Quando é de noite

lua cheia

Eu soube que você está passando pela noite. Não deveria saber, mas sei. Você não me procurou, mas eu te amo e tenho vontade de dizer algo. Infelizmente não há nada muito sábio que possa ser dito, nenhum conselho permanente, nada que consiga diminuir o largo tempo que você tem pela frente. Quando me disseram que leva anos, achei pessimista, quis que retificassem e que, se fosse determinada na minha luta, em poucos meses seria possível estar nova em folha. Hoje acho importante dizer que leva anos, e que é até um otimismo: daqui há alguns meses, você já se sentirá melhor do que hoje – e pior do que depois de amanhã. Há um ponto em que o perigo de se matar passou, mas ainda não é propriamente felicidade. O animador de dizer que leva anos é isso, quero que você saiba que você vai achar que o estado de superação de um possível suicídio junto com a não-felicidade já é sinal, já é o seu novo eu. Ainda não é. Cada dia é uma luta. São quatro passos para frente, seguidos de três para trás, às vezes até quatro. Parece que está tudo bem e uma bobagem te joga de novo no chão. É a sensação de tentar cavar um túnel com uma colher. São passos tão pequenos seguidos de quedas tão grandes que parece impossível. Não é, só leva tempo.

Dos conselhos que ouvi, dois foram que eu deveria me manter o mais ocupada que pudesse e um fosse que eu sobrevivesse ao luto. SOBREVIVA AO LUTO. Ninguém nem entra no detalhe, ninguém pergunta muito o que aconteceu; nossa tragédia é sempre tão nossa, na porta que é trancada no final do dia e ninguém mais vai entrar, na luz que nós mesmos apagamos pela casa. O que poderia eu acrescentar, se a pior parte do caminho é inalienavelmente teu e solitário? Eu te diria que olhar pro céu ajuda. Sem perceber, nesse estado de espírito olhamos sempre pro chão. Obrigue-se a levantar a cabeça, olhe para as árvores e as fachadas das construções. Por algum mecanismo psicológico profundo, ajuda. Existem vários métodos, e na verdade você precisará descobrir e usar todos. Tem dias que você precisará andar. Dias que precisará gastar. Dias de comer doce. Dias de ver séries. Dê as compensações necessárias, se trate bem, não se exija demais. Apenas tenha o auto-controle necessário para não criar problemas ainda maiores. Cuide para não engravidar ninguém, pegar doenças venéreas, acabar com a saúde, perder o emprego, torrar as economias. De resto, é assim mesmo.

Não sei como os extrovertidos se sentem, mas na minha noite eu perco a capacidade de estar só. Ter que estar perto dos outros por não conseguir ficar em silêncio comigo mesma é o pior castigo que pode existir. Depois de um certo ponto, a dor não é mais chorável, ela é apenas um poço que deve ser evitado. Eu não sei se você a conhecia, a dor atávica maior do que o choro; sem dúvida agora conhece… Eu sei que você não antecipou que seria assim, achou que não teria importância – você é foda, nem queria mesmo, etc. Existem dores na vida que nos modificam para sempre e você nunca mais será o mesmo. O próprio esforço de se manter de pé e não descarrilar com a dor nos tornam diferentes. Agora é o momento, agora é o ponto zero. Sobreviva ao luto. Prepare a terra. Tenha fé nas sementes.

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Vida monástica

Monk

Eu tinha vontade de entrar num mosteiro quando eu era xóven. Escrevo isso e constato que realmente há uma sabedoria em desejos que temos quando muito jovens, embora na época não se tenha clareza do porquê acertamos. Eu responderia, antes, que era pela minha atração pela filosofia, mantras, devoção. Hoje eu penso que já sabia do quanto há algo bem inadaptado e inadaptável em mim. Minha vontade foi séria o suficiente para eu declarar isso a um amigo que, como é uma constante na minha vida, era bem mais velho do que eu. Ele me disse que se era realmente a solidão que eu amava, o que eu deveria fazer é ter uma vida comum. Num mosteiro, eu estaria sempre cercada de pessoas e hierarquia; já o homem comum, depois do expediente pode apenas sumir – ninguém sabe de ninguém, a não ser que ele se esforce pra tal, ninguém sente sua falta. Amargo e verdadeiro.

