Pequenas alegrias

Não tinha ônibus e nem eu tinha pressa. Fui andando calmamente pelo caminho mais vazio que consegui. Achei que me traria lembranças desagradáveis, ou sensação de fracasso, mas não: andar por uma rua agradável é sempre agradável. Descobri umas árvores lindas, sem folhas e cobertas de pequenas flores cor de rosa – seriam cerejeiras? Eu me permiti ficar parada na calçada, olhando. Pensei em tirar uma foto e deixei para lá, eu não iria olhar para a foto com o mesmo encantamento. Eu tinha um vale do McDonald’s para provar o cappuccino e pão de queijo. Me desviei do caminho e fui para lá. A loja estava completamente vazia, apenas os funcionários fazendo limpeza. Comi perto da janela e um funcionário trocou duas frases comigo enquanto limpava o chão e não entendi nada do que ele dizia, mas concordei sorrindo e ele ficou satisfeito. Coloquei açúcar e canela no cappuccino, usei a tampinha só pra saber como era beber naquele estilo que sempre vemos nos filmes. Quando peguei o pão de queijo tive uma grande surpresa – estava delicioso. Deu vontade de voltar no caixa e comprar mais uns dez. Terminado o café, quis voltar pro meu caminho e resolvi parar uma loja de departamentos, só para olhar. Lá comecei a gostar de roupas, pensei em comprar aqueles acessórios de banheiro com estampas de animal, me perguntei se agora colocaria tapetes na minha casa. Em meio a tanto desejos novos, me dei uma almofada. Ela tem a estampa da bandeira do Brasil. Não me acho nacionalista nem nada, mas sempre achei bacana produtos com a bandeira do Brasil e nunca tem, só se acha em ocasiões especiais. Comprei antes que deixe de ter. Comprei porque agora o único gosto que precisa ser contemplado é o meu. Voltei para casa de estômago quentinho, almofada debaixo do braço e ideias na cabeça. A vida vai se refazendo aos poucos.

PS: Enquanto você lê este post, eu já estou na estrada. Resolvi aceitar ajuda e ganhar um pouco de colo. Acredito que continuarei postando, mas já não posso garantir a mesma pontualidade. Beijo.
Anúncios

Falência

Olha, o dia de hoje foi foda. Teria sido foda de qualquer jeito, não apenas porque eu não estou bem. Eu percebo que não estar bem é algo cíclico – ora precisamos dos olhares de solidariedade, ora tudo o que queremos é ser tratados da maneira de sempre. Pois hoje a vida me tratou da maneira de sempre e eu desejei ela fosse menos madrasta, que me poupasse. Mal consigo arrumar minha casa (no sentido literal e no metafórico), quanto mais lidar com a loucura dos outros. Hoje me deu vontade de largar os betes, me declarar mentalmente incapaz e em internar num hospício, deixar que tomem conta de mim. Cansei disso tudo, cansei.

I´m alright now

Caro Ernani,

Uma vez me disseram que deveríamos fazer boas obras, ser bons com as pessoas, porque teríamos mais gente para interceder por nós do outro lado. Achei estranho e até mesmo egoísta pensar em fazer o bem para os outros pensando numa futura intervenção. Posso pensar em muitos motivos para ajudar os outros e nenhum deles passaria pela noção de que precisaria de alguém para interceder por mim. Pois bem: a tua preocupação gratuita comigo me remete a essa possibilidade e me faz um bem danado. Eu começo a pensar que se consigo que pessoas tão distantes torçam por mim é porque cometi alguns acertos. Digo isso porque em algum lugar, acho que errei demais. Se não tivesse errado, minha vida não estaria uma bagunça, minha casa não estaria vazia, meu futuro não estaria incerto. Não faz sentido, eu sei, mas é um pensamento que não consigo evitar.

