Você já notou…?

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Nós fomos tomar café, fizemos os nossos pedidos e antes mesmo de nos sentarmos na mesa ela me pediu desculpas, pois teria que buscar alguma coisa no carro. Eu me sentei com o meu café e o meu salgado, as coisas dela ficaram esfriando na mesa. Aí ele se sentou também, veio uma terceira em outra mesa, acabamos os três conversando um pouco. A terceira pessoa foi embora. Minha amiga voltou e olhou para ele. “Você já notou”, ela me perguntou, e estava querendo dizer “que ele fica me olhando” e eu respondi que sim, mas se ela realmente perguntasse eu lhe diria que ele a olha, e para mim, e acredito que para toda e qualquer fêmea que passa perto dele. Mas aparentemente ela julga que ele a olha exclusivamente. Então ela se sentou de uma maneira tão empinada e arrogante como nunca fez, de um jeito que eu jamais a havia visto fazer e nem seríamos amigas se aquilo fosse constante. Por entender que aquilo era para ele, eu me vi ali, muitas vezes também empinada e arrogante, indignada por aquele homem ter a ousadia de se interessar por mim, um desinteressante, sem chances, quem ele pensa que é e que eu sou. Senti vergonha.

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Os deuses estão vendo

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Meu ex era plastimodelista e montava modelos de uma escala bastante pequena. No seu imenso capricho, ele pintava detalhes ínfimos que mal se viam na ponta dos dedos, e quando montados num modelo pronto, menos ainda. E quando eu lhe disse que ninguém veria aquilo, ele já tinha uma resposta na ponta da língua: um tal escultor fez estátuas que ficavam no topo de um templo, lá no alto olhando para o púlpito. E para cada uma delas, ele fazia um ser de corpo inteiro, em todas as dimensões. Aí lhe falaram da inutilidade de esculpir aquelas figuras completas – já que estava ficariam no alto e de costas para a parede, não era mais prático fazer apenas a frente, já que o que tinha atrás ninguém veria mesmo? “Os deuses estão vendo”. A Suzi conta uma história que acho deliciosa e sempre quis contar, mas nunca achei as luzes piscantes o suficiente para dar o destaque que ela merece. Seu filho estava no colégio, os amiguinhos todos burlando as regras para conseguir alguma coisa. E ela disse para o seu filho não fazer aquilo, que o que os amiguinhos faziam era errado e que ele deveria fazer direito. “Mas se está todo mundo fazendo errado e só eu vou fazer direito, isso quer dizer que eu vou me dar mal sempre”. Ela teve que concordar que sim, ele faria certo porque era o certo e ele iria se dar mal sempre. Esses dois casos são, para mim, a essência mais pura da ética.

Menos impacto

Olho para trás e vejo que os documentários que mais me marcaram ultimamente – Muito além do peso, Escolarizando o mundo e agora The true cost – têm a ver com as mudanças radicais no nosso modo de vida causadas pelo capitalismo. E eu nada posso contra o capitalismo. Depois de ver The true cost, tive que passar no shopping porque tem um caixa eletrônico lá, e ver aquelas lojas, as roupas (52 coleções por ano!) e ter noção do que está acontecendo a todas as pessoas aqui (“Estamos cada vez mais pobres, mas não sentimos isso porque agora podemos comprar mais camisas”) e do outro lado do mundo (além da nada básica exploração financeira, temos degradação ambiental, epidemia de suicídio, gerações de crianças com problemas mentais e motores pela contaminação) é demais. Dá vontade de parar as pessoas na rua, gritar, quebrar uma vitrine, sei lá. Mas a gente não apenas não pode fazer isso como também não tem nem como evitar comprar numa dessas lojas. Eu lembro que quando saiu o anúncio de trabalho escravo na Zara, muitas pessoas (eu inclusive) se propuseram a não comprar mais lá. Algumas mantiveram a determinação mais tempo, outras menos, mas no fim todo mundo viu que se não for a Zara é outra loja de departamentos, ou até mesmo o camelô da esquina, porque não há mais roupas feitas sem algum tipo de exploração.

