Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

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Curtas porque a vida é feita de pequenas vitórias

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Num dia você tem dentes branquinhos e perfeitos e quer morrer de pensar em exibir dentes com braquetes de novo. Nem tanto tempo depois, acha que ganhou um presente porque o ortodontista concordou em, daqui há meses, trocar seis braquetes metálicas por estéticas.

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Meu supermercado voltou a vender Gengibirra, bem timidamente. Achei uma perdida na Páscoa, que abracei e levei como se fosse um ovo kopenhagen. Depois começaram a aparecer uma aqui e outra ali. “Vou aproveitar que não tenho nada pra levar e passar no super pra comprar uma Gengibirra”. Tem que mostrar pra eles que elas fazem falta.

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Nem te perguntei, Ernani, mas tenho que eternizar isso:

Viu, Fernanda? Tua foto está invadindo todos os espaços do Sul21. Quase todos os blogs foram grilados pela tua foto. Os colunistas devem ser os próximos. Mais umas horas e tua foto substituirá as ilustrações de todas as matérias. Primeiro o Sul21, logo o mundo.
Philip K. Dick poderia escrever um conto com isso.

Meio sacanagem colocar como vitória a ocasião em que invadiram um site que me hospeda, mas não é todo dia que chego perto de conquistar o mundo.

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Eu tinha uma sala de estar envergonhada, tudo meio branco, material de costura pelos cantos, bicicleta numa parede distante. Dia desses enfezei, e resolvi assumir de mim para mim mesma que ninguém nunca vem aqui, muito menos para jantar. E se por acaso alguém aparecer, vai ser um ou outra vez na vida. Reorganizei tudo, transformei num grande atelier de costura e deixei a bike bem visível e de fácil acesso. Cada vez que passo por ali sorrio e me parabenizo.

Associações, Aguinaldo, oremos

As associações que a mente da gente faz. Lembrei de uma história da Pobre Menininha – se você não lia Luluzinha, perdeu o melhor da infância, ok? – em que a Bruxa Má deixou a sua tábua de lavar roupas toda lisa. Aí ela chorou desesperada, porque era lavadeira e não tinha como lavar roupas numa tábua lisa. Enquanto olhava para a parede de coração acelerado e sem conseguir me concentrar em mais nada, me senti o próprio ratinho do desamparo aprendido. Meus amigos começaram a achar que eu estava sofrendo na mão de algum cafa chamado Aguinaldo, porque todo dia tinha tuíte falando que estava atrás dele, esperando por ele, ligando para ele. Sem conseguir nem olhar, pensando em largar tudo, com calafrios só de pensar em costurar de novo, pensei no quão frágil é o ego. E quando me ocorreu este post, me perguntei se talvez não devesse, que seria precipitado, ou em português claro, que colocar por escrito que finalmente meu sofrimento acabou poderia me dar azar.
Assim: minha máquina de costura. Conserta, quebra, conserta quebra. Na primeira vez foi por um motivo, depois foi por outro. Aguinaldo, o técnico, às vezes nem me atendendo, às vezes um santo. Funcionava com o Aguinaldo e quebrava agulha dupla só comigo. Meus dias tomados por isso, telefonemas, vai e volta, suplica, espera. Três semanas. Aguinaldo desconfiado de que eu não sei costurar e fazia alguma barbaridade. Dois dias de plantão e ele veio no terceiro, no final da tarde. Não é barbaridade minha, ele viu que não é. Será que agora foi? Corri pra costurar os atrasados, pés e as mãos tremendo. Oremos.

