100%

grafico

Eu achava muito interessante uma tática que conheci de um violinista, que já chegava nos ambientes e perguntava: Fora as coisas ruins, tudo bem? Se não ganhava um Tudo Bem imediato, pelo menos era “é, fora as coisas ruins…” daqueles que normalmente passariam horas se queixando. Também acho cafona a moda de falar “gratidão” pra tudo, mas talvez seja realmente o melhor princípio contra o mimimi. Me pego cada dia mais impaciente com os que tem o hábito de reclamar. Tenho amiga desempregada há um tempão que provavelmente leu isso e pensou: “poxa, mas você não sabe o que estou passando, foda ficar desempregada”. E digo: não é de você que estou falando. Já perceberam que as pessoas que mais reclamam nunca são as que estão realmente mais ferradas? Aí que entra o conceito de gratidão: se você vira para elas e fala que, apesar de X, ela tá saudável, bonitona, namorado apaixonado e fazendo o que gosta, a resposta será um “É..” bem muxoxo. Para esse tipo de pessoa, o que falta lhe dói muito; já o que ela tem é tão básico, tão obrigação do universo, que nem conta. Nem se você não apenas também esteja passando por X como ele ainda é multiplicado por y², a outra se sente menos coitada. O que eu posso afirmar, do que sei da vida e das pessoas (imagens projetadas em redes sociais não contam) é que ninguém tem 100% da vida maravilhosa e bem resolvida. Todo mundo tem um lado mais difícil: a de carreira ótima não tem sorte no amor, o de vida mansa tem saúde ruim, o cônjuge maravilhoso vem com ex chata no pacote, por aí vai. Do mesmo modo, apesar dos mimizentos profissionais, também nunca vi alguém 100% ferrado, com tudo ruim ao mesmo tempo, sem absolutamente nenhuma fonte de felicidade. Tem felicidade sim, a pessoa que faz questão de ignorar pra poder reclamar melhor. Então, vai se vitimizar pra lá e fora as coisas ruins tudo bem, ok?

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Calcinhas e cuecas

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Quem está em cima acaba sendo insensível com quem está embaixo sem saber. Dia desses eu estava contando as moedinhas pra não entrar no vermelho e estava para receber um dinheirinho. Só que para a pessoa que me devia aquele era um dinheirinho tão dinheirinho, que tanto fazia me pagar naquele momento ou semana seguinte.

Roupa íntima a gente joga fora quando fica feia ou esgarçada, e muita gente passa a tesoura nelas antes de se livrar. Eu fui informada há anos que em hospitais com grande fluxo de gente, eles repassam as doações de roupas íntimas para os mais pobres. Há pessoas que, quando sofrem acidente e tem a roupa cortada, não têm condições de repor nem a roupa íntima.

Curtas de Kant (but tried)

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Aquele momento que você tem vontade de ler um dos seus livros preferidos e se toca de que não repôs a última vez que presenteou alguém com o seu exemplar.

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E até hoje nunca valeu totalmente a pena. Uma pessoa não se mostrou merecedora a longo prazo, outra comentou vagamente que deu uma olhada…

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A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, antes que alguém me pergunte. Amo tanto esse livro que quando o ouvi como leitura preferida de uma Fulana que não o merece eu…

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Vi Alicia Florrick levar uma baita rasteira lá pelo final de The Good Wife e tive um insight fortíssimo sobre minha falecida carreira acadêmica. Não é que meu ex-orientador não tenha entendido minhas prioridades e sem querer me chutou para sempre, eu é que nunca fiz sentido.

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Entender isso me deu vergoinha do tanto que já reclamei desse assunto. Aí li um outro reclamando por aí da atenção que não recebe pelo talento que não tem e me deu vergoinhona. Vamos combinar: a grosso modo, nós estamos onde merecemos. Somos muito mais do tamanho dos nossos talentos, escolhas e esforços do que gostamos de admitir.

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Não parece verdade, mas existe um estágio tal de segurança que nem os elogios são necessários, porque as coisas são como são. Tenho lampejos e desejo fortemente que eles fiquem e se instalem.

