Carta de amor

grão comercial

Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

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A casa do sonho

especialista em aliens

Também acontece com vocês de, no sonho, lembrar que aquele elemento já existia num sonho anterior, como se você vivesse uma vida paralela em sonhos? Há poucas noites percebi que mudei de casa. Há anos eu sonhava com casas, em visitar casas, de entrar em casas mofadas ou abandonadas e deixar o ar entrar e ter que torná-las habitadas de novo. Recentemente me mudei, uma casa enorme num amplo terreno com gramado. Posso dizer que ela é tudo que sonhei ou até mais, porque é uma casa bem grande, móveis desenhados, ampla entrada de luz, gramado que dá um bom espaço relação aos vizinhos, segura. Só que o interessante dessa nova casa, é que ela é minha e não é. Eu vivo num quarto bem escondido, tenho que passar por vários corredores até chegar lá, é quase como se fosse um porão. Em contraste com o capricho da casa, meu quarto é austero como uma cela religiosa. Será que vai ser sempre assim, ou com o tempo eu galgarei quartos melhores dentro da minha própria casa em vida paralela de sonho?

Fã clube

Minha amiga Bárbara é fã do Chico Buarque. Eu também adoro Chico Buarque, mas ela é fã, é diferente. Já tivemos várias conversas sobre as músicas dele, ela sempre preferindo-a qualquer um dos seus interpretes. Quando alguém diz (eu fiz muitas vezes) que ele é um excelente compositor e não cantor, ela se irrita. Não adianta argumentar questões técnicas como alcance de voz e etc, para ela o Chico é o melhor cantor das músicas do Chico e pronto.

Passei a vida inteira imune ao gene de ser fã e agora, bem… Uma amiga definiu assim: claro que ela tinha que ser fã de um português que ninguém conhece. Fiquei sem graça, porque fica parecendo que escolho minhas músicas em função de não ter ninguém do meu lado que goste, e não é assim (pelo menos com músicas). Ser fã nem ao menos é escolha. Agora, só agora entendo a Bárbara. O melhor interprete pro meu amado Miguel Araújo é o Miguel Araújo.

Eu sou do tempo do purgante

purgante

Constatei mais essa velhice em mim. Eu sou do tempo que se entendia que era preciso purgar. Que quando algo chegava ao fim, nunca era abrupto. É como se tudo deixasse um rastro atrás de si, uma sujeira, e era preciso se livrar dela antes de colocar outra coisa no lugar. Que depois de perder uma criança, o útero precisava passar um período quietinho antes de tentar gerar mais uma ou que depois do resfriado era normal ficar com o nariz cheio de coriza. Ou seja, a gente aceitava que havia um sofrimento e que fazia parte da natureza. O período de purgação era algo que não podia ser apressado, ele nos ensinava a paciência. Por ser do tempo do purgar, a mim soa estranho quebrar a cara num dia e no outro já se enfiar no novo como se nada tivesse acontecido. Purgar pode levar anos. Eu sei, a vida tem nos exigido pra ontem, mas repito: eu sou de outro tempo. O que hoje tende a se chamar de desistência e passividade, eu chamo de purgação. É tanto medo de perder seu lugar, tanta pressão pra sair correndo, que se dar um tempo é nadar contra a corrente. Só depois de uma purgação bem feita – nós, os antigos, acreditamos – é possível colocar algo realmente novo, belo e forte no lugar.

Simples assim

chess queen

George Clooney contando pro Letterman (O próximo convidado, Netflix) como conheceu a esposa dele, Amal: Eu estava em casa e um amigo me ligou dizendo que traria uma amiga. Eu disse que tudo bem. Nós conversamos a noite inteira, trocamos e-mail, começamos a nos corresponder. Eu não sabia se ela queria algo além de uma amizade. Eu tinha uma gravação em X e chamei ela pra me encontrar mais tarde.

Por favor, não venham desmentir, dizer que do lado dela houve uma tremenda premeditação, que nada é como parece, que tem a grana, que tem o homem mais sexy e galinha do mundo. Vamos ficar com essa versão, que tal? Que as coisas possam surgir de uma simpatia espontânea. Que não seja necessário levantar a ficha e cercar tudo em volta antes do encontro propriamente dito. Ou estar no melhor visual ou melhor macumba. E aquelas regras sobre fazer e não fazer. Chega de tanto jogo de xadrez.

