Bicicleta, tem certeza?

bicicleta

Nunca na minha vida consegui ser a pessoa que acorda antes do alarme. E quase sempre acordo pensando que tem algum engano, que eu não deveria ter ligado o alarme, que é sábado, sei lá. Quando finalmente aceito que tenho que sair da cama, tem outra batalha duríssima: meu corpo quer a todo custo me convencer de que não dá, não vou aguentar sair de bicicleta. Tem uma nuvem ínfima e branquinha no céu azul – não dá, vai chover. Tem minha lombar que dói, tem o pé que incha, tem o nervo asiático. A recusa continua enquanto me arrasto pro banheiro, quando pego o celular e confiro a temperatura, quando pego a roupa de bicicleta previamente separada na manhã anterior. Vocês que moram no calor e nos invejam pelo frio esquecem o frio da roupa quente mas fria porque estava fora do corpo. Como é ruim estar cheia de roupa e com frio dentro dela. Eu como uma banana e aproveito para jogar a casca no lixo do lado de fora, respiro, olho para o céu. Não, eu não tenho que passar no banco, ou fazer compras, ou morreria congelada, hoje é bicicleta mesmo.

Minutos depois viro a primeira esquina, pedalando, de capacete, bolsa com estampa de pequenas bicicletas aquecendo as costas e me sinto tão feliz, tão heróica.

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Aquela mesma

Conversa de vestiário, eu não estava envolvida. Uma mulher contava para a outra da relação que a filha tinha com o namorado. Uma relação séria e possessiva. Ela tentava aconselhar a filha a não levar tão à sério, não nessa idade. Porque ela foi assim, passou pela faculdade praticamente sem aprontar, cheia de nóias com o corpo, desperdiçou várias chances. Deveria ter dado, distribuído. Nessa parte da conversa eu estava no reservado, no trono, e quase gritei de lá:

– Eu dizia a mesma coisa. Que desperdicei oportunidades, que tinha nóias imensas com meu corpo e nem sei de onde eu tirei. Que se tivesse a segurança de uma adulta, faria diferente. E quando me vi adulta e sozinha, agora, não faço nada diferente. Estou apenas mais velha, mas ainda sou aquela mesma que detesta balada, que não percebe interesse dos outros, que precisa de envolvimento emocional.

Aí pensei que talvez eu seja a única. Sou a única que faz o que eu faço, ou melhor, o que eu não faço. Que as mulheres na minha idade descobrem o quanto isso de idade é importante para eles, que insistem em achar que beleza é só o viço dos vinte. Elas lutam, que vão para balada, que colocam silicone, que se adaptam e aprendem a não quererem mais namoro. Que eu nem ao menos pinto o cabelo. De tanto fazer o que me é cômodo, me descobri a pessoa menos adaptável que eu conheço. Há uns dez anos um astrólogo me disse que eu tinha complexo de Peter Pan e na hora não fez sentido, assim como na hora nem eu mesma ler um mapa astral faria sentido. Quem sabe eu ainda me comporte como me comportava na juventude não porque continuamos sendo sempre o que éramos e sim eu, EU. Teimosa, Peter Pan.

Saí do reservado e fui direto pra minha aula.

macanudo de bike

Olhos confiantes

Eu fui aconselhada a falar que sou formada em psicologia quando me propuser a atender as pessoas, coisa que nunca faço porque nunca atuei na área, nunca tirei registro. O argumento foi que eu uso princípios de psicologia, que isso faz parte de mim. Pois é, tenho que reconhecer que, apesar de ter passado uma vida inteira rejeitando minha primeira faculdade, eu aplico sim. Me toquei disso numa conversa simples. Uma amiga teve ficou muito tempo mantendo moradia em Curitiba e numa cidade próxima, depois de algum tempo achou que o arranjo estava caro e comprometendo a clientela e deixou de morar aqui. Aí o assunto surgiu numa outra conversa, tempos depois, algo: “a Fulana ainda mora aqui?” e aí contaram que “parece que não deu certo aqui, ela não conseguiu me manter e foi embora”. Eu desmenti, disse exatamente o que escrevi em cima. Aí a pessoa me olhou com uma expressão que dizia: “tolinha, essa é a versão oficial, eu sou uma pessoa que vê além das aparências”. E, pensando bem, ela é daquele tipo que duvida de mulher que diz que foi violentada, etc.