A grandessíssima forma cultural mais elevada

Tem a história que todo mundo já deve meio conhecer, do sujeito que encontra outro dormindo debaixo da árvore e quer convencê-lo a trabalhar. As perguntas vão indo e, no final, o cara da árvore leva o raciocínio até o fato de o grande privilégio de ter muito dinheiro era fazer exatamente aquilo que ele, sem dinheiro nenhum, já estava fazendo. Com suas ressalvas, eu me pergunto se o discurso em torno da cultura letrada, acadêmica e elevada não é um pouco assim, como se fôssemos o primeiro cara da história, o capitalista. Ler, ouvir música e meus vários envolvimentos com a cultura podem realmente me engrandecer como pessoa, mas isso é um efeito secundário. O que leva alguém a um livro ou uma música é o prazer – acredite em mim, quem diz que lê para melhorar vocabulário ou se informar nunca é um grande leitor. Com a cultura buscamos um prazer que vai além do simples comer e fazer sexo; existe um prazer etério, fora do chão, uma imersão em algo maior. Não me parece que a cultura seja um fim em si mesma, talvez seu grande objetivo seja nos tornar mais humanos. O que eu sinto ouvindo Schumann o outro pode sentir com coisas diferentes, eu não tenho como saber. Então, muita calma nessa hora de classificar as pessoas.

(Não acho que ele se importe mas não custa dizer: o Milton Ribeiro que indicou este vídeo)

Borra que não pode ser extinta

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Foi quando escrevi sobre O Tambor que soube que Günter Grass chocou os fãs ao contar que fez parte da juventude hitlerista. Quando li aquilo, não tinha a menor intenção em me aprofundar no assunto; mas, quanto terminei O Linguado, percebi que não estava preparada para abandoná-lo, com a sua imaginação delirante, escatológica e engajada, e me vi pegando mais dois. A autobiografia me prendeu logo nas primeiras páginas. O mea culpa que ele faz é tão profundo, tão sem escusas, que fico surpresa dele ter “apanhado” por isso. A dureza com que Grass olha pro seu passado, ao se acusar de não fazer perguntas, se negando até a alegar que foi seduzido, me lembrou do livro (que inspirou o filme) O Leitor e alguns documentários que vi sobre a maneira como os alemães lidam com seu passado: o horror pela sua participação, a necessidade de olhar e o problema insolúvel da normalidade. Os mesmos avós e tios amorosos dos doces e natais em família participavam de um sistema que matava.

Eu não consigo culpar Grass com tanta dureza porque também me parece que me calo demais. Não tem Hitler, gueto ou câmara de gás, mas olha o que está acontecendo – esse golpe, essa corrupção, esse imenso absurdo de perda de direitos. Também diremos:

Palavras invocam outras palavras. Dívidas materiais e dividas morais, culpa, dívidas e culpa, Schulden e Schuld. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão arraigadas no solo da língua alemã e ainda assim as dívidas – mesmo que seja em parcelas, conforme faziam os clientes de minha mãe que compravam fiado – podem ser amortizadas com tanta facilidade ao passo que a culpa, tanto a culpa demonstrável quanto a oculta, ou mesmo aquela que é apenas presumível, permanece. Ela tiquetaqueia sem parar e mesmo em viagens a nenhures ela já se adianta para ocupar lugar aonde ainda nem chegamos. Ela diz-se ditadinho, não teme repetições de nenhuma ordem, faz-se esquecer, clemente, por algum tempo, e hiberna em sonhos. Permanece na condição de borra, ao fundo da xícara, não pode ser extinta em sua condição de mancha nem lambida até secar sua condição de poça. Ela aprendeu desde cedo a procurar refúgio em uma concha de ouvido quando confessada, a se fingir prescrita ou perdoada há tempo, menor do que pequena, como se fosse um nada, e então volta a se levantar de novo, assim como a cebola diminui, membrana a membrana, inscrita duradouramente nas peles mais jovens: às vezes com letras maiúsculas, outras, na condição de oração subordinada ou de nota de rodapé, de quando em quando perfeitamente legível, em seguida mais uma vez em hieróglifos que, se é que podem ser decifrados, podem sê-lo apenas com muita dificuldade. Para mim vale, legível, a inscrição breve:

Eu me calei.

