Leprechaun

Artesanato também tem modismos, ainda mais nunca cidade que tem um excelente artesanato. Naquela época, a moda eram as fadinhas. Elas tinha uma base de madeira arredondada, asas de uma espécie de papel de seda, e a figura – uma peça inteiriça de resina – era uma menina magrinha, ajoelhada e de vestido, estendendo a mão com uma florezinha seca colada. O conjunto todo não ultrapassava os quinze centímetros. Tínhamos uma em casa e achávamos a coisa mais fofa. Uma colega de faculdade era amiga da namorada do cara que fazia essas fadinhas e me indicou para trabalhar para ele. Ele era jovem, um pouco mais velho do que eu, e fazia alguma faculdade relacionada com arte. Quando me tornei sua ajudante, as fadinhas já estavam em decadência. Ele queria ajuda para o seu mais novo projeto, o Leprechaun. Perto das fadinhas, o Leprechaun era grande. A figura tinha um ar despreocupado e sorridente, meio deitado e apoiado nas mãos. A base, também de madeira, tinha cerca de vinte centímetros de diâmetro. Era uma peça claramente mais elaborada, constituída de várias partes a serem encaixadas. Sua roupa era quase toda verde, com alguns detalhes metalizados, como mandam as figuras tradicionais. Se eu não me engano, havia um pote de ouro. As peças chegavam até mim separadas por tipo, todas no mesmo tom de marrom claro. Eu via os moldes de borracha e não entendia como funcionava, nunca via as peças serem feitas. Minha missão era apenas pintar e colar. Olhando para trás, é irônico pensar que, poucos anos depois, eu não apenas entenderia o processo, como passaria a trabalhar com todo aquele material. Na época, parecia impossível.

Eu sentava num banquinho diante de um balcão, com tintas, pincéis, peças e com uma pistola de cola plástica. Chegava no horário combinado e trabalhava em silêncio, na maior parte do tempo sozinha. O atelier ficava com a porta encostada e eu entrava e saía sem ver ninguém, só o gato. O salário não era grandes coisas, mas o serviço também não era e eu não gastava em ônibus. Não sei se eu tenho uma habilidade manual excepcional, se ele não estava acostumado com uma produção em série, ou se o que ajudava era o fato de eu passar horas trabalhando sem conversar com ninguém – em pouco tempo pintei todas as peças e montei mais Leprechauns do que cabia nas prateleiras. Com algumas semanas de trabalho, aparentemente, eu já havia pintado Leprechauns pro resto do ano. Quando disse que não poderia trabalhar mais, não pude deixar de notar a expressão aliviada do rosto do meu patrão. Imagino que ele teria que me mandar embora de qualquer forma, pelo menos até vender o que eu havia feito – o que não deve ter acontecido, porque os Leprechauns nem de longe alcançaram o sucesso das fadinhas. Quis comprar Leprechaun de lembrança, o que comia uma parte boa do meu salário. Quando recebi, o Leprechaun não havia sido descontado.

Ao invés de guardar o Leprechaun, como tinha pensado no começo, decidi dá-lo de presente de Natal para minha tia. A caixa onde ele vinha era redonda e alta, igual caixa para guardar chapéu. Foi uma sensação quando minha tia o abriu o pacote e mostrou pra todos o que eu havia “feito”. Com muito interesse, ela olhou para a peça e me perguntou:
– E agora, o que devo fazer? Tenho que colocar a mão no chapéu dele e fazer três pedidos?

Superstição é um privilégio de quem não está por dentro do processo.
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A decadência, a queda

Não encontrei alguém, como no post do Milton. Eu estava passeando por perfis de antigos colegas de faculdade, e encontrei aquela que foi, durante alguns anos, minha melhor amiga. Éramos um grude; hoje tenho clareza de que não gosto desse tipo de amizade, mas sempre achava muito difícil de evitar quando o outro se dispunha. Eu era a intelectualzinha, com mãe fazendo mestrado e a família toda de bacharéis. Ela era a primeira universitária da família. Eu tinha uma vasta cultura letrada; ela sabia falar com desconhecidos e descobrir que tipo de decote deixa um homem louco – “cada um gosta de uma parte do corpo diferente. Só observando a reação de cada um a um decote diferente pra saber”. Meus gostos eram sempre o que havia de mais selecionado e elitista, tanto que só ouvia música clássica. Ela, mesmo sem saber, era a minha representante do senso comum – quando acontecia alguma coisa e eu queria saber o que a maioria das pessoas pensava a respeito, eu a consultava.

