Cegueira e matemática

Tem uma música do Alejandro Sanz que eu adorava e que se tornou insuportável pra mim depois que fiz pesquisa e convivi com pessoas que perderam totalmente a visão. É esta aqui, Siempre es de noche:

A história da música é de uma conversa que ele teria visto, o moça descreve para o rapaz o mundo que ele não vê. Quando ela se afasta, ele pergunta para o observador, o Alejandro, num tom apaixonado, se ela é bela. Acho que já disse isso aqui uma vez, que essa pergunta é bastante comum, pelo menos entre aqueles que um dia foram videntes: como ela é, qual é o rosto, que impressão passa? É curiosidade pura, porque para tocar em alguém é preciso intimidade. Saber que a pergunta é comum retira todo romantismo que o Alejandro atribuiu… Mas o pior, pra mim, é o refrão: “o que eu não faria para contempla-la, ainda que fosse um só instante”.

Um exemplo, para depois voltar no Alejandro. Eu era muito CDF quando era criança, do tipo que já passava de ano no terceiro bimestre. Uma das poucas matérias que eu não ia tão bem era matemática. Aí quando entraram física e química no currículo, talvez porque naquela altura eu já estava em escola pública, meu desempenho caiu de uma maneira absurda. Eu senti como se de repente tivesse ficado retardada. Aquilo se tornou um tormento, eu tinha que colar e chutar o tempo todo, por mais que tentasse eu não conseguia entender. Nunca fui de decorar e aquelas fórmulas eram simplesmente impossíveis para mim, símbolos que não faziam sentido. Ao mesmo tempo, eu era apaixonada por trigonometria e logaritmos, gostava de fazer caminhos enormes só com o teorema de Pitágoras, resolvia logaritmos de cabeça enquanto andava até o colégio. Até hoje não sei o quanto eu teria me beneficiado por uma maneira diferente de ensinar matemáticas e afins ou eu estava destinada a ser pior do que os piores porque sou uma pessoa de humanas. Hoje uma das grandes invejas da minha vida é justamente esse tipo de raciocínio. Eu, que mal consigo fazer conta sem olhar para os dedos, se pudesse escolher teria uma mente matemática. Eu sei que para quem o possui o mundo é diferente, existe uma beleza subjacente, uma ordem. Quanto mais abstrato mais legal deve ser, meu deus, babo só de olhar aquelas fórmulas e imaginar o que se imagina para chegar até elas.

Existe um mundo cuja existência eu sei e não entendo, que é o mundo da matemática. Digo que tenho inveja mas, na verdade, é uma desejo bastante abstrato, porque como invejar algo que é tão longe de qualquer coisas que eu já vivi. Lembro que ele existe, penso que bom seria, mas estou bem aqui. Onde outra mente veria matemática, eu não vejo nada ou vejo outras coisas. É mais ou menos assim, acho, que um cego de nascença se sente com a pergunta se ele não sente falta de enxergar. Vários deles me disseram: NÃO, em si. Mais pelos outros, por saber que existe, por viver num mundo organizado assim. Ou seja, “o que eu não daria para contemplá-la blablablá” é coisa de vidente.

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Curtas de condições físicas

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Uma das minhas mais queridas ex-professora de balé foi morar fora e veio pra Curitiba há poucos dias. Ela fez uma publicação pra avisar de um big encontro,o aniversário dela, marcou um monte de gente, eu dentre eles. Ela é tão querida que cheguei cogitar aparecer, apesar de tudo: lugar público, barulhento, sozinha no meio de bailarinos. Penso que isso de ser tímido é quase como uma condição física que a gente se acostuma, como se fosse uma dor no joelho, daquelas limitações que os outros até sabem e ao mesmo tempo não até onde vai. Com o tempo a gente conhece o nosso próprio organismo, olha pra situação e diz: não, isso eu não dou conta, vai ser ruim.

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A série Atypical (Netflix) é toda uma gracinha. É a história de um adolescente com grau leve de autismo que quer arrumar uma namorada. Tem uma cena que o pai dele vai para o grupo de apoio. Ele todo fofo, interessado, falando que está feliz do filho dele estar bem, e é corrigido o tempo todo: “não dizemos melhorar, porque é uma condição física irreversível”, “ah, você quer dizer que as estratégias comportamentais dele estão eficientes”. Muito internet, muito grupos de bandeiras-legais-que-agem-de-maneira-nada-legal que vemos por aí. É perder o conteúdo em nome da forma. Não sejam essas pessoas.

