Rebordosa

rebordosa

Apesar de ser caretíssima, de botar o pé na jaca com chocolate e coca-cola, vejo livros e documentários sobre drogas e me impressiono com a ingenuidade das pessoas. Com a Carmen Miranda e todos na época dela, que achavam que podiam manter o corpo ligado e que isso não fazia mal à saúde. No quanto o pico, qualquer tipo de pico, tem uma descida orgânica depois, e ela é muito difícil. Eu, louca e obsessiva que sou, faço isso sozinha com trabalho. Engatei meses trabalhando mais de dez horas por dia, sem desligar. Eu funciono muito por tarefas, de colocar um objetivo e não me importar em me matar até ver aquilo concluído. Foi assim que cursei uma faculdade e um mestrado ao mesmo tempo, sem me importar em estar morrendo e ter crises constantes de choro, porque estabeleci que só pararia com os dois diplomas em mão, e foi o que fiz. Agora estou vivendo outro rebote desses. Como, durmo, choro, dou ao corpo o que ele precisa, torcendo para que ele não precise de mais. A descida, a rebordosa, é sempre aquele momento que você não gostaria de estar lá para viver.

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A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

A moça

Não sei se a casa estava desocupada antes, ela só passou a existir pra mim quando a moça se mudou pra lá. Uma casa que combina com a favela que não fica muito longe dali – de esquina, no fundo de um terreno sem grama e cheio de restos de construção civil.  Meu ônibus enfrenta uma boa subida quando passa por ali, quase se arrasta. Do lado oposto à porta, geralmente de pé, meu olhar pousa na casa quase sem querer. Quanto tempo eles estão lá, um ano? Mais ou menos por aí. Tem a mãe, não sei dizer se outros são parentes e tem a moça. A moça deve ter na faixa dos seus vinte anos; a calça dobrada sobre si mesma nos deixa perceber que ela não deve ter mais do que metade da coxa direita.

Acho que foi o acidente que levou a família a se mudar pra lá. Eu sempre me perguntei o que foi que aconteceu – ela estava numa moto com o namorado, estava assistindo um racha e foi atingida por um carro? Eu fico imaginando acidentes assim, de uma moça jovem que gostava de ser jovem. Você pode dizer que eu não tenho como adivinhar esses dados, mas tudo nela sempre me pareceu gritar: eu não era assim! Nos primeiros meses, de cabelos desalinhados, ela se arrastava lentamente da frente para os fundos do terreno. Suas muletas lhe pareciam pesadas e ela olhava para o vazio. Depois, a parte da frente da casa virou um bar. Num concreto que faz as vezes de banco, passou a sempre ter gente por ali, muitas moças e rapazes da mesma idade que ela. Ao longo desse ano, eu a vi de pé, eu a vi conversando com pessoas mais velhas, eu a vejo sempre com outra moça, eu a vejo com muita gente da idade dela. Eu nunca a vi sorrir.

Final de junho e da tarde, como sempre estou de pé no meu ônibus, do lado oposto à porta. Olho sem olhar para a casa e lá está ela. A moça está de pé, andando no meio de dois rapazes. Mas ao contrário de todas as outras vezes, seu cabelo está arrumado numa franja com gel para o lado. Ela usa uma jaqueta apertadinha e a calça dobrada imita couro. Eles estão de saída. Eu sorri.

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Mortalidade

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Era de noite, eu estava no ônibus e me sentia miserável. É que estar miserável era meu estado normal aqueles dias. Aí meu ônibus parou no sinal na frente de outro, e naquela outro havia adolescentes rindo e uma moça com saia curta e uma meia calça de bolinhas. Por algum motivo eu achei que valia a pena estar ali, vê-los rindo, ver a meia calça de bolinhas.

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Eu me pegava muito pensando Nela. Quando as coisas estavam ruins, quando minha mente me torturava pelo fim, pela minha burrice, pelos meus erros, por tudo. Acho que o masoquismo era demais e chega uma hora que o organismo reage. Ele me dizia: “Ok, você está sofrendo muito por ter se separado. Mas o que seria melhor, ser Ela?” Não, eu tinha que reconhecer que não. Ela, naquele momento, não sofria pelo fim de nada porque jamais começou.

