Super mapa

mapa-2

Eu já me perdi de maneiras tão espetaculares que me dá vergonha. Desde sair de um prédio e ter a opção direita e esquerda, e optar pelo 50% errado a levar um papel com o endereço anotado, depois de ter visto no mapa, dizerem que eram alguns metros – e parar quase em outro bairro. Sei lá o que são dez ou cem metros enquanto estou andando. Imagine o quão problemático é pra alguém que se propõe a fazer tudo à pé e de ônibus.

Compensei tanto que talvez até tenha desenvolvidos uns neurônios que não eram ativos quando eu nasci. Agora, antes de entrar no prédio, me obrigo a guardar o ponto de referência para quando eu sair. Quando vou para um lugar novo, o mapa que eu faço é super completo, com indicações precisas de onde devo virar e a genial ideia de informar cada rua com que vou cruzar no caminho, para que eu tenha certeza que estou no lugar certo a cada etapa. Isso sem falar que eu pego a pessoinha no Google Maps e faço ela andar por tudo antes de eu mesma verificar na vida real.

Uma amiga me perguntou há poucos dias se eu gosto de Curitiba. Já me debati bastante com essa questão e também é muito interessante que sempre me façam, o que mostra que há uma disparidade no ar entre nós. O que me fez plantar de verdade os pés aqui foi quando percebi o quanto é importante pra mim que a cidade me permita esse tipo de mobilidade. Não dá se for muito quente, não dá se for uma cidade que precisa ter carro, não dá se for muito violenta. Então é isso, tamu juntas, Curi.

Até o relógio está com vidro embaçado

Quando eu morava em apartamento, a chuva era um barulho lá fora; em casa, a chuva se torna algo muito mais concreto, um problema pra andar na sua própria área de serviço. Não sei dizer quanta porcentagem do meu dia merda era culpa disso, da chuva constante. Ultrapassou o estágio de falta de sol e são todas as toalhas que eu me enxugo molhadas, os panos na cozinha, o varal na sala, a tentativa de secar pendurando em cadeiras, o cachorro praticamente mofado… Aí fui na padaria e a mocinha sempre sorridente está com a cabeça apoiada no ferro do lugar onde passa cartão. Ao invés da conversinha simpática, apenas o básico, da parte dela e da minha. Isso sem falar do que não quero nem choramingar aqui, aquela confirmação de que as pessoas sempre me consideram alguém insignificante demais não apenas para não ter que puxar o saco como também não precisam fazer o básico do básico, nível nem ao menos agradecer presente. Aí final da tarde resolveu chover mais grosso e mesmo assim me arrastei até a manifestação. Muita gente conhecida disse que ia, mas não combinei nada com ninguém e foi sozinha. Acabei encontrando um amigo que não via há anos e marchamos juntos. Fui lá fazer número, ser mais uma pessoa pra ser talvez filmada por um drone e dizerem que fomos muitos a marchar pela educação. Tudo continuamente merdamente úmido e, pra falar a verdade, nem ao menos sei se adianta alguma coisa marchar. Eu vou para me sentir menos só, menos louca, menos “não entendo a indiferença de vocês” (leiam este artigo sobre NECROPOLÍTICA) , menos ET. E sempre dá certo.

UFPR

Personagens noturnos

Terminal-Bairro-Alto-825x509

A cobradora do tubo à tempos não passa desconforto lá. Sempre está vendo algum programa pelo celular e ri muito, já direto na tomada. Agora, o seu senso de oportunidade me surpreendeu: ela está vendendo casquinha de chocolate com brigadeiro dentro, de vários sabores. A gente vai pagar e estão eles na nossa cara, por 3,50. Eu, que estava sem jantar e levaria mais de uma hora até jantar, não pude resistir.

.oOo.