No curso de psicologia, a gente aprende que a aceitação é fundamental. Esta aceitação leva a uma crença no que o outro te diz. É o contrário da atitude do esperto, aquele que não quer ser nunca passado para trás, o que quer ler nas entrelinhas. Eu aprendi a acreditar, e a sinceridade com que acredito nas pessoas já as levaram a me contar cada intimidade… E mesmo quando não é bem daquele jeito, como diria o esperto, ainda assim é verdade, num sentido muito mais fundamental – é verdade sentimentalmente, é verdade da maneira como pode ser dito. Por incrível que pareça, Osho estava certo quando dizia “se seus olhos são confiantes, ninguém pode enganá-lo”.

a lo mejor

(Sim, eu vi Wild Wild Country. Mas se você também não é de jogar tudo fora e quiser procurar a citação, está em “Palavras de Fogo”, p.128)

Esperando o Cristo

budista e niilista

Sem querer ser desrespeitosa, mas não consigo pensar numa comparação melhor. Esperar por Cristo é acreditar numa promessa vaga de uma volta que juram que pode ser a qualquer momento, amanhã mesmo, e de amanhã em amanhã já se passaram mais de dois mil anos. Mas, depois de tanto tempo, quem disse que não pode ser amanhã o amanhã de verdade? Então é preciso estar preparado, com a casa de ordem e boas ações no currículo.

Tá difícil. Tem época que dá pra largar mão de tudo: horário para acordar ou dormir, alimentação saudável, higiene, falar com pessoas, acompanhar as notícias. Dá pra abandonar pouco a pouco qualquer contato com o exterior e ficar preso apenas na auto-comiseração. Porque é difícil responder “tudo bem” quando nada está bem. E quando há um desespero coletivo, você nem ao menos consegue alguém que te dê uma mentira positiva porque ninguém está vendo saída em lugar nenhum. Mas é preciso levantar cedo, mesmo sem ter um compromisso depois; manter as unhas e os cabelos aparados, mesmo sem ter ninguém que nos olhe; comer a comida saudável e fazer exercício, mesmo sem ter quem se importe ou quem peça. É preciso fazer como aqueles que esperam Cristo, que se mantém ativos mesmo sabendo que o tal amanhã é uma conversa de mais de dois mil anos. É preciso encontrar forças mesmo na mais vaga das promessas, se preocupar com o que não está visível no horizonte. Não temos certeza da melhora, mas dá pra ter certeza da entropia natural das coisas, da desordem, da dispersão, da crueldade do tempo sobre os corpos, da maneira como o mundo parece cada vez mais assustador quanto mais nos afastamos dele. Se por um lado o esperar Cristo pode parecer uma prontidão vazia, sem ela nos tornamos totalmente inúteis – aí pouco importa em que dia estamos.

Comfort food

pãozinho

Eu mesma só fui conhecer o termo há poucos anos, nem sei se ele existia antes. Foi uma blogueira que se viu tendo que comprar um Quick bem caro em outro país, porque para  a filha era importante naquele momento. Depois de semanas de telefonemas, ameaças e ajustes com operadoras de internet, parece que finalmente resolvi os últimos detalhes, e me vi comendo a mesma pizza que como desde criança. É uma pizza tão poderosa que serve de comfort food pra toda família. Minha mãe a comia quando era criança, meu irmão mais velho passa lá quase todos os dias quando vem pra Curitiba e considera aquela a melhor pizza do mundo. Eu ia resolver outros problemas e quando me vi estava lá, apertadinha na cadeira alta. Foi meu presente.

