Megera

evil queen

Infelizmente, eu ouço os meus vizinhos mais do que gostaria. O vizinho dos fundos, então, sempre fala muito alto. Eu acabo ouvindo alguns diálogos. Não sei dizer se ele e a mulher estão se separando ou estão tentando não se separar, mas ela dá patada atrás de patada no que ele diz. Às vezes ele nem disse nada demais, mas dá pra perceber que tudo a tira do sério. Não julgo, de verdade.

Um casamento acaba por muitos motivos e é claro que o meu teve muitos motivos. Ouvindo os dois lá atrás, eu percebo que uma das coisas que me dói sobre o meu casamento era a pessoa que eu era. Não vou saber dizer se eu era assim desde o começo, se foi como a relação se desenvolveu, se tinha jeito, só sei dizer que eu era e não gostaria de ser de novo. Minhas impaciências, minhas injustiças, minhas ingratidões. Será que eu sou uma megera estava uma megera? Algumas coisas nossas só encontram a luz do dia na intimidade extrema – e nem sempre é bonito de ver.

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Aquilo

relacionamento abusivo

Teve uma onda muito rápida, nas redes sociais, de haver se tornado aquilo que mais detestava. As pessoas se detestaram por se perceber aquele que procura lugar pra sentar na balada, ler embalagens de alimentos, comprar produtos de limpeza, etc. Eu me perguntei o que eu me tornei e detesto. Sobre ser chata e não gostar de balada, sempre fui. O que eu me tornei e realmente me choca, é quando digo: veja bem, é um bom marido. Trabalhador, honesto, trata ela bem… Um lado meu sente vergonha e, ao mesmo tempo, digo com convicção. Quem sabe em mais dez anos eu diga que tudo bem o homem ter suas aventuras e que o importante é ser a oficial. Que horror. Em minha defesa: tenho visto absurdos demais. Relacionamentos abusivos, se for pra resumir num termo só. Um dos mais absurdos que ouvi na minha vida, poucos meses depois se transformou em convite de casamento e hoje rende lindas fotos no Instagram. Meu casamento, que era bacaninha, acabou antes. Pior que eu não acredito que aquela relação tenha melhorado, porque o que eu ouvi já era grave demais, e sim que eles vivem de aparência mesmo. Hoje eu sei que estar ao lado de alguém que te trate com carinho e respeito não é o básico de todo casamento. Ou que nem todo mundo consegue suportar o risco do espaço vazio, então aceita um qualquercoisa. Perto de um abusador, se ele é trabalhador, honesto e trata bem, tá bom.

Um amor maduro

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Passávamos de carro pela Avenida Batel, um dos endereços mais caros de Curitiba. Aquela região, em especial, era cheia das antigas mansões dos barões de café, hoje todas transformadas em estabelecimentos comerciais. Ela me apontou uma casa de esquina, que naquele momento era uma das clínicas do meu plano de saúde. “Minha mãe vivia aqui, com seu segundo marido”. Minha amiga estava, conforme sua própria definição, na idade do sexo – sex agenária. Estava grande, vestia sempre roupas largas e desleixadas, enquanto a mãe se mantinha magra, era vaidosa, num daqueles casos clássicos que a mão parece ter menos idade do que a filha. O primeiro casamento, com o pai da minha amiga, havia sido um desses longos, de bodas que cobriam todas as pedras preciosas, e a mãe ainda passou muitos anos sozinha, de maneira que nesse segundo casamento a mãe dela já estava na terceira idade e o marido tinha pra lá de oitenta. Ela me mostrou de carro: todo final de tarde, a mãe e o marido trancavam a casa, passavam o cadeado pelo portão, e andavam de mãos dadas por toda avenida, tranquilamente, até chegarem no supermercado (que também não existia mais). Lá compravam um frango congelado, porque uma das especialidades da mãe dela era frango recheado.

-Que bonito, murmurei.