 

Eu estou bem, como expressa com perfeição esta canção do Pizzarelli. Eu acordo cedo e saio logo da cama. Sempre tenho algo a fazer de manhã, de maneira de estar às 7h a caminho de algum lugar. Tenho, invariavelmente, longos trajetos a pé. Levo a Dúnia para passear todos os dias e coloco roupinha para ela não passar frio à noite. Eu passo no correio, no banco, na farmácia, no supermercado, na biblioteca, na lavanderia, no posto de gasolina. No meio da manhã às vezes tomo um cappuccino numa padaria cara e de atendimento lento. Falo com todos os que encontro nos lugares, com qualquer um que me retribua o olhar. Eu chego no horário nos meus compromissos, ou mais cedo. Tenho sempre na bolsa um livro, que na verdade só é lido quando estou fora de casa. Nos dias de muito frio, passei quase todos como mesmo casaco e uma calça deliciosamente quente e confortável que eu fiz, mas não tenho me descuidado. Todo banho, pinto as unhas, arrumo o cabelo, me visto com o esmero. Combino os brincos com a roupa. Uso muito um cachecol vermelho e preto, muito fofinho, que me dá a sensação de abraço. Peguei para mim uma almofada de cachorro (fiz para vender) pelo mesmo motivo. Tenho aceitado todos os convites que posso, tenho ido para casa de amigos onde nunca estive, tenho entrado em contato com as pessoas. Fui assistir o jogo do Brasil numa casa cheia de gente, onde quase todos me eram completos estranhos. Fui a uma churrascaria. Fui no trabalho de um amigo de uma amiga, só porque era caminho.

 

Entre um compromisso e outro, eu me pego esquecida e até me divirto. Num dia vou no computador, ou começo a costurar, ou levo o cachorro pra passear, e aquilo me preenche e sinto que está tudo bem. Aí no dia seguinte nada disso, em que dose for, é capaz de tirar o peso. Sinto como se fosse uma bad trip. O processo chega e fico presa nele. Não há o que fazer enquanto dura. Já tentei rezar, já tentei pensar, já tentei me distrair. Parece que independe do que eu faça. Independe, até, do que acontece ao meu redor. Hoje passei quase o dia inteiro muito mal, achei que não conseguiria, que teria que pedir socorro pra alguém. Minha primeira noite sem ter ninguém me esperando depois do flamenco. Deixei as luzes acesas e foi só sair de casa e olhar pro céu que o peso passou. Pudera, foram umas doze horas. Quando cheguei, tão tarde, sorri para as luzes mesmo ciente de que fui eu quem as acendi. Melhor ainda: cheguei em casa faminta, e aproveitei para comer dois sanduíches. Tem sido raro eu sentir fome, tenho simplesmente esquecido de comer. Como porque me obrigo, porque está no horário. Se você soubesse o quanto sou gulosa, teria noção do absurdo. Minhas roupas estão todas grandes, sambando no corpo, caindo. Devo ter perdido uns três quilos, não tenho coragem de me pesar. Sei que meu rosto está uma caveirinha.

Mas eu não choro antes de dormir. O que tenho feito é viver os dias, um de cada vez, à espera.

Quebrados

Eu entrei na faculdade com outros alunos mais velhos. Uma delas era uma senhora com mais de quarenta anos. Há pessoas e pessoas com quarenta anos; ela era aqueles quarenta na visão que temos na adolescência, a pessoa já com família, filhos, história, peso. Por detrás dos óculos, quando ela via os ativos alunos do centro acadêmico bradarem suas verdades, ela dizia que era exatamente daquela forma quando jovem. Ela sempre falava assim, de como ela era, de como agiria, do que estaria fazendo. Era um contraste o que ela dizia fazer – gritar, bradar, reivindicar – da senhora pacata que eu tinha do meu lado. Não sei se a pergunta do porque ela não era mais assim era evidente ou se um dia ela mesma percebeu. Ela citou, vagamente, que havia vivido muita coisa e perdido aquela confiança.

 

Eu vejo que a vida vai nos quebrando. Que ser confiante quando jovem talvez seja o caminho natural. Acreditar que o mundo nos ama, que vai se dobrar à nossa vontade só porque é a nossa vontade, ou só porque nos parece certo. Difícil é ser assim depois de certa idade, depois de ter sido quebrado e colado em pedaços incontáveis. Quantas vezes somos capazes de quebrar e não perder a força?

 

Sejamos kitsungis.