Günter Grass/ Nas peles da cebola, p.31

Curtas de todo cuidado é pouco

inverno

Tive que colocar duas roupas na Dúnia, ou seja, não adianta choramingar, chegou mesmo.

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Enquanto estava esperando o vendedor chegar com meu celular novo, uma mulher estava pedindo informações sobre uma Nespresso. Minha vontade foi de chegar junto dela, fingindo que estava vendo outros produtos e lhe falar de lado, como nos filmes: “A sua conta de luz vai aumentar…”

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Um dia, com mais paciência, eu descrevo aqui a luta que empreendi semanas contra um rato. Quer dizer, quero crer que era apenas um. Quando finalmente descobri de que buraco ele vinha, fiquei chocada em perceber que minha casa não foi invadida por ratos há anos porque eles não quiseram. (Certamente não quiseram porque aqui é limpinho, oras)

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Já vi um monte de notícias sobre a Malala e o livro é bem conhecido, então tinha decidido que ele seria o meu “livro de ficar na bolsa” da vez, mesmo porque essa vida de carregar livro de mais de quinhentas páginas cansa. Aí, logo no início ela conta sobre o tiro e me escorro em lágrimas grossas. Vou ter que continuar nas quinhentas páginas -vai que Malala é nível Menina que roubava livros em choradeira?

O dia que eu disputei um campeonato com a Fabiola Molina

Agora que já contei pra vocês o meu mini-drama pessoal com a saída, criei o contexto pra que vocês entendam essa história.

Explicações sobre os campeonatos: ao contrário das Olimpíadas, que só conta o tempo, campeonatos costumam dividir os nadadores em faixas etárias de 5 anos e competimos apenas com os que nadam na nossa faixa. Quando essa história aconteceu, por exemplo, eu era 35+, ou seja, competia com pessoas com idade entre 35 e 39 anos. Quando o programa de provas é divulgado, você precisa informar sua idade, que provas quer disputar e qual o seu tempo em cada prova. Isso permite que façam o balizamento, que tenta fazer com que pessoas de tempo e idade parecidas nadem na mesma série. O mais rápido fica com a raia do centro, a 4, e os outros tempos vão se distribuindo ao lado – 3 e 5, 2 e 6, 1 e 8. Não tem ninguém que verifique esses tempos, e sempre há a possibilidade de surpresas, mas no geral eles são fiéis os suficientes para que, mesmo antes de entrar na água, a gente faça ideia de qual será a nossa colocação. Essa é uma das coisas que eu adoro em natação: no fundo, todo mundo lá está competindo sozinho, consigo mesmo. O objetivo é melhorar o nosso tempo, a medalha vem como consequência.

Era um campeonato brasileiro, no Clube Curitibano, que tem uma bela infraestrutura e uma piscina de 50 m. Quando a gente nada numa piscina de 25 m e vê uma de 50 m, ela nem parece de verdade. Eu lembro da sátira de uma novela que o Casseta & Planeta fazia, cujo patriarca da família tinha uma mesa enorme, e eles faziam uma montagem tosca estendendo aquela mesa ao infinito. É essa minha sensação sempre que olho para aquela piscina. Quando eu cheguei lá, de manhã, para disputar a prova que eu mais gosto – 1500 m livres – o clube estava vazio. É uma prova chata de assistir, mais de 15 min por série e ocupa a manhã inteira. Só aparece lá aquela hora quem tem que nadar e meia dúzia de fanáticos. Disputei minha prova, ganhei minha medalhinha e estava bem feliz.