 

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Aceitei a recomendação de uma vitamina C turbinada, para cansaço. Na bula diz: “para gerar energia, as células do organismo realizam várias reações químicas. Durante o processo (de geração de energia), as células liberam amônia, que é um produto tóxico para o organismo, incluindo o sistema nervoso central, desencadeando a fadiga. A arginina atua, transformando a amônia toxica em uréia que é eliminada pela urina, ajudando a combater a fadiga (cansaço) tanto física ou muscular quanto mental ou psíquica, causada pelo acúmulo de amônia no organismo”. Agora eu mijo cansaço.

Caos

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Chego em casa no início da noite, com um pouco de frio, porque saí de casa pouco depois do almoço e achei que conseguiria voltar mais cedo. A Dúnia me cumprimenta no portão, feliz de me ver, no amor incondicional que só um cachorro é capaz. É o segundo dia seguido que a deixo sem passeio e os cocô dela salpicam a parte de frente da casa. Encho o potinho de água, coloco os cadeados, pego o saco plástico que já fica com os ossinhos dela e procuro os cocôs sob a luz do poste. Deveria aproveitar para colocar a sacola de lixo reciclável para fora e decido deixar para depois. Meu telefone começa a apitar enlouquecido assim que entra na área do wi-fi e recebi e-mails, mensagens privadas, notificações do facebook e retuítes. Respondo tudo enquanto como o macarrão que estava na geladeira, vejo uma entrevista do Programa do Bial e depois de poucos minutos a adrenalina baixa e tudo na internet começa a me irritar, sinal inconfundível de que estou esgotada. Deito com as pernas pra cima, não sem antes me reprovar por fazer isso de barriga cheia. Sei que vou dormir e me deixo, na esperança de conseguir acordar nova. Acordo uma hora depois, ainda podre e decido que aquelas 21:30h pro meu organismo estão mais para 3h e vou dormir. Desligo o computador, tiro o som do celular. Quando me deito, ao contrário do que esperava, não apago, mas também estou cansada demais para abrir os olhos ou voltar a levantar. Na manhã seguinte levanto tarde, perco minha carona, a pia está tomada por panelas e pratos cheios de água, no tanque dois baldes cheios de roupas de molho por mais de 24h. Preciso tomar café apesar da louça, preciso pelo menos trocar aquela água se não tiver disposição para lavar a roupa, preciso organizar o que comprei no dia anterior, preciso sair de novo porque acordei atrasada. Acho que já perdi o caminhão do lixo reciclável. Poucos dias ocupada e cansada e minha vida é o próprio exemplo da entropia.

Incorreção

Hallellujah é uma das músicas do primeiro Shrek e foi a Anne, do Belos e Malvados, que me ensinou a gostar dela, na versão do Rufus. Ainda amo a versão do Rufus, ainda me parece a que alcançou a dose certa de doçura, sem ao mesmo tempo se derramar demais como nas muitas interpretações gospel que existem no youtube. Falando nisso, antes de entrar onde eu queria, me enfurecem que muitas dessas versões, além do tom excessivamente meloso, praticamente só mantém o Aleluia, porque “corrigem” a letra. Ao invés do Rei Davi em crise, da solidão e do estar quebrado, aquela louvação de sempre. (It’s not a cry that you hear at night, it’s not somebody who’s seen the light, it’s a cold and it’s a broken!) Deixaram o Cohen lisinho, correto e com a brancura do Omo! Quando conhecia a versão do Rufus tentei gostar do Cohen e não rolou, não gostei da voz, achei arrastado, achei brega. Há poucos dias parei no I´m your man e queria morder o homem, apertar as bochechas dele. Amo que ele seja tão tímido, judeu, desajeitado e incorreto. Por um mundo mais Cohen e menos (insira o ídolo teen-galã-rebolativo do momento).

(Lembrei que também gosto muito da feiura do Gonzaguinha. )

Você já notou…?