Eis que fuxiquei o facebook dela. Ela trabalha na mesma área que cursamos juntas. Tem foto com nosso ex-professor mais querido – aquele que nos chamou de maior QI do curso, olhando nos meus olhos, e que ela vibrou por nunca ter ouvido algo assim. Eu deixei para trás esse futuro promissor e fui atrás de outros, que também deixei para trás… Quase não ouço música clássica e defendo Michel Teló, embora não o ouça também. Ela é uma profissional, sabe exatamente que estante lhe interessa ao entrar nas livrarias. Eu sou essa que vos escreve. Dentre tantas coisas naquele perfil, tantos congressos e especializações, descobri as famosas citações – que podem ser o pseudo-texto do Veríssimo, ou figuras de livros cometendo suicídio, ou qualquer coisa do gênero – repudiando Big Brother e todas as pessoas de mente pequena que assistem aquela merda. Ou seja: eu. Aí eu me pergunto – é a minha decadência, a minha queda?

Super trunfo

As pessoas são como as cartas do jogo Super Trunfo. Tem sempre aquela carta boa, que vence em quase todos os itens. São aquelas pessoas que são lindas, ricas, talentosas e sortudas. Tem também aquela carta péssima, que só vence em um item e olhe lá. Esses são aqueles desafortunados que nasceram feios, pobres, burros e azarados. Esses casos são exceções, para o bem e para o mal. A maioria de nós está no resto do baralho. Temos algumas características boas, umas ruins, a maioria das coisas depende do contexto. O que um jogador habilidoso precisa é ter consciência das partes boas e saber usá-las. E deixar a parte ruim para lá. Só que não é isso que a maioria das pessoas faz. Acham que existe apenas uma maneira de ser bonito, uma maneira de agir, uma maneira de se portar na frente dos outros, um objetivo de vida. E usam todas as suas forças em coisas que não tem nada a ver com suas habilidades; insistem na sua numeração mais baixa como carta. Nem quem tem o Super Trunfo ganha desse jeito.

Cervejinha

Perto da casa da minha mãe há muitas padarias, o que permitia a uma gourmet de pães como ela escolher a melhor fornada. Eu me dispunha, para isso, a andar várias quadras, ignorando várias padarias, até chegar naquela com o pão mais gostoso. Estava voltando de lá, tranquilamente, e vi de longe uma velhinha no portão de casa, olhando para os lados. Ela usava um vestidinho de chita, tinha o cabelo todo branquinho e morava numa das casinhas polonesas de madeira que pouco a pouco desapareceram do bairro. Quando me viu, a velhinha sorriu e me chamou com a mão. Fui até ela e ouvi um pedido inusitado:
– Moça, você pode ir naquela padaria pra mim comprar uma cervejinha? Aqui está o dinheiro trocado, é rapidinho, a padaria fica menos de uma quadra daqui e você não vai levar nem cinco minutos. É que se eu vou lá eles me conhecem e não vendem pra mim.

Fui. O sentimento de que havia uma contravenção na minha atitude me ocorreu quando peguei a cerveja e fui pagar. Ninguém estranhou e nem me perguntou nada, mas se algum dos presentes me conhecesse saberia que eu jamais compraria uma cerveja para mim, e aquela continua sendo a única cerveja que eu comprei na minha vida. Quando voltei com a lata, a velhinha abriu um largo sorriso, me agradeceu muito, me abençoou e correu com a latinha pra dentro de casa. Nunca mais a vi.

Quando cheguei em casa e contei o que fiz pra minha mãe, ela me disse:

– Você é louca, como é que você fez uma coisa dessas? Na certa aquela velhinha é álcoolatra, foi proibida de beber pela família e o pessoal da padaria estava sabendo! Você ajudou um álcoolatra a beber escondido!

Acho que deve ter sido isso mesmo. Mas sempre que me lembro do vovô do Little Miss Sunshine, me parece que não fiz nada tão grave.

