Só li verdades

Quer coisa mais desagradável do que a verdade? Por isso que digo que falar a verdade é um dos meus mais graves defeitos. Para me conter, procuro adotar como regra não dar a minha opinião a não ser que ela seja pedida. Mas o conceito de pedir é tão relativo… Teve uma semana no começo do ano que eu estava atacada, e disse pelo menos umas três verdades por aí. Gente, foi horrível. Mais uma dessas e as pessoas vão fazer complô pra me esfaquear, igual livro da Agatha Christie. Uma das vítimas foi uma amiga, que há tempos vinha exagerando numa insegurança. Uma pessoa boa e tal, mas era um problema de anos, uma lamentação sem sentido, todo mundo naquela atitude de “adoro Fulana, mas que saco quando ela…”. Aí ela veio com aquele papo num dia que meus pacová estavam pra cima e PLÁ, falei a verdade. Não precisei nem de cinco minutos pra escrever a um amigo, já arrependida.

 

(Vivo contando essa história por aí. Ela sempre vem acompanhada de um “por isso que eu adoro homem”. Uma mulher, como vocês perceberão, jamais diria o que ele me disse.)

 

Expus todo caso e as provas. E que tinha acabado de mandar resposta com isso isso e aquilo. Depois de ouvir tudo, ele apenas me respondeu:

– Se ela deixar de falar com você, vai te fazer falta?
– Hummm… não.
– Então está resolvido.

Essa história, por incrível que pareça, é a minha reflexão de 2015. As coisas não foram da forma como eu planejei, de jeito nenhum como eu pretendia, a truculência foi maior do que eu imaginava. Minhas mudanças não têm batido na porta – elas colocam as portas abaixo e vão entrando com suas botas enlameadas. Nada como eu teria feito, nada sob controle. Mas, sendo bem franca comigo mesma: não me fazem falta.
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Um problema de

“Também, você é muito difícil, eu levei meses puxando papo até você começar a falar comigo”. Eu não respondi nada, porque na verdade aquilo não foi porque eu sou difícil. Tá, eu sou difícil, mas não tão difícil. No caso dela, assim como no caso de outras pessoas, eu tinha uma reserva, uma intuição, que me impediam de querer a sua presença. E minhas intuições quase sempre se mostram verdadeiras. Assim como existem os casos contrários, pessoas que não me fizeram nada e que já amei logo no primeiro contato. Tem umas amizades que são construídas, mas tem aquelas que mais parecem um lembrar do que um começar. Para citar uma, apenas um exemplo – porque se eu começar a falar de quem é assim, posso dar a entender quem não é -,  tem a Silvia. Nem eu sei explicar minha afinidade com ela. Mais nova, curte metal, flauta doce, boxe, tatuagem, rochas. Aparece em Curitiba uma vez a cada três anos, me avisa, ficamos algumas horas juntas e é como se fosse minha vizinha. E não é que com ela eu tenha conversas que eu não tenho com ninguém, não somos confidentes nem nada, é normal. Mas, sei lá, vou demais com a cara da Silvia.
Então eu vejo que posso gostar demais da ficha de um sujeito. Posso amar suas ideias, suas camisas, seu avatar, seu Instagram. Os amigos em comum podem falar que ele é ótimo, nosso senso de humor é parecido e temos tanto em comum. Sua escrita pode ser fenomenal e sem erros de português, os seus livros podem ser os meus livros. Vai ver que, como nos filmes, a gente só não tenha começado porque ele costuma sair dos lugares minutos antes de eu entrar. Mas mesmo assim pode não ser. Eu preciso sentar – de pé é mais desconfortável – diante dele e olhar nos seus olhos. Ele pode ter tudo e ao mesmo tempo não. Ou pode não nada e sim.