Saiu a nova temporada de Queer Eye e termino os programas com lágrimas no olhos e me sentindo confortada. Acho lindas as pessoas que eles selecionam e lindo o carinho deles. Também ouvi de uma tentativa fracassada de terapia, e me pareceu que faltou bastante aceitação por parte da terapeuta. Eles, os 5 fabulosos, realmente me convencem nas suas conversas terapêuticas, em poucas frases eles são de uma sensibilidade incrível. Eu acho que o falar a coisa certa passa muito por uma aceitação profunda do outro, pela experiência de vida, uma capacidade de amar.

Quando uma pessoa se vê muito sozinha, como eu me vi, ela se obriga a encontrar comfort em vários lugares. Descobri comfort em aplicativo de karaokê. Descobri comfort em música no chuveiro. Descobri comfort em vídeo de astrologia enquanto preparo café da manhã. Não quero sugerir comfort pra ninguém, o que eu quero dizer é que comfort não é só genético, não precisa vir da infância e do que nos aconteceu. Dá pra criar comfort. Procure comfort, seja comfort.

Um problema dos gentis

anti-quisto

1. A vida me coloca numa interação curta com a Pessoa 1. Nesta interação, ela não me trata bem. Apesar disso, eu continuo sendo gentil com ela.

Os motivos de eu ser gentil numa interação desagradável são inúmeros. Já citei em vários lugares uma frase do Hamlet que resume a minha ética sobre o assunto: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Ou seja: eu parto do princípio que todos devem ser tratados com o maior respeito e consideração, independente de quem elas são. Pra eu tratar diferente, ela tem que ter saído da regra. E sou meio síndrome das escadas também, não sou do tipo que dispara uma resposta rápida automática quando me agridem (o engraçado é que com brincadeiras eu sou bem rápida). Na dúvida se a pessoa esta num dia ruim, ou eu estou num dia ruim e meio paranoica, diferença cultural, dor no ciático… ou se a pessoa realmente me odeia e decidiu fazer a parte dela pra estragar o meu dia, eu tendo a continuar educada. A possibilidade de arranjar briga quando você trata as pessoas com gentileza é mínima. (#DICA)

MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE EU NÃO NOTEI.

2. Eu e a Pessoa 1 temos algum Conhecido em Comum. Ele decide nos reunir. A Pessoa 1 fica sabendo que há possibilidade de se encontrar comigo e diz: “Claro, gente finíssima, pode marcar!”  Quando chega até mim a possibilidade de reencontrar a Pessoa 1, eu digo Não. Aí o Conhecido em Comum, que não conhece o contexto, me acha uma pessoa dificílima – como pode a Pessoa 1 ter de mim uma impressão tão boa e eu me recuso a encontrá-la? Eu, no lugar dela, também teria.

Viver é levar uma bandeja com água num tobogã

Eu estava conversando com uma amiga dia desses, ela estava tentando mudar seu padrão acumulador. Não sei o quanto a cada dela está abarrotada, não acredito que seja até o teto e com o cadáver de um gato sumido por detrás de revistas, mas ela me pareceu bem culpada. Pelo dinheiro gasto, pelo espaço ocupado, pela inutilidade da coisa, etc. Eu estava no celular e odeio digitar pelo celular, então quem sabe se não fosse isso eu pudesse ter lhe dito que lembrava de outra amiga, que para arranjar o emprego dos sonhos saiu de uma cidade no interior de SC e foi para o Rio de Janeiro e trabalhou com o que amava, mas cercada de muita competição e machismo. Ela passou por um período acumuladora também, gastava uma nota em sapatos. Foram alguns anos de Carrie Bradshaw, que também a chatearam. Eu lhe disse: nova, sozinha, numa cidade estranha, enfrentando tudo o que você enfrentou, queria o que, passar sem nenhuma válvula de escape?

