Monges

monges

Estava muito tranquila, dando risada, vendo um vídeo que falava de sinais de ascetismo no mapa. Dando risada porque já conhecia os sinais mais conhecidos e não os tinha, mas conhecia gente que tem. Nem todos se tornam monges, o cara do vídeo esclareceu, e realmente nenhuma das pessoas se eu conheço se tornaram monges, apenas são bastante místicas. Aí e vídeo foi indo, foi indo e ele começou a descrever um, depois dois aspectos que eu tenho. Se forçar um pouco a barra, quem sabe até três ou quatro… Como se diz: quem procura acha.

Lembrei que a ideia de viver uma vida retirada me era tão atraente que eu vivia pesquisando mosteiros e cheguei inclusive, na adolescência, a me corresponder com convento. Eu só não prossegui com isso porque ouvi um argumento muito sólido de um namorado que eu tinha na época. Ele, ao contrário de mim, já era um adulto com emprego e contas. Ele me disse que nesses ambientes eu não teria paz, seria submetida a um monte de regras e que o convívio de poucas pessoas que não podem se desgrudar é infernal. Que se eu vivesse uma vida comum, do trabalho para casa, e ficasse no meu canto e cultivasse meus próprios hábitos, viveria uma vida realmente retirada, porque as pessoas não saberiam quase nada a meu respeito e não se importariam.

Ele tinha razão e acho triste.

Cuidado, vidro!

vidro

Mesmo que você nunca fique sabendo e nem seja responsabilizado, a ideia de alguém quase ter perdido a mão por tua culpa não é nada agradável, né? Pois os lixeiros vivem quase perdendo a mão por cortes de vidro mal acomodado, é a primeira causa mais importante de acidentes de trabalho entre eles. Pense: mão é super frágil, difícil de tratar, e o acidente acontece no meio de um monte de lixo – o problema do corte fica ainda maior com a infecção. A gente costuma pensar só no saquinho que seja forte o suficiente pra ele jogar no caminhão, mas na verdade a embalagem tem que proteger o vidro de maneira que, mesmo que ele quebre mais lá dentro, seja possível manusear livremente sem se machucar. Se puder colar um aviso, melhor ainda. Eles usam aquelas luvas mas não ajuda muito, basta ver a pressa e a maneira como eles pegam no lixo com tudo. Vai dar mais trabalho, eu sei, mas depois de saber disso a tua consciência nunca mais vai te deixar em paz…

(Ok, muito lindo, mas de onde é que eu tirei de comentar isso? Digamos que é da série “coisas boas que aprendi no meu casamento”).

Cor de quê?

cor de coco

Eu não entendo o estado civil dos meus vizinhos, às vezes me parecem casados, às vezes parecem viver na mesma casa. O ofurô que eles construíram junto ao nosso muro me faz ouvir mais do que gostaria, porque além de tudo os dois falam muito alto. Fui fazer um café e não consegui deixar de ser atraída pela expressão “cor de cocô”.

Ela: Não dá, olha essa cor de cocô, ninguém aguenta.

Seria o ofurô, precisava trocar a água?

Ela: Um serviço porco desses. Você tinha que procurar uma dentista melhor. Depois estranha que mulher nenhuma te quer. Olha a cor de cocô desse dente. A pessoa não se aproxima porque ela tem repulsa.

Silêncio. Eu mesma pus a mão no coração. Não se diz pra uma pessoa que qualquer parte do corpo dela lembra um cocô, a não ser que seja realmente o cocô.

Ele: Eu não vou encapar meus dentes, fazer um procedimento desses só…

Ela: A gente recebe o que tem. Olha o que você oferece. Você não se esforça e…

Ele: Ah, olha só quem vem me falar do que se oferece. Você só pode ter algum problema, onde se já viu uma mulher com o trato que você tem, que é tão grossa com as outras pessoas.

De fato.

Fez-se silêncio. Na minha cabeça, depois de uma conversa dessas, alguém faz as malas. Ele pediu para que ela lhe trouxesse uma toalha. Para fazer as malas, pensei. Pouco depois, ela murmurou alguma coisa.

Ele: Já disse que você está ótima. Isso daí não é gordura, é músculo.

Como eu disse, não entendo a relação dos meus vizinhos.

