Introvertido se divertindo horrores na balada

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Algumas poucas vezes na vida introvertidos convictos caem na falácia do “desta vez vai ser diferente, vai ser divertido”. Geralmente quando nossos amigos extrovertidos se aproveitam de uma fase baixa, e atribuem o fato de você estar sozinho à sua introversão. Não que não seja verdade, mas o errado é a associação de sozinho com feliz e multidão com acompanhado. Aí você aceita que a amiga extrovertida te pegue em casa, e até consiga combinar com outros dois amigos que também não gostam de balada. Ela liga num horário que você já está de pijamas, diz que em quinze minutos passa aí, você se descobre capaz de se maquiar rapidamente, a pessoa leva duas horas para chegar. Quando chega, você enxuga a baba da almofada e vai, sem poder perguntar o que aconteceu porque há mais caronas no carro e o clima está péssimo. Vocês chegam na balada, que fica nos cafundós, a amiga dá piti na entrada porque reservou mesa mas o descontou expirou há três horas, ela argumenta que tem vinte convidados, o pessoal se olha com cara de quem já viu o filme e dá o desconto. Os dois amigos que também não gostam de balada escolheram uma mesa bem longe do palco e estão de péssimo humor porque chegaram no horário combinado. As outras vinte pessoas são umas seis, contando que outra também é aniversariante com marido. Você tenta conversar com os amigos que não gostam de balada mas o Máskara interrompe com gritos histéricos. Eles decidem ir embora. Pra noite não ser tão longa, você vai até a pista de dança porque a banda realmente é boa. E dança. A amiga extrovertida te vê na pista de dança e concluiu que a balada é um sucesso e você está se divertindo horrores. Apenas: não.

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Curtas de condições físicas

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Uma das minhas mais queridas ex-professora de balé foi morar fora e veio pra Curitiba há poucos dias. Ela fez uma publicação pra avisar de um big encontro,o aniversário dela, marcou um monte de gente, eu dentre eles. Ela é tão querida que cheguei cogitar aparecer, apesar de tudo: lugar público, barulhento, sozinha no meio de bailarinos. Penso que isso de ser tímido é quase como uma condição física que a gente se acostuma, como se fosse uma dor no joelho, daquelas limitações que os outros até sabem e ao mesmo tempo não até onde vai. Com o tempo a gente conhece o nosso próprio organismo, olha pra situação e diz: não, isso eu não dou conta, vai ser ruim.

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A série Atypical (Netflix) é toda uma gracinha. É a história de um adolescente com grau leve de autismo que quer arrumar uma namorada. Tem uma cena que o pai dele vai para o grupo de apoio. Ele todo fofo, interessado, falando que está feliz do filho dele estar bem, e é corrigido o tempo todo: “não dizemos melhorar, porque é uma condição física irreversível”, “ah, você quer dizer que as estratégias comportamentais dele estão eficientes”. Muito internet, muito grupos de bandeiras-legais-que-agem-de-maneira-nada-legal que vemos por aí. É perder o conteúdo em nome da forma. Não sejam essas pessoas.

 

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Aceitei a recomendação de uma vitamina C turbinada, para cansaço. Na bula diz: “para gerar energia, as células do organismo realizam várias reações químicas. Durante o processo (de geração de energia), as células liberam amônia, que é um produto tóxico para o organismo, incluindo o sistema nervoso central, desencadeando a fadiga. A arginina atua, transformando a amônia toxica em uréia que é eliminada pela urina, ajudando a combater a fadiga (cansaço) tanto física ou muscular quanto mental ou psíquica, causada pelo acúmulo de amônia no organismo”. Agora eu mijo cansaço.

Pudor

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Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