Chá

Foi assim: depois de comer pastéis na segunda noite seguida durante a semana, fiquei muito enjoada e mal conseguia comer. Então tomava café. Quando dei por mim, estava há quase dois dias à base de café, praticamente uma Balzac. Aí decidi fazer uma nova tentativa – nem sei quantas foram ao longo da vida – de me tornar uma pessoa que toma chá. Apesar da minha triste história com chá. Pra falar a verdade, há anos tomo chá socialmente, se a pessoa me oferece um daqueles bem especiais. Fui no super e comprei uns chás bons, misturados e especiais. Agora, principalmente à noite, quando me bate aquela sede que não deve ser saciada com café, leite já larguei faz tempo e refrigerante não bom, tomo chá. Todo dia rola chá aqui, tá bonito de se ver, estou quase uma inglesa. Só falta eu gostar. Boto fé que conseguirei, pelo menos não faço mais careta.

 

É por essas e outras coisas que vejo que cinquenta anos, cem anos, não são nada em termos de mudanças sociais. Opa, comassim o assunto foi de chá à mudanças sociais? Me explico: cinquenta anos não é nem uma geração, cem anos não chega a duas. O ser humano é um bicho resistente, determinado praticamente todo na infância, emperrado e burro, que leva a vida inteira pra mudar um hábito simples como aprender a gostar de chá. O que dizer de coisas mais graves, que incluem a necessidade de rever conceitos, aceitar as diferenças, fazer justiça aos acontecimentos? Nascendo de novo ou só nascendo novos.

Curtas natalinos

Vou dizer a verdade: o post de hoje é de curtas natalinos apenas para eu poder usar a figura ao lado.

 

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Comprei um chocotone de supermercado, que estava numa super promoção e eles garantiam que tinha a mesma qualidade dos de marca. Fui abrir e claro que tinha uma gotinha preta aqui e outra lá, era praticamente um pão. Mas sabe que estava mais gostoso? Colocam essência e chocolate demais hoje em dia.

 

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Eu pensava que esse ano escaparia de comprar lembrancinhas. Sempre dei presente pro pessoal da lavanderia, mas agora vou lá bem menos, achei que não ia rolar. Mas me deram presente mesmo assim e abraços, de maneira que tive que sair correndo. Uma das muitas coisas doídas da separação é admitir publicamente que acabou. E, por estranho que pareça, elas eram as que mais me doíam contar (o que nem foi necessário). Ali sempre houve um carinho mútuo, daqueles simples e sinceros.

 

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Por falar em contar, praticamente mantive meus planos natalinos em segredo, que é pra ninguém sentir pena e querer me levar pra casa. Passei da fase de precisar de companhia a todo custo. Nunca fui muito chegada em natais, mas o povo tem certeza que na hora bate uma melancolia e quem está sozinho em casa necessariamente se entristece. Eu juro que não.

 

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E já que estou nessa de ignorar data, me darei presente de natal só no ano que vem, com tudo em promoção.

Um post bem invejoso

Quem não via a Escolinha original pode ter pensado que o personagem do Zé Bonitinho era um dos principais. Não apenas não era – a rigor, não havia principais – como nem era assim tão engraçado. Eu era muito nova pra entender a ironia do personagem, e ficava meio irritada com ele. Apenas revendo a Escolinha eu me dei conta do quanto eu a assistia, de que conhecia cada um, e um programa que pra mim era puro hábito me deixou saudosista. Delícia rever Ademar Vigário, Rolando Lero e Pedro Pereira – inclusive vivo falando “há controvérsias” e tinha me esquecido da fonte. Aí quando vi Mateus Solano como Zé Bonitinho o personagem me apareceu como algo inédito, incrível. Desde que apareceu na TV, Solano tem se destacado em todos os personagens que faz, mas nunca havia sido tão claro pra mim o quanto ele é talentoso. Eu me senti como um dos atores escalados para a nova versão, com o desafio de imitar algo que já existiu e o sujeito vem e brilha daquele jeito. Esse é um “problema” muito comum no meio artístico: gente que tem tanto talento que nunca passa despercebido, que é capaz de fazer um excelente trabalho com qualquer coisa, que protagonizará mesmo com a menor das brechas. Chamei de problema porque é um problema para todos os que estão ao lado e não são tão bons, ou seja, 98% da população. Não é algo que se treine e nem se force, a pessoa simplesmente é. Eu não sou. Não sou assim no flamenco, na vida, em nada. Sou justamente o contrário: aquela pessoa que apaga nas multidões, que se chama atenção é por ser quieta demais, que leva anos pra mostrar suas qualidades. É o destino dos tímidos. Somos observadores, empáticos, sensatos, adequados, inteligentes, somos muitas coisas, mas brilhar desse jeito não é o nosso. Então quando vi o novo Zé Bonitinho, um lado meu não pode deixar de se render – e o outro ficou com raiva, com despeito, com inveja.