O trabalho de ficar e desficar

budista e niilista

Eu não entendia porquê adultos fugiam das conversas sérias, se era sabido que eram elas que limpavam as coisas. Do porquê ficavam iguais personagens de novela, alimentando mal entendidos enormes que seriam facilmente desfeitos se alguém fizesse uma pergunta objetiva. Não entendia por que deixavam de chorar e a resistência a chorar, se chorar era a melhor coisa da vida, desobstruía e dizem até que evita o câncer. Aí cheguei na idade adulta e descobri que depois de cada mergulho desses não existe um mundo melhor – o choro e o climão eram garantidos, a solução mágica muito rara. Descer no poço dos sentimentos profundos e dolorosos não tem escadinha na volta. É o problema de ficar e desficar. Chorar e se reconstituir, achar que a vida é uma merda e ter que tocar na merda mesmo, porque é o que tem. Sei lá como é ficar deprimido na Noruega. Eu aqui, brasileira, fico sem ter o que dizer pra mim e pros amigos – vai mudar, vai rolar, você merece? Não sei. Mantenham-se firmes, vivos e façam o máximo de esforço para serem felizes.

Um bom conselheiro

xamãs

Eu já estava no último ano de faculdade, fazendo atendimento em psicodrama, quando nosso supervisor nos mandou ler um livro que, logo no começo, dizia que a pessoa que tivesse um bom amigo para lhe aconselhar poderia ter ali a sua terapia. O trecho nos deixou indignadas, e eu e minhas colegas chegamos na reunião de orientação seguinte reclamando do autor. Meu orientador respondeu com muita naturalidade que estava certo, que se a pessoa tivesse realmente um amigo sensato com quem pudesse se aconselhar isso poderia já bastar. Dito de outra forma, o psicólogo é uma profissão que regulamenta amigos sensatos.

Temos terapeutas porque o mundo nos tirou círculos de acolhimento, rituais de passagem, xamãs, avós, pessoas sábias, sensibilidade aos ciclos da natureza, amigos sensatos. A faculdade é uma tentativa de transmitir o dom de ajudar o outro através de palavras, é algo técnico – como toda técnica, alguns usam com maestria e outros não. Um conselho simples na hora de procurar um terapeuta: ele não vai conseguir te ajudar se ele mesmo não tiver uma sabedoria. Algumas pessoas são “almas velhas” desde novas, outras são avós e parecem não ter aprendido nada. Faça você também seus testes, veja se ele te consegue ver o que não via antes, como você se sente na conversa – se invadido ou desvalorizado, a coisa não está indo bem. E às vezes o terapeuta consegue nos ajudar até certo ponto, ele também tem seus limites. Se o teu terapeuta não é alguém a quem você daria ouvidos normalmente, não é o diploma que vai fazer a coisa funcionar.

Lindos e adoráveis

Tem um ditado por aí que fala que só pode julgar que veste os seus sapatos e sente as dores da sua caminhada. A internet nos fez entrar numa época de intolerância e crueldade que talvez não seja possível sair; pra qualquer coisa que se escreva, é até esperado que surja um anônimo e te ofenda gratuitamente, por mais bem explicado e unanime que o conteúdo seja. Dois documentários que eu vi há poucas semanas me fizeram perceber que acompanhar uma história cria uma proximidade e empatias imediatas. Eu me vi amando, torcendo e me emocionando por pessoas que me eram totalmente indiferentes antes de apertar o play. (Netflix, ambas)

 

Luís Miguel, a série.

luis miguel

O cantor não nos é totalmente desconhecido, aqui La Barca fez muito sucesso. Mas Luís Miguel nunca foi para nós o que é para os mexicanos e outros países latinos. Neles, a audiência foi enlouquecedora e ele se tornou o artista mais procurado no Spotfy, apesar de não lançar nenhum sucesso há mais de uma década – isso sem falar dos inúmeros vídeos resgatados, teorias conspiratórias, programas de TV que pipocarão nas buscas que você certamente fará. Se fizer uma busca no material recente, hoje Luís Miguel é um cantor com jeito de tiozão que canta com um visual de Sinatra e uma arrogância indisfarçável. Você vai começar a série indiferente, descobrirá que ele sempre foi lindo, hetero, pegador, talentoso, fez sucesso desde criança, ganhou todos os prêmios, rios de dinheiro e terminará querendo que ele seja feliz. Mais: que nem é tão ruim levar a nossa vidinha de pessoa comum. Vou confessar que às vezes o ator da série é lindo que quando ele surge bem vestido, bronzeado, cenário deslumbrante e olha bem de pertinho com aquele rosto perfeito e olhar triste… e só dá vontade de dizer: Chato mesmo, mas… vamos?

