Uma versão muito pessoal

Eu deveria aprender, a todo custo, a gostar da solteirice. E não me descia. Me adaptei porque a gente se adapta a tudo nessa vida, porque não havia como negar que eu passava o tempo todo só. Mas daí preferir… Não me descia a pressão de entrar no Tinder, de arranjar alguém, de frequentar baladas (a mim e à minha conta bancária). Não me ia ser, nessa altura do campeonato, algo que nem ao menos admirava. O prazer de ser só era sempre procurar companhia? Mas deveria haver algum prazer nisso, nessa solidão cantada em verso e prosa. Tenho até amigos que são – que amam tanto seu estar só que diante da proposta de um relacionamento ou compartilhamento hesitam como quem recebe uma proposta de emprego em outra cidade.

 

Até que eu encontrei. Estava voltando pra casa depois de um dos meus muitos programas culturais. Pensei, por automatismo, como seria bom se tivesse alguém para dormir ao meu lado naquela noite gelada. Mas… ele estaria voltando comigo do balé, sendo que homens odeiam balé, do cinema alternativo, sendo que esses filmes loucos levam mais de duas horas e são pouco digeríveis, do concerto, sendo que quase ninguém que eu conheço realmente gosta de música clássica, do flamenco, sendo que até pra mim às vezes é meio demais? Aí percebi que tenho lotado minha agenda de grandes momentos meus, que decido de última hora, que vou e ninguém fica sabendo, que não é preciso avisar, agradar o outro ou me preocupar com o que vão pensar. Misturar vidas dá trabalho e requer dedicação. Naquele instante, seria realmente bom ter alguém esquentando meus pés, mas na manhã seguinte talvez eu precisasse dizer para ele ir embora, porque tenho mais o que fazer. Nem que esse ter o que fazer seja apenas me esparramar no sofá com um livro. Meu sofá, meu livro.
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Olha, moço, é que

Logo no início do vídeo tem o cara que fica se explicando pro farmacêutico, e um amigo meu farmacêutico disse que é bem assim, que tem quem vai se explicando e não tem necessidade nenhuma disso, ele lá está interessado na vida de todo mundo que vai lá? Mas esse é justamente o pedaço do vídeo com que me identifico. Há anos, quando fui fazer teste alérgico, eu estava com uma parte da minha pele, perto das axilas, marrom e meio grossa. A médica olhou e falou – Não é nessa linha aqui que passa o teu maiô? Acertou em cheio, eu estava com reação alérgica de contato com a alça do maiô (!). Aí comentei com uma amiga e ela me sugeriu passar vaselina pra tampar os poros, e me explicou que quem faz travessia faz isso para se proteger. Achei que não custava tentar e comecei a passar. Foi tirar com a mão, nunca mais tive. Só que isso me leva, de tempos em tempos, a comprar pote de vaselina na farmácia. Ninguém tem nada a ver com isso, o farmacêutico lá quer saber da minha vida e etc., mas quem disse que eu consigo me conter? “Olha, moço, eu preciso comprar isso porque tenho ALERGIA DE PELE, é pra tampar os poros, não é pra… eu inclusive nem…”.

Curtas de supermercado

* Não sei o que será da minha vida se um dia tiver um supermercado pertinho de casa. Pro meu eu ando tanto, tem mato, tem subida, tem casas, tem comércio, tem tanta coisa no meio do caminho, que é sempre um passeio. Meio sem saber o que fazer, precisando matar um tempo razoável? Supermercado.

* O papel toalha fica ao lado do carvão, faz sentido pra vocês? Acho que só pra quem inventou essa arrumação. Quando vi uma moça igual barata tonta e perguntando pro funcionário, quase soltei um Ahá!, porque tinha passado pelo mesmo problema.

* O conjunto em promoção de shampoo e condicionador é tão em conta que é quase o preço de apenas um item. Levo. Só que na vez passada, e na vez anterior a essa, já havia aproveitado outra promoção igualzinha. Agora estou colecionando shampoos (só os shampoos).

* Em um supermercado tem o cacau em pó sem açúcar, enquanto no outro tem tilápia congelada e servem café, enquanto o terceiro é nóis, é onde compro sempre e sei onde tudo está. Sempre pensei que ficar com o coração dividido só valia para pessoas e cidades.