Os especialistas apontam que o problema é mudar todo sistema, e eu nada posso no sentido de mudar o sistema. Mas, ao mesmo tempo, acho que não podemos assumir a luta como perdida e não fazer nada. Eu tento aderir a umas causas, pra pelo menos não chafurdar alegre e cegamente em tudo o que me é oferecido. Idealmente, bom seria não ter que fazer nada que gere lucro, nada que contribua com algum tipo de destruição – mas aí eu seria reduzida à mendicância. Não sou ninguém, pro sistema me cuspir é muito fácil. Quando escrevi meu post sobre andar a pé, uma celebridade de internet me acusou de ser ecochata, que nem todo mundo pode viver uma vida sem carro. Eu concordo totalmente, nem todo mundo pode. Hoje eu não preciso, amanhã posso ter um emprego ou uma outra necessidade que me obrigue. Se viver sem carro começar a ficar prejudicial demais, fora de mão demais, terei. Então eu entro nas causas que eu posso, nas que eu consigo levar adiante. Outros pessoas, outras causas – o que é bom, porque se todos adotassem as mesmas duas ou três, como ficaria o resto? Andar a pé eu consigo, comida mais natural e orgânica não, porque sou lamentável na cozinha. Acho triste demais a obrigação que pesa sobre as mulheres de serem sempre jovens e magras, por isso escrevo sobre o assunto, replico links, vigio meus conceitos e minhas atitudes. O que me parece importante é tentar, nem que seja por pura obrigação moral com a outra ponta do nosso consumo.

Psis

Psicólogos são bichos orgulhosos. Eu não costumo tocar no assunto, mas também não me nego a falar a verdade quando surge esse assunto na mesa. Os de fora acabam percebendo que eu fiz psicologia, mas os psicólogos passam anos falando comigo e acham que apenas me interesso pela área ou que não consegui (aka não tive capacidade) me formar. No dia que sabem, que realizam que eu tenho a mesma formação que eles, estagiei, me formei e depois nem me dei ao trabalho de tirar o CRP (registro que permite exercer a profissão), eles ficam agressivos. Eles não aceitam que alguém possam largar uma profissão tão nobre. São psicólogos, então não ficam agressivos de maneira assumida. Num primeiro momento, eles querem que eu diga o porquê da minha escolha, e seja lá o que eu responda – me arrependi, não acredito na profissão, a vida quis assim, fui abduzida – eles a desvalorizam. Eu que não persisti, que não vi direito os sinais, que tomei uma decisão errada. Depois desse período inicial de negação, eles finalmente aquietam com o seguinte argumento: É, é que ser psicólogo não é pra qualquer um mesmo…

~o~

Depois da faculdade, acabei me afastando de uma colega bem chegada. Para mim foi algo mais do que natural, já que não fazíamos mais trabalho juntas e não frequentavamos os mesmos ambientes. Outro motivo importante, que eu não via como dizer, e que ela era extremamente católica, radical, do tipo que desrespeita e vê como inferior qualquer outro tipo de religiosidade, e isso para mim era demais. Tenho problemas com pessoas dogmáticas, ainda mais no sentido religioso. Para ela, me parece, o meu afastamento foi um corte inesperado. Eu ligava, ela reclamava que eu tinha “sumido uma semana inteira”, aí eu tinha cada vez menos vontade de ligar porque ao invés dela ficar feliz eu tinha que ouvir uma bronca. Era tanta DR que nós parecíamos um casal lésbico. Eu fui me afastando, me afastado, e uma vez ela me ligou no meu aniversário, depois de quase uma no. Eu justifiquei minha ausência dizendo que estava muito ocupada, fazendo outra faculdade, mestrado, academia, amigos… e ela, para tentar se mostrar compreensiva e superior só repetia:
– VOCÊ ESTÁ FELIZ? – seguido de uma longo discurso de psicóloga-compreensiva-que-vê-as-coisas-do-ponto-de-vista-do-outro.
Um dos motivos que me afastei da área: acho insuportável essa coisa de ser psicólogo full time. Difícil quem não caia nessa armadilha.

 ~o~

Tem quem se sinta atraído por psicólogas. Uma vez comecei a sair com um cara que me disse que tinha três ex-namoradas psi. Na hora achei pura coincidência, até que numa conversa ele me disse algo como “sempre quis andar de bicicleta quando era criança e os meus pais não deixaram, você acha que é por isso que eu blábláblá?”. Eu percebi que ele queria ser analisado, e naquela época já não era psi na minha alma, só não tinha certeza. Eu respondi com uma brincadeira qualquer, fingindo que não percebi a isca e ele não gostou. Claro que a história não durou quase nada. Tive um amigo no segundo grau que era apaixonado por mim e dizia que seria meu primeiro paciente quando eu me formasse, e ficou com esse discurso anos a fio. O que meu amigo não sabia é que era justamente sua vontade de ser meu paciente que me impedia de ter alguma coisa com ele. Ou eu cuido ou eu vejo como homem. Em outras palavras: tesão zero por quem depende de mim.
Eu sempre aviso que não gosto que elas me façam de terapeuta. Eu já percebi que quando a amizade vai por esse rumo, nunca mais sai. Tem uma história em particular que me dá muita raiva, cansei de ser feita de trouxa. Ao contrário do que meus colegas psi gostam de acreditar, devo ser boa nisso, porque basta eu me distrair pra nego querer chorar no meu ombro. Quando acontece, respiro fundo, ajudo e faço de tudo para que não se repita. Se repete, odeio a pessoa por isso. Se eu quisesse ser psi, cobraria e ganharia bem pra isso. Dos meus amigos eu quero amizade.

