Lições que aprendi vendo Acumuladores

O programa Acumuladores, do Discovery Home & Health (canal 55 da Net) é chocante e fascinante. Saber que é sobre pessoas que levam coisas demais para as suas casas não explica exatamente o que elas fazem. É uma quantidade de coisas muito maior do que o imaginavel, do que o aceitavel, e é difícil não sentir raiva ou nojo assistindo o programa. Ao mesmo tempo, nós nos identificamos com eles. Porque são gostos comuns levados ao extremo: tendência a guardar objetos bonitos, coisas que trazem lembranças ou que parece que serão úteis um dia; amor às promoções que estimula a levar coisas inúteis para casa; alguns têm muitos projetos pessoais, hobbies nunca concluídos, grandes planos sobre um dia que nunca chega. O resultado é:

Ver o programa me fez limpar a casa de uma maneira profunda como nunca tinha feito. E eu nem tinha tanta coisa assim. Ver o programa regularmente, seus exemplos chocantes, os vários tipos de acumuladores, me levou a aprender algumas coisas:


  • Menos é mais
A própria chamada do programa diz: “eles acham que são donos das suas as coisas, mas são as coisas que são donas deles”. Quando um Acumulador enfrenta a idéia de alguém tirar algo de sua casa, por mais simples e barato que seja, enfrenta uma grande angústia. Dá até raiva ver uma pessoa que afastou de si família e amigos, que mal consegue andar pela casa, que vive no meio de um depósito de lixo, e se recusa a abrir mão de uma revista velha, uma caneta.

Quanto menos coisas nós temos, são menos coisas que nos fazem falta, da qual precisaremos cuidar ou que nos farão sofrer. Livre é aquele que tem pouco e que pode substituir facilmente o que tem. Penso num andarilho, alguém que tem tudo o que precisa numa mochila. Ter pouco dá mais liberdade e mais mobilidade. A definição de quem você é não precisa estar fora, no que você tem.


  • Quando mais cedo você assumir o prejuízo, menor ele vai ser
Os Acumuladores costumam ter muitos projetos abandonados. Guardam móveis velhos, porque com uma camada de verniz ficariam novos; têm pilhas de lãs, porque tricotaram uma época e pode ser que um dia retomem; livros de receitas para o dia em que decidirem ter uma vida mais saudável, etc. Só que essas coisas ficam encostadas durantes anos, prejudicam suas vidas por ocupar espaço e por lembrar que aquilo ainda não foi feito.

Logo na primeira semana que vi o programa, me dei conta de que tinha nada menos do que um saco de gesso de 40kg há anos na minha área de serviço. Da época quando eu esculpia. Eu fui parando, meio sem querer parar e com a esperança de voltar. Por ser incapaz de dizer a mim mesma que não iria mais esculpir, aquele saco estava lá fora, sujando e ocupando espaço. Quando somos capazes de assumir que algo acabou, nos tornamos capazes de seguir adiante.


  • Deixe o passado para trás
Teve um caso de uma Acumuladora que vivia na casa que pertenceu à sua mãe, e várias coisas que estavam lá eram de parentes que já haviam morrido. Ou muitos casos de mães que faziam questão de guardar todos os brinquedos e roupinhas dos seus filhos. Ou pessoas que se tornaram Acumuladores após uma perda e jamais jogaram as coisas do ente querido fora. Elas tinham medo de jogar fora um objeto e a lembrança ligada a ele se perder.

Ainda tenho lutado para me livrar de um passado ancestral: os objetos chineses da minha família. Por mais bonitos que eles sejam, eles estão há três gerações se impondo sobre nós, ocupando espaços, determinando a maneira como devemos decorar as nossas casas. Guardar o passado impede colocar o presente dentro de casa. O espaço que temos na nossa casa – e na nossa vida – não é ilimitado. Dar valor demais ao passado é a mesma coisa que determinar que os outros digam o que é importante pra você.


  • Promoções, oportunidades e coisas belas sempre existirão
Alguns Acumuladores adoram brechós, outros compram antiguidades, quase todos não resistem às promoções e tem até quem vasculhe o lixo dos outros, em busca de coisas boas que foram jogadas fora. E sempre existe algo imperdível pelo caminho, que causa muito prazer ao ser adquirido. Mas ao chegar em casa…

Desde que comecei a ver esse programa e a limpar a minha casa, minha vontade de comprar diminuiu bastante. Porque tem sido uma luta tão grande jogar coisas fora, que antes de comprar me pergunto se ela não será mais um transtorno no fututo. Como vocês podem imaginar, minhas finanças têm agradecido. Nem tudo que é ótimo, lindo e útil precisa ser meu. Não será um bom negócio se for algo inútil. Hoje, contento-me em saber que as coisas existem, sem querer trazer pra dentro de casa.


  • Nada é valioso quando em excesso/ resolver o problema é lucro
Enquanto alguns Acumuladores têm a casa cheia de lixo, muitos deles exageraram em compras de coisas de valor. Roupas de marca ainda com etiquetas, jóias, objetos de arte. Mas mesmo no menor objeto, alguns deles se queixam de que investiram dinheiro e por isso não podem simplesmente jogar fora. Eles não se conformam com a idéia de terem gastado tanto dinheiro, de ter coisas tão valiosas e não terem o retorno correspondente.