Uma manhã de dezembro

Eu estava na fila do Mercadorama da Praça Tiradentes. Fui conformada, lá sempre tem fila, sempre demora muito, ainda mais meio dia. O caixa rápido tinha duas caixas e quatro pessoas na minha frente. Eu havia andado a manhã inteira pelo Boqueirão, à procura de agulha para minha overlock. Tem esses imprevistos que não dá pra passar por consumidor, não dá pra reclamar. Como esse retalho que eu comprei, que deixa o maiô belíssimo, mas que destrói agulhas de overlock como nenhum outro. Foram quatro com dois maiôs. O normal é não quebrar nada. Aí fui na rua mais cheia de lojas de máquinas de costura da cidade, já prevendo que teria que passar por muitas. Aproveitei pra passar numa farmácia, porque reza a lenda que tudo no Boqueirão custa a metade. Comprei vermífugo, ainda impressionada com o verme que vi no fundo de uma privada no dia anterior. “A gente que tem cachorro” – me alertou a amiga – “devia tomar pelo menos uma vez por ano”. Comprei duas doses, pra matar bichinho e bichinho grávido que solta filhote ainda morto no organismo. Já que ia promover uma matança interna, o farmacêutico me convenceu a comprar vitaminas. Achei caro, mas levei mesmo assim porque devem ser caras pela metade do preço. Ele me disse que aquela vitamina era desenvolvida especialmente para mulheres, e acredito nele: a embalagem e as pílulas são cor de rosa, e está escrito em letras garrafais que “NÃO ENGORDA”. Quem fez aquilo conhece seu público. A mulher com criança na minha frente sai da fila e avançar um pouco me permite aproveitar a oferta de Wake. Tanto melhor. Fico atrás de um homem alto, magro, e um rosto cheio de marcas de espinhas, um biotipo estranhamente familiar. O dia nem havia começado e eu já estava cansada. Aparentemente eu sou uma das duas ou três pessoas na cidade que tem uma Ultralock da Singer. Não é overlock e nem interlock, é ultralock. Nunca descobri o porquê. Quando uso o termo ultralock me olham como se eu fosse louca, de tão desconhecida que a máquina é. Não foi a minha intenção! Sem dizer que a agulha custa mais caro. Depois de muitos nãos, encontrei uma loja que não tinha lá, mas que tinha na filial. Topo andar até a outra, desde que ele me garantisse que não seria em vão. Dez quadras ensolaradas depois… “Moço, você tem agulha para ultralock da singer?” “Temos, quantas você quer?””TODAS.” 

Sou interrompida nos meus pensamentos pelo homem que está na minha frente: “Moça, não precisa ficar segurando a cestinha assim, pode apoiar ela no chão”. É mesmo. Ela estava pesada, com refri dois litros, leite, capuccino, dois Wakes em promoção, queijo ralado. Agradeço o conselho e ele me diz que é assim mesmo, a gente se distrai. Na noite anterior, inclusive, era pra ele ter morrido. Antes de dormir ele havia colocado uma água no fogo e esquecido ela lá. Aí ele foi dormir, passou pela sala, a irmã estava vendo TV. Inclusive ele não era daqui e sim de Feira de Santana (bem que o biotipo me era familiar) e não fazia muito tempo que estava aqui. Já esteve, e voltou, e nesse meio tempo ele havia hospedado o irmão. Irmão que se envolveu com drogas e disse pra todo mundo em Feira que quem usava drogas era ele, veja só. Logo ele – e me mostra a cestinha, que tinha apenas um pacote de arroz integral – que não usava nem as drogas lícitas, que gostava de se alimentar da forma mais natural o possível. E tinha traficante atrás dele, ninguém acreditou nele. Quatorze anos ajudando esse irmão, inclusive tinha trazido ele pra Curitiba, hospedado em casa. Até quando o irmão engravidou uma moça era ele quem pagava a pensão, porque o irmão estava desempregado. Não era muita coisa, só cento e oitenta reais, mas era ele quem pagava, ele que nem tinha nada a ver com isso. Mas bem que a mãe dele também tinha passado por uma situação dessas, de ajudar e depois ser traída. Uma mulher que ela ajudou mais de vinte anos, que abria o armário da cozinha e dizia pra ela levar o que quisesse, e a mulher saiu por aí dizendo que a mãe dele dava resto. Ele deveria ter visto o exemplo da mãe e se prevenido. Porque as pessoas são assim, há de se ter muito cuidado com as pessoas. Tem coisas que só por Deus mesmo, ele é quem olha pela gente. Igual a panela no fogo no dia anterior. De madrugada ele até havia acordado com uma sensação estranha, mas não levantou da cama. De manhã o fogo estava apagado e ainda tinha gás, uma coisa inexplicável. Foi a intervenção divina mesmo, Deus é que olha por nós. Que eu contasse com Deus e não com as pessoas. As pessoas exploram. Foi um prazer conversar. E feliz natal.

