Combinação alérgica

lambretas

Estava na praia com meu pai e um dos amigos das antigas dele, da época que ambos eram fodões (Desculpe o termo, mas acho que nada define tão bem esse passado deles). Chegou uma porção de lambretas, iguaria comum naquelas bandas que eu devorava quando era criança. Só eu e o meu pai nos atracamos nela; deu para ver que o amigo também gostava muito. Aí ele me contou que, na época que trabalhava, tinha uma alergia persistente nas mãos. A mão era tomada pela coceira e ele ficava constrangido, evitava ao máximo estender a mão para cumprimentar as pessoas. Isto, somado à função que exercia, contribuía para deixá-lo com fama de antipático. Ele procurou tudo quanto é médico, fez testes alérgicos, e o mais próximo que conseguiram chegar é que ele tinha alergia a frutos do mar. Ele não aceitou aquilo pacificamente, não apenas por gostar muito de frutos do mar, mas também por comer muito e perceber que não era tudo o que fazia mal. Cansado de ficar com a mão daquele jeito, fez experiências, cortando ora uma coisa e ora outra, até que ele descobriu que o caso dele era bem específico: ele tinha alergia a misturar lambreta com outros frutos do mar. Se ele comesse só a lambreta, tudo bem. Mas se tivesse comido outro peixe, como havíamos acabado de fazer, ele ficava pipocado. Depois que descobriu e criou esse regra, nunca mais teve problemas e a mão dele estava limpa.

Eu descobri sem querer que o extrato de tomate estava me fazendo mal. Cólica, enxaqueca, sintomas digestivos. Eu tinha uns três alimentos na lista de prováveis causadores. Parei com o molho sugo e, além de nunca mais passar mal, vi minhas alergias de pele recuarem mais de 90%. Estava uma catástrofe por causa da eleição. Não sei se é tomate em geral, se com tomate não-orgânico eu teria problemas, se é com o molho enlatado, não me dispus a sofrer mais e apenas parei. Quem tem alergia de contato sabe o quanto é difícil; quem sabe meu caso ajude alguém.

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Curtas aprendizagens

trufas

Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

Torta de café

torta de café

Balas de café? Maravilhosas, de comer uma atrás da outra. Café? Merece todas as declarações de amor que lhe são feitas diariamente. Motivo para levantar da cama em manhãs tristes, estimula também o olfato ao ser um verdadeiro perfume no ambiente, amigo contra a sonolência de depois do almoço ou do estômago vazio no meio da correria, melhor pretexto para socialização. Torta de café? Aí não. Torta de café tem gosto de decepção. Depois de se servir no buffet de saladas, comida de verdade, carnes, você vai até a mesa de sobremesas e vê aquela torta pretinha e pega um pedação. Depois de comer toda comida, a comida de verdade que mantém o corpo saudável, chega o momento da recompensa, a sobremesa, e você coloca aquele pedaço de torta diante de si, faz uma garfada perfeita pegando um pedaço da cobertura, e quando ele entra na boca, descobre que não é chocolate. É café. As papilas que esperavam o doce e recebem amargo se contraem de desgosto. Os mais sinceros até cospem de volta. Os gulosos e mãos de vaca comem tudo, mas só porque está lá, porque estão detestando. Comem mal humorados, olhando feio para os funcionários pra ver se tem alguém rindo da sua cara. Talvez a única alternativa para a torta de café seja espalhar muitos avisos antes, igual o triângulo quando o carro se acidenta na estrada – Atenção, torta de café a 100m! – pra pessoa estar ciente do que está na sua frente quando chegar o momento. Duvido que alguém se serviria.