Eu tinha essa atitude com as minhas esculturas e com os objetos chineses. Em comum, são coisas que eu acho que têm valor. O meu trabalho por ser bonito e os objetos chineses por serem raros. O problema é que nunca encontrei quem pagasse o que eles valem. E por não querer ter prejuízo, por não querer ser passada para trás, guardei tudo aqui em casa. Com o programa eu descobri que dentro de casa, cobertas e jogadas, essas coisas eram apenas bagunça. Ao invés de esperar um lucro que nunca chegará, o melhor é abrir mão e me libertar dessa obrigação.


  • Nenhuma decisão é pequena demais
Logo no início da terapia, é comum pedirem aos Acumuladores tomarem as decisões mais fáceis. Pegam papéis antigos, embalagens plásticas em número repetido, folhas secas no chão ou o que para nós é claramente lixo, e perguntam se eles podem jogar fora. Por incrível que pareça, alguns hesitam. Pedem para olhar tudo pra se certificar de que realmente não fará falta. Já com aqueles que se livram facilmente, a raiva é outra – Então por que não fez isso antes?

Quem não protela algumas decisões? Estou procurando ser racional e decidir logo algumas coisas que eu sabia que não ia guardar, mas de certa forma tinha pudor em jogar fora imediatamente: convites bonitos de eventos que já passaram, revistas promocionais, caixas e embalagens de presentes, objetos de decoração que não combinam com nada, roupas que comprei errado ou que por algum motivo eu não me sinto bem usando, etc. Porque se é difícil decidir isoladamente, vai ficar mais difícil ainda decidir isso no meio de uma pilha de coisas. Me poupa trabalho e uma futura bagunça. Também é uma forma de dizer a mim mesma que eu só mereço o melhor.
Anúncios

Iniciada

Por motivos que não lembro, estavamos lendo o currículo de uma mística. Nele, uma grande lista de iniciações – xamanismo, shiatsu, astrologia, fraternidade branca e tudo mais que existe. Meu irmão, sagaz como só ele, comentou: “Vai ser ruim assim, né? Iniciou tantas vezes, está sempre repetindo de ano?” Ela sem dúvida nunca havia pensado nisso, e se orgulhava em entrar em tudo quanto é coisa que tivesse um ritual, um título, que prometesse uma transformação. Como se fazer tudo isso a tornasse diferente dos outros. A quantidade de cursos depunha justamente o contrário, que é possível que ela nunca tenha aprendido nada..

Acho bonita a busca por uma mudança. Mas mesmo quando alguém deseja mudar, elas não são programaveis, não aparecem como a certeza da conclusão de um curso. Conheço quem perdeu ente querido e cultiva as mesmas teimosias e crenças de sempre. A dor e a velhice, por si só, nem sempre mudam as pessoas. Nem todos querem mudar, nem todos vêem motivos para isso, nem todas as partes são negociáveis. Já em outros casos, vidas podem ser transformadas das maneiras mais simples, até mesmo estúpidas. Há quem se sinta mudado depois de ter visto um filme. Lembro de uma história Zen, de um mestre que alcançou a iluminação no mercado. Foi quando o vendedor gritou “tudo aqui é da melhor qualidade”. Pras principais mudanças ninguém oferecerá um certificado. Algumas vezes, a própria pessoa nem se dá conta do que aconteceu com ela; anos mais tarde ela vai olhar para trás e entender que tudo começou ali. Mas quando o que está dentro muda, o de fora muda também.

Você pode entender isso de uma maneira mística, com tantas metáforas bonitas que existem sobre o assunto – flores que desabrocham, templos que se abrem, o som que surge do silêncio. Você pode entender de uma maneira sistêmica, que diz: estamos sempre em relação com o mundo, que é formado por vários elementos e é a soma deles. Quando um elemento muda, isso repercute no todo, que é obrigado a buscar uma nova harmonia. Místico ou não, o novo costuma ser belo…

A Coisa Mais Chata da Internet

Quando o Alessandro insistiu, por dois dias seguidos, que as pessoas deveriam ver o clipe de determinada música, era de manhã. No video dizia: “Oração – A Banda Mais Bonita da Cidade” (me recuso a dar o link), e eu a princípio não soube o que era o nome da música e o que era o nome da banda. O que eu achei interessante no clipe é que eles começam a descer escadas e pude perceber que ele foi gravado numa dessas casinhas de madeira polonesas. Não piso em uma desde que era criança, e isso me trouxe recordações. Quanto à música em si, achei chatinha e até mesmo constrangedora. Desculpem, mas eu achei. E nem estou falando da parte da penteadeira, e sim da pieguice mesmo. Mas, tudo bem, a música tinha uma energia boa e era de manhã. Parei de ver o clipe assim que eles sairam da casa polonesa e dei RT. Aí as pessoas passaram a dar mais e mais RT, de maneira que fui ver de novo. Vai que aparecia algo extraordinário e eu tinha perdido. Não encontrei até hoje.