Duas curtas sobre costura

Teve vezes que eu tive vontade de chorar na frente da máquina. Um servicinho fácil, que numa reta levaria uns dois minutos, levando pelo menos dez. Era costurar um pouco na agulha dupla e as linhas embolavam, pulavam pontos, arrebentavam. Aí eu tinha que parar, passar o fio de novo, voltar mais um pouco. Dá mais trabalho e o acabamento fica ruim. Quis chorar de raiva e de impotência. Pensei em comprar uma galoneira de uma vez. Aí fui percebendo que acontece só na linha de fora, e só com os tecidos muito macios. Ou seja, eu teria que usar uma agulha mais fina. Na prática não dá, porque ela quebraria nos pedaços que as costuras se encontram. Agora continuam acontecendo as mesmas coisas – a linha arrebentando, embolando, pulando pontos – mas eu estou tranquila. Não mudou nada, a dificuldade continua a mesma. Ser humano é um bicho que precisa entender.

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Eu estava costurando e me veio o medo. E se eu fracassar? E se tudo isso que eu comprei, o CNPJ, o site, enfim, se tudo acabar não dando em nada? Ah, meu outro lado pensou, taí uma coisa impossível de acontecer, eu fracassar costurando. Leela, leela! Esse conceito diz que a vida nada mais é do que um jogo, uma festa do espírito, que ele se envolve e logo abandona. Não existe ganhar ou perder, existe apenas o jogo. Aprendi uma habilidade que me deixa tão feliz, tão independente. Conheci um mundo novo, pessoas novas, uma nova forma de alegria. Mesmo que ninguém comprasse mais, ou que eu nunca mais precise vender, continuarei costurando pra mim. Vida é leela, costurar é leela, vida é costura.

Algodão

Se me permitem um pequeno momento jabá, vocês não sabem o que perdem por não terem encomendado correndo, até acabar todo estoque, esta almofada de cachorro. Ela é feita com a parte macia do moletom virada pra fora, pra ficar ainda mais gostosa. Tamanho e textura ideal para abraçar na hora de dormir. Um dia me enfezo, mando a Suzi tirar do site e faço uma matilha inteira pra colocar na minha cama.
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Minha mãe sempre dizia: algodão. Copiei uns moldes antigos e lá dizia: algodão. Ginecologistas sempre dizem: algodão. Eu queria ser adulta e mulher casada moderna, e no início só comprava de lycra. Não me fez bem e fui obrigada a me desfazer. Hoje uso algodão com a consciência limpa, nada como não ter que impressionar ninguém. Se bem que no vestiário feminino, com aquele festival de lingeries, sempre me sinto a mais pobrinha. Se bem que a culpa nem é disso.
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Comprei um kit e fiz uma ovelhinha negra pra mim, coisa mais fofa. Ela tem perninhas de canela e é feita com uma lã especial, toda cheia de gominhos, igual de bicho de verdade. Está na cabeceira da minha cama. Patchwork é uma coisa tão linda que dá vontade de ter pela casa inteira, e viver numa grande casa de bonecas.
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Com a cabeça cheia de grampos, uso meu pijaminha confortável, como bolo de caneca e me estendo no sofá diante da TV, que preguiçosamente está quase sempre na Globo, por causa da novela. A bagunça na sala é de costura, a louça na pia é sempre pouquinha. Eu tinha uma festa, eu tinha um outro programa, eu tenho um amigo que já me ofereceu o consolo que eu precisar. Mas estou em casa, sentindo a delícia do cheiro do meu próprio sabonete e a maciez do meu próprio roupão de oncinha.

Três fofinhas

Ele ficou olhando pra mim, certeza. Eu estava conversando com uma amiga, daquelas que param de andar quando falam, o que torna a conversa meio patética. E ele nos acompanhou com o olhar. Tonta do jeito que sou, é capaz da minha paixão platônica ter reparado que eu existo há um ano e eu só me dei conta dele agora…

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Estava fazendo costura duas vezes por semana, e com muita dor no coração agora farei apenas uma vez. Já era pra ter largado faz tempo, na verdade. Mas fui atrasando, por adorar as aulas e as turmas. Cada dia era uma turma diferente, e a turma mais legal era justamente a que menos compensava ir, então imaginem a dó. Mas tive que fazer umas reposições na segunda e me apeguei à turma de segunda também, ou seja, a pessoa se apega a toda turma que vai. Deve ser um bom sinal.

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Meu medo, com relação ao meu novo negócio: fazer, fazer, fazer e não vender. Porque, por mim, tenho trocentos projetos, amo lojas de tecidos, penso em modelos novos, fico toda cheia quando vejo alguém usando algo que eu fiz.

