Bebedouro

copo d´água

A Dúnia percebeu antes de mim – ou melhor, se ela não tivesse percebido eu não me daria conta – que eu bebo um copo d ´água antes de sair. É como fazer o último xixi, pra evitar de sentir vontade quando estiver na rua. E como uma das vezes que eu bebia água coincidia com o nosso passeio, ela associou o barulho da água a sair de casa. O barulho da água caindo no copo imediatamente ativa um rabo balançando, que vejo pela janela. Tentei estabelecer uma nova regra, de beber água e começar a falar com ela, tudo para não dar alarme falso. Não adiantou muito; eu bebo água e ela fica de orelha em pé, olhando na minha direção, à espera do segundo ato. Passei a desenvolver várias estratégias pra tomar água sem criar expectativas: coloco água no copo e saio, encho o copo enquanto estou lavando louça, encho o copo agachada para que ela não me veja. E, claro, penso duas vezes antes de beber água.

Donos de bicho vão ficando todos meio loucos.

Salsicha

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Não me odeiem pelo que eu vou escrever sobre salsicha. Que te sirva de alerta: nunca economize na compra de salsichas.

A Dúnia está velha e passou a tomar repositor de cartilagem. Como ela tem que tomar todo dia, eu não ia brigar com ela todos os dias, então adotei de imediato o remédio na salsicha. O remédio é grande, então são duas metades por dia. Sabe como é, salsicha para cachorro, comprava a mais barata porque ela não se importa mesmo. E eu não como, não como salsicha porque não como carne. Sabe aquele cheiro que a gente identifica como cheiro de salsicha? Mesmo eu, que depois de anos sem comer carne nem salivo mais com cheiro de churrasco, acho o cheiro de salsicha bom. MAS eu descobri que esse cheiro é artificial. Só salsicha cara cheira salsicha. A salsicha barata tem cheiro de TRIPAS. Só de ter que mexer nelas todos os dias pra dar pra Dúnia, com aquele cheiro, foi me dando um nojo tão grande que eu agora sou obrigada a comprar salsichas caras pra ela.

A gente sabe que embutidos em geral não são coisas bonitas, mas não pensei que. Salsichas caras, lembrem-se disso.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Eficiente, adulta e guilhotina

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Já aceitei que talvez seja inevitável que a Dúnia precise usar o cone da vergonha uma vez por ano, no verão. Mesmo com o anti-pulgas, talvez por ela viver fora de casa, algum bicho a morde e ela não deixa a ferida cicatrizar. Eu me sentia tão mal em colocar o cone que a mimava mais, e ela em pouco tempo percebia e começava a ficar manhosa, me deixava totalmente sem autoridade. Como não se derreter com um cachorro que fica o tempo todo acertando sua perna com um plástico duro porque sempre tenta chegar perto, roça o cone na parede e no chão quando se movimenta, precisa ficar com a casinha sem teto senão não dá pra entrar. Eu também acabava tirando o cone antes do tempo, quando não estava totalmente cicatrizado, o que fazia com que ela voltasse a abrir a ferida, e eu tinha que colocar o cone de novo. Uma vez de tanto colocar e tirar acabei estendendo a situação por um mês, ela ia passear e andava ondulando, estava até com a percepção espacial alterada. Agora não: enfio a mão nos pelos da ferida, mesmo ela se esquivando. Cortei a parte dura, onde está o sangue coagulado e casquinha, verifiquei que ainda tem mais o que cicatrizar. Tudo com precisão, apesar dos protestos dela, apesar de ser chato, apesar de morrer de dó. Estou como uma enfermeira ultra-experiente que não se comove mais. Sempre achei tão bonito e procurei ser uma pessoa em contato com seus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que amadurecer é ficar implacável, ser capaz de ignorar o primeiro impulso e se preciso infligir dor, a si mesmo e/ou no outro, em nome do correto. Como se a gente fosse bisturi. Ou como quando você fica sabendo que a guilhotina foi considerada extremamente humanizadora na sua época, porque matava de maneira rápida e eficiente. Ou como quando você percebe que é mais fácil nem começar a chorar. Como endurecer por fora e continuar suave por dentro, como adultecer apenas o suficiente para não se partir em mil pedaços em contato com o mundo?

Pequenos momentos de reveião

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O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.

Curtas selvagens

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Uma providência que não tem negociação e não esqueço jamais é, assim que esquenta, trocar todas as iscas de barata da casa. Vocês não sabem o que ter que enfrentar baratão lustroso em casa, sozinha, à noite, faz no psiquismo de uma pessoa.

