro eles sentiriam. Vizinho bom é aquele que você só conhece de vista, cujos gostos e rotina nada se sabe. Eu sei dos meus vizinhos muito mais do que gostaria e eles sabem de mim muito mais do que eu lhes contaria. A ganância das construtoras faz com que as casas e apartamentos de hoje tenham paredes tão finas entre vizinhos como são entre os cômodos. Daí a promiscuidade acústica que nos leva a participar sonoramente da vida da vizinhança, de pequenas brigas a maratonas sexuais. Eu não quero saber e não quero ouvir – mas o som deles chega a mim e atrapalha meu sono, minha novela, interrompe os meus pensamentos na cozinha. E, assim, me faz conhecê-los e julgá-los.
Vivo aqui há dez anos, e meus vizinhos da esquerda se mudaram poucos meses depois. O casal chegou com uma boxer, um filho com cerca de dez anos e uma filha que ainda usava fraldas. Eu não achei que eles fossem durar tanto tempo. A mulher é daquelas que só de olhar, só de ouvir a voz, a gente percebe que é uma generala. O marido é um careca feioso, daquele tipo manso e frustrado. Perdi a conta de quantas vezes eles brigaram, quantas vezes ele saiu de casa, quantas vezes pareceu que seria para sempre. Quando o via limpando escrupulosamente o carro nos finais de semana, com tanto ou mais cuidado que os vizinhos que trabalham com van, no início eu pensava que era amor ao veículo. Depois passei a achar que é para ter um pouquinho de paz.
Nas brigas imensas dos dois, na qual era impossível assistir TV, a caçula começava a chorar, pedindo para que eles se entendessem. O nome dela eu sei: Helena. Eu vi a Helena crescer, ganhar festa de aniversário, sair de coque e roupa rosa para a aula de balé e se tornar a mocinha amada que ela é hoje. Ela sempre foi muito amada. Nesses anos, nunca ouvi o nome dela ser pronunciada de maneira rude. Pelo contrário, nos momentos de riso parece que a Helena está sempre no meio. O amor que dedicam à Helena sempre foi inversamente proporcional ao que sentem pelo filho mais velho. Um dia eu estava pendurando roupa e o ouvir se queixar à mãe que a Helena estava há mais de uma hora jogando videogame, que era a vez dele. Ela lhe respondeu com rudeza, que era para deixar de ser egoísta e deixar a irmã em paz. Eu já a ouvi chamá-lo de inútil e imbecil. Nada do que ele faz está bom. Ela está sempre brigando com ele, sempre o acusando, sempre de saco cheio. Nunca consegui ver carinho ali.
Assim como a Helena virou uma mocinha, hoje ele é um rapaz alto que faz faculdade. Sou uma testemunha silenciosa da desigualdade do tratamento entre os irmãos, do quanto as coisas sempre foram mais difíceis para ele. Numa última briga feia entre o casal, o que me causou grande surpresa foi o pai reclamar na rua com o filho: “Tudo para você é a sua mãe, você sempre está do lado dela”. Algumas relações familiares são explicáveis apenas pela Síndrome de Estocolmo.

E se o mundo acabar

Conheço quem acredite tanto no fim do mundo, ou pelo menos numa mudança de era, que até se irrite quando a gente duvida que vá mudar alguma coisa. Percebo que essa história de fim de mundo é, no fundo, um otimismo. Sim, é um otimismo acreditar que os maias previram o fim dos tempos, que vem aí um planeta preto, que os aliens nos vigiam faz tempo e que os bons serão arrebatados. Acreditar nessas coisas é acreditar que, pela primeira vez desde que o mundo é mundo, as pessoas serão julgadas pelo que elas realmente são, pelos seus méritos mais profundos. Até hoje, a humanidade tem feito o que quer, sem nenhuma força fora dela mesma para limitar os seus atos. Os mais violentos têm arrasado todos os que se metem no seu caminho; os outros têm tido que escolher entre aderir à violência ou se submeter. Acreditar que a terra vai deixar de existir é também acreditar que uma força externa colocará a termo tudo o que temos feito ao meio ambiente. Não precisaremos esperar o fim das eras, alguém vai nos interromper antes. O clima ficar cada vez mais louco, os recursos se esgotarem, o planeta aquecer (ou esfriar) e nos matar gradualmente – isso sim seria arcar com a consequências dos nossos atos. Numa escala cotidiana, quem é bom e nunca conseguiu impor sua marca ao mundo será recompensado – ao invés de caminhar anonimamente para um fim medíocre, como ocorre normalmente quando envelhecemos.
Eu simpatizo com a idéia de um fim rápido e indolor. Se comigo acontecesse como O dia em que a terra parou e um Ser me dissesse que veio destruir a humanidade porque ela está acabando com o planeta, eu não responderia com a mocinha do filme, que pediu tempo, que disse que poderíamos reverter aquilo. Eu responderia – “Tem toda razão, mata tudo!”. Eu não acredito na humanidade a esse ponto, não acredito na nossa capacidade de frear o mecanismo destrutivo que criamos. Sou pessimista também com a idéia de intervenção divina. Olharemos para os céus dia 21 e nem uma chuva verde cairá, nem um ventinho estranho, nada que possa servir de consolo. Se houver mesmo um Divino, ele já tem provado de longa data a sua indiferença ou, pelo menos, a sua política de nos deixar beber até a última gota. Um fim do mundo para impedir a humanidade de ser o que é seria um baita lucro.

