Bebe Negão

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Double happiness

Hoje fui numa loja de artigos esotéricos e comprei um pingente de letra chinesa, igual dessa figura aí do lado. Na embalagem tinha uma etiqueta onde dizia felicidade. Esse é o típico caso da tradução mal feita -você corre o risco de parecer um idiota de ideogramas se levar essas etiquetas a sério.
Se você reparar, o símbolo é formado por dois ideogramas idênticos, como se fosse uma imagem duplicada. Cada ideograma desses é felicidade; por isso esse ideograma significa dupla felicidade. Mas não no sentido de felicidade em dobro, e sim no sentido de felicidade a dois. Ele é estilizado de várias formas e dado de presente a casais. O feng shui recomenda que você coloque esses símbolos por aí (quer dizer, nos lugares propícios) pra melhorar o casamento.

Eu adoro o double happiness porque ele me faz viajar na idéia do casamento. Me faz pensar que a felicidade dos dois é essencial para o casamento; que cada um já era uma felicidade sozinha, que encontra na outra algo que vai aumentar ainda mais a sua. Que não é o casamento que torna alguém feliz – ser realizado antes é um pré-requisito para ser um casal. E as duas felicidades são do mesmo tamanho, então é preciso que os dois estejam igualmente satisfeitos com a união. Ao mesmo tempo que estão unidas, ainda são duas felicidades individuais, ou seja, no casamento não se perde a identidade…

(Do jeito que a sociedade chinesa era machista, nem deve significar assim. Digamos que essa é a minha double happiness.) 😉

O narrador e a narrativa

Veio parar nas minhas mãos o livro Com qualquer um de nós: um guia de terapias complementares para pacientes de câncer, ou para quem busca uma vida mais saudável. Ele foi escrito por Vitor Caruso Jr, um executivo que virou monge depois de lutar contra o câncer e dá palestras por todo país. Logo na capa, há uma frase do prof. Hermógenes: “Há décadas não lia ininterruptamente um livro. Um gesto de amor a todos que tiverem a graça divina de o ler”. Depois de ler algumas passagens, só posso concluir que o prof. Hermógenes não pegava num livro há décadas…

O livro só não é péssimo porque ele tem 66 páginas – pra ser péssimo em poucas páginas é preciso muito talento. Justamente isso falta ao autor. Veja essa passagem, do capítulo A noite em que morri, onde ele descreve o que sentiu diante da idéia da morte:

Naquela noite eu esperei para encontrar a morte, pois com o diagnóstico de aneurisma, ainda mais daquele tamanho, ela estaria, muito provavelmente, pela vizinhança. Passei a noite a imaginar como seria: Será que vai doer? Jesus vai me receber sorrindo? (e imaginava ele sorrindo). Será que virá o Sr. Morte, com aquele espeto na mão? Ou serão uns diabinhos risonhos, iguais aos do filme Ghost? Como será sair do corpo? Está demorando. Acho que devo ver aquela luz branca. Todo mundo fala que cairia na gandaia se tivesse uma última noite de vida, mas eu não estava com a mínima vontade de farrear. Será que vai passar a vida toda pela cabeça em alguns segundos? Se for assim, vou começar a reviver já, para poder fazê-lo com mais calma. Puxa, será que a hora em que a luz branca vier, vou escutar o barulho dos carros lá fora? Se eu fizer muito barulho, vou acordar a Marília. Tô demorando pra morrer.

Será que só eu penso MORRA! quando leio essa passagem? Olha, esse livro me fez duvidar da experiência desse cara; pra escrever desse jeito, ele deve ser ainda um executivo desses que acha Quem mexeu no meu queijo? o máximo. Esse troço de virar monge foi pura jogada de marketing, isso sim!

Aí lembrei de uma discussão muito interessante de Geertz, um antropólogo pós-moderno. Para ele a questão da narrativa é essencial na ciência, e quanto menos reconhecemos esse fato tanto mais dominados por elas. Pense num antropólogo excelente – que vai a campo, conhece todos, entende a realidade local, tem várias idéias… mas que escreve mal. Agora imagine outro que nem é tão bom assim, mas que sabe escrever de uma maneira mais profunda ou agradável. Ninguém saberá o que realmente eles fizeram – no final das contas, a maneira como a experiênca foi narrada se torna a verdade. No caso do monge, péssimamente narrada!

Pro pessoal de literatura essa questão é muito comum, mas a coisa é ainda mais profunda. As discussões pós-modernas apontam que tudo é uma forma de narração – algumas mais assumidas, como na literatura, e outras menos, como a ciência. As regras da ciência dão a ela uma aparência de imparcialidade, como se ela pairasse por cima das pessoas e do tempo. Na realidade, a ciência é feita por homens; que contam os fatos melhor ou pior, que escondem fracassos e exibem sucessos, que precisam passar por pessoas e disputas de poder dentro da academia, que escolhem objetos de estudos de acordo com sua vida e posturas pessoais… E quanto mais nos recusamos a olhar pra essa realidade, agindo como se a ciência fosse algo quase divino, mais difícil fica reconhecer os erros que ela comete.