Somos muitos

“Eu acho que quando você me deixar no terminal vou a pé pra casa ao invés de pegar ônibus. A noite está muito agradável”. Foi o que bastou pra deixar a minha carona preocupada. Eu já havia feito isso antes, com a carona dela e outras, só nunca havia falado. É que das outras vezes a decisão de andar havia sido meio impulsiva; desta vez eu contei porque me pareceu meio ridículo acenar como se fosse entrar no terminal e sair andando escondida. “Numa hora dessas, tem certeza? É perigoso, pense bem. Qualquer coisa, me liga. Ou entra no ônibus. Melhor não, pense bem”. Já na sexta-feira à noite seguinte preferi fazer aquele mesmo percurso de ônibus. Estava sentada perto da porta 4, coisa que evito, especialmente quando escurece. Dito e feito: num determinado período do trajeto, a cada parada entra um por detrás – um catador de latinhas, um casal estranho, um mendigo, outro mendigo. Meu desejo, nessas horas, é apenas que alguém com cheiro ruim não fique perto de mim. Já li que pessoas que não comem carne têm olfato mais apurado, e nessas horas sou inclinada acreditar que é verdade. Fedidas ou não, as figuras estranhas foram para seus lugares, desceram nos seus pontos, seguiram suas vidas. E eu, a pé ou de ônibus, voltei tranquila para minha casa.

 

Eu sei que deixo as pessoas que me querem bem preocupadas. Por elas eu estaria sempre dentro de um carro, nem que esse carro fosse um táxi. Se tento argumentar, pareço ingênua perto da violência está nas ruas, nos jornais, nas estatísticas, nas armas de fogo, no uso do crack, no machismo. Porque o que eu posso falar é disso, da caminhada, da noite, dos ônibus. Nunca estou sozinha nesses lugares, somos muitos. Estamos nas ruas, nos ônibus, nos parques, de dia e de noite, nos lugares bonitos e feios, seguros e perigosos. Alguns estão belamente vestidos enquanto outros fedem, mas ninguém ouve falar de nós. Eu e essas pessoas nunca quebramos as janelas dos ônibus, não arrancamos cadeados, não batemos nos outros. Às vezes fazemos de conta que não vemos a velhinha, porque naquele dia não estamos muito a fim de dar o lugar, ou não recolhemos o cocô do cachorro, mas nem por isso estar ao nosso lado é perigoso. Olhamos meio torto, é verdade, aquele bêbado fazendo escândalo ou o louco falando alto, mas também acolhemos e tentamos ajudar quando alguém está passando mal ou precisando de uma palavrinha. Quem já precisou contar com a solidariedade de estranhos sabe que isso é verdade. Existe sim aquele que sai no jornal, que vandaliza e faz mal aos outros, que sozinho é capaz de estragar o dia e a vida de um monte de gente. Ninguém sai pela rua querendo encontrar com ele e esse encontro pode nunca acontecer, mas mesmo assim somos todos contaminados, parece que é sempre. Para quem só frequenta “os melhores”, o mundo parece um lugar bipartido e quem não tem carro pra se isolar necessariamente não é “de bem”. E como diz aquela tirinha dos Malvados… Quem anda pelas ruas e pelos ônibus quase nunca o faz por opção, mas acaba tendo o privilégio de desmistificar algumas coisas. O terrível medo do outro é uma delas.