Ao meio dia, horário que começava o aquecimento das provas da tarde, aquilo se tornou um inferno na terra, como se todo mundo tivesse resolvido sair de casa ao mesmo tempo. Torcidas barulhentas das outras escolas, pessoas que viajam em caravanas de vários lugares do país, amigos e parentes; na piscina, fila para subir nos blocos, rodízio na raia, todos os ganchos para pendurar toalhas ocupados. Tenho uma piada interna com umas amigas de que pra saber se a gente tem chance ou não, é só ver se a nadadora ao lado usa macaquinho. Se usa é porque não vai dar. Maiô custa barato, é só pra cobrir as partes, enquanto aqueles macaquinhos são todos elaborados pra melhorar desempenho e custam muito caro. Só quem realmente se importa e vive pra nadar gasta com aquilo. O bacana dessas competições de natação é que, ao contrário do que a gente imagina, tem gente de todo tipo. De um lado realmente estão os deuses gregos, altos, ombros largos e sem uma gordura no corpo, mas também tem gente baixinha, comum, de tudo quanto é tipo físico. Tem, por exemplo, os competidores de terceira idade, alguns com mais de 80 anos, que competem há décadas e lá reencontram os amigos. Os deuses são os que levam à sério, já a grande maioria está lá pra se divertir, pela experiência.

Tudo o que eu queria naquela tarde, depois de haver disputado a prova que queria, era só uma coisa: ficar anônima. Eu me inscrevi em outras duas porque já estava lá mesmo e provavelmente seria colocada no revezamento. Mesmo sabendo que a barrigada não era surpreendente, eu não queria que me olhassem – eu sou eu, ué, tenho minhas vaidades. Meu professor me olharia, meus colegas de turma me olhariam, já eram olhares demais pra minha saída insegura. Só que aquela tarde era especial. Um zunzum se espalhava entre os nadadores e eu ouvia pelos cantos: “está sabendo que ela chegou”, “é verdade que ela está aí?”,”sim, eu vi, ela chegou”. Pessoas que eram fãs, pessoas que só vieram por causa dela. Aí eu fui informada que a Fabiola Molina, nossa nadadora de três olimpíadas que anunciaria a aposentadoria em poucos meses, nadaria uma prova aquela tarde.

Eu sabia, pior que eu sabia. Quando fui ver o meu balizamento, alguém da minha faixa etária tinha colocado um tempo absurdamente bom. Fui ver o nome da fulana que estaria ao meu lado na raia 4 e era a Fabiola Molina. Mas eu não achei que fosse realmente aquela Fabiola Molina. Olha. Imaginem a situação de uma pessoa que queria ser anônima e se descobre ao lado de uma atleta olímpica. Na hora da minha prova o clube simplesmente parou. Centenas de pessoas em silêncio olhando para nós, na borda da piscina. Eu me senti no palco de um show de rock. Fabiola chegou atrasada, porque durante todo trajeto alguém a interrompia e queria um aceno ou uma foto. Os juízes entenderam e esperaram. Ela super simpática, sempre. Estou tremendo só de lembrar. Tudo pronto, subimos no bloco e dava para ouvir tudo o que se falava no microfone, ao contrário do barulho ensurdecedor de sempre. Caímos na água e eu nem vi onde ela foi parar, de tão longe que ela salta. Se eu não me engano, era uma prova de 50 m livres. Claro que ela passou mais de 15 segundos na minha frente e bateu o recorde da prova. Se ganhei medalha foi de bronze. Quando cheguei na borda ela ainda estava lá, porque aqui no Brasil não pode sair da piscina antes dos outros (em outros países pode). Saímos da piscina e consegui uma foto. Vou até manter a moça, porque a câmera era dela e ela foi muito gentil em me deixar sair junto.

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Nunca pensei que nadaria com uma atleta olímpica. Viver não é ducaralho?

Um trauma dentário

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Eu adorava água quando era criança, dizia que queria ser nadadora, pegava onda. Mas a vida é a vida e fui ter chance de fazer aulas de natação há poucos anos. Mal comecei as aulas e veterano que nadava comigo profetizou: essa daí vai ser nadadora. Até comentei com meu irmão, que fazia aula de natação há anos, e ele fez uma careta de quem achou que foi pura cantada. Não era. Em pouco tempo estavam me dizendo para participar do campeonato que teria em poucas semanas. Foi aí que começou o problema, eu disse que não poderia participar por não saber dar aquele pulo pra cair na água, que eu a vida inteira havia chamado de Ponta e chamam de Saída. Eu dava barrigada, ou melhor, nunca tentava pular por ter vergonha das minhas barrigadas. No prédio tinha piscina e cada barrigada era careta, as crianças rindo e eu me sentia mal, então nem tentava. O professor foi um fofo e ia comigo até o bloco (aquele lugar onde se sobe pra pular) e segurava a minha mão porque só de estar de pé ali me dava tontura (ainda dá, nunca fico de pé). Com esse professor eu consegui me propor a subir no bloco e cair na água. Participei de uma competição, meses depois, e voltei pra casa com medalhas.