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Na noite anterior eu já sentia sinais. Uma contagem regressiva. Eu jamais havia entendido gente que comemora data de morte e coisas tristes, achei que era apenas desligar. Aí descobri que não é assim. Dormi pensando no assunto e já não acordei bem. Tentei várias coisas e nada me animava, até que antes das 10h eu sentei no sofá disposta a chorar todas as lágrimas, o dia inteiro. Foi naquele exato momento que Ele me convidou para almoçar, e quando soube como eu estava, para passarmos o dia juntos.

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Foi a minha dentista que, sem querer, me mostrou que eu era normal. Fomos da mesma turma de pilates durante alguns anos e eu a conheci pouco antes de se separar. “Nos fins de semana eu ia pra casa do meu ex, pra fazer faxina. Imagina só. É que você ainda está tão ligado que não sabe ficar sem o outro, aquela rotina. Com o tempo foi passando”.

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À caminho de casa eu estava pensando em publicar no meu facebook que o meu aniversário está chegando, pros amigos já ficarem sabendo e se esmerarem nos votos de felicidade e memes. Lembrei do Anderson, dos votos lindos que ele fez naquele aniversário, dizendo que eu era uma luz para os meus amigos. Só de lembrar eu me emociono, foi tão importante naquele momento. Quando eu chego em casa, o mesmo Ânderson publicou uma notícia tão triste, da filha que ele desejou tanto.

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O tempo, esse devorador de coisas.

 

Um lugar dentro de si

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Há de se amar a cultura, o conhecimento; geralmente identificamos isso como amar os livros. É que os livros nos permitem tanta coisa, são tão ricos, mas vamos fazer justiça: existem documentários, revistas, teatro, música, HQs, etc. O importante é amar a cultura, a informação, o estudo. Somos todos muito incultos. Somos sim, nós brasileiros, um país que investe tão pouco em educação e tem currículos tão defasados. Nós que temos atrás de nós gerações de incultura, nós que não lemos nem dois livros por ano, nós que não tivemos sociologia e filosofia nas escolas. E recentemente, nós que não precisamos decorar mais nada porque existe o Google. Não vou discutir o quanto saímos perdendo enquanto país porque isso é amplo demais pra este bloguinho. Quero falar da perda pessoal. Eu vejo que quem lê, quem tem amor ao conhecimento tem aonde ir quando tudo lhe falta. Essa pessoa pode estar sem dinheiro, sem amor, sem amigos, sem possibilidades, tudo dentro de si pode parecer escuro e sem perspectiva – mas ela tem interesses e esses interesses podem preenchê-la. Falo de cadeira. Ela pegará um livro do seu autor ou assunto preferido e isso lhe bastará por dias, horas, o tempo que ela quiser. Enquanto isso, o coração descansa e o tempo cura o que precisa ser curado. Ao contrário de tarja preta, não tem contra indicações e torna a pessoa melhor no final do processo. Seu universo se tornará cada vez maior. É uma espécie de poder, é como ter um refúgio dentro de si. Dá uma independência danada. Um bom livro, um lugar confortável, luz e está feito. Para mim, a falta desse lugar é a maior perda de quem não ama o conhecimento.