Por ti minha alma sofre

 

Comecei a stalkear meio por brincadeira, como é pra todo mundo. Aí comecei a achar o Fulano tão legal. Quando dei por mim, estava batendo ponto no Facebook do sujeito. Percebi que a coisa estava feia no dia que fiquei reprisando um vídeo, pois a maneira dele sorrir meio sem graça é tão fofa. Coisa de mulher trouxa apaixonada. E o dia que ele postou trecho de livro e eu vi quase imediatamente, e quase fui lá comentar porque eu estava online, e ele certamente estava online também, e que coisa bonita nós dois online juntinhos e separados? Foi por muito pouco que a louca aqui não comentou, na maior, como se fosse íntima. Stalkear dá essa ilusão, que de certa forma nem é ilusão, uma intimidade unilateral. É uma espécie de namoro em que uma das partes não sabe que está namorando. Ele até sabe que eu, enquanto ser humano, existo, mas nem desconfia do meu interesse. O que eu acho grave, doutor, é perceber que por mim vai continuar no interesse, no platônico, na stalkeação, para sempre. Morro de medo, simplesmente não conseguiria me aproximar. É muita areia pro meu caminhãozinho. Mesmo.

Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

Numa fria

“Eu não acredito que você me meteu nesse tipo de fria, de novo!”, disse eu para mim mesma. No caso, o de novo era estar de sapatilha e meia calça rosa, cercada por adolescentes vestidas da mesma forma. É, a vida da gente tende a girar sempre em torno dos mesmos temas, e tantos anos depois me vi vestida de bailarina de novo. Eu não sei como são as outras pessoas, mas eu discuto comigo mesma e com o Universo – outros chamariam de Deus – o tempo todo. “Cala a boca e presta atenção”, eu teria dito a mim mesma, mas o lado para quem eu reclamo não costuma verbalizar tanto. Ele manda e eu obedeço. “Presta atenção”, porque se de um lado eu me sinto desconfortável, de outro é a disponibilidade de me meter nessas frias que tem me enriquecido. Nelas eu relembro o quanto o mundo, os sonhos e os caminhos são variados. Se o mundo nos parece sempre igual, é única e exclusivamente porque escolhemos o igual.

Luzes de natal

Eu estava com o Vitinho no colo, e ambos estávamos na minha rede. Aquela, a minha, o meu lugar preferido da casa desde que eu me entendo por gente. Era dezembro. Eu calculo que tinha vinte e três anos na época, porque estava há meses de conhecer meu futuro marido e ainda não sabia. Vitinho devia ter uns… quantos anos as crianças têm quando já sabem falar e andar mas ainda são muito lindas? Andar não, correr. “Pode reparar” , me mostrou o meu pai, “que qualquer coisa que você peça pro Vitinho ou que ele tenha que fazer, ele vai correndo. Ele não tem paciência pra andar”. Era verdade, ele ia correndo, voltava correndo. Vitinho tinha toda pressa e toda energia. E tinha o corpo moreno magrinho de criança criada à beira da praia sem camiseta, um sorriso que abria à toa e formava uma covinha funda no meio de uma das bochechas. Vou chutar quatro anos, Vitinho tinha quatro anos. Então eu estava na rede com o filho caçula do meu pai, em dezembro, e já havia escurecido. Meu pai acendeu o praticamente único enfeite de natal da casa: um pisca-pisca que descia com uns fios e seguia por toda beirada da varanda. Todas as noites, Vitinho aguardava ansiosamente aquele momento. Aquelas luzes lhe pareciam tão mágicas, e ele ficava na rede comigo olhando pra cima de boca aberta.

– É tão lindo. A gente devia deixar essa luz aí pra sempre.

