Curtas sobre fragilidade

É sempre a mesma coisa: eu nado há anos e nado bem. Aí aparece um homem na turma, que nada mas não está acostumado com o ritmo puxado da aula. Começa uma série, digamos que dez tiros de cem metros. Além de conhecer o meu ritmo, as séries de resistência são as minhas preferidas, o meu desempenho vai melhorando com o esforço. No primeiro tiro, eu nado mais rápido do que o tal aluno novo. Do segundo em diante, o sujeito faz de tudo pra ganhar de mim. Eu chego na raia tranquila e ele está com os pulmões pra fora. Até que ele não consegue manter mais e nos últimos tiros está quase uma piscina inteira atrás de mim. Por que tudo isso? Porque eu sou apenas uma mulher, eles precisam ganhar de mim.

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Aplicativo de karaokê: quase todas as letras de música são cantadas numa primeira pessoa do sexo masculino. Eu canto a letra tal como ela é, todas as mulheres que eu ouvi cantando fazem a mesma coisa. Só que de vez em quando, muito raramente, aparece uma letra com uma primeira pessoa no feminino. Dá pra perceber: o sujeito vai cantando normalmente, aí chega na parte feminina – “estou apaixonadA”, “estou sentidA” ou “você é meu queridO” – , e o sujeito tem um mini ataque de pânico. A palavra sai atrasada, num tom diferente – e no masculino. Vai que uma pessoa o ouve interpretar uma música num aplicativo, de nickname irreconhecível, e conclui que se ele canta música de mulher no feminino é porque gostaria de ser uma? Sempre lembro deste vídeo:

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Já comentei o caso aqui. Eu ia na loja quando era casada e o dono ficava conversando com o ex. Fui na loja recém-separada e o dono passou a me virar a cara. Depois, inesperadamente, me tratou bem. Pediu abraço de fim de ano e até aí ok. Na vez seguinte foi mais explícito na cantada – se eu percebi é porque só faltou a pessoa anunciar em carro de som. Não fiz nada, apenas na vez seguinte fui para as prateleiras; se tivesse interessada, teria ido falar com ele. Ele me cumprimentou, entendeu, tudo muito sutil. Pois bem. Voltei. O sujeito me deu um sorriso tão agressivo que foi como se eu tivesse corneado o sujeito e voltado na loja pedir produto de graça? Minha vontade foi dizer pra ele: Percebe que você criou uma história sozinho, que EU NUNCA TE FIZ NADA?

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Estou espalhando esta raiva por aí. LINK DA NOTÍCIAUma mulher ultrapassou homens que partiram 10 min antes de bicicleta e decidiram para-la e todas as outras mulheres por sete minutos – tudo para que os pudessem recuperar a vantagem e os seus egos não sofressem danos permanentes. É uma metáfora tão clara sobre o que é ser mulher. Feliz dia. Reclamemos.

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Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Homens bonitos vendendo produtos

a gente junto

Constatei o óbvio nas últimas semanas: é muito difícil dizer não pra gente bonita. Um foi na padaria. Lá tem uns potinhos com um negócio que parece waffer, mas bem caramelizado, não sei explicar. Acho que é uma sobremesa holandesa, é daqueles lados. De tanto passar por eles acabei comprando, e gulosa que sou comi tudo de uma vez e fiquei enjoada. Aí um dia fui na padaria e tinha um banner daquilo, com um lindo rapaz loiro sorridente e, ao lado do banner, justamente o rapaz, pra dizer que é ele quem faz e é receita familiar. Pode ser mentira, porque hoje em dia dizer que é receita familiar gourmet está na moda. Eu fugi, tive que desviar do meu caminho – se ele me oferecesse aquele troço olhando fundo nos meus olhos, teria que levar uns três. Sempre achei o cúmulo da idiotice machista quando homem fala isso. Mas ali, com aquele rapaz, eu não teria coragem de dizer que não queria. Pior ainda dizer que tinha comido e achado enjoativo, vai que ele parava de sorrir por minha causa, uma estrela se apagaria no céu. Outro foi um moreno lindo. Tive que ir no banco buscar um cartão novo e levou muito tempo, a situação absurda de uma agência do centro com apenas um caixa atendendo. Quando chego, sen or, que caixa. Ele me entregou o cartão e queria que eu fizesse um seguro contra roubo, clonagem de cartão, sequestro alienígena, daqueles que a gente paga uma taxa mensal. Ele aproximou os olhos do vidro e fixou o meu olhar com aquele rosto perfeito, olhos amendoados, cílios grandes. Foi uma batalha interna dura, mas a mesquinharia venceu. Ele não estaria lá para olhar de novo pra mim quando a fatura chegasse.