* Eu gosto de tratar bem quem me atende, mas com caixas de supermercados chega às raias da compulsão. Não sei se eu é que vou demais pra lá ou se é porque sei que essa profissão é das mais estressantes, o que sei é com eles a vontade é mais forte, vai além da educação. Puxo papo, pergunto, converso, se deixar faço um stand up ali na hora. Só relaxo quando arranco um sorriso. Às vezes funciona, às vezes não.

Um certo ar, uma certa cobrança

Uma ou outra dança é feita por alunos, com o objetivo de ter a vivência de tablado, o resto é dos profissionais. É na parte dos alunos que eu me encaixo. Cinco anos e duas escolas depois, eu sou conhecida o suficiente para saber o nome de todos, mas não o suficiente para termos uma história em comum. Fui uma das primeiras a chegar; sentei no chão e me maquiei na frente do espelho enquanto os outros vinham se arrumar também. As pessoas chegavam, se cumprimentavam, perguntavam das novidades. Os meios de dança costumam ter (não encontro o termo preciso. Bourdieu deve saber) uma valorização, um ar de juventude, felicidade e extroversão. No flamenco, claro, menos jovem do que no balé, mas ainda mais de extroversão. Uma coisa de chegar, sorrir, tirar fotos, falar alto. Sou tímida e não bebo, então minha contribuição costuma ser, no máximo, rir do que assisto. Naquela noite apresentação dos meninos, e como se pode esperar, são quase todos gays assumidos. Eu circulo, faço um comentário aqui e outro ali, vou pra fora com os fumantes sem fumar, como um pedaço de bolo, participo de várias conversas e nenhuma. Talvez pareça, pros meus outros amigos, que faço doce quando falo que não danço bem, mas no meio dos bambambans vejo claramente meus limites. Dias desses um cara que fez flamenco comigo deu uma festa e convidou vários “flamencos”. Soube daquela forma chata: “você vai na festa hoje?” “Festa?”. Alguns convidados trocaram menos palavras com ele do que eu, mas todos tinham em comum o fato de serem grandes bailaores. Não sei com que grau de justiça, ele me colocou naquela turma dos “nunca serão”, logo, pra quê puxar meu saco. Sou daquela turma que se não errar tá bom, que se propor a dançar tá bom, que já tem um “parabéns!” engatilhando assim que a gente sai do palco, porque já fez muito em apenas estar lá. Quando já estava quase na hora de entrar, todo mundo arrumado, maquiado e flamenco, fazem uma roda, ligam a câmera, todos somos convocados pra cantar e bater palmas. Não sei a música, não sei o porquê e nem pra quê, mas somos todos amigos, flamencos, nos bastidores, e ninguém pode ficar de fora. A câmera ligada, todos juntos, participativos, e minha colega de palco sussurra: “Estou me sentindo um peixe fora d´água”. Como eu a adorei naquele momento! Só então eu percebi o quanto me sentindo deslocada por não ser tão jovem, feliz e extrovertida quanto deveria.

Como era

Insisto em não ser e fazer como todo mundo é e faz. Não por teimosia, talvez nem por princípios, mas por uma programação tão profunda que não dá pra pensar em mudar. Quanto melhor fico, mais silenciosa minha casa, mais solitárias minhas noites. Desculpe, mas não consegui colocar outro homem no lugar daquele, nem platonicamente, nem só pra ter o que contar. Não tenho preenchido, só esvaziado. As coisas que tenho vivido nem podem ser colocadas em palavras, porque não resistem ao contato com o ar. Me pergunto como realmente sou, na essência, e dizem que a resposta está na infância. São tantas infâncias. Desonestamente, escolho que sou a que foge das festas para admirar as estrelas. E, na minha imaginação, conversamos ao som de piano, sândalo e rosas, água do mar e amor.


Roubei do Marcos Abreu sem ao menos conhecê-lo. Se também gamou, tem aversão orquestrada e com violão.