Louco é o desejo do amador

Escrever pra mim é algo banal. Aprendi cedo, na escola, na época certa. Minha aspiração, quando criança, era ver filmes legendados sem ninguém precisar narrar pra mim. Por gostar de ler, aprendi as regras gramaticais intuitivamente e nunca tive grandes problemas com a ortografia. Mesmo a idéia de escrever bem, de ter algo diferente pra dizer, é algo que ainda me causa suspeita. Sei que vocês vêem aqui e me lêem; a prática me levou a saber o momento certo de cortar as frases ou de prolongá-las, o que consigo perceber claramente quando leio textos antigos do blog (e tenho vontade de deletá-los). Trechos mal escritos me saltam os olhos, minha mente organiza as frases naturalmente. Bom de verdade com as letras era Guimarães Rosa, o resto é só gente alfabetizada.

Quando aprendemos uma linguagem desde criança, nos tornamos experts sem nenhum esforço. Essa falta de esforço é que permite inovar, brincar, alçar vôos maiores, ou até mesmo ter qualidade apenas ao fazer o básico. Penso naqueles que dominam linguagens que eu amo e que não foram passadas pra mim desde criança: músicos, que lêem partituras, adivinham acordes em canções, que desenvolveram uma coordenação motora precisa nas mãos. E, claro, bailarinos, que aprenderam a submeter cada movimento ao que querem, que dominam a técnica de girar e não perder o eixo, que conseguem se equilibrar numa base mínima, que podem alterar a sua movimentação de acordo com a música sem perder a qualidade. Mas poderia estar falando também em nadar, fazer uma horta, programar um site, cozinhar, andar a cavalo, aprender um novo idioma, costurar, pilotar um avião ou saltar dele. É difícil entender, pra quem foi alfabetizado desde criança, que dificuldade um adulto pode ter em entender a lógica de juntar vogais e consoantes, os cálculos sonoros na hora de juntar as sílabas, a vitória em finalmente escrever o próprio nome. Somos todos assim, quando inventamos de começar depois de adultos. Na maioria das vezes gente se convence de que não pode e não tenta… mas quando tenta! Vejam um adulto aprendendo, é lindo. Funciona com qualquer adulto e com qualquer linguagem. Aprender desde cedo traz domínio, tranquilidade e virtuosismo; aprender tarde traz tantas pequenas vitórias, tanta superação, que às vezes chega a ser mais desejável ser sempre um principiante.

Análise

Para quem não sabe a diferença entre terapia e análise, posso dizer de cadeira que terapia tem o propósito de curar e análise não. Digo isso como quem estudou o assunto e como quem se submeteu a essas duas formas de atendimento. Análise é proposta por psicanalistas, e eles dizem que só acreditam em cura no mesmo sentido de “curar um cachimbo”, de uma preparação. A psicanálise acredita que cada um tem uma estrutura, formada na tenra infância, e nada pode mudar o que você já é. Apenas que se conscientizar de algumas coisas pode ajudá-lo a viver melhor com elas. Eu fiz análise lacaniana, análise de raiz, daquelas com divã de costas pro analista e tudo. Pra mim – vejam bem, pra mim, sem querer dizer mais do que minha experiência pessoal – não foi bom. Não sei se foi culpa do período que eu estava passando, e que eu teria a impressão de que estava vivendo em trevas de qualquer maneira. O que eu lembro é que ficava a sós com os meus fantasmas, tentando analisar culpas através das minhas culpas. As culpas digeriam culpas, se reproduziam e geravam culpas, analisavam e concluiam mais culpa, que me afogavam num mar de culpa. Não há a menor dúvida que a minha estrutura é neurótica… Era como tentar limpar usando um pano mais sujo. Ao invés da neutralidade que me permitia olhar para mim com meus referenciais, senti falta de uma luz, de uma perspectiva mais madura de quem estava vendo de fora. A origem de muito sofrimento pode ser justamente a incapacidade de formular novas perguntas. Há casos que é preciso ouvir um simples: você não tinha como adivinhar.