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Nós fomos tomar café, fizemos os nossos pedidos e antes mesmo de nos sentarmos na mesa ela me pediu desculpas, pois teria que buscar alguma coisa no carro. Eu me sentei com o meu café e o meu salgado, as coisas dela ficaram esfriando na mesa. Aí ele se sentou também, veio uma terceira em outra mesa, acabamos os três conversando um pouco. A terceira pessoa foi embora. Minha amiga voltou e olhou para ele. “Você já notou”, ela me perguntou, e estava querendo dizer “que ele fica me olhando” e eu respondi que sim, mas se ela realmente perguntasse eu lhe diria que ele a olha, e para mim, e acredito que para toda e qualquer fêmea que passa perto dele. Mas aparentemente ela julga que ele a olha exclusivamente. Então ela se sentou de uma maneira tão empinada e arrogante como nunca fez, de um jeito que eu jamais a havia visto fazer e nem seríamos amigas se aquilo fosse constante. Por entender que aquilo era para ele, eu me vi ali, muitas vezes também empinada e arrogante, indignada por aquele homem ter a ousadia de se interessar por mim, um desinteressante, sem chances, quem ele pensa que é e que eu sou. Senti vergonha.

Ovelhíssima

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Essa é uma da série das “Verdades que eu disse que não sei se fiz bem ou mal em dizer”. Ela se considerava ovelhíssima negra, daquelas que não se mobiliza nem com funeral. Deixou a família pra lá e foi viver bem longe e, como já disse antes, nem morte era capaz de arrancar dela um gesto de conciliação. Um dia ela estava me falando no quanto era um desgosto para seus pais, o quanto era má, o quanto…

– Na verdade você não é tanto assim. Você saiu de casa, teve família, filhos, vive sua vida, não depende deles pra nada. Eles devem olhar pra isso e pensar que, no fundo, não te fizeram tão mal. Filho que realmente faz mal é aquele que fica inútil, que não consegue sair de casa, não tem vida, não casa, não tem profissão, etc. Esse sim, com a sua presença, está sempre jogando na cara dos pais que eles fracassaram com ele.

Uma noite agradável

Eu estava com vontade de sair de casa de pijamas. Ou dentro de um saco gigantesco. Por pura vontade de estar confortável. Aí procurei a roupa mais confortável, folgada, à vontade, foda-se, tô nem aí possível. Ouvi que estava fashion, indiana e estilosa. E uma mulher quis saber quem corta meu cabelo.

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Não costumo tirar o celular da bolsa no terminal, principalmente à noite. Mas como resistir a uma cena destas. Não está fácil nem pra quem é urso de pelúcia gigante.

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Ao contrário das outras histórias sobre o Interbairros 2, a cobradora do último que eu peguei era tão legal, fiquei com vontade de me apresentar e virar amiga dela. Ela estava conversando com duas, sobre namorados. O dela, em dois minutos estava pronto para o combate, ele não se esquivava da ginástica laboral. Ela não imaginou chegar aos quarenta e nove tão satisfeita – e ela realmente tinha uma cara de gente feliz, a pele ótima, o cabelo loiro bem cuidado. Depois perguntou o signo dos namorados das amigas. “Leão é difícil chegar nesse estágio, Leão pega bastante no pé. Eu tive um namorado de Leão que não me deixava respirar”. Aí a amiga que tinha pedido pro motorista dizer onde ficava a rua Holanda porque estava indo na inauguração de um bar com karaokê, disse que estava numa fase de luto, que não suportava ficar em casa que começava a chorar, porque sua mãe morreu há pouco tempo e seis meses depois o pai foi junto. “É que um amor segue o outro. Quando o amor da pessoa morre, ela não tem mais o que fazer aqui e vai junto”. E do que ele tinha morrido? Aorta. “Isso é a desculpa. Na verdade, quando a pessoa está muito angustiada, o coração fica apertado e começa a bombear muito e prejudica as veias. Eu mesma, quando me separei…” Aí deu desci, uma pena!