Novas tradições

Se ver sozinha, depois de uma vida inteira vivendo acompanhada, é constatar que sempre apagará sozinha a última luz da casa. Ou não, que agora sente a necessidade que alguma luz fique acesa. Pra dar mais vida, não sei. Quando eu ia visitar alguém que morava sozinho, constatava que a TV estava ligada e não entendia o motivo. Nunca fui muito de TV; passada a fase que ela era minha babá eletrônica, sempre fui do tipo que desliga quando não tem nada interessante, que não sabe nem o número dos canais. Agora chego e preciso ligar a TV, preciso aumentar o volume, preciso do som dela me perseguindo pela casa. Mesmo que eu passe a noite inteira sem olhar para a tela. Se não tivesse a Dúnia lá fora, e a incompatibilidade natural que ela parece ter à ideia de dividir meu amor com alguém – tentei adotar outro cachorro de rua e me surpreendi com a reação dela – colocaria gatos aqui dentro. Dois. Pra eles aprontarem, derrubarem coisas e tirarem de mim o poder de ser a única agente dessa casa. Para me obrigarem a falar e até mesmo a não fazer as coisas num ritmo exclusivamente meu. Tudo o que eu usar, tirar, colocar, lá ficará até que eu aja de novo. Não há mais quem consultar. A comida que eu não comer estragará na geladeira, e os chocolates esperarão intactos até que eu os coma. A minha TV nunca mais exibirá filmes de zumbis ou de terror; em compensação, também não terei ninguém para descobrir filmes e documentários bons para mim.

 

Sempre fui de ir pro restaurante no horário mais vazio e sentar na mesa mais distante. De achar que se falei ou visitei uma pessoa hoje, devo demorar pelo menos um mês até voltar a ter algum contato. De ter horror a qualquer reuniãozinha ou festas onde eu não estivesse blindada com as pessoas que eu já conheço e já gosto. A verdade é que programas com os outros me atrapalhavam – eu sentia vontade de estar só e as pessoas me privavam disso. Agora estou naturalmente só, emocionalmente só, o tempo todo só. Preciso tomar iniciativa pra ter alguém com quem conversar, não é só elevar a voz ou virar pro lado. Agora me vejo buscando, achando qualquer programa ótimo, me controlando pra não ligar e visitar num intervalo curto demais. Penso nos outros e suas famílias, suas casas cheias de gente, seus desejos de ficar só e me contenho, porque sei como é. Mas torço e me alegro tanto quando surge um chance de estar com eles.

 

Já me disseram que acostuma, que isso é só no começo. Dizem que ainda vou amar tanto essa solidão que a hesitarei em abandonar, do mesmo jeito que um dia hesitava. Que tirarei os fins de semana para limpar a minha casa, ao invés de fugir dela ao máximo. Meus banheiros precisam tanto de uma limpeza, minha casa precisa tanto que eu sente e faça as coisas lentamente, com carinho. E eu preciso aprender a ocupá-la.

Traição orgânica

Só agora eu entendo o tamanho do meu egoísmo e da minha crueldade para com a minha sogra, saindo com ela de vez em quando na sua viuvez. Eu devia ter trazido aquela mulher aqui pra casa, mesmo sem qualquer intimidade. Largava ela no sofá vendo rede globo, igualzinha a rede globo da casa dela, mas seria melhor. Esse era o problema, eu não entendia que seria melhor. Eu não entendia a diferença que faz estar acompanhado, apenas estar acompanhado, saber que tem outro ser humano por perto quando você não está bem. Eu não entendia porque uma amiga que estava recém-separada falava com tanta gratidão do amigo que assim que soube a chamou pra sair naquela noite. No que resolvia, uma noite?
Eu não entendia o problema da solidão súbita e forçada porque não entendi o que significa essa solidão. Não entendia os depressivos, não entendia as crises de pânico, nunca havia sentido nada semelhante. Eu nunca havia sentido essa ânsia que sobe da mesma forma que uma ânsia de vômito, e vai no coração e dói. Da cabeça entender mas o corpo precisar purgar, e te assaltar de quando em quando com um medo maior do que você, atávico, ancestral, que não te pertence e que você não consegue se defender. Enquanto ele dura, dá vontade de morrer. E o parente dele é um desânimo, uma auto-comiseração e uma falta de fé tão grande que qualquer tarefa corriqueira se torna um fardo. Não há o que fazer, mas ao mesmo tempo há a necessidade de fazer alguma coisa, pra pelo menos fazer as horas passarem. 
Agora tudo faz sentido. Estar presente, sair, tirar de casa faz toda diferença. Nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nesse começo. Até o corpo purgar. A cabeça entende, a cabeça decidiu, mas é algo além dela. Como condenar alguém por buscar remédios, beber, fazer sexo loucamente, enfim, sair de si, quando dentro de si se torna o pior lugar. É uma verdadeira traição orgânica.