Scarlett

Eu vi …E o vento levou umas dez vezes. O problema é que assisti quando era pequena, então eu lembro do filme inteiro e não o entendia. Nas últimas vezes eu parava de assistir quando ela casava com Rhett e tinham a filha, porque não queria ver o que acontecia depois. Ler o livro está me trazendo à memória todas as cenas, agora com mais informações e entendendo realmente do que o livro se trata. Sabe como é visão de criança – eu não entendia o amor de Scarlett pelo loirinho sem graça, não entendia as atitudes dele quando ela se declarava, não entendia como ela não gostava da Melania, não entendia a trajetória do Rhett – seu papel de aproveitador durante a guerra, porque ele muda de idéia, o abandono de Scarlett. Agora tenho suspirado, revisto as cenas no youtube e me apaixonado como se fosse a primeira vez.

Tenho com a Scarlett outra relação, totalmente insuspeita: eu me achava uma Scarlett. Tudo porque li num livro de astrologia que Scarlett era o protótipo da mulher de áries. Eu nem sou de áries, só tenho o ascendente. Mas li a descrição, me identifiquei, achei a imagem ótima e abracei a idéia. Gostava de me imaginar Vivian Leigh, que dentro de mim havia uma mulher capaz de seduzir vários homens e entregar meu coração apenas para um; que eu seria capaz de matar, enganar e o que fosse preciso para defender minha família; que eu seria mulher por fora e uma fortaleza por dentro. Nada do que eu fiz no decorrer da vida confirmou esse parentesco forçado. Quando encontro uma mulher com a voz meio grossa, o andar desajeitado ou sem vaidade, também acho que me vejo, porque um outro lado meu tinha certeza de que era assim. Esse lado ignorava que eu sou soprano leve, que jogo sapatos fora sem gastar a sola e a maneira como detalhes na minha aparência são capazes de sugar minha atenção. Isso sem falar das inseguranças de adolescente que são verdadeiras instituições: me achar gorda, me achar feia, me achar esquisita, me achar sem atrativos.

Eu tenho arrepios cada vez que vejo uma mulher muito jovem tomar decisões definitivas sobre sua aparência ou sobre seu futuro. Porque eu sei a adolescente decidida (Scarlett?) e muito equivocada que fui. Se alguém tivesse me dado a opção, eu teria colocado silicone, feito lipo, tatuagem, modificado sem dó um corpo que eu não conhecia. Também me via facilmente seguindo um guru ou me casando com o primeiro namorado – só faltou eu ter encontrado alguém com um pouco mais de lábia e vontade. Porque eu tinha certeza de quem eu era, uma certeza onde se misturavam imagens confusas: o mundo visto sob o prisma da minha família, idéias absorvidas de outras pessoas da minha faixa etária e meios de comunicação, fantasias sobre quem eu gostaria de ser, opiniões que não haviam sido confrontadas com a realidade. Hoje olho para trás e acho engraçado perceber que muitas dessas imagens são opostas ao que sou. Felizmente, tive tempo e oportunidade para errar e mudar de idéia.

Admiração

Nem todo mundo de quem gostamos se torna nosso amigo. Não sei se essa é uma verdade universal ou se é um limite que impus a mim mesma, por ser quase uma ostra. Duas amigas já me disseram que levaram meses pra conseguir que eu falasse com elas. Claro que não é desses casos que estou falando, falo de pessoas que não precisam fazer esforço nenhum comigo, que nem ao menos precisam saber que eu existo. São pessoas que eu olho e gosto de quem são, identifico bons sentimentos e as admiro. Algumas vezes acho que é recíproco. Se fosse para falar, talvez não tivesse o que dizer além de banalidades. Uma pessoa que atraia o meu olhar era a Fabiula, agora Fabiula Nascimento da TV. Ela era do povo de teatro, extrovertida, o marido (agora ex) vocalista de uma das melhores bandas da cidade. Nós fazíamos aula juntas na academia, e não lembro porquê um dia batemos palmas quando ela entrou na sala. Ela fez toda uma cena de agradecimento, com a naturalidade de quem nasceu pra ser aplaudida. Eu sou fechada, e com muito custo aprendi a dizer Obrigada quando ouço um elogio. Ao mesmo tempo – conversamos algumas vezes – ela era uma pessoa acessível, simples. Olhar para a Fabiula era tentar entender um universo diferente, uma pessoa feita de outro barro. Tenho tendência a admirar tanto alguns bailarinos que não consigo falar direito com eles; o que nos une é justamente o campo onde sou mais amadora e insegura, o que ainda é difícil pra mim. Era o caso com a Cíntia e a Nina, minhas professoras de ballet mais queridas e talentosas. Como não me sentir segura na frente de primeiras-bailarinas que me viam pular como um elefante aula pós aula? O que eu podia fazer era ser uma aluna atenta e dedicada – era a minha forma de mostrar que dava importância ao que elas me ofereciam. O blog e a vida virtual me tornam muito mais verborragica do que sou; quem me conhece pessoalmente sabe que sou uma excelente ouvinte. Acho que tenho uma antipatia natural pela palavra falada; palavras, em si, são um meio insuficiente que usamos para nos expressar, porque desconhecemos outros. Ou conhecíamos e desaprendemos. Se fôssemos crianças, iríamos para um parquinho, encher nosso baldinhos de areia. Quando ela – Fabiula, Cíntia, Nina ou tantas outras pessoas- precisasse de uma pá, eu ofereceria minha pá de estimação e gesto seria entendido sem necessidade de agradecer.