Tem o cara que pega ônibus no tubo logo em seguida. Descemos no terminal e pegamos o mesmo ônibus. Eu desço antes, ele vai até outro terminal e pega mais um ônibus. Não sei a profissão dele, é algo que envolve plantão. Sei que ele gosta de corrida, participa de maratonas, etc. E quando se senta no ônibus, dorme. Mas faz tempo que não nos vemos, tenho saído mais tarde. Já teve uma época que ganhei muitas caronas até em casa e, quando nos reencontramos, ele comentou que eu estava sumida.

.oOo.

Eu aprendi uma nova linha de ônibus, paro mais perto de casa. Em comparação com a outra, nem me economiza tanto tempo, porque ela dá muitas voltas, mas o trajeto à pé é menor. Dos passageiros, os que têm crachá e uniforme são homens e descem antes. Param muitas mulheres perto dos motéis, acho que são recepcionistas. Uma vizinha, que há anos foi gentil e me deu carona até a biblioteca, também pega e me ensinou a descer direitinho, falando com o motorista. São só dois, daqui há pouco nem precisarei mais falar.

Despedida com bolinhas

4635826136_a37dc884a5_o

Eu li em algum lugar do Facebook que é meio chocante pensar que, em algum momento da infância, você saiu para brincar com seus amigos sem saber que aquela seria a última vez. As pessoas comentaram que era um pensamento meio perturbador. Da minha parte, tenho muito limpa na lembrança a minha despedida. Foi com meu irmão e eu acho que tinha 14 anos e ele 13. No lugar mais central de Curitiba, no início da década de 90, inauguraram uma loja que ocupava vários andares de um edifício de esquina, chamado Garcez, e a loja tinha o mesmo nome. Quando inaugurou, era muito bonita, quase um shopping. Depois não deu certo, virou várias lojinhas, virou faculdade quando ficou fácil abrir faculdade e hoje me parece que é um prédio administrativo. Todo mundo que mora aqui sabe de que prédio estou falando. Eu e meu irmão fomos passear no centro, adultamente, e aquilo era parte do passeio. As escadas eram de mármore branco e o dourado predominava na decoração. Cada era dedicado a um segmento – feminino, masculino, infantil, eletrodomésticos, etc – e na parte central aberta era possível olhar toda loja. Quando chegamos na sessão infantil, havia um parquinho, uma porta branca com uma piscina de bolinha em cada ponta. Eu lembro que elas eram bem rasas, o parque havia sido pensando para crianças muito pequenas. Mas quando eu era uma criança muito pequena não existiam piscinas de bolinhas. Eu lembro que minha sensação quando elas surgiram foi: Pooooxa, por que não inventaram isso antes? Não lembro como foi o acordo, se alguém propôs; gosto de imaginar que apenas nos olhamos e entendemos tudo. O que eu lembro bem é de cada um na sua piscina, som de bolinhas, bolinhas escorrendo para os lados, guerra de bolinhas. Adultos com ar de reprovação eram apenas inveja. Só fomos embora depois de esparramar e jogar todas as bolinhas que quisemos e a nossa felicidade era completa.

Curitiba toda dominada

torre20panorc3a2mica-am20104-kocd-u20536228905iub-1024x683gp-web

Eu não sei se com os anos mudei eu ou mudou Curitiba, mas tive durante muito tempo uma relação de amor e ódio com a cidade que foi acalmando e a vontade de ir embora passou. Tem um post antigo meu que recebia recorde de comentários sobre o tema, e no início era até divertido de ler – Desvantagens de morar em Curitiba. Este post me fez ajudar dois estrangeiros a se decidirem sobre vir para cá ou não. Como tudo o que se escreve, ele reflete o que eu pensava na época e mudou, e era bastante estranho ser xingada por algo que não refletia mais a minha opinião, mas a internet tem dessas coisas. Hoje tenho consciência que é muito importante para mim poder me deslocar a pé. Alguns lugares tem uma distribuição de ruas estranhas demais para o meu precário senso de localização; outras são violentas demais; outras são machistas demais; tem as que são quentes demais ou as que exigem dinheiro demais. Uma vez estava no ônibus e ouvi uma conversa que achei muito interessante, de dois rapazes que contavam os lugares mais longe que já foram de ônibus, levando em conta onde moravam. Eu já tinha ido para os mais longe dos dois e mais adiante. Já devo realmente ter rodado essa cidade para todos os pontos cardeais, nenhum lugar me é totalmente estranho. Sem dizer que, no Centro, tenho a intimidade que só os anos são capazes. Um dia estava na XV e precisava comprar uma cartolina preta e soube exatamente onde havia uma livraria pequena e bem especializada em papéis especiais. Meus três itens essenciais numa cidade e que Curitiba me dá com folga: me perder e voltar sem riscos, decidir um longo trajeto à pé e ir resolvendo coisas no caminho, ter a cidade inteira acessível por transporte público.