Passava das vinte e duas horas

… e a moça sentada ao meu lado, ao lado da janela, dormia. E a moça sentada na frente dela também. Eu estava com fome demais pra isso e me perguntava se conseguiria chegar em casa e preparar um macarrão. Não, decidi comer legumes pela quarta refeição seguida. Uma tostadinha e um pouco de queijo ralado em cima, hum, água na boca. A temperatura, só para variar, caiu mais de dez graus de um dia para o outro. Eu já havia passado frio de manhã, estava preparada. Todos encasacados dentro do ônibus e, com isso, mais figurinos pretos. Parece que todo mundo pensa a mesma coisa na hora de comprar casaco: vou comprar um preto, combina com tudo. Aí parece que vão todos pro mesmo funeral. O ônibus pára numa estação perto do terminal, e pela janela enxergo o Farmacêutico. Nunca nem pensei em dar um apelido pra ele, não faço ideia de como se chama. Ele é careca e sem barba, óculos de armação invisível, o que dá uma sensação de limpeza. Calculo que tenha uns cinquenta anos. Um pouco mais alto do que eu, aquele tipo físico que mesmo magro é sólido. E tem minha simpatia perpétua. Vou sempre na mesma farmácia, a que ele trabalha, e um dia ele estava no caixa dei meu CPF por causa do cartão fidelidade. Aí ele recitou meu nome da casada, e eu disse – não mais, esse era meu nome quando eu era casada. Ele então me disse umas três frases de apoio, cujo conteúdo eu esqueci totalmente. Eu não me incomodo mais com isso, já tinha passado da fase do apoio, mas ele falou comigo com tanto carinho, com uma preocupação tão genuína, que eu fiquei tocada. Um homem bom. Assim como eu lembro dele, eu sei que ele se lembra de mim, nós nos cumprimentamos. Além da farmácia, nos vemos às vezes na rua, perto da padaria. Desceu do ônibus uma mulher e ela foi para junto dele, trocaram palavras e seguiram. O cabelo dela era liso, dividido no meio, e do ângulo que eu estava não permitia ver o rosto. Depois de poucos passos e ele pegou a bolsa que estava nos ombros dela, com uma naturalidade que denunciava intimidade. Me perguntei se era a filha dele.  Que coisa bonita, ele esperando ao lado do ponto de ônibus a filha chegar da faculdade. Aí ela ergueu um pouco o rosto e pude ver que era uma mulher mais velha, também com mais de quarenta, provavelmente a mulher dele. Mais bonito ainda. O ônibus partiu, voltei pra casa, comi meus legumes e vim digitar isso.

Eu sei que as coisas estão feias. Mas elas também estão bonitas.

O passado é uma roupa que

Ainda não sei se superei o minha insegurança diante de pessoas que admiro muito. Naquela época, mal começando a fazer balé, sem dúvida não tinha. Cada vez que a Cíntia vinha falar comigo, eu tremia nas bases. Ex-primeira bailarina, coreógrafa, professora, uma mulher doce e incrível, muito respeitada na área. A turma que eu entrei teoricamente era de básico, mas vinham alunos avançados, porque ter aula com a Cíntia era aula com a Cíntia, acima de qualquer discussão. De modo que de básico mesmo eu era a única. A mais tongona da turma, pra aumentar a minha insegurança. Durante algumas semanas ela veio dar aulas de muletas. Ela contou como é que foi:
– Eu estava andando na rua, aqui perto. Fui atravessar, não vi direito e pisei em falso, perdi o equilíbrio perto do meio fio e virei o pé. Na hora eu sentei na calçada e ia começar a chorar. Aí eu lembrei que não sou mais bailarina e agora eu posso torcer o pé.

 

Esse é o meu sentimento quando vejo uma discussão acadêmica. Em alguns o academicismo cai muito bem. Em mim pinicava demais.

Quase solista

Éramos em cinco para dançar a soleá por bulerías na próxima apresentação, daqui há poucos dias. A professora faria uma introdução especial, coreografada para a apresentação, depois eu e as outras meninas dançaríamos em formação. Sabe como é formação – uma entra, outra sai, muda de lugar, aquelas coisas. E acredito que a professora voltaria pro final, e todas dançaríamos juntas a bulería (O nome é soleá por bulería porque começa por soleá e termina com uma bulería. Informou o Plantão Flamenco). Até, quando fiz propaganda da apresentação, disse que iria dar apenas uma palinha. Minha palha acabou ficando um pouco maior. Olha o que aconteceu: uma das meninas ficou com problemas no trabalho, ameaçou se mudar de Curitiba e não aceitou dançar porque não sabia do futuro dela até o dia da apresentação. Acabou ficando, mas pra essa apresentação já foi. A outra ficou meio irritada de saber das apresentações de última hora (na verdade, ela é que nunca lê mensagem e dá umas sumidas da aula) e por ter errado a coreografia na última apresentação, então não quis dançar, comprou ingresso e vai nos assistir. A professora estava andando na rua, caiu e machucou o braço, ou seja, também vai ser plateia. Sobramos eu e a Rafa.
Tô me sentindo numa série policial de humor que eu via quando era criança. Nunca lembro o nome, era um policial loiro que tinha um revolver calibre 46. Ele foi investigar um caso misterioso de assassinatos de sósias do Elvis. Todas as vítimas participariam dali há alguns dias de um concurso para saber quem era o mais parecido. O assassino era um sósia japonês.