Aula

Deu até dó do meu irmão, que passou um ano inteiro estudando muito, passou no vestibular com um score que lhe permitia entrar nos cursos mais disputados, e de repente se ver preso a um curso fraco e com pouca carga horária. O curso de jornalismo era tão ruim que poucos anos depois o MEC ameaçou encerrá-lo. A única coisa que prestava eram as aulas do Cristovão Tezza. As matérias tinham nomes atraentes, e procuravam dar ao aluno noção de diversos assuntos: história, economia, filosofia, sociologia, etc. O problema é que nenhum dos professores dessas matérias eram do departamento de comunicação social. Pra quem não sabe, quando os cursos precisam enviar professores para outros cursos, isso é sempre feito de má vontade. Eles enviam sempre os novatos, aquele professor substituto que ganha mal e acabou de se formar. Os alunos não demoravam pra perceber essas coisas, e num instante todos ficavam desestimulados. Meu irmão passava muito tempo pelos corredores, jogando truco. Quando estava em casa, assistia TV. Ele sabia o nome de todas as moças do programa Fantasia.

Uma dessas matérias desinteressantes era dada nas sextas-feiras, às 7:30. Acordar tão cedo, depois de uma semana inteira, pra uma aula chata… ninguém conseguia chegar no horário. Meu irmão era um dos que chegavam cedo, e quando chegava às 8h, encontrava uma mensagem do professor no quadro:

Cheguei às 7:30 e esperei até às 7:50. Leiam…

E uma indicação de um texto para a próxima semana. Na sexta seguinte, isso se repetia. Às vezes, meu irmão apenas um minuto depois do que estava marcado no quadro. Quando já estava há mais de um mês sem assistir essa aula, ele estava no corredor conversando com os amigos, numa quinta à tarde. Num determinado momento o professor dessa matéria passou por eles, apressado, foi na direção da sala de aula e depois foi embora. Os alunos ficaram curiosos e foram conferir o que havia acontecido. Foram até a sala e encontraram escrito no quadro negro:

Cheguei às 7:30 e esperei até às 7:45. Leiam…

Pra casar

Eu achava que não me casaria. Tinha uma idéia tão ruim de casamento e estava tão convencida de que isso não aconteceria, que nunca idealizei vestidos de noiva, música e flores para uma entrada na igreja (que não fiz). De mesmo modo, demorei pra entender os olhares de inveja que as mulheres me lançavam ao saber que eu sou casada. Você pode estar na pior, inferior em todos os sentidos àquela que está na sua frente – mas se você for casada e ela não, pode ser que pra ela você é que é um sucesso. Porque alguém te ama, te escolheu pra vida inteira – isso já é quase tudo o que as mulheres querem. Pelo menos antes de chegarem lá.