Era uma tarde, em Sevilla

Acho péssimo ter que contar que foi em Sevilla, porque já parece que quero, logo no título, traçar de mim um quadro internacional-viajada-cheia-da-nota. E colocar dizer que a cidade em questão foi Sevilla, também pode passar a impressão de uma ligação mística com a cidade. Todos nós, que dançamos flamenco, nos sentimos intimamente ligados a Sevilla, por ser considerada um grande berço flamenco. Na época que isso aconteceu, eu não apenas não dançava flamenco como tinha total desprezo por qualquer tipo de dança. Minha amiga que foi para o intercâmbio junto comigo, teve a sorte de visitar Sevilla bem na Feria de Abril. Ela me contou que se deliciou o dia inteiro vendo pessoas dançarem na rua e eu só consegui pensar – Que desperdício.

 

Talvez muito mais influência tenha o que eu estava vivendo, quem eu era, o que me levou até lá. Foi na única viagem internacional que fiz na vida (fazer compras no Paraguai não conta, né?), aos vinte e um anos. Ganhei uma bolsa de dois meses e acrescentei mais quinze dias à viagem. Minha cidade sede era Santiago de Compostela, uma verdadeira Curitiba espanhola. Seu volume de chuvas faz com que ela seja conhecida como Urinol da Espanha. O sol só saiu na última semana que passei lá. Fui com pouco dinheiro, pouquíssimo na verdade, e fazia viagens bate e volta pra aproveitar meu Europass. Eu ia pra cidade com uma mochila nas costas, onde tinha um sanduichão e água. Andava o dia inteiro, seguia os mapas, sentava no chão, comia meu sanduba, olhava o que dava e voltava no último trem. Nesse esquema, conheci umas dez cidades espanholas.

 

São raras as ocasiões na vida em que estamos onde queremos estar. Eu não tinha planos, não sabia o que me aconteceria quando voltasse de viagem. A única coisa que passava na minha cabeça era o que visitar em seguida. Eu me sentia no ápice da minha vida – uma sensação que não deixa de ser aterrorizante, porque o que vem depois necessariamente é para baixo. Esse era o meu estado mental, de estar extremamente ligada ao meu presente, sem planos para o futuro, sem qualquer outro desejo. Foi assim que eu subi as escadas daquela igreja, em Sevilla.

 

O dia estava bonito e a igreja cheia de turistas. A torre nos deixava ver a cidade inteira. Todas as sacadas estavam apinhadas de gente. Eu me aproximei da vista assim que os outros turistas se afastaram, ávidos por novas fotos. Eu me lembro que dava pra ver a Plaza de Toros daquele ângulo. Foi aí então que aconteceu. O que posso dizer é uma lembrança muito pálida, uma ideia aproximada do indescritível. Eu olhei para a cidade e naquele instante eu me senti sumir. Foi como se eu tivesse ficado transparente. Eu senti que a cidade, a paisagem, eu, o vento, éramos todos uma coisa só. O vento passou por mim e foi como se ele tivesse passado por um oco, pois dentro de mim não havia nada, porque não havia mais dentro de mim, não havia Mim. Éramos eu e o cenário uma coisa só. Eu me senti leve, como apenas a não-existência é capaz de fazer alguém se sentir.

 

Tal como veio, a sensação se foi. Eu não fiz nada para causa-la e da mesma forma não fui capaz de nada para retê-la. Ficou apenas a lembrança de que isso existe, a certeza de saber exatamente do quê Krishnamurti fala nos seus livros. Ficou a saudade, a esperança, a certeza de um estado onde a infelicidade simplesmente não faz sentido. Espero um dia viver isso de novo e de lá nunca mais sair.

Certezas

Tudo resolvido, assinado, depois de tantos meses. Minhas amigas admiradas diante de tanto equilíbrio emocional em um divórcio. Tudo muito amigável, otimista, civilizado. Passamos todos esses meses vivendo juntos, embora separados. E eu não via a hora de tudo terminar pra ele finalmente ir embora e eu tocar minha vida pra frente. É no próximo fim de semana.

Certeza? Acabou. Agora bateu de verdade. Agora o que me impede de me atirar debaixo do primeiro carro é covardia pela dor.

Rezem por mim, estou precisando muito. Pior aniversário de toda a minha vida.

