Frank Sinatra e o vôlei da net

Já que é feriado, recomendo um seriado Netflix sobre o Fran Sinatra, procura lá pelo nome dele. Não vi porque sou fã não, vi porque tinha uma vaga ideia de que era alguém que eu não gostava muito, que tinha gravado Girl from Ipanema e que o cantor que pede ajuda da máfia no filme O Poderoso Chefão seria ele. É interessante porque ele teve uma carreira e uma vida longa, daquelas que pegam os acontecimentos importantes da sua época. Mas o que eu mais gostei foi de não ter conseguido me decidir gostar dele ou não. Algumas atitudes canalhas*, incoerentes, autoritárias, sedentas por poder que ele tem me fariam jogar no lixo das pessoas detestáveis com a maior naturalidade. Mas ele também tem grandes gestos de generosidade, empatia com migrantes e negros quando ninguém tocava no assunto, baixos muito humanos e capacidade de se reerguer, amor aos filhos, caridade, amizade. Quando eu estava a ponto de bater o martelo pra um lado, o documentário mostrava outra face e eu não podia mais. Terminei completamente sem saber se gosto ou não, só sei que era realmente um talento enorme.

O julgamento das pessoas na net me lembra uma prova de vôlei que fiz uma vez no segundo grau, olha que didática incrível: duas equipes jogando, todos os jogadores começavam com nota dez. Cada vez que a bola caía no chão, uma pessoa – ou mais, às vezes até três, dependendo de como foi a jogada – gritava o seu número de chamada para a professora, que tirava um ponto da sua nota. Ou seja, se a bola caiu perto de você seis vezes, você gritava seu nome seis vezes e no fim da aula sabia que tinha tirado quatro. Só que na net, às vezes todos os pontos são retirados apenas com um movimento errado. Ama-se e odeia-se intensamente, a pessoa é anjo ou demônio, verdadeira ou mentirosa, perfeita ou um monstro hipócrita. E os atributos são apenas retirados, muito difícil que se acredite no lado bom das pessoas. Não é assim Sinatra, não deveria ser assim com ninguém.

*quero deixar registrado meu sincero BEM FEITO com o fim da história dele com Ava Gardner.

 

 

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Losers

losers

Não sei se ando numa fase emotiva, mas há muito tempo eu não gostava tanto e me emocionava com uma série Netflix com a Losers. Acho que a última que me entusiasmou assim foi a Abstract. Não faz muito tempo, eu estava nadando e veio um flash de uma lembrança, e que me foi muito reveladora. Eu estava começando a fazer aulas de natação, estava indo muito bem para quem começou mais velha, aí vi as outras pessoas nadando e fazendo virada olímpica, e pensei: “eu tenho que aprender a fazer virada olímpica. Senão, por melhor que eu nade, nunca vou deixar de ser reba” (expressões de infância voltam à minha mente nos momentos muito íntimos, esta quer dizer algo como “ruinzinha”, “porcaria”). Não devia estar nadando nem há um mês e não queria ser reba. O que me surpreendeu é que eu tento dizer pra mim o tempo todo que não sou uma pessoa competitiva. Aí eu vi que sou, porque tento jamais ser reba. E achar que pra tudo o que você faz na vida, mesmo começando fora da época e ao lado de pessoas que fazem aquilo a vida inteira, você deve ser pelo menos boa, não deixa de ser querer demais.

A série fala de muita gente que estava lá em cima e falhou, em derrotas que foram melhores do que vitórias, derrotados que se tornam mais famosos do que os vencedores, vitórias pessoais que valem muito mais do que qualquer medalha. A cada ano que passa, é como se eu ficasse cada vez pior no flamenco. Não deve ser verdade, mas subjetivamente pra mim é assim. Sério, eu fico muito sem graça quando me mandam vídeos e dizem me querer ver dançar. Porque eu sei a imagem que mulher dançando flamenco passa, aquela feminilidade forte e decidida, e eu sei que me ver não é assim e nunca serei assim. As pessoas que são assim têm uma relação com a música e com o sapateado que eu não tenho, e não é uma questão de tempo. Acho que me sinto tão mal porque finalmente vi que nunca deixarei de ser reba no flamenco. Em outra coisas eu consegui, no flamenco não. Mas, ao mesmo tempo, o flamenco me proporciona experiências que, digamos assim, até parece que eu sou boa. Meio porque estamos no Brasil e “é o que tem hoje” – eu estou lá, estou disponível. Se tivessem outras dez opções, quem sabe as escolheriam e eu nunca entraria, mas não tem. (Deve ter umas cinco e garanto que chamam todas as cinco antes). Mas se estou na foto, subo no palco, participo do programa e levo a lembrança pro resto da vida comigo… sou loser.