Drosófilas e pelinhos

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Teve uma época que o meu irmão estudou drosófilas, aquelas mosquinhas que ficam em volta da banana. E ele disse que elas eram tão bonitinhas (!?), que cada uma era diferente da outra: que tinha mais pelo de um lado do que do outro, que os inúmeros olhos formavam padrões diferentes ou uma curva diferente nas asas. Isso me faz pensar que nada nunca é idêntico na natureza, nem mosquinha. Que se a gente vê como uniforme, é por falta de atenção ou pura limitação. Não é sempre diferente com neve, galhos de árvores, nuvens? Então como esperar que a humanidade fosse facilmente explicável, justo a humanidade? Logo nós que temos pelinhos, geometrias e asinhas internas tão complicados. Um mundo interior que não dá pra desenrolar nunca, e o próprio ato de tentar desenrolar vai dando ainda mais linha e gera espirais infinitas. É claro que o número de alternativas necessariamente seria maior do que o número de regras. E digo mais: os quebradores de regras não são eles, apenas eles, os esquisitos e os que têm prazer nisso. Mesmo para quem se propõe a andar sempre na linha, uma hora vai dar errado. O pelinho imprevisto vai tremelicar. Pode ser o racional que se pega baixando um Exu. Pode ser a religiosa pudica que vai parar no banheiro com um estranho. Pode ser funcionário ambicioso que tem piti justamente com o presidente da empresa. O machão que se descobre gay, a mãe que abandona os filhos, o arrivista que casa por interesse, são tantas possibilidades. De assassinato a roubar no troco. As rotas alternativas são tantas e de graus tão variáveis, que é certo que uma vez na vida se pratique algumas delas. A contabilidade de ser boa ou má pessoa é tão complicada que deve ser como “aquele que atingir no máximo 500″ – e a gente nunca sabe direito o que vale cada coisa. Dá pra aceitar o comportamento diferente pensando nas mosquinhas, que é tudo natural e que há uma beleza nisso. Mas se isso soar piegas, penso também numa coisa muito prática: já que todos vamos errar e de certa forma é impossível saber para que lado, é melhor viver num mundo com mais permissões do que proibições. Vai que o seu pelinho é justamente aquele que a sociedade entende que a encarnação do mal e merece morrer.

A alma quebrada

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Sapatos de flamenco custam uma fortuna e um dos motivos é por serem extremamente fortes. As chances de alguém que não seja profissional e tenha um sapateado fraco quebrarem o salto de um são mínimas – e foi exatamente o que eu fiz, há poucos dias, num dos meus ensaios. Na verdade, sentia o salto dele meio solto há anos, assim como o outro, mas achei que fosse normal. Já ouvi uma explicação engenheirística sobre as coisas muito sólidas serem menos resistentes do que as que trabalham um pouco, então achei que meu salto dar umas falhadas fosse pura tecnologia. Voltei no sapateiro e pedi pra ex-mulher do espanhol pra verem se era possível colocar uma trava no salto, igual sapatos de dança de salão. Horas mais tarde me ligaram dizendo que isso eles não fariam, mas me explicaram que dentro do sapato havia um ferro, cujo nome não guardei, que era a Alma do Sapato. O do meu estava quebrado e eles não apenas trocariam aquele ferro como poderiam colocar dois. Eu topei.

Três dias depois, fui buscar meus sapato de alma nova. Havia uma menina brincando no balcão e chamou a avó assim que eu entrei. Era a ex-mulher do espanhol. O engraçado que eu sempre a cumprimento com familiaridade e digo que sou a moça do sapato de flamenco, e ela se justifica dizendo que “atende tanta gente…” e só me reconhece quando vê o sapato. Ela me explicou de novo o lance da alma, que o meu sapato está ainda mais resistente do que era antes, que nos fizeram um preço bom porque já sou cliente. Enquanto isso, ela foi corrigindo a neta: aquilo não era uma bola, era parte de uma câmera de segurança, que parasse de brincar com aquilo, pegasse umas canetinhas e papel. A vida era daquele jeito, tinha que ter responsabilidade. A menina apoiou as mãos no balcão e ficou observando nossa conversa, e quando a mulher tirou um adesivo de dentro do sapato – pelo jeito é por ali que se tem acesso à alma – a menina quis tirar e ela não deixou, porque aquilo era assunto sério, era trabalho.