À tarde, eu já odiava a música. Hoje, mais ou menos uma semana depois, tenho vontade de matar cada um que me vem com essa história de novo. Todos os curitibanos do meu Facebook compartilharam o clipe. As pessoas de outros estados também e até gente em outros países. Porque a internet tem disso, de ser muito fácil gostar de algo, divulgar, comprar uma causa. E cada um, como se fosse novidade, quis dividir isso com os amigos. Pra todo lado, todos os dias, alguém se encanta com essa mesma música e divulga como se fosse o primeiro. Foi igualzinho com a Susan Boyle. Eu, que na primeira vez que a vi chorei diante do micro, já não suportava mais o assunto quando ele foi parar na TV. E Oração nem foi pro Faustão – ainda.

Basta um clique, ou uma hastag, que todos viram revolucionários sem sair de casa. Uma curiosidade: eu percebi, no meu blog e no dos outros, que os comentários tendem a seguir a mesma linha adotada pelo primeiro comentário. E quando esse comentário é uma crítica, todos os outros seguem a mesma linha e a coisa vai crescendo até virar um bullying virtual. Se o post tiver fôlego, depois surgem os defensores do blogueiro. Na internet qualquer simpatia vira amor, que logo em seguida vira ódio, e depois fica uma briga entre pessoas que amam ou odeiam. A velocidade leva a esses extremos. Numa escala pequena, isso aconteceu quando critiquei um banner ateísta que o Milton achou legal; de maneira bem consciente, aconteceu com Duilio (até então desconhecido) ao se colocar contra a Clara Averbuck. A facilidade e a rapidez da internet têm contribuido com atitudes precipitadas, reações exageradas e ódios até difíceis de entender. Como meu pela Banda Blablablá.

Y baja las escaleras como quiere

Se tivessem me perguntando, quando eu tinha vinte anos, se eu gostaria de conhecer a América do Sul com uma mochila nas costas, teria adorado a idéia. Existe um senso comum, ou quem sabe um imaginário, que faz com que todo jovem tenha uma vontade romantica de conhecer o mundo em viagens de baixo orçamento. Normalmente essa vontade vai passando ao longo dos anos. O raro é alguém com quase quarenta anos te dizer que o emprego que tem é só pra conseguir visto, porque ainda não desistiu de conquistar a América. Essa pessoa é o meu irmão mais velho.

Nesse momento ele está em algum lugar no Peru ou na Bolívia. Além do turismo, a intenção dele é aprender a falar castellano pra uma futura estadia como ilegal nos EUA. Sabemos que ele ainda está vivo porque ele tem atualizado o blog que fez para contar da viagem. As postagens estão sempre atrasadas com relação ao que contam, ou seja, ele filtra e procura pintar o quadro mais aventureiro possível. Numa postagem recente, ele fala que a escolha de viajar sozinho às vezes é difícil, mas que ele não estava disposto a negociar destinos com um companheiro de viagem. Porque é o sonho dele e pronto. O blog fala de paisagens incríveis, mas também de ficar dias sem trocar de cueca porque o avião extraviou a mala, chegar num lugar e o taxista tentar lhe passar a perna, chegar no hostel e não ter quarto, aguentar mau cheiro e tudo quanto é tipo de desconforto.

Estava lendo isso domingo. Aqui, na Mansão dos Diurno, fez um lindo dia ensolarado, depois de tantos dias frios. O Luiz levou a Dúnia para passear duas vezes, aproveitando o bom tempo. Eu fiz iogurte e assei uns pães de queijo congelados. No sofá, eu e o Luiz vimos TV comendo nossos pães quentinhos. Nesse instante pensei no meu irmão e o quanto a minha realidade parece sem graça perto do que ele está vivendo. Mas eu não trocaria de lugar com ele por nada.

Cada uno es como es, cada quien es cada cual.

Pequenas invejas femininas

* De quem tira fotos legais. Basta apontar uma câmera pra mim que me torno a pessoa mais sem criatividade do mundo. Não sei onde colocar as mãos, que têm tendência a se esconderem. A pose de pé de sempre. Mesmo o sorriso de sempre fica artificial. Depois do sacrifício, corto 99 de 100 fotos que tiro. Quando vejo as fotos dos outros, descubro que tem como interagir com o ambiente, fazer caretas, abrir a boca, fazer gestos, e acho que aprendi a vou aplicar tudo na próxima vez. Aí me apontam uma câmera e acontece tudo de novo.

* De quem consegue andar de salto. Olha, eu até sei andar de salto. Em casamentos e ocasiões especiais, todas com carona e pisos regulares, ponho salto e fico alta e maravilhosa. Mas não sei como alguém pode fazer isso todo dia – meu pé incha, minha panturrilha dói, fico aflita porque é preciso muito esforço pra andar rápido, acho que vou me esborrachar. Quem usa saltos pode ficar poderosa em saias, vestidos e até mesmo numa calça jeans. Elas enfrentam ônibus e calçadas irregulares, acho incrível. A qualquer hora do dia, estão lá, mulheronas.