O que elas estavam pensando?

Eu entendo uma mulher não se identificar como feminista por aí, mas não entendo uma mulher que, do fundo do seu coração, não se identifique em algum nível com o feminismo em si. Mulheres que chamam feministas de “aquelas peludas” e que se alinham contra. Toda mulher tem na sua vida algum episódio grande de injustiça, de uma clara preferência por uma pessoa de igual ou até capacidade inferior apenas porque ele tem pinto. Mesmo quando a sua mãe se esforça para não ser machista, quando ela lhe diz desde criança que você deve buscar sua independência, talvez ela esbarre ao insistir que você arrume a casa e do seu irmão não cobre tanto, ou que as regras de moralidade sejam rigorosas apenas do seu lado. Uma outra experiência da qual se fala pouco, e acho que é nela que “perdemos” algumas mulheres é quando você percebe que é fácil agir como esperado. Que se ao invés você lutar com sua competência e esbravejar as injustiças, as coisas podem ser mais fáceis se você jogar o cabelo pro lado ou se fingir de burra. Me parece que muitas mulheres contra o feminismo se deixaram vencer por essa ilusão, a do favor, a do “você acha que me pegou e eu já me adiantei aos seus movimentos”. É a tática do ser tão bonzinho que o seu opressor vai perceber o que está fazendo e te erguer e colocar ao lado dele. Spoiler: jamais funciona.

Infelizmente, não me parece que quem tem o segundo perfil um dia vá clicar no documentário Netflix – Feministas: o que elas estavam pensando? O ponto de partida é uma exposição de fotos de diversas mulheres que se identificavam como feministas na década de 70. Alguns rostos são bem conhecidos. Elas contam suas vidas, o que as levou pra esse caminho, o que conseguiram realizar. É simples, é tocante. Imagine o que é prometerem um prêmio de dez mil e resolverem te pagar apenas cinco, ou chamarem para tirar foto dos vencedores o homem de plantão. Eu me vi um pouco em cada história. Que bonito que é sisterhood (traduzida como sororidade), dá um calor bom no peito.

Quero recomendar fortemente

… dois documentários históricos ótimos que descobri por acaso na Netflix. Aparece lá como tendo 1 temporada, mas é um documentário longo dividido em várias partes.

Prohibition: Até nós, a lei seca chegou apenas como uma piada, uma medida incompreensível para proibir o comércio de bebida alcoólica que ninguém seguia. O documentário mostra o significado que a lei tinha nos muitos anos de luta para que se transformasse em lei. Parecia muito lógico que se as famílias sofriam com a ausência dos homens que estavam bebendo, a solução era tornar o mal indisponível. Gostei especialmente da louca que entrava nos bares e quebrava eles inteirinhos. Chega a ser comovente o significado da proibição, a mobilização das mulheres; nos faz pensar o quanto certas ideias parecem tão certas e lógicas em determinadas épocas. Quando a lei é promulgada e fracassa, é outra luta para tirar da constituição. Ótimo para ver os jogos de força entre política, sociedade e cultura.

 

Hitler´s circle of evil: Já vi muitos documentários sobre a Segunda Guerra, que foi esmiuçada de todas as maneiras possíveis, mas nunca vi um que faça o mesmo recorte deste documentário. Ele pega os nomes mais importantes da história do nazismo – o círculo mais íntimo de Hitler – e traça sua trajetória política. Perdemos aquela imagem do nazismo unificado e vemos a dimensão mais humana, de pessoas com motivações diferentes e que precisam encontrar uma maneira de alcançar seus objetivos. Alguns são realmente apaixonados por Hitler, mas nem mesmo ele teve a sua posição caída do céu. E todos querem o lugar mais alto. Puxa-saquismo, marés que mudam, alianças, espionagem, rivalidades, traições, inveja – o partido nazista era igual qualquer partido, qualquer empresa, qualquer reunião de pessoas.