Aí eu disse que não, que eram luzes de natal. Luzes de natal, assim como outros enfeites de natal, tinham sua graça justamente na sazionalidade. Eles surgiam no final do ano pra demarcar que era natal, e tinham data certa para serem desmontados, que era no dia de reis, que se eu não me enganava era dia dez de… Meu pai intervém, e ignora tudo o que eu havia dito:

 

– Então se você quer a gente deixa essa luz aí pra sempre, filhinho. – e Vitinho sorriu uma covinha profunda.
Meu pai fez muito bem em deixar aquelas luzes ali. Ele já sabia – havia assistido aquele olhar pelo menos quatro vezes – que o pra sempre passa muito rápido.

Vitória

Sabe aquela frase do Grande Sertão que todo mundo cita (até a Dilma usou na posse), que diz que o que a vida nos exige é coragem? É o que a elatem exigido de mim. Passei o mês inteiro chateada e atormentada porque tive que comprar uma briga. Como toda briga, existe sempre a opção de não comprar, de tentar se encolher até virar átomo e não não não. Mas eu percebi que me omitir me feriria muito, então fui adiante. Foram dias de dúvidas e gastos; tive crise de bruxismo, andei quilômetros sem destino, surtei no flamenco, enfim, fiquei um mês inteiro num estado insuportável. Mas fui, apesar de ter medo, de ter ouvido que era imprudente, que era arriscado, que eu não deveria. No fim – e só acabou realmente hoje – deu tudo certo. Mas não deu tudo certo apenas porque a questão se resolveu na direção que eu queria, deu tudo certo porque eu estava lá. Foi tão difícil, tão solitário e senti tanto medo. Aos trancos e barrancos, com outros problemas indo e vindo, o dia finalmente chegou. Naquela manhã, abri os olhos e soube que a questão estava ganha. Não que eu intuísse que o resultado me favoreceria, muito pelo contrário. A minha vitória era garantida porque a maior batalha tinha sido interna: eu dei ouvidos a mim e me arrisquei, apesar de todas as minhas inseguranças. Essa é a maior vitória que se pode desejar.

A Foto

Cada um tem uma foto que é A Foto. Pense bem: Chopin pra gente é aquele pintado por Delacroix, mesmo com tantos outros quadros e desenhos que o representam fielmente. A mística H.P. Blavatsky é a senhora de olhar firme, como se nunca tivesse sido jovem. Camus fuma, definitivamente. E por aí vai. Acho que o tema me chamou atenção pela primeira vez com uma amiga que tirava centenas de fotos antes de postar no Orkut. Ela corrigia tanto – “nessa eu saí com o cabelo meio feio”, “nessa eu não gostei do meu olho esquerdo”, “essa ficaria melhor se minha cabeça estivesse mais inclinada” – que eu não aparecia mais em fotos com ela, eu desistia. E do álbum de fotos exaustivamente trabalhado dessa amiga, a única foto que eu realmente gostava era uma que ela mantinha quase que por educação, tirada por um amigo de infância. Eles estavam conversando na cozinha, ele contou algo engraçado, ela baixou a cabeça rindo e ele clicou. Era tão dela aquela forma de rir, eu achava linda. Naquela foto ela via o cabelo desgrenhado, a roupa de ficar em casa, os azulejos, enfim, nada da diva que gostava de projetar. Já eu enxergava a minha amiga.

Foi isso que me fez descobrir que A Foto quase nunca é a foto preferida de quem aparece. Porque A Foto nunca é a do nosso melhor ângulo, o nosso sorriso perfeito, a roupa de festa. A foto que nos eternizará é aquela que dirá alguma coisa aos outros, a que dará uma biografia numa única imagem. Olho para as minhas fotos e me pergunto se tal foto minha já foi tirada, qual delas é. Ou, se ainda não foi, o que ainda falta revelar. Pode ser algo que eu não gosto, pode ser algo que eu ainda nem sou…

Gostosinho

 