 

Cheer

cheer

Eu não ia ver se não fosse a Quéroul. Pra mim cheerleader eram aquelas moças segurando pompom e que sempre são meio vilãs nos filmes adolescentes. Quando a gente começa a ver, se sente entrando num mundo louco americano tal como as crianças que disputam aqueles campeonatos de beleza. Algumas coisas são tão, tão deles, pro bem e pro mal: a capacidade de profissionalizar tudo, a competitividade, a determinação, os altos padrões, as ideias de superação. Pra usar a palavra da moda, eu tive vários “gatilhos” de coisas que vivi na dança, aquele velho problema de ter uma personalidade exuberante e saber se vender. O Dalarius representava pra mim todos aqueles super seguros que eu nunca consegui entender e muito menos alcançar. O pessoal cai e se machuca tão feio que chegou um momento que eu achei que não suportaria ver. Mas você vai entrando naquele mundo, vendo o quanto é importante para os envolvidos, o valor do grupo, o papel na trajetória de vida e, quando se dá conta, está torcendo pela Navarro desde criancinha.

Encontro noturno

-Boa noite, neném!

Eu poderia fazer tudo em silêncio, mas li uma vez um artigo que dizia que a voz do dono é muito importante para o cachorro. A Dúnia “acompanha” minha andança pela casa, recolhendo o lixo, a luz acessa da cozinha, então quando abro a porta ela já está à minha espera. De cachorro que se impacientava com qualquer tipo de dengo, agora ela fica entre os meus joelhos e rabo abanando enquanto falo com ela. Quanto tempo? Vai do quanto ela me aguenta. Neném, pretinha, bubu – quanto mais velha ela fica, mais bobos ficam os apelidos. Quando a Dúnia começa a se impacientar eu levo o lixo, tranco tudo e reabasteço os potinhos, enquanto ela me acompanha de longe e invariavelmente uiva de impaciência e bate as patinhas no chão. Eu uivo de volta. Sempre foi muito mais noturna do que diurna, e é neste nosso encontro que ela quer brincar. Ela se coloca no meio dos bambus e me aguarda, sabendo que lá ela fica protegida enquanto passo a mão pelo seu fuço e ameaço pegar suas patas. Quando eu a cerco e a derrubo, ganho a possibilidade de alisar os pelos da barriga. Mas às vezes ela apenas corre pra dentro da casinha e fica lá até eu ir embora. Para encerrar a visita noturna, ela ganha metade do remédio enfiado numa salsicha com muitas horas de antecedência, para deixar molinho e mais gostoso.

Sou ruim em datas, mas a Dúnia ja está com uns 16 anos. Cada noite assim é um presente.

dunia 11 Nov 2019

Os carros e o espaço

Já contei aqui que minha vizinha fica muito estressada com os carros que estacionam na frente. Entre os nossos terrenos não tem muito espaço; no espaço entre a garagem dela e a minha tem uma pequena faixa de terreno, e os carros que se estaciona na frente da casa dela inevitavelmente invadem um pouco a frente da minha casa. Eu não ligo, mas sei lá porque gostam mais de estacionar em frente à casa dela. A luta dela é pra que esses carros, que geralmente são da clínica que tem aqui perto, não a atrapalhem sair e entrar. Ninguém estaciona na frente da garagem, eles estacionam bem justo à garagem e ela precisa de um pouco de espaço pra fazer uma curva.  Há algum tempo a vizinha pintou um triângulo na rua, como um mini-canteiro, para os carros estacionarem mais pra frente. Acho que é até ilegal fazer isso, mas funcionou.

Quer dizer, funciona na maior parte do tempo. Eu estava em casa numa tarde quente qualquer, a ouvi buzinar como uma louca. Era um desses carros grandes e estava em cima do triangulo. Ela foi até a clínica, gritou da rua, a pessoa veio e puxou o carro um pouco para frente. Ainda ouvi a motorista dizer: “calma, tá tudo bem, feliz ano novo”. Mas lá se foi minha vizinha bufando, batendo a porta do carro e provavelmente amaldiçoando a clínica e todos os seus clientes.

Eu não dirijo e não sei o quanto aqueles carros dificultam ou não entrar em casa, só sei que eu não gostaria de viver assim.

Curtas da vida sob o capitalismo

você sente solidão

Comprei uma calça numa grande loja de departamentos no final do ano. Agora em janeiro passei lá de novo e a vi, no mesmo lugar e mesmas opções de cores, dez reais mais barata. Achei chato que tivessem baixado de preço depois que comprei e decidi olhar melhor. A calça dez reais mais barata tinha algumas diferenças sutis em relação a minha – ao invés de cordão que passa por toda cintura, só um cordão falso, ao invés de elástico na barra, uma costura simples. Ou seja, a loja estava vendendo uma versão mais barateira de si mesma.