Foda-se involuntário

Dias desses li o livro de maior humor involuntário/vergonha alheia que já encontrei: Os mestres de Gurdjieff, de Rafael Lefort (estou numa fase Gurdjieff, me deixem). O autor é, digamos, da segunda geração de discípulos de G. Só que ele acha que tem alguma coisa esquisita, que o ensinamento não está da forma como deveria ser, e decide beber da fonte. Baseado no que o próprio G. contou, Rafael vai ao oriente e começa a procurar pelos mestres do seu mestre. E encontra alguns. Talvez não mestres no mais alto sentido esotérico (quem sabe?), mas com certeza homens que ensinaram algumas coisas a G. Aí o autor, numa mistura de ingenuidade e total incompreensão, chega para esses mestres e faz as perguntas mais estúpidas. Um dos mestres diz que ensinou G. a respirar e ele responde: “Só isso?” É incrível a capacidade dele de fazer colocações totalmente nada a ver. As reações dos mestres variam entre aqueles que ficam desanimados e os que passam um verdadeiro sabão no sujeito. Ainda não tenho certeza se a publicação do livro é prova da honestidade intelectual do autor ou se ele morreu sem ter entendido nada.

Sobre o fato desses homens terem passado um sabão no sujeito, a mim só atesta seu grande valor. Eles pelo menos tentaram. Apesar do que ouviram, ainda quiseram dizer alguma coisa pra ele. Eu, no lugar deles, teria virado as costas e ido embora. Quando a estupidez é demais, por onde começar? Eu desanimo. Tenho ignorado, não explico, apenas deixo como está. Mais por uma incapacidade do que por decisão. Não sei dizer se é melhor ou pior. Por um lado, não me desgasto falando o que não vão entender; por outro, vou deixando as versões tomarem conta. Mas é que até pra levar sabão a pessoa tem que ter uma base, uma experiência de vida, um certo simancol. Só a formulação de certas perguntas já mostra que não dá.

Silêncio compartilhado

Se tem uma pessoa que eu admiro muito é o meu primo, o Quinho. Quando vou a São Paulo e nos encontramos, nossa conversa basicamente é

– Oi, Quinho.
– Oi, Fernanda.

E quando eu vou embora

– Tchau, Quinho.
– Tchau, Fernanda.

Não sei se pra mim um dia precisaram me explicar que ele é assim mesmo, acho que não. Se precisaram, foi há muito tempo. Não sei o que as pessoas normalmente pensam do Quinho, se acham antipático, se ficam incomodadas, se tentam arrancar coisas dele. Eu, como grande preenchedora de silêncios, admiro muito sua capacidade de não fazer isso.

Toma logo essa coca-cola!

Estudamos algumas matérias juntos, e ele era grande em todos os sentidos. Estávamos na cantina, e eu provavelmente disse que não aceitaria um gole de coca-cola porque havia parado há anos. Fui viciada e naquela época evitava qualquer gole pra não beber tudo de novo (hoje não precisa mais, deixei de gostar). Aí ele me contou que uma época fez uma dieta que restringia açucares, e a coca-cola foi junto. Ele estava há uma semana sem tomar coca e andava muito irritado. Tudo estava péssimo naquela semana. Numa briga com a namorada, ela lhe disse:
– Eu não te aguento mais, tudo te irrita depois que você parou de beber coca-cola. Bebe aqui um gole da minha.
– Imagina, claro que não, você que [assunto da briga]
– Não é nada disso, é só a falta da coca-cola. Toma logo essa coca-cola!
Aí ele tomou um gole. E junto com a coca veio uma paz gigantesca, um nirvana. Aí ele teve que admitir que sua irritação era apenas a falta do açúcar.
Não estou contando essa história para falar de vício, ou de desviciar, muito menos pra fazer propaganda. É que às vezes uma pessoa se torna tão chata quando abandona alguma coisa, – refrigerante, carne, cigarro, bebida alcoólica, carro, minion, etc. – se sente tão superior, isso lhe dá “permissão” para discursar tanto e encher o saco dos outros, que dá vontade de falar: então volta que é melhor.

