Receita de bolo

A censura da época da Ditadura cortava qualquer coisa que não fosse conveniente de ser publicada, e às vezes fazia isso de última hora. Os jornais ficavam numa situação difícil. Ao invés de tentar cobrir o furo de última hora, alguns optaram por assumir que ali houve censura a publicavam receitas, algo bem fora de propósito. Era uma maneira de protestar, de deixar claro para o leitor que naquele buraco havia uma informação que não pode chegar até ele.

Eu tenho vontade de colocar receitas de bolo aqui, só que minha motivação é outra. Quero sofrer menos, os dias estão complicados demais. Todos os dias têm uma porrada e todos os dias eu penso: “não, essa foi demais, agora vai ser impossível defender, as pessoas vão acordar”. E não, você visita os perfis das falanges e seguem firmes e raivosos. A imprensa persegue, a NASA não sabe ler dados, “mas ele não fez caixa 2”. Não gosto de ofender as pessoas, mas as escusas chegam às raias da lobotomia. Até a Amazônia pode queimar que está tudo bem. Olha, tá demais.

Deixo aqui minha contribuição pra tentar arrancar um sorriso de vocês. Arrancou um meu.

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O bem e o mal

Tudo bem Bolsonaro prestar homenagem àquele que torturou a Dilma, porque ela era do PT, o partido mais corrupto do mundo. Tudo bem falar na morte do pai do presidente da OAB porque era um “comunista” na época da Ditadura, que só matou quem merecia. Tudo bem entrar nas redes sociais da mãe de Glenn Greenwald, que está com câncer, para tripudiar, porque a série de reportagens dele ataca o super Moro, herói da Lava Jato. Eles são Mal e vocês são o Bem, né?

o bem e o mal

Pitacos sobre utopias, Lennon e Moro

Eu não faço a menor ideia de que idade tinha quando ouvi Imagine pela primeira vez. Lembro que, mesmo criança, quando ouvi a tradução, achei de uma ingenuidade tão grande. Tão impossível que alguém pudesse ter pensado e colocado aquilo em palavras. A segunda reação é pensar – e por que não, não seria realmente ótimo um mundo sem fronteiras, com amor, etc? Gosto muito de utopias. Talvez uma das coisas que me atraia na literatura de ficção científica é que, muitas delas, nada mais são do que utopias. Numa maneira que é difícil mensurar, elas tornam o mundo um lugar diferente, depois que são compartilhadas e fazem parte dos pensamentos das pessoas.

Acho que não vou surpreender ninguém ao dizer que tenho me alegrado com as denúncias do Intercept. A figura do Moro sempre me causou antipatia. Em meio a tudo o que está acontecendo, ouvi há poucos dias: os atos do dia 30 haviam sido um sucesso, Moro inspira a juventude e quem sabe ele se torne nosso próximo presidente. Olha, projetos assim, acho que nem a mãe dele mais. Eu sei que hoje qualquer fama é melhor do que nenhuma, mas o mais provável é que Moro seja abandonado pela história, como tantos antes dele.

Não tive vontade de tripudiar. O fim do Moro é o fim de uma utopia também. Está forte o schadenfreude. De herói, agora se pede cadeia. No fundo, os dois pedidos talvez sejam a mesma coisa, a tendência a personalizar papéis históricos. Depois dos magoados que declaram “PT nunca mais”, teremos os magoados pelo atual presidente, os magoados que um dia acreditaram em um super ministro. Joguemos nossos ideais mais acima do solo, vamos pensar em mundo, pessoas, bondade, ausência de motivos para matar ou morrer.