Descansar no esforço

Você está na aula de natação e o professor manda fazer os tiros. Nadar duzentos metros aumentando a velocidade gradualmente, duas vezes. Depois, mais cinquenta metros, o mais rápido que puder. Tudo com um intervalo que lhe permite respirar e esperar na borda da piscina no máximo uns vinte segundos. E repete essa sequencia toda algumas vezes. Os duzentos metros são cansativos, não dá pra ir devagar demais senão falta tempo depois. Aí os cinquenta são muito cansativos e quando você vê, já tem duzentos de novo. Você tem que se recuperar dos cinquenta forte nadando mais duzentos, aproveitando enquanto ainda está devagar.

 

Eu sempre penso durante os tiros, durante esse descansar nadando mais, que a vida é assim mesmo. É muito pouco o que temos pra realmente parar. Quanto tempo a vida hoje nos permite parar – um final de semana, uma noite chorando no travesseiro? Dá vontade de dormir e só acordar quando as casquinhas todas já estiverem formadas e caídas, ou passar o ano vivendo irresponsavelmente, e só então encarar. Não dá, nunca dá. As contas, as obrigações legais, o lixo que precisa ser colocado pra fora, nada espera. A gente tem que descansar das batalhas em meio a outras.

Péssimas relações

Todo lugar tem que ter seus malas. É uma cota, você não consegue montar um lugar e ter cem por cento de pessoas bacanas. Em algum momento, o mala vai aparecer. E tem essa mulher na turma da costura que é a mala, que poucas pessoas suportam. A começar pela professora, que gostaria muito que a mulher deixasse de frequentar as aulas. Eu não sou das que lhe têm mais antipatia, e até acho engraçada sua maneira de falar sozinha e reclamar. Não gosto, claro, da mania de estar sempre esquecendo o seu material, sempre ficou na outra bolsa. Então, apesar de costurar há anos e ter tudo o que precisa, ela não passa uma aula sem ter que pedir uma agulha, uma fita métrica, sem ter que usar a tesoura de alguém.

 

Ela frequenta essas aulas há anos, sempre achando ruim. Antes de fazer aula lá, ela fez aula de costura com uma outra, e essa outra aparentemente era maravilhosa, perfeita. A tal costureira perfeita pelo que entendi ainda dá aulas, mas não tem mais vaga (o que me faz pensar que a outra costureira deve detestar a fulana também e inventar desculpas para não aceitá-la de volta). A todo momento ela compara a atual professora com a outra, sempre pra dizer que ela não ensina direito, não dá as dicas, não chega nem perto. Quando a sós com alguém, ela se queixa inclusive que a professora se valoriza demais, que vende seus produtos de patchwork a preços absurdos, que tem gente por aí que vende pela metade do preço. Só que das tais pessoas ela não quer -“Eu comprei um conjuntinho dela no ano passado. Ela me cobrou bem caro, mas mesmo assim eu paguei, fazer o quê”. E em aula, dá indiretas, faz caras de impaciência, teima em fazer as coisas do jeito dela. Como eu disse no começo, mala total.

 

Aí na última aula o clima estava péssimo. Eu não sei quem ou como começou, só sei que foi um festival de patadas. A mulher soltava indiretas, a professora cortava, as pessoas se olhavam. E a mulher lá, querendo atenção, ouvindo uma e logo depois interrompendo e perguntando de novo. Depois de umas duas chulapadas daquelas, depois de toda impaciência demonstrada pela professora nas explicações, eu teria ido embora. Senão na hora, teria decidido largar a costura. Porque eu não sentiria prazer de frequentar aulas num lugar onde sei que a professora não me suporta, onde fala comigo e me explica as coisas apenas pela obrigação profissional, onde o clima pesa só com a minha presença. Mas a mulher continuou, continuará, e tem continuado durante anos.

 

Eu acho que ela continua porque pra ela tudo aquilo é normal. Ela não tem termo de comparação, entende? Em todo lugar que ela vai deve ser assim, toda conversa deve ser assim, todo clima deve ser assim. Porque é ela quem torna as coisas ruins. O que eu chamo de clima ruim pra ela é a própria condição de existência, a única possível.

Critérios pessoais de sucesso

A vida da pessoa pode estar gritando sucesso, nos critérios que comumente usamos, como dinheiro, carros, imóveis e puxa-sacos. Mas eu sou incapaz de acreditar na realização pessoal de alguém chato, estressado, mala, prepotente. Pra mim o sucesso tem a ver com um fazer… adequado? Tem a ver com a difícil equação de agir conforme o tempo, a capacidade pessoal, o desejo e a consciência. Mal e mal a gente sabe se conseguiu isso na própria vida, quanto mais na dos outros. Mas tem algumas pessoas para quem olho e me parece que elas devem ter conseguido.