A grandeza de Saturno

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Há algumas semanas, recebi um e-mail, desses de spam que a gente se inscreve e depois se surpreende quando recebe a newsletter, falando que era um dia especial para louvar Saturno. Era bom para quem tem um Saturno fraco no mapa (o meu não é dos melhores), estivesse passando por um período de Saturno ou apenas quisesse melhorar sua relação com o planeta. Sugeria jejum, um mantra que eu procurei no youtube e achei bacana e ler os trechos de um livro chamado “A grandeza de Saturno”. Não sei se tem em português, achei em inglês (The Greatness of Saturn) num site com livros de graça. Vi muitos vídeos de astrólogos, védicos e ocidentais, falando do quanto a maturidade os fez gostar de Saturno, que o tal retorno de Saturno – que a astrologia védica chama de Sade Sati – não é nenhuma desgraça, que é só ser uma pessoa bacana e fazer tudo certo que Saturno te trata bem.

Como o livro é em inglês, estou levando muito tempo e consigo ler pouco por vez. Começa com a entrada de cada planeta, personificado com um Deus, e acho o desenho de cada um tão bonito que me dá até vontade de um dia fazer quadrinhos. Agora que eu cheguei na parte de Saturno propriamente dita. Um rei fala mal de Saturno. Saturno desce, indignado, e fala que ele estava justamente entrando na constelação de virgem, 12º casa contando a lua do rei, ou seja, o rei ia entrar em Sade Sati e experimentar sete anos e meio de provação e aprender a não desrespeitar os deuses. Poucos dias depois, o rei vai comprar um cavalo, que sai voando e abandona o rei numa floresta. Ele anda muito e vai parar numa cidade onde ninguém o conhece. É acolhido por um comerciante muito gentil, e a filha do comerciante resolve testar o rei (lembrem-se que ninguém sabe que ele é rei) pra ver se casa com ele. A moça entra num quarto todo perfumado e tenta seduzir o rei, que até dorme com a cabeça coberta com um travesseiro de tanto medo do que Saturno pode lhe aprontar. No meio da noite, um cisne sai dum quadro e come o colar de pérolas da moça. Na manhã seguinte, ela diz que o rei, além de impotente, é ladrão. Revistam o rei e, apesar de não encontrarem o colar com ele, ele tem as mãos e os pés cortados (!!!!) e passa os resto dos sete anos como pedinte. Na outra história, Saturno conta que fez mal ao seu próprio Guru, que lhe pediu pra reduzir o período de sete anos em algumas horas. Pra tentar escapar incólume do seu curto Sade Sati, o Guru/Rei foi tomar um banho inocente no rio e colheu dois melões no caminho. Enquanto isso, dão falta do filho dele e do filho do primeiro ministro, e quando o Guru/Rei retorna, abrem a mochila dele e os melões haviam se transformado na cabeça dos dois rapazes. O Guru/Rei é condenado à morte. A esposa, diante de tanta desgraça, decide se atirar numa pira funerária. Todo mundo não morre por questão de minutos, porque o Sade Sati acaba e Saturno desfaz tudo – as pessoas voltam a ver melões e os rapazes retornam, eles só tinham dado um passeio. E nas duas vezes Saturno diz: “só fiz isso porque você é orgulhoso”. Eu me pergunto: e quem não é? Se o objetivo do livro era não ter mais medo de Saturno, acho que não entrei bem no espírito…

Caso haja leitores influenciáveis aqui: Saturno governa outsiders, subalternos, idosos, pessoas em fragilidade social. Tratar bem estas pessoas é tratar bem os seus representantes na Terra. Alimentar e vestir quem precisa é ainda mais excelente. Alias, descobri que fazer caridade como “chantagem” com os céus, que eu jurava que tinha inventado, é uma recomendação constante dos astrólogos hindus. E, por favor, nada de falar mal de Saturno por aí. Vai que ele está passando justamente pela 12º casa da sua lua e…

Chuva de diamantes

diamantes

Apareceu no meu Facebook esta informação, curtinha:

Netuno é o planeta que fica mais longe do Sol, são 4.503.000.000 km de distância do astro rei. A cor azul não tem nada a ver com oceanos, mas com nuvens de gás. Em Netuno ocorrem chuvas de diamantes, a atmosfera densa e a pressão podem alterar a estrutura química dos gases, fazendo com que parte deles se transforme em diamantes. (Página “O Universo – 19 de julho de 2015)

Eu curti com um coração, mas assim que fiz achei inadequado. Certamente não chovem lindas pedrinhas minúsculas da Tiffany e sim os pedregulhos mais resistentes do universo. A pessoa morreria com uma pedrada daquelas, e a pedra nem ao menos estaria brilhante. De qualquer forma, é uma imagem bonita e daria um bom título de livro estilo Sidney Sheldon.

Achei que a imagem combina bem com o momento que estamos vivendo. Está chovendo diamantes sobre o Brasil. E este blog espera encerrar por aqui a participação política.

A imagem de chuva de diamantes me faz pensar também na resistência que tenho a receber conselhos. Além da falta de confiança no julgamento da maior parte das pessoas, me parece que elas se deixam levar muito pela imagem. Que romântico encontrar escondido. Que divertido fazer escândalo em festa. Que demais gastar todas as economias numa viagem de sonhos. Quando busco o conselho de alguém, não quero que ela veja a circunstância como entretenimento e sim como é que vou conviver com as consequências pro resto da vida.

Mas se a ciência provar o contrário

Eu já estive dos dois lados do conselhos e já vi de tudo. Pessoalmente, não gosto e muito raramente peço; tem os que são o contrário, que montam verdadeiras comissões, abrem a discussão com os colegas de trabalho, as amigas, o porteiro do prédio, quem quer que ouça. Mas se do meu lado, fico com fama de pessoa teimosa que não confia em ninguém por não pedir conselhos, eu notei que mesmo as pessoas que consultam todo mundo não são tão abertas assim. Tinha uma que tinha problemas recorrentes com o namorado sempre estranho, sempre com histórias que podiam ser tanto mal contadas como diferenças culturais, até que um dia ela veio me falar de versículos que abriu por acaso na Bíblia depois de perguntar a Deus. Os verculos apontariam para uma direção clara, que não era a que me parecia que os fatos apontavam, o que me colocou numa posição “oposta” a Deus. Da minha parte, não vejo diferença entre fazer isso com a Bíblia ou com outro livro qualquer, nem com querer consultar a tabela de planetas retrógrados, o que me pediram recentemente. A pessoa, que entende de astrologia por posts do Facebook, queria a ajuda dessa informação para saber se deveria dizer SIM a alguém que retornou à sua vida, numa lógica que nem eu entendi direito. Tanto a moça da Bíblia quanto a dos planetas retrógrados já sabiam o que queriam ouvir – a única coisa que aceitavam ouvir, na verdade.

Algumas recomendações

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Eu já ouvi falar que não se é mais jovem quando a gente olha pra um velho ciente de que vai ficar também. Antes disso, o que existe é um sentimento de juventude eterna e inabalável; lembro que eu dizia que acreditava na ciência, que até eu chegar à idade de decidir se faria reposição hormonal ou não, ela já não seria mais necessária. Talvez por já ter passado – ou alcançado – metade da régua da minha vida, hoje gosto da biografia olhada de trás para frente. Gosto de pensar em legado, no que fizemos com o que tínhamos. Como a Teoria do Fruto do Carvalho (o nome do livro é O código do ser), que diz que nossas experiências atendem a um anseio pré-existente, e não que somos moldados por ela. Ou, de uma maneira bem mais dura, quando Günter Grass, na sua autobiografia, se envergonha de ter sido da SS porque, quando jovem, aquilo representava apenas uma imagem de heroísmo e força; ele fez o que lhe pareceu conveniente sem pensar no peso que sua atitude geraria na consciência dele mesmo mais velho. A série Merlí (Netflix) também me fez pensar nessas questões, mas não avançarei nisso pra não dar spoiler – eu tenho uma teoria a respeito do fim dela, quem ouviu achou interessante. Tem o discurso de George Saunders sobre gentileza, que mandei pra tanta gente por ter me tocado de maneira praticamente religiosa.