Homens bonitos vendendo produtos

a gente junto

Constatei o óbvio nas últimas semanas: é muito difícil dizer não pra gente bonita. Um foi na padaria. Lá tem uns potinhos com um negócio que parece waffer, mas bem caramelizado, não sei explicar. Acho que é uma sobremesa holandesa, é daqueles lados. De tanto passar por eles acabei comprando, e gulosa que sou comi tudo de uma vez e fiquei enjoada. Aí um dia fui na padaria e tinha um banner daquilo, com um lindo rapaz loiro sorridente e, ao lado do banner, justamente o rapaz, pra dizer que é ele quem faz e é receita familiar. Pode ser mentira, porque hoje em dia dizer que é receita familiar gourmet está na moda. Eu fugi, tive que desviar do meu caminho – se ele me oferecesse aquele troço olhando fundo nos meus olhos, teria que levar uns três. Sempre achei o cúmulo da idiotice machista quando homem fala isso. Mas ali, com aquele rapaz, eu não teria coragem de dizer que não queria. Pior ainda dizer que tinha comido e achado enjoativo, vai que ele parava de sorrir por minha causa, uma estrela se apagaria no céu. Outro foi um moreno lindo. Tive que ir no banco buscar um cartão novo e levou muito tempo, a situação absurda de uma agência do centro com apenas um caixa atendendo. Quando chego, sen or, que caixa. Ele me entregou o cartão e queria que eu fizesse um seguro contra roubo, clonagem de cartão, sequestro alienígena, daqueles que a gente paga uma taxa mensal. Ele aproximou os olhos do vidro e fixou o meu olhar com aquele rosto perfeito, olhos amendoados, cílios grandes. Foi uma batalha interna dura, mas a mesquinharia venceu. Ele não estaria lá para olhar de novo pra mim quando a fatura chegasse.

Uma conversa entre tubos

estações tubo

Centro de Curitiba, à noite. A cobradora da estação tubo onde eu estou conversa – cada qual gritando do seu lugar – com o cobrador do tubo da frente:

-O Sabiá trouxe pizza pra você ontem?

-Não.

-Mentiroso. Ele disse que trouxe pizza e te deu ontem, porque ele vive me prometendo pizza e eu não estava.

-Ele trouxe pizza, mas não foi ontem, foi anteontem.

-Olhaí, era a minha pizza que ele prometeu, você comeu minha pizza!

-Mas você disse que era ontem, ontem ele não trouxe nada, foi anteontem, você não estava aí…

-Ontem, anteontem… você acha que o Sabiá sabe a diferença? Ele é cracolândia, pra ele é tudo igual.

(Pra mim) Sacanagem, o cara me promete pizza há um ano e quando ele finalmente resolve trazer eu não estou.

(Eu) Ainda mais num horário desses, uma pizza quentinha cai bem…

-Nem me fale…

(Cobrador) Eram dois pedaços gelados, duros, não tava bom não…

-Mas era minha pizza, você comeu!

Me vê um ovo

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O outro comércio que tinha por aqui e faliu com o tempo foi o armazém da Dona Laide. Era mais profissional do que o sorvete, ficava na parte da frente do terreno, com uma porta de metal que dava pra calçada. Faliu porque abriram uma grande padaria quase do lado. Eu passava lá de vez em quando, para comprar um ovo. Nunca compro ovos. Quando eu me propunha a fazer uma receita de bolachinhas de mel, que usava um ovo ia lá e comprava. Na época custava 0,35. Dona Laide enfiava o meu um ovo num saquinho de papel e eu voltava pra casa e fazia a receita. Um dia, quando fui abrir o portão, acabei rachando o ovo e tive que voltar lá e comprar outro – naquele dia ela lucrou o dobro. Até que um dia eu descobri que aquelas bolachinhas faziam peidar muito e parei.

Livro natural

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Depois que chove e finalmente consigo tirar a Dúnia de casa, já sei que me espera um passeio mais demorado do que o habitual. Parece que a chuva abre possibilidades novas e ela se atira sobre os matinhos e cantos com mais entusiasmo, como se ali estivessem informações novas e deliciosas. Talvez a Dúnia já esteja bem ceguinha e eu nem sei, porque ela sempre foi um cachorro olfativo. Trajetos longos nada significavam pra ela se não fosse possível parar a todo instante para cheirar. Antes essas paradas me deixavam impaciente depois comecei a pensar que, visto de fora, também não tem o menor sentido que eu coloque diante do meu rosto uma tela branca cheia de fileiras pretas e fique parada. Ficar deitada na casinha e latir para quem passa é apenas a parte visível do universo da Dúnia, a parte que tenho acesso. Também tenho visto os chefs, e qualquer matinho eles já colocam na boca, provam as coisas cruas, pegam o camarão que foi pescado na hora, arrancam a cabeça, descascam e comem aquela carne transparente. Eu só consigo pensar numa água saindo da torneira, meia hora de molho com um pouco de água sanitária, quem sabe uma panela cheia de óleo quente. Claro que é nisso que eu penso, eu já coloquei alecrim em molho sugo e só soube que fica ruim porque comi. O dom que eu tenho é o de vir aqui e contar essas coisas, e contar tantas coisas, pequenas e fugidias, que vocês se iludem de que elas são mais importantes do que as de outros. Assim como o que sabe matemática vira o sabichão no colégio, o domínio da linguagem escrita dá a poderosa sensação de inteligência. Eu adoraria poder penetrar na magia do cheiro dos matinhos molhados.