É que, apesar do pulo patético, eu nado bem, provavelmente pela minha história prévia com a água. Eu mudei de escola e nela a pressão para participar de competição se tornou ainda maior, tanto porque lá eu fiz mais amigos como também por ter melhorado ainda mais. Quando as datas das competições se aproximavam eu passava a treinar saída, coisa que nunca fazia nas aulas. Me programar pra começar a fazer saída, mesmo não dando mais barrigada, nunca deixou de ser desagradável e fazer com que eu me sinta exposta. “Como pode”, as pessoas começam a se questionar e me questionar, “uma pessoa que nada tão bem fazer uma saída tão ruim? Você tem que” aí começam a me dar aulas de como fazer a saída, como se ouvir explicações fosse o que me falta. Uma professora me sugeriu, para aprender a mobilizar a força das pernas e pular pra longe, subir no degrau do bloco e dar um pulinho. O degrau não devia ter mais que 30 cm de altura. Quando ela me mandou pular, a ansiedade foi tão grande que não consegui. Não era pra saltar na água não, era pra dar um pulinho no chão. Fiz outras tentativas em casa, pra ter meu tempo e não ser vista por ninguém, e em todas elas eu sentia uma mini-crise de pânico. Me dava a impressão de que eu ia morrer, desequilibrar, bater com a cara no chão, não sei.

Comecei a me perguntar de onde aquilo, uma sensação tão atávica de medo e justamente naqueles dias meu irmão mais velho passou por aqui. Perguntei sobre um episódio que eu não tenho a menor lembrança, mas que cresci ouvindo e via as marcar num sofá que meu pai teve durante anos: eu e ele estávamos brincando de saltar pela sala, vendo quem saltava mais longe. Eu não devia ter mais do que três anos. Num dos saltos eu calculei mal ou me desequilibrei e caí de boca na madeira do sofá. “Tinha tanto sangue, você berrava de um jeito!” O sofá era de laca preta e ficou a marca direitinho – todos os meus dentes superiores entraram na gengiva. No começo acharam que eu tinha quebrado e estranharam quando não acharam nada. Meus dentes tiveram de ser puxados, o que explica também o fato de eu ter sido a única da família a precisar usar aparelho. Acredito que depois disso nunca mais quis brincar de pular. No balé todos meus pulos eram horríveis, sem força, eu caía dura e forçava o joelho. Tentar pular alto me deixava com medo.

Ok, aposto que te convenci. Tenho a melhor explicação do mundo para o meu problema com a Saída. Só que isso não muda nada, não pro mundo. Não faz com que os outros achem justificável que eu, que nado “tão bonitinho”, continue fazendo uma saída ruim. Quando me pedem para treinar durante a aula e tem uma platéia de outros nadadores, não faz com que eles deixem de achar menos esquisito o descompasso entre minha técnica na água e a minha entrada na água. E, principalmente, não faz com que numa competição me deem de volta os dois segundos que eu reduziria se saísse bem. Eu acho que esse é o grande X quando a gente realmente se encara como adulto: traumas psicológicos são nossos pontos de partida e ajudam a explicar a origem das nossas limitações, apenas isso. Na hora de seguir em frente, temos que fazer e pronto, igualzinho os outros.

Descrição

coração e cérebro

Uma amiga, nesses meios ultrasensíveis de entender as pessoas, me definiu como alguém que tem por objetivo estar cercada de afeto. Eu jamais teria pensado em mim mesma nesses termos ou de descrever isso como um objetivo mas, de fato, já deixei de lado situações que me dariam status, dinheiro, etc, porque estar naquele meio não me agradava. Não agradava também os outros, mas eles se mantinham lá em vista do que aquele contato podia render, nem que fosse apenas no Lattes. Sempre preferi posições menos vantajosas com pessoas que me faziam bem. Quem diria que sou carpe diem – expressão que eu sempre associei a festas e putaria.

