Modelar um livro

cuando la imaginacion no colabora

Se fosse pra falar bem tecnicamente, eu deveria dizer que modelava e não que esculpia. Esculpir é quando você apenas retira do material, como uma pedra ou madeira. Quando você lida com um material flexível – argila, massinha, etc.- que permita que se faça retiradas e acréscimos, o nome disso é modelagem. Esculpir é infinitamente mais difícil, exige um outro tipo de raciocínio e não permite erros. A pessoa precisa ver no bloco exatamente o que vai fazer. O que foi modelado pode ir pra um molde e aí adquirir resistência e ficar como uma pedra. Por isso que o esculpido comum é reto, carranca, sem detalhes, tende ao imóvel. O modelado permite mais ousadia. Mas isso quando pensamos em feirinha; quando a referência é o melhor, os clássicos, os mármores gregos, vemos textura de pele, veias pulsando, lágrimas.

Escrever é como modelar e nisso está o nosso grau supremo de nudez. Quando Gregório Duvivier lançou seu livro de poesias, ele disse que se sentia mais exposto do que qualquer outra coisa que tinha feito, muito mais do que vestir uma roupa verde apertada que lhe adivinhava as partes íntimas. Sou uma artista de feirinha expondo meu trabalho no mesmo mundo de Bernini. Se eu tive o tempo que quisesse e podia colocar na história o que quisesse, não tenho desculpas quando um leitor crítico me diz: isso daqui está confuso, mal escrito, que pieguice. Eu não tenho como dizer que foi sem querer, ou que já estava lá quando eu cheguei, naquela hora eu não estava olhando. Pior ainda se é um arquivo com 38 páginas exaustivamente trabalhadas durante mais de dois anos. Se toda minha imaginação, leitura e capacidade de revisão conseguiram isso, apenas isso, não há onde me esconder, de mim e dos outros. Essa é a nudez extrema de que o Gregório falou.

Há autores que se internam durante quinze dias e de lá saem com um livro, assim como há aqueles que passam dez anos com um manuscrito sebento debaixo do braço e não terminam nunca. Sou mais desse time. Também já li que o livro termina não quando a gente para de mexer e sim quando nos arrancam e nos impedem de modificar mais. As minhas 38 páginas são uma história triste, onde aproveitei para repensar muitas dores dos últimos anos. As partes mais verossímeis são as mais mentirosas, e vice-versa. Não faço a menor ideia se está bom, o que sei é que estou cansada. Nessa última revisão já foi difícil segurar o tom, porque estou em outra fase, feliz e a fim de pensar em coisas mais felizes. Como parecia que este dia não chegaria nunca, estou sem planos. Olho para listas de editoras, a dificuldade generalizada de publicar e me arrepio. Não vou me preocupar com isso agora. Terminar de escrever é ufa, férias!

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