Economia

Minha mãe chegou a estudar um ano de Belas Artes, e nesse período ela adquiriu um lindo conjunto de estecas que passaram a ser minhas quando comecei a esculpir. Só que eu não as usava. No atelier tinha um material coletivo, umas estecas muito velhas, faltando, poucas opções. Então eu pegava uma ou duas com um tamanho meio bom e ficava com elas. Achava que assim estava poupando o meu valioso material. Se eu deixasse lá, mesmo com nome, era capaz de alguém usar. Elas poderiam estragar, elas ficariam sujas. Eu queria usar só quando não tivesse mais opção, ou quando fosse realmente importante. Depois de alguns anos, o professor se encheu daquilo e me disse com todas as letras pra usar o meu material, e deixar aquele para o atelier e alunos que precisassem. Só que eu não tive muito tempo: poucos meses depois, resolvi sair do atelier e fui trabalhar em casa. Em casa o meu trabalho não durou muito e acabei parando de esculpir. Minhas estecas estão aqui, novinhas e guardadas.
***
Algumas vezes, apaixonada, eu disse que o adorava. É raro os sentimentos entre as pessoas não serem recíprocos, ainda mais com algum grau de intimidade. Dá para notar pelo olhar, pela necessidade de estar juntos e ouvir a voz. Apesar de todos os sinais mostrarem que ele também me adorava, eu não ouvi. Ao invés de receber a minha enunciação como um presente – porque ser amado é um presente – a minha declaração gerou tudo menos felicidade. Eu havia me colocado em desvantagem: ela está apaixonada, ela está louca por mim, ela quer casar comigo, eu estou ganhando! Como se relacionamentos à dois fossem disputas. Às vezes imagino chegar ao coração de alguns homens como provas do Domingão do Faustão, passando por piscinas de lama, paredões de socos e plataformas altas da qual se tem que saltar. Enquanto a minha manifestação vinha fácil, a dele parecia sempre estar querendo mais e mais provas, mais tempo, mais confiança. Falei o que sentia quando sentia, e quando acabou para mim foi para sempre. O “eu também te adoro”, dele, que eu sei que existia, nunca foi pronunciado.

Batalhas

Depois da aula, eu comentei no meio de um monte de gente que dá pra sapatear de crocs. Comprei a crocs pra usar em casa (só em casa!) e um dos motivos é justamente poder praticar meus sapateados sem ter que ouvir reclamações dos vizinhos. Em qualquer horário que eu sapateasse, eles se incomodavam e batiam na parede. Qualquer horário mesmo, nem que fosse dez da manhã. Pra deixar claro que era comigo, ainda por cima imitavam o som que eu estava fazendo.

 

Uma colega do flamenco ficou indignada. Ela disse que ela não deixaria de fazer porque eles reclamavam, que bateria na parede deles no ritmo também. Foi uma conversa daquelas simples, mas que revelam muito sobre os envolvidos: ela, de temperamento forte, convicta dos seus direitos e não deixando barato. Eu, uma conciliadora.

 

Eu poderia ter explicado que cheguei até onde estou porque já fiz guerra por barulho e que senti na pele o quanto é bom cultivar um bom relacionamento com vizinhos. Do mesmo jeito que achei a atitude de cada uma diante da reclamação muito reveladora, fiquei certa de que ela teve a mesma impressão e me achou uma covarde. Quem sabe até seja. Minha percepção é que com os anos passei a selecionar mais as minhas batalhas. Tenho preferido não me incomodar a lutar por coisas que não me parecem importantes. Uma delas é reivindicar um direito que nem me é tão caro. Outra é me explicar pelo que possam pensar de mim.

Você vai se sujar

Eu realmente não sei o que a tal mulher esperava de um curso de Defesa Pessoal para Mulheres – táticas para convencer o agressor, dicas dos melhores tênis de corrida pra usar na hora de fugir? Porque foi só o instrutor começar a nos ensinar como e onde bater que ela se revoltou. Disse que era contra aquela cultura de violência, que violência não se combatia com violência, que bater numa pessoa tiraria a razão dela e a igualaria com o agressor, e ela não aceitava isso. As outras participantes – eu entre elas – ficaram olhando com cara de espanto, de alguém pagar caro por um curso e ficar contra as premissas básicas do mesmo logo nas primeiras horas. O instrutor foi obrigado a se posicionar, e lembro que ele começou assim:
– Se você está seguindo o seu caminho e alguém surge para te agredir, você tem que ter uma coisa bem clara na sua mente: você vai se sujar.