Quando eu já estava pra ir embora, ela me perguntou se flamenco era uma boa atividade física. Tomei o ar para responder e ela completou: “é porque eu detesto academia, exercício, essas coisas. Eu tenho trauma, eu sofri bullying de uma professora no colégio quando era deste tamanho”. Me contou das humilhações, de ter que saltar de uma corda e ter medo, ser a primeira a ser chamada para que todo mundo viesse, de não ter nem sete anos e ser chamada de monga, que nem jogos olímpicos ela conseguia gostar de assistir, que um filho dela também ficou traumatizado com educação física, que ela ensinava a menina e os netos a respeitarem os outros, sempre, tratar bem o professor, apagar o quadro, arrumar a mesa dele, que tem que ser educado, mas também ensinava a se proteger, a dizer que não merece ser tratado desse jeito, dizer que vai chamar a mãe ou a vovó, que um policial ensinou na TV que não se deve apenas ensinar as crianças a não falarem com estranhos mas também a terem cuidados com os conhecidos, que não se divulga mas a cada hora três crianças são sequestradas, que se instruiu mal as crianças, uma palavra que você ensine para elas faz toda diferença, que… Aí entrou uma cliente e ela parou a conversa e me largou como se nada fosse. Antes de sair, eu falei:

– Sobre aquela pergunta que você me fez, a resposta é Sim.

Capela Sistina

Hoje em dia se vai na Capela Sistina pra olhar o teto, mas quando Michelangelo recebeu a encomenda, ele não ficou nada feliz. Ficou ofendido, na verdade. Os maiores pintores da época foram convidados para preencher as paredes e quando chega a vez dele, tem que pintar justamente o pior lugar, sem importância, o que ninguém olha.

Vi por causa de outros umas fotos do Festival de Joinville e tinha lá a do cara que deu um curso longo que fiz e que no final a gente montava um espetáculo. Nem vou resgatar. Meus amigos me disseram na época que ficavam divididos com meus textos de dança, que eram agridoces. E eram. Foi naquele curso que eu descobri que o pessoal que dança à sério mesmo não é legal, que eles concorrem e se matam como em qualquer outra área. Vejo que é uma ilusão comum pra quem é diletante, achar que quem trabalha com arte respira ares superiores e o convívio é bom. Que nada, os meios artísticos no geral são os mais duros, onde a vaidade fala mais alto.

Começar a dançar pra mim foi nunca mais ser preferida, nunca mais ser a melhor, nunca mais ser considerada promissora. Mas me dá um prazer tão imenso e essencial, é como ler com o corpo. Depois de ver todo mundo fazer solo, finalmente chegou a minha vez e escolhi uma coreografia de nível mais básico, pra ser fácil e chegar no palco à vontade. Péssima decisão: não me lembrava nada e foi como se tivesse me proposto a aprender uma coreografia nova em duas semanas. Tenho ensaiado tanto que em mim tudo dói, minha casa está uma bagunça e me arrasto entre os compromissos. Mas! Coloquei uns detalhes muito legais nela, umas coisas muito minhas e muito soltas, porque uma das poucas coisas que aprendi na vida depois de uma série de pancadas foi a me levar um pouquinho menos a sério. Acho que vai ser bom. Tô querendo fazer desse solo meu momento Capela Sistina.

Curtas do mesmo que seja eu

Adoro a história do Erasmo Carlos contando que não sabia que sua música era um hino gay até ser convidado para cantar no presídio feminino. Quando chegou no “você precisa de um homem pra chamar de seu”, a platéia foi abaixo.

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Lembro de uma amiga, que começou a namorar um estrangeiro mais de dez anos mais novo. Ele estava no Brasil há pouco tempo. Ela: “se não fosse o fato dele ser imigrante, se ele estivesse aqui há mais tempo, se estivesse numa situação melhor, se tivesse mais amigos…” todos os senões diziam a ela que ele não a teria escolhido. Mas quando a gente está tinindo na vida, por cima da carne seca, com todos os melhores candidatos à volta? Ela, por acaso, estava? Os dois hoje estão casados.

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Quem dança flamenco geralmente sonha em ir pra Espanha, e ocasionalmente até vai. E descobrem que os espanhóis não estão doidos para empregar estrangeiros para dançar a dança deles. Que lá a concorrência é feroz, que ser excelente é o básico. Mas aqui no Brasil não é assim – sou dedicada, mas também sei que comecei tarde, tenho um sapateado mequetrefe e tal. Mas é isso aí, flamenco brasileiro, é o que vocês têm pra agora. Na geração seguinte vocês poderão ser mais exigentes.

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Livros. Um dos sintomas que tenho quando um autor é muito bom é a vontade de parar de escrever. Pra ele é fácil e tudo sai maravilhoso, que graça eu, etc. O último é o Amoz Ós. Mas aí venho pro blog.