* De quem doma a própria juba. Minha sorte é que eu tenho cabelo liso. Porque ele faz o que quer. Da maneira que ele acorda, fica. Ao longo do dia vai mudando e assim fica também. Acho maravilhoso quem chega no final da tarde com aquele cabelo de quem acabou de sair do salão. O meu vai lentamente se transformando, ficando pra cima, e nunca sei o que me aguarda. Ou de quem se programa pra sair de cabelo solto na manhã seguinte e nada é capaz de mudar essa diretriz. Não sei se é pomada, pranchinha ou reza braba, só sei que comigo só funciona se o meu cabelo está curtíssimo.

* De quem é ruiva. Eu tive uma grande amiga ruiva. De vez em quando a gente entrava no bate papo da UOL (old times!) juntas, e começavamos a conversar com algum homem. Quando a conversa ficava boa, diziamos que estávamos em duas, uma morena e uma ruiva. Nem preciso dizer que os caras sempre falavam – ah, eu quero conversar com a ruiva! Eu não tinha nem tempo de tentar argumentar minhas outras qualidades. Agora que o tempo impôs a necessidade de pintar o cabelo com certa regularidade, eu fiquei ruiva durante um tempo. E não ouvi um único elogio. Também não me senti bem. Nasci apenas para invejá-las, pelo jeito.

Demasiado humano

Uma vez conheci um consultor importantão. Desses que aparecem em revistas, cuidam da conta das maiores empresas do país, onde os outros sonham em chegar. Como era de se esperar, ele ganhava muito bem e mal tinha tempo de gastar, porque vivia para o trabalho. Seu plano era, dali há poucos anos, se mudar para o nordeste e vender côco na praia. Assim como você, leitor, eu ouvi isso e entendi como aquelas coisas que a gente fala quando está de saco cheio. Mas ele falava isso à sério, já tinha tudo planejado. Ele queria mudar de vida, se livrar de todo aquele stress e vida consumista em que estava mergulhado. Ele queria ser um simples e pra isso nada melhor do que adotar uma profissão simples. Era uma idéia que escandalizava amigos e o separava de namoradas. Eu nunca me opus quando ele falava isso, por dois motivos: primeiro, eu não acreditava que ele seria capaz. Segundo, porque acho que essa associação de profissão simples é igual a vida simples é totalmente enganosa.

Um dos poucos atendimentos clínicos que eu fiz na minha vida foi com uma faxineira. Lembro que era desgastante atendê-la, porque ela falava muito e rápido. Acho que alguém havia dito a ela que na terapia a gente conta tudo o que nos aconteceu. Então ela sentava naquela cadeira e passava meia hora pra me descrever tudo o que tinha feito desde a última vez que nos encontramos. Só depois disso era possível começar. Eu, na mistura de arrogância e ingenuidade das classes abastadas, achava que alguém que trabalha como faxineira não têm muitos problemas no trabalho. Não como nós, pessoas que lidamos com questões importantes, que exigem escolaridade, responsabilidade, etc. Ela foi a primeira pessoa que me mostrou que nada é tão simples que não possa ser complicado: tinha quem usasse produto de limpeza demais, quem não colaborava ou se estendia demais no cafezinho, quem não fazia o combinado, quem criava intrigas, quem fugia do serviço e todas as outras confusões que trabalhar com pessoas pode causar.

Agora tem essa moça que faz flamenco comigo. Quando eu entrei, ela estava em alguma turma que não sei qual é. Sempre achei que era uma turma mais avançada. Eu a via de vez em quando, assistindo aula em diversos níveis. Até que este ano ela passou a fazer aula definitivamente no meu horário. Uma das coisas que eu sempre gostei no meu horário é que a minha aula acaba às vezes se misturando com a aula da turma seguinte, que é mais avançada. Então a gente dança e eles tocam castanholas, ou dançamos uma coreografia que pra eles é antiga e nós acabamos de aprender. Essa mesma turma às vezes se apresenta com a Companhia, porque já sabem muitas coreografias, possuem figurinos e tudo mais. Foi esse pessoal que eu fui ajudar quando teve a Mostra Paranaense de Dança. E o pessoal da Companhia tudo mundo conhece (alguns são nossos professores) e às vezes eles convidam as turmas mais avançadas para as apresentações. E quando a coisa é muito democrática, rola uma Sevillanas e todos os níveis podem dar as caras e dançar. Sempre por amor à arte, sem qualquer compromisso ou retorno financeiro.

Como eu ia dizendo, tem essa moça que faz flamenco comigo agora. Ela é muito boa e tem um baita sapateado – forte, claro, sonoro. Já eu vivo esquecendo de bater o pé no chão, faço tudo meio marcando. Eu gosto mesmo é dos braços e é com isso que tenho uma certa facilidade. Agora cada vez que se ouve falar de apresentação da Companhia, ou quando estávamos comentando a Mostra Paranaense, ou quando alguém vai dançar lá nos cafundós, minha mais nova colega de turma vem correndo me perguntar se eu dancei ou dançarei. Como se fossem me preferir a uma turma inteira, ou como se fossem me chamar em segredo para deixá-la de fora. Um verdadeiro inferno particular.