Personagens amam ser escritores

hemingway-escritorEu sempre achei o cúmulo de falta de imaginação perceber que é muito mais frequente as pessoas quererem ser escritores em livros, ou seja, enquanto personagens de livros, do que na vida real. Ou se eles, escritores, eram assim tão narcisistas de não conseguirem imaginar algo mais motivador do que ter a própria ocupação deles. Aí quando me vi tentando escrever algo mais longo e verdadeiro, o quanto é preciso ter vivência e o quão pouco conseguimos escapar para além do que vivemos. Lembro de um conto do Oscar Wilde com uma descrição tão boba do que é ser um pescador – acordar cedo, jogar a rede, o cheiro do mar – que eu mesma poderia ter feito, aqui da minha cadeira. Porque provavelmente ele o fez da dele. Somente alguém que já foi até o pescador e a rede, melhor ainda se tiver sido um, pra saber dos detalhes. Imagino que a mão seja calejada de uma maneira diferente, que a rede possa cortar as mãos, que cada tipo de pesca tenha um conjunto de procedimentos diferentes. O mundo interior de quem se vê frente a frente com o mar não pode ser o mesmo de quem acorda cedo pra enfrentar trânsito. Mas que mundo é esse, que talvez o próprio pescador não saiba definir em palavras? Então o escritor se vê entre descrições pobres do que ele só imagina ou falar do que realmente sabe porque já viveu. E do que um escritor sabe? De profissões ligadas a escrita. Não é falta de imaginação ou narcismo, é apenas limitação.

Curtas de expectativas curtas

no balanço

Vou confessar uma coisa: é extremamente difícil arranjar o que escrever quando passei o dia sozinha. Eu gosto, mas é como se minha inspiração funcionasse melhor com um debate silencioso com os outros.

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Estava conversando com uma amiga sobre aquelas roupas que não estão limpas o suficiente pra voltarem pro guarda-roupa mas também não estão sujas pra ir no cesto. Você foi até a esquina e voltou, não teve nem tempo de suar. Aí elas ficam num limbo de roupas, esperando para serem usadas pra valer. Ela me disse que na casa dela chamavam de roupas “começadas”. Já adotei.

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À caminho da padaria vi um cartaz que dizia que há um local para consertar bikes a 300 m. Na volta decidi ir pra lá, virando à esquerda ao invés de seguir em frente, pra ver se achava o tal lugar. Não achei o conserto de bikes mas vi adolescentes suspeitos numa praça que até então acreditava segura, o escritório novo do meu ex vizinho numa casa enorme, uma mecânica de carros e uma igreja Quadrangular exatamente uma quadra de casa. Me senti a pessoa mais ignorante do bairro.

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Acreditam que veio um outro cobrador, à noite, que ao contrário do que tinha jeito de malandro é um que eu conheço faz tempo, gente boa, evitava assaltos, e ele quis que eu passasse pagando dois reais fora da roleta. Sério, é cada história que ele conta, a expressão de pessoa sofrida, pra ele não tem como dizer não. Pior que ele quer ter esquema porque sempre pego ônibus o mesmo horário e tal. A gente quer ser bom e a sociedade…

Confidente

gato na banheira

Lembro do João, um dos melhores amigos que já tive na vida, e que quando alguém lhe perguntava se podia fazer uma confidência, ele dizia que Não. Outra alternativa seria: “Se eu puder escolher, não, mas você vai me contar do mesmo jeito, né?” E contavam mesmo. Mesmo eu lhe fiz uma confidência, mesmo sabendo que ele não gostava. Hoje eu me pergunto porque ele foi o único que ouviu aquilo da minha boca naqueles anos, um assunto que ainda hoje é meio difícil pra mim. Talvez justamente por ele não gostar, por eu saber que diria e tudo morreria ali. Me pego pensando nisso pra entender o porquê hoje sofro desse mesmo mal, de ser confidente involuntária das coisas mais dolorosas. É de uma confiança e consideração muito grandes, mas eu me sinto novamente o tal do Nostradamus português (“Ah, vou escorregaire nesta casca de banana!”). Estou anos luz na frente dos outros, que estão vendo a aparência e eu sei o que significa e onde vai dar. Talvez o grande mal do confidente seja a certeza da sua impotência.