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Eu comento com a moça que estava tirando o meu sangue de um trecho do Karl Ove, da moça que viu sua cobra de estimação deitada ao lado dela e na verdade a cobra a estava medindo pra saber se já era grande o suficiente para comer, e a moça me disse que ouviu uma história parecida, de uma cobra que deitava todas as noites ao lado da dona. Só que no caso do Karl Ove, a mulher se assustou na hora, porque a cobra passava o tempo todo enrolada, enquanto no caso que ela me contou a mulher dormia toda noite com a cobra. Devia pensar: “own, que fofa, ela me ama e vem deitar comigo”.

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Enquanto os vídeos de gatinhos e cachorros encantam muitas pessoas, eu tenho uma amiga a quem destino especialmente os videos fofos de outros animais, porque ela é vegana. O meu facebook me mostra muito vídeo de bicho. Aí ele me mostrou um de uma família que adotou um urso, coisinha mais fofa o filhote de urso. Ele cresceu e virou um amigão, termina com ele sentado e uma menina brincando com ele. O problema é que aquele programa de animais selvagens com a história do leão no apartamento, uma vez mostrou de uma mulher que foi morar num lugar bem gelado e fez amizade com um urso, colocava comida pra ele todo dia na janela. Adivinhem: um dia faltou comida fora e ele pegou a mulher. Vi o vídeo do urso com aquela sensação terrível de que a criança seria a próxima vítima.

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Eu estava vendo um vídeo de astrologia, e o indiano contou de uma experiência com a alimentação das vacas. De acordo com ele, mesmo se a vaca coma um alimento envenenado, quando eles vão examinar o leite dela, ele está puro. Que a vaca é um animal tão generoso, que ele consegue reter o mal para si e nos oferecer o melhor. Ele falou nisso quando falava do nakshatra de nome Pushya, cujo símbolo é o úbere, e este episódio demonstrava o quão generosos os nativos de pushya são. Aí ele fala da maldade que fazemos com os animais. E que quem quiser estudar astrologia védica deve, antes de tudo, amar e cuidar bem da natureza. Terminei o vídeo achando que então nunca poderei estudar astrologia védica direito.

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Antes, um ponto alto da existência da Dúnia (hahahahaha, meu animal selvagem) eram os ossos de chuva, um osso grande que fica num pote especial e só é aberto em dias de chuva. Começou a chover sem parar e no primeiro dia que fui dar o osso de chuva, ela fez aquela agitação antecipada e quando lhe entreguei o osso, foi uma expressão de “só isso” que vocês não imaginam. Agora tudo nessa casa tem que ser na base da salsicha.

Cachorros e crianças

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Eu tenho duas amigas que tiveram uma fobia por cachorros que agora está se transformando gradualmente numa tolerância. Elas sofrem muito. A minha vizinhança tem pelo menos três cachorros de rua e alguns que são criados meio soltos – hábito que me deixa com medo quando passeio com a Dúnia, mas sou obrigada a compreender porque meu cachorro durante a infância, o Flock, também era desses. Mas o que eu acho mais chato por elas é a pecha de pessoa cruel que quem não gosta de cachorros pode ter. Eu não as julgo dessa maneira porque tenho o mesmo problema por não ser fã de crianças. Acabo desenvolvendo um carinho muito grande pelos filhos dos meus amigos; quando imagino se um dia uma criança possa ser uma versão de um dos meus irmãos, já amo só de pensar. Mas meu amor por criança é assim, condicional. Sento o mais longe que posso perto delas em lugar público, julgo severamente os pais que levam crianças pequenas para espetáculo e não se retiram quando elas estão chorando. Eu só entendi o amor imediato que algumas pessoas sentem por criança com o amor por cachorros que a Dúnia abriu no meu coração. Estávamos passeando e o vizinho estava com um cachorro de seis meses, do tamanho da Dúnia, e fiquei doida com a cara de bebezão que ele tinha. Já fui de gostar de cachorro pequeno, os que lembram pelúcias, hoje adoro cachorro com cara de cachorro mesmo. Assim como os doidos por criança, quanto mais eles são eles mesmos, mais legal eu acho. Me mostra vídeo de cachorro uivando, batendo as patinhas no chão de ansiedade, apoiando-se nas patas da frente com a bunda empinada para trás, pegando a bolinha, enfim, qualquer gesto bem normal de cachorro, e eu vejo tudo e me derreto. Cachorro pintado de rosa, andando em triciclo ou imitando um humano ao andar de pé sobre as patas traseiras – detesto. Essas coisas podem fazer mal a eles e bonito é cachorro sendo ele mesmo. Hoje eu sei entender a profunda sabedoria que tem na umbanda ter uma linha de crianças, e que ela é a mais poderosa para limpar ambientes: coloca uma criança (ou um cachorro) num lugar e veja ele ficar automaticamente mais leve.