Formigas

Estou vendo um longo documentário sobre o Darcy Ribeiro e estudar a história desse homem é estudar a história do Brasil. São cinco episódios e estou no quarto. Agora, ele está com Salvador Allende. Antes disso ele já foi discípulo do Rondon junto com os índios, lutou com Anísio Teixeira pela escola pública, fundou a UNB, foi ministro da casa civil do Jango, estava lá quando ocorreu o golpe de 64 (offtopic: bastante angustiante acompanhar o golpe de 64 e relacionar ao que vivemos hoje. Nas semelhanças e nas diferenças), foi preso, exilado no Uruguai, na Venezuela, Chile e fez contribuições para a antropologia de todos esses países… Onde o homem punha o pé criava um agito, revolucionava, produzia. Vejo que ele foi um péssimo aluno de medicina, pois gostava muito mais do social do que da sala de aula e dou risada de mim mesma. Rio porque toda vida sempre fui CDF mas, ao mesmo tempo, eu achava que pertencia à mesma categoria de pessoas que o Darcy. Acho que todo xóvem se vê assim, ai de quem nos contrarie. Mesmo entre aquelas que ocupam cargos importantes e entram para a história, me parece que existem dois tipos de pessoas: as que se destacam e realizam um trabalho apenas por serem a pessoa certa na hora certa. Sua presença é circunstancial. Darcy é o outro grupo, muito mais raro do que se faz crer, de gente que você pode colocar em qualquer canto e vai se destacar, vai revolucionar e subir. É provável que eu e você nunca tenhamos conhecido alguém assim. Adivinho que tem que ser inquieto, extrovertido e definitivamente bom de papo. Novamente rio: tenho uma necessidade aguda – característica dos introvertidos – de sentir o ambiente, saber onde estou pisando; alguém com tanto cuidado com os sentimentos alheios e senso de adequação jamais seria um tipo desses. Claro que cada Darcy precisa de várias formigas para não deixar que seus planos se desvaneçam, tudo tem seu lugar no mundo. Apenas que a maturidade é assim: a gente não investe mais naquilo que não somos.

Newton interno

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Que introvertido não leria isso sem se identificar com Newton?

Collins divulgou alguns trabalhos de Newton para diversos matemáticos, na Escócia, na França, na Itália. Enviou livros a Newton e apresentou-lhe questões: por exemplo, como calcular a taxa de juros de uma anuidade. Newton enviou-lhe uma fórmula para isso, mas insistiu para que o próprio nome não aparecesse caso ela fosse publicada: “Pois não vejo o que possa haver de desejável na estima pública, caso eu a conquiste e mantenha. Talvez isso viesse a aumentar meu número de conhecidos, algo que me empenho em declinar.”

James Gleick/ Isaac Newton: uma biografia, p.80

Acho que o problema é que todos nós que amamos a solidão gostaríamos de ser Newton. Que nossa recusa em aumentar o número de conhecidos, que a vontade de passar mais tempo trancado em si do que no mundo fosse a gestação de algo grandioso. Eu leio sobre o isolamento de Newton e penso que não poderia ser diferente, que a introversão e a genialidade eram uma coisa só. Pena que a relação entre as duas coisas não pode ser invertida… Eu não produzi nada, então as pessoas se veem no direito de me mandar sair da casca. E como posso justificar para elas – e para mim mesma – que não?

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

Um post bem invejoso

Quem não via a Escolinha original pode ter pensado que o personagem do Zé Bonitinho era um dos principais. Não apenas não era – a rigor, não havia principais – como nem era assim tão engraçado. Eu era muito nova pra entender a ironia do personagem, e ficava meio irritada com ele. Apenas revendo a Escolinha eu me dei conta do quanto eu a assistia, de que conhecia cada um, e um programa que pra mim era puro hábito me deixou saudosista. Delícia rever Ademar Vigário, Rolando Lero e Pedro Pereira – inclusive vivo falando “há controvérsias” e tinha me esquecido da fonte. Aí quando vi Mateus Solano como Zé Bonitinho o personagem me apareceu como algo inédito, incrível. Desde que apareceu na TV, Solano tem se destacado em todos os personagens que faz, mas nunca havia sido tão claro pra mim o quanto ele é talentoso. Eu me senti como um dos atores escalados para a nova versão, com o desafio de imitar algo que já existiu e o sujeito vem e brilha daquele jeito. Esse é um “problema” muito comum no meio artístico: gente que tem tanto talento que nunca passa despercebido, que é capaz de fazer um excelente trabalho com qualquer coisa, que protagonizará mesmo com a menor das brechas. Chamei de problema porque é um problema para todos os que estão ao lado e não são tão bons, ou seja, 98% da população. Não é algo que se treine e nem se force, a pessoa simplesmente é. Eu não sou. Não sou assim no flamenco, na vida, em nada. Sou justamente o contrário: aquela pessoa que apaga nas multidões, que se chama atenção é por ser quieta demais, que leva anos pra mostrar suas qualidades. É o destino dos tímidos. Somos observadores, empáticos, sensatos, adequados, inteligentes, somos muitas coisas, mas brilhar desse jeito não é o nosso. Então quando vi o novo Zé Bonitinho, um lado meu não pode deixar de se render – e o outro ficou com raiva, com despeito, com inveja.

Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

Inverno interno

Hoje eu quero cabaninha de coberta. Daquelas que a gente deita de lado, com as pernas encolhidas e enfia todas as pontinhas debaixo do corpo. Gosto de cobrir a cabeça e deixar só os olhos e o nariz descobertos. Por dentro dela, estarei abraçada com o meu cachorro de pelúcia e vestirei meu pijama de flanela mais quentinho. Meus olhos podem estar abertos, mas posarão imóveis sobre qualquer coisa como se fechados estivessem. Essa noite eu não quero ter razão, não posso e nem quero adivinhar o sentido oculto das palavras. Quero a imobilidade dos móveis e suas sombras. Lá fora, o vento uiva frio e mau e desse mundo não quero nada. Hoje conto com o meu próprio colo e meu próprio abraço, porque deles eu não duvido. Que nessa noite eu possa apenas ficar quieta e ser deixada em paz.

Um certo ar, uma certa cobrança

Uma ou outra dança é feita por alunos, com o objetivo de ter a vivência de tablado, o resto é dos profissionais. É na parte dos alunos que eu me encaixo. Cinco anos e duas escolas depois, eu sou conhecida o suficiente para saber o nome de todos, mas não o suficiente para termos uma história em comum. Fui uma das primeiras a chegar; sentei no chão e me maquiei na frente do espelho enquanto os outros vinham se arrumar também. As pessoas chegavam, se cumprimentavam, perguntavam das novidades. Os meios de dança costumam ter (não encontro o termo preciso. Bourdieu deve saber) uma valorização, um ar de juventude, felicidade e extroversão. No flamenco, claro, menos jovem do que no balé, mas ainda mais de extroversão. Uma coisa de chegar, sorrir, tirar fotos, falar alto. Sou tímida e não bebo, então minha contribuição costuma ser, no máximo, rir do que assisto. Naquela noite apresentação dos meninos, e como se pode esperar, são quase todos gays assumidos. Eu circulo, faço um comentário aqui e outro ali, vou pra fora com os fumantes sem fumar, como um pedaço de bolo, participo de várias conversas e nenhuma. Talvez pareça, pros meus outros amigos, que faço doce quando falo que não danço bem, mas no meio dos bambambans vejo claramente meus limites. Dias desses um cara que fez flamenco comigo deu uma festa e convidou vários “flamencos”. Soube daquela forma chata: “você vai na festa hoje?” “Festa?”. Alguns convidados trocaram menos palavras com ele do que eu, mas todos tinham em comum o fato de serem grandes bailaores. Não sei com que grau de justiça, ele me colocou naquela turma dos “nunca serão”, logo, pra quê puxar meu saco. Sou daquela turma que se não errar tá bom, que se propor a dançar tá bom, que já tem um “parabéns!” engatilhando assim que a gente sai do palco, porque já fez muito em apenas estar lá. Quando já estava quase na hora de entrar, todo mundo arrumado, maquiado e flamenco, fazem uma roda, ligam a câmera, todos somos convocados pra cantar e bater palmas. Não sei a música, não sei o porquê e nem pra quê, mas somos todos amigos, flamencos, nos bastidores, e ninguém pode ficar de fora. A câmera ligada, todos juntos, participativos, e minha colega de palco sussurra: “Estou me sentindo um peixe fora d´água”. Como eu a adorei naquele momento! Só então eu percebi o quanto me sentindo deslocada por não ser tão jovem, feliz e extrovertida quanto deveria.

Casa vazia

Eu passo muito tempo em casa e isso não é de hoje. E como sou uma pessoa introvertida, isso sempre me fez bem. Introvertidos têm a necessidade de recarregar as baterias depois de estarem acompanhados. A impressão que dá é que os extrovertidos se alimentam da companhia de pessoas, e quanto mais saem com pessoas, melhores e mais energizados eles se sentem. Para os introvertidos, por mais que a companhia seja boa, depois dá vontade de ficar um pouco sozinho, de assimilar. Senão ficamos chatos, mal humorados. A minha rotina de passar muito tempo dedicada às tarefas silenciosas, como escrever e cuidar das minhas coisas, têm me garantido ser uma companhia disponível quando tenho que estar com as pessoas. Até mesmo quando surgem programas, tenho conseguido ser uma pessoa disponível, porque estou sempre em dia com as minhas baterias introvertidas.