-Você achou bonito? Bonito nada, era uma porcaria! Você não imagina a quantidade de frango que os dois compraram em quatro anos de casamento, parecia um holocausto de frango. Eu pedia pros dois pararem de comprar frango, eram freezers e freezers, impossível comer tudo aquilo. Até hoje eu não suporto ver frango na minha frente!

Do meio pro fim

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Harari cita umas experiências que indicam que o nosso cérebro não consegue avaliar uma experiência na sua totalidade. O que ele faz, na verdade, é dar pouco peso ao começo e fazer uma média do meio pro final. Segundo ele, esta tendência explicaria porque, apesar de reconhecer que a dor do parto é uma das piores que tem, as mulheres continuam parindo; elas dão pouca importância à dor e se fixam na que é a emoção de segurar seu bebê, etc. Isto também mostra que a gente reclama e acha eleitoreiro, mas os políticos que decidem trabalhar em véspera de eleição sabem mesmo o que fazem. Quantos filmes que pareciam bons enquanto assistíamos foram arruinados pelo final, ou vice-versa? As pessoas se casam, tem filhos, constroem uma vida juntas e, quando termina, o outro vira um monstro que só lhe fez mal. A média final de um casamento, com o terrível processo de divórcio, é o oposto da contabilidade que uma mulher faz quando pari… Caso você tente dizer que “um dia deve ter sido bom, senão vocês não teriam ficado tanto tempo juntos”, a pessoa vai bater no peito e dizer: É sim, foi péssimo, desde sempre, eu sofri muito!

Ok, é a tendência natural do cérebro, entendi. Mas existe um caminho menos imediato, de não sujar a história toda por causa do final. Conheci uma moça dançando, antes dela entrar na faculdade. Era daquelas adolescentes que passavam o tempo todo se queixando que era encalhada e feia. Passou num curso disputado, conheceu um veterano, namoraram quase até se formarem. Acompanhei de Facebook: fotos sorridentes em passeios, com os amigos, com a família, tinha até charge dela vestida de noiva. Quando a reencontrei: “Nossa, você não sabe o que eu passei, me livrei, aquilo foi um atraso na minha vida, um castigo!”. Eu me pergunto do que ela se queixaria caso tivesse ficado completamente sozinha durante esse período… Vejo que quem não joga sobre a sua história toda mágoa do meio-final se sente mais feliz. O que seria isso, uma reprogramação cerebral?

Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.

A Gorda

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Ela odiava a ex do marido, e o sentimento era recíproco. As filhas adolescentes dele haviam ficado com a mãe, morando e do lado dela, e o ódio mútuo era tal que chegou a virar caso de polícia, com direito a B.O. Como ela odiava aquela criatura, a Gorda, como ela chamava. Que morresse, ela com as filhas, senão de colesterol alto, problema de circulação, embolia ou entupida com um chocolate, podia ser mesmo de acidente, câncer ou facada. Odiava a gorda, odiava, noite e dia. Um dia foi numa gira e o Preto Velho advertiu: ela rogava tanta praga na Gorda que uma hora ia pegar. E quem ficaria morando com as filhas dela em casa era ela. A partir de então, incluiu a Gorda nas suas orações.

Um deslize machista

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Ele não falou nervoso, como quem exige seus direitos. Falou numa boa, como quem dá um toque. Estávamos vendo TV.

-Eu fui no banheiro e levantei a tampa da privada pra fazer xixi e, olha, tá um nojo lá embaixo.

Não vou falar de como eram os nossos horários naquela época ou descrever meus hábitos de higiene. Vou me limitar a dizer que quem já cuidou de uma casa sem faxineira ou empregada sabe que há altos e baixos.

Ele me falou mais na boa que pôde e eu também fiz meu possível:

-Você poderia simplesmente pegar os produtos de limpeza – que você sabe que estão do lado da privada – e resolvido isso na hora. Mas você acha que a limpeza da privada é tão obrigação minha que preferiu ficar enojado, deixar como estava e me falar na primeira oportunidade, pra aí sim eu pegar os produtos de limpeza e resolver.