Slash em Curitiba

slash

Adoro a Dani contando essa história. Vou tentar reproduzir a forma como ela diria:

Eu sou fã do Guns e quando soube que o Slash ia tocar em Curitiba fiquei toda feliz, corri pra comprar ingresso antecipado, comprei com um mês de antecedência. Eu postei foto do ingresso no Facebook, foto dele, fiz contagem regressiva. Eu lembro bem que o show era numa quarta-feira e no ingresso dizia que começava às 20:30. Estava passando aquela novela da Carminha e eu calculei: “Diz que começa 20:30, sempre atrasa, internacional, rock… Vai dar tempo de ver minha novela”. Depois que a Carminha terminou, eu chamei um táxi e fui. Quando cheguei na porta do lugar, havia uma multidão lá, o pessoal veio pra cima do meu táxi, todo mundo querendo pegar antes que ficasse sem. O show tinha acabado de acabar, ele tinha começado pontualmente às 20:30. Eu ainda dei carona pra uma moça que suplicou para que eu deixasse ela subir e voltei pra casa.

Oi, oi, oi.

Não é amor

Tem um texto antigo do Veríssimo (só conheço os antigos) que alguém pergunta a um torcedor se ele ama o time. Não, não amo. Ele começa a listar as coisas que faz e sente pelo time, como acompanha os resultados, sofre com as derrotas, gasta dinheiro com camisas, pra ver o jogo ao vivo, se mete em discussões, quase morre nos lances difíceis. Mas, amor, não é amor, é o time dele. Ser torcedor – tal como colocado no texto, não sei dizer porque não sou – é quase como uma sina, algo que se pudesse escolher até faria diferente. Dependendo do ponto de vista, é mais do que amor. Alguém pode amar ou não um filho e nem por isso ele deixa de ser filho, mais ou menos assim.

Flamenco, quem disse que eu amo flamenco.

 

Odor

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Já passam das 22h, o céu está encoberto e não há estrelas para olhar. Verifico olhando para cima e confirmo que não há nada. No prédio chique por onde passo, a luz da garagem se acende e sempre me parece um cumprimento. Eu me pergunto se o porteiro que certamente está debaixo do vidro espelhado sabe quem eu sou, se ele reparou nos meus horários tanto quando os cobradores dos tubos. Estou de vestido. Não é prudente estar naquele horário de vestido, eu sei e não ignoro, mas é que eu achava que as chances de ganhar carona até a porta de casa eram quase certas e não foram. É um vestido novo, que já havia namorado na loja e acabei ganhando numa promoção. Estou feliz, me sinto bonita dentro dele. A noite está agradável, a conversa foi boa e tem comida pronta me esperando na geladeira. Na direção oposta, na mesma quadra, vejo dois rapazes passarem. São jovens e bonitos, provavelmente vizinhos, num desses prédios grandes e chiques da região. Devem ter ido para a padaria, conversaram muito, ficaram até fechar. Eu me sentindo tão bonita no meu vestido novo, me pergunto se eles também vão me achar bonita. Devem ser mais novos do que eu, mas sinceramente já nem sei mais qual a minha faixa etária ideal; antigamente era pra lá de anos pra cima, uma década, aí me pego surpresa quando um homem da minha idade ou pouca coisa mais novo olha pra mim. Eles conversam animados, sem me dar bola, eu sigo no meu passo e finalmente nos cruzamos. Eles vão um pouco mais para a esquerda, eu um pouco mais para a direita, num balé de fingida indiferença. Sinto, muito claramente, naqueles poucos segundos, cheiro de álcool. Arriscaria dizer que foi cerveja importada, qualquer uma da imensa variedade que vende na padaria, que por sinal também é muito chique. Importada, deve ser importada, digo pra mim mesma, daquelas garrafinhas que se compra uma ou duas. Mas já é tarde. O cheiro entrou em mim e senti o que sempre sinto, senti que não conseguiria, não consigo, não consigo. Estou bonita no meu vestido novo na noite agradável e penso que nunca serei como os outros, eu não consigo, o que deveria ser tão normal, o cheiro, o álcool.