Não sei se isso é vida real para quem vive em país subdesenvolvido econômica e culturalmente, ou se dá pra afirmar universalmente: a vida é dura. É uma crise atrás da outra – ou juntas. Na maior parte da vida, somos aquelas pessoas que descem no tobogã segurando uma bandeja (eu via no programa Silvio Santos, mas o vídeo que eu achei é do Ratinho), com esperança de conseguir manter um tiquinho de líquido ali. Estamos sempre tendo que aguentar alguma coisa, nos compensando de alguma coisa. Alguns fazem isso com sapatos, outras com namoros, sei lá. Quando nova, tinha a ilusão de conhecer meus defeitos e superá-los; hoje sei que quem consegue controlar o mecanismo que dispara um só defeito já fez muito nessa vida. Como disse para as duas: se pra comprar um monte de coisas, você apenas ficou um pouco pobre, ainda está no lucro. O grande desafio na vida é não fazer uma besteira irremediável, a si mesmo e aos outros.

A conquista do campo

Num réveillon que nem lembro qual, eu estava vendo TV tediosamente e encontrei uma série sobre brinquedos que marcaram nossa infância. Parecia aqueles apanhados nostálgicos que sempre aparecem nas redes sociais: a pessoa junta hits dos anos 80, coloca poucos minutos de cada, nos sentimos velhos e acabou. Então, quando vi que havia uma série sobre Brinquedos Que Marcam Época na Netflix, achei que fosse aquela e não me interessei muito. Não é. Cada programa tem um brinquedo famoso como tema – Transformers, Lego, Barbie, Hello Kit, etc – e conta a história dele. O programa entrevista os criadores, fãs, conta como foi lançar no mercado, as estratégias, as mudanças, os percalços. É muito interessante ver que no início se vendeu até tanques com a franquia Star Trek, bastava colocar um adesivo. De como se chegou na Hello Kit, do porquê a Barbie ter aquelas medidas.

Numa relação não tão evidente, havia um outro documentário na Netflix (acabo de consultar e acho que foi retirado de catálogo) sobre A Mente de Einstein. Além de explicar os conceitos, ele mostrava o trabalho que houve para consolidar a teoria no campo. Hoje, dá a impressão de que bastou Einstein publicar e no momento seguinte já estava tirando foto com a língua de fora. Além das dúvidas, havia a dificuldade em provar, o desafio pessoal de desenvolver os próprios cálculos e até mesmo fazer isso antes de alguém que já pegou a teoria lançada e precisava apenas provar.

É sempre bom relembrar que nada nasce pronto, quem olha o resultado final não adivinha o trabalho que teve por detrás, etc.

O próximo best-seller

best seller

Algumas pessoas já me disseram que têm uma coleção de histórias ou uma história pra um livro. Até aí, muito normal. O anormal é a expressão que elas fazem, a maneira como perscrutam meu olhar em busca de alguma irritação ou inveja. Há várias ideias por detrás disto: eu sou uma pessoa que escreve há tanto tempo, já tentei escrever e mandar livros e nunca consegui, não sou boa o suficiente na escrita pra ter um romance. Já ela tem dentro dela dados que são um tesouro, que quando saírem para a luz, gerarão um livro muito interessante. Só que o que a pessoa encontra é um encorajamento sincero. Eu realmente quero que todos os que têm grandes livros na cabeça realmente comecem.

Eu sempre achei que somos o país do futebol porque todo brasileiro, pelo menos do sexo masculino, um dia jogou futebol. Por ter tentado, por conhecer seu desempenho, ele é capaz de ver um profissional fazer um drible bem feito e chutar uma bola no ângulo e valorizar. É diferente saber em teoria e realmente ter tentado. Eu só passei a realmente admirar um bailarino que dá vinte fouettés quando descobri a tontura que é dar dois giros. Sempre fui uma leitora meio enjoada, do tipo que hesita muito em pegar best sellers e livros mais fáceis. Depois que passei a tentar eu mesma escrever um livro, minha antiga atitude de desprezinho pelas mesas cheias de livros descartáveis virou pura admiração. Olha só duzentas páginas de letras, ações e descrições, que artista!