Ele ficou sem graça e limpou assim que começaram os comerciais. E acho que fez isso outras vezes.

Poupança

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Cinquenta, sessenta? Era difícil dizer a idade dele. Professor de educação física, desses que nunca havia parou de cuidar do corpo e puxar ferro quando nem era modinha. Os mais novos o acusavam, quando perto de gente discreta, de “obsoleto”. Mas também podia ser apenas inveja, porque alguns alunos não queriam fazer a série com qualquer outro. Eu, que fazia musculação só pra constar, fazia com ele porque era do meu horário mesmo. Naquele dia, o primeiro após um feriadão, ele estava cabisbaixo, o que nunca acontecia. Foi inevitável perguntar o que é que ele tinha.

-Lembra que eu te falei que tinha o casamento do meu filho?

Claro que eu lembrava, ele estava eufórico há meses. Não era surpreendente que ele um dia tivesse tido filhos, mas até então ninguém sabia da existência. Foi um casamento na juventude, mulher foi morar em outra cidade, levou o filho pra longe, perderam contato, essas coisas. Apesar de tudo, o rapaz o procurou agora, já adulto, queria o pai no casamento, entrando no altar. Ele ficou animado, não esperava, depois de uma vida afastado receber um convite daqueles.

-Não fui. Foi esse fim de semana e eu não consegui ir.

Era muito simples, bastava comprar a passagem e ir. Não se preocupou, há anos ele tinha uma poupancinha. No mês que sobrava, colocava dinheiro lá e pronto, nem olhava. Aí ele me conta que vive com uma mulher há anos, coisa que eu acho também que ninguém sabia. Uma vez eu fui numa balada de dança de salão, ou seja, de gente velha que gosta de dançar e lá estava ele; a sensação de vê-lo caçando foi a mesma de abrir a porta do banheiro e ver o avô pelado. Então, pra mim ele era um eterno “na pista”.

-Aí eu fui comprar passagem e não tinha mais nada na poupança. NADA. Ela gastou todo meu dinheiro, torrou anos de economia.

-Mas como assim, pelamordedeus, ela gastou tudo? O que essa mulher fez com o dinheiro, comprou um carro, jóias, você nunca desconfiou de nada?

Pior que ela não tinha gastado em nada demais. Ele brigou, pressionou, chorou, falou do desastre e que não teria como explicar pro filho, onde tinha ido parar o dinheiro. Ela gastou tudo ao longo do tempo, em besteira: uma roupa aqui, um salão mais caprichado ali… Ele estava arrasado, sem coragem de ligar pro filho. Não sei se ligou. E, caso tenha ligado, se o filho entendeu.

Amor e fuén

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Eu me casei muito apaixonada. Nesse sentido, olho para trás e não consigo achar que foi uma decisão errada, porque é como se não tivesse sido uma decisão – eu não tinha escolha, era inevitável, não dava mais para seguir adiante sem ele. E com tanto amor, com todo esse sentimento das duas partes e a vontade de dar certo, tivemos nossas dificuldades e chegou ao fim. Eu me pergunto então como deve ser quando a pessoa casa meio “ah, ele é legal, o currículo é bom, também gosta de Beatles…”

Jango e Tereza

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A biografia de Jango fala principalmente da política, mas em uns pedaços o autor fala da Maria Tereza, do que ela testemunhou e como foi o casamento dos dois. Não foi nada conto de fadas. Jango era famoso mulherengo, tanto que ficou com problema no joelho por causa da sífilis. Quando eles se conheceram ela tinha treze anos e ele aparecia pra vê-la quando ia pro Rio Grande visitar a família. O pedido de casamento veio por parte de um assessor, uma coisa bem “o Jango precisa casar porque é candidato”. Ela, com dezessete, disse que não queria. Nem os pais estavam a fim, mas meio que teve que ser. Aí rolou aposta na cidade – Jango era rico, de família rica, ministro e ela uma pobretona. Acharam que ele não apareceria. Choveu pra caramba naqueles dias, Jango não conseguiu teto pra desembarcar e ele mandou uma procuração. Só puderam se encontrar dias depois. Tereza nunca soube como é que eles fizeram com as apostas, porque ele não apareceu e ao mesmo tempo se casou.