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Estava esperando uma consulta e vi aquele programa que passa no início da tarde, na Globo. Chamaram uma dupla sertaneja. Os dois de preto, um deles cheio de botox. Perdi vê-los cantar, mas o vi responderem questões como “qual dessas músicas é mais cantada em karaokê”, “qual o grau de parentesco de Bruno e Marrone”. Eles saíram do palco, voltaram, aí teve uma prova de desembaralhar palavras na platéia. Estava achando tudo tão besta, aí me toquei que aquilo é trabalho para eles. Estar lá, com as roupas especiais, dublar a própria música, fazer de conta que tudo aquilo era muito excitante e sorrirem. Aí achei bem difícil.

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Eu estava numa aula de ciência política com aquele que era apenas o melhor professor da ciência política – quase estudei ciência política, até descobrir que o que eu gostava era da aula dele. Aí um dia, numa discussão qualquer, ele solta um “imagina se eu sou o tipo que frequenta academia”, com um nojinho de sou-intelectual-demais-para-culto-ao-corpo. De lá pra cá, nesses quase vinte anos, as academias se tornaram onipresentes e duvido que algum ser humano escape de ouvir do seu médico que é preciso frequentar uma. Tenho curiosidade para saber do reajuste que ele teve que fazer com seu orgulho. Será que ele faz musculação com cara blasé, para demonstrar que está lá SÓ porque faz bem pra saúde?

Orixá do ano

xango

-Tá sabendo que 2020 vai ser ano de Xangô?

-Não vi, não fui atrás. Vai?

-Parece que sim.

-Mas não foi ano de Xangô ano passado?

-Também achei que era.

– Pra mim já faz uns quatro anos que nós estamos em ano de Xangô.

-Onde é que se meteram os outros orixás que não assumem mais ano? Só dá Xangô. Podia ter um ano levinho, só pra variar um pouco.

Shiva e Parvati – outra versão 2

(Ah, só vai ter graça se você leu a primeira parte)

Eu acho que gosto mais da primeira versão porque Parvati precisa apenas que Shiva a reconheça – e, quando acontece, ele é um perfeito cavalheiro. Nesta, o que faltou não foi reconhecimento e sim vontade de reatar os laços. Pelo que andei lendo, Shiva estaria relutante porque sofreu demais quando Parvati/Sati, se suicidou e o deixou sozinho. A respeito disso, só posso dizer: quem nunca? Se até Shiva, que é Shiva, fica traumatizado depois de uma grande perda… Mas seguimos e lá vem o fim da história.

Quando Shiva abriu os olhos e terminou sua meditação, ele estava cercado de deuses, inclusive por Brahma e Vishnu. Eles lhe pediram para que aceitasse Parvati de volta, porque a meditação dela estava ameaçando destruir o universo inteiro, e ela não iria parar enquanto Shiva não a aceitasse de volta.

Shiva decidiu testar Parvati e apareceu diante dela disfarçado de um velho brâmane.

-O que seu coração deseja minha querida jovem yoguina, ao ponto de recorrer a mais severa meditação?

-Meu coração pertence à Shiva, minha respiração anseia por reencontrá-lo.

-Shiva? Aquele homem mal-humorado, feio e sem lar? Ele não tem nada para oferecer a uma garota como você. Ele vive nas florestas e nos cemitérios. Seus atendentes – Shivaganas – são criaturas horrorosas. Você, certamente, teria uma vida de sofrimento com ele. Mude de ideia. Ainda há tempo de você se salvar.

-É um pecado terrível disser tais coisas! E um grande pecado, até mesmo, ouvi-las!

Ela percebeu que poderia estar sendo desrespeitosa com o brâmane e lhe deu as costas, então ele segurou o seu braço e lhe pediu em casamento. Quando ela virou, ele já havia abandonado o disfarce e era novamente o seu amado Shiva. Mas os disfarces não acabaram por aí: quando foi pedir a mão de Parvati em casamento, Shiva apareceu diante dos pais dela como um dançarino. Himalaya disse que a filha estava realizando austeridades para se casar com Shiva, que não iria aceitar um dançarino de rua. O dançarino insistiu e Himalaya mandou seus guardas prendê-lo. Mas o dançarino brilhava como mil sóis, rodopiava, se tornava mais pesado do que as montanhas e ninguém conseguia capturá-lo.