Até o relógio está com vidro embaçado

Quando eu morava em apartamento, a chuva era um barulho lá fora; em casa, a chuva se torna algo muito mais concreto, um problema pra andar na sua própria área de serviço. Não sei dizer quanta porcentagem do meu dia merda era culpa disso, da chuva constante. Ultrapassou o estágio de falta de sol e são todas as toalhas que eu me enxugo molhadas, os panos na cozinha, o varal na sala, a tentativa de secar pendurando em cadeiras, o cachorro praticamente mofado… Aí fui na padaria e a mocinha sempre sorridente está com a cabeça apoiada no ferro do lugar onde passa cartão. Ao invés da conversinha simpática, apenas o básico, da parte dela e da minha. Isso sem falar do que não quero nem choramingar aqui, aquela confirmação de que as pessoas sempre me consideram alguém insignificante demais não apenas para não ter que puxar o saco como também não precisam fazer o básico do básico, nível nem ao menos agradecer presente. Aí final da tarde resolveu chover mais grosso e mesmo assim me arrastei até a manifestação. Muita gente conhecida disse que ia, mas não combinei nada com ninguém e foi sozinha. Acabei encontrando um amigo que não via há anos e marchamos juntos. Fui lá fazer número, ser mais uma pessoa pra ser talvez filmada por um drone e dizerem que fomos muitos a marchar pela educação. Tudo continuamente merdamente úmido e, pra falar a verdade, nem ao menos sei se adianta alguma coisa marchar. Eu vou para me sentir menos só, menos louca, menos “não entendo a indiferença de vocês” (leiam este artigo sobre NECROPOLÍTICA) , menos ET. E sempre dá certo.

UFPR

Mas tão bonitinho o silêncio

A intenção dela não foi nos dar uma vivência de racismo. O que aconteceu é que ela foi convidada para a festa de casamento mais chique da sua vida, no Castelo do Batel, o lugar mais chique possível para se ter uma festa em Curitiba. Com meses de antecedência ela nos consultou sobre a questão de ter um acompanhante, e numa das diversas brincadeiras, eu lhe sugeri que fosse com uma amiga e fizesse com ela um falso casal lésbico, ia ficar super moderna. Ela então me disse que, de castigo, caso ela não arranjasse um acompanhante para a data, eu teria que ir de lésbica com ela e ser a masculinizada – aproveitávamos o cabelo curto e já ia de terninho e pouca maquiagem. No fim, deu certo e eu não precisei ir. Nos dias seguintes, estávamos doidas pra saber da festa, vimos fotos lindas. Lembro bem também do nosso silêncio quando ela nos contou que, assim que estacionou o carro e saiu dele maquiada e produzida, os seguranças a mandaram estacionar nos fundos, porque era lá a entrada de funcionários. Dentro da festa, foi preciso darem uma carteirada nos garçons, porque eles serviam todo mundo menos ela. Talvez pior ainda tenha sido que nós achávamos que ela iria (ou tinha que) ir embora, indignada, e ela nos explicou que isso é normal, que se fosse se retirar a cada episódio racista não iria mais a lugar nenhum.

Também foi sem querer que eu e uma amiga iniciamos uma discussão política no berço de um lugar bolsonarista. Agora tem muito bolsominion arrependido, classe média que se vê como rica, que foi atingida por corte em saúde, concursos, alta do dólar, aumento do desemprego, enfraquecimento das exportações. Mas existem também aqueles que estão tão acima na piramide que não foram pegos por nada disso, ou que têm tanto que mesmo tudo isso come apenas a bordinha sem importância do seu patrimônio. E foi uma dessas pessoas que começou seus argumentos dizendo que não havia nada de novo, que esta crise é igual a todas as outras crises, que as loucuras ditas agora são iguais a todas as outras loucuras ditas antes, mas tudo isso é normal e nem merece registro porque foi o governo petista que criou um legado realmente imperdoável: “o PT criou a luta de classes, o nós contra eles”.

O racismo pra mim é muito abstrato, é uma coisa que acontece com outros, relatos que me surpreendem e me chocam. Quando o problema não é seu, quando você está no grupo privilegiado, é como se visse certos problemas desde a cobertura de um arranha-céu – você está tão alto que as pessoas na calçada são apenas cabecinhas, tudo parece pacífico e igual. O agora é diferente porque as pessoas reclamam. Indígenas, gays, mulheres, negros, pobres. O pessoal da cobertura não via e está sendo chamado a ver. E a reação de muitos é: que pena que o gay não é discreto como antes, que o negro não ria da piada racista como antes, que a mulher não seja passiva como antes. Agora a moça do café não quer mais trazer a filha pra aprender o serviço também, ela quer viajar e colocar os filhos em faculdade. Será que antes a empregada via que a patroa gasta numa noite mais do que lhe paga de salário num ano inteiro e achava OK, só passou a se indignar agora? E o problema está na indignação e não na disparidade? Ninguém nega as profundas desigualdades sociais do Brasil, desigualdades estas que nasceram com o país, mas acha que era tão mais bonitinho antes, um povo tão cordial, tão mais barata a mão de obra… Minha conclusão é que, se você sofre e tem do que reclamar, reclame mais, reclame mais alto, grite para todo mundo ouvir. Não permita que usem o teu silêncio como desculpa.