Delay

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Ele posta raramente, e eu curto. Mora em outra cidade, me adicionou por amigos em comum. Apareceu uma foto minha bem no dia que eu o adicionei e ele me mandou uma mensagem dizendo que se unia a fila de admiradores que eu certamente tinha, por ser inteligente, ter excelente senso de humor e ainda por cima bonita. Eu agradeci e tal, mas nunca passou disso.

Lembro que naquela noite estava chateada, precisando de um afago e apareceu um post dele. Curti. Aí ele me mandou uma mensagem privada.

-Fico sempre lisonjeado e surpreso quando você curte alguma postagem minha.

Já estava quase indo dormir e de repente acordei. Dormir todas as oito horas todas as noites pra quê, e o espírito de aventura?

-Eu sempre presto atenção nas tuas postagens, mesmo que raras.

Eu acho que ele não esperava que eu estivesse online. Apareceu visualizado e só. As bolinhas não mostravam atividade nenhuma. Escovei os dentes, coloquei pijama, deixei tudo preparado e nada. Chamei de idiota que perdeu sua chance e fui dormir.

Na manhã seguinte vi que ele havia respondido, às 3h. Sei lá se saiu e voltou àquela hora, se tomou um monte de cerveja, se acorda de madrugada pra fazer ritual de magia negra. Agora quem deixou no visualizado sem resposta fui eu, para sempre. Idiota que perdeu sua chance.

Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

Você já notou…?

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Nós fomos tomar café, fizemos os nossos pedidos e antes mesmo de nos sentarmos na mesa ela me pediu desculpas, pois teria que buscar alguma coisa no carro. Eu me sentei com o meu café e o meu salgado, as coisas dela ficaram esfriando na mesa. Aí ele se sentou também, veio uma terceira em outra mesa, acabamos os três conversando um pouco. A terceira pessoa foi embora. Minha amiga voltou e olhou para ele. “Você já notou”, ela me perguntou, e estava querendo dizer “que ele fica me olhando” e eu respondi que sim, mas se ela realmente perguntasse eu lhe diria que ele a olha, e para mim, e acredito que para toda e qualquer fêmea que passa perto dele. Mas aparentemente ela julga que ele a olha exclusivamente. Então ela se sentou de uma maneira tão empinada e arrogante como nunca fez, de um jeito que eu jamais a havia visto fazer e nem seríamos amigas se aquilo fosse constante. Por entender que aquilo era para ele, eu me vi ali, muitas vezes também empinada e arrogante, indignada por aquele homem ter a ousadia de se interessar por mim, um desinteressante, sem chances, quem ele pensa que é e que eu sou. Senti vergonha.

Curtas sobre e com eles

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Meu amigo Alessandro recebeu no Sarahah que é muito mais interessante por escrito do que pessoalmente. O que posso dizer a respeito disso, se fosse pra mim: assim espero.

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Meu irmão era o mestre em não brigar. Eu me aborrecia com ele e ele simplesmente não brigava. Reagia como se estivesse bem, porque se pra ele estava, então estava. Tenta ficar irritado com alguém que está de boas pra você ver, é muito difícil.

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Os problemas que tive com aparelho serem foram na terceira semana. Só que quando tento marcar consulta extra é sempre tão difícil e cai poucos dias antes da manutenção, que desisti e me aguento. Desta vez, o dente entortou, a mola passou por cima do arco, elástico saiu, eu ficava ajeitando com o dedo, feia a coisa.

-Você não faz ideia da surpresa que eu e meu aparelho temos para você esse mês.

-O que você andou fazendo de errado?

-Eu não fiz nada, quem fez foi a natureza.