Então, Himalaya, Mena, Parvati e todos os presentes entraram num estado de encantamento. Eles avistaram o Senhor Vishnu com sua concha, seu disco – chakra –, sua clava e a flor de lótus. Eles avistaram as quatro faces do sábio Senhor Brahma e também Shiva com seus três olhos, seu tridente e sua lua crescente. Então, eles presenciaram o universo inteiro brilhar ao redor do misterioso dançarino. Shiva – o Senhor de todos os deuses –, estava ali, no pátio, dançando feliz, enquanto pedia a Mena e ao Himalaya a mão de sua filha Parvati.”

 

shiva dancing

Retirado daqui e daqui.

Shiva e Parvati – outra versão 1

parvati offering water

A Igreja Católica teve, durante séculos, o monopólio sobre a narrativa cristã. Mesmo hoje, os movimentos cristãos usam a Bíblia que foi padronizada pela igreja católica. Durante muitos séculos existiram vários evangélicos, até que o Concílio de Niceia, em 365, começa a decidir quais deles seriam oficialmente reconhecidos. Houve muita disputa para decidir o que ficava dentro ou fora, e quem se interessar pelo assunto pode ler vários Evangélicos Apócrifos que têm por aí. Tem Jesus sapeca e usando seus poderes na infância, evangélico de Maria Madalena…

Com o hinduísmo isso não aconteceu e o fato de ser muito mais antigo faz com que haja várias versões para a mesma história, sem que nenhuma seja mais certa do que a outra. Eu coloquei a história de Shiva e Parvati da fonte que eu considerei mais pura (um perfil de um devoto, inteiramente dedicado a Shiva), digamos assim, mas durante a minha pesquisa achei esta outra versão. Ela é interessante também, por isso decidi contar:

Himalaya e Mena eram grandes devotos de Shiva e quando tiveram sua filha, pediram para que um sábio, Narada, lesse seu mapa. Ele predisse que ela se casaria com Shiva. Mas, como aquilo era possível se Shiva havia se tornado renunciado e não queria mais se casar?, quis saber Himalaya. Mas Narada garantiu que assim seria, que a filha dele era ninguém menos do que a deusa Adishakti, a eterna esposa de Shiva. Mais tarde, quando chegou a idade de Parvati se casar, os pais revelaram a ela as palavras do sábio.

Pai e filha foram até Shiva, que iria iniciar um novo ciclo de meditação e pediram para que Parvati pudesse servi-lo como criada. Shiva respondeu irritado que era um Yogui e não havia porquê que ele tentasse empurrar sua filha para ele, mas permitiu que Parvati o servisse. Himalaya ficou assustado, mas Parvati reconheceu seu esposo e continuou firme.

Ele prosseguiu com as suas meditações, sempre indiferente, e a dedicação de Parvati tocou o coração de todos os deuses. Kama, o deus do amor, tentou acertar Shiva com uma de suas flechas e Shiva o derreteu com seu terceiro olho. Parvati ficou inconsolável e perguntou a Narada o que fazer para conquistar o coração de Shiva. Ele recomendou que ela meditasse em seu nome, que entoasse o mantra Om Namah Shivaya com persistência. Ela era a consorte divina, não havia como não dar certo.

Parvati se despiu de todas as suas jóias, adotou um traje simples de algodão e foi meditar no mesmo local onde viu Shiva pela última vez. Ela acatou a vida de privações de um asceta; no primeiro ano comeu apenas frutas e no ano seguinte apenas folhas. No terceiro ano, água e ar, no quarto ano apenas ar. Ela permanecia sentada entoando Om Namah Shivaya, mesmo debaixo do sol abrasivo do verão, mesmo quando a neve cobria seu corpo. Seu estado de profunda meditação começou a acalmar os animais ao redor, e até mesmo os tigres perderam a ferocidade. Os animais vinham e se aninhavam silenciosamente aos seus pés. As flores surgiram em abundância, as árvores se encheram de frutos e a floresta se tornou um oasis. Ainda assim, Shiva não veio.

Os pais de Parvati pediram para que ela parasse, que tudo era inútil, e voltaram para casa desconsolados porque ela não desistia. Parvati voltou a se concentrar e cada célula do seu corpo começou a vibrar tão intensamente que o corpo dela começou a brilhar como uma lâmpada, depois a irradiar calor, até começar a ressecar tudo o que havia a sua volta. O calor chegou até a morada dos deuses, que também não suportariam aquele calor durante muito tempo.