Essa barra que é gostar de você

temporal06daniel20castellano-kwdh-u102098764596auh-1024x707gp-web

Pode não ser verdade, pode ser pura desculpa para nossa incompetência, mas a gente sai de Curitiba e se diverte, fica popular, olhado nas esquinas, nos acham inteligentes e capazes. Aí a gente volta pra cá e o telefone não vibra, todas as nossas iniciativas morrem em nuvens e ninguém dá nada pela gente. Tô falando no coletivo porque conheço alguns casos. Tinha uma colega de faculdade que aqui não era ninguém, e quando foi para Floripa virou quase uma embaixadora informal. “Então vai embora!”, diz o curitibano com raiva cada vez que falam mal da cidade dele. Curitiba também tem uma característica estranha de prender as pessoas aqui, como se fossem tentáculos. Costumo dizer que aqui é meio ilha de Lost. A cidade prende e a gente vai ficando, ficando, meio odiando ficar e meio reconhecendo que as ruas são limpas, as pessoas são educadas, a privacidade é um direito. São detalhes, nada que nos faça escolher um lugar, mas que no conjunto melhoram muito a vida. Dia desses me dei conta que se realmente a cidade me largasse – “vai, te liberto desse carma!” – eu já não saberia pra onde ir, ficaria com medo de não gostar: e se eu não gostar de andar nas ruas e onde compra alho poró, lá tem uma boa biblioteca? O amor por Curitiba brota devagar, sem que você perceba, como quem de repente se dá conta que sente falta do tio e sua piada do pavê.

Três curtas, três problemas

metamorfose

Eu sempre achei exagerado quando as pessoas se queixavam dos pés gelados que nada resolve. Nos dias muito frios as minhas duas meias também ficavam meio inúteis, mas e daí? Não sei se é o frio recorde, a idade ou o quê, mas eu viciei em colocar bolsa de água quente nos pés. Meu receio é nunca mais voltar a ser uma pessoa normal.

.oOo.

Outra: aqueles filmes que tem escritores, e eles se isolam dizendo que vão escrever, e não escrevem, a editora manda cartinha, eles inventam uma desculpa, mandam mais, mandam gente e o cara nada. “Nossa, que exagerado”. Então.

.oOo.

Privadas com caixa acoplada são ecologicamente mais corretas, mas tenho vontade de jogar as minhas pela janela. A mais recente questão – se for contar tudo o que já passei dava um livro, etc. – é que uma delas precisa que eu dê uma leve ajeitada na tampa para não ficar vazando água por dentro. Mas não vaza sempre e nem é imediatamente. Então me pego como marido traído, abrindo a porta do banheiro de repente pra ver se flagro algum barulho.