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Menos e mais

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Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

Amor sem a pobreza de usar a palavra Amor

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Toda forma de arte com um propósito definido acaba se tornando pobre. Tenho sentimentos religiosos com livros, raios de sol, ar puro, café quentinho, acariciando o pelo da Dúnia… se deixar até mesmo no ônibus ou escolhendo legumes, mas nunca, jamais, ao ouvir uma música gospel. Uma música ou forma de arte com propósitos claramente moralistas. Percebo a mensagem e minha inteligência se ofende porque dão a pergunta, a resposta e ainda por cima me descrevem as etapas. A boa literatura sabe faz tempo: a melhor forma de falar de um sentimento é transportar a pessoa para lá.

Shmuel olhou para ele e descobriu naqueles momentos o quanto seu rosto monolítico – um rosto cujo escultor tivesse desistido dele no meio do trabalho de esculpi-lo, com o queixo afilado se projetando à frente e o bigode grisalho e desgrenhado – de repente lhe era caro. A feiura do velho lhe parecia uma feiura atraente, cativante, uma feiura tão marcante que era quase uma espécie de beleza. Foi tomado de uma imensa vontade de tentar consolá-lo. Não de fazê-lo esquecer sua dor, mas, ao contrário, tomá-la para si, de arrastar com força para si mesmo algo dessa dor. A grande e sulcada mão do velho homem estava pousada sobre o cobertor, e Shmuel, delicadamente, hesitantemente, pôs sobre ela a sua mão. Os dedos de Guershom Wald eram grandes e quentes e circundaram, como num abraço, a mão fria de Shmuel. Por alguns instantes a mão do velho abraçou os dedos do rapaz.

Amós Oz/ Judas, 36.

Curtas sobre e com eles

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Meu amigo Alessandro recebeu no Sarahah que é muito mais interessante por escrito do que pessoalmente. O que posso dizer a respeito disso, se fosse pra mim: assim espero.

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Meu irmão era o mestre em não brigar. Eu me aborrecia com ele e ele simplesmente não brigava. Reagia como se estivesse bem, porque se pra ele estava, então estava. Tenta ficar irritado com alguém que está de boas pra você ver, é muito difícil.

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Os problemas que tive com aparelho serem foram na terceira semana. Só que quando tento marcar consulta extra é sempre tão difícil e cai poucos dias antes da manutenção, que desisti e me aguento. Desta vez, o dente entortou, a mola passou por cima do arco, elástico saiu, eu ficava ajeitando com o dedo, feia a coisa.

-Você não faz ideia da surpresa que eu e meu aparelho temos para você esse mês.

-O que você andou fazendo de errado?

-Eu não fiz nada, quem fez foi a natureza.

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Já dei uma nota de vinte para o cobrador pedindo desculpas. Ele foi gentil e olhou para mim com enormes olhos verdes. Pensei em falar do quão grandes e verdes eram aqueles olhos e parei. Juro para vocês que ele praticamente batia as pestanas para que o detalhe não passasse anônimo.

Você sabe e só você não sabe

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Tem uma daquelas pavorosas frases machistas, que diz: “quando chegar em casa, bata na sua mulher. Você não sabe porque está batendo, mas ela sabe porque está apanhando”. Eu tenho para comigo que somos, ao mesmo tempo, o homem e a mulher desta frase, que que somos tanto a parte que sabe quanto aquela que ignora. Estudamos o tempo todo que a consciência é só a pontinha do iceberg, mas realmente não levamos isso à sério. Quem leu a Série Napolitana viu que a Lenu, diante de certas situações, vivia tendo ímpetos de mandar da outra embora, se ferrar, deixá-la em paz, mas logo dizia “claro que eu não fiz isso, não seria adequado, então eu perguntei como ela estava, consolei, etc”. Aí você pensa, que sempre tão auto-controlada, adequada e abnegada, ela era a melhor amiga do mundo, que Lila jamais desconfiaria da agressividade que havia por detrás. E não é assim, vemos Lila se afastar, se esconder, ser superficial, enfim, se proteger de uma agressividade que não é exposta. Ou seja, ela sabe. Talvez seja uma leitura gestual inconsciente, talvez chegue pelos poros, pela energia, o fato é que chega. E o último a ficar sabendo é o consciente. Você não sente vontade de ir, não quer falar, sente taquicardia, seu corpo e seus sentimentos dizendo que não, enquanto a mente diz que não está acontecendo nada, Fulano me adora, vamos ali tomar um café.