 

Só que agora é como se a rotina que tanto amei se voltasse contra mim. As mesmas coisas de sempre, os mesmos horários, o mesmo tempo disponível agora me parecem sufocantes. Parece que tudo isso fazia sentido apenas porque a solidão não era completa. No final da tarde ela seria interrompida, nos fins de semana ela seria interrompida. Quem tem uma companhia constante não precisa se preocupar em formar um grupo de amigos, em frequentar seus vizinhos, criar programas novos. Porque, mesmo sem fazer nada, eu sempre tive um outro ser que anda pela casa, que abre a geladeira, ou seja, alguém. Posso passar horas sem falar nada, mas no momento em que eu abro uma página ou vejo um vídeo engraçado, eu tenho uma audiência, alguém para dizer “quero te mostrar uma coisa”.

 

A minha rotina de sempre, a minha tão amada rotina, tornou-se de repente um motivo de terror. Quando penso no assunto – às vezes porque me obrigo, às vezes porque me despeço – o ansiedade sobe e me sufoca. Tenho medo de passar o dia inteiro sem ouvir outra voz, sem uma conversa, sem contato humano. Tenho medo de ficar igual a minha mãe. Agora me parece que tudo seria mais fácil se eu tivesse que acordar cedo, sair correndo, passar o dia fazendo coisas chatas, lidando com colegas de trabalho e preocupada com outras coisas. Que apenas no fim do dia eu chegasse em casa cansada e percebesse a casa vazia.

Contrariando todas as tendências

Basta falar em grupo comigo – de estudos, blogueiros, artistas, o que for – que minha primeira, segunda e vigésima quinta tendência é procurar a saída mais próxima. Dificilmente falar em grupo ao meu lado conseguirá minha adesão imediata, ainda mais depois que aprendi a difícil arte de falar a verdade sem ofender (muito). Caso consigam, num caso de problema de audição, confusão verbal e insanidade temporária, minha outra providência era de arranjar uma boa desculpa posterior. No último caso, eu poderia simplesmente não aparecer. Isso sem falar que qualquer coisa que implique em contar com a colaboração de outras pessoas já gera em mim o sentimento de Ih, não vai dar certo. Ou quando alguém se mostra entusiasmado com seus muitos amigos, logo penso – Pobre iludido!

 

Muito disso é de família. Minha mãe é tão fechada e detesta contato humano num grau, que vocês se surpreenderiam de eu ser capaz de dizer Bom dia. Aprendi a amar – ou me conformar – com a minha timidez e não gostar de grupos faz parte do pacote. Há nisso uma carga de orgulho, de desdém. À primeira vista as pessoas não me pareciam cheias de qualidades o suficiente para me fazerem perder meu precioso tempo. Só que esse mesmo item, o tempo, me convenceu de que eu preciso mudar. Esse seria o meu segundo conselho aos jovens, nessa caminhada de erros que tenho feito. É muito difícil sair do lugar sozinho. Talvez seja possível, se a pessoa tem uma visão de mercado, seja muito empreendedora, muito inteligente, extremamente segura… um conjunto fabuloso de qualidades cuja dosagem eu não sei direito. Só sei que, seja lá como for, eu não tenho. Me recusar ao contato humano me garantiu muitas horas de leitura trancada em casa – e nenhum convite para as infinitas oportunidades de trabalho, crescimento e desafios que a vida oferece.

 

Reuniãozinha, conhecer pessoas? Respiro fundo, contenho o instinto de procurar nas pessoas provas incontestes da nossa incompatibilidade, reservo um lugar na minha agenda e me programo para estar no melhor humor que eu puder. Não tem sido tão ruim quanto eu pensei. Quem sabe um dia eu me acostume, quem sabe um dia eu até goste.