Péssimas relações

Todo lugar tem que ter seus malas. É uma cota, você não consegue montar um lugar e ter cem por cento de pessoas bacanas. Em algum momento, o mala vai aparecer. E tem essa mulher na turma da costura que é a mala, que poucas pessoas suportam. A começar pela professora, que gostaria muito que a mulher deixasse de frequentar as aulas. Eu não sou das que lhe têm mais antipatia, e até acho engraçada sua maneira de falar sozinha e reclamar. Não gosto, claro, da mania de estar sempre esquecendo o seu material, sempre ficou na outra bolsa. Então, apesar de costurar há anos e ter tudo o que precisa, ela não passa uma aula sem ter que pedir uma agulha, uma fita métrica, sem ter que usar a tesoura de alguém.

 

Ela frequenta essas aulas há anos, sempre achando ruim. Antes de fazer aula lá, ela fez aula de costura com uma outra, e essa outra aparentemente era maravilhosa, perfeita. A tal costureira perfeita pelo que entendi ainda dá aulas, mas não tem mais vaga (o que me faz pensar que a outra costureira deve detestar a fulana também e inventar desculpas para não aceitá-la de volta). A todo momento ela compara a atual professora com a outra, sempre pra dizer que ela não ensina direito, não dá as dicas, não chega nem perto. Quando a sós com alguém, ela se queixa inclusive que a professora se valoriza demais, que vende seus produtos de patchwork a preços absurdos, que tem gente por aí que vende pela metade do preço. Só que das tais pessoas ela não quer -“Eu comprei um conjuntinho dela no ano passado. Ela me cobrou bem caro, mas mesmo assim eu paguei, fazer o quê”. E em aula, dá indiretas, faz caras de impaciência, teima em fazer as coisas do jeito dela. Como eu disse no começo, mala total.

 

Aí na última aula o clima estava péssimo. Eu não sei quem ou como começou, só sei que foi um festival de patadas. A mulher soltava indiretas, a professora cortava, as pessoas se olhavam. E a mulher lá, querendo atenção, ouvindo uma e logo depois interrompendo e perguntando de novo. Depois de umas duas chulapadas daquelas, depois de toda impaciência demonstrada pela professora nas explicações, eu teria ido embora. Senão na hora, teria decidido largar a costura. Porque eu não sentiria prazer de frequentar aulas num lugar onde sei que a professora não me suporta, onde fala comigo e me explica as coisas apenas pela obrigação profissional, onde o clima pesa só com a minha presença. Mas a mulher continuou, continuará, e tem continuado durante anos.

 

Eu acho que ela continua porque pra ela tudo aquilo é normal. Ela não tem termo de comparação, entende? Em todo lugar que ela vai deve ser assim, toda conversa deve ser assim, todo clima deve ser assim. Porque é ela quem torna as coisas ruins. O que eu chamo de clima ruim pra ela é a própria condição de existência, a única possível.

A tarada da costura

Eu contei essa história pra minha professora de costura e ela riu e disse que assim eu a matava de vergonha. “Viu o que as tuas aulas estão fazendo comigo?”

 

Estava muito frio e eu estava sentada na parte de trás daqueles Inter 2 sanfona. Já estava escuro, num horário que ainda estaria claro que estivéssemos no verão. De pé, ao meu lado, parou uma moça. Eu olhei para cima e vi que ela vestia um tipo de casaco que não sei definir, não sei se tem nome, mas que eu acho um charme: é como uma manta, fechada no pescoço e que cai sem mangas. Muito curto pra ser um poncho, mas é o mesmo princípio. Esse casaco que ela usava balançava levemente a cada movimento do ônibus. A cor era predominantemente marrom, com salpicos de preto e bege, o que lhe dava um aspecto meio animal. Era peludinho por fora. Por dentro, dava para ver as mesmas cores, só que sem os pelos, o que mostrava que aquele tecido, ou seja lá o que era, não tinha forro.

 

O que seria? Tinha todo aspecto de ser uma pele, de muito boa qualidade dada a leveza, mas pele precisa de forro. Descobri isso porque uma moça que faz aula comigo viu uma polaina de pele por quase cinquenta reais e comprou, pra tirar cópia e revender. Só que quando foi fazer as polainas descobriu que pele é caríssimo (custou uns 70 reais o metro) e difícil de costurar. Cada vez que você manuseia ela se desfaz um pouco, precisa colocar forro, a linha se perde lá dentro, um saco. A curta experiência fez com que ela – e todos nós que acompanhados o drama – percebesse que a polaina não estava tão cara quanto pareceu à princípio.