Contra o amor

Depois que descobri esse clipe, assisti uma quantidade vergonhosa de vezes. Chorei feito noivinha, ainda bem que ninguém viu. Eu havia esquecido do sentimento que o clipe mostra: a crença no amor, de ver no outro uma esperança de um futuro, ter uma redoma de felicidade a dois. Todos buscam viver isso, mas não é algo que se produza por força da vontade. Como diz a música da Rita Lee, amor é sorte. E como a felicidade deixa todo mundo esplendoroso, né? Garrei amor por todos aqueles casais. O clipe é do canal do Jeneci. Jeneci, gente, quem é essa pessoa, o que faz e do que se alimenta. Ele já me viciou antes, com Dia a dia, lado a lado. Se não fosse o youtube me oferecer, não teria conhecido o trabalho dele. E é um trabalho que merece ser conhecido, tudo o que o tal do Jeneci faz é caprichado e lindo.

Aí fiquei com vontade de mandar o clipe pra minha amiga que acabou de casar. Só que o clipe – o que também é lindo – não tem nenhum preconceito com o amor, e mostra casamento de homem com homem e mulher com mulher. Minha amiga é de Igreja e provavelmente isso não faria sucesso no mural dela. Achei a cena tão chata e triste: ao invés de se comover com o amor dos outros, fazer um julgamento se aquilo pode acontecer ou não. Ser contra amor, contra felicidade. Que bom que não tenho “contrato” fechado com nenhum tipo de crença  e não preciso me preocupar com explicações ou certo e errado. Na minha concepção, feliz, amor e bem se misturam. Se deixou o meu coração quentinho, acho bom e quero mais é que cresça.

Curtas pra reclamar

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Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

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Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

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Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

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Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

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Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Profecia

“Eu queria falar com você nas minhas últimas horas de solteira!”. Eu estava no atelier e tinha perdido uma ligação do celular e liguei de volta para a minha melhor amiga, que também não atendeu o dela. Aí deixei aquele recado. Isso porque naquela noite eu ia sair de novo com o engenheiro-bom-partido que uma amiga em comum havia me apresentado, e as coisas estava andando rápido e bem. Pelo pouco que ele demorou pra me ligar de volta e marcar outro encontro, que seria aquela noite, eu tinha certeza de que ia rolar. Só que eu não tinha noção do quão poucas horas eu tinha de solteira ou, dito de outra forma, que eu levaria mais de uma década para voltar a ser solteira.

É assim:

Dois exemplos de ofensas que cometi por erro de avaliação

 

Na minha cabeça, eu enquanto nora e cunhada atrapalhava. Legalmente, podia até ter me tornado parente, mas na verdade eu estava ali por causa da escolha de uma pessoa, escolha essa que não tinha nada a ver com o resto. Minha sogra, enquanto mãe, queria encontrar apenas o seu filho. A idade adulta o afastava cada vez mais, e agora havia até uma mulher do lado dele. Mulher essa que ela podia aceitar, gostar, mas que não era e nem nunca seria parente dela. Então me parecia que era muito melhor eu deixar o filho ir lá, sozinho, ser acarinhado, abraçado, dar todo seu tempo livre para a mãe dele. Minha presença era uma tolice, ele sozinho era a volta do núcleo original, as pessoas que realmente se amavam e tinham uma história juntos. Eu achava que reunião familiar sem os in law era melhor para todo mundo. Não, teoricamente todos se amam e eu tinha que estar lá para atestar isso. Minha ausência não era um espaço e sim uma agressão. Não que hoje eu conseguisse fazer diferente, mas agora pelo eu tenho mais noção de quanto os ofendi.