Por isso, quero muito que escrevam. Quero que descubram que a ideia fabulosa, de várias páginas, se transforma em poucos parágrafos quando você senta pra digitar. Que por escrito o impacto é diferente do causo contado entre amigos. Que algumas coisas fluem e falamos do que nos é muito próximo, e outras não, mas para ficar bom ninguém deve notar uma coisa e outra, e pra isso é muito tempo em cima até corrigir. Enfim, não vou me dedicar a listar às particularidades da escrita, até porque nem todo mundo – levei tempo pra descobrir – quer realmente escrever um grande livro, alguns só querem poder dizer: escrevi um livro. Escrevam sim. Façam de tudo para transportar para um arquivo aquilo que está só na sua mente. Procurem uma editora. Depois se abracem também aos prantos diante de qualquer livro de ator global, admirada com a grandeza do projeto.

Curtas dos problemas

galinha correndo

Tem várias coisinhas que eu achava que só resolveria quando voltasse a ter um homem do meu lado. Um homem, não necessariamente um marido, quem sabe até mesmo um parente. Muitos motivos: só vão respeitar um homem, um homem é que entenderia disso, o homem terá força física, um homem terá dinheiro, um homem me dará carona, um homem saberá o que fazer, um homem pode segurar minha mão. E, UMA A UMA, a vida tem me obrigado a resolver cada questão sozinha.

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Depois a gente entra numas de não precisar de homem e fica radical. Pra que uma mulher continue a querer um homem de todo jeito do seu lado, impeça-a de matar a primeira barata.

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Daqueles problemas de cobranças abusivas, que a gente não sabe até quanto pode apelar ou terá que pagar chorando. Um lado meu quer lutar até o fim, porque é de uma injustiça tremenda e essas malditas multinacionais lucram com a nossa ignorância. O outro não quer ligar, dinheiro é só dinheiro, pago de uma vez só pra voltar a viver em paz.

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Esbarrei numas postagens antigas e, mais do que estava escrito, me comovi com quem éramos na época que tudo foi escrito. Fui transportada pra lá, para as preocupações de anos atrás, para o que vivíamos, nossas perspectivas de futuro. Éramos tão mais felizes e relaxados. Agora eu me sinto exausta, é como se estivéssemos numa guerra civil.

O futuro nos filhos

olhar bebê

Sobre ter filhos, fiquei muito aliviada quando vi que no meu mapa astral há um aspecto que: “é possível que não queria. Ou que queira e tenha problemas de fertilidade. Se tiver, que tragam problemas. Os filhos serão um fardo pesado, por eles terem problemas de desenvolvimento, comportamento rebelde ou que não haja amor no relacionamento com eles. Pode ser que crie os filhos dos outros. Se for para ter filhos, melhor ter só depois do quarenta.” Como ler isso e não ficar aliviada por nunca ter desejado ser mãe?

Lembro de ter ouvido o meu pai dizer diversas vezes que os filhos dele teriam que se virar. Ele sempre foi contra esse modelo que os pais enriquecem e dão tudo aos filhos, estragam com excesso de riqueza. Por isso, meu pai tratou de gastar todo seu dinheiro ele mesmo. Hoje os amigos dele invejam seus filhos cheios de iniciativa e razonabilidade, enquanto os dos outros são encostados e irresponsáveis. Eu acho, apenas acho, que quando ele fez esse cálculo sobre não estragar, ele não poderia prever o que aconteceria com o Brasil. Ele vem de uma época que aos quarenta a pessoa com diploma já poderia ter casa, carro e casa na praia. Hoje, nossas pós-graduações não nos ajudam nem a arranjar emprego. Queria poder me dar ao luxo de ser um tiquinho irresponsável, como os filhos dos amigos dele são. A minha responsabilidade e a dos meus irmãos vêm da aguda consciência de que, se você cair, terá que não apenas se levantar sozinho como pode ser pisoteado pela multidão.