Em busca do céu

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A ansiedade vinha tão forte, de baixo para cima, que parecia um vômito, e ao invés de sair pela garganta se plantava no coração e parecia que a única saída era morrer. Continuar vivendo nos próximos minutos era insuportável, o que dirá uma vida inteira. Porque a não ser que eu tivesse a sorte (!) de sofrer um acidente fatal, pelo menos mais uns quarenta anos mais eu viveria. Qualquer coisa que eu pensasse me parecia angustiante demais. Como ir adiante, como acordar cedo na manhã seguinte, como levantar da cama, como falar com as pessoas, como fazer coisas? Tudo tinha o sabor de cinza, nada era capaz de me dar prazer. Só então eu realmente entendi o que é depressão, crise de pânico, transtornos psiquiátricos. Eu não tomei nenhum remédio, só floral, mas entendo perfeitamente quem toma. Não tomei porque dentro de mim havia a lembrança de quem eu era, e eu sabia que podia voltar a ser aquela pessoa. Mas nem tudo foi coragem o tempo todo. O que me impediu nos momentos de desespero foi saber que tarja preta leva pelo menos uns quinze dias para começar a fazer efeito. “Eu preciso agora, quero parar de sofrer neste minuto, quero uma paulada na cabeça. Daqui há quinze dias já vai ter passado. Lembro especialmente de uma crise que me deu no terminal, voltando da aula de flamenco, tarde da noite. Eu não apenas me sentia sozinha, eu estava sozinha. Naquela hora, mesmo com toda boa vontade, eu não conseguiria um amigo pra me ajudar. “Calma, está tudo bem. Respira”, eu tive que dizer pra mim mesma. Olhei à minha volta, olhei para o céu. “Está tudo calmo. Não importa o que aconteceu antes, não importa o que vai acontecer depois. Você está no terminal, de pé, a noite está agradável”. Naquele período eu percebi que olhava sempre para baixo, ou nem ao menos realmente olhava para o que estava olhando. “Você não tem nenhum problema. Não agora, não neste momento. Você está apenas de pé no terminal. Esquece o resto”. Eu descobri que quando vinham as crises, eu nunca estava onde realmente estava, meus pensamentos estavam em outros lugares. Para estar mais presente, eu passei a me obrigar a olhar para cima. “Olha que vento gostoso, olha como ele balança aquelas folhas”. Simbolicamente é tão simples e eu senti na carne: olhar para baixo e para si, o pequeno, o sem perspectiva; olhar para o horizonte, o longe, amplo e cheio de possibilidades. “Olhe à sua volta. Está tudo bem”. Naquela noite, antes que o ônibus chegasse, eu já havia conseguido me acalmar. Outras crises vieram, em intervalos de tempo cada vez maiores e com cada vez menos força. E como não quero sentir aquilo nunca mais, estou sempre olhando pro céu.

Em resumo

Passou. Não sei como é para os outros, mas para mim é tão clara a diferença da tristeza e a depressão. Há a incapacidade de sentir prazer, um peso constante que mina tudo. A vontade é de morrer, o tempo não passa nunca. Mas a vida continua e desta vez eu já conhecia o roteiro. Me arrastando eu levantei da cama, tomei banho, saí, fiz minhas aulas, visitei pessoas, cuidei da casa, trabalhei, li, escrevi… Tentei ao máximo levar a vida como se estivesse tudo bem, por mais que doesse. Depois me dei conta de que a vida, na verdade, é isso: fazer o que precisa ser feito, sempre, apesar dos pesares.

Leitora em multidões

Escrevi a um amigo pedindo que, por favor, fizéssemos alguma coisa juntos no fim de semana. Eu acho que ele não notou que quando escrevo assim, querendo para já qualquer programa junto com ele, é porque costumo estar meio desesperada, mas tudo bem – quem é que vai adivinhar que uma pessoa que mal pediu ajuda quando tudo explodiu, está tendo crises depressivas um ano depois? Mesmo problema que eu digo para as pessoas que querem fazer a dieta Dukan: enquanto você está emagrecendo, as pessoas dão o maior apoio que você tenha cardápios restritivos. Mas quando você está na fase de manutenção, meses depois e magra, ninguém aceita que você abra mão de uma batata frita. Eu também acho que não tenho nada que me deprimir um ano depois, que merda. Mas diz isso pro meu organismo. Ao meu apelo, meu amigo me respondeu enviando um evento do Facebook, uma festa julina que aconteceria numa igreja ortodoxa nas Mercês.