Duas vivências que determinaram minha concepção de beleza

modabi3

Quando começaram a aparecer shorts nas vitrines de Curitiba, eu jurei que aqui essa moda não pegaria. Quem está ou esteve aqui há pelo menos vinte anos entende o que estou dizendo. O verão nunca ultrapassava os 25º C e nem os panos subiam mais do que um palmo acima do joelho. Esse comprimento, em público, já fazia as mulheres receberem tantos e tão insistentes olhares que era quase como sair nua. Com uma cidade tão fria, nos dois sentidos, é muito fácil manter uma moral muito mais pudica em relação a cobrir os corpos. Me parece que aqui, mais do que em outros lugares, se leva muito mais à sério a imposição de esconder todo corpo que não segue o Padrão Ego. Uso uns sunquinis enormes pra nadar; eu diria que a diferença deles pros maiôs é apenas que mostro umbigo. Mesmo assim, sou a Leila Diniz da minha escola – “você é aquela moça que nada de biquini, né?” Esse meu hábito já me fez passar por alguns episódios desagradáveis: passaram “por acaso” a mão em mim algumas vezes, me comeram com os olhos de maneira bastante ostensiva, fui abordada por homem casado. Pela lógica deles, se eu fosse mulher séria não estava mostrando, né? Outra visão é a de que eu mostro porque “estou podendo”. O que há por detrás da minha atitude – e que ninguém entende – são duas vivências determinantes na minha forma de entender o assunto:

Lembrança 1: Estou cercada de pessoas, praticamente todas mais bronzeadas do que eu. Sou um pontinho branco – ou bastante vermelho, no espaço de algumas horas – no meio da multidão. Homens e mulheres passam por mim com poucos panos coloridos cobrindo seus corpos. Algumas estão na areia, pegando ainda mais sol, o que chega a ser aflitivo; outras estão no mar, jogando frescobol, conversando com amigos ou cuidando dos filhos. Algumas dessas mulheres são mulatas incríveis, com corpos tão lindos e tentadores que nos fazem entender a mística em torno delas. Também com panos poucos coloridos, passa por mim a vovó, que tem o corpo todo marcado pelo tempo. Lá vem correndo a menina barrigudinha, seguida pela sua mãe, que tem o corpo diferente da pré-adolescente, que não se parece nada com a quarentona. Tem mulher de seio pequeno que mal segura o top, mulheres de quadris enormes, mulheres com pelos loiros, mulheres, enfim, variados tipos, idades e histórias de corpos. Todas estão curtindo a sua praia. Todas estão de biquíni.

Lembrança 2: Olho para as pessoas – ao cruzarem comigo na ruas, conversando entre si nos ônibus, dando entrevistas na TV, almoçando em restaurantes por quilo, atendendo o telefone no balcão da loja – e tenho vontade de pedir que posem para mim. De tanto passar o dia inteiro esculpindo e estudando a anatomia humana, as pessoas se tornaram modeláveis para mim e tenho a impressão de que todos têm corpos de barro que podem ser mexidos e acrescentados. Como se apenas um gesto no local e profundidade certos fossem capazes de alterar peles e músculos. Só que os corpos que me chamam atenção não são os que comumente se considera belos, ao contrário: o corpo liso e jovem é sem graça, é uma folha sem linhas. Nos corpos de plástica é pior, pois vejo a ação do bisturi, que não respeita proporções, tira demais e uniformiza.  Os corpos que tenho vontade de eternizar são aqueles que me dão histórias num simples olhar. Vejo nobreza em rostos enrugados, mãos fortes que sustentam o mundo, quadris acolhedores, ingenuidade em lábios repuxados pra cima. Não quero o belo de revista, que se esgota na página seguinte – busco o belo do singular, do conteúdo que transborda, do espírito que marcou a matéria.

Por isso que quando fui convidada a escrever sobre a beleza feminina saiu isso.