 

Utopias

dinheiro

Tem as estações tubo, o cobrador recebe o dinheiro para que não se cobre dentro do ônibus, e assim ele pode demorar menos tempo em cada parada. Eu pego ônibus numa estação de bairro, é comum os cobradores estarem batendo papo, assistindo TV, deve ser bem tedioso. Também é comum eles não terem muito troco. Já nas estações tubo centrais, os cobradores não param um minuto, não conseguem nem ao menos ir ao banheiro uma única vez durante todo expediente.

Uma vez eu estava conversando com um cobrador, e disse que na minha opinião os que trabalham nas estações mais movimentadas deveriam ter turnos menores. Ele pensou um pouco e disse que não dava, que atrapalha a escala, que a empresa não faria. Aí eu fiquei quieta, porque estava falando de um mundo ideal – num mundo onde a escala não é pensada nos termos mais cômodos e lucrativos, e sim que oferecesse condições mais justas. O mundo onde os carros são mais lentos para que as pessoas morressem menos.

Enfim, utopias. Para mim, um país que criminaliza arte e ciências humanas quer matar qualquer possibilidade de sonho.

Tripé

tripé

Sabe quais são as notas musicais? Dórémifásollásidó, você disse aí do outro lado, do jeito que eu escrevi. É quase como se fosse uma musiquinha. A não ser que você seja músico, você só sabe o que vem antes do Si se recitar a musiquinha toda. Hoje eu falei, depois de muitos anos MarxWebereDurkheim. A ordem correta, se for pensar em termos cronológicos é: Durkheim, Weber e Marx. Mas a minha musiquinha é invertida, não sei o motivo. MarxWebereDurkheim são os três autores fundamentais da sociologia, são o tripé, os três porquinhos, os três pilares fundamentais- defina como quiser desde dê a eles o mesmo status. Você terá que saber o nome deles se alguma vez na vida se meter com sociologia, nem que seja de raspão. Se um dia alguém tiver que falar de sociologia e se dispor a ter apenas uma aula na vida, nesta uma aula tem que ter MarxWebereDurkheim.

Talvez a luz vermelha já tenha acendido do outro lado da tela, e o leitor horrorizado pensou: “mas quando você diz Marx, você quer dizer… Marx, aquele Marx?” Sim. Ele não é importante apenas na política ou apenas na economia, e estou falando “apenas” de forma irônica. Quer goste ou não do que ele disse, o mundo não foi mais o mesmo depois que ele escreveu. Ninguém entendia direito de onde vinha o lucro antes dele, achavam que era só das máquinas. Funcionários revoltosos quebravam as máquinas, achavam que estava ali o problema. Revoluções foram feitas em torno das ideias de Marx. Teorias contra, teorias à favor, sistemas de governo, perseguições. É usado como xingamento, como elogio, inspira discussões até hoje. Querer ser puro de Marx é como achar que passar álcool nas mãos te deixa sem bactérias, sendo que elas estão em toda parte e a vida nem seria possível sem elas. Ideologia, lucro, exploração, mercadoria, fetiche, concentração de riqueza – as pessoas usam conceitos marxistas o tempo todo sem saber. Influenciar a história da humanidade é um privilégio para poucos, e Marx faz parte desse seleto grupo.

Uma amiga minha, professora de Sociologia, vai ter que se explicar no colégio onde dá aula de sociologia o porque de ter Marx na ementa da disciplina. No aguardo do dia que vão decidir que as crianças devem aprender apenas a somar, diminuir e multiplicar, sem dividir. Dividir é muito subversivo.

Curtas de obviedades (ou não)

overthinker

Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

Eu chego mais tarde, me enrolo, é por querer.