 

Entendi e fui, sozinha. Esses eventos de Facebook nunca nos fazem ter muita noção do que é. No cartaz dizia que era uma festa tradicional, de muitos anos, então já imaginei multidões, música junina por toda quadra, pessoas com roupa de prenda e dentes pintados (coisa que não tem no nordeste e muito me surpreendeu). Chegando lá, oh não! Era uma festa pequena, bem família. Foi colocar os pés pra entender que todo mundo lá era da paróquia e se conhecia. E todo mundo com biotipo árabe. As músicas também eram árabes. Desculpem a ignorância, mas nunca pensei que veria pessoas com aquele biotipo numa igreja católica ortodoxa. Levantaram a hipótese de serem gregos, mas devo confessar que não conheço o biotipo grego, então será que eram? Enfim, era um pessoal bonito, morenos de olhos claros e narizes grandes. Deu vontade de sair correndo. Comprei um doce de amêndoas (enjoativo) e mandei mensagem pro meu amigo, na esperança de que ele me encontrasse lá. Por hábito, estava com um livro na bolsa. Deixei o celular à mostra e saquei meu livro, no maior clima de “não sou uma louca que veio sozinha, daqui há pouco meus amigos chegam”. Ele não veio, mas foi gostoso pra caramba ler ali. Lia um pouquinho, olhava as pessoas, lia mais um pouquinho. Depois conheci a igreja. Foi um bom passeio, fez o meu dia. Se estivesse em casa, provavelmente estaria muito mal e isso me impediria de ler. Minhas crises fazem com que o estar sozinha seja ruim, mas elas já não são estão intensas a ponto de precisar que as pessoas me deem atenção. Estar entre seres humanos parece que já é suficiente. O que é ótimo, e dá mais independência e não preciso tanto da boa vontade dos amigos – todo mundo tem suas vidas pra cuidar.

 

Eu me lembrei da moça do quadro de Renoir, aquela que discutem no filme Amelie Poulain. Eu me tornei ela, só que com um livro na mão. Eu diria: A moça do copo d´água não suporta estar fisicamente só. Ela fica no meio dos outros para ficar em paz.

 

Amélie – Sabe a garota do copo de água?
Pintor – Sei.
Amélie – Se ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
Pintor – Em alguém do quadro?
Amélie – Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
Pintor – Em outros termos, ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
Amélie – Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
Pintor – E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

Controle-Descontrole

Eu desejei morrer e bendisse estar viva. Eu chorei, me senti péssima, mas também achei que tudo está da melhor forma que pode estar. Eu fugi e ao mesmo tempo produzi como nunca. Eu novamente carreguei as outras partes, as doentes, nas costas. Teve uma causa muito específica e ao mesmo tempo não teve causa nenhuma. A imagem que me vem quando me dá o que chamo de rebordosa orgânica – cada vez menos frequente, cada vez menos funda, mas nem por isso agradável – é esta:

Craca

Eu havia lido uma entrevista que o João Gordo diz que, antes de casar, passava dias sem tomar banho. Estava em casa sozinho mesmo, sem comer ninguém e tals. Lembro de ter achado aquilo um nojo e injustificável. Sem dizer que tomar banho é um prazer, então eu jamais deixaria isso de lado, certo? Errado. Não cheguei ao extremo de ficar dias sem tomar banho, mas…

 

Foi quando eu estava deprimida. Acho sempre estranho dizer “estava deprimida”. Na maior parte das vezes, falo desse passado recente com pessoas que estavam ao meu lado, e elas nem sempre faziam ideia do que estava acontecendo. Sabiam em teoria, mas não sabiam o tamanho do buraco. Como me disse uma amiga: “Olhando assim parece que faz tanto tempo, você parece tão bem! Mas há dores que só o nosso travesseiro conhece”. Outra questão é que o estava parece dar a impressão de que tudo passou. Algo como: fiquei deprimida até dia 10 de janeiro de 2015 às 11h. A depressão, sinto ainda, é como uma porta que agora eu conheço e só fica encostada. Quando acordei e não tive mais a necessidade de saltar da cama pra fugir dos meus pensamentos, ou quando fui capaz de passar uma noite sozinha sem querer morrer, soube que o pior havia passado. É essa fase que chamo de “estava” deprimida, mas nem sei dizer direito o que estou. Quero muito crer que existe um estado mais feliz e equilibrado do que o de hoje. Mas, voltemos ao banho.