O Popular

Há uma crônica antiga do Veríssimo, no livro com o mesmo nome, chamada O Popular. É uma crítica, na verdade. Ele fala daquela figura, sempre no canto da foto e da história, com um embrulho na mão e assistindo aos fatos. Ele está assistindo a posse presidencial, ele está assistindo a manifestação, ele está assistindo os manifestantes apanhando da polícia. É um personagem que está e não está na história, se abstém enquanto outros realmente participam. Quem é esse misterioso personagem e o que carrega naquele embrulho? Nunca saberemos, porque “o dia em que pegarem um Popular para desvendarem um mistério, será inútil. Vão se enganar outra vez. O Popular verdadeiro estará atrás do preso, assistindo a tudo”.

Bem ou mal, eu me sinto O Popular. Fiz várias coisas e nenhuma delas me deu uma profissão. No máximo, posso me considerar uma iniciante de um par de coisas. E quando a gente inicia com uma idade atípica, não pode (ou já cansou de) ter muitos sonhos relativos a ser o fodão da área. Nesse sentido, sou a prodígio que não deu certo, porque eu sei que todos imaginavam que aos trinta eu teria construído. Isso acaba retirando a importância de muitas coisas – não preciso me preocupar em me vestir bem, não tenho colegas de trabalho ou chefes que possam puxar o meu tapete, não preciso projetar uma imagem de sucesso o tempo todo. No início, é desesperador. Hoje sinto como se fosse uma espécie de vida monástica.

Nunca serão

Conheço algumas pessoas que poderiam ser minhas amigas, ao que tudo indica. Reações que eu aprecio, gosto parecido com o meu, um bom senso de humor. Mas eu sei que elas nunca serão, por motivos que não têm necessariamente a ver conosco mas que nos afetam. Digamos que nossos caminhos se cruzaram da maneira errada. Uma delas casou com um ex-amigo, e hoje tenho certeza de que esse ex é porque ela pediu. Eu o conheci antes dela. Foi uma amizade que começou bacana, mas que no final me enchia o saco. Porque nada me afasta mais de alguém do que querer me fazer de psicóloga, criar uma dependência totalmente unilateral. Ele continuava legal, com os outros – a mim ele reservava a parte mais depressiva do seu ser. De tanto me procurar no MSN só pra se queixar da vida, eu deixei de usar o programa. Quando ele a conheceu e a coisa ficou séria, eu já tinha me afastado. Mas eu não sei o que ele lhe disse, que impressão passou da nossa amizade. Só sei que eles seguem a vida deles e eu a minha.

Outro caso é de uma que até parecia que seria minha amiga. Eu a conheci sabendo quem era, e sabendo que talvez ela não quisesse a minha companhia. Pra falar a verdade, eu a evitei. Sabia que era muito legal, muito sensível, divertida, bem humorada, sonhadora, com lindas e luminosas qualidades que a tornam uma pessoa muito querida. Mas eu, num passado muito distante, fiz parte da vida do irmão dela. Sou parte do passado negro (até eu me surpreendo em pensar isso), coisas que ele não pode assumir que fez. Eu era jovem, solteira, livre, estava vivendo e tentando ser feliz. É uma história que não me compromete de forma alguma. Mas da parte dele foi de um mau caratismo extremo, tanto que eu rompi relações e ele só diz que “não foi legal comigo”, sem ter coragem de contar o que fez. Num certo ponto de vista, sou até vítima. Mas apesar de tudo, é o irmão dela. Tudo ia bem entre nós duas, até que ela descobriu. Ninguém percebeu que ela percebeu, só eu. E agora, de pessoa querida, passei a ser… não sei, sei apenas ela não quer mais por perto.

Poderia dar outros exemplos. Da outra com quem eu competia, por um lugar de destaque no palco. Ela sempre foi preferida por méritos que eu não reconhecia. Embora eu nunca tivesse colocado a culpa nela, sei que não fui legal. Falei pelas costas, imitava a maneira como ela acelerava o tempo, ajudei o clima a ficar tão insuportável que eu mesma não aguentava. Poderia falar, também, de pessoas da minha família que parecem ser legais. Eu as mantenho longe justamente por serem da minha família. Família tem tantas implicações políticas, falatórios e pré-julgamentos que é simplesmente mais fácil colocar todos no mesmo grupo, o grupo das pessoas que sabem pouco ao meu respeito. Isso de admirar de longe já aconteceu com amigos de amigos, com ex-colegas, com pessoas que eu gostava e que estavam em alguma posição que eu não podia chegar perto. Existe um mundo de pessoas que foram cortadas sem que eu jamais tivesse a chance de conhecer.

Par

Digo pro Luiz que ele me lembra o Ross, do Friends, e ele se ofende. Diz que eu o estou chamando de bobão. Ele gosta mais de se ver como o Chandler. É, ele tem alguma coisa de Chandler, e sabe ser sarcástico e rápido como poucos. Mas eu o vejo muito mais como Ross, na maneira como ele é correto e doce. O Ross não é o meu (e acredito que o de quase ninguém) exemplo de homem perfeito; os homens que nos atraem na ficção são sempre os bad guys, os Dr House ferinos, instaveis e difíceis de compreender. Eu também não era lá muito disputada quando solteira. Sempre fui inteligente e culta, mas essas não são as qualidades (por mais que os homens adorem dizer que sim) mais importantes nas mulheres. Diria que me faltava um pouco mais de vestido, e entendam isso em todas as suas implicações. Um cara que lembra mais o Ross do que o Chandler e uma mulher com falta de vestido na personalidade um dia se encontraram e não se desgrudaram mais. Agora é fácil olhar e achar que somos partidões. Somos a versão amada e melhorada desse passado.