Entro em silêncio onde todos conversam, pego as minhas coisas, evito contato visual, protejo o rosto pela porta do armário aberta. Todos notam minha chegada, mas é raro que tenham tempo de me dizer qualquer coisa, antes de eu mudar de ambiente. Quando estamos a sós, já vi os assuntos mudarem assim que eu chego, numa consideração inesperada; mas se chego cedo demais, e as pessoas conversam livremente, não tenho mais esse privilégio. Eu canto. Canto baixinho, para mim mesma, a música que está na cabeça. Ou mantras. Chegam até mim vozes confusas, capto uma palavra ou outra sem querer. Mas principalmente me chega o tom. Vozes que atingem agudos de indignação, onde são sempre os outros os culpados. Sabem tão pouco e ignoram meu gosto de tal forma que não acreditam quando eu digo que gosto quando o sensor não capta a minha presença e fica tudo escuro. Passam lá e acendem a luz à minha revelia. Deveriam perceber que eu poderia facilmente erguer um braço ou abrir uma porta e nunca o faço. Pelo contrário, eu fecho os olhos para ficar ainda mais escuro e mais íntimo, curto os segundos de privacidade que me restam. Nunca consigo escapar de todo, me esperam. Se contasse que já cheguei a me enrolar durante uma hora inteira e me esperaram. Já estou habituada a me trocar de pé, num cuidado que tive desde o começo por ter notado o quanto os territórios são importantes. As pessoas me têm simpatia. É muito difícil que não me tenham, é minha sina: sou a querida cuja opinião não se leva a sério. Tento me esconder atrás da porta do armário, na proximidade do espelho, em todo meu ritual de me arrumar bem longe, mas nunca me deixam entrar e sair sem falar nada. Alguém se aproxima, me olha nos olhos e me pergunta algo. Me toca, sorri. Pede uma dica, fala de roupa, do tempo. Às vezes é tão sem propósito que fico até sem graça. Fazem isso porque sabem que eu não poderia deixar de ser gentil. Gostam de mim porque sabem que sou gentil. Porque já me flagraram com paciência infinita e carinho por pessoas de quem ninguém gosta muito, sem a menor vantagem e sem saber que me assistiam. Gostam de mim porque sou gentil, porque acho que todos merecem respeito, mas é essa mesma gentileza que nos afasta. Minha gentileza se indigna em pensar em idoso pobre recebendo 400 reais mensais. Minha gentileza não me permite achar tudo bem que gay tenha que andar com cuidado, que negros sejam alvo da polícia. Eu sei como pensam e a maneira como nada do que tem acontecido sequer roça suas peles me choca. A indiferença dos bons, limpos, bem nascidos e de bem me choca. A maneira como as paredes tremiam com o ódio quando falavam que o Lula deveria ser preso e agora tudo está em paz. Gostam de mim e talvez seja bom que gostem, sem dúvida é mais fácil viver assim. É justamente a postura de querer criar mundos puros que nos torna um país tão desigual, então também não me sinto no direito de dizer que não devem. Mas eu me enrolo e me sinto tão longe.

se tiver uma chance

Agora o jogo virou, pá

Uma vez um português me perguntou até que ponto nós, brasileiros, estudávamos a história de Portugal. Acho que até D. Pedro II voltar, eu respondi. Aí ele pensou um pouco e disse:

-Que bom. Depois é só porcaria.

Bem, esse diálogo faz quase vinte anos e, de lá pra cá, Portugal tem merecido usar o meme “parece que agora o jogo virou, não é mesmo?” com a gente. Ou melhor, conosco.

Quando eu comecei a tentar ler autores sul-americanos foi que eu me toquei do quanto éramos um país orgulhoso que usa a diferença da língua como desculpa para se manter à parte da América Latina. Desculpa sim, porque temos muito mais dificuldade em entender inglês do que espanhol e consumimos muito mais tudo que vem da língua inglesa. De maneira semelhante, foi meu recém adquirido amor pela música portuguesa – sou fã do Miguel Araújo como nunca fui fã de nenhum outro cantor na minha vida – que me fez ver que viramos também demais as costas para os portugueses. Passei a ver entrevistas do Araújo e do Zambujo, vi o Tiago Nacarato cantando no The Voice e outros vídeos dele no youtube, Zambujo concorreu ao Grammy Latino com um álbum com canções de Chico Buarque; todos eles com gravações de músicas nossas e/ou participações de brasileiros, falam dos nossos compositores, têm a música brasileira como uma influência. Eu agora sei estes nomes, mas quantos de nós realmente sabemos alguma coisa sobre os portugueses? Eu mesma não sei, gosto de uns autores e uns músicos. Tenho a impressão de que é muito natural, em Portugal, estar a par do que acontece aqui. Depois de Dom Pedro II voltar, eu só sabia que eles mereceram uma música fofa do Chico: Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é difícil, pá/ Navegar, navegar.