O que me fez pensar em tudo isso foram as prateleiras vazias, porque as pessoas correram para comprar comida. Também cresci ouvindo falar que há muito não vivemos uma guerra, que ela molda o caráter. Deve ser verdade. É como a pessoa que, durante uma conversa sobre o efeito estufa, disse que se garantiu porque tem ar condicionado em todos os cômodos da casa. Lamento informar, mas ninguém conseguirá ser uma ilha fresquinha e bem alimentada em meio ao caos.

Aquilo

relacionamento abusivo

Teve uma onda muito rápida, nas redes sociais, de haver se tornado aquilo que mais detestava. As pessoas se detestaram por se perceber aquele que procura lugar pra sentar na balada, ler embalagens de alimentos, comprar produtos de limpeza, etc. Eu me perguntei o que eu me tornei e detesto. Sobre ser chata e não gostar de balada, sempre fui. O que eu me tornei e realmente me choca, é quando digo: veja bem, é um bom marido. Trabalhador, honesto, trata ela bem… Um lado meu sente vergonha e, ao mesmo tempo, digo com convicção. Quem sabe em mais dez anos eu diga que tudo bem o homem ter suas aventuras e que o importante é ser a oficial. Que horror. Em minha defesa: tenho visto absurdos demais. Relacionamentos abusivos, se for pra resumir num termo só. Um dos mais absurdos que ouvi na minha vida, poucos meses depois se transformou em convite de casamento e hoje rende lindas fotos no Instagram. Meu casamento, que era bacaninha, acabou antes. Pior que eu não acredito que aquela relação tenha melhorado, porque o que eu ouvi já era grave demais, e sim que eles vivem de aparência mesmo. Hoje eu sei que estar ao lado de alguém que te trate com carinho e respeito não é o básico de todo casamento. Ou que nem todo mundo consegue suportar o risco do espaço vazio, então aceita um qualquercoisa. Perto de um abusador, se ele é trabalhador, honesto e trata bem, tá bom.

A Gorda

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Ela odiava a ex do marido, e o sentimento era recíproco. As filhas adolescentes dele haviam ficado com a mãe, morando e do lado dela, e o ódio mútuo era tal que chegou a virar caso de polícia, com direito a B.O. Como ela odiava aquela criatura, a Gorda, como ela chamava. Que morresse, ela com as filhas, senão de colesterol alto, problema de circulação, embolia ou entupida com um chocolate, podia ser mesmo de acidente, câncer ou facada. Odiava a gorda, odiava, noite e dia. Um dia foi numa gira e o Preto Velho advertiu: ela rogava tanta praga na Gorda que uma hora ia pegar. E quem ficaria morando com as filhas dela em casa era ela. A partir de então, incluiu a Gorda nas suas orações.

Os conselhos

Acho que não tem mesmo jeito – apesar da História, estamos condenados a cometer sempre os mesmos erros, enquanto espécie, até a autodestruição. Como mudar os grandes fatos se somos incapazes de mudar nossas pequenas trajetórias individuais. Um exemplo muito concreto é a série da Elena Ferrante*, com personagens que abraçam erros que o leitor percebe e sofre capítulos antes de acontecer. Quantos erros não cometemos nós também nas nossas vidas, apesar de serem tão claros para os outros, os que tentaram nos alertar, geralmente mais velhos? Mas não, quando é com a gente é sempre diferente: “ele me ama de verdade”, “chegando lá vai dar tudo certo”, “é porque nunca tinha aparecido alguém como eu”. Um erro alertado e cometido mostra dois lados: a estupidez juvenil doida para fazer o que bem entende; que no dia que formos o lado maduro, também seremos ignoradas, taxadas de invejosas e praguentas. Aprender com os erros sem dúvida é melhor do que ficar preso nele, num looping infinito – mas não nos ajuda em nada a poupar os outros. Seres humanos são muito apegados ao seu direito inalienável de cometer cagadas. Tenho chegado à conclusão que a única alegria que a experiência nos dá é a possibilidade de puxar a cadeira e esperar com calma, porque sabemos que vai explodir.