Segurança

Falei recentemente pra um amigo que eu era uma pessoa insegura, que na hora me disse que não, que eu não era uma pessoa insegura. A espontaneidade da resposta me deixou feliz, tanto que nem quis perguntar de onde ele tirava tão equivocada impressão… Fiquei pensando nas muitas coisas que podem nos passar a ideia de que alguém é inseguro ou seguro: a maneira de olhar e se dirigir às pessoas, a maneira de falar, o tom de voz, o modo como se veste, etc. e concluí que talvez eu tenha aprendido a dominar essas técnicas o suficiente pra não deixar tão claras as minhas inseguranças. Crescer, amadurecer, fazer terapia, corrigir a própria postura têm que servir para alguma coisa. Tem vezes que eu disfarço tão bem, fico tanto tempo nessa ilha de segurança, que até eu mesma começo a achar que sou segura pacas. 
Mas aí me vejo aqui às voltas com meu novo projeto, que em poucas palavras pode ser resumido à ideia de sair do meu exílio auto-imposto. As inúmeras portas fechadas e a impressionante falta de sorte que tenho no meu setor profissional acabaram me convencendo de que não adiantava lutar. Eu me convenci que a vida produtiva não era pra mim, que por algum motivo eu jamais ganharia o meu dinheiro e que ser esposa era tudo o que minhas capacidades me trariam. De certa forma, eu ainda penso isso. Penso e estou aqui tentando não mais pensar. Sabe o que é tentar de novo? Sabe o que é fazer o que você já fez várias vezes, anos a fio e nunca deu certo? Olhar de novo para currículos e procurar pessoas me afeta de um jeito que só de escrever isso me dá vontade de chorar. É como tomar várias doses de injeções oleosas, sempre no mesmo lugar. Eu farei unicamente porque não é mais possível adiar; cheguei num ponto que avançar dói, mas não avançar dói mais ainda.
Tendo isso em mente, a segurança agora não me parece mais uma questão de ser ou não ser. É como se fosse uma questão de atenção, de onde você coloca o holofote da sua consciência. Ou seja: sou capaz de viajar sozinha, me hospedar na casa de pessoas que mal conheço e depois ir pra uma festa. Sou capaz de subir num palco, de participar de campeonato e de vestir biquíni. Sou capaz de muitas coisas que, como pessoa muito tímida, eu não deveria ser capaz de fazer. Porque treinei, já fiz e de uma maneira ou outra deu certo. Mas basta colocar o foco na minha vida profissional – onde a minha história não é tão boa – que tudo cai por terra. É mostrar a sujeira debaixo do tapete, exibir para as visitas o cômodo da bagunça. Nesse setor da consciência, a criança tímida nunca cresceu.

Não façam o que eu fiz

Um amigo meu me pediu para ajudá-lo numa reportagem que ele estava escrevendo para a faculdade de jornalismo. Ele me pediu para falar sobre o período que fui escultora. Fiquei meio assim, falar sobre o que não foi direito. Nunca será um assunto totalmente tranquilo pra mim. No fim, como geralmente são essas reportagens, ele me disse para completar com algum conselho, uma lição para os jovens. Conselho, justo eu? Lembrei dessa história e pensei em em escrever algo chamado “Conselhos para os jovens”. Não diria a eles o que fazer e sim o que não fazer. Seria algo sincero, seria uma autoajuda do avesso. “Faça o que quiser para alcançar o sucesso, menos o que eu fiz”. Não sei como é estar lá em cima, mas sei direitinho como é estragar tudo. Quanto mais capazes e arrogantes o jovem se sentir – ou seja, quanto mais típico – maiores as chances dele em repetir meu erro. Porque um dos meus problemas quando fui escultora foi ter sido alçada rápido demais à condição de talentosa, grande futuro, etc. Comecei de salto alto, como se diria no futebol.

 

Outra maneira de dizer a mesma coisa: tem uma citação deliciosa, que adotei pra vida faz tempo e não sei de quem é, que diz que o tímido, o introvertido, é um extrovertido do avesso. O extrovertido está sempre procurando os holofotes, sempre em busca de atenção; o introvertido já tem um holofote natural, e está sempre tão ciente das atenções que elas o sufocam e ele foge. Me ocorre agora que é como se o extrovertido fosse uma subcelebridade, correndo atrás dos paparazzi e das notinhas; o introvertido é a celebridade de verdade, aquela que esconde o rosto e tenta manter uma vida privada. Eu fiz, com a escultura e com meus outros talentos, as mesmas coisas que um introvertido. Eu acreditei que os holofotes já estavam lá, eu pensei que o mundo me buscaria. Sou uma trabalhadora e concentrei meus esforços no meu trabalho. Sempre fiz tudo bem feito, com qualidade, com carinho e esforço. E acreditava que o reconhecimento era uma consequência natural. Sem que eu precisasse falar nada, os que estavam perto de mim veriam como o que faço é bom e a boa nova se espalharia. Eu acreditava no poder da qualidade, da minha qualidade.