Sim, claro, agora sabemos que eles estão bem. E graças a um governo de esquerda, o que torna um contra-senso brasileiros que foram lá para fugir da Dilma ou eleitor do candidato que promete exilar esquerdistas. Há os que dizem que eles nos devem, porque fomos a colônia mais rica e tal. Mesmo que a dívida exista, porque o laço sempre existirá, ainda assim a migração me soa como parente que sumiu vinte anos e volta porque agora está doente.

O outro

medico cubano

Eu tenho uma amiga que parece ser viciada em indignação alheia. Cada notícia chocante do noticiário a mobiliza de um jeito que ela acompanha os desdobramentos, fica indignada, perde a saúde e o bom humor. É meio estranho ficar com a saúde abalada porque num dia um avião com desconhecidos caiu e no outro uma criança também desconhecida foi vítima de violência, mas ela é exatamente assim. Por outro lado, conheço uma que é indiferente a praticamente tudo; eu a conheço há anos e ela nunca comentou qualquer notícia. Em compensação, um dia ela veio me falar num tom de fim de mundo que o cabeleireiro da filha errou o corte e a menina estava triste.

É fato que, daqui, minha tristeza não ajuda em nada a vítima de tsunami na Índia. A não ser que a tristeza me motive a ir lá atender as vítimas, ou que eu faça uma doação, ou até mesmo reze. Em defesa da minha primeira amiga, ela é uma das pessoas mais éticas que eu conheço. Ela é esforçada, idealista e já se prejudicou inúmeras vezes para ajudar os outros. É daquelas pessoas que ajudam a tornar o mundo melhor. Pena que ela não tenha encontrado a medida de ser boa também para si mesma.

Eu percebo que o meu grande sofrimento neste pós-eleição não é nem com quem ganhou. Eu percebo que nem tenho raiva do sujeito. Considero aquela pessoa um oportunista que, como tal, viu uma oportunidade surgir na sua frente e fez de tudo para agarra-la. É o modus operandi dos oportunistas. O meu problema é com a indiferença gigantesca ao sofrimento alheio. De que, com a desculpa de “minha tristeza não ajuda em nada”, lavarem solenemente as mãos e só se importarem que algo atinja as duas ou três pessoas do círculo mais íntimo. Já temos péssimas notícias em curso, várias pessoas já estão sofrendo. É isto que eu não consigo perdoar e, sim, este sentimento torna meus dias mais pesados. O egoísmo gigantesco, a falta de humanidade, de compaixão, tem ficado cada vez mais clara com a indiferença às absurdas notícias da transição.

Sem holofotes

urna eletronica

Eu tenho alguns amigos que já se viram diante da situação de serem corruptos ou se ferravam e eles se ferraram. Um deles conseguiu um cargo num banco, daqueles que tem poucas pessoas entre ele e o dono do próprio banco, e logo nas primeiras horas sentado na sua cadeira nova, soube que teria que fazer um favorecimento. Não respondeu aquele dia, passou a noite pensando. Aquilo era tão inerente ao cargo que ele não poderia se negar e achar que geraria uma nova cultura institucional. Fazer uma denúncia também não adiantaria e ele até poderia ficar em risco. O jeito foi abrir mão do cargo que ele lutou tanto e se demitiu do dia seguinte. Conheço gente que foi à falência porque para vencer a disputa por uma obra teria que superfaturar. Nunca tive um cargo importante, graças a Deus, eu apenas devolvi o troco errado de uma atendente que tinha acabado de me dar uma baita patada e aquele dinheiro teria tornado a minha viagem bem menos apertada, tanto que a mulher ficou muito sem graça quando eu devolvi o dinheiro. Meu amigo não conseguiu emprego no dia seguinte, e nem o outro uma nova empresa e nem eu deixei de fazer uma viagem apertada. Gestos de honestidade são assim, eles não aparecem na TV, nem ao menos rendem posts interessantes. A gente faz porque foi criado nesses princípios, porque acredita que o mundo se torna um lugar melhor se cada um fizer a sua parte.

Em poucas horas, temos as eleições. Queria escrever um post lacrador, colocar a última gota que convencesse o leitor da vontade inexorável de que #Haddad13 é a melhor opção no momento. Passei o dia pensando e não me ocorreu nada que eu já não tenha dito. Encarando os fatos, este blog é lido por tão pouco gente e sou tão pouco levada à sério que não acredito que tenha influenciado qualquer voto. Você que está lendo já deve ser meu amigo e eleitor do Haddad. Eu tenho vindo aqui escrever com o mesmo espírito de quem vê um papel do chão e coloca na lixeira ou devolve um troco: eu acho que eu tenho obrigação. Eu acredito em fazer o correto com o que se tem e que o nosso país é um grande país corrupto porque acredita que, depois do limite das grandes vantagens, a noção de “fazer o melhor” não se aplica mais.