Quando algo ruim ou muito ruim acontece, dá vontade de ficar quieto e esperar passar. Pra ver se ignorando a situação ela vai embora, como se fosse um mero pesadelo. É uma tentativa de voltar ao estado anterior das coisas, ao que havíamos programado. O problema é que não há estágio anterior a se voltar. Algo ruim atravessou nosso caminho e sempre ficará registrado. A única coisa a ser feita é tentar tornar essa recordação menos dolorosa. As minhas piores lembranças são de coisas que eu deixei acontecer. Tento mudar minhas recordações e fazer de conta de que fiz algo, mas a mente não se convence. A certeza da covardia, taí uma idéia difícil de se conviver. Tolero bem pensar que fui imprevidente, exagerada, injusta, imatura, radical, escandalosa, vingativa, egoísta; não suporto pensar que não fiz nada. A concepção de vida que a vida tem me ensinado é de que ninguém é puro nesse mundo. As posições mais radicais e os idealismos sem concessões são sempre dos jovens, sempre dos que ainda fizeram muito pouco. Ou de quem viu a vida passar pela janela. Viver é um contínuo colocar os pés na lama, não se reconhecer nos seus atos e ter que reescrever o que um dia parecia correto.

Convite infeliz

Eu era monitora de uma matéria na faculdade e ele era meu aluno. Fui imediatamente com a cara ao ver que ele deu um jeito de falar de Star Trek no meio do relatório sobre o rato usado nas experiências. Não tínhamos amigos em comum e nem atração física; sempre que nos encontrávamos era divertido. Um dia disse pra ele que estava namorando sério e – surpresa – ele já tinha estagiado na empresa em que o Luiz trabalhava. Ele morava com a namorada.

Os anos se passaram eu o encontrava pela rua, com a namorada/esposa. Ela não era lá muito falante, mas fícavamos os três conversando alguns minutos onde quer que nos encontrassemos. Anos depois, ele não me reconheceu na academia apesar de continuar a receber e-mails meus regularmente. E foi na academia que ele cometeu o erro de me convidar pra festa de aniversário da mulher dele. Disse que ela não estava lá, mas que sem dúvida iria adorar a nossa presença. Ele sabia que eu e o Luiz detestamos ambientes de balada, mas insistiu, argumentou e jurou uma festa reservada, com pessoas interessantes interagindo. Fomos. E voltamos em tempo recorde.

Foi chato, não rolou interação nenhuma, mas tudo bem. O lugar estava barulhento, não dava pra conversar, gente feia e bêbada se comia com os olhos, mas tudo bem. Perdemos tempo, dinheiro e quase jogamos nossas roupas fora pelo fedor de cigarro, mas tudo bem. Insistir pra obter a presença em um local detestavel para o convidado não é legal, mas também não é imperdoável. O que matou nossa amizade foi a maneira como a aniversariante nos tratou. Não olhou na nossa cara, tirava fotos de todos menos de nós, deixou claro que odiou nossa presença. Ela nos tratou ostensivamente mal e até hoje eu não sei se ele notou. Um climão. Nós não temos culpa se a comunicação entre eles têm ruído.

Não adianta: casal é meio uma pessoa só. Não vou dizer como a mulher dos outros deve se portar. Hoje eu o encontro na rua e finjo que não vejo.

Confia em mim?

Eu não acredito que seja possível viver sem incomodar ou colocar os outros em xeque de alguma forma. Só se a pessoa dedicar toda sua energia ao politicamente correto – e provavelmente, o mundo a surpreenderá com uma intolerância que ela se imaginava à salvo. Em algum momento, algum dos nossos amigos se choca. O mais comum é quando a gente não se mostra entusiasta da própria família. Porque para quem teve uma infância-margarina geralmente não concebe que outras famílias não são assim. Pode ser também porque largamos uma bela profissão, recusamos a proposta dos sonhos, descasamos do partido perfeito…

Nesses momentos, acho um direito de cobrar um voto de confiança. Dependendo do passado, chega a ser crueldade exigir explicações para as atitudes incompreensíveis. Não considero amigo quem obriga a pessoa a trazer à luz todos os traumas, os desentendimentos e as dores que o levaram a tomar certas decisões, apenas decidir se os motivos são válidos. Tudo para matar a própria curiosidade, para descansar a cabeça na travesseiro.

Você confia em mim? Confia no meu julgamento sobre as coisas e as pessoas? Confia que eu avalio as coisas como são, que não saio ofendendo as pessoas por esporte, que não vejo as coisas de maneira maldosa? Se a resposta para essas perguntas é sim, porque não acreditar que eu tenho meus motivos ao rejeitar certas pessoas ou situações? Eu chamo isso de confiança – um dos pilares da amizade. Quem exige explicações, apesar de tudo o que eu sou, é porque não merece estar comigo.