 

-> Aquelas pessoas que quando o assunto profissão surge, falam sem pensar, na cara, chocando os presentes com a espontaneidade da declaração: eu amo meu trabalho. Não é: “olha, minha profissão é legal a maior parte das vezes, tem dias e dias”. Eles dizem com todas as letras: AMO. Nem se importam com o constrangimento que causam. É como aquelas pessoas que esfregam na nossa cara que encontraram um namorado rico, bonito e apaixonado. Farinatti é esse tipo de gente.

 

-> Tem aqueles que trabalham com coisas que não tem nada a ver com uma vocação no sentido mais profundo e têm total consciência disso. É um trabalho que não define quem a pessoa é, tanto pro bom quanto no ruim, ou seja, não causa vergonha e nem a torna terrivelmente orgulhosa. Nunca é trabalho insuportável – porque isso contaminaria todo o resto – mas lhe permite viver com o conforto necessário e lhe dá liberdade. E com essa liberdade, elas fazem o que realmente amam. Pode ser cozinhar, viajar, cuidar de gatos. A parte mais difícil talvez seja justamente essa – saber o que fazer, se tiver tempo e dinheiro.

-> Pessoas que sorriem muito. À exceção do Coringa, quem sorri muito necessariamente é feliz.

-> Velhinhos interessantes. Aqueles que você consegue enxergar o jovem que ele foi um dia, que conserva um sorriso maroto por debaixo das rugas. São as mesmas rugas e gestos mais lentos de uma pessoa de idade, mas quando você para pra ouvir se surpreende. A pessoa conta que foi corista, que viajou pelo mundo, que largou tudo por amor, que participou da Resistência. Mas você só descobre se começa a conversar, porque velhinhos que contam sempre a mesma história e são carentes por atenção são outra coisa.

Never more

Eu não seria capaz de me separar de você pra ficar com outro, porque eu sei que uma coisa nunca é igual a outra, que ninguém nunca ocuparia o seu papel. O outro traria seu amor de outras formas, com outros encaixes e desencaixes. Sem dizer que pra trocar uma relação por outra é preciso um romantismo, uma fé no amor e no casamento que eu não tenho mais. Eu casei com você tão convicta, tão certa de que era a melhor alternativa, que não haveria amor maior e mais indestrutível, que sei que com o nosso casamento acaba também essa crença. Mesmo que eu um dia volte a me casar, vai ser diferente, eu não vou me atirar dessa forma. Eu jamais serei capaz de entregar a minha vida a outro homem como fiz com você. Então, esse casamento será único de qualquer forma.

Não devo acreditar que foi a melhor relação que terei em toda a minha vida, porque não me faria bem. Se tivesse sido assim tão perfeito, não tinha chegado ao fim, não é mesmo? Mas, nossa, como foi bom. É difícil acreditar que mais algum homem, no futuro, me entenda tão bem quanto você. Isso foi o que me chamou atenção logo no nosso primeiro dia: se eu falava A, a mensagem até você como A. Não era -A, A e meio, supostamente A. A nossa comunicação sempre foi tão clara e tão simples que chega perto da telepatia. E os anos só fizeram reforçar isso. Com você eu sempre me senti tão livre para falar de tudo, que chegava a ser louca – você era a melhor companhia para pensar alto, falar dos meus pensamentos mais profundos, do que aconteceu e o que eu vi nos lugares onde fui. Até o meu último cocô podia ser assunto. Espero que ouvir esse fluxo de pensamentos durante esses anos tenha sido bom pra você também. 

Mas não é bom apenas no sentido de alguém que despeja, como pode parecer. Sempre te pedi para falar, sempre precisei que você falasse. Nos meus momentos difíceis, apenas ouvir a sua voz dizendo Alô já passou a ter o poder de me acalmar. Agora eu posso dizer o que não devo acreditar, mas é que tenho certeza: mais ninguém no mundo superará a tua capacidade de me dizer a coisa certa na hora certa. Ninguém, em qualquer lugar, nunca mais. Meu Deus, nunca mais. Você conhece meus destemperos, a minha autocrítica doentia, a maneira como perco o rumo. Quando preciso de uma palavra de apoio, você a diz. Quando preciso de um elogio, você o tem. Quando o que me falta é uma ideia, você me dá. E quando eu preciso do seu silêncio e imensos ombros protetores, para tentar sanar todos os abraços que faltaram quando eu estava crescendo, você me abraça e afasta todas as sombras. Isso não é pouco. Só de pensar isso me dá vontade de voltar atrás, porque isso paga qualquer defeito que uma relação pode ter.