Eu lido com palavras e acredito no poder das palavras. Então, eu levo muito à sério quando alguém fala em matar pouco ou matar oposição, ou quando desqualifica qualquer tipo de minoria. Enfim, você sabe exaustivamente do que eu estou falando. Contra isso, eu tenho apenas um voto e um blog lido por meia dúzia. Usei este imenso arsenal de uma gota pra me opor, em posts aqui e nas minhas outras redes sociais, e amanhã farei o gesto final ao votar. Um voto no Haddad. Não vai aparecer na TV e talvez seja inútil, mas é o meu.

Bom voto. Que ele lhe traga a satisfação de quem age de acordo com sua consciência.

Está acabando

voto dos indecisos

… e estamos todos acabados. Acho que nenhum dos dois lados têm certeza do que vai se revelar nos números domingo. O que eu sei é que passamos a nos conhecer melhor. Passamos a conhecer melhor a tia que faz doces deliciosos e nos recebe em casa com chinelos de tecido, tão pacata na vida real e que no grupo de whats discute furiosamente. Passamos a conhecer melhor nossos amigos, escolhidos pelos critérios de serem bons de papo, companhia para show, contadores de piadas engraçadas, e de um dia pro outro passamos a conhecer as opiniões sobre estupro, direitos das minorias, combate à violência. Agora sabemos como eles reagem com o que acreditam serem ataques ao que lhes é caro. Algumas invejas feias conheceram a luz do dia, em discussões que passavam bem longe da política e viravam críticas ao estilo de vida, desconsideração com o ponto de vista, desprezo por coisas que até pouco tempo não eram nem registradas. E nos conhecemos como pessoas também, até que ponto nos deixamos afetar, como lutamos, com que armas lutamos.

Acho que já deixei clara a minha posição faz tempo. Assim como já disse muitas vezes que acredito na máxima de que se conhece a árvore pelos frutos. Por mais que se queira ser tolerante, não tem como evitar: foi uma eleição em que a decepção veio a rodo. Mesmo para alguém naturalmente antissocial como eu, o número de pessoas que exibiram uma face monstruosa foi acima de todas as expectativas. Nunca na vida achei tão fácil dizer qual o lado certo, como se fosse um filme. O lado certo é o que mobiliza gente que se dispõe a sentar no meio da rua, às vezes amigos ou família, às vezes até com café e bolinho e esclarecer estranhos. De um lado, uma máquina perversa de mentiras que cria um mundo paralelo e fomenta o ódio; de outro, pessoas que cedem o seu tempo e o seu carinho para conversar.

No dia

rampa militares

Eu acordarei, você também, após uma noite de sonhos intranquilos. Minha reação, nessas ocasiões, é não querer sair da cama. Vou acordar, virar pro lado, acordar de novo, relaxar, ficar na cama de olhos abertos e só vou sair quando o corpo obrigar, já com dor. Ver TV, nem pensar. Provavelmente ficarei nas redes sociais, mas talvez o barulho dos que se sentem felizes apenas aumente a minha angústia. Tem também aqueles que não resistem, que não podem deixar de se manter informados, e por eles eu saberei os detalhes absurdos, as violências desnecessárias, o indicativo do que está por vir. Tenho certeza que a vizinhança soltará fogos, eles sempre comemoram em ocasiões como essa. Meu vizinho fez um churrasco, deu pra sentir o cheiro daqui. Do que eu sei, a casa dele foi assaltada três vezes. Minha vizinhança que nunca me fez mal e tenho com eles um relacionamento distante. Vejo alguns quando compramos verdura no caminhão. Tem uma igreja aqui perto e sei que eles se vêm como comunidade. Eu nem ao menos cheguei a entrar lá, nem pra ver a arquitetura. Certeza que sou “aquela que passa com compras” ou “a que sai de bicicleta” e certamente “aquela que tem a casa mal cuidada”. O que sei deles, porque foi dito por eles, é que eles gostariam de prender bandido em poste para espancar. Eu sei porque li no whatsapp, no grupo que entrei para a segurança do bairro. Depois acabei saindo, do tanto que as pessoas brigavam sobre o que podia ser postado ou não, aí fizeram um grupo só da minha rua e acontecia a mesma coisa, e confesso que não sei mais onde estou e não estou. Whatsapp, o maravilhoso mundo paralelo onde as mesmas senhoras que pedem a minha ajuda quando não conseguem mexer na agenda do celular, compartilham (outro grupo, mas deste eu não posso sair) que nordestinos são inferiores, imigrantes são parasitas que devem ser mandados de volta para seus lugares (nenhum membro tupi-guarani), escolas ensinam pessoas a serem homossexuais e o Papa, a ONU e a imprensa internacional são todas de esquerda e metem o bedelho onde não foram chamados. Nesse dia – e você sabe de que dia estou falando, o dia que mergulharemos na noite -, vou tentar fazer um almocinho, coisa leve pra ver se desce. Comerei todos os chocolates que me der na telha. Colocarei videos de indianos falando inglês sobre astrologia. Lerei Karl Ove. Minha cadela, indiferente, exigirá passeio e salsicha. Eu me enrolarei nas cobertas sem sentir frio, no sofá. Eu dormirei cedo sem sentir sono. Eu estou no Brasil e grande parte do país estará alegre, mais ainda em Curitiba, e eu me sentirei só.