Eu vejo o fim da aposentadoria, os ataques à educação e a precarização do trabalho de uma posição mais confortável do que a maioria da população, apesar de não ser confortável a ponto de não me deixar afetar. Mas vou te dizer que não ter descendentes, saber que me preocupo apenas comigo, diminui muito essa preocupação. Eu tenho que garantir o meu e as pessoas mais importantes pra mim vão morrer antes ou mais ou menos na mesma época que eu. Gerações que virão com poucos e mal remunerados empregos, com pouca inteligência corporal e capacidade de concentração, tudo soa tenebroso mas não estarei aqui durante muito tempo para ver. Já sou um ser humano formado e boa parte do meu caminho já foi traçado.

Mas meu irmão cedeu ao imperativo biológico de reproduzir a espécie, a alegria de se ver perpetuado num outro ser, e inventou de ter uma filha. Agora ele está preso ao futuro de uma maneira que nunca estarei e decidirá da mesma forma que nosso pai um dia decidiu. Este não é o mundo que eu gostaria de deixar para alguém que eu amo.

As portas

escada na sombra

Nosso psiquismo tem portas. Quem já passou por elas olha para os que não as conhecem e percebem. A arrogância e o descrédito que os mais velhos têm em relação aos mais novos têm razão de ser. Existem dores, desde que nascemos vivemos em meio a dores. Cada dor, quando inédita, parece enorme – o fim do primeiro amor, a primeira traição, a primeira frustração, a primeira responsabilidade. Para todas as dores, até um nível, chorar é um bom caminho. Chore, alivie-se. Mas para além de todas as dores pessoais, há uma que abre uma porta diferente. Quando se abre essa porta, o sujeito se vê diante de um cenário muito maior do que ele. A sensação é a de entrar no pântano de todas as dores da humanidade. É uma dor ancestral, atávica, genética. É uma dor tão grande que não é possível ser chorada, porque uma pessoa sozinha não consegue dar vazão a tanta dor. Ao contrário da dor pessoal que se cura com alguns instantes de entrega, para esta não é possível se entregar; não pode chorar, não pode entrar, sob o risco de não conseguir sair vivo. Diante da última porta da dor, só é possível fugir. São meses ou até mesmo anos sem perspectiva de alegria, por isso é muito difícil não criar ainda mais dificuldade no processo. Há de se fazer de tudo para tentar fechar de novo a porta, mesmo em meio a erros. Melhor seria não abrir, mas ninguém chega lá por vontade própria. E, uma vez que tenha vivido o que há lá atrás, nunca esquecerá essa porta.

 

Baixas expectativas

cade o lapis

Nós demoramos para chegar no sonho burguês. Eu nem acreditei direito quando me disseram que o meu irmão mais velho estava apaixonado. Só acreditei porque vi. Não propriamente porque ele não pudesse se apaixonar e sim que não pudesse levar adiante o que pessoas normais fazem quando se apaixonam. Não sei explicar, sempre vi meu irmão como uma espécie de artista. Eu acharia mais provável ele morrer devorado por leões ou fugir com um circo do que casar e viver o sonho burguês. Mas ele fez: casou e me deu minha primeira sobrinha.

Tem um casal que eu conheço de longe, os dois com vinte anos. Ela vive atrás dele; literalmente, o sujeito trabalhando e ela atrás. Soube que rolou uma pressão para que ele comprasse o terreno e fosse viver atrás da sogra. Um lado meu sentiu um desprezo imediato pela moça. Vinte e poucos anos e tudo o que quer é fisgar o namorado, quem sabe ser mãe logo. Mas depois me corrigi – nós que demoramos pra chegar no sonho burguês. Nós, membros da minha família. Agora mesmo, eu descubro o prazer de ter a fachada da casa com tinta nova. Simples assim. Nem estou vendo – deve ser a mesma sensação de quem faz tatuagem nas costas -, mas penso no assunto e fico feliz.