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*Juro que ainda vai sair texto no Caminhando por Fora. Semana puxada…

[post deletado]

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Escrevi porque estava me incomodando. Porque acordei pensando, fiquei sensível, me levantei pensando, me doendo e escrevi. Escrevi e depois tirei a parte que usava um termo mais claro. Começava com um exemplo bem racional, colocava uma posição sobre o assunto e em seguida eu dizia que não dava, que por mais que soubesse a posição racional não era assim que estava por aqui dentro. Tinha desabafado. Não iam interpretar errado. Quem sabe nem chegasse lá. Se chegasse, ia ser por uma pessoa que gosta de mim e que não seria maldosa no resumo. E, mesmo se fosse, iriam conferir. Veriam aquele primeiro parágrafo racional, eu apaguei a palavra pesada. Não é uma empresa e um monte de gente maldosa, cobras, é outra relação. Não iam maldar. Ia continuar tudo bem, é o meu espaço. Todo mundo na mesma situação ficaria assim. Eu teria empatia. Depois de um dia inteiro meio doendo e olhar para o vazio, tive que sair, pedindo aos céus forças para fazer uma cara boa e fingir um bom humor que não era o meu no dia inteiro. Horas depois, cruzo a porta de casa, completamente outra. Post deletado. Pra quê. Como o Kibe me aconselhou uma vez e com uma sabedoria incrível: não deixe que percebam que você sentiu o golpe.

Melhor que filtro solar

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Ao contrário do que a gente pensava na época que o Bial eternizou a mensagem “Use filtro solar“, esse não é um conselho imperdível e acima de qualquer risco. Aqui em Curitiba, por exemplo, é muito comum as pessoas terem que fazer reposição de vitamina D por causa da falta de exposição ao sol e usar filtro solar é um desses fatores, porque o filtro solar bloqueia a absorção da vitamina. Se a pessoa está todinha com filtro ou se pega sol apenas pelo vidro (dirigindo, por exemplo), fica sem vitamina D. Tem umas linhas mais naturais que também dizem que ele faz mais mal do que bem, que o ideal é buscar alternativas mais naturais. Mas, enfim, o assunto não é esse.

Se eu fosse dar um conselho definitivo, como se fosse esse do filtro solar, ele seria: faça terapia. Uma amiga veio me falar de uma dificuldade num relacionamento, que gostava muito do sujeito e estava agindo praticamente ao contrário. Sonhava acordada com ele e frente a frente era tão durona que ele deve ter pensado que ela não é a fim. Mas quando ele ia embora, ela lamentava que não tivesse rolado nada… Eu me identifiquei muito, mas muito mesmo, no nível já fiz igual. Fiz? Quando parei pra pensar, me dei conta de que aquilo fazia parte de um passado distante, que não sou assim faz tempo. Foi só quando ela me falou aqui que me dei conta do tanto que eu caminhei. Ou, dito de outra forma: eu poderia ser assim até hoje. Sem saber, fazendo uma limpeza ali, revendo conceitos acolá, eu mudei.

Não sei dizer quanto tempo de terapia eu tenho, fiz muita terapia. Foram linhas diferentes, abordagens diferentes e com anos de intervalo. Embora, como tudo na vida, existam profissionais e profissionais, mesmo quando fraquinha o saldo costuma ser mais positivo do que negativo. Incluo também nessa lista outras atividades “bobas” – danças, vivências, grupos de apoio, conselhos de pessoas mais velhas, etc. Sou muito à favor de procurar ajuda. Tenho muitos amigos ateus, céticos até os ossos, então se pinta um termo suspeito do tipo “energia” eles já jogam tudo no lixo. Eu mesma tenho uma tendência a me tornar uma observadora cínica ao invés de me misturar. Hoje vejo que quem sai perdendo com isso é a gente. Querer fazer tudo sozinho é querer enfrentar a vida na raça, abrindo caminho no mato com um canivete suíço; a outra opção é gps, guia, estradas e quem sabe até pegar um avião.

Curtas de uma sabedoria rasteira

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Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

Curtas sobre comprar roupas

tc3aanisTenho uma amiga que acha que eu tenho “estilo”, e diz que gostaria que eu a acompanhasse quando ela fosse comprar roupas, para dar minha assessoria. Olha, se eu pudesse, eu não me levaria pra comprar roupas pra mim, quanto mais para os outros.