O emprego

Estava no tubo esperando o ônibus. Duas mulheres se colocam ao meu lado e começam a conversar:
– Eu estou numa angústia, você não sabe o que eu estou passando. Eu trabalho ali (apontou um prédio na frente) e fiz uma entrevista e consegui um emprego ali (apontou um prédio no fundo). Só que cada vez que eu chego para a minha patroa pra pedir demissão eu travo, não consigo falar.
– Tem que tomar coragem, tem que pedir demissão.
– Eu gosto de lá. Mas é que aqui eu ganho mil e quatrocentos e nesse emprego novo eu vou ganhar mil e setecentos e não vou precisar trabalhar de sábado. Eu não sei o que fazer.
– Tem que tomar coragem e falar com a patroa.
– Eu vou lhe contar porque é que eu ainda não pedi demissão, é que eu estou com uma intuição ruim. É que lá eu vou ser contratada com uma outra, ela vai ser cozinheira. Eu vou cuidar da casa e a outra da cozinha. O nosso santo não bate, é por causa dela que eu estou na dúvida. Ela fica achando que manda em mim e nem patrão manda em mim, quanto mais outra empregada. Eu quis colocar uns panos de chão na máquina e ela quis me dizer que não podia, que a máquina estava limpa, eu respondi que quem sabia disso era eu, e a patroa teve que vir dizer pra gente não brigar. É só ela não me falar nada, porque se fala eu respondo…
Aí o ônibus chegou. Foi difícil me segurar e não virar pra ela e dizer que não era pra aceitar esse emprego.

Deixe-me ir

Tudo bem que eu era craque em relacionamentos à distância, mas eu bati todos os meus recordes quando me propus a manter um amor com alguém que morava em outro continente. É daquelas histórias que a gente imagina que SE um monte de coisas não fossem como eram, poderia ter sido bem diferente – só que na prática esses SEs são sempre tão impossíveis que é o mesmo que dizer que já nasceu condenado. Mesmo condenado, nos propusemos a manter contato e trocávamos e-mails todos os dias, mais de uma vez por dia. E olha que era a época da internet discada e eu acessava pelo computador da universidade. Naquele intervalo maior entre as aulas, tanto de manhã quanto de tarde, eu ia da Santos Andrade à Reitoria pra tentar acessar o computador. E antes de ir embora para casa também. Ficamos seis meses nessa. Ninguém devia fidelidade a ninguém, mas tínhamos o pacto de contar um ao outro caso alguma coisa acontecesse. 
No fim do semestre, ele me disse que estaria muito ocupado terminando sua tese, por isso não teria tempo de me escrever. Ele me mandava apenas um e-mail padrão, dizendo que continuava trabalhando e que me adorava. Naquele mesmo período eu fui dançar com uma amiga, e lá conheci um cara muito simpático, aquela coisa toda. Ele quis ficar comigo e fiquei tentada, mas pesando na balança achei que ele não era bom o suficiente para o e-mail que teria que escrever depois. Não ficamos e nunca mais nos vimos. Dias depois, meu namorado virtual finalmente havia terminado seu trabalho, e me escreveu um longo e-mail falando de uma festa que foi com seu melhor amigo, que havia aproveitado muito e que tinha conhecido uma moça. Não que tivesse acontecido algo, mas estava para acontecer e ele se sentiu na obrigação de me contar. Nem sei dizer o que me magoou mais, a mulher ou a perda de importância por ter recebido uma mensagem padrão por falta de tempo enquanto o outro ia a festas. Aquilo me pegou no último dia de aula, no fim da faculdade. Não apenas isso, na véspera de uma viagem de reconciliação com o meu pai. Tudo era muito doloroso e importante. Minha vida estava começando e eu não sabia onde estava pisando, não sabia onde me segurar. Eu lhe escrevi um longo e-mail e terminei tudo.
Anos depois eu voltei a lhe escrever, não lembro o motivo. Ele disse alguma coisa de eu ter ficado braba com ele e por isso aquele e-mail, e por isso o fim. Não era nada disso, ele não entendeu nada. Eu precisava ir embora, porque era louca o suficiente para persistir ainda mais. Ele, por amor a mim, precisava me deixar viver.