Curtas de uns vídeos aí

Numa entrevista da Fernanda Torres com o Lázaro Ramos, ele lhe pergunta sobre seu processo como atriz. Fernanda responde que nunca sonhou com a grande atuação, que ela sempre foi muito mais comendo pelas bordas. Me deu um quentinho no peito. Apesar de ser insanidade uma mulher sozinha e com pouco dinheiro agir de forma arriscada, dentro de mim sempre me condeno. Eu gosto da trajetória dela da Fernanda Torres, seus papéis como atriz, sua nova carreira de escritora. Espero que as bordas também funcionem pra mim.

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No Take Your Pills, o jogador de NFL toma Adderol e fica tão focado e energizado que, na primeira noite, lava a louça. A esposa fica feliz da vida por ele ter ido sozinho, sem ser mais aquela briga. E ele diz que foi possível porque não estava exausto pra despencar no sofá como sempre. Na hora eu lembrei do relógio da sala, atrasado mais de meia hora há meses, e que todo dia antes de sair eu o consultava por puro hábito, para lembrar que havia esquecido dele.

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Estou recomendando pra todo mundo o Wild Wild Country, que conta sobre a comunidade do Osho em Oregon. O documentário não o ataca, mas a gente fica magoado. Tudo humano demais, pra uma comunidade com um líder vivo de livros tão interessantes, eu esperava algo melhor. São altas doses orgulho por se sentir o povo escolhido, desrespeito pelos sentimentos dos que estão de fora, se ver trilhando um caminho tão distante do desejo inicial de se espiritualizar. Acho um belo aviso sobra a importância de não tratar mal os vizinhos.

Os chefs

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Estou vendo Chef´s Table e recomendei pra um monte de gente. Cada episódio fala de um chef, que além de ser super poderoso na cozinha tem que ser especial em alguma coisa. Além de dar fome e uma frustraçãozinha por saber que nunca comeremos aqueles filezinhos minúsculos de 500 dólares, a gente fica também com vontade de fazer algo pelo mundo. A série abre com Massimo Bottura, que já havia conquistado meu coração no documentário com o mesmo nome e que mostra um restaurante que ele abriu com os melhores chefs do mundo cozinhando de graça. Aí vem o que na busca pelos ingredientes perfeitos se envolve na produção dos alimentos, cada vez mais orgânica. Outro tem uma equipe de ciganos e cozinha ao natural, usando fogueiras,. Tem a japonesa que é puro amor. O que usou algas que ninguém comia, o pesquisou métodos antigos de conservação de alimentos. Aí chega num nova iorquinho e assim que o programa começa mostra que o tchans dele é fazer uma comida mucho loca. Quase desliguei. Grandes coisas, jogar os doces na mesa e fazer comer com os dedos, isso eu faço em casa (eca, não faço não). Achei pequeno, eu quero é chef que cozinha com método medieval e muda o mundo! Aí mostraram os pratos e, pensando bem, sendo muito sincera… Se fosse chef, eu estaria muito mais pra que faz pratos engraçadinhos do que o que cozinha em geleiras.

O tempo trota a toda ligeireza

Vi, mais pelo título ser curioso do que qualquer outra coisa, o documentário Chuck Norris x Comunismo. Foi um ano que vi muita coisa boa, e este foi mais um. Nesta época de ignorância, me dá até medo indicar – “olhaí, comunismo, uma tremenda porcaria”. O filme é crítico sim como o comunismo romeno, mas muito mais pelo seu aspecto totalitário, ou seja, algo que acontece em doutrinas de direita e de esquerda. Trata de História, mas também de histórias. Tem protagonistas e uma ação que se desenrola. É crítica e uma declaração de amor ao cinema.