Os chefs

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Estou vendo Chef´s Table e recomendei pra um monte de gente. Cada episódio fala de um chef, que além de ser super poderoso na cozinha tem que ser especial em alguma coisa. Além de dar fome e uma frustraçãozinha por saber que nunca comeremos aqueles filezinhos minúsculos de 500 dólares, a gente fica também com vontade de fazer algo pelo mundo. A série abre com Massimo Bottura, que já havia conquistado meu coração no documentário com o mesmo nome e que mostra um restaurante que ele abriu com os melhores chefs do mundo cozinhando de graça. Aí vem o que na busca pelos ingredientes perfeitos se envolve na produção dos alimentos, cada vez mais orgânica. Outro tem uma equipe de ciganos e cozinha ao natural, usando fogueiras,. Tem a japonesa que é puro amor. O que usou algas que ninguém comia, o pesquisou métodos antigos de conservação de alimentos. Aí chega num nova iorquinho e assim que o programa começa mostra que o tchans dele é fazer uma comida mucho loca. Quase desliguei. Grandes coisas, jogar os doces na mesa e fazer comer com os dedos, isso eu faço em casa (eca, não faço não). Achei pequeno, eu quero é chef que cozinha com método medieval e muda o mundo! Aí mostraram os pratos e, pensando bem, sendo muito sincera… Se fosse chef, eu estaria muito mais pra que faz pratos engraçadinhos do que o que cozinha em geleiras.

Um amor maduro

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Passávamos de carro pela Avenida Batel, um dos endereços mais caros de Curitiba. Aquela região, em especial, era cheia das antigas mansões dos barões de café, hoje todas transformadas em estabelecimentos comerciais. Ela me apontou uma casa de esquina, que naquele momento era uma das clínicas do meu plano de saúde. “Minha mãe vivia aqui, com seu segundo marido”. Minha amiga estava, conforme sua própria definição, na idade do sexo – sex agenária. Estava grande, vestia sempre roupas largas e desleixadas, enquanto a mãe se mantinha magra, era vaidosa, num daqueles casos clássicos que a mão parece ter menos idade do que a filha. O primeiro casamento, com o pai da minha amiga, havia sido um desses longos, de bodas que cobriam todas as pedras preciosas, e a mãe ainda passou muitos anos sozinha, de maneira que nesse segundo casamento a mãe dela já estava na terceira idade e o marido tinha pra lá de oitenta. Ela me mostrou de carro: todo final de tarde, a mãe e o marido trancavam a casa, passavam o cadeado pelo portão, e andavam de mãos dadas por toda avenida, tranquilamente, até chegarem no supermercado (que também não existia mais). Lá compravam um frango congelado, porque uma das especialidades da mãe dela era frango recheado.

-Que bonito, murmurei.

-Você achou bonito? Bonito nada, era uma porcaria! Você não imagina a quantidade de frango que os dois compraram em quatro anos de casamento, parecia um holocausto de frango. Eu pedia pros dois pararem de comprar frango, eram freezers e freezers, impossível comer tudo aquilo. Até hoje eu não suporto ver frango na minha frente!

Curtas de comidas sem

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Um café no meio da manhã com uma senhora com mais de oitenta anos. A casa tranquila, a empregada, TV ligada no Bem-Estar, o café passado na hora. Uma xícara a mais colocada pra mim, porções contadas de quem não costuma ter visitas àquele horário. Eis que ela se lembra de algo muito especial:

-Tem aqui um bolo, uma receita que passou na Ana Maria: é um bolo sem ovos, sem manteiga, sem nada.