Um mistério insolúvel por ser real

 

Eu estava no tubo. Em Curitiba é assim, pelo menos por enquanto: as estações tubo ficam frente à frente. De uns tempos pra cá, alguém começou a achar que isso é ruim, que os dois ônibus se encontram e trancam a rua, e de vez em quando pode ser que uma ambulância queira passar nas ruas exclusivas, ou um ônibus precise desviar, aí é ruim que eles fiquem emparelhados. Então, em alguns lugares da cidade, estão desemparelhando as estações tubo, e quem sabe chegue o dia que essa informação que eu coloquei aqui se torne vintage. Mas eu estava na estação tubo, diante de outra estação tubo, na que tomo ônibus com frequência. Eu estava de pé em frente à porta, que estava aberta. É comum elas ficarem abertas, ok? Aí parou um ônibus na estação tubo da frente, indo para a outra direção. De dentro do tubo, bem na minha frente, eu vi um casal dentro do ônibus. Eram adolescentes e conversavam. Aí a moça, sabe lá Deus porquê, olha para trás e me vê. Aí ela vira para o namorado, fala alguma coisa pra ele, aponta, ele olha para trás e me procura com o olhar. E fala alguma coisa para ela. Ou seja, ela me mostrou para ele e começaram a falar de mim. Eu arregalei os olhos e tive vontade de gritar de lá do tubo “Ei, o que é que tem eu!?”. Consultei meu arquivo mental e não faço a menor ideia de quem eram. Será que ela estuda no colégio que tem no caminho, será que ela me conhecia de algum lugar, será que o assunto era unicamente sobre o que eu estava vestindo ou fazendo? – eu consultei minha roupa e minha pose com o olhar e não encontrei nada demais em ambos. Aí o ônibus partiu. Morrerei sem saber. (A não ser que você, moça que me mostrou pro namorado, seja leitora do blog. Por favor, dê notícias, manda um e-mail!)

Jegue elétrico

Estou numa casa centenária, no interior da Bahia. Ontem fez um frio do caceta e por pouco não joguei minha dignidade pra cima e saí por aí enrolada numa coberta. Onde já se viu, uma pessoa que saiu de Curitiba a quatro graus, com vontade de chorar (tenho desconfiado que sou uma pessoa chorona. Ainda não tenho certeza) de frio, de saudades dos casacos que deixou em Salvador, em São Paulo e no guarda-roupa de casa. Temi pelas minhas próximas noites, de ter que usar o mesmo moletom e calça jeans durante uma semana, mas agora está mais quentinho.

 

Sabiam que aqui as festas juninas são tão ou mais populares que o carnaval, e que as pessoas viajam para o interior e Salvador fica vazia? Tem venda de camiseta e tudo, semelhante aos abadás. Hoje vi as camisetas das pessoas que estavam aguardando o Jegue-elétrico da cidade de Senhor do Bonfim. Sim, Jegue-elétrico – é um jegue puxando um carro de som. A camiseta custa uns 300 reais e de uma festa Esfrega custa uns 700. Outra curiosidade: em certas cidades a festa mais popular não é o São João e sim o São Pedro, dia 29 de junho?
Enfim, são muitas emoções. Estava morrendo de preguiça de viajar, fui pra São Paulo lamentando minha decisão de não pegar um voo direto, porque eu fazia aquele sacrifício todo ao invés de só ir direto pra Salvador. E assim que entrei no ônibus, entendi. Adoro pegar aquele ônibus, adoro ir pra São Paulo, adoro o metrô, adoro os amigos que se dispõem a me ver, adoro até mesmo a correria. Pensei que isso viraria um texto, assim que cheguei escrevi outro texto, liguei o netbook achando que escrevia um texto sobre a música chata que vem da igreja e concorre com o forró da praça… Mas viagens são assim, acabam nos tirando do prumo. Tenho comido “pão pesado” com uma manteiga maravilhosamente gostosa e que não quero nem imaginar o que está fazendo com o meu colesterol. Ao mesmo tempo, poxa, saudades.

Dois curtas sobre dois

O Inter 2 (Ligeirinho) funciona que é uma beleza, já a linha Interbairros 2 (Convencional), quando atrasa, atrasa muito. Aquele aviso dos horários de ônibus fica parecendo político em campanha. Você chega lá e diz que o próximo ônibus chega em cinco minutos. Quando passa os cinco minutos, aquele horário sumiu e o próximo chega em quinze. E quinze minutos depois, some e chega em vinte. Os horários vão sumindo tanto que é comum ele pular uns quatro ônibus e a gente ficar lá mais de quarenta minutos esperando. Desculpe se estraguei os sonhos de vocês com relação ao sistema de transporte de primeiro mundo de Curitiba. Já foi.