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Já dei uma nota de vinte para o cobrador pedindo desculpas. Ele foi gentil e olhou para mim com enormes olhos verdes. Pensei em falar do quão grandes e verdes eram aqueles olhos e parei. Juro para vocês que ele praticamente batia as pestanas para que o detalhe não passasse anônimo.

Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

Fantasia

elefante voador - Natu Bieby

Acho que ele percebeu quando eu voltei a sorrir e a contar piadas que estava melhor da separação. Nos conhecíamos a algum tempo e até então ele jamais havia tentado nada. Os nossos horários subitamente começaram a coincidir e ele se sentava ao meu lado e perguntava, de forma nada sutil, sobre o meu fim de semana. Se eu havia ido a algum barzinho. Se havia bebido. Se havia voltado tarde. Se estava saindo com alguém. Eram tantas perguntas e tão longe da minha realidade – passar cal no muro, atravessar a cidade de ônibus ou colocar as leituras em dia – que comecei a brincar dizendo que ele é que deveria me dizer como foi meu fim de semana, que eu gostava muito mais da versão dele do que da minha.

Dividi isso com pouquíssimas pessoas porque tinha certeza que me chamariam de trouxa. Ainda mais se eu mostrasse uma foto dele. Idade regulava (um pouco mais velho do que eu), aparência regulava (bonitão), temperamento regulava (meio reservado, meio brincalhão); a única coisa que não regulava era o meu papel nessa história: casado, muito bem casado, obrigada. Não havia nem papinho de mulher doente, o que ele queria mesmo era cama, no máximo uma amante, quem sabe até remunerada. Pois é, além das qualidades que eu já mencionei, é rico. Nunca rolou uma baita afinidade, mas eu o acho simpático. Quem sabe eu pudesse dizer que se as circunstâncias fossem outras, etc. Mas, sinceramente falando, se as circunstâncias fossem outras, eu não acredito que ele estaria preocupado comigo e sim atrás de uma gatinha com menos de trinta e frequentadora do Clube Curitibano.

Um dia eu lhe disse, espontaneamente:

-Eu pensava que quando me separasse eu iria aprontar, fazer tudo o que eu não fiz na adolescência. Que agora, sem as travas e a timidez da época, madura e inteligente, eu faria diferente e poderia aproveitar tudo o que não aproveitei antes. Aí eu me separei e não fiz nada disso: fico tanto em casa, faço minhas coisas, leio meus livros, igualzinho o que eu fazia antes. Eu não tenho vontade de fazer diferente, não tenho vontade de sair e aprontar. A gente é o que é.

Ele me deu uma resposta sensata qualquer, concordando. Depois nossos horários pararam de coincidir e ele parou de perguntar sobre meu fim de semana. Alguma coisa no meu discurso – a sinceridade, a moralidade embutida? – quebrou a fantasia. Continuamos amigos.

Odor

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Já passam das 22h, o céu está encoberto e não há estrelas para olhar. Verifico olhando para cima e confirmo que não há nada. No prédio chique por onde passo, a luz da garagem se acende e sempre me parece um cumprimento. Eu me pergunto se o porteiro que certamente está debaixo do vidro espelhado sabe quem eu sou, se ele reparou nos meus horários tanto quando os cobradores dos tubos. Estou de vestido. Não é prudente estar naquele horário de vestido, eu sei e não ignoro, mas é que eu achava que as chances de ganhar carona até a porta de casa eram quase certas e não foram. É um vestido novo, que já havia namorado na loja e acabei ganhando numa promoção. Estou feliz, me sinto bonita dentro dele. A noite está agradável, a conversa foi boa e tem comida pronta me esperando na geladeira. Na direção oposta, na mesma quadra, vejo dois rapazes passarem. São jovens e bonitos, provavelmente vizinhos, num desses prédios grandes e chiques da região. Devem ter ido para a padaria, conversaram muito, ficaram até fechar. Eu me sentindo tão bonita no meu vestido novo, me pergunto se eles também vão me achar bonita. Devem ser mais novos do que eu, mas sinceramente já nem sei mais qual a minha faixa etária ideal; antigamente era pra lá de anos pra cima, uma década, aí me pego surpresa quando um homem da minha idade ou pouca coisa mais novo olha pra mim. Eles conversam animados, sem me dar bola, eu sigo no meu passo e finalmente nos cruzamos. Eles vão um pouco mais para a esquerda, eu um pouco mais para a direita, num balé de fingida indiferença. Sinto, muito claramente, naqueles poucos segundos, cheiro de álcool. Arriscaria dizer que foi cerveja importada, qualquer uma da imensa variedade que vende na padaria, que por sinal também é muito chique. Importada, deve ser importada, digo pra mim mesma, daquelas garrafinhas que se compra uma ou duas. Mas já é tarde. O cheiro entrou em mim e senti o que sempre sinto, senti que não conseguiria, não consigo, não consigo. Estou bonita no meu vestido novo na noite agradável e penso que nunca serei como os outros, eu não consigo, o que deveria ser tão normal, o cheiro, o álcool.

Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Camille

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Quem é fã de Camille Claudel geralmente detesta Rodin. Do ponto de vista de quem a adora, inclusive pelas acusações da própria, ele foi um monstro que sugou o seu talento. Não consigo ver a coisa dessa forma. Primeiro porque ela tinha esquizofrenia, o que é muito sério. Assim como não dá pra encarar a depressão como tristezinha que basta lavar uma louça, qualquer visão romântica sobre esquizofrenia cai por terra nos primeiros cinco minutos dentro de uma instituição psiquiátrica. Isso, por si só, já é bastante forte. Outro ponto importante é o fato dela ser uma mulher apaixonada. Levanto aqui todas as críticas ao modelo de feminilidade que arduamente construído, incucado na nossa cabeça, tão útil a eles e tão difícil para nós – falo da tendência feminina de largar tudo em prol do seu macho. Noto essa tendência em mim, nas minhas amigas, em todas as mulheres apaixonadas. O sujeito sabe muito bem o que quer, quais são seus desejos, seus objetivos, seu norte. A gente, fêmea pessimamente condicionada, também sabe, ou não sabe, ou sabe marromeno e nesse plano existe uma suíte bem bonita com um neon piscando Amor. Ele tem o dele e não abre mão; como a gente sente que ele vai e vai mesmo, acaba sendo o lado que cede o que for possível para manter a relação. Aí o que nos acontece? Camille.

À porta

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Estava eu debruçada sobre as grandes questões da minha existência, um corvo literário escravizado pela inspiração. Há dias vivo apenas de sódio, carboidratos simples e solidão. Ouço baterem à minha porta. Foi a segunda vez na manhã, na primeira foram duas crentes. Na segunda, me surpreendo em ver um carro preto de portas abertas estacionado na frente do meu portão e, de pé, um rapaz com pouco mais de vinte anos, jaqueta de couro, barbudo e muito bonito me chamar pelo nome. Antes de me dar conta que é o rapaz que faz a ronda noturna no bairro e veio cobrar minha mensalidade, meu cérebro tem tempo de se perguntar: Eu fiz conta no Tinder e não estou lembrada?

O brilho secreto

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Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

Cantadas

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Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Os cafas e os anjos

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Do lado de cá – o lado feminino – vejo minhas amigas sofrerem muito com os homens. De um lado elas, pessoas cheias de qualidades, qualidades que eu conheço e reconheço, e do outro lado homens não percebem, não agem de acordo, não dão valor. Quando é com a gente dói muito, mas de fora é tão claro que… como direi? Tem aquela passagem bíblica (gênesis 19) dos homens que queriam violentar os anjos. Isso pra mim fala duas coisas a respeito deles:

1- que não eram imunes à beleza. Eles perceberam naqueles anjos algo acima da média, encantador, extraordinário. Mas:

2- eles reagiram como sabiam. No caso, com brutalidade.

Estar diante do extraordinário, superior, belo ou diferente é uma coisa, saber reagir à altura é outra. Canso de dizer aqui o quanto o homem (agora no sentido de humanidade) é um ser limitado. Diante de uma situação, se a gente tiver três atitudes diferentes no repertório já é muito. Então, quando penso nas minhas amigas tão especiais que são tratadas como se nada fossem, não me parece que os tais homens necessariamente fizeram por mal ou que não viram o valor que elas têm. Eles podiam apenas ser brutos e limitados demais para reagir diferente.