**

Eu estava conversando com o Alexandre, do Atelier Heroína. Ele me falava da grande emoção que foi ficar perto da Maria Bethânia. Eu dizendo que entendia o que ele dizia; quando as pessoas me perguntam que show de uma estrela internacional eu gostaria de ver, digo que meu sonho é simplesmente ir num show da Bethânia. A ouço desde criança, mas um belo dia a redescobri e descobri a artista imensa que ela é. E assim era a conversa, de fã com fã, até que o Alexandre virou pro Luiz perguntou se ele era fã da Bethânia também. Aí ele disse que não muito. Na verdade, ele é totalmente indiferente à Bethânia. Assim como o é à Maria Callas, Omara Portuondo, e à maioria dos sons, cores e formas que fazem meu coração vibrar. Se tivessemos nos escolhido pelo critério de gostos, como numa agência de casamento, jamais estariamos juntos. Nisso descubro que o gosto é um detalhe, muito menos importante que os hábitos – esses sim, temos muito parecidos. E na essência de tudo, a maneira profunda de gostar, de expressar as coisas, a necessidade de se sentir amado e amar. Isso não dá pra colocar por escrito, e é o que na verdade todos buscamos.

Lamentamos as moléstias…

Pra quem não sabe, o blogger ficou fora do ar. Apagou tudo o que foi escrito na quarta-feira, e depois disso ficamos (eu e quase todo mundo) sem conseguir postar. Não tinha publicado nada, mas havia um post enorme e pronto pra sair no Caminhando por Fora. Ainda olho pro arquivo vazio e dá vontade de, sei lá, chorar, me encher de chocolate e fazer compras. Mas eu sou adulta, madura, preocupada com peso e sem dinheiro, então não farei nada disso. Apenas me darei ao direito de não me preocupar com isso agora. Quando acalmar, tento escrever tudo de novo. Ou não.

Beijos a todos.

A louça

Eu e meu irmão sempre ajudamos em casa. Uma das nossas atribuições era lavar a louça. Ela a causa de grande parte das nossas brigas. Eu ficava muito impressionada ao almoçar na casa de minha tia, e espontaneamente a minha prima recolher os pratos começar a lavar. Assim, do nada. Ela e a irmã lavavam a louça sem qualquer ordem, sempre precisar de combinação. Quem estivesse mais descansada lavava. Lá em casa era uma guerra, onde quase tínhamos de montar uma planilha. Quando éramos bem crianças, um lavava e outro enxugava. Em comum, o fato de nós dois odiarmos essa tarefa. Eu gostava de lavar tudo depressa, nunca deixava o escorredor vazio. Já o meu irmão gostava de fazer isso enquanto via TV. Era muito estressante – ou ele deixava escorredor cheio de coisa, me impedindo de colocar mais coisas enquanto esperava os comerciais de um programa que nem estava vendo; ou eu brigava com ele, com o pano na mão, porque aquela louça já estava durando horas, por ser lavada aos poucos. Minha filosofia era a de me livrar e a dele era a de tentar tornar divertido. Quando crescemos, na tentativa de diminuirem as brigas, o sistema mudou: cada um lavava a louça alternadamente. Aí o stress era que ele gostava de deixar acumular, naquele ponto em que você passa a usar as xícaras de café pra beber água porque não tem mais copo. E eu era impedida de lavar rápido, porque era acusada de querer lavar pequenas louças e deixar as grandes para ele. “Era só ele lavar pequenas louças também, oras”. Mas não funcionava assim. Pra lavar louça, meu irmão fazia praticamente um ritual, que incluia um CD e se trancar na cozinha pra que ninguém trouxesse mais louça no período.

Lembro dessas coisas quando lavo a louça à noite, porque não gosto de deixar coisas sujas pra manhã seguinte. Ou quando vou à casa dele, e sempre tem mais louça na pia do que nos armários.

Darlene

Eu conheci a Darlene através da Flávia. Baixinha, gordinha, cabelo enrolado. Como se isso não bastasse, ela tem um bocão que fala alto, fala muito, fala palavrão – e abre um sorriso igualmente grande. Gostei dela imediatamente e nunca entendi como alguém tão divertido, alto astral e do bem podia se dizer satanista. Às vezes parece que eu inventei a Darlene, que ela é alguma personagem de Isabel Allende, daquelas mulheres maravilhosas, calorosas e latinas que só os livros da Allende têm. Já contei pra muita gente que estava passeando na Cripta da Sé com a Darlene, com uma guia, e que quando esbarrou em alguma coisa, só ouvi uma voz atrás de mim – Escada dos Infernos! Ou da vez que ela quase foi assaltada na Av. Paulista, por um negão gato, mas que se enfezou porque o celular era novinho e perseguiu o cara pela rua com um guarda-chuva. E que depois de se tocar do que fez, choramingou no telefone porque poderia ter se machucado. Essa é a Darlene, muito mais coração do que razão, uma mulher escândalo de tão carismática e espontânea.