 

Eu vou psicologicamente preparada. Já saio cedo de casa e com livro. Se o ônibus atrasa, leio no ponto; se adianta, leio antes da aula. Outras vezes opto por não ler nada e sim pensar na vida. Mas por mais que eu me prepare, não esteja cansada, não me atrase com o atraso do ônibus, seja tranquila e ame a minha vida, não consigo ficar imune. O ponto vai enchendo, todo mundo suspirando de raiva, as pessoas olhando para os horários, os relógios. É físico, dá pra sentir a irritação preenchendo o ar. Quando o ônibus chega, já estamos todos fartos, com vontade de matar a mãe do motorista. Isso é apenas a contaminação num ponto de ônibus. Pense nisso em relação à vida.

 

.oOo.

 

Não vou contar quem ou em que série, para não ter que colocar um alerta de spoiler aqui. Contando apenas o que interessa, a cena era assim: ela estava no trabalho, esperando um cliente. Um homem surge na porta e ela já vai se apresentando: “Oi, Sr. Fulano, eu sou Fulana, Beltrano está atrasado para a reunião mas podemos começar sem ele, etc”. Aí surge Beltrano, com o verdadeiro cliente, e só aí ela percebe que o Homem que entrou pela porta não é quem ela esperava. Aí começa um diálogo onde ela diz que ele que a enganou, ele lhe responde que não poderia se negar a conversar com uma mulher daquelas e lhe convida para sair, comentários, sorrisos, brincadeiras, saída e amor. Uma graça de cena, um verdadeiro balé: cada um respondeu da maneira que sentia que deveria responder momento, e que foi sem querer a melhor resposta para gerar no outro também sua melhor resposta de aproximação. Aí de um encontro curto, que tinha tudo para não gerar nada, as coisas foram crescendo em progressão geométrica de afeto.

 

Saudades disso, desse balé, dessa naturalidade. O oposto disso é conhecer alguém muito bem e ter sempre a sensação de andar sobre o gelo. Querer muito e não conseguir expressar, ou expressar da maneira inadequada. Os gestos ficam por fazer, o outro lhe diz o que te deixa mais inseguro, e você quando responde parece também gerar o que há de pior. Tudo para dar certo e as coisas não andam. Não andam e nem devem andar.

Curtas carnavalescas

 

Meu TOC fica aqui apitando quando olho pro blog e a postagem do dia 16 caiu como dia 15 porque o computador cismou errado com o fim do horário de verão.

 

.oOo.

 

Verão, creio, que já está morto e enterrado depois de chover ininterruptamente por 4 dias. Sério. Começou sexta no fim da tarde e praticamente não parou. Agora imaginem a situação: sem carnaval, sem ter pra onde ir e sem ter nem sol. Loooooongo feriado.

 

.oOo.

Hoje fiquei sem internet. A solidão sem internet é solitária num nível que nem me lembrava mais.

.oOo.
Costura é a melhor coisa do mundo, é uma bênção, é pra toda vida. Não sou e acho que nunca serei uma costureira de mão cheia. Tento um monte de projetos e depois sou obrigada a doar tudo, porque não teria coragem de usar – fica tudo com aquela cara de “fui eu que fiz”. Mas mesmo assim, a costura só me dá alegria. Entretém que é uma beleza e até roupa a gente faz.

 

.oOo.
Meus manjericões estão com praga. Aparecem uns troços embaixo da folha que parecem uns cocôs e no dia seguinte está tudo comido. Pior que a praga é igual a mim, só gosta de manjericão. Pras salsinhas, aquele tempero horroroso e que quase vira árvore aqui porque eu nunca pego, a praga nem olha. Eu que estava tão acostumada a só comer manjericão fresquinho, recém-colhido…

 

.oOo.
Outro que fez o meu feriado foi o professor Clóvis. A entrevista dele no Jô é pra dar novo fôlego. Sério, guardem essa indicação como se fosse um remédio. Cliquem num dia depressivo.