Naquela parte muito bobinha e pessoal que nos marca, o filme me fez pensar no quanto tudo chega ao fim. Por mais indestrutível que pareça, por melhor ou por pior que seja. Quando se vivia aquilo retratado no filme, o regime comunista parecia que nunca chegaria ao fim e durou quantas gerações, duas? Um dia conseguir uma fita pirata pra assistir no vídeo cassete é uma aventura, anos depois é uma experiência isolada e deslocada no tempo. Ele me fez pensar o quanto, apesar de toda essa porcaria que está rolando, temos que continuar vivendo. Continuar fazendo as coisas, tocando os projetos, amando, aprendendo coisas novas. Porque passa.

O desafio do pão

Documentário Massimo Bottura: Teatro da Vida (Netflix) mostra um teatro reformado para servir de refeitório. No letreiro: NO MORE EXCUSES. Das mesas às pessoas que recebem, tudo é pensado para oferecer o melhor. Chefs do mundo inteiro que oferecem seu trabalho e conhecimento para servir gente que não teria condições de pagar. Os ingredientes? Comida que seria descartada. Por isso, e por estarem na Itália, sempre tem muito pão e todo ele é amanhecido. Mas nem um único chef serve o pão seco e duro. A cada chef, vemos soluções diferentes: colocar num caldo de cebola e cúrcuma para depois secar no forno, pudim de pão, como parte de uma massa. Dava para fazer um livro de receitas de pães amanhecidos. O que é encantador no projeto é a maneira como se oferece do melhor, sem a mentalidade de que se é caridade qualquer coisa serve. É uma visão contrária, de querer fazer um extra, de oferecer a quem se encontra numa situação de fragilidade um carinho a mais.

Ao invés de enfrentar burocracia, armazenar, separar e pensar sobre, não é mais prático pegar o resto de comida, moer, transformar em pelotas desidratadas e pronto? É sim. Mas quando se pensa em gente e em comida, não se deveria pensar tão facilmente em praticidade. Comer é uma das necessidades mais básicas do ser humano e partilhar o alimento sempre foi uma das mais sagradas. Quem não se sente reconfortado pelo cheiro da comida quente, seja ela um feijão caseiro ou até mesmo o carrinho de cachorro quente de madrugada? Pegar uma comida e sentir que ela tem textura, sabor, cheiro, temperatura, que ela pode brincar na boca, descer gostosinho e ser saboreada é ser reconhecido como gente. Pedir comida já é humilhante o suficiente, a carga de sofrimento e abandono das pessoas não precisa ser aumentada. Se preparar comida dá mais trabalho, ok, é um trabalho que precisa ser feito.

A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

25 anos

A grosso modo a não ser que minhas lembranças estejam me confundindo muito ou que a neurologia tenha mudado nos últimos anos – o cérebro funciona num grau de complexidade crescente. É possível localizar zonas primárias, que são mais estritamente ligadas às funções mais físicas, as secundárias e as terciárias. Estas, localizadas nos lobos frontais, são responsáveis pelo raciocínio mais simbólico. O cérebro amadurece gradualmente e a zona terciária só atinge a plenitude das suas funções por volta dos 25 anos de idade. “Por isso que ninguém deveria se casar antes dos vinte e cinco”, brincou o professor Romanelli, e a única colega da classe (estávamos no segundo ano de faculdade) casada se encolheu na cadeira, sob risos. Poucos anos depois ela se separaria.

No tristíssimo documentário sobre a Amy Winehouse, Tony Bennet lamenta que ela tenha ido tão cedo, que se a Amy tivesse tido um pouco mais de tempo, teria visto que a gente aprende a lidar com o viver. Tá, eu sei que ela não morreu antes dos 25 anos, o tal amadurecimento não é acordar na manhã do seu aniversário completamente controlado e sábio. Existem muitas formas de abordar o assunto, podemos explicar por experiência, amadurecimento cerebral, etc. O fato é que a gente realmente vai acostumando. Lembro de um clássico ocultista que li na adolescência, Zanoni, que o sujeito se propunha a fazer uma iniciação e rolou o velho “tá vendo isso aqui? Nunca abra!” e o cara foi lá e abriu e libertou um monstro horrível. O sujeito foge assustado e volta mais pro final do livro e conta que foi fugindo continuamente, fez besteira atrás de besteira e o tal monstro não sumia. Mas ele acostumou. Viver é assim.