 

Eu passei quase toda viagem olhando para o casaco da moça, bem ao meu lado, tentando adivinhar o que era. Seria lã? Isso explicaria a leveza e a ausência de forro, mas seria uma lã bem incomum, para fazer aqueles pelinhos por fora. E a cor tinha todo aspecto de pele. Pele ou lã, pele ou lã, pele ou lã? Aí finalmente eu tinha que descer e me levantei. Eu fiquei ao lado da moça. Sem que ela percebesse, eu baixei a mão esquerda e pus discretamente sob o seu casaco e apalpei.

Lã.

Mistério resolvido.

Oportunidade para costureiras

Mais um papo ouvido no ônibus.

– Você sabe costurar? Eu tenho uma amiga minha que está trabalhando com costura, está muito bem, fazendo muito dinheiro. Ela está precisando de ajudante, eu posso te colocar em contato com ela. Nem precisa saber costurar muito. Sabe essas camisetas, coisa bem simples? Então, é só fechar uns tecidos, coisa bem básica. Ela recebe umas encomendas de umas camisetas assim simples e só tem que fechar. Ela ganha um, dois reais por peça. Que ela faça quarenta peças por dia por um real dá quarenta reais, se for por dois reais sai oitenta. Ela fica o dia inteiro na máquina, ela não dá conta de tanta encomenda. Tem dias que eu passo lá e a comadre nem almoçou. Eu ponho você em contato com ela, serviço pra ela é o que não falta.

A outra não quis aceitar o emprego.

Prendas domésticas

A minha vó sabe costurar, e acho que todas as avós, até uma certa geração, sabiam. Assim como todas as mulheres sabiam bordar, ariar panelas, fazer faxina, cozinhar e outras tarefas identificadas como femininas e domésticas. Minha vó, aprendeu quando jovem, com um alfaiate (parece que alfaiates têm seus segredos), pra ter uma profissão. Quando casou, passou anos sem precisar se preocupar com dinheiro. Quando meus tios já estavam adolescentes, o dinheiro diminuiu e a costura foi útil pra ajudar no orçamento. Saber costurar sempre deu essa liberdade para as mulheres. Só que a revolução feminista veio e as mulheres não educaram mais suas filhas pra isso. Como o nosso futuro era conquistar o mercado de trabalho, transformar o mundo em algo mais unissex, às gerações seguintes esse conhecimento não foi passado. Minha mãe e minhas tias não sabem costurar. Eu até tentei. Faço minhas coisinhas, prego botões, mas quando preciso de uma barra bem feita levo lojinha de costura de shopping. Sempre acho caro, porque é algo ridiculamente simples – leva poucos minutos, eu já vi minha vó fazer. Mas eu prefiro não arriscar e pago. E lamento muito não ter aprendido o currículo básico de toda mulher antiga.

***

Eu me orgulhava de não cozinhar. Casei sabendo fazer um arroz básico, feijão básico e purê de batatas básico. E dá pra dizer que desaprendi tudo, em favor de comer coisas mais gostosas. Do namoro ao início do casamento, eu e o Luiz engordamos bastante, porque adorávamos comer fora. A caminho de casa tem um shopping, então imaginem o estrago. Teve época que íamos lá todos os dias. Lembro de olhar pra praça da alimentação meio enjoada, porque já tinha comido de tudo. Aí quando tomamos juízo e resolvemos comer mais em casa, o Luiz é que passou a cozinhar – e ainda cozinha, quando estamos os dois. Ele é daquelas pessoas que faz um sanduichinho qualquer ficar saboroso. Tudo isso fez com que eu ficasse igual criança, que vê a geladeira cheia e fica faminta caso alguém não faça comida pra ela. Só recentemente eu passei a ter que comer em casa, sozinha, e cansei da vida de pacotes instantâneos. Passei a pesquisar receitas. Sei fazer umas sopas e umas coisinhas simples que eu gosto. Só então percebi que cozinhar dá uma liberdade incrível. Se bate uma fome repentina eu já sei o que fazer. Acho mágico pegar coisas cruas, juntar, colocar na panela e ter algo totalmente novo e quentinho. Hoje tenho o maior respeito e uma pontinha de inveja de cozinheiros.