Era sem nada mesmo, até branco ele era. Parecia mais uma alma penada do que um bolo. Não tinha nem uma casquinha tostada pra dar um gostinho. Minha educação não foi tão boa, recusei.

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Aniversário de um amigo vegetariano, cada um trazia uma coisa. Os pacotes e forminhas de todas as procedências se espalhavam na mesa improvisada. A única coisa com ar caseiro chamou minha atenção: uma torta salgada. Eu adoro torta salgada e nunca consegui fazer (!).

– Fui eu que fiz, é vegana – disse a amiga assim que me viu pegando o guardanapo.

Se ela não estivesse olhando, eu teria soltado a mordida de volta na mão, como criança. Tinha tomate, ervinha, cenoura e massa ligando tudo, o que tornava a torta tecnicamente uma comida. Mas não era comida.

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Numa loja do produtos naturais. Tenho conseguido transferir quase todas as compras que eu fazia pelo centro para perto de casa; agora que não frequento mais a Biblioteca Pública, quase não vou pra lá. O chato é que tem uma daquelas vendedoras hiper-eficientes, que oferece mais coisas até a gente sair de lá. Comprei meu farelo de aveia de sempre e:

-Chegou uma nova leva de pães, a senhora precisa comprar pão? Temos pães veganos. Pães sem origem animal. Pães sem açúcar. Pães sem fermento. Pães…

-Você estão oferecendo esses pães para a pessoa errada. Eu adoro pão e não estou fazendo nenhum tipo de dieta. Não quero pães sem e sim com. Quanto mais tiver dentro do pão, melhor.

Foi a única vez que consegui fazer a moça calar a boca.

O desafio do pão

Documentário Massimo Bottura: Teatro da Vida (Netflix) mostra um teatro reformado para servir de refeitório. No letreiro: NO MORE EXCUSES. Das mesas às pessoas que recebem, tudo é pensado para oferecer o melhor. Chefs do mundo inteiro que oferecem seu trabalho e conhecimento para servir gente que não teria condições de pagar. Os ingredientes? Comida que seria descartada. Por isso, e por estarem na Itália, sempre tem muito pão e todo ele é amanhecido. Mas nem um único chef serve o pão seco e duro. A cada chef, vemos soluções diferentes: colocar num caldo de cebola e cúrcuma para depois secar no forno, pudim de pão, como parte de uma massa. Dava para fazer um livro de receitas de pães amanhecidos. O que é encantador no projeto é a maneira como se oferece do melhor, sem a mentalidade de que se é caridade qualquer coisa serve. É uma visão contrária, de querer fazer um extra, de oferecer a quem se encontra numa situação de fragilidade um carinho a mais.

Ao invés de enfrentar burocracia, armazenar, separar e pensar sobre, não é mais prático pegar o resto de comida, moer, transformar em pelotas desidratadas e pronto? É sim. Mas quando se pensa em gente e em comida, não se deveria pensar tão facilmente em praticidade. Comer é uma das necessidades mais básicas do ser humano e partilhar o alimento sempre foi uma das mais sagradas. Quem não se sente reconfortado pelo cheiro da comida quente, seja ela um feijão caseiro ou até mesmo o carrinho de cachorro quente de madrugada? Pegar uma comida e sentir que ela tem textura, sabor, cheiro, temperatura, que ela pode brincar na boca, descer gostosinho e ser saboreada é ser reconhecido como gente. Pedir comida já é humilhante o suficiente, a carga de sofrimento e abandono das pessoas não precisa ser aumentada. Se preparar comida dá mais trabalho, ok, é um trabalho que precisa ser feito.

Curtas de gostos peculiares

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Existem muitas características a serem consideradas numa calça jeans: o cavalo estar na posição correta, nem pra cima e indecente e nem pra baixo calça caindo; não gosto das cinturas que nunca mais subiram e o fiofó vive aparecendo e as costas ficam geladas; qual o índice de gordura corporal necessário para não ficar com o bacon pra cima com essas malditas cinturas baixas? Mais ou menos aquele que a mulher deixa de menstruar; detesto que o botão acima do zíper seja dourado; brilhos e apliques, proibidos. Ou seja:

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Claro que comprar calça jeans é sempre uma tortura, experimento dezenas delas, odeio todas, volto depois, me conformo com a menos pior e costumo andar com as calças sempre meio caindo, porque prefiro assim do que muito apertada. Ah, mencionei que não gosto delas afunilarem embaixo?