Agora não sei mais se eles sabiam o sentido da vida antes de nós, ou se existe uma inteligência por detrás da adesão tardia – só nós podemos viver o sonho burguês com verdadeiro desfrute. Provavelmente éramos apenas ignorantes. O que eu sei é que me tornei a pessoa que gosta de conversar na padaria, curte passar o sábado pintando parede e admira muito quem oferece conteúdos profundos na internet, sem ter a menor pretensão de ser um deles.

Pega sim

rogar praga

Acredito que, fora os Jogos Olímpicos da vida, o que alimenta o esporte são os entusiastas. Não estou falando do jovem que ainda pode ser atleta, estou falando de adultos. Tem os que realmente disputam os primeiros lugares, que submetem todo seu tempo, alimentação e rotina para serem os melhores. São pessoas que só de olhar pra eles dá pra saber, têm o físico moldado. Fora essa meia dúzia, as outras centenas que estão competindo querem mais é superar a si mesmas, um pretexto pra viajar e boas lembranças. São pessoas que tiram do próprio bolso para pagar passagem, comprar equipamentos especiais, as roupas, as taxas de inscrição, hotéis, e a única coisa que ganham é a oportunidade de tirar fotos. A moça dessa história é uma delas. Imaginem o susto: uma mulher que ela não faz ideia de quem era, competindo com ela, começou a desejar em voz alta que ela iria “se machucar e se arrebentar”. “Mas não pegou em mim, graças a Deus!”. Pegou sim, disse nossa amiga em comum. “Mas minha terapeuta de constelação disse que se eu me mantenho positiva não pega!”. Não conheço um que me convença que essa tal de constelação é boa, impressionante. “Pegou sim”, disse a amiga, “tanto pegou que você está pensando em parar de competir”. Minha teoria sobre o que pega e o que não pega: não é à toa que a praga é sempre uma frase afirmativa dita em voz alta. Praga que se preze é dita na cara da pessoa. Pega porque entra pelo ouvido, vira lembrança, é mastigada. Não teria pegado se:

-E aquela louca na competição, que ficou desejando que você se machucasse?

-Desejando que eu…? Ah, verdade. Doida. Tinha esquecido.

Pitacos sobre utopias, Lennon e Moro

Eu não faço a menor ideia de que idade tinha quando ouvi Imagine pela primeira vez. Lembro que, mesmo criança, quando ouvi a tradução, achei de uma ingenuidade tão grande. Tão impossível que alguém pudesse ter pensado e colocado aquilo em palavras. A segunda reação é pensar – e por que não, não seria realmente ótimo um mundo sem fronteiras, com amor, etc? Gosto muito de utopias. Talvez uma das coisas que me atraia na literatura de ficção científica é que, muitas delas, nada mais são do que utopias. Numa maneira que é difícil mensurar, elas tornam o mundo um lugar diferente, depois que são compartilhadas e fazem parte dos pensamentos das pessoas.

Acho que não vou surpreender ninguém ao dizer que tenho me alegrado com as denúncias do Intercept. A figura do Moro sempre me causou antipatia. Em meio a tudo o que está acontecendo, ouvi há poucos dias: os atos do dia 30 haviam sido um sucesso, Moro inspira a juventude e quem sabe ele se torne nosso próximo presidente. Olha, projetos assim, acho que nem a mãe dele mais. Eu sei que hoje qualquer fama é melhor do que nenhuma, mas o mais provável é que Moro seja abandonado pela história, como tantos antes dele.

Não tive vontade de tripudiar. O fim do Moro é o fim de uma utopia também. Está forte o schadenfreude. De herói, agora se pede cadeia. No fundo, os dois pedidos talvez sejam a mesma coisa, a tendência a personalizar papéis históricos. Depois dos magoados que declaram “PT nunca mais”, teremos os magoados pelo atual presidente, os magoados que um dia acreditaram em um super ministro. Joguemos nossos ideais mais acima do solo, vamos pensar em mundo, pessoas, bondade, ausência de motivos para matar ou morrer.

Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.