whats happening

Laerte-se

Eu lia Chiclete com Banana. Hoje acho bem inadequado pra minha idade na época, mas meu irmão não estava nem aí. Lembro que o Angeli tinha uma sessão para responder cartas chamada Rolo de Macarrão, que seria a senhoura dele respondendo as fãs que tinham fetiche por ele. Nunca fui muito fã das tirinhas do Glauco, achava tudo feio e desorganizado. E tinha o Laerte, gênio absoluto, uma imaginação sem limites. Então eu pude entender bem quando um amigo da mesma geração que eu me disse que não poderia jamais chamar O Laerte de A Laerte. A gente cresceu com ele, admirando o trabalho dele, não dava pra fingir que agora era uma mulher. Eu chamo de A Laerte e talvez tenha convencido meu amigo quando disse:

Pra mim é simples. Eu chamo as pessoas pelo nome que elas gostam de ser chamadas. Como o Beto que insiste em ser chamado de Beto, porque Roberto é o pai dele. Se Laerte se sente mais confortável com A, eu chamo de A. Se você quiser que eu te chame de Tigrão, chamo também. Não sou eu que vou dizer pras pessoas com elas devem ser chamadas.

Me parece que é essa a diferença fundamental dos que têm o pensamento mais conservador para quem não tem. Eles acreditam que o mundo deve ser um lugar compreensível, que as atitudes ou até mesmo as mudanças devem ser classificáveis. Como as mudanças não estão seguindo o scrip, a sociedade necessariamente errou em algum ponto, porque o compreensível é a regra. São pessoas que têm respostas. Gente como eu não tem e não ousa ter. Não sei se a variedade que existe hoje é fruto do erro ou se existiria de qualquer forma, se com mais justiça social ela pararia ou até retornaria. Não estou dizendo que acho lindo, que levaria pra casa, que tudo bem se meu homem se vestisse de mulher, e se meu filho, etc. Eu aceito porque acho que nem cabe a mim ser contra ou a favor – cada pessoa é soberana na sua própria busca pela felicidade.

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Embrace

Uma das coisas que me afastou da psicologia foi quando percebi que há uma personalização de problemas que são coletivos. Se a mulher vai para o consultório com problemas de auto-estima porque se acha gorda, e quase todas as mulheres do mundo estão se achando gordas, fazendo plásticas e dietas porque se acham gordas, tanto as que fazem parte das estatísticas crescentes de obesidade quanto as que estão abaixo do peso, temos aqui um problema que não é apenas da mulher que vai no consultório. É um problema de todas nós. Ao mesmo tempo, a psicologia existe porque existe um problema que, para a pessoa, pouco importa se é pessoal ou coletivo: é algo que a impede de ter qualidade de vida e ela quer mudar.

Esse é um buraco tão profundo, um caminho tão difícil a ser seguido. Conheço gente que usa PP e acha gordura em si mesma, que diz que gostaria de serrar parte do quadril; também conheço quem quase não consiga comprar roupas e se sinta julgada o tempo todo por causa do peso. E existe sofrimento em ambas. Então eu quero, de coração, indicar este documentário (Netflix) pra ser uma pedrinha em meio a tantas mensagens que nos levam à insatisfação todos os dias. Que ele te emocione e te faça refletir também.

A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

Os chifres do boi

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No documentário O desafio de Rudolf Steiner, mostra umas fazendas com visões mais humanistas no trato com o gado e um fazendo explica que lá eles não cortavam os chifres do boi. Que um boi sem seus chifres fica despersonalizado, confuso, perde o contato com sua essência e por isso se torna mais fácil de dominar, o que é muito bom para a pecuária “comum”. Aqueles bois não, cada um era um, do seu jeito, com seus chifres e cientes de quem eram e o que queriam. Um bom desses quem sabe diria, se fosse gente, austríaco e extremamente talentoso:

As perfídias que me fazem tropeçar, que me desesperam e quase me enlouquecem a cada dia tornam-se ineficazes para mim, se consigo vê-las com clareza, assim como coisa nenhuma sobre a qual eu tenha clareza é capaz de me atingir, ou, menos ainda, aniquilar. Ter clareza sobre a própria existência, não apenas penetrá-la com o olhar, mas esclarecê-la no mais alto grau a cada dia – eis aí a única possibilidade de se haver com ela. Antes eu não tinha essa possibilidade de inferir no jogo diário e mortal da existência, não tinha nem o entendimento nem a força necessária para tanto; hoje esse mecanismo se põe em movimento por si só. (….) Ouvi tudo, não segui coisa nenhuma. Continuo experimentando ainda hoje: não saber no que vai dar é algo que fascina o solitário que voltei a ser. Há tempos não pergunto mais pelo sentido das palavras, que só fazem tornar tudo mais incompreensível. A vida em si, a existência em si, tudo é lugar-comum. Quando nos lembramos do passado, como faço agora, as coisas vão pouco a pouco se resolvendo por si mesmas. A vida toda convivemos com pessoas que não sabem nada sobre nós, mas afirmam constantemente saber tudo; nossos parentes a amigos mais próximos não sabem nada, porque nós mesmo pouco sabemos sobre nós. Passamos a vida inteira nos investigando, vamos sempre até os limites dos nossos recursos intelectuais, e desistimos.

Thomas Bernhard/ Origem, p. 306 – 307

 

O brilho secreto

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Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

Menos impacto

Olho para trás e vejo que os documentários que mais me marcaram ultimamente – Muito além do peso, Escolarizando o mundo e agora The true cost – têm a ver com as mudanças radicais no nosso modo de vida causadas pelo capitalismo. E eu nada posso contra o capitalismo. Depois de ver The true cost, tive que passar no shopping porque tem um caixa eletrônico lá, e ver aquelas lojas, as roupas (52 coleções por ano!) e ter noção do que está acontecendo a todas as pessoas aqui (“Estamos cada vez mais pobres, mas não sentimos isso porque agora podemos comprar mais camisas”) e do outro lado do mundo (além da nada básica exploração financeira, temos degradação ambiental, epidemia de suicídio, gerações de crianças com problemas mentais e motores pela contaminação) é demais. Dá vontade de parar as pessoas na rua, gritar, quebrar uma vitrine, sei lá. Mas a gente não apenas não pode fazer isso como também não tem nem como evitar comprar numa dessas lojas. Eu lembro que quando saiu o anúncio de trabalho escravo na Zara, muitas pessoas (eu inclusive) se propuseram a não comprar mais lá. Algumas mantiveram a determinação mais tempo, outras menos, mas no fim todo mundo viu que se não for a Zara é outra loja de departamentos, ou até mesmo o camelô da esquina, porque não há mais roupas feitas sem algum tipo de exploração.

Os especialistas apontam que o problema é mudar todo sistema, e eu nada posso no sentido de mudar o sistema. Mas, ao mesmo tempo, acho que não podemos assumir a luta como perdida e não fazer nada. Eu tento aderir a umas causas, pra pelo menos não chafurdar alegre e cegamente em tudo o que me é oferecido. Idealmente, bom seria não ter que fazer nada que gere lucro, nada que contribua com algum tipo de destruição – mas aí eu seria reduzida à mendicância. Não sou ninguém, pro sistema me cuspir é muito fácil. Quando escrevi meu post sobre andar a pé, uma celebridade de internet me acusou de ser ecochata, que nem todo mundo pode viver uma vida sem carro. Eu concordo totalmente, nem todo mundo pode. Hoje eu não preciso, amanhã posso ter um emprego ou uma outra necessidade que me obrigue. Se viver sem carro começar a ficar prejudicial demais, fora de mão demais, terei. Então eu entro nas causas que eu posso, nas que eu consigo levar adiante. Outros pessoas, outras causas – o que é bom, porque se todos adotassem as mesmas duas ou três, como ficaria o resto? Andar a pé eu consigo, comida mais natural e orgânica não, porque sou lamentável na cozinha. Acho triste demais a obrigação que pesa sobre as mulheres de serem sempre jovens e magras, por isso escrevo sobre o assunto, replico links, vigio meus conceitos e minhas atitudes. O que me parece importante é tentar, nem que seja por pura obrigação moral com a outra ponta do nosso consumo.