 

Eu faço aula do flamenco à noite. Deve ter algum regulamento na Confederação Internacional de Flamenco (brinks, não existe nada parecido) que manda que as salas de aula de flamenco sejam todas quentes. Eu achava a da escola anterior quente, e as da nova escola são apenas um forno sem janelas. Some-se isso ao sapateado. Eu punha a minha roupa suada, pegava ônibus e voltava pra casa. Tarde da noite, eu cansada e faminta. Estar em casa não me causava nenhuma alegria e dormir cedo fazia com que o dia terminasse mais depressa. Verificava as coisas na internet, comia e ia pra cama do jeito que estava. Danese banho, ninguém estava dormindo do meu lado pra sentir. E trocar os lençóis com regularidade pra quê, também? Até economiza. Assim fiquei durante alguns meses. Aí uma certa noite – que não me dei ao trabalho de marcar – eu me deitei e senti um cheiro ruim. Era eu. E os lençóis. E, apesar do que acabei de dizer, eu os havia trocado há pouco tempo. A culpa era minha mesmo, que deitava suja. Já estava tarde e fiquei com preguiça de levantar e refazer a cama, mas deveria ter levantado porque até dormi mal. Foi aí que decidi moralizar o troço e voltar a tomar banho. Mesmo sem ter ninguém do meu lado.

Portas

Nunca mais somos os mesmos depois que abrimos certas portas. Para algumas, existe limite de idade. Quem não se tornou esquizofrênico depois dos vinte não se torna mais, não existe esquizofrenia mais velha. Os sintomas se desenvolvem muito cedo, no início da idade adulta ela já está lá. Eu não conseguiria mais gostar de bebida alcoólica; me proibi durante a adolescência e hoje poderia até tomar, mas seria sem prazer. Os não-fumantes podem sentir o cheiro de qualquer fumaça sem sentirem nada mais do que incômodo, enquanto ex-fumantes lutarão. Já li que fumar não deixa de ser uma certa yoga, que o prazer do fumante é o prazer do controle sobre a respiração. Depois que li isso, me convenci de que o fumo me conquistaria facilmente se tivesse pelo menos tentado. É muito diferente se abster de fumar do não ter noção do que é fumar. Culpa da porta. Já que citei a yoga, os livros místicos costumam ser bastante duros com relação ao sexo. Ok, tem o kama-sutra, mas não confunda variedade de posição com variedade de parceiros, just for fun. Hoje a leitura que faço do assunto é muito mais relativa às portas do que moralismo. O sexo é uma porta poderosa demais, difícil de ser controlada, até mesmo diminuída. Adultos já enlouquecem com ela; penso no problema que é pra alguém muito novo. A porta do sexo pode ser de tal forma poderosa que impede a descoberta de outras portas. Drogas, idem. Porque, do mesmo modo que algumas portas se abrem facilmente, para outras precisamos nos empenhar: bons livros, meditação, contemplação da natureza, estar em contato com a arte. E a disciplina também é uma porta – os disciplinados entenderão o que quero dizer.

 

Eu não queria ter lembrado, eu não queria ter feito contagem regressiva, eu não queria de certa forma estar revivendo tudo. Mas estou. Sempre achei desnecessário quem relembrava o aniversário de datas trágicas, de ficar guardando o dia que pessoas queridas morreram. Bem. Estou fazendo um ano de divórcio e tenho lembrado e fugido. Nesse meio tempo descobri uma porta imensa de dor e não quero voltar lá.