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Já disse que tenho temperamento TOC, então o que ela provavelmente chama de estilo são minhas obsessões – um código inconfesso de implicâncias que inviabilizam certas escolhas. Que o diga o meu ex, que costumava dormir no sofá das lojas quando eu precisava comprar jeans. Eu experimentava todos os modelos da loja  – 30, 40? – pra escolher uma. Isso se gostasse.

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Meu problema é que não compro mais ou menos, a roupa precisa me agradar em todos os itens. E com o passar dos anos, a lista só aumenta. Antes, bastava o tamanho estar certo. Agora tem que ter bom caimento, manifestar o meu eu mais interior, combinar como que eu tenho no guarda-roupa, ser atemporal, verde jamais, tem caber no orçamento, ser adequada à minha rotina, ficar bem no meu tipo físico…

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Levei muitos anos sem comprar tênis – e praticamente só uso tênis. Antes minha mãe comprava pra mim, o que era fácil porque bastava ela experimentar e comprar um número maior. Depois meu (ex)marido passou a comprar, porque minha capacidade de enxergar a beleza interior de um tênis despencando parece ser infinita. Há pouco decidi me livrar de um que eu amava, uma cópia de All Star de cano alto preto com franjinhas. Enquanto ele furou embaixo, o segredo era não usar nos dias de chuva. Agora começou a descolar da sola. Pena.

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Uma regra que procuro seguir, e talvez ela seja a minha única contribuição realmente valiosa em termos de moda: não ter no guarda-roupa peças que te embarassem de alguma forma. Se a roupa não cai lá muito bem, ou é meio breguinha, ou é feia mas tãããão confortável, o melhor é se livrar dela. Senão a gente usa. Comprei impulsivamente uma bolsa feita de calça jeans que está indo pra doação. Alias, já falei que também odeio comprar bolsa?

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Adoraria que não apenas comprassem tênis pra mim: meu ideal seria que me vestissem.

Um conselho sobre uma paixão no divã

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De acordo com ela, o psi se entregou porque numa sessão ela comentou de uma música obscura de uma banda mais obscura ainda, e na sessão seguinte ele citou uma outra música da mesma banda, o que mostrou que ele anotou, pesquisou em casa e também ouviu. Foi a demonstração que faltava para se convencer de que o psi estava interessado nela. O que eu faço, ela me perguntou. Eu tenho uma teoria sobre ser confidente (e, por consequência, conselheira): o bom confidente é aquele que não gosta de ouvir confidências. Nunca pergunto, e depois que sei, nunca me interesso em voltar ao assunto e nem ouvir o final da história. Eu não quero ouvir segredos e os segredos que pulam na minha frente. Mas já que fui colocada nessa posição, tive que perguntar se, caso sim, o que ela sentia por ele. Sua resposta foi um vago “ele é legal, bonitinho, a idade regula”. Meu conselho foi algo que hoje faz com que eu me sinta meio Violet Crawley, mas fez sentido pra ela, que me agradeceu e disse que foi mesmo a melhor escolha. Eu lhe disse: então não vá. Porque um cara legal e bonitinho pra ter um caso você encontra facilmente, já um bom psicólogo…

Devagarim

Tem toda razão quem me aconselha a entrar no Tinder. Toda. Concordo. Recomendo. Acho prático e razoável. Só não pra mim, não agora.

 

Poderia levantar vários motivos. Falar do quanto ainda me sinto desequilibrada. Da falta de paciência com as conversas-relatório inevitáveis. Da idade, da geração, da criação, da descrença, da resistência, de mil coisas. Do quanto sempre fui difícil sem querer por ser lenta. Dos tortuosos caminhos da atração física. Deixa pra lá. Acho que vou cansar e ainda beberei dessa água. Não agora.

Meu ideal é isto aqui, que uma amiga colocou em palavras pra mim:

– O legal é quando você frequenta o mesmo ambiente que a pessoa, por ter o mesmo círculo de amigos, por fazerem um curso juntos, alguma coisa que leve a encontros frequentes. Vocês se veem bastante, em vários contextos, em várias conversas, com a turma. Aí você vê o outro falar e fazer um monte de coisas, sem ter você como objetivo. E, aos poucos, um chama a atenção do outro e surge um interesse.

Peço muito?

É...