Matérias do coração

Enquanto o país se mobilizava com o ataque sofrido por Bolsonaro, eu mal conseguia prestar atenção. O desastre do dia foi a Dúnia não conseguir apoiar a pata no chão. Ela havia passeado normalmente e duas horas depois estava trípede. Já era final da tarde de véspera de feriado e eu teria que esperar até o dia seguinte. Quis entrar em contato com o ex, que ele me acalmasse, instruísse, enfim, que dividisse esse peso comigo. Ele já está casado e eu não gostaria que o meu marido tivesse uma ex que liga em véspera de feriado desesperada com o cachorro. Usei o método de imaginar o que ele faria, a voz da razão que internalizei depois de tantos anos de convívio. Ele não apenas me mandaria dormir, como tomar um bom café da manhã para não passar fome durante ou depois da consulta. No fim deu tudo certo e ganhei mais uma estrelinha de vida adulta. Foi só sair de manhã, entrar em táxi, ver a veterinária e ser cutucada que a Dúnia já estava correndo como um filhote. O diagnóstico foi: frio e velhice. Além do anti-inflamatório, ela vai ter que tomar reposição de cartilagem pro resto da vida; como é meio impossível dar remédio para a Dúnia, isso lhe garantirá um pedacinho de salsicha pro resto da vida também.

Lembrei desta música do Miguel Araújo. Na introdução a ela no DVD do Cinco Dias e Meio, ele diz: “Se há um grande desastre, uma terremoto ou um maremoto na China, morrem milhares de pessoas e a pessoa fica um pouco incomodada; se há uma epidemia, uma doença qualquer na Espanha, e morrem dez, já é um pouco mais; e se morre um vizinho do lado, aí sim o acontecimento fica trágico”.

 

 

Um dia sem cachorro

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Em si, o banho da Dúnia já leva umas duas horas. Ela tem pêlo grosso, daqueles que fica difícil encontrar a raiz. Mas eu tenho um acordo com a pet, que a busca cedo e a deixa em casa na última entrega do dia, para que eu tenha um dia inteiro sem ela. É o dia da grande limpeza. Foi a solução que eu encontrei para não ter que deixar a Dúnia presa na corrente durante horas, pra depois acabar pisando numa pocinha mínima de água e deixar tudo com marca de patas. Atualmente ela possui quatro folhas de tapetinho de yoga e três enormes travesseiros com fronhas pretas dentro da casinha. Tudo vai pro sol, tiro os pêlos, lavo a casinha, as tigelas, as manchas no azulejo, esfrego o chão, tudo o que se possa imaginar. Só quando ela está fora, eu percebo o quanto a minha rotina leva a Dúnia em conta – de olhar sempre para fora para ver o que ela está fazendo, de colocar uma música quando trabalho na sala para que ela não pense que vamos sair, ter que fazer correndo outra coisa quando percebo que dei um alarme falso que vamos sair, estar sempre consultando o relógio para não perder o horário dela. Eu me sinto como aqueles pais com folga dos filhos. É dia de deixar a porta da sala aberta, não me interromper pra sair, fazer tudo em silêncio e na hora que eu quero. Mas, tal como os pais com folga dos filhos, só tem graça porque é rapidinho. No final do dia ela chega perfumada e cansada, e eu me derreto porque ela está de lacinho.

Osso de chuva

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Quando chove forte e troveja, não tem jeito, a Dúnia morre de medo. Só que não é só a chuva forte, ela tem tendência a ficar deprimida com chuva em geral. Pensei em como ajudar e achei boa ideia criar um reforço positivo: eu compro um osso grande especial, que fica num pote específico ao lado da porta, que ela só ganha em dias de chuva. É o Osso de Chuva. Deu certo, ela entendeu o esquema e fica toda alegrinha; ao invés de ligar pra chuva, a Dúnia passa um bom tempo entretida com o osso.

MAS, quando na saída da aula à noite, cai uma tempestade que alaga e cidade; a aula termina mais tarde; na carona até o ponto de ônibus, ele passa na frente do carro e segue longe; o ônibus seguinte está atrasado por causa do Lula; a visibilidade é quase nula; perco o segundo ônibus porque cheguei além do horário e tenho que pegar a linha que me deixa mais longe de casa; o segundo ônibus também está atrasado por causa do Lula; enfrento as quadras até a minha casa com um guarda-chuva inútil, tamanha a intensidade da chuva; estou faminta e só tem um restinho de risoto pronto me esperando na geladeira; as poças da calçadas estão tão grandes que não há como pular ou desviar, o que deixa meu tênis encharcado; quando chego no portão, a Dúnia levanta a cabeça da sua soneca gostosa, assiste enquanto me molho mais ainda para abrir os cadeados e, na parte seca e coberta, fica pulando em torno de mim querendo que eu dê logo o Osso de Chuva enquanto me viro tentando tirar o excesso de roupa molhada. Num momento desses, um pouco de solidariedade faz falta.