Só que faz alguns anos que não vou a São Paulo. Um dia recebi um e-mail dela, convidando as pessoas para verem a luta que ela participaria. Disse que adoraria ir, que a envergonharia de tanto torcer e pedi para que ela me mandasse o link depois. Quando recebi o link, pensei – é fácil, a Darlene vai ser a baixinha, gordinha de cabelo enrolado. E quem disse? Quando abri o link, as duas moças estavam de cabelo preso, eram da mesma altura… e magérrimas. Senti como se estivesse longe há tempo demais, porque ela tinha começado a lutar e emagrecido uns trinta quilos. Eu jamais diria pra Darlene emagrecer e sei que a Flávia, o Elson e os outros amigos a amavam demais pra achar que ela precisava mudar alguma coisa. Mas ela emagreceu. O bonito é que ela não fez isso pra entrar num padrão Revista Nova, pra virar mocinha delicada, e sim porque combina com a sua nova vida e com o que ela gosta.

Agora tem um monte de fotos da Darlene por aí, mais magra, mais vaidosa, usando os lindos acessórios da Vudu (que também ficou muito mais estampada, epitelialmente falando, desde a última vez que a vi). Linda pra caralho, como ela mesma diria. Eu, daqui, morro de saudades e orgulho.

Beijo, Dar!

Ficar ou partir

Foi inesperado para mim tanta gente resistir à idéia de mudança quando eu falei da Sinned O´Connor. Falei de um corte de cabelo, de alguém que foi ícone e hoje não é. Fui criticada como se estivesse fazendo uma apologia à mudança radical, como regra. Que não estava entendendo que alguns cortes de cabelo são bonitos mesmo depois de vinte anos (jura?), que algumas pessoas são felizes com suas escolhas profissionais, que o fato de eu não ter sido não me dava o direito de julgar as pessoas conforme as minhas atitudes. Desde então tive vontade de escrever alguns posts sobre mudança e não escrevi. Porque vocês vão dizer que é apologia e etc. Desisti de falar disso, do mesmo modo que a gente desiste de argumentar com gente teimosa.

Independente da minha opinião ou da de vocês, tenho visto que mudar pode ofender num primeiro momento, mas pode também fazer com que no fundo as pessoas nos respeitem mais. Tem lugares que a gente é visto como pouco mais do que merda, né? Lugares em que a gente é aquela pessoa que está ali porque os outros deixam, mas está pra pegar as migalhas, pra fazer cafezinho, quase que por caridade. Digo isso pensando em alguns lugares onde dancei; mas vejo que vale pra relacionamentos também. Ninguém te respeita, ninguém dá nada por você. Não que as pessoas sejam malvadas, que te perseguem e fazem tudo pra te magoar; é que no contexto, nas distribuição dos papéis, aquele era o seu. Aí um dia você vai embora e por algum motivo os outros se ofendem. Não sei se se ofendem porque acham que faziam muito por você (!) ou se no fundo sabiam que você merecia mais e estavam sendo injustos. Nunca saberemos, ninguém confessa essas coisas. A questão é: continuar era ser tratado como nada e sair era ser ingrato.

Mas mesmo assim você vai. Conhece outras pessoas, outros lugares, vive coisas novas. Como o que aconteceu comigo, quando comecei a fazer flamenco. De maluca que insistia em dançar, passei a ser a pessoa certa no lugar certo. Quando reencontro pessoas de lugares onde dancei, elas percebem isso. Que eu não aceitei, lutei e consegui algo que elas nunca me dariam. Que estou feliz e sou valorizada onde estou. Tenho amigos que ficaram, e o tratamento cocô-do-cavalo-do-bandido continua pra eles. Mesmo o pior algoz sente mais respeito por quem luta do que por quem aceita.

Invenção genial

Nosso cachorro, o Flock, era quase um cachorro de rua. Ganhamos ele de herança, já adulto e com nome, da minha tia. Ele era um vira-lata bem poodle, preto e branco, e lindo nas minhas lembranças. De quase cachorro de madame na casa da minha tia, conosco ele passou a ter carrapatos pelo hábito de cavar buracos e deitar neles, provavelmente para ficar mais fresquinho. Cruzou com todas as cadelas que alcançou, e quase todos os vira-latas do condomínio tinham um pouco de Flock. Ele saía, ficava fora por períodos que podiam variar de algumas horas a dias. Voltava e não aguentava ficar muito tempo em casa. Começava a chorar e olhar desesperado para o portão. Nós não aguentavamos tanto sofrimento e o deixavamos ir.