Amigos: a leitura de João Ubaldo Ribeiro somado a um documentário do espetáculo 21 do Grupo Corpo, me levaram a uma importante descoberta filosófica. O grande segredo do bem, da arte, da felicidade e do Divino podem ser resumidos numa só palavra: gostosinho. Os religiosos apegados a noção de pecado colocarão o valor no outro lado, no desprazer; há um prazer masoquista no desprazer, mas mesmo ele é limitado. Basta uma distração e pronto: rumamos saltitantes para o gostosinho. Como a diferença de fazer exercício porque é importante e encontrar um esporte que realmente tenha a ver com quem somos. Outros, radicais no sentido oposto, podem dizer que gostosinho é pouco, que bom é o gostosão, intenso, orgástico. O problema é que parece que nem fisicamente somos preparados para isso, e nada do que é intenso dura muito. É como o desejo que aos poucos se transforma em amor, e todos sabemos que amor é gostosinho. Nem a comida gostosona nos atrai – dois dias de restaurante e já ficamos doidos pra comer uma comidinha caseira gostosinha. Sei que há trabalho exaustivo ali, mas quando vejo o Grupo Corpo dançando me parece tão gostosinho, tão fácil. Fico vontade de estar lá, saltitante no meio deles. Leio João Ubaldo e ouço um baiano falando, como se fosse uma transcrição, de tão gostosinha e fluida que é a narrativa. Os relacionamentos, a vocação profissional, a saúde, o estar bem consigo mesmo – o estado mais desejável de todos eles é o gostosinho. E não é quando as coisas deixam de ser gostosinhas que sabemos que está na hora de mudar? Larguemos todas as outras crenças, irmãos-leitores, e vamos tentar fazer da vida um dia ensolarado e ameno, numa rede, acompanhados de água de côco e a voz doce da Salmaso de fundo. Ou seja, gostosinho.

Curtas porque sim

Amigas que têm tentado desesperadamente encontrar alguém e que saem e encontram gente no Tinder e nunca funfa, ninguém quer nada, não lhes valorizam. Mas elas tentam. Os argumentos são ótimos, estatísticos: conhecer gente aumenta a chance, tentar muito aumenta a chance, depois de muitos nãos virá um sim. Trancada em casa é que não se consegue alguém. Mas será que o dano de não tentar não é menor? Vejo todo mundo tão triste, tão traumatizado.

 

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Achei o meu café. Me sinto o próprio James Bond pedindo martini – “batido, não mexido”. Acrescentou glamour e resolução à minha pessoa. Sempre me senti meio besta de ter que pegar o cardápio e reler as descrições dos cafés, afinal, as combinações são sempre as mesmas. Agora  vou logo falando: me vê um carioca. Agora só me falta tomar café com alguém, para impressioná-lo.

 

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Estive tão preocupada e impossível nas últimas semanas. Um problema que estava tirando a minha alegria de estar em casa está quase no fim. Agora estou tão feliz com um projeto novo. Um que pode mudar minha rotina e me colocar em contato com outra realidade, ou seja, o tipo de mudança que eu adoro. Pena que não posso contar ainda, principalmente a última parte. Apenas torçam.

 

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Eu prometi não tocar no assunto, e por caridade cristã não vou falar nada. Mas, se fosse tuitar pra uma pessoa aí, eu apenas diria a ela: Está frio.

 

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Lembro que um amigo ateu recebeu muitos “Deus abençoe” quando a mãe morreu. Muitos com a ressalva “eu sei que você não acredita, mas…” O “mas” era um “eu não sei o que falar”, na verdade. Acho que é o mesmo sentimento que leva as pessoas a dizerem a um doido por flamenco que foi fazer pós na Espanha e chegando lá se decepcionou e está com vontade de largar que “o importante é a satisfação íntima dançando”. Ah, tá. Fiquei com vontade de mandar todo mundo tomar no cu.

Opinião

Há alguém cuja opinião nos causa tanto respeito que pesa mais do que um país inteiro. Quando essa pessoa diz sim, nada mais nos detém; quando ela diz não, é porque não se deve. Mas uma pessoa é apenas uma pessoa. Um dia surge um não tão contra o nosso momento que decidimos ignorar e seguimos em frente.

Só que é tão difícil.