Compras no posto

Estava fazendo meu caminho de sempre, perdida em pensamentos, quando ouvi gritarem:
– Ô, METIDA!
Conhecedora da impressão que passo, ela nem precisou gritar duas vezes. Era a mocinha que atende na loja do posto. Ela estava sentada fora da loja, tomando um suco. Fui lá. Disse que pra variar ela estava dando prejuízo pra loja, consumindo mercadoria sem pagar. Ela me perguntou porque eu não estava vindo mais. Na verdade, eu tenho ido raramente, geralmente aos sábado e só pra comprar pão de queijo, mas ela não fica lá nos sábados. Durante todos esses meses, eu já consumi de tudo um pouco naquela loja. Bolachinhas, chás, hidrotônicos, café da máquina, chocolates. Ultimamente, parava lá pra comprar achocolatado. Eu disse a ela que trago de casa e bebo no caminho, que agora compro o achocolatado mais barato, no supermercado. Eu descobri que no posto ele custa o dobro e não quis mais comprar. Mas eu não sabia que no posto era tudo mais caro? Eu estava lhe dizendo que saber eu sabia, mas que nunca havia me dado ao trabalho de olhar o preço, quando veio uma cliente e ela teve que correr de volta para a loja.
O que não deu pra explicar pra mocinha é que antes, por mais que eu soubesse que era mais caro, eu não tinha como deixar de passar ali. Mesmo que fosse três vezes mais caro, eu não estava em condições de fazer aquela economia. Meus dias eram infinitamente tristes. Eu chegava perto do posto e aquela loja acenava para mim como uma fonte de calor. Passar por ali e trocar duas palavrinhas com ela, sorrir e vê-la sorrir era muito importante para mim. Pagar aqueles reais a mais era um presente que eu me dava. Eu precisava demais de um respiro. O sorriso dela me ajudava a dar mais um passinho. Mais um dia, mais um passo, mais um pouco. Se agora eu pude olhar o preço, é porque ela me ajudou e eu voltei a amar a minha vida.

I´m alright now

Caro Ernani,

Uma vez me disseram que deveríamos fazer boas obras, ser bons com as pessoas, porque teríamos mais gente para interceder por nós do outro lado. Achei estranho e até mesmo egoísta pensar em fazer o bem para os outros pensando numa futura intervenção. Posso pensar em muitos motivos para ajudar os outros e nenhum deles passaria pela noção de que precisaria de alguém para interceder por mim. Pois bem: a tua preocupação gratuita comigo me remete a essa possibilidade e me faz um bem danado. Eu começo a pensar que se consigo que pessoas tão distantes torçam por mim é porque cometi alguns acertos. Digo isso porque em algum lugar, acho que errei demais. Se não tivesse errado, minha vida não estaria uma bagunça, minha casa não estaria vazia, meu futuro não estaria incerto. Não faz sentido, eu sei, mas é um pensamento que não consigo evitar.

 

Eu estou bem, como expressa com perfeição esta canção do Pizzarelli. Eu acordo cedo e saio logo da cama. Sempre tenho algo a fazer de manhã, de maneira de estar às 7h a caminho de algum lugar. Tenho, invariavelmente, longos trajetos a pé. Levo a Dúnia para passear todos os dias e coloco roupinha para ela não passar frio à noite. Eu passo no correio, no banco, na farmácia, no supermercado, na biblioteca, na lavanderia, no posto de gasolina. No meio da manhã às vezes tomo um cappuccino numa padaria cara e de atendimento lento. Falo com todos os que encontro nos lugares, com qualquer um que me retribua o olhar. Eu chego no horário nos meus compromissos, ou mais cedo. Tenho sempre na bolsa um livro, que na verdade só é lido quando estou fora de casa. Nos dias de muito frio, passei quase todos como mesmo casaco e uma calça deliciosamente quente e confortável que eu fiz, mas não tenho me descuidado. Todo banho, pinto as unhas, arrumo o cabelo, me visto com o esmero. Combino os brincos com a roupa. Uso muito um cachecol vermelho e preto, muito fofinho, que me dá a sensação de abraço. Peguei para mim uma almofada de cachorro (fiz para vender) pelo mesmo motivo. Tenho aceitado todos os convites que posso, tenho ido para casa de amigos onde nunca estive, tenho entrado em contato com as pessoas. Fui assistir o jogo do Brasil numa casa cheia de gente, onde quase todos me eram completos estranhos. Fui a uma churrascaria. Fui no trabalho de um amigo de uma amiga, só porque era caminho.