Aí eu conheci o Luiz e num instante mudei de idéia. Mulheres às vezes me perguntam como eu sabia que era Ele, que aquele era o momento de mudar de idéia. Relacionamentos são encaixes muito complicados; fica ainda mais complicado quando se faz força pra colocar dentro de um molde, de uma ilusão. Não consigo encontrar definição melhor para o que me fez casar do que dizer: quando eu falava A, o Luiz sempre entendeu A. Ele não entendia B ou C. Ou ele não entendia A e fingia que era B, porque se ele reconhecesse que era A podia ser que um monte de coisas. E vice-versa. Não que sejamos pessoas tão claras e especiais, e sim porque encaixamos, reagimos instintivamente da melhor maneira possível. Ficamos em silêncio quando o outro precisa de silêncio, falamos na hora de falar. Pra ser sincera, eu acho que quando o casal precisa colocar os pingos nos iis, discutir relação, entrar em acordos, é porque já começou mal. Gosto de relações tranquilas – esse é o encaixe que combina comigo, o que eu acredito. Alguns preferem o encaixe: eu grito e ele se encolhe, eu bato e ela me obedece, um finge que não vê e o outro corresponde. Mas isso já é outra história.

Para as visitas

Hoje não dá mais, com os nossos apartamentos minúsculos, de ambientes integrados e até sem paredes. Os imóveis de classe media de antigamente, que ultrapassavam com facilidade os duzentos metros quadrados, hoje são considerados enormes. Antes não era. Antes as pessoas tinham tanto espaço e tantos cômodos que era comum ter uma sala de visitas que era para visitas de verdade, ou seja, que as pessoas comuns da casa não usavam. Era o ambiente que tinha os melhores sofás, as melhores cadeiras, os tapetes e a mesinha de centro, então não se podia arriscar que eles ficassem puídos e manchados pelo uso e crianças brincando em cima. Na casa dos meus sogros – que foi vendida e transformada num pensionato pouco depois do meu casamento – tinha uma dessas. Toda casa era assim. Lembro que me senti muito adulta quando pude conversar com a minha vizinha na sala de visitas da casa dela, no misterioso sofá de almofadas estampadas em cima de uma estrutura de cimento (comum no nordeste e incomum no sul). Já na casa de uma colega de faculdade, onde o tapete da sala branquíssimo, de pele de coelho, sempre passamos contornando, nunca provei de seus luxos. Como num final infeliz de vilões, anos depois a casa foi assaltada, e os assaltantes fizeram questão de limpar os pés sujos de lama naquele tapete.

Raciocínio antigo, eu diria. Diria que não somos mais assim, que hoje fazemos questão de usar o que temos de melhor nas nossas casas, ao invés de guardar para os outros. Nos damos o melhor sofá, usamos a mesma louça usada para receber as pessoas, dispensamos aos outros a mesma coisa do nosso dia a dia. Estamos assim, em pé de igualdade com a exceção e com quem vem de fora. Eu diria isso, até pouco tempo atrás; até resolver fazer uma limpa no meu guarda-roupa e descobrir roupas lindas, de caimento perfeito, novas ou semi-novas, todas compradas por mim e que ficaram esquecidas, enquanto uso as mesmas roupas de sempre e espero ocasiões especiais que nunca chegam.

Causa perdida

Já citei mais de uma vez a Fal, que tem o dom de tornar qualquer coisa interessante e doce. Mas o que nem todo mundo sabe, é que além da delícia que é ler o que ela escreve no blog, tem também a delícia de ler os comentários, e o que ela responde nos comentários. Algumas coisas, como a que vou transcrever, dizem respeito a assuntos particulares que os envolvidos não revelam. Ou seja, deu algum rolo aí e ninguém vai nos contar. Mesmo assim, vale a resposta da Fal para a misteriosa “causa perdida”:

Coração, comecei a escrever uma resposta enorme, talvez a maior que o LV já viu, mas isso aqui não é lugar pra isso. Resumindo: causa perdida, não, b., mas infelizmente experiência não é sarampo, não pega. então, vc VÊ o sujeito A levar a mór rasteira do sujeito B, mas em vez de dizer “serei leal a A”, que é o que se espera de uma pessoa de bem ou pelo menos “opa, o sujeito B não é de confiança, preciso me resguardar”, q é o que se espera de uma pessoa q quer sobreviver, vc diz: “Bem, B deu uma rasteira em A, problema de A, não vou me meter, continuo andando de mãozinhas dadas com B”.
Só que minha mãe me ensinou: B não foi filha da puta com A. B é filha da puta, ponto. Ele sempre foi, sempre será filha da puta. As pessoas, por mais que seu eguinho tente negar, não são boas ou más COM VC. O mundo, este mundo, o mundo real, não tem a ver COM VC, por incrivel que pareça. O mundo é, simplesmente. Se B foi filha da puta comigo, ele será com vc. Não por nada não, é só porque ele É um filho da puta. Como diz minha amiga Gisela, guenta a mão q o rio traz o cadáver. Sempre. *** Agora, tem uma coisa: saiba quem não foi leal. Continue cumprimentando, chamando de meu lindo, dando beijos de aniversários, mandando e-mails secretos, o que vc quiser. Mas SAIBA quem não foi leal. Saiba, pq esse cara também não é trigo limpo e, mais cedo ou mais tarde, ele vai aprontar com vc.
*** Como diz o Abujamra, a vida é uma causa perdida.

Mundo encantado

Os chineses, provavelmente por causa do Feng Shui, acreditam que é mais auspicioso (adoro essa palavra) entrar o ano com uma limpeza profunda na casa. Não uma arrumadinha básica para receber os convidados, e sim limpar tudo. Vi imagens de chinesas passando pano na parede da fachada de casa. Para o Feng Shui, sujeira e desorganização são energia estagnada. Se você consegue limpar e se organizar, o shi flui mais livremente e a vida fica melhor. Quando minha casa está limpa e consigo separar muitas roupas para doação e papel para o lixo, sempre olho orgulhosa para o meu feito e sinto que a minha vida vai melhorar, que coisas novas e boas ocuparão o lugar das coisas velhas e ruins.

Os céticos dirão que limpeza de ano novo é besteira, que a própria idéia de uma vida nova no ano novo é besteira. Realmente, é só um número a mais que colocamos no calendário – e não é. Todo mundo em volta repensando o que fez nos últimos meses, planos sendo refeitos, festança com a família, tudo querendo dizer que aqueles dias não são iguais. Se não fosse, agora é. Eu já passei da fase de negar meus sentimentos para parecer “científica”, ainda bem. Essas coisas me fazem pensar o quando deve ser chato ter uma posição negativa para sustentar. Como vou olhar pra saia que finalmente separei pra doação – a saia que adorava usar anos atrás e hoje me pergunto se é adequada pra minha idade- e achar que decidir me livrar dela não é nada? Ou achar que tudo ficará igual depois de jogar quilos e quilos de textos sociológicos, porque finalmente assumi que jamais precisarei deles? Que o ambiente todo limpinho e cheiroso não fala coisas diferentes sobre meu presente, sobre meu futuro? Acho isso uma desconsideração consigo mesmo. Estudos psicológicos indicam que existe uma relação entre acumular objetos e engordar, desacumular e deixar as coisas fluírem – mas precisa ser tão chato e só acreditar porque saiu numa revista científica?

Igualmente sem graça são os crentes, porque nas escrituras sagradas eles (acham que) têm resposta para tudo. Lembro do dia que estava encantada com os versos de Cecília Meireles – O vento voa/ a noite toda se atordoa/ a folha cai/ Haverá mesmo algum pensamento/ sobre essa noite? sobre esse vento?/ sobre essa folha que se vai? – e fiz a besteira de recitá-lo perto de uma católica. Ela respondeu com uma certeza criminosa de quem resolve um assunto: Sim. Foi aí que aprendi uma importante lição: quando algo é profundo demais, quase nunca pode ser compartilhado. Transformar certas coisas em palavras é se arriscar a corromper. Se vale para todos os momentos, se vira regra, se podem ser citados muitos tratados e filósofos e existe até esquema pra resumir, é porque a coisa em si se perdeu há muito tempo.