Livro natural

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Depois que chove e finalmente consigo tirar a Dúnia de casa, já sei que me espera um passeio mais demorado do que o habitual. Parece que a chuva abre possibilidades novas e ela se atira sobre os matinhos e cantos com mais entusiasmo, como se ali estivessem informações novas e deliciosas. Talvez a Dúnia já esteja bem ceguinha e eu nem sei, porque ela sempre foi um cachorro olfativo. Trajetos longos nada significavam pra ela se não fosse possível parar a todo instante para cheirar. Antes essas paradas me deixavam impaciente depois comecei a pensar que, visto de fora, também não tem o menor sentido que eu coloque diante do meu rosto uma tela branca cheia de fileiras pretas e fique parada. Ficar deitada na casinha e latir para quem passa é apenas a parte visível do universo da Dúnia, a parte que tenho acesso. Também tenho visto os chefs, e qualquer matinho eles já colocam na boca, provam as coisas cruas, pegam o camarão que foi pescado na hora, arrancam a cabeça, descascam e comem aquela carne transparente. Eu só consigo pensar numa água saindo da torneira, meia hora de molho com um pouco de água sanitária, quem sabe uma panela cheia de óleo quente. Claro que é nisso que eu penso, eu já coloquei alecrim em molho sugo e só soube que fica ruim porque comi. O dom que eu tenho é o de vir aqui e contar essas coisas, e contar tantas coisas, pequenas e fugidias, que vocês se iludem de que elas são mais importantes do que as de outros. Assim como o que sabe matemática vira o sabichão no colégio, o domínio da linguagem escrita dá a poderosa sensação de inteligência. Eu adoraria poder penetrar na magia do cheiro dos matinhos molhados.

Durona

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Eu não sei que horas a Dúnia dorme, ela está sempre acordada quando eu vou dormir, por mais tarde que eu vá pra cama. Agora, mais velhinha, o horário dela de acordar é pra lá do meio dia. Quando saio de bicicleta, às 7h, está bem mais cedo do que o horário dela. Eu acordo, vou até a cozinha pra um café rápido, volto pra terminar de me arrumar e saio. Principalmente no inverno, quando eu abro a porta, a Dúnia me olha com cara de sono dentro da casinha, aproveito pra fazer o carinho que ela normalmente não deixa e lhe dou um ossinho. O que ela não sabe é que, às vezes, enquanto estou tomando meu café, eu a vejo da janela da cozinha, sentada com o ouvido colado à porta da frente. Em algum momento, entre o café e terminar de me arrumar, ela volta pra cama e fecha os olhos pra me convencer que esteve lá todo o tempo.

Monástica

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Ele – que me fez lamentar muito nunca ter ensinado pra Dúnia alguma palavra de ataque em alemão ou algo do gênero, que cometeu uma quantidade absurda de bolas-fora por minuto, que nos primeiros 30 segundos de conversa só faltou me dizer quanto tem na poupança – me acenou com uma relação onde a casa estaria cheia de gente, o pagode tocaria no fundo, eu serviria as visitas com os coraçõezinhos e traria mais cerveja gelada.  Nada de novo ou nada de estranho para quase ninguém. Voltei, abri o portão, soltei a Dúnia da corrente e voltei pra minha casa monásticamente silenciosa. E relembrei, caso em algum momento tenha me esquecido, o quanto a amo.

Minha Dudu

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Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Curtas meio fashions

cachorro chique

Eu e a Dúnia chegamos num nível tal de sofisticação que eu coloco uma roupinha mais leve nela quando a tarde cai e troco por outra mais quente quando realmente esfria à noite. Não é gosto não, é cachorro chorão mesmo.

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Eu não apenas vejo Ru Paul´s Drag Race torcendo sempre para as drags mais velhas: eu consigo ver (ou acho que consigo) no que elas conseguem se sair melhor do que as mais novas por uma simples questão de vivência. Em outras palavras: eu sou uma drag velha.

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Estou de cabelo curtinho e é estranho que isso seja novidade para quem está à minha volta. É o corte que usei minha adolescência inteira, parte da faculdade, no início do casamento. Eu me sinto uma versão vintage de mim mesma.

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Num documentário sobre Cauby, descobri Liberace. Já tinha ouvido o nome, mas jamais havia visto. Acreditem, é pra ver.