 

Entre um compromisso e outro, eu me pego esquecida e até me divirto. Num dia vou no computador, ou começo a costurar, ou levo o cachorro pra passear, e aquilo me preenche e sinto que está tudo bem. Aí no dia seguinte nada disso, em que dose for, é capaz de tirar o peso. Sinto como se fosse uma bad trip. O processo chega e fico presa nele. Não há o que fazer enquanto dura. Já tentei rezar, já tentei pensar, já tentei me distrair. Parece que independe do que eu faça. Independe, até, do que acontece ao meu redor. Hoje passei quase o dia inteiro muito mal, achei que não conseguiria, que teria que pedir socorro pra alguém. Minha primeira noite sem ter ninguém me esperando depois do flamenco. Deixei as luzes acesas e foi só sair de casa e olhar pro céu que o peso passou. Pudera, foram umas doze horas. Quando cheguei, tão tarde, sorri para as luzes mesmo ciente de que fui eu quem as acendi. Melhor ainda: cheguei em casa faminta, e aproveitei para comer dois sanduíches. Tem sido raro eu sentir fome, tenho simplesmente esquecido de comer. Como porque me obrigo, porque está no horário. Se você soubesse o quanto sou gulosa, teria noção do absurdo. Minhas roupas estão todas grandes, sambando no corpo, caindo. Devo ter perdido uns três quilos, não tenho coragem de me pesar. Sei que meu rosto está uma caveirinha.

Mas eu não choro antes de dormir. O que tenho feito é viver os dias, um de cada vez, à espera.

Traição orgânica

Só agora eu entendo o tamanho do meu egoísmo e da minha crueldade para com a minha sogra, saindo com ela de vez em quando na sua viuvez. Eu devia ter trazido aquela mulher aqui pra casa, mesmo sem qualquer intimidade. Largava ela no sofá vendo rede globo, igualzinha a rede globo da casa dela, mas seria melhor. Esse era o problema, eu não entendia que seria melhor. Eu não entendia a diferença que faz estar acompanhado, apenas estar acompanhado, saber que tem outro ser humano por perto quando você não está bem. Eu não entendia porque uma amiga que estava recém-separada falava com tanta gratidão do amigo que assim que soube a chamou pra sair naquela noite. No que resolvia, uma noite?
Eu não entendia o problema da solidão súbita e forçada porque não entendi o que significa essa solidão. Não entendia os depressivos, não entendia as crises de pânico, nunca havia sentido nada semelhante. Eu nunca havia sentido essa ânsia que sobe da mesma forma que uma ânsia de vômito, e vai no coração e dói. Da cabeça entender mas o corpo precisar purgar, e te assaltar de quando em quando com um medo maior do que você, atávico, ancestral, que não te pertence e que você não consegue se defender. Enquanto ele dura, dá vontade de morrer. E o parente dele é um desânimo, uma auto-comiseração e uma falta de fé tão grande que qualquer tarefa corriqueira se torna um fardo. Não há o que fazer, mas ao mesmo tempo há a necessidade de fazer alguma coisa, pra pelo menos fazer as horas passarem. 
Agora tudo faz sentido. Estar presente, sair, tirar de casa faz toda diferença. Nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nesse começo. Até o corpo purgar. A cabeça entende, a cabeça decidiu, mas é algo além dela. Como condenar alguém por buscar remédios, beber, fazer sexo loucamente, enfim, sair de si, quando dentro de si se torna o pior lugar. É uma verdadeira traição orgânica.

Certezas

Tudo resolvido, assinado, depois de tantos meses. Minhas amigas admiradas diante de tanto equilíbrio emocional em um divórcio. Tudo muito amigável, otimista, civilizado. Passamos todos esses meses vivendo juntos, embora separados. E eu não via a hora de tudo terminar pra ele finalmente ir embora e eu tocar minha vida pra frente. É no próximo fim de semana.

Certeza? Acabou. Agora bateu de verdade. Agora o que me impede de me atirar debaixo do primeiro carro é covardia pela dor.

Rezem por mim, estou precisando muito. Pior aniversário de toda a minha vida.

Acordo

Fiz comigo um acordo, que chamo de Acordo Forrest Gump, embora eu não pretenda correr. Se um dia a solidão bater de forma violenta e eu não tiver ninguém pra apelar – as pessoas têm suas vidas, dependendo do dia, horário e frequência, simplesmente não dá -, eu vou sair andando. Andarei horas seguidas, cruzarei a cidade a pé se for preciso. Posso seguir uma linha de ônibus e ir, posso decidir tomar um café lá naquela padaria distante. Nem que eu só volte pra dormir e não consiga pensar em nada por estar exausta. O importante é não ficar trancada em casa.