(E agora, terra e céus queimarão porque Shiva se recusa a aceitar Parvati de volta? Descubram no próximo post.)

Curtas sobre palavras

overthinkingOsho dizia que não dá pra pegar um homem moderno, que passa o dia inteiro agitado, e simplesmente colocá-lo de pernas cruzadas e esperar que sua mente se aquiete. Por isso, as meditações dele eram dinâmicas, a pessoa passava a primeira metade falando sem parar, ou se movimentando, para só então ficar quieto. Eu lembro de no final da parte agitada da meditação (a única dele que fiz) estar totalmente cansada de mim mesma, achando minha voz chata e minhas palavras repetitivas. Não quero dizer nada, não decidi nada, mas tenho me sentido assim com o blog faz algum tempo.

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Escrever é muitas vezes um pensar em voz alta. Já vi muita gente ser idealizada porque escreve, e talvez eu só entenda que não é pra tanto porque escrevo também. Às vezes o texto, assim que saiu, se tornou coisa antiga para o autor – os problemas viram a luz do sol e se desfizeram dentro dele, se tornaram coisa do mundo.

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Acho que a maior realização de um autor deve ser um estranho pegar o seu livro numa livraria. Eu publicar me transformaria em fonte única – claro, numa editora eu também teria que me empenhar em vendê-lo, mas eu seria apenas uma parte do processo – e percebo que se pudesse nem queria estar por dentro. Eu detestava vernissage e sem dúvida detestaria lançamento. Não gosto da ideia de recair sobre meus amigos a responsabilidade de me ler, mais ainda do que vocês já leem aqui. Que os leitores do livro fossem outros.

Gratidão mas

… muito mais fácil falar em perdão se você foi pedra, e não vidraça. Que pessoa maravilhosa, que nunca pagou na mesma moeda, que nunca reagiu, que continuou sendo boa enquanto eu praticava gostosamente o meu pior lado, quando era filho da puta sem o menor motivo, quando a usava para manifestar todo meu machismo e raiva do mundo mesmo sem ela não ter nada a ver. Que coisa boa que é deixar o passado para trás e nos amarmos como família quando isso significa que cabe ao outro o trabalho de ignorar suas feridas e o meu apenas, quando muito, o de parar de ser uma pessoa horrível. Sejamos todos felizes uma ova, eu era muito novo uma ova, mensagens fofas de whats uma ova!

saudades

Shiva e Parvati

(Esta história fica ainda mais interessante se você ler a primeira parte)

As consortes dos deuses não são apenas esposas dos deuses, elas são polaridades; é a forma feminina do deus, a outra forma de si mesmo. Do mesmo modo que a encarnação de Shiva é muito especial, a da sua esposa também é. Outra particularidade é que os mesmos deuses aparecem com diferentes nomes; é que para nós são apenas nomes, mas na verdade são combinações de palavras que falam de atributos e remetem a histórias diferentes. Rudra/Shiva, se casou duas vezes, na primeira vez com Sati e depois com Parvati. Mas, na verdade, ele sempre se casou com a mesma Rudrani, sua consorte divina.

Rudra ficou inconformado com a morte de Sati. Se a vida mundana já não lhe interessava antes, passou a interessar menos ainda. Ele se retirou para as montanhas dos Himalaias em meditação e austeridade. Enquanto isso, Sati renasce, agora como Parvati, filha de Himavat, rei das montanhas, e sua esposa Menavati.

Parvati encontra Shiva, que continua em austeridade, e decide se casar com ele. Os pais sabem quem ele é e da grandeza e dificuldade daquele projeto. Parvati passa a subir a montanha diariamente e servi-lo, na esperança que ele a percebesse. Como parte da sua jornada para casar com o senhor Shiva, ela se despe de todos os luxos, passa a praticar yoga, deixa de comer, resiste a condições climáticas severas em meditação, entoa mantras. Nada parecia tocar o coração de Shiva, nem a interferência dos deus, e os pais de Parvati imploraram para ela desistir. Mas ela continuou e um dia Lord Shiva desperta da meditação e percebe a verdadeira essência de Parvati. Ele pede desculpas por fazê-la esperar tanto e vivem felizes para sempre. Como deuses, eles realmente conseguem ser felizes e para sempre.

(Está aqui, em vários posts diferentes)

mutual love

Feliz 2020, amigos! Que possamos ter os nossos esforços coroados com muita felicidade!