Mudança involuntária 2

Depois de tanto tempo, resolvi retocar o cabelo e voltar pra minha cor original. Já aprendi a diferenciar a diferenciar a tintura do shampoo tonalizante… só não sabia que a cor 40 Castanho Médio deixava o cabelo preto como de japa girl!

Com o cabelo tão preto e artificial, acho que vou ter que adotar um visual emo. 7:(

O óbvio

Estou me exercitando no óbvio. Tenho percebido com enxergar o óbvio é uma arte. Como aquelas relações em que o cara diz “eu sou um canalha” e a tonta da mulher acha que ele é fofinho, alegre, extrovertido, boêmio… e não atenta que a palavra canalha quer dizer exatamente isso – canalha – e que ela vai se ferrar se levar o sujeito à sério. Ou deixar de ouvir “você é minha única amiga” como um simples elogio, sem atentar que isso pode ser um fardo em certos momentos. Gente que começa dizendo – afaste-se de mim!, sempre acabou me provando que era melhor eu ter me afastado mesmo.

É muito difícil também ver o óbvio quando estamos no meio de um problema. Minhas amigas ficam muito felizes quando digo pra elas que a culpa não é delas quando acontece algo imprevisível. Ou relembrar todo o histórico de uma pessoa que é acusada injustamente. Falamos muito, falamos mal, e só falamos na cara na hora de ofender. Quer coisa mais rara que dizer pra uma pessoa que é o máximo que ela é o máximo? Especialmente quando uma dessas qualidades é a beleza. Temos o hábito de achar que pessoas lindas ouvem elogios o tempo todo – o problema é que todos pensam assim e os elogios nunca são ditos.

Nenhum óbvio é ululante. Sempre somos inseguros e envolvidos demais pra ver o que está diante do nosso nariz.

Volta pra casa

A primeira vez que andei de avião sem os meus pais eu tinha 5 anos… Pai que morava longe, namorados e amigos que moravam longe, intercâmbio e passeios – por um motivo ou outro, eu sempre viajei muito e sozinha. Ao contrário da maioria das pessoas, eu prefiro viajar sozinha. Gosto de entrar no ônibus sozinha, de olhar no mapa, de andar a pé. Gosto de não ter que conversar com um amigo ou de fazer um amigo inesperado por aí. Minhas viagens sempre tiveram uma mistura ótima de solidão e companhia.

Quando eu voltava pra Curitiba, sempre me sentia meio mal. Tinha a impressão de que tudo estava errado, e não sabia direito como e o quê consertar. Tudo estava fora do lugar, a verdade estava lá fora. Lá fora os amigos eram mais queridos, eu era mais livre, tudo era mais feliz. Voltar sempre me dava a vontade de não ter voltado. Gostava da sensação de estar em trânsito.

Como isso acontecia sempre, formulei umas teorias. Primeiro: a grama é mais verde no vizinho. Se eu ficasse, se eu não estivesse em trânsito, se tivesse mais convívio… tudo ficaria tão banal como a minha vida aqui. Será que aquelas pessoas eram maravilhosas mesmo? A outra teoria é que tudo estava errado porque eu moro em Curitiba. Nos outros lugares as pessoas estão mais disponíveis e aqui a vida é mais cinza mesmo. Esse céu eternamente fechado é muito deprimente. É claro que passei a ter uma certa antipatia pela minha cidade depois de chegar a esta conclusão.

Os anos se passaram. Eu conheci o Luiz e parei um pouco. A primeira viagem que eu fiz sozinha depois de casada foi há 2 anos atrás, para o Rio de Janeiro. A viagem foi incrível – passeei, andei, fui a orkontros, fiz amigos, tirei fotos. Eu amei a cidade e me senti muito bem lá, apesar de tudo o que a gente vê no notíciário. Foram 5 dias muito felizes.

Quando cheguei em casa, a surpresa: eu me senti ótima. Apesar de tudo o que eu tinha vivido, aqui é o melhor lugar do mundo. Finalmente eu voltava para um lugar onde queria estar.

Connan

Este post é pra corrigir uma injustiça e fazer propaganda ao mesmo tempo. A partir de agora, na barra aí do lado, tem o link pra ir pro myspace do meu amigo Connan. Ele é músico, cantor, guitarrista e violonista e prof de canto, guitarra e violão – além de falar francês, adorar cachorros e ser um fiel leitor silencioso deste blog. As músicas são lindas, sensíveis e aposto que vai parecer que ele compôs pensando em você sem nunca ter te conhecido. Comigo foi assim.