Espera

Agora quase todos os tubos e terminais de ônibus de Curitiba dizem em quanto tempo chegarão os próximos ônibus. Acho que os ônibus têm um rastreador. É uma ideia tão simples e tão boa. É um alívio muito grande olhar para o relógio e saber o horário do ônibus, que mais uns cinco minutos ele estará lá. E quanto não estará, quando leva muito mais tempo, você já pensa “xi, vou ter que ficar plantada esperando” e já se programa pra pegar um livro, pensar em outra coisa. A espera é a mesma, mas subjetivamente é muito melhor. Não tem mais aquela ansiedade de que a qualquer momento, a qualquer sinal, o ônibus pode vir. Ou aquele desespero de que fomos esquecidos, de que o ônibus não vem mais, não vem a tempo, que ficaremos o dia inteiro lá para nada.

 

E isso é apenas ônibus. Imagine como é o tal do “ter fé”. Tenha fé: isso é só um período. As coisas vão melhorar. Não há mal que sempre dure. Você voltará a se sentir melhor. Sua vida vai entrar nos eixos de novo. Há um lugar no mundo para você. Você não está só.

Quando?
//player.vimeo.com/video/31399844
O Paradoxo da Espera do Ônibus from MPL on Vimeo.

Perfeito, Marcela, obrigada!

Gordas

Quando eu comentei com o meu pai que as curitibanas usavam maiô até na praia, ele riu e disse “que ridículo”. Basta ir pra uma praia em Salvador pra entender o porquê do comentário: lá é o contrário, ninguém usa maiô. Da menina novinha com tudo no lugar, à avó de peito caído e cheia de estrias, todas usam biquíni. Aqui, entende-se que mostrar é um privilégio de “quem pode”, ou seja, que tem um corpo de revista. Quase todas as minhas amigas estão lutando contra o peso, e não colocariam um biquíni porque o corpo delas está quilos e mais quilos do que elas consideram mostrável. Das poucas que não estão acima do peso, muito pelo contrário, estão até muito abaixo do peso, acha que a coisa é muito diferente? Não, elas enxergam gorduras invisíveis e necessidade de esconder dobras que “insistem em ficar por mais que emagreçam”. O universal aqui é usar preto, como se a vida fosse um grande funeral. Vontade de mandar essa mulherada toda pro nordeste, pra elas descobrirem que corpo é corpo. E amando o que temos é muito melhor.

De volta

Às vezes coisas ruins motivam coisas boas. Eu não teria feito essa viagem se não tivesse batido no fundo do poço. Estar em Salvador nunca foi fácil pra mim, por motivos que são difíceis de explicar pra quem é de fora. Ir a Salvador sempre foi muito mais enfrentar fantasmas do que passar férias de verão. Antes de viajar eu me perguntava se, arrebentada do jeito que estava, seria o momento de rever certas coisas. Fui com medo. Pra minha surpresa, antes de viajar, eu estava é com medo de voltar. Com medo de ter minha vida de volta, agora que nem sei mais se gosto dela. Com medo de sair de um lugar onde todos estavam se esforçando pra me deixar feliz, onde eu era tão mimada. Eu me acostumei com os abraços, misto quente feito no forninho, praia à poucos minutos a pé e um sol que não nos deixa esquecer que estamos vivos.

 

Foi uma dessas viagens que mudam as coisas. Pude ler muito – coisa que não conseguia fazer há tempos – e tomar algumas resoluções. O coração ainda precisa do tempo dele, mas pelo menos a mente já sabe mais ou menos pra onde ir. Obrigada pai, irmãos, Hulda, Regina e Laécio, Lígia e todos que me alimentaram de carinho esses dias.