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Doce pra mim sempre foi chocolate e sofria se passava mais de alguns dias sem. Aí peguei o hábito de comprar coisas frescas da padaria, experimentando cada dia um doce diferente e agora me dá nojinho de chocolate, sei lá.

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Fiz, meio sem querer, uma quantidade absurda de manteiga com coentro. No fim acabou sendo bom, porque coloco na sopa como se fosse óleo e ela fica com um gostinho de coentro mesmo sem ter coentro. Sim, manteiga de coentro, sem querer.

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Decidi que gosto de séries inglesas e nunca mais recomendar a ninguém. Falei muito bem de uma de matemática pra amiga depois dizer que achou um porre. É que elas são um porre na medida certa: gosto de assistir algo enquanto escrevo. Prefiro que não seja totalmente ficção e que tenha muitas horas, uma continuidade. E se for interessante demais, atrapalha.

Curtas de sorvete na geladeira

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Eu me senti muito adulta em descobrir um sorvete perdido. Quando na minha vida eu imaginei que chegaria o dia que um sorvete não seria devorado em qualquer pretexto de comer doce.

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“Eu olho pra você e lembro do coentro” – verdureiro do bairro. No caso, o coentro que ele vai passar a trazer pra mim.

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Para o telemarketing da Net: “Se eu acabo de te dizer que mal uso telefone fixo e o Now porque quase nunca ligo pra ninguém e assisto Netflix, acho que não faz sentido você tentar me mudar para um plano de ligações ilimitadas e mais vantagens na TV a cabo, né?” Ela ficou sem graça e me deixou desligar.

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A Dúnia estava com todas as necessidades satisfeitas – água, comida e passeio – e não parava de chorar. Ela tem tendência a chorar à toa só pra ganhar ossinho. Aí fico naquele dilema, de não querer atender o cachorro imediatamente pra não reforçar comportamento indesejado. Aguentei o quanto pude, e quando fui pronta pra dar uma bronca, descobri um passarinho se debatendo (e cagando) na sala inteira. Ela estava assustada com o barulho. Fiquei me sentindo uma monstra de sala suja.

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Que é meio difícil me tirar de casa é ok, o que eu não sabia é a diferença que faz saber que vai ter comida boa de graça. Válido para cultos de religiões simpáticas. Quero ver quem atira a primeira pedra.

Curtas de pequenas gostosuras

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Eu gosto de tomar café com pão de queijo sempre no mesmo posto de gasolina. Eu comprava o tal do pão de queijo de provolone apenas porque ele tem um formato comprido – acho mais original e anatômico. Aí cheguei lá e tinham acabado de fazer. E né que tem provolone mesmo?

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Quando a Dúnia vai trocando de pelo (ou, dito de outra forma, fica muito tempo sem banho), ela começa a perder tufos de pelo. Você olha no pelo preto dela e tem uns marrons, são os pelos mais soltos. Você puxa e sai um algodãozinho, é uma delícia. Quando ela para pra cheirar, chego do lado dela e puxo. Ela não gosta. Mas tolera. Aí fico perseguindo meu próprio cachorro pra puxar o pelo dele.

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Descobrir um autor novo para amar é… nossa.

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Redescobri o broto de alfafa. Melhor broto, melhor salada.

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Comecei a fazer aula num cantinho por vários motivos: tinha buracos no chão da sala (aluno pesado e cheio de entusiasmo na hora de sapatear) e o espelho costuma ser muito disputado, o que me fazia ficar cada dia num lugar. Até que enfezei e passei a fazer aula de frente pra porta, porque ninguém queria ficar lá e era mais perto pra abrir e me refrescar (a sala é num antigo estúdio de gravação, um forno). Aí descobri que é muito legal fazer aula sem espelho, a gente se solta mais. Apelidei o meu lugar de “O cantinho da auto-estima” e juro que melhorei muito depois que comecei a dançar lá. Pelo menos é como eu me sinto.