Da maldade

Eu também não sei o que fazer diante da maldade dos outros, Eliane. Lembro do quanto foi crítico o início do meu casamento, com minha sogra me dando um monte de indiretas e a família do Luiz me tratando com frieza. Lembro das maldades da minha madrasta, que merece todas as coisas que se fala de madrastas. Numa coisa que – na minha cabeça – deveria ser divertida, como perfil de redes sociais, as pessoas já enchem o saco, arranjam maneiras de atormentar a vida dos outros. Pra você ter idéia, até em serviço voluntário vi maldades absurdas. O conselho que a gente geralmente ouve é: responda na mesma moeda. Dê indiretas na sogra que te dá indiretas, trate com desprezo aqueles que te desprezam, seja tão maldoso quanto os que te tratam com maldade. Em algum lugar eu dava razão pra quem me dizia isso, porque não sou tão evoluída (ou panaca) pra levar pancada dos outros e ficar tudo bem. Por outro lado, eu sentia que me violentava de alguma forma ao tentar fazer isso. Essa é a natureza deles, e não a minha. A melhor resposta que encontrei é essa história que li na adolescência:

Graças a um monge, uma cobra se converteu ao budismo. Decidiu viver sem violência e parou de morder as pessoas. Só que a notícia se espalhou rapidamente, e a população passou a reconhecer a cobra que não atacava ninguém. Então ela passou a ser perseguida, as pessoas corriam atrás dela com paus e pedras, adultos a machucavam, crianças faziam brincadeiras violentas. Tempos depois ela reencontrou o monge que a havia convertido. Ela estava toda machucada e o monge perguntou o porquê. Ela lhe explicou sua situação, que não mordia mais ninguém e por isso as pessoas se aproveitavam. Ele então lhe disse:
– Eu disse que você não poderia atacar mais ninguém. Mas eu não disse que você não podia ameaçar.

Mostre os dentes, Eliane.

Desresoluções de ano novo

Sempre que eu fiz resoluções de ano novo, elas invariavelmente davam errado. Coisas que pareciam óbvias ou que estavam às portas de acontecer não aconteciam. Ao invés de servir de estímulo, essas listas ficavam desatualizadas quando relidas, com sonhos que não me pertenciam mais. Ou viraram um atestado de incompetência. Por isso, desenvolvi uma relação supersticiosa com elas, de achar que fazer resoluções pro ano novo dá azar. Se quero que algo aconteça, que não apareça em listas. Então, esta é uma lista de desresoluções. Que não aconteça nada disso em 2012:

* Em 2012 farei minha primeira tatuagem. Mas não pararei na primeira. Marcarei no meu corpo a minha paixão pelo flamenco, o nome do meu marido, cobrirei meu braço de flores e penso em algumas carpas também, porque são lindas e remetem ao meu sangue oriental.

* Minha casa passará a ser um lugar de portas abertas para os amigos. Quando digo amigos, quero dizer os novos, os antigos e os muito antigos – pessoas com quem cortei relações, amigos de infância, ex-colegas. Quero ter a casa sempre cheia de gente, receber muito, dar jantares. Que quem estiver passando por aqui se sinta livre pra me visitar, à qualquer hora.

*Dedicarei mais tempo à minha família. Com a minha mãe, passarei a ter uma relação próxima, onde ela ficará a par de todos os meus projetos e segredos. Passarei a ouvir seus conselhos, de fazer Direito a ter filhos. Voltarei a visitar minha família de Salvador, terei uma relação afetuosa com a minha madrasta. Almoçarei com os meus sogros e minha cunhada mesmo sem datas especiais.

*Farei network. Chega de ser amiga ou de ser lida por pessoas importantes e não ter nenhuma vantagem com isso. Este ano me proponho a aproveitar meus contatos – aprofundar amizade com pessoas que decidem as coisas, e com os que já tenho proximidade, deixar claro que um apoio seria de bom grado. Darei mais atenção aos bons dias, cartões e todas as outras convenções.

* Farei uma dieta radical pra usar manequim 36. Cansei de ser mulher-fruta, de viver comprando 40 porque tenho ombros largos e sou quadrilzuda. Cortarei todos os prazeres à mesa em nome do prazer de vestir PP. Quero ter o mesmo corpinho que tinha aos dezesseis (se bem que aos dezesseis também não usava 36), quero ficar bem até de roupa infantil.

* Acessarei menos a internet e deixarei de assistir realitys show. Com isso, meus neuronios pararão de morrer, meu pensamento se tornará profundo e eu lerei mais. Finalmente serei uma Intelectual. Acostumar-me-ei ao uso frequente da mesóclise e me recusarei a qualquer modismo.

Agora, se me dão licença, tenho que ir. James Joyce me espera.