 

Fiz de novo, agora com outro assunto. Uma grande amiga minha vai casar. Juntou vários nomes numa mensagem privada e estava tentando marcar encontro. Aquele stress: quem pode em que dias da semana e em que horário e local? Porque ela queria uma reuniãozinha, queria dar o convite pessoalmente. Aí, numa resposta cheia muitas voltas, eu digo: convite é pra gente saber dia e horário, coloca os dados aí e entrega quando for mais cômodo. Senti que foi como xingar a mãe. Não, convite não é bobagem, entregar pessoalmente não é bobagem, antecedência não é bobagem. Aí eu vi o quanto nunca ter desejado casar na igreja me torna ignorante nessas convenções – tanto que nunca faço questão e não me ofendo quando não me convidam pra casamentos. Confesso que pra mim é apenas uma festa, e das mais chatas. Na longa justificativa que se seguiu à minha fala, percebi que há um orgulho em sair entregando os convites, o papel de noiva, o estar na lista, toda essa onda de dificultar a própria vida. E eu um dei coice na noiva porque achava, ingenuamente, que convite era só informativo.

Eu sou mesmo um alien.

Lanternas Vermelhas

 

Sem spoilers, ok? Não vou nem colocar o trailer porque ele entrega muito o filme.
Lanternas Vermelhas mostra um sistema de casamento que é totalmente estranho para nossa cultura. Homens com cargos muito importantes tinham direito a ter mais de uma mulher, desde que tivessem o suficiente para pagar o dote, manter em uma casa com empregados, etc. Esposa mesmo era a primeira, as outras eram as concubinas. No filme, acompanhamos quando Gong Li (esse o nome da atriz, por sinal lindíssima), uma universitária – ou seja, alguém estranho a esse meio – se vê obrigada a ser a quarta esposa de um desses homens. Suas colegas eram: a esposa, que já estava velha e fora da disputa; uma mulher na faixa dos seus quarenta e todo aquele jeitinho de mãe; uma cantora de ópera bonita e arrogante. Todo dia de manhã o marido indicava com qual das esposas ele ia dormir. Aí, a mulher recebia uma série de benesses quando era escolhida: levavam as lanternas vermelhas pros aposentos dela, ela recebia a maravilhosa massagem nos pés (foto) e todas as atenções. As mulheres que não eram escolhidas perdiam prestígio e poder. Então, a vida daquelas mulheres é um inferno, cada qual usando das armas que tem, com o objetivo de fazer o marido dormir com elas o máximo de noites possíveis. Enquanto isso, ao bonitão (modo de dizer porque a cara dele nem aparece) só cabe ir onde lhe tratam melhor.
Gente, gente, GENTE? Vai dizer que não é exatamente isso que temos vivido? As mulheres todas se matando por um pouco de p*. Eles, maravilhosos, indo para onde mais lhes agrada. Como é que deixamos as coisas ficarem tão desfavoráveis pro nosso lado?

Namoro?

 

Me disseram que namoro é status, mercadoria rara. Assim como o casamento é, e percebi claramente quando casei. E mesmo agora, que não sou mais, o status permanece em mim, uma marca eterna. Não sou, mas fui. Eu consegui, uma vez na vida um homem me escolheu para ficar o resto da vida do meu lado. Que se dane se não deu certo, sou mais do que as outras que nunca viveram isso. Acho terrível, mas quase todos vocês pensam assim.

 

Por outro lado, já ter vivido é diferente. Eu sei o que ser a “oficial” – agora falo também de namoro – implica. Tem o andar de mãos dadas, o apresentar para os nossos amigos na expectativa que ele se misture, ser apresentada aos amigos dele na expectativa de agradar, a mudança de status no facebook!, o ajuste das agendas, o entrar num ambiente e ser olhada como propriedade daquele homem, a dificuldade em conciliar gostos na hora de escolher um cardápio, a tampa da privada e o papel higiênico, os gostos bestas que você deve amar, e se isso não acontecer, lembrar de jamais jogar na cara. E tem a família. (suspiro). Tem a família.

Não sei se consigo mais. Neste momento, não.