Só que não adianta falar isso, porque nós sabemos porque terminou, nós sabemos das nossas tentativas. E nesses meses tenho amado e odiado a sua presença, tenho desejado te ver longe e lamentado quando você se afasta. E eu sei que você tem vivido ambiguidade semelhante à minha. Posso dizer que me afastar de você é muito mais uma necessidade do que um desejo. Longe de você eu nunca quero estar, nem que seja apenas por pensamento, em ficar feliz sabendo que em algum lugar você ainda existe e está bem. Porque o que nós tivemos e o que nós temos nunca deixará de ser importante, nunca deixará de ser parte profunda de quem nós somos. Você foi e é a pessoa mais importante da minha vida, aquela a quem mais amei. E ainda amo.

Gourmet de gente

Tomas, do Insustentável Leveza do Ser – ou outro personagem do Kundera, não tenho certeza – tinha dormido com tantas mulheres que aquilo havia modificado o seu gosto. No começo, ele gostava das mulheres com aquele físico que consideramos perfeitos, as mulheres belas. Depois, isso lhe pareceu uniforme. Aí ele passou a ver as mulheres de outra forma, no que elas tinham de particular, de único, o que nem sempre coincidia com o que entendemos comumente como belo. De uma mulher, o belo poderia ser a maneira como ela arregalava os olhos durante o orgasmo, de outros a quantidade de sardas no busto, de outra uma pinta, etc. Quando li o argumento, achei perfeitamente coerente. Da minha parte, não entendo qual a graça de comprar Playboy hoje em dia. Quando esculpia, eu passei a procurar revistas para encontrar tipos e poses diferentes, e as Playboys recentes eram decepcionantes. Quando a mulher é convidada para posar lá, ela emagrece, contrata personal, colocar silicone e faz bigodinho de Hitler. Ficam todas iguais, só mudam as caras e as poses.

 

Há uma mulher que faz aula comigo que tem por volta dos seus quarenta, quase cinquenta anos. Ela tem um corpo bonito para a sua idade e o mantém à custa de vitaminas de clorofila, academia, alimentação regrada. É uma boa pessoa, mas ela me enche de tédio antes mesmo de começar a falar. Um dia conversávamos sobre bolinhas de queijo, sobre as coxinhas deliciosas que vendem lá perto, sobre uma fritada de frango que a outra fez e emporcalhou toda a cozinha, e a quarentona-dietética-conservada solta que ela não come fritura. Claro que ela não come fritura. Eu frequente academia durante anos, então ouvi durante anos tudo o que as mulheres com esse perfil fazem para se manter assim. Mal a conheço, mas juro que sou capaz de dizer que lojas ela gosta, o que faz nos fins de semana, como ela vota e qual sua opinião sobre o casamento gay. Ela não me diz nada novo, nunca, o que torna sua companhia muito sem graça.

Nós desenhamos nossas próprias constelações

Eu tentei ao máximo segurar a informação, pelo menos até a papelada ficar pronta. Mas aí o meu irmão me ligou, depois de tanto tempo, porque ele mesmo vai viajar e passar quem sabe até dois anos fora. E foi através da sua falta de jeito, do sua falta de palavras, de não saber o que me dizer, que me voltou a gravidade de tudo isso. Do quão grande e do quão incomum é passar por certas coisas sem contar com a ajuda da família. Poderia bater no peito e dizer – sem a ajuda de ninguém, mas isso não é verdade. Meus amigos, cada um do seu jeito, têm me ajudado muito. Até mesmo quem só me conhece através do blog e se deu ao trabalho de me escrever me ajudou muito.
Mas, olha, como eu mesma disse pra ele: já faz tanto tempo. Eu vejo que há uma maneira aguda de sofrer e eu escolhi a crônica. Foi uma decisão tão cozinhada, e depois de tomada tem sido tudo tão lento, que eu já sofri, dessofri, sofri de novo, cansei, me irritei, me conformei… Agora apenas é.
Tem sido o melhor possível, dentro das circunstâncias. Então, na verdade, eu só tenho encontrado motivos para agradecer.