O brilho secreto

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Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

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Meu pé meu querido pé

Não quero nem saber dos cartazes “Eu já sabia” que vocês vão erguer, pra mim foi uma grande descoberta pessoal reconhecer a importância do pé nas condições climáticas. Chuvas tenebrosas se tornaram quase nada pra mim depois que comprei galochas. Bolsa de água quente no pé em dias frios é tão bom que olha, não encontro nem metáforas para comparar. Agora me aguardem quando eu colocar as minhas mãos, ou melhor, os meus pés na bota peluda que encomendei. Minha vida vai mudar. Serei feliz, andarei pelos campos floridos aos pulos e conhecerei meu príncipe. Quiçá pare de reclamar do frio. Tudo porque meus pés, meus queridos pés, estarão quentes.

Curtas natalinos

Vou dizer a verdade: o post de hoje é de curtas natalinos apenas para eu poder usar a figura ao lado.

 

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Comprei um chocotone de supermercado, que estava numa super promoção e eles garantiam que tinha a mesma qualidade dos de marca. Fui abrir e claro que tinha uma gotinha preta aqui e outra lá, era praticamente um pão. Mas sabe que estava mais gostoso? Colocam essência e chocolate demais hoje em dia.

 

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Eu pensava que esse ano escaparia de comprar lembrancinhas. Sempre dei presente pro pessoal da lavanderia, mas agora vou lá bem menos, achei que não ia rolar. Mas me deram presente mesmo assim e abraços, de maneira que tive que sair correndo. Uma das muitas coisas doídas da separação é admitir publicamente que acabou. E, por estranho que pareça, elas eram as que mais me doíam contar (o que nem foi necessário). Ali sempre houve um carinho mútuo, daqueles simples e sinceros.

 

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Por falar em contar, praticamente mantive meus planos natalinos em segredo, que é pra ninguém sentir pena e querer me levar pra casa. Passei da fase de precisar de companhia a todo custo. Nunca fui muito chegada em natais, mas o povo tem certeza que na hora bate uma melancolia e quem está sozinho em casa necessariamente se entristece. Eu juro que não.

 

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E já que estou nessa de ignorar data, me darei presente de natal só no ano que vem, com tudo em promoção.

Segredos

Eu fujo de segredos e eles me perseguem. As pessoas se impressionam com a minha falta de curiosidade e eu digo que não é nada disso, é que já sei demais. Não preciso e não quero perguntar mais nada. Na verdade, estou fazendo errado, porque quem não se interessa é sempre o candidato ideal para ouvir. O que está sempre querendo que lhe contem, passa a idéia de que fará alguma coisa com essas informações. Aquele que age como se ouvir ou não ouvir não lhe faz a menor diferença, parecerá o depositário ideal das maiores confidências. Eles – os segredos – me aparecem sem aviso. Como farejo uma confidência de longe e nunca faço a pergunta que puxaria todo o fio de histórias – as pessoas desembestam a falar sozinhas, sem maiores introduções. Pode ser quando estou comendo um sanduíche, ou dou uma passadinha no computador pra verificar meu e-mail e lá está: o segredo, a bomba, a confidência. Quando a pessoa quer contar, ela conta, mesmo que ninguém lhe pergunte.

Não é tão divertido quanto parece. É meio como ser o narrador onisciente; posso até ter uma visão ampla dos fatos, mas isso não me faz ter poder sobre eles. Ouvir segredos nos torna parte do problema; o confidente pode ser colocado diante de questões éticas muito difíceis – é diferente ser o que faz ou ser aquele que sabe que o outro fez. Lembro da história de um casal, amigo de outro casal, com filhos em idade em comum. Numa época, a amiga passou a deixar os filhos a tarde inteira com eles, o que era ótimo porque as crianças se adoravam. Até que eles descobriram que o compromisso que a fazia deixar os filhos lá era um amante. Até então, eles a estavam ajudando sem saber – mas o que fazer agora que sabiam? Depois de passarem uma noite inteira em claro, vendo os prós e contras da situação, decidiram não ficar mais com os filhos, mas também não revelar o segredo ao marido traído. No fim, o casal acabou se separando e acho que a mulher foi viver com o amante. Difícil foi quando o ex-marido soube que eles sabiam. Ele se sentiu mais traído com isso do que com a própria traição da esposa.

Deveria existir um código de ética para confidentes informais.