Me vê um ovo

ovos

O outro comércio que tinha por aqui e faliu com o tempo foi o armazém da Dona Laide. Era mais profissional do que o sorvete, ficava na parte da frente do terreno, com uma porta de metal que dava pra calçada. Faliu porque abriram uma grande padaria quase do lado. Eu passava lá de vez em quando, para comprar um ovo. Nunca compro ovos. Quando eu me propunha a fazer uma receita de bolachinhas de mel, que usava um ovo ia lá e comprava. Na época custava 0,35. Dona Laide enfiava o meu um ovo num saquinho de papel e eu voltava pra casa e fazia a receita. Um dia, quando fui abrir o portão, acabei rachando o ovo e tive que voltar lá e comprar outro – naquele dia ela lucrou o dobro. Até que um dia eu descobri que aquelas bolachinhas faziam peidar muito e parei.

O novo

dicas-para-seu-cachorro-ser-mais-saudavel

Se hoje não tem quase nada perto de onde eu moro, quando eu me mudei tinha menos ainda. Havia dois pequenos comércios aqui perto e já fecharam: um mercadinho (onde eu comprava ovo) e uma sorveteria. Eu passei duas vezes na sorveteria. Era uma casa simples, com um pequeno balcão na garagem. A gente passava pelo jardim e era atendido por uma senhora. O preço era bom, mas o sorvete é de uma marca bastante popular aqui e muito dura, e acho ele tão ruim que prefiro não tomar sorvete a ter que pedi-lo. Quando um dia passei na frente e não tinha mais placa de sorvete, não liguei.

No inverno, tenho que fazer toda uma manobra com a Dúnia. Ela se tornou friorenta com os anos e por causa dos pelos não se pode deixar cachorro com roupinha o tempo todo. Imagine como isso é complicado quando a temperatura está perto de zero graus há dias. Eu acostumei a Dúnia a me deixar tirar a roupa dela pelo menos pra passear e mudo o trajeto para passarmos no sol e ela se expor um pouco ao cálcio. Num desses passeios, encontrei numa esquina a senhora que vendia sorvetes. Ela não lembrava de mim. Ela me contou que fazia um bom dinheiro vendendo sorvete em casa, que tinha um cliente que vinha de carro todo final de semana comprar pelo menos uns dois potes. Um dia ela atendeu dois adolescentes e no dia seguinte eles vieram para assaltá-la. Estavam marmados. Levaram o pouco dinheiro que ela tinha, potes de sorvete e por pura maldade atiraram no vira-latas dela, que era calminho e estava no seu canto. A parte do cachorro foi que realmente acabou com ela. Depois ela até tentou vender sorvete com o portão fechado, mas aí a clientela ficava com vergonha de bater, e ela mesma já tinha perdido toda alegria. Ela caiu em depressão com a morte do cachorro. De vez em quando, pra não ficar doente, ela se obrigava a andar na rua e pegar sol, exatamente como estava fazendo naquele momento.

Carnaval 2018. Depois de uma segunda chuvosa, terça eu consigo levar a Dúnia para passear. Normalmente passamos ao lado de um grande muro, para não atiçar os cachorros do outro lado da rua. Mas, mesmo assim, eles estão latindo muito. Olho na direção deles e eles estão latindo para alguém passando perto deles. A pessoa vai se aproximando e vejo que está com um cachorro. Se aproxima mais e vejo: um filhote lindo de morrer, branquinho de pelo curto e uma mancha marrom num dos olhos. Ele é agitado e feliz como apenas os filhotes de cachorro podem ser. E quem o leva é a senhora do sorvete, feliz da vida. Ela acena pra mim e diz: “Temos que levar nossos bebês pra passear, né?” Não consigo dizer de outra maneira: Deus abençoe que deu aquele lindo filhote a ela. É a vida que renasce.

Quando a História passa na sua frente

Existem dois tipos de heroísmo: os de uma vida inteira e os de um único gesto. Uma coisa que me frustou quando tentei ver Os Miseráveis em filme, foi a omissão da história da freira que ajuda Jean Valjean a fugir logo no início da perseguição de Javert. No livro, o autor passa muito tempo falando dela, do seu voto de não mentir, das dificuldades e superação que a tornaram conhecida por isso. Com Valjean escondido na sala e Javert lhe pergunta se ele está ali ou não, disposto a acreditar no que ela disser, a freira se vê num grande dilema moral: manter o voto ou salvar a vida de um homem bom? Ela prefere salvar uma vida. Outro exemplo religioso, só que da vida real, foi quando o Rabino Henry Sobel participou, em 1975, da missa ecumênica pela morte do jornalista Herzog. Preso, torturado e “suicidado” pelo Regime Militar, celebrar uma missa era o mesmo que reconhecer publicamente seu assassinato, porque não se celebra missas para suicidas. Nesse reconhecimento público, os celebrantes e até mesmo os presentes se colocavam em risco. Mais um jornalista e mais um suicidado, era muito mais fácil ficar em casa e fingir que nada aconteceu. Mesmo se colocando em risco, Sobel realizou a missa ao lado de Dom Paulo Evaristo Arms e ela se tornou um evento que reuniu oito mil pessoas e o maior ato simbólico contra a Ditadura. (É só pesquisar Missa + Herzog)