Que semana

Sabe aquela semana que ela mal começa e já te esgotou, que terça você já está tão esvaziado de energia como se fosse terça, só que sem o otimismo? Sabe aquela semana mais agitada que primeiro capítulo de novela, onde uma trama mal terminou e começa a outra? Sabe aquela semana que tudo começa a surtar ao mesmo tempo, e você tem que administrar família, amigos, saúde, trabalho e até pisão no pé no ônibus? Sabe aquela semana com tantos problemas encavalados que desafiam as leis da física sobre ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo? Sabe a semana com emoções em montanha russa, tal o número de mudanças impactantes? Então.

Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Habilidade culinária

Minha amiga Suzi, além de muito talentosa com qualquer tipo de artesanato, é uma excelente cozinheira. Daquelas que faz qualquer prato do dia a dia ficar gostoso. E ela não se conforma com a minha total inabilidade e ignorância na cozinha e tenta me ensinar algumas coisas. Ela já sabe que só faço o que for ridiculamente simples e olhe lá. Mais de duas etapas e eu já não coloco em prática. É graças a ela que, neste instante que digito, estou tomando sopa de ervilha com creme de leite (sim, eu como diante do computador. Resultado outra intervenção, porque antes eu comia de pé), porque a parte mais chata é bater as ervilhas no liquidificador. Eu estava na casa dela esses dias e ela fez, ao vivo, umas batatas com alecrim pra eu ver como era simples. Cortou as batatas e algumas cenouras, jogou azeite e alecrim em cima e colocou vinte minutos no microondas. Ficou uma delícia. Realmente era simples, até eu podia fazer.

 

Fui na sessão de hortifruti com a determinação de comprar os ingredientes para minha nova receita. Tão simples e tão legal que eu quis caprichar. Não quis pegar reles batatas: comprei uma batata doce grande, mandioquinha e cenoura. Pois bem. Eu lembrei porque na casa da minha mãe havia uma faca grande que usávamos para descascar legumes. As facas daqui de casa ou eram sem fio ou eram com fio e finas. Usei as com fio e tinha que usar tanta força, que fiquei com medo de quebrar a faca no meio e sair voando lâmina por aí. Ou cortar um dedo fora. Com a batata doce, tive que apelar para a faca de pão. Todos os pedaços ficaram grandes, foi o que deu. Aí embebeci de azeite, usei todo alecrim que tinha, o forno já estava pré aquecido (isso eu sei fazer), coloquei minhas lindezas lá pra 35 min.

 

Quando deu o tempo, a casa estava perfumada de alecrim. Peguei meu resto de arroz na geladeira, esquentei, coloquei furikake (melhor coisa do mundo pra quem não sabe incrementar arroz) e já juntei tudo num prato. Morde um, morde outro, mistura com arroz e tive que enfrentar os fatos: estava tudo cru. E o arroz era pouquinho e acabou. Tive que colocar tudo de volta no forno. Lamentei no twitter e @karinasantoska, muito sensatamente, me disse “mas guria, era só espetar um garfinho ainda no forno”. Era, que é que eu vou dizer? Eu tento, gente, eu juro que eu tento. Mais meia hora. Digamos que até cozinhou, a maior parte. Achei que havia uma impossibilidade física de um alimento ficar cru e esturricado ao mesmo tempo, mas não há. A parte da secura deu pra resolver com goles de refrigerante, mas e a tremenda dor no pulso?

 

Sou brasileira e não desisto nunca. Comprei-me-a-mim-mesma uma faca de legumes. Detalhe que levei doze anos pra perceber que precisava de uma. Comprei batatas também. Desta vez, só das normais.

Uma dúvida sobre caráter

Digamos assim, eu estava conversando com um amigo. E nós temos um conhecido em comum. Digo conhecido porque esse fulano, cujo nome eu nem pronuncio, já foi um canalha comigo. Esse amigo sabe que já fomos amigos, mas não imagina o porquê do rompimento e fiquei com medo dele querer saber. Não é preciso entrar em detalhes e jamais entrarei no detalhe, mas a minha dúvida sincera é se eu poderia dizer: “Realmente, não somos mais amigos. O que posso dizer é que ele não é uma pessoa confiável.” Minha dúvida é porque, quando digo isso, estou condenando o caráter do sujeito como um todo. Estou dizendo que esse meu amigo deve manter toda distância possível. Mas, na realidade, talvez não, porque a canalhice que o fulano fez comigo é do tipo que apenas um homem pode fazer a uma mulher apaixonada. Alguém que fere uma mulher que estava apaixonada é um mau caráter no geral ou apenas um mau caráter no campo amoroso? Será que dá pra separar as duas coisas? Essa é a dúvida.