Meu pai um dia teve uma idéia genial para impedir que o Flock saísse. Ele queria fazer com que o Flock, espontaneamente, passasse a ficar dentro de casa. Para isso, trabalharia com condicionamento. Ele desencapou um longo fio de cobre e ligou na tomada. A idéia era a seguinte: o Flock não perceberia o fio no chão. Pisaria nele, levaria um choque e recuaria na sua intenção de passar por ali. Depois que isso acontecesse algumas vezes, ele desenvolveria uma certa fobia pelo portão e passaria a ficar em casa. Parecia o plano perfeito.

Eu estava lá no teste final. O fio na tomada, desencapado, na frente do portão. Meu pai à postos e me pediu para abrir o portão para o Flock, que como sempre já estava louco para sair. Quando abri o portão, o cachorro simplesmente andou sem pisar no fio e foi embora.

Trocando de pele

Na maioria das vezes eu sei quando estou produzindo um grande texto. E sei que muitos de vocês continuam aqui na esperança de esbarrar num. Naqueles que a gente lê e fala UAU, e sente que sai da frente do computador diferente do que entrou. Nem que seja rápido demais para ser verdade, como nos filmes engajados que nos fazem sentir vontade de mudar o mundo. E sei que há muito não escrevo um texto desses. Pensei em muitos, mas eles simplesmente não encontram saída. Não estão maduros.

 

Há tempos não escrevo sobre isso e minha aversão por religiões pode dar a alguns a impressão de que sou atéia ou algo assim. Que desprezo filosofias orientais e supertições. Declaro aqui: não é verdade. Já tentei ser atéia, na época da faculdade, porque chega mais ou menos essa época da vida a gente acha que é científico e esclarecido ser ateu. Quando tentei dar as costas a tudo e ser atéia, descobri que não acreditar na existência de deus é fichinha. Deus é a parte mais simples. O problema é olhar para o mundo e achar que ele nos é indiferente, que cada coisa é resultado imediato apenas do que é lógico, aceitar as coisas tais como as vemos. Aí descobri que não sou e nunca poderia ser atéia. O meu mundo tem causas e efeitos desconhecidos, ele conspira em direções que eu não entendo. Tenho que me reconhecer como uma pessoa mística – a não ser que vocês ateus possam acreditar em feng shui.

 

Tenho me desfeito de muitas coisas. Fisicamente, doando muitas coisas e jogando fora. Vejo o programa Acumuladores e me horrorizo. Pelo exemplo negativo, tenho aprendido muitas coisas com eles. Aprendi que as coisas perdem totalmente o valor se estiverem paradas em casa, sem uso. E querer que alguém pague, querer ter o retorno financeiro, não querer abrir mão porque elas custam dinheiro não leva a parte alguma. Isso me ajudou a me desfazer de muitas das minhas esculturas, que ficavam aqui atravancando e agora estão adornando a casa de amigos e conhecidos. E tem mudado a minha forma de encarar a questão dos objetos chineses da minha família. E jogar as coisas fora tem dado tanto trabalho que tenho pensado muito antes de comprar. Pra vocês terem idéia, minha professora de flamenco foi para a Espanha e estava aceitando encomendas. Eu fui a única pessoa que não pediu nada.

 

Nessa minha maneira encantada de ver o mundo, o processo de jogar as coisas fora mexe com as minhas energias. Numa relação onde é difícil estabelecer o que é causa e o que é efeito, essas mudanças físicas estão em afinidade com mudanças psicológicas profundas e, quem sabe, com mudanças concretas na minha vida. Algumas coisas já estão acertadas, tem dia certo para acontecer. O impacto que terão nas minhas amizades, nos meus hábitos ou na maneira como vejo o mundo, não tenho como prever. A minha parte já estou fazendo, quietinha, raspando a pele antiga.

Casamento na chuva

O Luiz estava na faculdade. Ele e seu melhor amigo Carlos foram convidados pro casamento de uma colega que estava numa turma mais adiantada. Combinaram de ir juntos, porque foram os únicos da turma deles a serem convidados. O casamento numa igreja perto do Centro Cívico, sexta à noite. Só que naquele dia choveu muito, daquelas chuvas que quase não dá pra sair de casa: alagamentos, pessoas perdendo suas casas, ruas interditadas, etc. Mas era casamento, eles já tinham confirmado presença, dado presente, arranjado terno e todo aquele trabalho. Entre uma rua interditada aqui e um bueiro entupido ali, chegaram na igreja.

A cerimônia começou. Eles não conheciam nenhum dos convidados. O noivo entrou e eles também nunca tinham visto o sujeito na vida. Quando a noiva entrou, o Luiz comentou com o Carlos:

– Como a Mariana ficou diferente com esse cabelo e maquiagem, né?

A coisa foi indo, foi indo, até que o padre perguntou se Fulano aceitava Cibele como sua legitima esposa.

– Acho que a gente está no casamento errado…

– Eu também cheguei à essa conclusão quando o padre falou o nome da noiva. E agora, o que a gente faz?
– Acho que a gente fica até o fim da cerimônia, dá um beijo na noiva e volta mais tarde.

Não, eles não estavam na igreja, no dia da semana e nem no horário errado. Por causa da chuva, os casamentos estavam todos atrasados. O padre estava casando todo mundo o mais rápido que podia. No total, eles assistiram três casamentos aquela noite.