Mas visto de outro ângulo, o herói do grande gesto na verdade é um herói de gestos diários; o grande gesto é apenas o que recebe visibilidade ou culminação de uma vida de preparo. A mentira da freira de Os Miseráveis não teria nenhum valor se ela não fosse uma pessoa exemplar; Sobel e Evaristo Arms, como muitos outros religiosos, já vinham sistematicamente irritando o Regime por proteger pessoas e se posicionar contra a tortura. Na hora do tudo ou nada, do correr ou ficar, do fazer o certo independente das consequencias, eles tomaram uma decisão da qual puderam se orgulhar o resto da vida.

Eu vi algumas vezes o vídeo do desfile da Tuiuti. Algumas pessoas estão preocupadas da escola sofrer boicote e/ou não ganhar. Da minha parte, não me preocupo nem um pouco com a nota. Independe do que aconteça na votação, ela é a ganhadora moral. As alegorias chegam claras: trabalho informal, carteiras de trabalho rasgadas, manifestantes com roupa de pato, um carro com um vampiro no topo e faixa presidencial, pessoas em cima de sacos de dinheiro, mais patos manipulados. E os comentaristas não são capazes de falar na-da. Talvez nem precise esperar muito, talvez horas depois eles já tenham se arrependido da covardia. Era hora de falar abertamente, mesmo sabendo que no dia seguinte não teria emprego. Não precisava nem gritar “Fora Temer”, não precisava ser esquerdista pró-Lula. Bastava descrever o que estava ali.

A partir de 35:32

O pulso

Eu li em algum lugar, alguma vez, falando obviamente de astrologia, que Saturno era o planeta essencial para um bom músico. Saturno, também conhecido como O Grande Maléfico. O planeta da tristeza, dos atrasos, da rigidez, da seriedade. Quando a gente vai na raiz do que é a música, faz todo sentido. Para quem não é músico, há de se pensar em tudo reduzido, apagar os floreios, a voz e os instrumentos, e pensar no pulso. Já os músicos sabem que toda variedade é aparente, que o que possibilita que todos estejam em harmonia é a obediência a um princípio fundamental, que segue invariável e matemático. Na biografia do Bob Dylan fala dele comentar sobre um dos seus bateristas não ser exato o suficiente, aí o biografo nos lembra: não é qualquer coisa tocar gaita, violão e cantar músicas de dez minutos e se manter no tempo. Um guitarrista de flamenco me disse que o Paco de Lucía era tão exato que ele chegou a colocar um metrônomo ouvindo uma das apresentações dele e Paco se manteve exato o tempo todo.

Pra este post ficar um tiquinho carnavalesco (é que o meu carnaval é assim mesmo, saturnino), coloco um vídeo que faz sucesso pelo Facebook: Paco de Lucía interpreta Tico Tico no Fubá.

Meu tempo

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Eu cheguei um pouco antes do horário e minha cabeleireira estava atendendo uma moça, muito normal. Na despedida ela disse algo como “nossa, obrigada, vou ver sim”. Aí ela veio me chamar, conversamos rapidamente sobre o que eu queria e fomos para o lavatório. Aí, enquanto ela lavava o meu cabelo, a moça voltou com o celular na mão. “Olha aqui as fotos”. Aí ela mostrou que a casa tinha um deck que dava para um lago. Várias fotos. Eu não vi nenhuma, porque estava no lavatório e a mão em cima de mim. A casa era do lado de uma comunidade, uma “seita de yoga”, e a casa pertencia a um dos caras da seita, era onde ele vivia, mas alugava para temporada, para gente de estreita confiança, como ela e o marido com filhos. Olha aqui, que demais. Olha essa vista. Que pechincha. Eu te indico. Ela era realmente bem relacionada, baita férias. O que eu sei é que me vi detestando a mulher. Seita de yoga, pechincha exclusiva? Então descobri que a gente paga, também, pela atenção total do nosso cabeleireiro, que a parte da fofoquinha faz parte do pacote. E que eu me importo.