Pimentão

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Eu sempre classifiquei as pessoas em legais e aquelas que dizem que tomate e pimentão têm pele. Eu adoro pimentão e sou macho, como do verde.  Problema de quem reclama que ele não digere bem. Só que me informaram que a pele dele não faz bem, não apenas nesse sentido de deixar a pessoa conversando com o pimentão o dia inteiro – não era o meu caso, e mesmo se fosse, e daí? Best friends – e sim naqueles órgãos da gente que estouram e levam a pessoa pro hospital correndo pra fazer faxina por dentro. Me disseram que lá fica cheio de semente de uva e casca de pimentão. Essa informação veio junto com a de que tirar a pele do pimentão é muito fácil, é só colocar no fogo. Ok, pimentão no fogo. Coloquei, deu umas estaladinhas e continuou tão inviável de tirar pele como sempre foi. Como estou calejada, fui no youtube em busca de um tutorial e claro que lá ensina a tirar pele de pimentão. É só deixar direto no fogo até ele ficar todo preto e tampar pra que comece a desidratar. Fiz, faço. Mas devo dizer que me sinto muito mal. O método é simples e funciona bem, mas o legume fica moralmente abalado. A gente tira a pele e toda vontade de viver do pimentão. É uma violência. A gente pega um legume durinho, verde, bonito, cheiroso e resistente, uma verdadeira força da natureza. Aí coloca o coitado no fogo, estalando, cozinhando. De bonitão ele se torna uma pasta esmilinguida, um corpo torturado e aquoso que não merece nem o nome de tomate, quanto mais de pimentão. Pra tirar a pele tiramos tudo dele, toda fímbria, a consistência, o formato, tudo o que o caracteriza. Faço, mas faço sentindo aquilo como um mal. Faço para poder comer pimentão pra sempre e sem que achem peles dele dentro de mim. Mas aquilo talvez nem mereça mais o nome de pimentão. Aquilo está para o pimentão como o achocolato está para o chocolate, como o cabelo de chapinha está para o cabelo oriental. Acabo com ele para continuar a comer. É um amor destrutivo.

Curtas da gengibirra

GENGIBIRRA

… que além de ser o melhor refrigerante do mundo, fica (descobri recentemente) maravilhosa com limão. Se tivesse álcool, já teria que começar a comprar os brindes de Missão Resgate da vida (digam que no resto do país também se pede contribuição no ônibus para tirar as pessoas “do mundo das drogas e do crime”) pra saber onde me internar. E se eu fosse famosa, a Cini mandaria fardos mensais de gengibirra aqui pra casa, porque sou a maior divulgadora do produto deles.

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Sempre achei que ter cabelo curto faria com que jamais me confundissem com evangélica. Mas fui. Uma foi sutil: o dono da academia que eu frequentava falava de brincadeira “queima ele, Jesus” e “Jesus, apague a luz”. Eu achava engraçadíssimo e non sense e adotei. Uma amiga próxima, espírita, que me conheceu lá, levou um tempão com medo do que dizia do meu lado. Acho que tinha fama de crente e nem estava sabendo. Não sei até hoje se quem achou que eu era por causa disso tem uma visão estranha de religião ou eu é que sou muito por fora do que os evangélicos falam.

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A outra foi recentemente. Acho que por causa da crise, pipocaram os carros que vendem coisas aqui no bairro. Sempre ignoro o carro com ovos, perco todas as vezes o carro que conserta panelas, enquanto estava na dúvida o das tortas se foi, aí quando passou o dos salgados quase me atirei na frente dele. Tem sem carne? Presunto é carne. Não moça, salame também é carne. Aí ela me perguntou se eu era adventista. Que raiva que me deu, não se fala isso pra uma cliente que acabou de ser frustrada no seu desejo de se encher de fritura.

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Não comentei aqui pra não dar zica, mas tive um semi-entrevero legal com o meu vizinho, por causa de um muro. Gastei com advogado e tudo, foi tenso. Mas, no fim, deu tudo certo. Aí tive que mandar fazer um teto pra cobrir a lage atrás, que estava vazando, e a obra nem começou e o cara se pendura no muro, indignado, achando que eu ia cobrir a área que até alguns meses estava brigando com ele para manter intacta. Depois, ficou um tempão dando pitaco no trabalho do pedreiro. “Teu vizinho é um chato, né?”, ele me disse no final do primeiro dia de obra. Nem me fale, queridão, nem me fale.