 

Não é assim, tanto que eu fracassei. Descobri que são dois trabalhos, totalmente diferentes: o fazer é uma etapa, o divulgar é outra. Uma é introvertida, outra é extrovertida. Cansei de ver excelentes blefadores se darem muito melhor do que eu, porque ao invés de esperarem pelo mundo eles foram lá e se venderam. Antes eu tinha raiva disso, hoje entendo que é assim mesmo. É um outro tipo de trabalho, outro tipo de talento e inteligência. Pena e problema meu que a minha “modéstia” tenha me impedido de fazer o mesmo. Sou um doce de pessoa e levo dez anos com fama de antipática – está pra nascer alguém que seja tão ruim em marketing pessoal quanto eu. Quem não se divulga não é visto, os outros não têm a obrigação de baterem na nossa porta. Achar que o mundo nos descobrirá é um certo salto alto. Ser um gênio talentoso dentro de casa ou só entre os seus, acaba sendo o mesmo que nada. Jovens, não façam o que eu fiz. Corram atrás, vendam baratinho e sorriam. É assim que se começa.

Auto-ajuda e timidez

Eu li muito livro de auto-ajuda na vida e acho que eles têm sua utilidade. O que eu gosto nesses livros é a idéia que está por detrás deles: a gente não É e sim que Está. Ao invés da postura Gabriela diante de vida – eu nasci assim, sempre fui assim, vou morrer assim, Gabrie-eela! – parte-se do pressuposto que se uma coisa que te incomoda, você pode tentar mudanças de hábitos e comportamentos até se tornar uma pessoa diferente. Pra algumas coisas pode ajudar, eu usei. O pressuposto da Programação Neurolinguística de que o inconsciente aceita qualquer coisa que a gente repita muito, mesmo que seja meio brincando, é algo que eu percebi que funciona. Passar o dia inteiro repetindo “eu tô gorda” só porque não gosta de algumas gordurinhas na barriga faz um mal tremendo…

Há algo muito forte em mim, que provavelmente tentei mudar, mas que terapia ou programação nenhuma consegue mover: minha timidez. Na adolescência, aquela fase que a gente se odeia, eu (provavelmente) lamentei pensar que nunca seria popular, nunca seria o centro das atenções nas rodinhas, nunca chegaria longe em funções que exigem que a pessoa fale com a maior naturalidade diante de qualquer platéia. Hoje não apenas não desejo essas coisas como sei que gosto muito de ser quem eu sou, e que ser extrovertido é uma faca de dois gumes. Chegar num grupo estranho cheio de segurança pode ser ótimo, assim como pode estragar tudo. A linha entre ser extrovertido e sem noção é muito tênue. Cansei de ver gente que chega num grupo novo e senta no melhor lugar, se mete a dar opiniões sobre o que está ouvindo pela primeira vez e já sai falando em nome da turma. Depois, quando nada dá certo, reclamam que as pessoas que sempre foram hostis com ela. Eu, como qualquer pessoa tímida, tenho necessidade de sentir o ambiente. Nunca me torno logo aquela que todo mundo gosta; em compensação, por observar antes de falar, não falo besteira, por ficar no meu canto não invado o espaço dos outros sem querer. Sempre dá certo. A extroversão é hiper-valorizada, isso sim.

Tímidos

Eu acho a timidez fofa. Ela é tão combatida porque hoje querer ir devagar pra qualquer coisa é pedir demais. Se você não parte logo pros finalmentes, está fazendo doce. Gosto do tempo que a timidez impõe – tempo para se sentir gradualmente à vontade, pra conseguir se soltar diante de alguém, pra deixar escapar de maneiras mais sutis os próprios sentimentos. Sentir receio, pela consciência aguda de estar perto do diferente. Há um espaço grande entre uma intimidade e outra, e percorrê-lo sempre requer autorização. E etapas, muitas etapas.

Só entende que “o melhor da festa é esperar por ela” quem já esperou. E quem é tímido sempre espera.