A morte não gosta

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Lígia, com G, não D. Ela não entende qual a dificuldade das pessoas em pronunciar o G no nome dela. A Lígia é uma dessas mulheres sozinhas, independentes, aferradas à sua solidão, sem papas na língua. Que de tanto nunca terem que negociar dentro de casa acabam não negociando com ninguém. Ela teve um relacionamento há décadas, e depois que ele a deixou nunca mais se envolveu com ninguém. Até pouco tempo a sua minguada aposentadoria era destinada a participar de campeonatos de natação master pelo Brasil. Fez as contas e descobriu que estava caro demais pra ela e agora só vai nos regionais. Para pessoas que participam há anos, como ela, esses campeonatos são a oportunidade de rever amigos do Brasil inteiro. Num desses, anos atrás, encontrou outra nadadora, de uma faixa etária avançada, e que apesar do ambiente de saúde que os campeonatos transpiram, começou a reclamar. Estava cansada de viver. Pra ela tanto fazia estar viva ou morta. O que ela queria mesmo é que a morte a buscasse logo. “Ah, mas aí é que não vai!”. Lígia expôs pra ela a teoria que quanto mais a pessoa reclama, mais a morte demora pra vir. A pessoa alegre, pum, morre jovem, enquanto o que odeia viver dura pra lá dos oitenta anos. Depois, não sabe se foi por acreditar na teoria ou por saber que ali não teria ouvidos compreensivos, Lígia nunca mais ouviu a mulher reclamar.

Quase só animal

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Passei por uma fase lendo bastante sobre Gurdjieff e parei por não encontrei mais livros para ler. Mesmo conhecendo várias teorias místicas, a dele foi uma das que mais me impressionaram. Há uma metáfora que ele usa – que não é nenhuma novidade – e diz que uma pessoa é como uma carroça puxada por um animal. O animal é o corpo, a carroça são os sentimentos e o condutor é a mente. Ele diz que os homens se acham muito racionais, como se a mente fosse um fato dado. Pelo contrário: a humanidade como um todo está dormindo e precisa acordar; a mente é uma conquista e não um fato. Aí ele faz uma estatística, que não me lembro com exatidão, que diz que nos nossos atos somos 80% corpo, 19% emoção e, quando tem mente, apenas 1%. Que pensamos que a nossa mente inicia a ação, sendo que na verdade temos um instinto que nos domina de tal forma que a emoção e a mente vão atrás para confirmar. Quase tudo o que pensamos decidir é, segundo esse raciocínio, mera racionalização dos nossos instintos. Não digo que Gurdjief me consideraria uma pessoa desperta, mas entender esse mecanismo já me ajudou.

Introvertido se divertindo horrores na balada

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Algumas poucas vezes na vida introvertidos convictos caem na falácia do “desta vez vai ser diferente, vai ser divertido”. Geralmente quando nossos amigos extrovertidos se aproveitam de uma fase baixa, e atribuem o fato de você estar sozinho à sua introversão. Não que não seja verdade, mas o errado é a associação de sozinho com feliz e multidão com acompanhado. Aí você aceita que a amiga extrovertida te pegue em casa, e até consiga combinar com outros dois amigos que também não gostam de balada. Ela liga num horário que você já está de pijamas, diz que em quinze minutos passa aí, você se descobre capaz de se maquiar rapidamente, a pessoa leva duas horas para chegar. Quando chega, você enxuga a baba da almofada e vai, sem poder perguntar o que aconteceu porque há mais caronas no carro e o clima está péssimo. Vocês chegam na balada, que fica nos cafundós, a amiga dá piti na entrada porque reservou mesa mas o descontou expirou há três horas, ela argumenta que tem vinte convidados, o pessoal se olha com cara de quem já viu o filme e dá o desconto. Os dois amigos que também não gostam de balada escolheram uma mesa bem longe do palco e estão de péssimo humor porque chegaram no horário combinado. As outras vinte pessoas são umas seis, contando que outra também é aniversariante com marido. Você tenta conversar com os amigos que não gostam de balada mas o Máskara interrompe com gritos histéricos. Eles decidem ir embora. Pra noite não ser tão longa, você vai até a pista de dança porque a banda realmente é boa. E dança. A amiga extrovertida te vê na pista de dança e concluiu que a balada é um sucesso e você está se divertindo horrores. Apenas: não.

Um Eu melhor

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Eu acho que os textos estão melhores e sem dúvida hoje eu sou muito mais independente. E intransigente. Aprendi a não precisar dos outros para minha estabilidade emocional. Antes eu tinha uns descontroles, as coisas perdiam a perspectiva e eu ficava agitada e pessimista, sem saber direito como sair daquele estado. Minhas opções eram uma conversa racional que só uma ou duas pessoas no mundo eram capaz de ter comigo, ou passar dias em loucura, até cansar. Achava normal e hoje acho um saaaaaco quem age assim, quem procura em mim esse esteio. Sou a minha própria estapeadora que grita pra me acalmar, sou o cachorro da foto com a própria guia da boca se levando pra passear.

Descobri que há quem me considere melhor hoje do que quando eu era casada. Eu não consigo pensar nesses termos. O meu ponto de vista é a realidade ter se tornado mais dura e reajo a ela. Antes eu era um molusco pelado e agora sou um molusco de carapaça.