Isto não é um poema

Conheço quem vote no Blsnro e se sente injustiçado por estar sendo chamado de homofóbico, nazista, violento. Se é o seu caso, peço para que você repense. Que estamos todos gritando – artistas, intelectuais, mulheres, imprensa internacional – por um motivo sério. Estamos gritando para você acordar. Não estamos falando de um futuro assustador, estamos gritando pelo presente.

A batalha entre o Bem e o Mal

Quando eu era criança, ficava muito angustiada quando via que o Mal estava sempre tão melhor do que o Bem. Pra começar, o Mal se veste melhor. O Mal tem ternos bem cortados e roupas de bom caimento, enquanto o Bem praticamente usa trapos. O Mal mora nas mansões, dá risadas sonoras, tem empregados, anda de carrão; o bem é órfão, consegue as coisas com dificuldade, luta ao lado de amigos tão ferrados quanto eles. Dá pra dizer que é puro argumento de filme para criar suspense, mas tem uma verdade profunda nisso. Uma das cenas mais clássicas de Star Wars é quando Luke luta com Darth Vader. Ele tinha todos os motivos pra ter ódio de Darth Vader, desde o fato de ser um filho abandonado como todo mal que Darth Vader representava. Mas, à medida que Luke ganhava o duelo, ele também perdia. Tentar matar o pai, mesmo um pai tão ruim, apenas os tornava iguais – pessoas no lado negro da força.

O Mal pode tudo. Por definição, o Bem deve sempre andar na linha difícil da ética e do respeito, senão ele deixa de ser Bem. Então, o Bem sempre se vestirá pior e será pobre, pelo menos enquanto o mundo for desse jeito. Aí cada um coloca a explicação ou o fim da história de acordo com as suas crenças: vai melhorar quando sairmos da Kali Yuga, o Bem vence porque ele está alinhado a Deus; ou não, nada garante o resultado da batalha e pode ser que o Mal ganhe e todos se ferrem mesmo.

É muito fácil se emocionar e cantar Imagine – talvez você diga que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único -, é fácil defender a união e o amor universal quando tudo está bem. É muito fácil se dizer cristão e só ir até a página 2, abandonar todos os princípios porque agora está difícil. Está sim, muito difícil, e a impressão que dá é que é cada um por si, basta salvar a própria pele. Imigrantes que têm mais é que voltar pro lugar de onde vieram, minorias que devem se dobrar à maioria, mulheres que merecem ganhar menos, trabalhadores sem décimo terceiro e deficientes sem lei de inclusão? “Tanto faz, não é comigo, não me atinge”. A má notícia é que vai atingir sim. Não queiram ser aquelas pessoas que as equipes de resgate encontraram quando chegaram para salvar os sobreviventes do Titanic, meia dúzia de egoístas em botes vazios no meio de cadáveres flutuantes. A história jamais os perdoou e aposto que nem eles a si mesmos. Não tenha ilusões a respeito de que lado está quem defende violência e morte, mesmo que seja só um pouquinho, mesmo que só com alguns.

o bem e o mal